Letra de RAP emociona e fala do amor e da relação entre pai e filho
Para quem segue e curte o trabalho do B-Boy e MC Lucas Lameu, conhecido como Churcks MC, ele lançou esse mês mais uma música e dessa vez emociona fazendo uma homenagem ao próprio filho Davi, de 4 anos, que vive no Macapá com a mãe.
Churcks mora em São Paulo e o tempo que passa com o filho considera algo sagrado. A música se chama “Jogador Caro”.
Nessa composição, fala do amor entre pai e filho, incentivando os homens a prestar mais atenção e valorizar essa relação. A produção foi uma parceria entre Churcks MC e Mix Matheus, sendo dirigido por por Will Aleixo.
São de Churcks MC as palavras: “Essa letra fala do amor, fala de sonhos, sonho de menino que quer ser jogador de futebol. Mostro que sempre estarei com ele, independente da distância e da circunstância nosso vínculo será eterno”.
O Portal Breaking World, que acompanha o trabalho de Lucas Lameu tem a honra de mostrar aos leitores o vídeo desse novo sucesso:
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
O nome que consta na certidão de nascimento é Alex José Gomes Eduardo, ele não poderia ser mais brasileiro. Nasceu numa família alegre de sambistas e capoeiristas em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.
Da infância guarda boas lembranças das feijoadas e dos churrascos em família. Criado pela avó, matriarca da família, o menino que não tinha tênis, mas que desde pequeno já mostrava habilidades diferentes e muito especiais, a famosa estrelinha no meio da testa que alguns carregam para esse mundo, filho de mestre de capoeira era bom nos movimentos do corpo e também no futebol, por isso recebeu o apelido de “Pelezinho”, mas seu destino não foi escrito num campo de futebol e nem jogando capoeira mas sim nas ruas.
As rodas que frequentava eram outras, as de Breaking, onde sua grandeza foi reconhecida e conquistada, sendo ponte para o resto do mundo.
Numa entrevista super especial e exclusiva ao Portal Breaking World, B-Boy Pelezinho, que esta semana se posicionou sobre o assunto “Breaking nas Olimpíadas”, contou sua história de vida, suas experiências, conquistas no Breaking, falou sobre a pandemia, sobre amigos que sente saudades, sobre o futuro e mostrou sua preocupação com a nova geração de B-Boys e B-Girls.
Hoje fora das competições, porém comprometido com o Breaking pelo resto da vida, ele sempre lembra: “O Breaking mudou a minha vida e pode mudar de muitas pessoas”.
Com vocês: Pelezinhoooooooo!
BW: Você é de São José do Rio Preto, correto? Queria que você nos contasse: como foi sua infância, sua adolescência e sua vida em família? Que lembranças boas guarda dessa época? Foi uma vida tranquila ou difícil?
Pelezinho: Sim, eu sou de São José do Rio Preto, nascido e criado lá. Eu venho de uma família de sambistas e capoeiristas, eu lembro que, principalmente nos finais de semana, nós tínhamos aquele momento familiar, que tinha música, almoço, churrasco, feijoada. Na infância era bem tranquilo! A minha avó é que era a matriarca da família, ela cuidava de todos! Eu fui criado pela minha avó. Mas a minha família sempre foi aquela família animada! Tenho boas recordações!
Oriundo de uma família de sambistas e capoeiristas, Pelezinho encontrou-se no Breaking e incorporou movimentos da Capoeira na dança, criando um estilo próprio que ganhou o mundo e influenciou gerações de B-Boys e B-Girls
BW: E na adolescência, como foi? Quando e como teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Pelezinho: Na adolescência, foi um pouquinho mais complicado. Eu saí de casa cedo, era muito jovem e eu conheci o Breaking por meio de um amigo, ele esta numa Cypher aqui no centro da cidade e, na verdade, eu achei que fosse uma roda de capoeira e quando cheguei vi que era uma roda de Breaking e eu fiquei encantado com aquilo. Logo depois, ele fez uma performance na minha escola e foi quando ele me convidou, disse que eu tinha uma facilidade para dançar, a minha família era do samba, então, achava que eu teria muita facilidade. E me fez um convite para treinar na casa dele, isso foi em 1995 ou 1996. E desde então, eu tenho uma história dentro do Breaking.
BW: Com que idade você saiu de São José do Rio Preto? O que sentiu quando chegou em São Paulo?
Pelezinho: Na verdade, eu só sai da casa da minha avó quando eu fui para São Paulo. Na primeira vez foi para um evento de dança, foi aquele choque com a cidade grande, de conhecer mais a galera da dança, porque eu só ficava no interior. Mas quando eu cheguei no evento achei incrível, quando eu vi todas as Crews de São Paulo reunidas. Me lembro que quando os caras chegavam, eles já chegavam batalhando e eu pensei: “puxa, vou voltar para casa e treinar muito, pois eu não quero mais que esses caras fiquem me zoando na dança não…”.
BW: Mas quando houve aquela decisão mesmo em relação ao Breaking? Tipo: “É isso que eu quero para a minha vida”? Porque afinal, você cresceu no meio do samba e da capoeira e também era bom no futebol, daí o nome Pelezinho. Mas quando ficou claro que era o Breaking?
Pelezinho: Em relação ao futebol, foram os amigos do meu bairro que me deram esse apelido na época da escola, porque eu não era o craque e tal (risos), mas jogava bem. E o Breaking eu peguei gosto pela dança, pelos treinos e era algo incrível que eu estava vivendo, eu gostava muito de praticar. As informações já estavam começando a chegar de alguns eventos, surgia alguns convites e comecei a gostar muito do que eu estava vivendo.
Pelezinho em uma de suas viagens para Lima, no Peru: a preocupação da avó virou orgulho em ver o neto saindo do interior de São Paulo e ganhando o mundo
BW: Você teve apoio da família quando decidiu se dedicar à dança?
Pelezinho: Naquela época, minha avó não tinha informação, ela estava meio preocupada de eu ficar pela rua, ficar dançando no coreto da cidade com uns caras… Então, eu não tive um apoio, demorou um tempo para que ela entendesse o que eu estava fazendo, mas natural, às vezes eram costumes daquela época, estamos falando de 1995, não existia informação direito como se tem hoje. Realmente ela se preocupou, achando que eu iria por um caminho errado, mau. Mas eu insisti muito e hoje ela fala: “Meu neto é um exemplo!”.
BW: Fale da relação da Capoeira e do Breaking na sua vida. Um completou o outro?
Pelezinho: A relação minha com a Capoeira foi dentro de casa, né? Meu tio era mestre de Capoeira, meu pai era mestre de Capoeira e eles tinham a academia deles e tal e eu fui influenciado, porque eu nasci naquele meio. No meio das músicas, no meio da Capoeira… E eu acredito que a Capoeira tem muita ligação com o Breaking, vários movimentos são semelhantes, tem musicalidade e quando eu comecei a dançar Breaking, realmente alguns movimentos do Breaking foi muito fácil de aprender graças à Capoeira. Eu tive bastante facilidade para aprender o Breaking, claro que teve alguns movimentos que tinham uma dificuldade a mais, porém, falando de equilíbrio, de firmeza, de movimentação de giro, para mim foi mais fácil, então, resumindo, eu fui influenciado pelo meu pai e pelo meu tio, eu só pratiquei a Capoeira por um determinado tempo, eu não peguei corda, não segui da forma que tinha que ser, mas eu tenho um baita respeito pela Capoeira e ela foi fundamental na minha adolescência.
BW: Houve pessoas na dança que o ensinaram e o ajudaram e que também foram inspiração e referência para você? Parece que teve um B-Boy que você admirava muito e tinha o desejo de um dia conhecê-lo pessoalmente. Quem era? E de que país ele é? Esse encontro já aconteceu?
Pelezinho: Ah, sim! Eu falo que no Breaking eu tive essas pessoas, primeiro o amigo que me convidou para praticar na casa dele, depois umas outras pessoas da época, que hoje já nem praticam mais, mas eu tenho, sim. Quando eu vi esse cara dançando, ele se chama B-Boy Remind, um dos fundadores da Style Elements Crew, da Califórnia. Quando esse cara apareceu para nós nos eventos nos Estados Unidos, o Battle of the Year, foi um dos primeiros vídeos que eu vi dele, eu vi o estilo dele dançando e eu acredito que ele mudou todo o cenário da dança, principalmente no Breaking pois ele introduziu um estilo mais carismático, envolvendo alguns passos de House e eu gostei muito disso. E eu tenho um sonho de conhecê-lo. Até hoje eu viajei o mundo e não tive a chance de conhecê-lo, conheci alguns membros da Crew dele, mas ainda não o conheci. E um dia ainda eu vou conhecê-lo, se Deus quiser!
O apelido foi dado pelos amigos do bairro onde morava: a intimidade com a ‘pelota’ foi deixada para trás quando o B-Boy descobriu o prazer de dançar
BW: Quando começou a participar e ganhar eventos de Breaking? Que eventos foram especiais para você, antes da Red Bull, é claro? Que conquistas foram memoráveis?
Pelezinho: Eu participei de muitos eventos na minha vida! Mas, um dos que eu mais gostei, foi um que era relacionado a esportes radicais, ele foi feito dentro do Ibirapuera e eu fui campeão do 1vs1, tiveram outros eventos que eu não ganhei, mas foram muito legais. Uma vez eu estava de jurado na Batalha Final e aí eu fiz uma batalha muito memorável. Estava eu e Chaveirinho, nós batalhamos por um bom tempo dentro do evento e aí, depois, nós acabamos fazendo vários trabalhos pelo Brasil, a gente era meio que inimigo antes do BC One, mas claro, o maior reconhecimento internacional foi o Red Bull BC One de 2005.
BW: Sim, falando do ano de 2005, como chegou na final mundial da Red Bull, que aconteceu na Alemanha? Como foi aquela sua primeira viagem para fora do país e o que sentiu naqueles minutos que teve que representar o Brasil numa terra tão distante e diferente?
Pelezinho: Quando eu fui convidado pela Red Bull BC One, eu não tinha noção do que poderia acontecer… Claro que alguns B-Boys que estavam ali eu já via pela fita k-7, pelos DVD´s que já estavam rolando, então, tinha B-Boys que eu admirava, o Lilou já estava despontando na Europa e quando eu cheguei na semifinal, pra mim foi uma batalha apenas, só que eu só fui entender a proporção do que aconteceu comigo quando eu retornei para o Brasil, depois da repercussão que teve e a vivência que eu tive lá na Alemanha, em 2005, foi incrível, pois era tudo novidade pra mim, então, foi a primeira vez que eu saí para fora do país, um evento como aquele, era a segunda edição dele, deu um ‘boom’ na dança… Então, pra mim, foi muita experiência, aqueles 5 dias que eu fiquei em Berlim foi só aprendizado, uma bagagem incrível para poder entender o que poderia vir logo em seguida. Na final mundial em 2006, no Brasil, eu já estava classificado nesse período, eu fui conhecido mundialmente mesmo eu não sendo o campeão, porque na época ainda existia primeiro, segundo, terceiro e quarto lugar. Esses quatro eram classificados automaticamente para o próximo ano, então pra mim foi incrível!
BW: Falando ainda de 2005, como foi batalhar com o B-Boy italiano Cico?
Pelezinho: Então, a minha primeira batalha foi com o Cico, um cara que estava se destacando muito pelos Power Moves que ele vinha fazendo e, principalmente, o Giro de Mão, ali foi uma grande pressão. Como foi a primeira batalha minha, num palco daquele, numa estrutura daquela, pra mim ali foi difícil de verdade! Depois que eu passei do Cico, fui passando… aí eu cheguei na semifinal com o Hong 10, ali eu já estava mais confortável, mas ao mesmo tempo, né [sic], tive alguns errinhos, acabei esquecendo um movimento. O Hong 10 ganhou de mim naquela noite e ele fez a final com o Lilou.
Pelezinho, Lilou, Menno, Hong 10, Wing e Lil Zoo durante turnê da Red Bull BC One All Stars em Meknes, Marros (Maio, 2018)
BW: O que sentiu e como foi a sensação de ter chegado tão perto de vencer o mundial? Fale da repercussão de ser o primeiro brasileiro a participar de uma final mundial? Isso fez diferença na sua vida?
Pelezinho: Eu, naquela época, na hora que eu perdi, eu falei: “Nossa! Puxa! Eu quase fui para a final!”. Então, deu aquela frustradinha no momento, mas na verdade, como tinha terceiro e quarto, eu nem pensei muito! Eu só fui pensar mais quando retornei ao Brasil, realmente passou um tempo até a galera descobrir, porque naquela época as informações não chegavam como hoje, que você pode ver ao vivo, demorava um tempinho para chegar as informações dos eventos. O You Tube estava começando, pelo menos para nós aqui do Brasil, aí depois que a galera descobriu, saiu o DVD, aí a repercussão foi uma loucura! A prova disso que até hoje as pessoas lembram, pessoas que não são da dança, pessoas que me encontram na rua, sempre tem um que lembra e fala que assistiu o DVD da Red Bull BC One.
BW: Pelezinho, depois você já viajou para muitos países pelo mundo. A ginga do B-Boy e da B-Girl do Brasil é um diferencial? O que os gringos esperam ver quando tem um B-Boy brasileiro ou uma B-Girl do Brasil numa competição?
Pelezinho: Desde quando os brasileiros começaram a competir no circuito europeu e, principalmente, nesse período de 2005 pra cá, é natural os gringos verem algo diferente, então, eu cheguei com um pouco mais de movimentos acrobáticos, misturando tudo com Power Move, enfim! Aí depois apareceu Neguin, então a galera sempre espera que o brasileiro chegue com um movimento diferente, mas o mais importante é cada dançarino ter o seu próprio estilo, a galera tem que pensar que o nosso passaporte é brasileiro, temos que mostrar o nosso cotidiano… É o que eu falo, a dança já foi criada pelos caras lá de fora, já tinham movimentos criados, é necessário cada um mostrar de onde vem, qual é o seu estilo de dança, a sua marca, então isso é importante.
BW: Como foi sua entrada na Tsunami All Stars e na Red Bull BC One All Stars? Fale da sua experiência dentro dessas Crews?
Pelezinho: Então, sobre a Tsunami All Stars, na verdade, nós a criamos porque na época teve um evento em São Paulo e nós queríamos batalhar e nesse período, Kokada estava sem Crew, eu estava em show com Marcelo D2, Katatau também estava praticamente sem Crew e aí nós participamos de um campeonato em São Paulo. E o Aranha era próximo de nós, porque quando o Chaveiro viajava, o Aranha cobria ou vice-versa, na época do show com Marcelo D2. Aí nós entramos em cinco no campeonato e ganhamos! E depois ficou aquela história que sempre que nós nos encontrávamos em São Paulo, dançávamos juntos e tal, aí o Katatau dançava com o Chaveiro em alguns lugares, o Aranha junto e aí nós só reunimos a Crew quando teve o convite para disputar o R16 na Coreia, quando chegou o convite dos coreanos que eram os ‘managers’ e aí foi quando o Neguin já estava próximo do Katatau, eu convidei o White e o Chuchu e montamos a Crew, aumentamos a Crew e aí participamos do R16, ficamos entre os finalistas e foi esse processo na criação da Tsunami. E o Red Bull BC One All Stars eu participei de duas turnês pela Red Bull Internacional para levar o que o Red Bull BC One estava fazendo, então, fizemos Austrália (2008), Índia (2009) e dali surgiu uma ideia, começamos a conversar com uma manager e aí demos a ideia de criar um time dentro da Red Bull e então criamos o Projeto Red Bull All Stars. Eu ajudei a criar esse projeto, eu, o Lilou e a manager e hoje está aí um dos melhores times que tem no mundo, onde estão os melhores dançarinos do mundo. Atualmente, eu não estou no time para competição, porque eu já sai do circuito de competição já tem um tempo, mas o time está aí, eu ajudei a criar e tenho muito orgulho disso.
Pelezinho e a Tsunami All Stars
BW: Falando um pouco mais sobre quem fazia parte da Tsunami, queria que você falasse de sua proximidade ao Kokada, que era alguém que, sem dúvida, escreveu uma história de muito valor no Breaking e tinha uma personalidade muito singular, deixando um enorme vazio quando partiu aos 35 anos, vítima de uma meningite, em 2012.
Pelezinho: Falar do Kokada pra mim é prazeroso! Porque nós vimemos juntos um período de conquistas, vou lembrar do Kokada lá atrás, quando eu fui para são Paulo a primeira vez, o Kokada já era já o grande B-Boy Kokada junto com o Careca da Detroit Breakers. O Kokada já fazia shows, ele era famoso pelo Brasil todo! E quando eu tive a oportunidade de conhecê-lo, de virar amigo dele e surgiu a história de montarmos a Tsunami, eu o chamava de “mentor”, porque era ele que cuidava das coisas da Crew e, assim, nós vivemos muitas coisas! Kokada teve a sorte de viajar também e de competir, mas no período que ele estava fazendo as coisas não existia muita informação, naquela época então, o momento que o cara estava não existia o contato do Brasil com o pessoal de fora, então, alguns gringos começaram a vir para o Brasil e justamente nesse momento nós estávamos juntos realizando sonhos, mesmo sendo de cidades diferentes. O Kokada foi incrível! O legado que ele deixou está ai e ninguém nunca vai esquecer! Ele era mesmo difícil, era um cara mais complicado (risos), ele tinha o jeitão dele, o gênio dele sempre foi forte, só que nós nos entendíamos muito bem quanto viveu conosco. Mas ele vive em nossos corações! E ele era uma baita de uma pessoa! Até hoje ele faz muita falta! E eu acredito que nos sonhos dele eu o ajudei também, tanto que a primeira viagem dele internacional para o evento R16 fomos eu, ele, Chaveiro, Katatau, Aranha, o Neguin e fizemos parte de uma geração, mas Kokada veio primeiro que nós e é isso! Muita saudade!
BW: Voltando um pouco no tempo, Pelezinho, numa outra entrevista você falou que quando começou a dançar não tinha um tênis… Décadas depois, você foi convidado para assinar um tênis junto com o Sandro Dias e, na ocasião, você falou que queria ver o Breaking e o Skate nas Olimpíadas de Paris 2024. Hoje, creio que você tenha vários tênis e o Breaking está nas Olimpíadas. Se sente realizado?
Pelezinho: Verdade, eu não tinha tênis para dançar, passei por essa dificuldade! Eram tempos bem diferentes! Mas quando eu recebi o convite do Sandro Dias para poder participar do projeto que ele estava iniciando, que ele queria ir pelo lado da cultura, da dança e ele me convidou para fazer a Colab, puxa, eu nunca imaginei isso na minha vida e aí foi quando eu falei numa entrevista que passou um filme na minha cabeça, quando ele me ligou para me convidar, ele era o dono da marca e eu aceitei na hora. Ele tinha um sócio, mas eu aceitei na hora! Hoje eu tenho um tênis assinado, modelo 1, já tem um projeto do modelo 2, já era para ter saído ano passado. Sim, graças a Deus hoje eu tenho muitos tênis (risos) e sobre as Olimpíadas é uma coisa que nós não imaginávamos que pudesse acontecer, ter o Breaking nas Olimpíadas. Eu sou a favor! Eu acho que está aí, já está concretizado, eu acredito que é mais uma porta se abrindo dentro do cenário da dança mundial, muitas pessoas terão oportunidades. Eu sei que aqui no Brasil têm acontecido muitas conversas, mas as coisas negativas devemos deixar para trás e pegar as coisas positivas das pessoas que têm o mesmo interesse, que isso possa trazer mais informação para quem não tem e isso vai agregar muito para a nova geração. Eu costumo falar para a galera que não é porque eu não tive lá atrás que eu deva embarreirar a nova geração, eu sou a favor mesmo do Breaking nas Olimpíadas e fiquei muito feliz!
Sandro Dias (Mineirinho) e Pelezinho lançam linha de tênis com sua assinatura: grande conquista para o menino que não tinha tênis para dançar
BW: Falando sobre as Olimpíadas e sobre toda a discussão em volta desse assunto, fale sobre suas impressões sobre esse elemento do Hip-Hop virar um esporte olímpico. Na sua opinião, estamos preparados para viver isso? Normalmente atletas olímpicos levam anos se preparando para uma participação numa Olimpíada. E nós, como estamos? Ao seu ver, temos B-Boys e B-Girls brasileiros prontos e bem preparados para brigar por uma medalha olímpica?
Pelezinho: Espero que com toda essa situação que está acontecendo, que o Brasil possa ter representante em 2024, porque já não teve nos Jogos da Juventude, espero que as pessoas se organizem, fazendo a sua parte e quem estiver no comando que faça de verdade, que pense no Breaking, na dança Breaking e não no próprio bolso. Pelo amor de Deus! Estamos em 2021, estamos dentro de uma pandemia, muitas coisas mudaram, muitas não serão mais a mesma coisa! Então, por favor! Precisamos fazer de verdade e principalmente para a nova geração! Olha, sendo bem sincero sobre o que vem acontecendo no Brasil, eu ando observando, não tenho participado de muitos bate-papos que estão tendo pelas redes sociais, só participei de duas que eu achei interessante e no meu olhar, o Brasil já está começando atrasado, porque eu já vou entrar: desde os Jogos da Juventude e dos simulados que tiveram na China e o Brasil não estava ali como convidado, então, estamos começando tarde, porque precisamos preparar, tem que ter mesmo toda uma estrutura, eu sei que as pessoas vão fazer do modo deles. Mas preparados na parte de dança: Sim! Temos B-Boys e B-Girls que possam disputar medalhas para o Brasil, mas tudo depende de toda a estrutura e logística que será montada aqui no Brasil, de como será, se vai convidar os B-Boys e as B-Girls direto ou se vai fazer etapas. Então, dando uma resumida, eu acho que já estamos atrás dos outros países: o Japão já tem o time pronto, a Holanda praticamente também, a França, EUA, a China… E o Brasil ainda não está! Quem estiver na frente tem que fazer de verdade! E resolver tudo o mais rápido possível, porque esse ano já descartamos praticamente, então, só sobra 2023 e 2024. Porque até o processo todo ser feito com a estrutura… Estou falando da minha visão como dançarino e como produtor e criador de eventos. Essa é a minha opinião!
Pelezinho: “Precisamos fazer de verdade e principalmente para a nova geração!”
BW: Verdade que você se posicionou sobre o assunto e agora faz parte da Confederação Brasileira de Breaking (CBRB). Você gostaria de falar sobre isso?
Pelezinho: Eu tive uma conversa com o Rooneyoyo e juntamente com o HP, estamos nos posicionando para participar junto com o Rooneyoyo, porque eu acho que juntos podemos conduzir coisas melhores para a nova geração.
BW: Falando sobre sua experiência como jurado… Hoje em dia, Pelezinho, você participa de muitos eventos. O que você gosta de ver numa batalha e o que você acha inaceitável na mesma?
Pelezinho: Sobre as batalhas, como jurado eu gosto de ver aqueles B-Boys e B-Girls que mostram movimentos, que sejam completos: musicalidade, criatividade, movimentos básicos. Mas eu gosto sempre daqueles dançarinos que percebemos aquela vontade de competir, que vai lá, que expressa a dança dele, que mostra movimentos surpreendentes sem errar, porque tem movimentos que jurado pega erros. Enfim, eu gosto dos completos no Breaking! Gosto de ver movimentos diferentes e interessantes para julgar, porque o nível da batalha fica avançado. E coisa que eu detesto ver é a má vontade de alguns dançarinos quando estão em competição, tem dançarino que parece que não está a fim… Aí eu pergunto: “Por que participou, então? Por que se inscreveu?” E outra coisa é essa história de questionar jurado, no passado já questionei também, só que eu acho desnecessário hoje em dia, de tanta informação que temos, nós precisamos respeitar os jurados que estão sentados ali, porque têm uma bagagem, então vamos respeitar. As pessoas precisam entender que numa competição estão sujeitos a serem julgados, então, vai lá, treina e seja o mais transparente possível para o jurado e mostra o porquê quer ser campeão!
BW: Com a pandemia e todo o isolamento necessário, o que você tem feito? O que acha das batalhas on-line? É uma tendência?
Pelezinho: Sobre a pandemia, eu acredito que foi um aprendizado para várias pessoas, estamos nela ainda! Nesse período eu tive que me reinventar, me readaptar a essa realidade que estamos vivendo. Sobre as batalhas on-line, claro que não é a mesma coisa, não é a mesma energia, de estar ali na Cypher, naquele calor todo, mas é um meio de manter a galera em atividade, em competição, até mesmo dando suporte para eles, porque teve alguns eventos on-line bacanas! Pela produção, pelo o que fizeram e acabou ajudando vários B-Boys e B-Girls, então, eu sei que isso pode continuar. Alguns eventos vão manter on-line e a pandemia é uma coisa muito triste, que ninguém imaginou que ia passar nesse plano de vida, mas ela é um aprendizado para muitas pessoas e quem não se adaptar, nem imagino o que vai fazer da vida.
Pelezinho acredita que a pandemia foi um período de aprendizado para várias pessoas: reinventar, readaptar, continuar…
BW: Você tem uma frase célebre: “O Breaking salvou a minha vida”. Comente a importância do Breaking como ferramenta de transformação.
Pelezinho: Sobre o que eu falo do Breaking ter mudado a minha vida, realmente ele mudou, ele fez uma transformação tremenda! Eu fiz coisas que eu jamais imaginei que eu iria fazer! Por meio da minha dança, eu viajei praticamente o mundo todo e sou uma pessoa conhecida através do Breaking. Financeiramente foi bom pra mim, consegui ter algumas coisas, mas o que eu mais falo é que nada disso teria acontecido se não fosse a minha vontade, a determinação que eu tive e toda a história que eu tenho há mais de 20 anos dentro do Breaking. Então, quem quer alguma coisa, principalmente dentro do Breaking, a galera nova, da nova geração, que vocês têm tudo, rápida informação, eventos, então aproveitem, porque na minha época que eu comecei a dançar nós não tínhamos nada disso! Aproveitem as oportunidades! Porque as poucas que eu tive aproveitei todas! E corri muito atrás! E foi nisso que o Breaking mudou a minha vida e pode mudar de outras pessoas também.
BW: Hoje quem é o Pelezinho? Você pensa em um dia parar de dançar?
Pelezinho: Pelezinho hoje é essa pessoa aí que a galera está vendo, que o Breaking deu uma visão de transformação e também de ajudar, porque o que venho fazendo hoje em dia é ajudar a cena, principalmente o Breaking. E sobre parar de dançar, eu não me vejo parando, como vou parar algo que amo fazer? É natural com o tempo desconectar algumas coisas, eu não me vejo competindo mais, mas eu adquiri uma bagagem que posso ajudar a nova geração aqui no Brasil.
BW: Para finalizar essa entrevista, que conselhos você daria para a nova geração de B-Boys e de B-Girls?
Pelezinho: Respeitem as oportunidades que vocês têm agora, se desejam competir, treinem para isso e aproveitem as oportunidades, que façam isso de verdade! Para aqueles que desejam uma vida de atleta, principalmente agora que têm vários eventos, Olimpíadas: se preparem! Nunca esqueçam que a nossa dança é uma cultura e se você desejar, pode viver como um dançarino atleta também, você pode se dedicar, você pode praticar, você pode se proteger. Se eu tivesse a mentalidade que eu tenho hoje, com certeza eu teria competido por mais tempo, eu também poderia ter evitado algumas lesões, porque é natural, somos seres humanos e não somos máquinas e, devido alguns anos repetindo movimentos, é natural ter um desgaste, só que de alguns anos para cá, já podemos proteger isso, então, vá atrás de uma pessoa que possa te dar uma educação física como dançarino, para que você possa ter sua vida como dançarino e, se desejar, como atleta também. Respeitem e aproveitem o que vocês têm hoje, pois tudo está mais fácil!
Fotos: Arquivo Pessoal / Red Bull Content Pool (Fabio Piva, Yassine Alaoui, Dimitri Crusz) Vídeos gentilmente cedidos pela Red Bull
Pelezinho comemora seus 20 anos de dança
B-Boys Pelezinho, Lil G e Kokada no projeto "B-Boys In Motion" - 2011
Pelezinho: #RespeitaOBreaking
Pelezinho além de B-Boy é MC, jurado e produtor
Pelezinho e o tênis com sua assinatura
Neguin e Pelezinho: geração de vencedores
Pelezinho, Lilou e Neguin
Red Bull BC One All Stars
"Mister" Kokada, Lilou e Pelezinho
Tsunami All Stars
Pelezinho
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“Naquela época tudo era diferente, as Crews eram algo que, se mexesse com um integrante, era como mexer com enxame de abelhas: todos iam para cima. E a Jabaquara Breakers tinha fome e sede de racha…” (B-Boy Tripa – Jabaquara Breakers)
Dançar Breaking? Aprender seus fundamentos? Hoje, numa simples busca pela internet, numa passagem rápida nos vídeos do YouTube ao alcance de qualquer pessoa e seus dedos, é possível por meio de tutoriais de inúmeros B-Boys espalhados pelo mundo aprender e aperfeiçoar vários movimentos. Não conseguiu pegar um movimento? É só retroceder o vídeo e começar do zero. Mas nem sempre foi assim, conta o B-Boy Tripa, da pioneira Jabaquara Breakers: “Éramos bem jovens, porém muito ligados à música, costumávamos andar com pessoas mais velhas que nos encaminharam nos bailinhos dos vizinhos e nos trouxeram a ver vídeos e filmes e um programa que chamava Realce, se não estou enganado e num desses vídeos, vimos uma “dança diferente, tipo que mexe com a gente”, um clip do Michael Jackson fazendo aqueles passos tipo robô, era algo surpreendente… foi quando vimos o filme “Beat Street”, aqueles caras fazendo aqueles passos com alegria e suavidade e ao mesmo tempo com muita raiva, com vontade de vencer… nossa, relatar isso me faz viajar no tempo, onde entrava na primeira seção do cinema e só saía na última (naquela época isso era possível) vendo e revendo o filme “Beat Street” e tentando fazer alguns passos no corredor, o “Breaking” era uma febre. No começo, nem sabíamos o que era B-Boy, éramos mesmo conhecidos como os meninos que dançam Breaking ou dança Robozinho, esta evolução e conhecimento veio anos depois e o nossos grandes desafios era mesmo dançar e sermos melhores no que fazíamos, mostrando que o Breaking e a Cultura Hip-Hop nada tinha a ver com uma febre, mas com uma cultura cada dia mais sólida…”.
O Portal Breaking World, mesmo nesses tempos difíceis de pandemia não pára e conversar com a Crew Jabaquara Breakers foi uma viagem ao túnel do tempo, confira tudo que rolou na entrevista:
BW: Queria que vocês nos contassem quando e como surgiu a Crew Jabaquara Breakers? Que tempos eram? Como a sociedade via a Cultura Hip-Hop e seus elementos? Vocês sofreram muito preconceito?
Jabaquara Breakers: Acreditamos que a Jabaquara Breakers surgiu como todas as outras Crews; éramos bem jovens, porém, muito ligados à música, costumávamos andar com pessoas mais velhas que nos encaminharam nos bailinhos dos vizinhos e nos trouxeram a ver vídeos e filmes e um programa que chamava Realce, se não estou enganado, e num desses vídeos vimos uma “dança diferente, tipo que mexe com a gente”, um clip do Michael Jackson fazendo aqueles passos tipo robô, era algo surpreendente… foi quando vimos o filme “Beat Street”, aqueles caras fazendo aqueles passos com alegria e suavidade e, ao mesmo tempo, com muita raiva, com vontade de vencer… nossa, relatar isso me faz viajar no tempo, onde entrava na primeira seção do cinema e só saia na última (naquela época isso era possível) vendo e revendo o filme “Beat Street” e tentando fazer alguns passos no corredor. Fantástico, isso 83, 84 e como todas as Crews tínhamos o nome americanizado de Flash Break, neste momento não sabíamos que o “Breaking” fazia parte de uma Cultura chamada Hip-Hop, somente mais para frente, depois de muitas pesquisas, vimos a ter esta informação. E também não tivemos preconceito ainda nesta época, pois o “Breaking” era uma febre. Tanto que, em 1984, teve o primeiro festival de “Breaking” na Praça da Sé, onde participamos e conhecemos uma pessoa que gostou tanto da nossa dança que nos fez um convite para fazermos shows no Interior de São Paulo e Sul de Minas, viajamos por diversas cidades como Bauru, Agudos, Machado, Poços de Caldas, etc., éramos uma celebridade, porém muito pequenos. E, sim, depois que a febre do “Breaking” passou, tivemos que suportar muitos preconceitos, mas superamos todos com muita sabedoria.
Foto histórica dos Encontros da São Bento nos anos 1980, o “templo do Hip-Hop brasileiro”
BW: Onde vocês se encontravam, se reuniam para dançar e treinar?
Jabaquara Breakers: Por muitos anos, treinamos na estação Conceição do Metrô, tínhamos também um local que era nosso QG, que carinhosamente chamávamos de “Byongo”, neste local estiveram gente de todo o Brasil e do exterior também, até um b-boy da Rock Steady Crew esteve lá, passou o famoso e conhecido mundialmente o grafiteiro Eduardo “Kobra”, que era um integrante da Jabaquara Breakers e treinamos também no Ibirapuera, no final dos anos 80, começo dos anos 90, tínhamos também um espaço nos domingos no Centro Cultura do Jabaquara, onde existe até hoje o “Sítio da Ressaca”, conhecido como acervo afro-brasileiro, administramos muitas aulas de Graffiti, Breaking, Discotecagem e Posicionamento de Palco, trouxemos muitos artistas neste espaço, como Dona Ivone Lara, grupos de Rap como Filosofia de Rua, Black Panters, entre outros, muitos subiram no palco pela primeira vez aqui. E realizamos a primeira festa em São Paulo, direcionada exclusivamente para a Cultura Hip-Hop, para B-Boys e B-Girls mesmo, onde só se tocou músicas para se dançar Breaking, na Sede do Acadêmico.
BW: Quem foi o fundador do grupo? Como era ser B-Boy naqueles dias? Quais eram os grandes desafios?
Jabaquara Breakers: Tivemos como fundador o Paulo (Baleia), Moisés (Guetho), o Rogério (Tripa), Vandervam (Nego), Reginaldo (Neno) e o famoso DJ Maguila (R.I.P.), com o nome de “Flash Break”, porém, no começo dos anos 90 sentimos a necessidade de trocar o nome por um nome nacional, por ter muitos B-Boys vindos de outros estados e regiões e, nesta transição, tivemos como referência para decidir o nome o “Quilombo do Jabaquara”, que existiu no “Sítio da Ressaca”, já que estávamos estudando muito para realizarmos nossas palestras nas escolas, casa de cultura, éramos os únicos na época a fazer este trabalho e somaram aos nomes já mencionados o do Júlio (PEX) e do Eduardo (DJ Edu), para se tornar a Jabaquara Breakers conhecida hoje. No começo, nem sabíamos o que era B-Boy, éramos mesmo conhecidos como os meninos que dançam Breaking ou dançam Robozinho, esta evolução e conhecimento veio anos depois e o nossos grandes desafios eram mesmo dançar e ser melhores no que fazíamos.
BW: Como se aprendia a dançar Breaking na época de vocês? Vocês recebiam influências do que acontecia fora do país? Como as informações chegavam?
Jabaquara Breakers: Como já disse anteriormente, não tínhamos nenhum conhecimento, a não ser o que víamos na TV ou vídeos, principalmente alguns que meu patrão naquela época trazia dos EUA para mim, então, pegávamos o vídeo-cassete, instalávamos na garagem da minha casa e apertávamos o play (risos), mas nunca dava para pegar na primeira vez, então, voltávamos a fita por diversas vezes, até pegar o passo pretendido. Era bem difícil, não havia internet, as informações eram de B-Boy para B-Boy mesmo e acabávamos machucando muito por treinar, às vezes, do jeito errado. As Crews residentes da São Bento, Back Spin, Street Warriors, Crazy Crew e Nação Zulu, tinham mais informações e, por isso, eram bem respeitados, mas estavam no estúdio gravando o LP “Cultura de Rua” onde tivemos, juntos com a Fantastic Force, de se envolver mais na Estação São Bento e, por sinal, um dos discos mais importantes direcionados ao Hip-Hop no Brasil.
A Crew, que já chegou a ter 70 componentes, além do Breaking desenvolve vários projetos sociais
BW: Havia muita rivalidade entre as Crews brasileiras? Jabaquara Breakers, Street Warrios, Back Spin e muitas outras. Como era essa relação entre as Crews? Existia aquela Crew que era a grande rival de vocês?
Jabaquara Breakers: Sim, existia muita rivalidade, sim, todas queriam sair vencedoras de suas batalhas e a Jabaquara Breakers não era diferente, porém, havia muito respeito também e desde que começamos a fazer nossos trabalhos de palestras, éramos visto com outros olhos e muitas das Crews vieram a nos ver como referência nacional e acho que não tinha uma Crew em especial como rival, mas sim, tivemos momentos únicos. Acho que um racha com a Red Crazy Crew de Santos, que até nas lentas não paramos de dançar e outra foi no Palmeiras, com um público de 10 mil pessoas, onde chegamos todos de agasalho e fomos invadindo a roda e batalhamos com todos ali presentes, terminando o racha em cima do palco, foi épico! (Ficou parecendo o grande racha do filme “Beat Street”). E, também, não posso deixar de dizer sobre o famoso Club House, em Santo André, pois ali sempre que possível, nas horas vagas, estávamos lá, pois sabíamos que além das músicas boas ali tocadas, teria algum “Break” para racharmos, lembrando que nestas épocas diferenciamos os B-Boys, hoje popularmente ditos como dançarinos de Breaking aéreo ou Breaking de chão.
BW: Onde aconteciam as batalhas de Breaking? E o que se mostrava nas rodas? Que movimentos eram mais comuns naquela época e mostravam conhecimento e habilidade de um B-Boy?
Jabaquara Breakers: Naquela época tudo era diferente, as Crews eram algo que, se mexesse com um integrante, era como mexer com enxame de abelhas: todos iam para cima! E a Jabaquara Breakers tinha fome e sede de racha, pra nós não tinha lugar, qualquer lugar era lugar (risos) e por ser diferente dos dias de hoje, começando pelos abrigos, tínhamos no grupo especialistas em cada movimento, era desta forma as batalhas, então, a gente já se conhecia e sabia os movimentos de cada um, então os rachas acabavam, tipo, quem fazia mais voltas nos movimentos, tipo, nas tartarugas, moinhos de vento e giros de cabeça, bem diferente dos Power Move dos dias de hoje, eram poucos dançarinos que faziam todos os movimentos com perfeição.
BW: Nos fale da formação do Jabaquara Breakers. São os mesmo B-Boys desde a década de 80? Ou já tiveram várias gerações? Fale também das ações sociais que já tiveram envolvidos?
Jabaquara Breakers: Não tem como falar da formação da Jabaquara Breakers, pois já chegamos a ter com palestrantes, grafiteiros, MC’s, DJ’s, B-Boys e B-Girls mais de 70 integrantes e, costumamos dizer, uma vez Jabaquara sempre será um Jabaquara, uma família verdadeiramente, passaram diversas pessoas, onde cada um foi seguindo seus caminhos, mas somos orgulhosos de saber que passaram aqui no grupo grafiteiros como Kobra, o Cyracks, ator como Da Antiga, que fez o filme “Profissão MC”, entre muitos outros e temos até hoje contatos e respeito um pelo outro e sempre nos ajudando. Agora, falar de obras sociais, isto é impossível, pois fazemos até hoje, basta saber de uma necessidade de alguém que já estamos lá para ajudar de alguma forma, temos integrantes que frequentam a Cracolândia, mesmo nos dias de hoje, com pandemia e tudo; nos anos 90, fizemos tanto show de graça, por simplesmente sabermos que era para um orfanato ou um asilo, era e é o nosso prazer fazer o social, está em nosso sangue, na nossa alma.
O grafiteiro Eduardo “Kobra” (ao centro, de chapéu) é membro da Crew e tem sua arte reconhecida mundialmente
BW: No Jabaquara Breakers tinham também B-Girls?
Jabaquara Breakers: Sempre tivemos B-Girls no grupo e ainda as tínhamos como grande representantes das mulheres, dávamos toda força, física e moral para elas. Fomos os únicos a se apresentar no Festival da São Bento com uma Crew só de mulheres, as Jabaquara Breakers Girls e isso incentivou várias meninas a dançarem, também formamos outros grupos de garotas em outras regiões. Saíram até na revista Carícia e várias reportagens de jornais e, até hoje, são chamadas para falarem destas proezas e como é ser mulher no mundo do Hip-Hop.
BW: Quem são hoje os Jabaquara Breakers? Qual a atual formação?
Jabaquara Breakers: A Jabaquara Breakers hoje praticamente são as mesmas pessoas, porém, cada um leva sua vida normalmente, temos muitos espalhados por todo o Brasil e pelo mundo, como disse anteriormente, temos B-Boys do Ceará, Minas, Goiânia, por isso fica meio difícil de unirmos todos como antigamente, porém, cada um representante, faz o que pode e da maneira que pode, principalmente pelo social, numa palavra de conforto ou numa cesta básica, por exemplo. Somos uma família unida e pronta para ajudar.
BW: De 1983 aos dias de hoje, muita coisa mudou no Breaking? Quais as mudanças que vocês reconhecem como positivas e quais acham que foram negativas?
Jabaquara Breakers: Na vida, tudo muda… quando você nasce, não sabe andar, não sabe falar, etc., e, aos poucos, você começa a dar as primeiras engatinhadas, as primeiras passadas e o Breaking é a mesma coisa, no começo apenas dançava Breaking, depois, descobrimos que era uma dança que fazia parte da Cultura Hip-Hop, tivemos que estudar e muito para saber e ter o conhecimento do que era esta cultura, porém, não tínhamos meios para isso, informações eram precárias, batalhamos muito para obter tal conhecimento, não tinha internet, não tínhamos dinheiro, dançávamos na rua para arrecadar alguns trocados para comprar pilhas para o Box e filmes, para tirar algumas fotos, tanto que nem isso era tão importante para nós naquela época, pois mal tínhamos condições de ter uma câmera fotográfica e, quando tínhamos, teria que arrecadar mais dinheiro para revelar o filme. Os dias de hoje são outras realidades, temos internet, celulares que fazem vídeos e fotos, muito melhores do que no passado e, se não ficar boa, tira de novo, não custa nada… não vou enumerar as mudanças, mas acredito eu que a maior mudança eram as dificuldades que tínhamos em conseguir as coisas, de ter conhecimento e, hoje, é tudo mais simples, mais prático, está tudo aí pronto, vimos sim evolução na dança, nas técnicas, etc., mas, no geral, a dificuldade de antes era conseguir conhecimento. E as negativas, acho que é está facilidade de conseguir as fotos, informações disso ou daquilo, tudo se acha na internet, lembro que para eu aprender a fazer o moinho de vento, um B-Boy na época me disse, mostrando seus ferimentos no ombro e lombar: “quando você estiver com estes hematomas, você volta aqui para falar comigo!”. Olha só a situação e hoje basta digitar, não precisa nem ser no computador, no celular mesmo, em qualquer lugar e perguntar como fazer o moinho de vento. Pronto! Vai estar lá toda informação técnica, com câmera lenta e posições. Fácil não? E isso deixa muitos B-Boys preguiçosos em procurar e ter maior conhecimento de como surgiu isso ou aquilo.
Jabaquara Breakers participaram de muitos eventos Brasil afora no auge da “febre do Break” dos anos 80/90
BW: Vocês também frequentavam a São Bento? O que significa aquele local para vocês?
Jabaquara Breakers: Sim, não só frequentamos como também por algum tempo fomos responsáveis por ela, com uma autorização por escrito da diretoria do Metrô, pois sempre fomos recebidos ali como invasores e, por muitas vezes, fomos expulsos do local, os B-Boys não eram bem vindos ali. Ajudamos na realização do Festival São Bento, juntamente com as outras Crews. A São Bento é como o quintal de minha casa, a São Bento não era naqueles tempos um mar de rosas, como é nos dias de hoje, por ali vimos acontecer muitas coisas e evitamos muitas coisas também, tiveram muitas discussões, muitas brigas e até separação, onde veio a nascer a Praça Roosevelt, que foi frequentada pela Jabaquara Breakers também, mas a São Bento é um local sagrado, pois todos queriam conhecer e pisar naquele lugar, seja do Brasil ou do exterior, ali era e é mágico, é contagiante, pois ali trocávamos ideias, conhecimento, informações, mas tinha um detalhe: somente era trocado se alguém tivesse algo a nos oferecer também, senão ficava guardado à sete chaves, éramos infantis e egoístas (risos), isso acontecia com todo mundo, ninguém dava sem receber algo em troca. Mas, com o tempo, isso foi mudando e as nossas mentes foram se abrindo, transformando, e começamos a entender que teríamos que dividir e passar conhecimento, pois isso era a Cultura Hip-Hop que todos ali estavam envolvidos, por diversas vezes ficamos ali, até altas horas da noite, trocando ideias, era algo que só quem viveu sabe do que eu estou falando. A São Bento foi um grande aprendizado nas nossas vidas, como pessoas mesmo, pois íamos bem pequenos se divertir como uma criança vai a um parque infantil e, ao passar dos anos, descobrimos que ali era uma escola, uma faculdade de conhecimento e vendo hoje, olhando para trás, descobrimos que somos todos ali uma grande família e a São Bento os nossos pais.
BW: Como vocês veem o Breaking de hoje em dia? Os grandes eventos? Os movimentos que são feitos hoje, tanto por B-Boys como por B-Girls espalhados pelo mundo? O que acham da nova geração, que cada dia chega mais cedo nas rodas?
Jabaquara Breakers: Nossa, hoje tem movimentos que nem no sonho achávamos que era possível realizar, mas é a evolução, é a modernidade, existe no mercado inúmeros eventos, alguns feitos por pessoas aproveitadoras e outros não, porém, devemos nos lembrar de onde veio o Breaking, qual foi sua origem e no que ele faz parte. Nós viemos do começo, somos um “Old School”, as nossas origens sempre prevalece, sempre dançamos por respeito de gostar e amar a Cultura Hip-Hop e hoje muitos nem conhecem a Cultura Hip-Hop, dançam por três, quatro, cinco anos apenas para ganhar dinheiro e não por amor! É importante, sim, começar a dançar cedo, sua evolução acontece mais cedo, é como uma criança recém-nascida que antigamente levava uma semana ou duas para abrir os olhos, hoje eles já nascem de olhos abertos, quase falando e o Breaking também é assim, já começam cedo a despertar para a dança e sobre as B-Girls sempre fomos a favor delas dançarem, elas são capazes de fazer os mesmos movimentos dos homens.
BW: Em 2019, o Comitê Olímpico internacional recomendou a inclusão do Breaking nas Olimpíadas de Paris em 2024. Então, começou uma discussão sobre o assunto por aqueles que são contra, alegando que poderia perder a essência da cultura e por outros, na maioria mais jovens, que veem como algo positivo, sendo mais uma grande oportunidade de mostrar a cultura das ruas para a sociedade e mudar conceitos errados. O que vocês pensam sobre isso?
Jabaquara Breakers: A modernidade existe e está aí, tudo evolui, os verdadeiros B-Boys da Old School sempre vão levar na sua mente de onde veio e porque existem as batalhas, lembrando que veio dos guetos dos EUA, das rivalidades das gangues, já os mais jovens não estão interessados em ter este conhecimento e vão olhar mais para o lado financeiro, esportivo e de fama, pouco provável que irão se lembrar que o Breaking faz parte de uma cultura linda chamada Hip-Hop. Não generalizando.
A Crew participou de várias matérias em veículos impressos e redes de televisão
BW: O Breaking continua salvando vidas? O que o Breaking significa na vida de vocês?
Jabaquara Breakers: Sim, com certeza, não só o Breaking, mas a Cultura Hip-Hop salva vidas ou, pelo menos, muda! Tenho vários exemplos sobre isso, tanto que minha vida foi mudada, que estou hoje eu B-Boy Tripa aqui, participando desta entrevista… Olha meu amigo, irmão Kobra, começou na Jabaquara Breakers e hoje é conhecido mundialmente, olha Os Gêmeos, Racionais MC’s, Doctor’s MC’s, poderia citar vários nomes, vários B-Boys que dançam pelo mundo representando o Brasil, como Pelezinho, Katatau, entre muitos outros, a sua filha que é uma B-Girl nos representando também, o que seria dela se não fosse uma B-Girl? O espaço está aí, basta ter inteligência e vontade de vencer que algo você poderá produzir na Cultura Hip-Hop, seja grafitando, seja rimando, seja escrevendo, seja dançando, fotografando, discotecando ou produzindo…
BW: Como vocês imaginam que será o futuro da Cultura Hip-Hop e de seus elementos?
Jabaquara Breakers: O que imaginamos é que um dia a Cultura Hip-Hop seja vista como uma cultura que veio para mudar a vida de muita gente, pois nos dias atuais muita gente não acredita na beleza desta cultura, porém, sabemos que ela é responsável por muitos não estarem nas ruas, roubando ou algo parecido, ela abriu as portas de muitos empregos, hoje dentro da cultura temos pessoas que trabalham com roupas, com vídeo e fotografia, são escritores, artistas plásticos, produtores musicais, grafiteiros, rappers, MC’s, B-Boys e B-Girls! Ufa! É tanta coisa! Onde estaria todo este pessoal empregado? O que fariam de suas vidas?
BW: Todos do Jabaquara Breakers ainda dançam? Vocês pensam em parar?
Jabaquara Breakers: Na verdade, hoje não dançamos mais, a grande maioria está acima dos 50 anos (risos), o que fazemos é se divertir com o que conseguimos fazer nos dias de hoje e não pretendemos parar, pois sempre estamos aprendendo algo e também passando nossos conhecimentos com nossa vivência.
BW: Cite, por favor, 10 nomes que na opinião de vocês fizeram toda a diferença na história do Breaking brasileiro?
Jabaquara Breakers: Nossa! Aí fica complicado, pois podemos deixar alguém de importância fora e não queremos ser injustos, podemos dizer que tiveram vários B-Boys em anos e em momentos e tempos diferentes, de muita importância e por todo o Brasil.
BW: Que mensagem vocês deixariam para a nova geração de B-Boys e de B-Girls?
JB: Estudem e lutem pelos seus ideais e seus objetivos e seus sonhos serão realizados. Não posso deixar de mencionar que nos anos 90 ganhamos todos os prêmios possíveis, tivemos o privilégio de dançar em quase todas as redes de televisão, termos conhecido a Rock Stead Crew, que foi nossa grande inspiração e sermos inspiração para muitos, tivemos umas das nossas letras de música publicadas no primeiro livro do gênero “ABC RAP”, fomos os primeiros grupos de rua a participar do ENDA, temos o orgulho de termos sido reconhecidos como a verdadeira escola do Hip-Hop.
Fotos: Arquivo Pessoal
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
Conhecer o passado e respeitar quem o escreveu é um dever e uma sábia decisão de quem pretende viver o verdadeiro Hip-Hop ou falar em nome dele.
A História dessa cultura não é uma lista de nomes, datas e feitos de pessoas antigas, mas sim um registro de homens e mulheres desbravadores que abriram caminhos, criaram pontes onde não existiam, enfrentaram preconceitos, quebraram tabus, resistiram a tudo e a todos, erraram e acertaram para que hoje tudo fosse diferente.
Como certa vez disse Afrika Bambaataa: “O Hip-Hop é conhecimento, cultura, entendimento, autoconhecimento, conhecimento sobre os outros”.
O Portal Breaking World acredita na verdade dessas palavras e teve a honra de conversar essa semana com “O Guardião” da história do Hip-Hop brasileiro.
Queridos leitores, convidamos a todos para esse incrível bate-papo com Rooneyoyo, onde falamos do passado, do presente e do futuro.
Está pronto para essa conversa? Então senta que lá vem história…
BW: Rooney, queria que você falasse um pouco da sua infância, da adolescência e como era seu relacionamento com sua família. Quem era o Rooney nessa época, o que pensava e sonhava?
Rooneyoyo: Eu nasci debaixo da ponte, no Bixiga (risos), como brinca minha mãe até hoje, porque foi demolido e virou um elevado naquela região. Costumava sair cedo de casa e só voltava à noite, jogava bola, andava de Skate, bicicleta, patinete, pula-pula, corda, brincava com o que meus amigos emprestavam. Alguns brinquedos eram feitos por mim, tais como: carrinhos de rolimã, que eram construídos com restos de madeira que pedia nas oficinas e que achava em terrenos baldios; pipas, com papel de pão e vareta de bambu que encontrava na rua; taco, feito de madeira de construção; bolinhas de gude, feito à mão lixado de epóxi, além disso, fazia rolos e trocava por figurinhas para poder bater. Na adolescência, para levantar um dinheiro, fazia pulseirinhas artesanais com nomes personalizados de linha de tricô, pranchinhas de surfe como pingente de acrílico, que achava na rua, aprendi olhando os artesãos de rua. Mas, a minha paixão era jogar botão de mesa que fazia com tampa de relógio, fui campeão paulista quando tinha uns 14 anos. Nessa época, ia para o centro da cidade a pé, entrava nos condomínios comerciais perguntando se havia relojoaria para pedir vidro de relógio riscado e adesivo da empresa, que também colecionava, com o troco do pão juntava e comprava adesivo dos times e números à base de água e colava nestas tampas e pintava com tinta de guache escolar ou esmalte, escondido da minha mãe. Aos 16, conheci o Break e também o ioiô, numa promoção de refrigerante e treinava mesmo fora da temporada, quando chegou a promoção, em 1998, comecei a participar das competições de bairro e intimava os campeões da época, até que um deles me deu “uma lavada”. A partir daí, comecei a treinar mais e um colombiano me ensinou uns truques, fui convidado a participar de uma competição interna no fim da promoção e ganhei o título de “Internacional Champion Yo-Yo” da Russel Company, fui convidado a viajar com a Cia. de Yo-Yo, ou seja, minha infância dura até hoje (risos). Nesta época, recebi vários apelidos: Ninaco, Tanajura, Pé na Cova, Índio, Tijelinha, Tripa, Zé ou Zé Ricardo mesmo, cada lugar que frequentava tinha um apelido, pois não ficava em casa, vivia procurando algo para fazer e andava demais e a cada período eu tinha um ciclo de amizade para poder usufruir do que eles tinham para oferecer. Sobre pensamentos e sonhos ao decorrer da entrevista vocês vão conhecer.
Uma vida difícil e a inquietude curiosa o trouxeram naturalmente para a Cultura Hip-Hop.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Rooneyoyo: Em 1983, vieram uns promotores do SENAC na minha escola, oferecendo apostilas para vender e quem comprasse ganhava a inscrição do curso de datilografia gratuita, minha mãe meio que me obrigou a fazer o curso e eu tinha que ir a pé para o centro, na Rua 24 de Maio, fazer o tal curso depois da escola, entre agosto e dezembro, muitas vezes antes de começar o curso tinha umas rodas no centro. Era muito comum na época, com capoeiristas, puladores de círculo de facas, jogadores de bolinha da sorte. Em meados de outubro vi uma roda diferente, eram os dançarinos de “Breakdance”, vi um monte de meninos dançando ao som de um rádio gravador (boombox) pequeno, a mesma dança que assistia nos programas de TV e dos videoclipes, pois raramente passava algo interessante para mim, o encantamento foi imediato, fazia curso 2 vezes por semana, saía da escola e corria para o centro, para ver se encontrava esta roda de novo, para tentar aprender algo, enturmei-me e vi a Gênesis do que hoje chamamos de Hip-Hop se formar em São Paulo, de lá para cá tudo virou História e hoje profissão.
BW: Quem eram suas referências? Que elementos fizeram toda a diferença na sua vida? Com quem você aprendeu?
Rooneyoyo: Minhas referências eram os dançarinos da Rua 24 de Maio com a Rua Dom José de Barros, mas não sabia o nome de quase ninguém, até começar a ouvir quando um chamava o outro pelo apelido, eram alguns artistas dos videoclipes da época de 1983 e quando vieram os filmes em 1984, aí perdi a linha mesmo. Na época, não tínhamos conhecimento dos elementos artísticos que conhecemos. A “Febre Breakdance” tomou conta de mim, após a chegada dos filmes no Brasil, achava que tinha que fazer tudo para ser reconhecido dentro da Cultura, comecei dançando, depois fazia uns desenhos e pintava em roupas e vez ou outra um traço no muro devido a falta de grana para tintas, mais tarde, conheci o Rap, pouco antes de ir para a São Bento, em 1985 e, na sequência, tive a oportunidade de conhecer os equipamentos de DJ. Lembrando que estive presente na 24 de Maio, no aniversário de São Paulo na Praça da Sé, em 1984, no “Festival de Break”. Ver os caras que eram meus amigos indo para a novela “Partido Alto”, da TV Globo, assistir os filmes “Breakin” e “Beat Street” no cinema e, em seguida, frequentar o Boulevard da São Bento, isso foi uma “lobotomia” (risos). O aprender foi natural com todos que convivi, mas o principal era que tínhamos que ter uma Gangue, a minha era a AclimaçãoBreaker´s, com Hamilton, Eu (Ninaco), o Marcelo Gueta e seu irmão mais novo Guetinha, treinávamos no parque da Aclimação, no centro, me aproximei do Andrezinho (ALAM Beat), que era amigo do Mancão do Cambuci, treinávamos no meio da semana, durante a noite. Logo, nos encontramos enquanto irmãos e viramos da Família Street Warriors. Nesta época, conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário, além disso, com frequência o ALAM Beat me chamava para treinar na Pompéia, na casa de uns amigos que tinham uma garagem de azulejo, com Faustinho (Falecido) e Gula, a gente frequentava os bailes de matinê aos domingos, mas raramente entrava, pois não tínhamos grana para frequentar, às vezes entrava escondido, cerca de meia hora antes de fechar, assim conheci o Jack (MCJack) no clube A Ponta, no Tatuapé e revezava os treinos de domingo, quando ia ao Parque do Ibirapuera, lá treinava uma gangue de manhã em um período e no outro período vinham outras gangues diversas, ou seja, ficava de manhã até o fim da tarde, para aproveitar, sem comer e a pé (risos).
Amizade de longa data: “conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário”.
BW: Outra paixão foi o ioiô, que deu significado ao seu nome, Rooneyoyo. Fale um pouco dessa outra paixão.
Rooneyoyo: O nome “Rooneyoyo” tem vários significados, bora lá: Rooney foi o Heliobranco que me apelidou, na época das visitas à casa do DJ Ninja com a Rádio NWBass, para poder mixar num racha, simulávamos uma rádio fictícia e eu gostava muito de Gangsta Rap e meu apelido no disco Radicais do Peso ficou “Gang$taRooney”, o nome foi inspirado no Filme “Action Jackson” um Blacksploitation (filmes feitos por e para negros americanos) onde tinha um personagem tipo Robin Hood Urbano do Gueto, o porquê fica por conta da imaginação do leitor… (nada a declarar); Rooneyoyo foi a junção do nome porque alguns me chamavam de Yo-Yo também e outros me chamavam de Rooney Yo-Yo e juntei tudo para ser único nas buscas na internet. Então, tenho vários personagens e moldo conforme a necessidade.
BW: Onde tudo começou para os B-Boys e B-Girls de São Paulo? Fale sobre o Marco Zero e sobre a pedra que até hoje tem o seu nome.
Rooneyoyo: Em São Paulo, as coisas foram simultâneas em vários bairros, pois os clipes começavam a ser exibidos com cenas de “Breakdance” (a febre) de 1983 a 1985, os dançarinos eram oriundos de grupos de dança dos Bailes Blacks, mas a Rua 24 de Maio com a Dom José de Barros nos deu a explosão midiática que as pessoas conhecem da História da Gênesis do Hip-Hop de São Paulo e mesmo sem saber a nomenclatura correta, os programas de auditório passavam as disputas semanalmente e durante meses. Quando falamos de B-Boys e B-Girls o prisma muda, pois naquela época só vi uns três dançarinos irem para o chão, os movimentos eram simples. Depois do clipe do Break Machine e os filmes Breaking e Beat Street, a dança melhorou um pouco, em relação às mulheres não vi nenhuma, somente fui vê-las fazer uma entrada nos encontros da São Bento e creio que por volta de 1987, nós temos um grande vácuo na cena feminina. A participação delas foi intensificada após os encontros da B-Boys Battle Party, de 1998 em diante. O Breaking de hoje é diferente do que vimos no início, para entendê-lo, necessita-se compreender o contexto de cada época. Anos depois, no ano de 2014, Nelson Triunfo com apoio do ALAM Beat leva um projeto na Secretaria de Cultura e aprova um evento em homenagem aos tempos primórdios e eu fui carinhosamente homenageado pelo Mestre Nelson Triunfo, a quem sou muito grato pela sua contribuição pela arte e cultura.
Na época em que o Breaking era conhecido como “BreaK” ou “Breakdance”, Rooneyoyo já fazia seus moinhos de vento!
BW: Você é considerado um dos pioneiros do Hip-Hop no Brasil, são quantos anos envolvidos com o Hip-Hop? Nos conte como tudo começou aqui no Brasil e como era viver a Cultura Hip-Hop na década de 80?
Rooneyoyo: Eu datei minha participação quando frequentei a Rua 24 de Maio com Dom José de Barros em agosto de 1983 em diante, quando fazia um curso de datilografia ali no Senac. Como já destaquei, este período chamávamos de “Break” ou “Breakdance” o que conhecemos hoje de Cultura Hip-Hop. Nessa época, tudo era muito orgânico e presencial, não havia internet, telefone de fácil acesso, as informações eram disseminadas via TV, rádio, jornal, revista, vinil, k7. As Informações eram raríssimas, para se ter uma foto de dança, tinha que comprar a revista para ter acesso ao conteúdo. Quando me perguntam sobre a década, foram sete anos de evolução, pesquisa, visitas em lojas de disco para busca dos conteúdos, mas nem sempre comprávamos, olhávamos revistas em bancas de jornais para saber se tinha alguma informação nas revistas, ia em laboratórios médicos e entrava nos consultórios para ficar folheando página por página para ver se achava algo que interessava, ia em bibliotecas todos os dias para folhear os jornais do dia na seção de cultura, para saber se sairia algo naquele dia, isso era interminável. Nos encontrávamos no Boulevard da Estação de Metrô São Bento para ver o que cada um trazia de informação e ficávamos olhando por horas e discutindo teorias sobre matérias, fotos, roupas, etc. Faço isso até hoje (risos).
BW: Que boas lembranças você tem dessa época, como era a vibe de quem dançava?
Rooneyoyo: É interessante lembrar dessa época para resgatar as memórias, principalmente porque se não revivermos e contarmos nossa história, ninguém o fará, vivemos em um país que invisibiliza as nossas histórias, apreciá-las ou respeitá-las não é cultural, principalmente por ser uma cultura marginalizada. Esse período foi incrível, principalmente porque estávamos inventando o nosso jeito de fazer arte e a cultura com todas as suas camadas, que muda de lugar para lugar. Minha energia sempre foi de troca de informação, militância, de luta, de abertura de espaço, estávamos no pós-ditadura e a dança também era um aprendizado constante, todo dia aprendíamos coisas novas. A dança moldou meus pensamentos e por ela tenho feito reflexões e construído caminhos em prol de comunidade, como não tínhamos nada de referência, (re)criávamos, faço isso até hoje, se não tínhamos uma roupa a fazíamos, se não tínhamos um som, montávamos. Então, a vibe era se reinventar.
Para Rooney a dança molda pensamentos, traz reflexões e muda caminhos em prol do bem da sociedade.
BW: O Breaking da sua época era diferente da forma que é dançado hoje? Que diferenças você pode citar entre os B-Boys e B-Girls da sua época e os de hoje?
Rooneyoyo: É de fato diferente, já na nomenclatura, no conceito e na equidade de gênero, primeiro porque estávamos em uma bolha da moda e tudo era ditado pela TV, jornal e algumas revistas, a era “Breakdance” de 1983 a 1985. Depois temos a época dos que resistiram e suavizaram a inserção e o acesso à informação da nova geração, pois as informações foram chegando aos poucos, as descobertas e estudos sobre o que vivíamos, eram moldados à nossa realidade e foi se transformando no que todos vivenciam hoje, um exemplo disso é o termo B-Girl, que não existia, pois na época todos dançavam o “Breakdance” que hoje conhecemos como Popping, Waving, Tuttting, Robbot, alguns passos de Locking misturados com algo de Breaking. Sobre as B-Girls, só as vi depois de 1987 e elas estavam vinculadas por serem namoradas de algum Breaker que frequentava aquele espaço. Alguém precisa me rememorar, se alguma delas foi lá só para dançar o Breaking e algumas se tornaram MC em meados de 1987/1988. Havia também uma época que todos eram denominados de B-Boy, o B-Boy que tocava era o DJ, o B-Boy que grafitava, era o grafiteiro. Nossa dança, era coreografada ou muito improvisada e sempre fora do ritmo, outro detalhe que mudou muito também para melhor, claro e para corrigir isso, tivemos brigas homéricas de conceitos e provar, algo que demorava, pois os documentos e vídeos com informações não estavam ao alcance dos dedos como é hoje, mas dávamos mais valor a cada momento.
BW: Fale um pouco da Street Warriors, se não me engano foi fundada em 1983, correto? Como era o relacionamento com a sua Crew?
Rooneyoyo: Essa parte da História é linda, pois somos uma família até hoje e para entender isso tive que rever com nossos personagens da época, pois foi uma junção de várias gangues e grupos de dança. Em 1983, no Cambuci, formou-se o P.O.R.T.A.L., que era como chamamos hoje de guarda-chuva de tudo isso e podemos começar com a Star Break do ALAM Beat, Didi, Gula e Faustinho, que virou Zulu On A Time Bomb com ALAM Beat, Didi e Silvão que virou B-Boys City Breakers com a entrada do Raul (ex Funk & Cia), Deley (ex Os Cobras) e Paulinho. Gula e Faustinho (Falecido) montaram a Duck Rockers, a Fantastic Break do Cambuci com Edinho, Mancão, Fubá, Edu “O Bárbaro”, Bulldog, Luciano e Aninha; o Tico e Teco (Os Gêmeos) eram Cambuci Breakers, mas também eram B-Boys Due (nosso grupo de grafiteiros), eu, Tico e Teco e quando iam cantar Rap eram MC Due e, para finalizar a família, a minha Gangue Aclimação Breakers que eram, eu (Ninaco), Hamilton, Gueta e Guetinha, muitos grupos da época mudavam de nome para entrar em concursos. Isso tudo acontecia em 1 ano, ou seja, tem grupo que não durou 2 meses, até que o Mancão e o ALAM Beat com Silvão fundam a Street Warriors e DJ Carlão (Ninja) foi convidado para ser o DJ do grupo. A data é comemorada todo segundo fim de semana de dezembro junto com o P.O.R.T.A.L no Cambuci.
Street Warriors e Rooneyoyo: muito mais que uma gangue, uma família!
BW: Você foi um dos caras que fez os primeiros eventos de Breaking com público abrangendo todos os estados. Fale um pouco dessa vida como organizador de eventos em todos esses anos. O que foram as festas chamadas B-Boys Party, que aconteceram na Avenida Rio Branco?
Rooneyoyo: Eu virei organizador, como pode perceber nas falas anteriores, porque não tinha ninguém que fizesse a produção e também porque tenho sede de ver as coisas acontecerem. Via eventos competitivos acontecendo no exterior pelas revistas e VHS trazidas por amigos que viajavam para o exterior e pensei: “vou fazer isso igual”. Na época, eu tinha uma loja de roupas de Hip-Hop voltada para o nosso público e usava o lucro da loja para subsidiar e promover estas festas. Foi como tudo começou, mandando cartas pelo correio, colocava anúncios em revistas especializadas e quando respondiam, os convidava, fiz muita feira de moda fora de São Paulo, quando vinham ao meu balcão de vendas itinerante (estande) comprar alguma peça, já pegava contato e com certeza iriam receber um convite pelos Correios. A B-Boys Battle Party era uma festa mensal que promovíamos nos clubes do centro da cidade daquela época, entre 1998 até 2001, alugávamos o local e trazíamos os equipamentos. Tudo devido a julho de 1998, quando os encontros da Estação São Bento do Metrô foram proibidos, pois estavam mudando para um lado mais comercial com lojas e não queriam nosso povo lá, tentamos ir para a rua em outros pontos e não vingou, foi aí que decidimos fazer estes encontros, uma vez por ano fazia o B-Girls Battle Party, onde descobri uma mina, a DJ Nice, que competia no DMC (competição de DJs Nacional), ela gostava de Break Beat Europeu, uma parte da festa era comandada por elas; uma vez ao ano também fazíamos a Batalha Final, uma competição de coreografias e no final tinham batalhas de grupo. Os anos foram passando e fui mudando regras e categorias, hoje temos o foco voltado em competições de alto rendimento.
BW: A primeira “Batalha do Ano” que levou 3 mil pessoas aconteceu em qual ano? Como foi esse evento?
Rooneyoyo: Nosso primeiro evento da Batalha aconteceu em 1999, como fazíamos as festas mensais com batalhas individuais, de duplas, misto, de Old School vs New School (acima de 30 anos versus abaixo de 14 anos), B-Girls Battle, pensamos: vamos fazer a B-Boys Battle Party Annual Contest, com o nome Batalha do Ano que foi um desastre comercial em um negócio mal elaborado com o B.O.T.Y mundial, mas o público veio em massa. Tentamos mais um ano, mas para arrumar patrocínio era muito difícil, pois levar até quatorze pessoas para a Alemanha era oneroso e comercialmente inviável, mudamos o nome que segue até hoje, Batalha Final. Creio que este público de 3 mil seja em 2004, no Parque Dom Pedro, na antiga fábrica da Comgás, um espaço com 11 mil metros quadrados e dezenas de espaços, criamos uma sala onde só tocava Funk Style, creio ser a primeira deste gênero, um ambiente de 1.200 m², onde forramos com Madeirit branco para o Breaking, tivemos 17 DJs, em um pico totalmente abandonado, lembro que até os Guardas da Polícia Metropolitana ajudavam a segurar as escadas pros Pichadores e Grafiteiros fazerem seus trabalhos, ali nosso público dos 2 dias atingiu cerca de 8 mil pessoas, 3 mil no sábado e 5 mil no domingo. Foi assustador ver aquele mundaréu de gente em um pico sem nenhuma estrutura, mas era uma época Roots mesmo, fazíamos as coisas com muito amor, paixão, hoje somos mais comerciais, seguimos regras e leis, outros tempos.
Na foto como MC da DMC. Rooney foi pioneiro ao criar a primeira Batalha de Breaking profissional, trazendo grande público, Batalha Final, que ano passado comemorou seus 20 anos de existência.
BW: Fale sobre sua experiência como DJ e quando fez a escolha de parar de dançar e se dedicar a essa carreira? Estar nas pick-ups é melhor do que estar nas rodas?
Rooneyoyo: O ser DJ era uma época que achava que tínhamos que ser tudo para ser da cultura, adoro música e adorava ver como os DJ´s faziam para mixar, achava aquilo mágico, os toca discos eram um sonho de consumo distante. Então, comprava os discos, ouvia, lia, traduzia, copiava as roupas, ficava tentando entender porque das correntes, dos chapéus, das marcas, ficava horas decifrando fotos e encartes. Conheci o DJ Carlão no Cambuci, ele me mostrou um som, o Love Master Ace com a música Diseases e o refrão parecia que ele falava Ninja, foi aí que o batizei com seu apelido, DJ Ninja. Na casa dele aprendi a mixar, cortar, fazer back to back, alguns poucos scratchs, mas demorei muito para ter meu primeiro set de DJ e não escolhi parar de dançar, tenho problema na coluna, sinto dores e fui diminuindo minha ação como dançarino gradativamente, na real sempre quis dançar Popping, mas não tenho essa aptidão e fui parar no chão mesmo. E não tem comparação uma arte com outra, estar nos toca discos comandando um evento ou festa é diferente de estar nos palcos ou numa roda (Cypher) como dançarino. Gosto de tudo, então, pulo esta decisão.
BW: Você esteve fora do país algumas vezes, nos conte sobre suas experiências e sobre grandes amizades que fez pelo mundo.
Rooneyoyo: Todo ser humano tem que se oportunizar a sair de seu bairro, município, estado e país, trocar experiências ou vivenciar outras culturas, estudar para poder entender, respeitar para poder se posicionar, cultivar seres com propósitos parecidos, ser respeitado e ser verdadeiro com sua essência, olhando de fora parece algo surreal conhecer seus ídolos, mas criar seu conceito dentro de outra cultura traz verdade no seu eu, faz ser respeitado pelos criadores de uma arte que pode ser usada para o bem. Fazer amizades pelo mundo é algo que me faz bem, traz paz, faz o mundo ficar pequeno. Nada é impossível.
DJ Ninja e DJ A.G. Naja (Rooneyoyo): parceria de longa data na Cultura Hip-Hop.
BW: Tocar na São Bento tem algum significado especial para você? De onde saíram os nomes DJ Naja e O Guardião?
Rooneyoyo: Sim, tocar ali, onde eu aprendi a estudar, pesquisar, me moldou para ser o que sou hoje, é impagável. Me fez entender quem eu sou e porque estou na Cultura. A.G. Naja, A. G. era o Assistente Geral do DJ Ninja, da época do disco do Hip-Hop Cultura de Rua, da Dupla MC Jack e DJ Ninja. Eles tinham muitas colagens e intervenções durante o show, não dava tempo de fazer tudo sozinho, eu tinha que ser preciso, tinha que ser dinâmico, segurava os discos, fazíamos shows com vinil e eu era como um Roadie, um faz tudo do grupo. O apelido Naja foi para combinar foneticamente com o nome do Ninja. O Guardião veio após uma palestra sobre a evolução disso ou evolução daquilo sobre Hip-Hop, mas poucos defendiam a raiz da cultura, sabemos que um povo sem passado é um povo sem História. Fui para casa pensativo e irritado, então adotei este codinome como simbologia de ser um cara que respeita a raiz, como tenho muito material da “Febre Breakdance” é como se fosse um ancião, quando alguém precisa de uma informação, procuro as referências que tenho para contribuir.
BW: Em sua caminhada, você ajudou muitos B-Boys e B-Girls a encontrarem seu próprio caminho. Em recente evento a B-Girl Miwa falou justamente da gratidão que tinha a você! Na sua visão, quais são as maiores dificuldades hoje na vida de um B-Boy ou de uma B-Girl?
Rooneyoyo: Creio muito no ajudar sem olhar a quem, mas lógico, com o passar do tempo você aprende a ajudar a quem quer ser ajudado e hoje estou bem seletivo, pois muitas pessoas acabam se aproximando para tirar proveito da sua boa vontade e você vai perdendo a fé nas pessoas, justamente por causa dos mal-intencionados e muita gente deixa de ser beneficiada por isso, e todos perdem. É um assunto delicado e muito pessoal, a Miwa que você citou é uma mulher inteligente e dedicada, na época vi um potencial circunstancial diferente e foi uma troca mútua de trabalho e conhecimento, tinha minhas ideias e ela fome de fazer algo importante para ela e pra Cultura, tenho esse olhar de perceber o potencial em algumas pessoas, umas dão muito certo outras não, devido a fatores variados, os que dão certo ficam para a História, os que dão errado dá vontade de desistir de tudo, porque são pessoas que te traem e não entendem o quão profundo é ser leal e respeitar sua criação intelectual. Isso vem acontecendo com mais frequência, alguns querem ser você sem viver a sua experiência, os valores de hoje são fúteis e sem pudor, cada vez eu vejo menos pessoas criativas e sem propósitos longínquos, são imediatistas, isso não é bom para ninguém. Não há dificuldades se fizer um planejamento, mas para isso o dançarino precisa entender e respeitar vários níveis de ação global. Estamos falando de Brasil? Aqui estamos muito à frente dos nossos vizinhos, porém, sonhando errado. É fácil, falando de competições, derrotar o mundo todo com nossa aptidão corpórea, mas não respeitam as hierarquias e conhecimentos dos mais velhos e se baseiam em pessoas erradas, apoiam um desconhecido que nunca fez nada pela sua categoria em detrimento de achar que é seu concorrente. Muitos criam mecanismos abstratos e temporários, isso não funciona e vai dar errado. Se não unir a categoria, nunca dará certo e tem um monte de gente indo no caminho errado, porque é o mais curto, dificuldade haverá sempre, devido às escolhas egoístas.
Para Rooneyoyo “O Guardião” tocar na São Bento é uma experiência impagável e traz sensações inigualáveis.
BW: Das festas de B-Boys Party na Rio Branco diretamente para o futuro. Hoje falamos de Olimpíada e você é o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking. Você imaginava no passado que o Breaking chegaria a virar uma modalidade olímpica? O que acha sobre o fato do Breaking ter sido indicado como mais uma modalidade olímpica? É possível com toda essa evolução que se perca a essência desse elemento como muitos temem?
Rooneyoyo: Já tive esta conversa com Crazy Legs em 1999, quando o trouxemos, em um dos jantares parece que tivemos a mesma sensação e desejo de ver o Breaking competitivo nas Olimpíadas, porque falamos da abertura nas Olimpíadas de 1984 nos EUA, justo na febre do “Breakdance” e ficamos imaginando como seria, foram horas discutindo conceitos, pois eles são os criadores e nós consumidores, então, até ele entender a ótica de quem não vive nos Estados Unidos da América, que eles estão em um país corporativo e nós em um país assistencialista e isso não é fácil. Mas, não imaginava de fato que isso aconteceria. Hoje tenho um pensamento crítico muito profundo sobre este assunto, creio que é cedo para essa admissão da nossa modalidade, pois o mundo todo precisaria ter uma política pública voltada para o esporte e um apoio mais forte em todos os países, o que ninguém percebe é que temos uma disparidade cruel e injusta, enquanto Europa e Ásia gasta cerca de 6 milhões de reais para fazer um evento de um final de semana, nós aqui, por exemplo, não conseguimos captar recursos na casa dos 50 mil reais para um evento, muito menos nossos vizinhos Sul e Centro Americanos, Africanos e Oceania, para que estejamos entre os 64 países como consta na proposta para o COI. Politicamente é um evento para envaidecer o capitalista eurocêntrico. Para mudar a ótica da nossa categoria, agora falando dos brasileiros, precisam entender que temos um plano, mas sem adesão não vai funcionar. O que vejo é daqui uns anos, não termos brasileiros competindo pela falta de escolhas coerentes e assertivas neste momento, pois um erro pode frustrar toda uma geração e teremos um delay como estamos tendo no futebol. Conversamos com um dos colaboradores da elaboração das regras para as competições da modalidade, o Storm, apontei várias incongruências na competição, mas como disse, politicamente e esportivamente vai sim perder a essência como muitos temem. Creio que quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar. Daqui 20 anos teremos dois tipos de dança e como irei continuar fazendo as duas danças, a do Hip-Hop e a Olímpica, não tenho este problema. As pessoas vão ter que aprender a separar isso no conceito desde o início, hoje a confusão está estabelecida, Breakers formados em Educação Física criticam as competições de alto rendimento, mas aceitam ser produtores e jurados de competições de empresas que trabalham com o esporte de alto rendimento. Competidores atuais da modalidade, dançam, competem e julgam competições de alto rendimento e são contra as competições Olímpicas, o dinheiro compra as pessoas, mas não admitem que o fazem. Por isso, digo que não vai dar certo se não entrarem num consenso. O que eu vejo é medo de se assumirem publicamente, pois ser de uma Federação ou estar em uma Confederação dá trabalho, custa caro e é muita responsabilidade, as pessoas não sabem como funciona, não querem aprender e se dar o trabalho de criar algo que não existe. Repetindo, as pessoas não querem trabalhar para criar algo inexistente, querem o produto pronto para consumo, para poderem criticar em vez de aderir e ajudar a realizar.
Para o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar no alto rendimento.
BW: Com o advento das Olimpíadas o que muda na vida daqueles que pretendem de fato se tornarem atletas olímpicos? O que essa nova geração de B-Boys e B-Girls pode esperar?
Rooneyoyo: Sempre acreditei que tudo pode ser bom, vai mudar a vida de quem ingressar neste foco Olímpico, não só para o Atleta Dançarino, mas para todos que se envolverem, ainda vão abrir caminho para outros profissionais da categoria como comissão técnica, profissionais da saúde, entre outros, mas para que isto dê certo aqui no nosso país teremos que mudar nossa cultura do pensamento, cultura de postura, cultura do estudar, pesquisar, respeitar e nossa política tem que mudar para um campo diferente do que temos hoje, a política do assistencialismo, a política de dar migalhas popularmente falando. Isso nunca funcionou em nenhum país do mundo. O esporte pode mudar isso, melhorar a vida dos brasileiros, mas a política tem que mudar também, a mudança deve demorar uns 50 anos ou umas três gerações, ou seja, não veremos isso acontecer. Mas, vou dar um voto de esperança e fazer um apelo para quem ler esta entrevista, vamos nos unir pela causa juntos ou iremos sempre brigar entre nós e não vamos chegar a lugar algum.
BW: No último ano você realizou a Batalha Final em alguns lugares como no Shopping Tatuapé e no Centro Esportivo Tietê, na Virada Esportiva. Como foram esses eventos?
Rooneyoyo: Desde o início as Batalhas que fazemos são tematizadas, cada ano criamos um conceito e aplicamos nas peças publicitárias e tentamos envolver os participantes para este universo lúdico que nos possibilita viajar dentro da arte. Não fizemos nada novo, porém inédito em São Paulo, entrar em um Shopping e executar um evento com todas as exigências e prazos cumpridos, além de participar de uma Virada Esportiva, com a Secretaria Municipal de Esportes, só mostra o quanto nós amadurecemos profissionalmente e estamos preparados para assumir responsabilidades internacionais com todas as exigências Olímpicas. Executar eventos com apoio governamental é sempre uma roleta russa, exige um grau de flexibilidade de alto nível mental. Nunca é fácil depender e assumir a responsabilidade com as leis que temos, a burocracia não ajuda, os prazos são curtos para uma execução com excelência. Mas, concluímos e superamos a expectativa das metas impostas pelo grupo de trabalho. Com o orçamento que tínhamos foi planejado 4 eventos e executamos um total de 7, incluindo a contrapartida e com uma ação social de doação de reciclagem dos banners que sempre ficam inutilizados, ajudando uma comunidade de mulheres de vulnerabilidade social. Foi emocionante concluir e conseguir este feito dentro da realidade imposta.
Rooneyoyo faz parte do grupo de Rap R.D.P. (Radicais do Peso) e da coletânea SP Hip-Hop All Stars.
BW: Com a pandemia, muitos planos mudaram na vida das pessoas. Em muitos casos, foi necessário uma readaptação. O que você tem feito? É verdade que está trabalhando num novo modelo de evento? Pode falar sobre ele? Quando será e de que forma será?
Rooneyoyo: Essa pandemia nos atrasou 2 anos de planejamento, li e estudei muito e fiquei pensando como poderia mudar parte desta realidade atual. Tínhamos planejado um Brasileiro e um Sul-Americano para este ano, mas seguindo as normas e decretos da OMS (Organização Mundial de Saúde), tivemos que nos adaptar e voltar à realidade imposta. Então, vamos fazer um evento semipresencial, com a participação somente dos competidores, DJ, MC e produção reduzida, sem público, para isso criamos um programa de TV On-Line, com um conceito Cibernético e Eletrônico com o piso individual e com o distanciamento social necessário. Teremos um sistema de julgamento presencial com um aplicativo digital com desenvolvimento de inteligência artificial, muito parecido com o que vai ser usado se aprovado no futuro Olímpico, ou seja, quem participar desta competição já irá sentir a emoção de como será daqui alguns anos. A Batalha Final ocorrerá em breve. Sobre o que eu tenho feito desde março, estudando, consegui ler 19 livros e 8 dissertações de mestrado de amigos, escrevi um texto para um livro que será publicado em breve pelo Os Gêmeos, falando da parte do Rap brasileiro e a correção cronológica do mesmo. Já era para a exposição “Segredos” deles, que será exibida na Pinacoteca, em São Paulo, estar aberta ao público e deve abrir em outubro, tem obras minhas feitas na época que trocávamos desenhos pela janela, não posso dar spoiler mas quem for irá entender este universo do Hip-Hop da sua raiz até o lado mais comercial e aqui fica meu convite para a visita. Dica: comprem o livro e os brindes, vai virar item de colecionador. É isso, estou fazendo algo produtivo, sendo eu e aproveitando para pesquisar mais, pois tenho novidades para lançar em breve, muitos acontecimentos artísticos.
A pandemia mudou os rumos das produções de Breaking no mundo todo. A Batalha Final volta em novo formato na última semana de setembro.
BW: Na sua opinião, o que você acha dos eventos on-line que têm acontecido e como acredita que será a vida futura de B-Boys e B-Girls com esse fator de risco, o novo coronavírus? Que desafios terão que ser enfrentados ao seu ver?
Rooneyoyo: É fato que gostaríamos de ter público presente, mas a pandemia mudou nossas realidades, adaptar faz parte da continuidade. Estou acompanhando alguns eventos on-line e só me mostra o que não fazer, pois conceitualmente estão executando de maneira emotiva, tendenciosa, faz com que desmotivem alguns dançarinos e isso não é bom, por outro lado é importante ter alguns eventos neste conceito, faz com que motivem os dançarinos continuarem treinando, um paradoxo e vejo também muitos competidores com o propósito sem planejamento assertivo e isso é um erro que pode custar caro, procurar uma assessoria seria um bom caminho para melhoria de alguns produtores, uma agenda coletiva poderia ser algo construtivo. Essa doença (Covid-19) é implacável e invisível, os cuidados para com os participantes diretos e indiretos têm que ser levados à sério, temos que aprender a conviver remotamente e conviver conosco sozinhos, este é o maior desafio que enfrentaremos.
BW: Quem é hoje o Rooneyoyo? Qual o legado que pretende deixar para as gerações futuras? E o que significa o Hip-Hop na sua vida?
Rooneyoyo: O Guardião hoje é um cara mais tranquilo e focado em fazer algo que o deixe feliz e em paz. Vai continuar lutando e brigando pelo que acredita, causas que ache importantes, têm muitos sonhos a serem realizados, ideias para tirar do papel e realizar. Um ser pensante e pulsante. O legado é algo que depende de quem vai receber, pois o imediatismo faz parecer inútil o lapidar do tempo, quem dá valor a arte sabe que já cumpriu mais do que prometeu para si próprio, daqui para a frente as ideias estão implementadas e outras podem surgir. Hip-Hop é algo espiritual e orgânico, só vivendo pra sentir e entender.
Fotos: Cadu Barbosa, Willian Machado, 77Produz, DMC e Arquivo Pessoal.
O B-Boy
O Grafiteiro
O DJ
O MC
Rooneyoyo "O Guardião"
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“O futuro não existe. Só existe o hoje e o agora. Faço o agora se realizar.” (DJ Heliobranco)
Ele nasceu no Brás, bairro tradicional da cidade de São Paulo, teve uma infância simples, como qualquer criança da periferia, jogando futebol na rua, nos campinhos e também gostava de andar de bicicleta. Se livrou duas vezes da morte, primeiro da meningite e depois da hepatite. Morando na casa da avó, foi por meio de um tio que sempre viajava para os Estados Unidos que, sem perceber, conheceu e teve acesso ao Funk, o Soul e o Jazz, o que daria origem a trilha sonora do Hip-Hop. Mas seu primeiro contato com a faísca que acenderia o fogo para viver essa cultura diretamente foi por meio da música “Rappers Delight” de Sugarhill Gang, no início dos anos 80.
Estamos falando do DJ Heliobranco, ele não tinha ideia que tudo aquilo seria uma cultura e que se tornaria um representante dela. O Portal Breaking World teve o privilégio de bater um longo papo com esse “DJ de Peso”, que não gosta muito de entrevistas, confessa, mas que quebrou o protocolo e teve muita coisa a falar. Então, prepara-se para essa pesada entrevista! Com vocês, DJ Heliobranco no Portal Breaking World:
BW: Hélio, queria que você falasse um pouco da sua infância e da sua juventude. E que lembranças você tem dessa época? Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Heliobranco: Sou natural de São Paulo, nascido no Brás. Minha base até hoje é o bairro do Tremembé, localizado na zona norte da capital. Minha infância foi simples, com muitos amigos e jogos de futebol na rua e campinhos da época. Não fui diferente de muitas crianças da periferia. No início dos anos 70, passei pela epidemia de meningite que assolou São Paulo, que me atingiu e que quase me levou e, dois anos depois, de tanto andar de bicicleta nas enchentes que ocorriam no bairro, fiquei com hepatite infecciosa que novamente quase me levou. Sobrevivi e acho que já paguei contas que tinha de outras encarnações (risos). Ainda criança, vivia na casa de minha vó onde também morava meu tio. Ele estava sempre nos Estados Unidos, tendo morado lá, de onde trazia muitos discos que lá eram sucesso. Foi daí que conheci, mesmo sem ter essa consciência, da fonte que daria origem à trilha sonora do Hip-Hop – o Funk, o Soul e o Jazz. Por meio de meu tio, pude ouvir recém lançados os discos do Mandrill, Average White Band, Barry White Harold Melvin & The Blue Notes, O´Jays, Jacksons 5, Temptations, Tavares, Bob James, Cruzaders e onde tive também o primeiro contato com o som de James Brown com o disco “Hell” e de sua banda incrível, os JB´s, com o discos “Given´ Up Food For Funk”. Por causa das linhas de baixo pesadonas, gostava muito de ouvir estes discos toda vez que meu tio colocava na vitrola. Todos estes discos que ouvi quando tinha meus 8 anos, foi me presenteado por meu tio anos depois e ainda os tenho guardado na coleção até hoje. Mas meu primeiro contato com a faísca que acenderia o fogo para viver a Cultura Hip-Hop diretamente, foi por meio da música “Rappers Delight” de Sugarhill Gang, no início dos anos 80. Não tinha ideia que seria uma cultura naquele momento, para ser bem sincero, e que sequer me tornaria seu agente. Nesta época, pelo pouco acesso ao que seria Hip-Hop, pois só ouvia rádio, o que me atraía era a música e a nova forma de mensagem nela contida, que depois vim saber que era chamado de RAP.
BW: Você começou no Hip-Hop em 1985, correto? Como era ser DJ na década de 80? O que se tocava naquela época?
Heliobranco: Não é que comecei em 1985. Eu me dei conta disso nesta época, pelo envolvimento que tinha com a música. Eu tocava os discos que tinha na época – Afrika Bambaataa, Kurtis Blow, Sugarhill Gang, Grandmaster Flash – em festinhas de aniversário de familiares e amigos. Lógico que olhavam torto, mas como sempre fui “marrento”, para evitar bate boca, acabavam aceitando (risos).
BW: Como a sociedade via os DJ´s? Como era a vibe das festas e dos eventos?
Heliobranco: A cena dos DJ´s na década de 80 era muito seleta e elitista. Os DJ´s eram idolatrados, tanto pela Cultura “Discotheque”, vinda de New York e, também, pelo surgimento de rádios de Hip-Hop nos Estados Unidos, mais especificamente em New York, como a Kiss FM e a WBLS, dos famosos DJs Red Alert e Mr. Magic, respectivamente. DJ´s brasileiros se firmaram lá, como Tuta Aquino e Julinho Mazzei, onde lançaram verdadeiras obras de arte em vinil com sua série “Big Apple”, lançados por seu label “J&T”. Aqui no Brasil, conheci muito da trilha sonora do Hip-Hop pelas mãos dos DJ´s que tocavam na Band FM – 96,1, dentro dos programas diários com convidados, chamado “Mix Disco Ban”. Muitos DJ´s de renome tocaram lá, com destaque para Sylvio Muller e Iraí Campos e DJ´s das equipes de festas como “Furacão 200”, “Sunshine”, “Pop Corn”, “Toco”, entre outras.
BW: Que estrutura você tinha para trabalhar?
Heliobranco: Eu não tinha equipamento nenhum, era tudo tocado no famoso “3 em1” da casa em que eu estava e sem sequer ter ideia do que seria “mixagem” de uma música para outra. Eu colocava o disco pra tocar, esperava acabar a música e aí trocava os discos.
BW: Sua família te apoiava na sua profissão?
Heliobranco: Minha família nunca se envolveu ou deu qualquer pitaco no que eu fazia ou faço até hoje. Eles só observam e, claro, dão seu apoio indiretamente.
Banks, Heliobranco, Thaíde e Mancão no Encontro da São Bentos, em 2017
BW: Você fez algum curso para aprender o ofício de DJ ou foi tudo na cara e na coragem?
Heliobranco: Eu nunca fiz curso para DJ´s, mesmo porquê estes cursos surgiram mais seriamente no início dos anos 90, com a chegada do campeonato de DJ´s chamado DMC e eu já estava na pista antes disso. Em 1987, eu conheci um DJ, que na época tinha acabado de participar da mais respeitada coletânea de Rap brasileiro “Hip-Hop Cultura de Rua” e que nesta época também era famoso, por trabalhar com o famoso DJ Armando Martins da equipe de bailes Circuit Power, tocando na inesquecível rádio Brasil 2000. O nome deste DJ era DJ Ninja. Ele me deu os primeiros toques e direcionamentos sobre noção de compasso e principalmente de batidas por minuto (BPM) que a música possui e que é primordial para que possamos fazer uma boa mixagem sem distorcer a harmonia da música acelerando ou reduzindo muito seu “bpm”. A partir das dicas do DJ Ninja, comecei a me atrever a tocar em festas, fazendo mixagens e fui aprimorando de acordo com o espaço que tinha para tocar. Toquei muito na Baixada Santista, onde o pessoal curte dançar e isso me incentivou a procurar por este perfil de público, pois o público “Rap” não curtia muito dançar. E DJ que toca olhando para uma pista congelada, não tem vibe que segure. Isso fez com que eu aprimorasse também o aspecto “feeling de pista” que eu acredito que todo bom DJ deva ter para manter a pista fervendo e a casa funcionando, coisa que raramente percebo nos dias de hoje.
BW: Como surgiu o convite do MC Jack para participar do Grupo Radicais de Peso? Fale um pouco sobre esse grupo?
Heliobranco: O Radicais do Peso, na realidade, já era formado sem ter este nome pois, tanto eu, como Rooneyoyo, Ninja, Alambeat, GDO e o próprio MC Jack, nos encontrávamos rotineiramente na casa do DJ Ninja para trocar ideia, ouvir música e fazermos a famosa “família” para mixar. Para quem não sabe, “família” é uma espécie de jogo que criamos, que consistia em um de nós começar a tocar um disco, fazer uma mixagem e passar para o outro colocar novo disco e fazer nova mixagem. Se você pegasse o disco que ia tocar, colocasse no toca disco e não conseguisse mixar, já saía de cena. Como a gente tinha uma visão “radical” sobre o cenário político da época, culminando com o Presidente Collor sequestrando todo o dinheiro das poupanças do povo e também porque sempre tocávamos muito “peso” (que era como apelidávamos os discos que traziam as músicas com muito grave) nestes “jogos”, a criação do nome saiu meio quase que automaticamente. O Radicais do Peso foi um dos grupos que gravaram no início das atividades do Atelier Studio, do grande amigo Wander Carneiro, com apoio do DJ Kri e Gibass do Região Abissal. No Atelier gravamos “O Peso”. Gravamos também no estúdio do DJ Cuca, a música “Acerto de Contas”. Em 1991, a gravadora “Rhythym & Blues” abraçou as músicas que tínhamos prontas e lançamos o single “O Peso”, que trazia duas músicas e suas versões – “O Peso” e “Acerto de Contas” (vocal e instrumental).
Lançamento “Ameaça ao Sistema” do Radicais do Peso, em 1992. Heliobranco no toca-discos.
BW: Como era gravar um disco na década de 90?
Heliobranco: No final de 1991, era muito difícil você gravar um disco. Olhando por este aspecto, MC Jack utilizou seu prestígio. Por ser um grande nome ativo do Hip-Hop na época e ter ido muito bem no campeonato de DJ´s do DMC, conseguindo uma reunião, onde apresentou e firmou com a “Kaskatas Records” de Carlinhos K, a produção de um álbum completo para o Radicais do Peso, iniciando-se aí a produção do álbum “Ameaça ao Sistema”. Estávamos com dificuldade de encontrar alguém que ouvisse, respeitasse e seguisse nossas ideias e concepções e foi aí que nos deparamos com um amigo que dava seus primeiros passos como produtor musical e que era também fruto da São Bento e membro do grupo “Código 13”, que participara da coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua”. Me refiro à Mad Zoo. Eu, MC Jack & Mad Zoo produzimos o álbum “Ameaça ao Sistema”, em 1991, lá na Vila Zelina, onde depois de prontas as instrumentais, fomos para o estúdio Camerate, localizado em Santo André, para gravarmos as vozes, scratches e fazer a mixagem do disco. Neste disco, temos a participação especial de um dos ícones do rap da baixada santista, o Criminal D.
BW: Quando foi lançado o disco “Ameaça do Sistema”? Ele ganhou uma importante premiação, fale sobre isso?
Heliobranco: Em 1992, o álbum “Ameaça ao Sistema” é lançado, fizemos vários shows de lançamento, culminando com a premiação dada pelo programa “Dr. Rap” do DJ Armando Martins, como disco revelação daquele ano. Ressaltando que neste momento, já tínhamos Racionais MC´s, Thaíde e DJ Hum, Baseado Nas Ruas e muitos outros grupos lendários já em ação. Foi realmente um toque muito especial em nossa carreira como membros ativos da Cultura Hip-Hop.
BW: O nome que usava nessa época era “Mega”. Porque mudou?
Heliobranco: Eu nunca tive apelido e todos me chamavam de “Hélio” e ponto final. Só que nesta época da criação do Radicais do Peso, eu trabalhava em empresa de consultoria empresarial e de alguma forma tinha que me desvencilhar de meu nome, para poder andar livremente no underground. Numa ida à Campinas para assistir ao show de “Kool Rock Jay & DJ Slice” no Bahamas, durante o trajeto, dentro do ônibus da Viação Cometa, o famoso “Dinossauro”, começamos a falar em nomes que cada um poderia assumir dentro do grupo. Como eu gostava de um som mega alto e mega pesado, acabamos por colocar meu pseudônimo de “Mega”, assim como MC Jack teve o seu pseudônimo conhecido por “Dr. Hype Bass”, por ainda ter algum contrato com a gravadora Eldorado, detentora do álbum “Hip-Hop Cultura de Rua”, o que poderia trazer algum inconveniente para a gente. Hoje meu pseudônimo artístico é Heliobranco, sim, escreve-se tudo junto por ser tipo uma marca. Este nome deve-se ao fato de existir realmente um Hélio preto. Este Hélio preto trabalhava na mais famosa loja de discos importados dos anos 80 – a “Trucks Discos”. Sempre que ligavam lá perguntavam: “É o Hélio branco ou o Hélio preto?”. Observação: O Hélio preto era chamado de Babyface também, porque ele era muito parecido com o cantor norte americano. Um camarada muito fino e educado que nunca mais o vi.
Radicais do Peso na Virada Cultural em São Paulo, 2018.
BW: Conte um pouco da sua caminhada como DJ, produtor musical e produtor de eventos. Por onde passou, com quem trabalhou e eventos que produziu em todos esses anos.
Heliobranco: Eu tinha pouco tempo na época para me de dedicar a ser DJ, pelo fato de viajar muito a trabalho. As minhas experiências iniciais foram sendo DJ em festas de pequena e média frequência de público, pois eu encarava apenas como uma válvula de escape para soltar um pouco da pressão que recebia em meu trabalho profissional como consultor. Com o passar do tempo, fui me dando mais atenção em ser DJ, onde pude participar da maioria dos eventos criados pelo Rooneyoyo. Participei das primeiras “B-Boy Battle Party” de 1997 a 1999, que depois se tornou o maior evento de Breaking da América Latina – “Batalha Final”. Em 1999, voltei a viajar e me distanciei dos eventos. Voltei dentro do “Batalha Final” em 2003 e toquei até 2006. Como produtor musical, minha caminhada ficou mais séria do que a de DJ, onde no final de 1999, fui ser DJ de Criminal D em sua turnê de lançamento do álbum “O Conteúdo do Sistema”, lançado pela gravadora Trama. Nesta ocasião, MC Jack entrou para o cast de artistas e o convite para produzir seu disco foi automático. Em 2000, entrei no Atelier Studios e, com a grande ajudar do mestre Wander Carneiro, completava-se um ciclo iniciado com o Radicais do Peso em 1991 e que agora tomava uma forma mais sólida e profissional, uma vez que eu tinha contrato de produção com a Trama. A partir deste momento produzi muitas músicas que nem lembro mais, para uma cena underground de rappers da periferia – que é a minha preferida. Produzi também um single para a atleta da seleção americana de vôlei, Danielle Scott e também um single para o recém campeão mundial de vôlei, Sérgio Escadinha. Como produtor de eventos, eu tenho muito pouco a falar pois sempre trabalhei como DJ convidado. Contudo, em 2007 fui convidado por André Rockmaster para formar com ele a equipe de produção e execução da “Rockmaster Party”, projeto voltado ao resgate da dança nas baladas noturnas, onde fui DJ residente de 2007 até 2012, momento que senti que minha missão neste projeto estava concluída.
BW: Você produziu trilhas para os B-Boys da Tsunami All Stars. Fale desse trabalho e da responsabilidade do DJ na hora de criar algo para profissionais de dança.
Heliobranco: Com a experiência que ganhei dentro da “Rockmaster Party” e também pelo conhecimento musical que já tinha dentro do Hip-Hop, não foi muito difícil alinhar com um time de alto nível, B-Boy Kokada, B-Boy Catatau, B-Boy Pelezinho, B-Boy Neguin, B-Boy Aranha, o formato musical para que pudessem expor toda sua arte. Em 2008, produzi a trilha sonora utilizada pelo super time de B-Boys vencedores do “Battle of The Year”, que os levou à Alemanha. Produzi também a trilha sonora, juntamente com o memorável DJ Primo, para a coreografia de abertura da participação da Tsunami All Stars na Coreia, em 2009, se minha memória não falha.
DJ Heliobranco no Programa Manos e Minas, TV Cultura, 2010.
BW: Você foi o DJ do B-Boying do Brasil. Fale sobre.
Heliobranco: Sim, fui o DJ que juntou forças a outros DJ´s e que fortaleceram o projeto do visionário Rooneyoyo para, aí sim, criar toda uma cena profissional e respeitada do que seria, para nós, o “B-Boying” (e já fui criticado porque eu ainda chamo de breakdance – risos). Eu ainda acho que trabalhamos com muita energia e determinação para isso se fortalecer, mas como no Brasil a cultura da cópia do que é bom nunca é seguida à risca, vi muitos projetos cópia surgirem, brilharem por pequenos períodos e serem sepultados sumariamente.
BW: Como você vê hoje o trabalho de DJ e o que era feito na década de 80? Mudou muita coisa? Para melhor ou para pior?
Heliobranco: O que noto de diferente são duas coisas: 1 – Os equipamentos hoje facilitam demais a apresentação de um DJ, focando na vibração da pista, onde antes a coisa era mais visceral, olho no olho, suor no chão e muita, mas muita pesquisa e repertório para ser o diferente; 2 – Os equipamentos facilitaram tanto a apresentação de um DJ, que eles se tornaram “robots” à mercê de botoeiras infinitas e que, em muitos casos, desprezam a vibração da pista em prol de uma ginástica absurda demonstrada em coreografias ridículas mexendo nessas botoeiras, ao invés de demonstrarem repertório e pesquisa.
BW: O que acha dos DJ´s da nova geração? Quais são os novos desafios?
Heliobranco: Não tenho muito a falar sobre DJ´s da nova geração. Pertenço à uma casta de DJ´s “vibeiros”, que curtem tocar pelo prazer de ver seu público dançando até não aguentar mais. Por este motivo, vejo que o trabalho de um DJ da nova geração tenderá a se tornar pífio e sem importância, pois o DJ hoje se baseia num playlist de provedores de música que apontam o que mais estão ouvindo. Não tem vibe sua apresentação. Não olham e nem sentem a reação do público quando tocam. E o mais fatal de todos eles: os DJs agindo desta forma, favorecerão que qualquer um faça de graça o que ele cobra pra fazer, coisa que já vemos por ai, muito ao contrário do que nós encontramos no início. Mesmo assim, acredito que o DJ da nova geração que sobreviver terá o seguinte desafio: tocar o que as pessoas querem realmente ouvir e que arremate em seus corações e pernas, que poderá não ser o seu playlist de Spotify ou Deezer.
Foto que deu a ideia de montar o “SP Hip-Hop All Stars”.
BW: Fale sobre o “SP Hip-Hop All Stars”, como surgiu a ideia desse trabalho? E como foi reunir num único CD todos esses grandes nomes do Hip-Hop Paulista? Quanto tempo levou para produzir esse trabalho?
Heliobranco: A faísca do projeto “SP Hip-Hop All Stars” surgiu quando muitos dos nomes que hoje compõem o projeto, fizeram seu show na Virada Cultural realizada no Parque Dom Pedro, em 2008. Após tirarmos uma foto com boa parte dos participantes daqueles shows, fiquei pensando sobre como poderia juntar todos ou a maioria, num projeto musical que seria histórico. Deixei isso guardado até em 2010, numa conversa via Messenger junto a MC A, do Doctor MC´s e MC Jack, perguntei sobre o que eles achavam de criar um projeto neste sentido e eles me incentivaram na hora em seguir e fazer as produções, que pelo menos eles dois estariam dentro. Em 2010, passei a entrar em contato e confirmar quem estaria disposto a participar. Naquele momento, consegui o apoio de Sampa Crew, Grandmaster Fish, Big Flea, Região Abissal, Mike (da dupla com Pepeu), $mokey D, M.T. Bronks e também de um ídolo da Old School que havíamos trazido em 2008 para fazer um show no Memorial da América Latina, T La Rock, o primeiro artista a ser lançado pela gravadora Def Jam. Além, é claro, de MC Jack, MC A e até mesmo do próprio Radicais do Peso! Levei 2 anos produzindo o disco, vendi meu carro pra pagar a prensagem e em 2012 o álbum “DJ Heliobranco apresenta SP Hip-Hop All Stars – Beats 80´s” foi lançado, com 18 músicas inspiradas na musicalidade do Rap dos anos 80. Neste ínterim, produzi músicas que foram lançadas em discos na Europa pela gravadora CBR Electro Underground, no álbum “CBR Electro vol 2” em 2012, “CBR Electro vol 4” em 2016 e do álbum “Underground Electro”, em 2018. Em 2014, produzi e lancei junto com DJ Cleston, do single “Serenity – Sacrifice”, que virou hit nas pistas de dança que curtem o gênero “freestyle”. Nos Estados Unidos, pela gravadora Cut It Up Def, em 2013, participei do single “Subway”, em 2015 participei do álbum de “Afrika Bambaataa – What You Want” e também participei do DVD “The Bass That Ate Miami” lançado em 2016, onde também fiz a tradução e narração para a versão em português que está disponível no YouTube. Em 2018, fui contratado junto com o DJ Cleston, pela gravadora Ground Control da Alemanha, para a produção do artista “Kyper”. Voltando ao projeto “SP Hip-Hop All Stars”, em 2015 planejei fazer o volume 2 do álbum, com alguns artistas que fizeram parte do volume 1 e agregando outras lendas do Hip-Hop paulista e com alguns convidados muito especiais. Com uma ideia inicial de fazer pelo menos 18 músicas, como havia feito no primeiro, acabei por fazer 35 músicas, tamanha foi a vontade de grandes nomes em participar, como também, daqueles que estiveram na luta lá atrás. Em 2016, inicio a produção do volume 2, onde levei 2 anos para finalizá-lo, pagando todos os custos de meu bolso, seja por meio de permutas ou de dinheiro vivo. Com isso cheguei a um cast respeitável, composto de Nelson Triunfo, Thaíde, Pump Killa, DJ Erick Jay, Catito, Electric Boogies, Sampa Crew, Doctor MC´s, Mr. Rizada, Sharylaine, DJ Gato Magro, Kuryña G-Funk, Apelidado Xis, DJ Alpiste, Grandmaster Fish, Rappin Hood, MC Eddie, Big Flea, Ellypretoriginal, DJ Dehco, Branco P9, Piveti, Radicais do Peso, Junior D, Paulo Break, Tchello Rock, Falcon, DJ Jamaika, Rivas, James D, DJ Cleston, Slow Dabf, Filosofia de Rua, Mike, Visão Urbana, Pepeu, Frank Bruno (Black Jrs.), Ieda Hills e das pessoas que mais me fizeram ser Hip-Hop em minha vida e que foram convidados especialíssimos: Afrika Bambaataa, T La Rock e T Boyz DL. Em 2018, o álbum duplo foi lançado e consolidava-se assim o projeto em suas propostas de resgate de toda uma geração de pioneiros que desbravaram palcos e espaços que não eram nossos mas que, com seu trabalho e perseverança, implantou toda uma geração na história do Hip-Hop brasileiro. E está aí mais um registro marcado na história!
Tarde de Autógrafos “SP Hip-Hop All Stars”, em 2018.
BW: Em 2019, você foi um dos contemplados com o Prêmio Sabotage, feito pela Câmara Municipal de São Paulo. Como foi receber um Prêmio tão importante na cena? O que sentiu naquele momento?
Heliobranco: Nunca é fácil ser contemplado pelo que você faz no Brasil, ainda mais dentro do Hip-Hop e ainda mais ainda sendo DJ. Conhecia o Sabotage antes mesmo dele gravar seu primeiro disco e lembro bem quando ele já estava sendo reconhecido pelo seu disco recém lançado, onde fomos fazer o lançamento do disco do MC Jack e ele estava lá como convidado. Isso foi em 2001. Lembro dos comentários e dos toques que MC Jack deu à ele e de sua risada acanhada por receber tão sábios conselhos de quem já estava lá. Com isso na cabeça e sabendo da força que Sabotage tem até hoje nas camadas mais sofridas da sociedade e que é onde justamente o Hip-Hop está e sempre precisa estar, receber este prêmio é algo que compartilhei no momento em que recebi com todos os presentes e que até hoje faço questão de compartilhar. Um DJ não toca para si. Ele precisa de audiência. E foi esta audiência que me respondeu positivamente ao me conceder a honra de receber tal premiação. Infelizmente, muita gente de boa expressão não prestigia este prêmio, só porque ele é promovido por um órgão governamental e entregue em suas instalações. Eu sinto que muitos acham que é comédia ser premiado pela prefeitura. Eu não penso assim e acho que quanto mais perto estivermos de órgãos governamentais, quanto mais dentro de suas instalações estivermos e ainda por cima recebendo prêmios, mais relevantes seremos no momento em que pleitearmos algo para a Cultura Hip-Hop. Com o maior respeito eu digo: muito obrigado pelo prêmio! Não é comédia ser premiado como agente ativo do Hip-Hop.
DJ Heliobranco, vencedor do “Prêmio Sabotage 2019 – Categoria DJ”, na Câmara Municipal de São Paulo.
BW: Nesse período de pandemia, o que você tem feito? Tem trabalhado em algo? O que pensa sobre esse momento que estamos vivendo?
Heliobranco: Neste ano de 2020, já tinha planejado fazer um projeto musical dentro do “SP Hip-Hop All Stars, junto com meu brother Ellypretoriginal, fora do espectro que envolve o apelo do projeto, mas sim, explorando outras tendências musicais e o talento do pessoal do projeto. Com isso tudo que estamos passando, tive que segurar e possivelmente no início de 2021 voltaremos com tudo. Ainda neste ano de 2020, provavelmente em outubro, sairá mais um álbum na Europa em que faço parte junto com T La Rock. Fora isso, presto serviços de mixagens e masterização de músicas dentro do universo Hip-Hop. Estamos passando por um momento único de experiência em nossas vidas. Experiências quase que de guerra. Só que não temos inimigos disparando balas contra nós, jogando bombas em nossas casas ou tomando nosso território. Nosso inimigo é altamente perigoso por ser invisível e por ter se tornado matéria de manipulação política. Por isso eu digo: sem vacina, não há distância social, máscara, cumprimento com cotovelo ou o que seja, que vá evitar que qualquer um de nós possa ser contagiado e até mesmo vitimado. Não confie em nada que te disserem até o dia em que você for vacinado. A partir deste momento, começaremos a retomar nossa realidade.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
Heliobranco: Não tenho muitos planos para o futuro. O futuro não existe. Só existe o hoje e o agora. Faço o agora se realizar. Mesmo assim, dentro de minha cabeça penso em lançar o “SP Hip-Hop All Stars volume 3”, com novos convidados que fazem parte da história do Hip-Hop, depois que lançar o projeto intermediário que envolve o pessoal do projeto, que já mencionei acima. É isso aí pessoal. São raras as minhas entrevistas. Não curto muita exposição de minha vida, apesar de saber que crio produtos públicos. É complicado e eu sei… (risos). Fica aqui minha mensagem para vocês que vivem o Hip-Hop 24h por dia: “Quando você estiver triste e passar ou entrar em algum lugar que o faça se sentir feliz, procure saber quem está tocando, certamente será DJ Heliobranco namixxx”.
Fotos: Arquivo Pessoal
Discos Produzidos e Lançados
CBR volume 2, 2012
Subway, 2013
Afrika Bambaataa, 2015
Afrika Bambaataa, 2015, Rótulo
CBR volume 4, 2016
CBR, 2018
Kyper, 2018
Serenity, 2018
Radicais do Peso
Ameaça ao Sistema, 1992
Case-RDP, 1992
DJ Heliobranco no microfone, Virada Cultural, 2008
Lançamento "Ameaça ao Sistema", MC Jack, Rooney e Keliobranco, 1992
RDP, 1992R
Reunião do RDP, 2013
Single "O Peso", 1991
RDP na Virada Cultural, 2008
SP Hip-Hop All Stars
SP Hip-Hop All Stars Volume 1, 2012
Casa do Hip-Hop de Diadema, 2012
Lançamento do SP Hip-Hop All Stars, 2012
Heliobranco e T La Rock, 2012
SP Hip Hop All Stars Volume 2
Hip-Hop All Stars no Teatro Sergio Cardoso, 2017
SP Hip-Hop All Stars, 2019
SP Hip-Hop All Stars, 2019
Tocando Por Aí...
Produzindo o Disco de MC Jack e Show Blen Blen, 2001
Show Criminal D - Blen Blen, 2000
Batalha Final, 2004
Rockmaster Party 2007
Rockmaster Party, 2008
Batalha Final, 2009
Impacto de Estilo, 2016
Virada Cultural, 2017
Festa no Portal do Cambuci, 2018
Festa no Portal do Cambuci, 2018
Projeto Som do Bom, 2018
Encontro da São Bento, 2019
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
Desde o começo dos anos 1970, os DJs (sigla para Disc Jockey e que deve ser pronunciada “dee jay”) são responsáveis por comandar as festas, por manter a boa vibe nos eventos. Os primeiros registros da função de DJ estão ligados à Cultura Hip-Hop, nomes como o de Kool Herc, considerado o pai do Hip-Hop. Jamaicano, Clive Campbell (verdadeiro nome de Kool Herc) nasceu em Kingston, em 16 de abril de 1955, foi o responsável por organizar e animar as festas que deram origem a todo um movimento cultural que ganhou o mundo a partir do Bronx, em Nova York. Kool, junto com Grandmaster Flash, eram os “donos” da rua e dos discos que faziam a festa da rapaziada do bairro. Foram eles os primeiros DJs, que com dois toca-discos começaram a “encaixar” uma música na outra, sem que isso fosse perceptível. Para manter o público empolgado era preciso mais que música, era necessário tocar a vida das pessoas e alegrá-las por meio dos toca-discos, como os “toastes” jamaicanos, que incitavam o público falando rimas ao microfone, foi aí que apareceram os primeiros MC’s, os “mestres de cerimônia”. Mais tarde, essas duas manifestações, somadas ao Breaking e o Graffiti, dariam origem ao que chamamos de Cultura Hip-Hop.
Sem os DJ’s talvez o Breaking nunca tivesse existido. Essenciais dentro da Cultura Hip-Hop e nas batalhas de MC´s e de Breaking, os DJ´s são a alma e o coração desses momentos mágicos vivenciados por MC’s, B-Boys e B-Girls de todo o mundo. Sempre munidos de um par de toca-discos, um mixer, um notebook e muitas músicas, seja no vinil, MP3, pendrive ou em qualquer outro recurso tecnológico que armazena arquivos musicais, eles comandam a festa, as pistas e as rodas!
É de se lamentar que hoje em dia, ainda, algumas pessoas banalizem essa profissão e sem informação não reconheçam a sua importância dentro da cena. Em recente entrevista, o DJ Erick Jay, que está entre os melhores do Brasil, desabafou: “Acho que falta uma educação musical e uma valorização da música mesmo. Quantas vezes já ouvimos uma música em alguma festa que mudou nossas vidas? O DJ tem a função de divertir, mas também de compartilhar informação. Falta reconhecimento. A nossa profissão é muito séria, não pode ser banalizada como um monte de gente faz”.
DJ Ninja, que começou na década de 1980, concorda e ainda acrescenta que não é nem falta de respeito, mas sim de informação: “É uma profissão muitas vezes ingrata, são poucos que nos respeitam. No meio dos dançarinos é verdade que muitos têm consideração, mas sempre aparece um engraçadinho. Meus professores foram os discos e o ouvido, naquela época não tinham as informações e tecnologias de hoje, era tudo feito na raça, quem sabia algo guardava para si. Eu ia nos bailes, nas festas e via as viradas dos DJ’s e nos programas mixagens perfeitas, aí eu pirava! Até que um dia eu consegui comprar dois toca-discos e um mixer e parece que estava no sangue mesmo, quando mixei minha primeira música com um mês, foi muito gratificante. Como tudo, no começo era difícil, lembro que na época carregamos muito peso para tocar, mas os resultados eram gratificantes, pois eu ralava muito e gostava do que fazia. Hoje em dia continua sendo gratificante, tiveram certas coisas que mudaram para melhor e algumas vieram para acomodar nossas vidas. Atualmente, levo um HD com quase 100 mil músicas, muita coisa mudou, se no começo eu fosse fazer isso ia precisar de uma carreta! (risos)”.
DJ Ninja e DJ A.G. Naja
Ninja recorda: “Algo que nunca sai da minha cabeça é quando fui tocar na Argentina, senti muita diferença, quando eu acabei de tocar nos rachas os B-Boys foram todos me agradecer e aí eu escutei uma coisa que nunca mais saiu da minha mente, eles falaram que era muito gratificante dançar em músicas diferentes, porque isso melhora o nível deles, totalmente inverso com a cena que rola no Brasil. Eles, além de valorizarem o DJ, enfrentam o desafio de dançar no ritmo das músicas e falavam que não tinha graça ir dançar nas batalhas com as mesma músicas do treinos”, conclui.
Além das festas dos eventos, DJ Ninja foi da primeira geração da São Bento, local importante na história do Hip-Hop brasileiro. Ele afirma: “A São Bento, não parece, mas ela é um lugar sagrado! Quando toco para os B-Boys, danço com eles! Quando escolho as músicas, vou muito no feeling da bagagem, falo muito com dançarinos também e é importante entender um pouco do gosto deles, só assim eu consigo agradar e criar um vínculo de respeito entre DJ, dançarino e público! Capto energia dos dançarinos e, ao mesmo tempo, eu respondo com os sons e nas batalhas me sinto ali, batalhando com eles, quando rola um som e a galera agita, aí fica muito melhor, até dá arrepio! A adrenalina fica à mil. O nosso trabalho é essencial para que tudo saia perfeito. Sem ele é como imaginar um corpo, que não respira, não tem alma e nem coração!”, finaliza o DJ, que juntamente com o DJ A.G. Naja são residentes e comandam as pick-ups nos encontros da São Bento, tradicionalmente com vinyl.
Para Jab Cut, que iniciou a carreira de DJ na própria dança, como B-Boy, a questão é simples. Ele fala: “A essência do Hip-Hop é a festa. Sendo assim, o DJ tem um papel determinante nisso tudo. Sem o DJ não existe festa e numa batalha de Breaking, isso não é diferente. O DJ é quem dá o tom da festa, da batalha e da pista e isso precisa ser respeitado sempre! Ser DJ é uma profissão respeitosa, porém desvalorizada. O DJ é essencial e fundamental para o Breaking, pois sem ele não existiriam os Breakers e nem a energia das pistas. O DJ é considerado pela maioria da cena como um elemento muito importante para o Breaking, mas na prática não é o que vemos. Muitos organizadores de evento tem facilmente substituído o DJ por um pendrive com playlists automáticas. Então, se as pessoas e organizadores conseguem substituir o DJ dessa forma, isso quer dizer que o discurso de que o DJ é um elemento importante para o Breaking é um discurso falso. Já me senti também várias vezes desrespeitado, a forma mais comum é quando alguma pessoa do público, sem noção e sem educação, vem pedir música como se fosse obrigação do DJ tocar o que ela quer ouvir. Ou quando o DJ para o som para falar um pouco sobre o seu trabalho e não recebe a devida atenção. Entre outros, temos também os detalhes antiprofissionais como, por exemplo, não pagar o cachê combinado, extrapolar o horário e não oferecer alimentação. Muitas vezes, o DJ acaba recebendo a fama de antipático por não perceber as pessoas falando com ele enquanto toca a batalha. Mas não nos levem a mal, é que nesse momento estamos realmente muito focados no trabalho. É por esse motivo que muitas vezes o local do DJ está isolado e só o pessoal da produção tem acesso. Mas, acreditem, gostamos da interação com o público”.
DJ Jab
Jab conta que o ano de 2007 foi um marco na sua vida com a música, por meio de um amigo ficou sabendo sobre uma entrevista do Mano Brown, que ele falava sobre suas influências e habilidades musicais. Ali, descobriu um novo mundo sobre o que era o Hip-Hop. Naquela época, Jab e seus amigos eram fissurados em Rap Nacional. Ele recorda: “Em nossa ingenuidade, com a nossa pouca informação musical, achávamos que o Rap era o melhor gênero musical do mundo. O comentário de Mano Brown ficou na minha cabeça durante um bom tempo. E, em 2008, quando eu comecei a ter acesso à internet, que também era um meio de comunicação inacessível para muitos, em uma das minhas pesquisas sobre Rap, eu assisti outra entrevista. Essa era do KL Jay falando sobre suas influências musicais e de onde saíram algumas inspirações para suas produções. Ali foi o segundo marco. Entendi que os samples eram nada mais do que as influências musicais dele. Aquilo foi uma descoberta pra mim e me fez repensar tudo o que eu achava que sabia sobre música e Hip-Hop. Foi quando eu comecei a enxergar os outros gêneros musicais ao meu redor e atribuir valor àquilo. Aquela entrevista despertou o meu interesse em querer conhecer mais sobre os gêneros que influenciaram o Hip-Hop e o Rap, saber mais profundamente sobre a música, sobre as suas origens, quem as cantavam e etc. Isso tudo virou um novo universo na minha vida. Eu mergulhei numa pesquisa tão intensa, conhecendo músicas, artistas e suas histórias. Isso mudou muito o meu olhar sobre o Hip-Hop. Na época eu não tinha condições e nem acesso à compra de discos. Eu não fazia ideia de quais eram os caminhos e eu também não tinha ninguém próximo ligado à cultura do vinil. Isso tudo me limitou bastante. Existia também uma grande atmosfera de arrogância entre os DJ’s que tocavam de vinil. Muitos não gostavam de falar o nome dos cantores e músicas que tocavam. Ainda assim, eu continuava do meu jeito com as minhas pesquisas e descobertas. Em 2010, com toda aquela bagagem, passei a levar algumas músicas para o ambiente de treino de dança do qual eu fazia parte. Muitas músicas eram boas, mas algumas precisavam de edições mais adequadas para o Breaking. Meu desejo de levá-las ao treino despertou em mim o interesse em aprender sobre como editá-las, pois eu sabia exatamente onde mexer nas músicas, só não sabia como fazer. Foi aí que um amigo que dança e também canta Rap, o Thimu, me disse que dava para fazer as edições por um programa que ele usava. Ele me mostrou algumas funções e foi o suficiente para eu entender como funcionava. Era tudo muito intuitivo para mim e a minha impressão era como se eu já conhecesse, como se eu já tivesse visto aquilo em algum lugar. A partir daquele momento, eu passei a editar algumas músicas e levar para o treino. Não demorou muito e comecei também a produzir alguns remix”, conclui.
No final do ano de 2011, Jab teve contato com o DJ Gustavo Arantes. E no início de 2012, a convite dele, frequentou algumas aulas e pode conhecer mais sobre a arte da discotecagem. Foi um grande momento, viraram grandes parceiros e realizaram um projeto juntos no 2° semestre de 2012, o “The GroundSession”, que foi realizado no Bar do Netão, na Rua Augusta. Somente no início do ano de 2015 ele adquiriu o seu primeiro equipamento, uma Control S4. Ele fala: “Meu aprendizado passou por vários processos, desde a curiosidade, o conhecimento autodidata e o contato com pessoas que me orientaram e incentivaram. No início de 2015, eu toquei a primeira batalha com os meus próprios equipamentos. Foi a “Batalha das Gangs”. Ali eu já me sentia mais seguro pra assumir o meu lado DJ. Somente no ano de 2016, durante a “Batalha das Gangs” especial de aniversário de 10 anos da “Gang’Style”, que eu de fato assumi pra mim mesmo o título de DJ. Eu ainda tinha alguns receios, mas eu precisava oficializar, pois boa parte da cena já me considerava um ótimo DJ de Breaking. A partir daí, mais convites foram surgindo e no ano de 2018 eu fui indicado pelo público da cena ao “Prêmio BreakSP Destaques de 2017”, ficando entre os três finalistas e não parei mais. Na dança? Nesse mesmo ano fui convidado para discotecar junto aos DJ’s DanDan e Conrado, no evento “Rival vs Rival”, organizado pela crew “AfroBreak”. Nesse evento, eu tornei público o meu afastamento definitivo das competições. Comecei a refletir sobre minha vida como B-Boy também. O “Master Crews” foi a última batalha que eu participei. O ortopedista me alertou sobre uma lesão que tive no cotovelo, que era irreversível e a única forma de prosseguir dançando era dar um tempo na dança para tratar a lesão. Foi uma época muito difícil pra mim. Porém, isso tudo coincidiu com vários questionamentos à competição e o Breaking na minha vida, eu já não estava mais feliz competindo, para mim já não fazia mais sentido batalhar por batalhar, eu não via mais graça no ranço, na rivalidade e comecei a me questionar sobre os porquês da batalha. Foi uma boa fase de reflexões. Muita gente acha que eu parei de dançar, mas não. Eu não parei de dançar, apenas parei de competir. Esse tempo afastado e como expectador amadureceu o meu olhar para coisas que antes eu não entendia dentro da cena e dentro das batalhas de Breaking. Eu realmente mudei o meu olhar em relação às batalhas e muitas outras coisas. Eu decidi que batalhar era uma coisa que eu não queria mais pra mim. Em 2018, fui convidado para discotecar no “The Cypher Jam”, em Berlim, na Alemanha. Lá eu pude entender muitas coisas sobre a cena Breaking. O Breaking pra mim se tornou possível nas cyphers, sem compromisso ou, então, discotecando nas batalhas e festas. Cada evento, cada pista, cada batalha sempre foi uma sensação diferente. É difícil descrever, é uma mistura de responsabilidade, satisfação, orgulho, influência e controle, mas a sensação que sobressai em mim é a de responsabilidade”, afirma.
Jab dá alguns conselhos para quem pretende começar na profissão: “o ideal é frequentar algumas aulas ou curso, vivenciar a prática, instalar um programa de DJ no PC, colar com alguns DJ’s para entender os códigos e notar qual será a sua afinidade, interesse e desenvolvimento nisso tudo. Se você sentir que gostou, isso já diz bastante. Depois disso, é só saber qual tipo de vivência te agradou mais. Hoje em dia é possível atuar como DJ usando diversas plataformas diferentes equipamentos, desde aplicativos para celular até toca-discos, CDJs e controladoras de última geração. A aquisição inicial irá depender do tipo de DJ que a pessoa pretende ser. Cada proposta tem uma necessidade específica e os equipamentos podem ser bem variáveis. E como os equipamentos são sempre muito caros, não dá para sair comprando sem saber basicamente com o que você se identifica. No Hip-Hop, normalmente, o DJ usa um par de toca-discos que pode custar em média de 3 a 5 mil reais; um mixer que pode custar em média de 1 a 2 mil reais; um par de agulhas + shell que pode custar em média de 500 a 900 reais; e em muitos casos um notebook compatível que pode custar em média de 3 a 8 mil reais. Fora as outras necessidades e suportes técnicos. Lembrando que essa é uma média bem básica e esses valores podem variar. Uma alternativa mais barata a isso tudo é a controladora. Eu não posso afirmar com toda certeza, mas acredito que eu fui o primeiro DJ em São Paulo a tocar com CDJs e controladoras em batalhas de Breaking, quebrando o protocolo de tradição do uso de toca-discos. Existem no mercado várias marcas, de todos os preços, mas mesmo assim é necessário saber com o que você se identifica para poder comprar a controladora mais compatível. Afinal, cada um tem seu estilo e o DJ toca ali a história e a pesquisa dele. As pessoas que dançam, dançam ali suas próprias histórias. E lembrem-se: sejam humildes, respeitosos, pesquisem e estudem a história do Hip-Hop e dos elementos artísticos da nossa cultura. O Hip-Hop evoluiu muito e provavelmente já não estamos mais falando apenas de Hip-Hop. Já é possível dizer que estamos falando de uma provável Cultura Pós Hip-hop, principalmente aqui no Brasil”, finaliza.
DJ Jab
DJ Jab
DJ Jab
DJ MF
Na opinião do DJ MF, tocar exige tanta habilidade quanto dançar. São dele as palavras: “Comecei aos 14 anos, toquei em alguns grupos de Rap. Mas, aos 25 anos, me profissionalizei e a minha base de formação tive ajuda do Grandmaster Nice, DJ Ninja e DJ KL Jay, me dediquei muito para saber o que sei hoje em dia. A importância do DJ na cultura Hip-Hop é histórica, dentro dos campeonatos de Breaking é o principal elemento, pois pode estimular ou desestimular quem está dançando. Temos uma responsabilidade com aquele B-Boy ou B-Girl que está executando seus movimentos. Participei da “Hip-Hop DJ”, “Quartz” e “Liga dos DJs” como participante e organizador, “Batalha Final”, entre muitos outros. Sempre atrás dos toca-discos me sinto realizado, pois quando se ama o que faz não há como ter outro sentimento. Na nossa atividade, devemos estar antenados em tudo, principalmente nas nossas responsabilidades, conhecer os B-Boy e B-Girls, identificar as tendências do Breaking, não tentar se destacar mais que os B-Boys. Um erro grave que um DJ não pode cometer é trocar a música no meio de uma session de um dançarino”, finaliza.
De Santos, cidade do litoral de São Paulo, o B-Boy e DJ Cristiano Silva, conhecido na cena como “Cachorrão” ou DJ Dog, da Dynamic Breakers, uma das Crews mais importantes do litoral, reforça a ideia do DJ MF a respeito da mudança de música: “Existe uma diferença muito grande entre tocar em batalha ou outras ocasiões, existe uma preocupação enorme numa batalha, porque qualquer deslize você pode prejudicar a entrada do dançarino e eu sei que isso não é legal, eu sempre exijo um bom ângulo para acompanhar entrada por entrada e não virar a música no meio de uma performance, pois o dançarino já espera o beat ou refrão para um movimento de impacto. É importante tomar cuidado com o excesso de scratch durante as músicas, na hora de soltar a primeira música, pode fazer na hora de um beat, até valoriza um freeze ou stance, 30% de scratch já é demais. Ficar atento a cada round, entrada e saída de cada B-Boy. Acredito que a diferença é visível quando o DJ já foi ou é dançarino e está conectado com o que está acontecendo na batalha”, opina. Cachorrão começou como “DJ de notebook”, se tornou DJ profissional em 2016, quando conseguiu comprar o primeiro equipamento, mas o interesse na arte da discotecagem já vinha desde os anos 90, onde um outro DJ chamado Gripa atuava em um grupo de Rap formado por integrantes da crew de Breaking que ele fazia parte. Recorda: “Conheci grandes nomes da Baixada Santista e São Paulo, como Tijolo, Gato Magro, Mamuth, MC Jack, Heliobranco, Ninja e inúmeros amigos que foram inspirações. Mas assim que adquiri meu setup, comecei um curso certificado pelo DJ Mamuth, onde aprendi muitas coisas, não só a manusear o equipamento, mas uma visão profissional sobre a discotecagem. Meu primeiro campeonato foi a “Roda de Breaking”, organizada pela “Mad Feeling Crew”, em 2016. Nervoso, pois havia participantes do Peru, então me senti em um campeonato de nível gringo, sendo o meu primeiro tinha muitos medos, que foram superados ali. Mas nunca parei de dançar e nem pretendo, o Breaking sempre foi minha primeira paixão dentro do Hip-Hop, na última batalha que teve em Santos, em 2018, atuei como DJ e participei da batalha, o ano estava acabando e eu estava tocando em praticamente todos os eventos da baixada, não podia deixar passar e acabei ficando em segundo lugar. E depois, minha segunda paixão, os toca-discos, sempre que vou discotecar é como se estivesse dentro de uma nave prestes a decolar, no momento que o MC dá o comando “enfarta eles ou solta a pancada DJ Dog”, me sinto parte do meu setup como se estivesse interligado no equipamento e ao mesmo tempo é como se eu estivesse dançando, uma conexão perfeita, a reação dos dançarinos a cada música é sensacional”.
DJ Dog (Cachorrão)
Tempo de conhecimento, estudo e pesquisa tem que existir na vida de um DJ. Dog fala da importância: “Estudo e pesquisa são fundamentais para você conseguir montar bons repertórios e ter uma boa aceitação na cena, o acervo musical do Hip-Hop é riquíssimo, temos os anos 70s, 80s, 90s até os tempos atuais para mesclar o bom gosto com novos temas e bons remixes, acompanhar o que está acontecendo no cenário mundial também é muito importante, como estou dançando e ainda participo de algumas competições, consigo extrair o melhor dos dançarinos, equilibrando as músicas que identifiquem o seu perfil de dança. Criar seu sets visando o ambiente e o público presente, ter o conhecimento do seu equipamento, do programa que você usa como o Serato DJ, Tractor ou Rekordbox vai evitar muitas dores de cabeça para conseguir resolver qualquer tipo de problema que possa acontecer. Quem acha que o trabalho de um DJ é só apertar um botão mostra o quanto desconhece o assunto, aos que dizem isso, peço para que fiquem do lado de um DJ por 5 minutos, apreciando o trabalho, depois sei que vão mudar de opinião. O DJ sempre vai ter uma função importantíssima na cultura, ele comanda toda a energia das festas, cyphers e batalhas sendo dançarinos ou público amante, ele sempre é o primeiro a chegar e deve ser o último a sair, perdem noites pesquisando músicas, preparando repertórios certos para o momento certo. Fora o repertório para as batalhas, separam um repertório para as cyphers nos intervalos, onde a intenção é agradar dançarinos e o público presente, deixando todos felizes até o final do evento”, conclui.
Agora que você já conhece, por meio do Portal Breaking World, um pouco mais do importante trabalho desses “gênios da pista”: “respeite os caras, pô!”. Dance muito até a última música, aproveite a vibe e a energia de cada evento, mas nunca esqueça que por trás de cada picape, de cada festa ou batalha, tem um DJ, que no final merece sua atenção e seu aplauso!
Fotos: Wendel Carmo, William Machado, Divulgação/Arquivo Pessoal
DJ MF
DJ Ninja e DJ MF
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“O preconceito começou dentro de casa com meu pai, depois na escola, na rua e até dentro do Hip-Hop, onde muitos B-Boys me diziam para parar, que eu não chegaria a lugar nenhum” (B-Boy Perninha)
Ele nasceu em Mangabeira, um dos bairros mais populosos de João Pessoa, que fica na Zona Sul da cidade. Antes e depois de nascer sofreu rejeição e preconceito do próprio pai, que negava a sua paternidade, situação que foi potencializada com a descoberta da deficiência que ele tinha na perna. Uma malformação congênita, ou seja, um encurtamento no fêmur esquerdo. Chamado de bastardo pelo próprio pai, ele foi várias vezes colocado para fora de casa! Mas o carinho e o amor da mãe andaram sempre juntos, ela o motivava a enfrentar as dificuldades e jamais abaixar a cabeça para os problemas, sendo um pilar muito importante para que ele não tivesse rancor pelo pai ou fosse uma criança com problemas emocionais ou psicológicos por conta disso. O conselho era sempre pagar o mal com o bem!
O menino crescia, conheceu a Cultura Hip-Hop no ano de 2008, depois que alguns amigos mostraram o DVD do Red Bull BC One 2005, naquela época tinha 13 anos de idade. No início foi difícil, mas aos poucos foi encontrando a própria personalidade e com o conselho de amigos resolveu fazer os movimentos sem a prótese da perna, desenvolvendo movimentações originais que o caracterizam até hoje. Em 2019, foi para o The Legits Blast Festival, na Eslováquia, onde recebeu o prêmio de “B-Boy Float Most Valuable Breaker OutBreak 2019” como o destaque das cyphers e do evento no qual se encontravam mais de 1.000 B-Boys e B-Girls de todo o mundo e faz parte da Killa Rockers.
Estamos falando de Lucas Ferreira Machado, o “Perninha”, ele conversou com o Portal Breaking World e compartilhou sua história de luta e superação, vale conferir:
BW: Queria que você falasse seu nome, idade, onde e como foi sua infância? Que lembranças você tem dessa época? Fale um pouco da sua família e da sua criação?
Perninha: Lucas Ferreira Machado, 26 anos. Nascido e criado em João Pessoa/PB, no bairro de Mangabeira, minha infância foi um pouco conturbada, pois desde antes de vir ao mundo meu pai já havia dito que eu não era filho dele, após o meu nascimento ele “confirmou” mais ainda esse sentimento em seu coração, ao ver que eu tinha uma deficiência física em minha perna esquerda. E isso fez com que a minha relação com ele fosse muito distante e vazia, mesmo meus pais sendo casados durante minha infância. Minha mãe, por outro lado sempre me motivou a enfrentar as dificuldades e jamais abaixar a cabeça para os problemas, ela foi um pilar muito importante para que eu não tivesse rancor pelo meu pai ou fosse uma criança com problemas emocionais ou psicológicos por conta disso. Ela sempre me dizia “ele é seu pai meu filho, você deve amá-lo, pois o sentimento ruim só fará mal a você, sempre pague o mal com o bem”. Meus pais foram casados até pouco tempo antes de eu começar a dançar, até essa época, eu e meu pai éramos muito distantes, ele sempre teve problemas com bebida e sempre que chegava em casa bêbado ameaçava minha mãe, me chamava de bastardo, depois da separação, quando eu e minhas irmãs íamos passar o fim de semana com ele, ele sempre chegava alterado e me colocava pra fora de casa, repetindo sempre as mesmas coisas: “vá para a casa da sua mãe, aquela rapariga, seu bastardo!”. Na escola sempre sofri bullying por conta da minha deficiência, mas nunca levei pro coração e pelo que minha mãe havia me ensinado também “jamais abaixe a cabeça pra ninguém”. Passado o tempo, hoje eu e meu pai somos bons amigos e, quando eu tinha 18 anos, depois de várias coisas eu e ele falamos pela primeira vez “eu te amo” um pro outro e isso foi um divisor de águas na nossa vida.
BW: Do Nordeste para o Sudeste, escolheu morar no Rio de Janeiro, como aconteceu isso?
Perninha: Minha mudança para o Rio de Janeiro foi devido a dois fatores: o primeiro, por conta que minha esposa é de lá, então, foi uma forma de ficar mais próximo dela e o segundo, que anda lado a lado com o primeiro, foi o mercado do Rio, que comparando com a Paraíba é bem mais lucrativo, eu já tive oportunidade de morar no Ceará, Minas Gerais, Brasília e São Paulo e de todos esses lugares, o Rio foi o lugar onde encontrei bastante trabalho, mas também um lazer de pegar uma praia com a família, coisa que em São Paulo, por exemplo, é quase impossível.
BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? Como começou no Breaking? Alguém te ensinou?
Perninha: Conheci a Cultura Hip-Hop no ano de 2008, depois que alguns amigos me mostraram o DVD do Red Bull BC One 2005, eles diziam “vamos lá ver, tem um cara que é igual a você”, falavam do B-Boy Junior, da França, depois de assistir aquele DVD, eu que na época fazia vários tipos de esportes, como futebol, parkour, handball, BMX, basquete, futsal, etc., com o objetivo de tentar me provar e também de provar para a sociedade que me olhava como se eu fosse um ET, que eu poderia fazer qualquer coisa igual ou até melhor do que qualquer um. Vi naqueles B-Boys algo surreal, diferente de qualquer outra atividade que eu já havia feito, na época eu tinha 13 anos de idade, daquele dia em diante eu comecei a tentar fazer aqueles movimentos que vi no DVD, em casa, até que um dia um amigo chamado César me levou para um projeto social que havia na igreja que ele frequentava e lá foi onde comecei.
BW: Com que idade começou a dançar? Como foi o tempo de aprendizado? E quando começou efetivamente a competir?
Perninha: Comecei aos 13 anos de idade e no início foi tudo bem dificil, pois eu tentei começar dançando com minha prótese, então, isso me limitava bastante, tanto pela minha deficiência como pela questão de que a prótese não possui articulação, mas um dia, em um treino no Centro de Juventude do bairro, um amigo chamado Nuily me viu tentando fazer alguns Footworks e Top Rocks com a prótese e viu a minha dificuldade, então, ele chegou próximo e disse “Ei, Perninha, porquê você nao tenta dançar sem esse negócio ai? Eu acho que, além de você ficar bem mais livre, você vai poder criar muita coisa original”, e nesse dia eu fiz meus primeiros Footworks, desde esse dia em diante, coloquei a prótese apenas para andar no dia a dia. Minha primeira competição foi no mesmo ano que comecei, em um evento de 2vs2 Kids, ao qual eu e meu irmão de criação, Fidel, participamos juntos, foi nessa mesma época que fundamos a Infect Break, uma crew que até hoje segue ativa na cidade, perdemos na semifinal, mas foi uma grande experiência.
BW: Perninha, queria que falasse um pouco da questão da sua perna, foi algo de nascença? Como superou essa situação que poderia ter sido uma limitação ou um motivo para desistir, mas você dança muito bem Breaking até hoje, nos conte isso…
Perninha: Eu nasci com uma malformação congênita ou mais precisamente, um encurtamento no fêmur esquerdo. Os médicos até hoje não sabem porque eu vim ao mundo com essa condição, pois minha mãe não teve nada que pudesse prejudicar a gestação. Como falei mais acima, os ensinamentos da minha mãe de “nunca desistir” ou “jamais se entregar” foram fundamentais para o meu crescimento e aceitação, juntamente com a Cultura Hip-Hop, que me abraçou e me mostrou que eu poderia ser eu mesmo, pois dentro de uma cypher ninguém olharia para o “perninha deficiente” e sim para o Perninha B-Boy. Sou grato também aos Old School da minha cidade, Kazzuza e o Vant Vaz, que foram pessoas que sempre me motivaram e me deram conselhos para adaptar os passos ou me fazer entender que meu caminho era diferente dos demais B-Boys e B-Girls. E foi graças a essas pessoas e mais algumas, que pude entender como eu poderia explorar minha dança e ser quem eu sou, tanto dentro como fora das batalhas.
BW: Recentemente, na sua rede social, você fez uma rifa para continuar a fisioterapia e a medicação no tratamento de uma lesão, uma protusão em 6 discos (2 na cervical e 4 na coluna). Como isso apareceu? Qual o prognóstico? E como estão essas ações que tem feito? Quem desejar ajudar, como pode participar?
Perninha: Sobre as lesões, eu já havia tido 2 protusões no ano de 2018, fiz fisioterapia e tomei medicação. Depois disso, fiquei “bom”, voltei aos treinos normalmente e nâo senti mais nada. Com a chegada da pandemia, fiquei alguns meses parado e isso provocou um choque no meu corpo. Quando decidi voltar a treinar e competir, por conta dos meses que fiquei parado devido ao início da pandemia, voltei a competir e até então tudo normal. Então, esse ano, quando eu estava treinando, senti uma fisgada no meu pescoço, fui ao médico e todos me falavam a mesma coisa, que era apenas um torcicolo, passei um mês assim e nada desse “torcicolo” melhorar, um dia, eu acordei e parecia que todo o meu corpo estava paralisado, eu não conseguia me mexer sem sentir dor, minha esposa estava tendo que me ajudar até para tomar banho, então, decidi ir novamente ao médico, onde o mesmo passou uma bateria de exames e após ver os resultados da ressonância, me falou que eu estava com 6 protusões, que não era caso de cirurgia, mas que eu deveria tratar o quanto antes para que não se transformasse em uma hérnia de disco e após o tratamento e as dores sumirem, eu deveria seguir um protocolo de fortalecimento para o resto da minha vida, com trabalhos de musculação e fortalecimento. A previsão dada pelos médicos e fisioterapeutas é de 1 a 2 meses para que eu possa voltar a treinar de leve com acompanhamento. A rifa foi uma ideia do Ratin da Killa Rockers, meu companheiro de crew, através da rifa conseguimos levantar o suficiente para custear as primeiras sessões de fisioterapia. Após o sorteio da rifa, eu deixei apenas o meu Pix para quem puder e quiser ajudar com algo, pois ainda estou tendo muitos gastos com medicação e terei que continuar a fisioterapia após as sessões pagas acabarem, pra quem quiser ajudar de alguma forma, é só falar comigo pelo Instagram que eu envio o meu Pix.
BW: Alguma vez você se sentiu discriminado, desanimado ou diferente dos outros? O que usou como ferramenta de superação?
Perninha: Minha vida inteira (risos), mas como falei anteriormente, por conta do que aprendi com minha mãe, sempre usei tudo que jogavam em mim como energia ou combustível para continuar e seguir em frente, o preconceito começou dentro de casa com meu pai, depois na escola, na rua e até dentro do Hip-Hop, onde muitos B-Boys me diziam para parar, que eu não chegaria a lugar nenhum. Mas essas coisas nunca me fizeram parar, aprendi a amar meu pai independentemente do que ele fez e aprendi que pessoas vazias jamais conseguiram ver aquilo que pessoas determinadas veem.
BW: Como você vê a questão dos B-Boys e B-Girls brasileiros que têm alguma limitação? Existem trabalhos e ações no Breaking efetivas para trabalhar esses dançarinos? Ou faltam iniciativas?
Perninha: O Brasil hoje, por incrível que pareça, é um dos países no mundo com o maior número de B-Boys com deficiência e que tem um alto nível, infelizmente, por conta das políticas públicas e da nossa própria cultura, muitas vezes lutamos por coisas que não são tão urgentes quanto outras, diferente do trabalho que fazem fora do Brasil, que mesmo sem ter tantos B-Boys e B-Girls com deficiência, os mesmos têm um amparo muito grande do Estado e das empresas privadas. No Brasil existem trabalhos e iniciativas, mas na maioria das vezes sem investimento. Acredito que falte uma atenção tanto da população como do Estado para a pauta das pessoas com deficiência no geral, pois muitas vezes falamos de diversas lutas, mas esquecemos de uma que dependendo da condição física ou mental, precisa de ajuda para ir ao banheiro, para ler, para comer. Então, que possamos ter essa sensibilidade de lutar pelas urgências.
BW: Nos conte um pouco sobre os seus trabalhos nos Artistas de Rua , na ILL Abilities e no Coletivo Gang Gangrena?
Perninha: Então, eu sempre fui artista de rua, desde que comecei a dançar e foi algo que me ajudou muito a falar em público e interagir com as pessoas, o Coletivo Gang Gangrena foi a crew que cresceu comigo, a maioria amigos da mesma cidade e que hoje desenvolve um trabalho por todo o mundo, em batalhas, shows etc… o Killa Rockers eu entrei em 2014, a convite dos B-Boys Rock Lee e Ratin, desde então seguimos produzindo conteúdos, batalhando e promovendo a cultura no geral, tanto no Brasil como no exterior. O Ill-Abilities é um grupo de Breaking composto apenas por pessoas com deficiência, que tem o objetivo de levar ao mundo a mensagem “Sem Desculpas e Sem Limites”, promovendo shows, batalhas, palestras, workshops e sendo agente de transformação para pessoas em situação de vulnerabilidade social por todo o mundo.
BW: Você faz parte da Killa Rockers Crew correto? Como começou seu relacionamento com a crew e nos fale dessa convivência com o pessoal.
Perninha: Sim, então, eu conheci o pessoal no ano de 2012, mas já acompanhava por vídeos, na época que morei em Minas e em São Paulo, fiquei muito próximo praticamente de todos os integrantes, treinamos juntos e convivemos bastante. Até que, em 2014, o pessoal decidiu participar da batalha da Amizade na cidade de Rio Claro-SP, o B-Boy Rock Lee estava na minha casa na Paraíba e me perguntou se eu não gostaria de participar com eles e o que eu achava de fazer parte da crew. Pra mim foi algo natural, pois eu já convivia com o pessoal que para mim era como se fosse minha própria família. Desde então, faço parte do Killa Rockers.
BW: Em termos de competições, que eventos mais te marcaram? Que vitórias foram inesqueciveis? Você já competiu fora do Brasil? Fale da sua caminhada na dança e dos momentos memoráveis.
Perninha: Falando de vitórias em competições e momentos marcantes, houve 3 em minha vida que eu considero como momentos que mudaram o rumo da minha carreira: o primeiro, foi quando ganhei junto do meu brother Deinho, o Vivadança 2013 2vs2, onde a premiação era exatamente 1000 reais para cada, eu peguei todo o dinheiro daquela premiação e me mudei para o Sudeste sem pensar duas vezes e isso me abriu muitas portas, foi uma decisão difícil ficar longe da família, mas vendo hoje eu sei que foi algo necessário, então, guardo na memória até hoje, tanto a vitória nesse evento como o que fiz ao receber a premiação; o segundo momento foi a vitória no Batalha na Vila Latino America 2013, o meu companheiro de crew, o B-Boy Douglas, havia vencido a etapa do Rio de Janeiro e deveria ir para competir nesse evento em São Paulo, mas infelizmente ele não conseguiu ir, então, ele entrou em contato com a produção do evento para que deixassem a vaga para mim, que era da Gang Gangrena assim como ele, os organizadores infelizmente não me deixavam competir, até que no último segundo, depois de tanto eu insistir e falar que não havia nada errado em entrar no lugar dele, os mesmos me colocaram para competir, olhando pra mim com uma cara de tipo “vai deixa ele ir, é provável que perca de primeira” e foi muito incrível, porque eu fui passando fase a fase, na semifinal cheguei a tirar os jurados das cadeiras de tanta energia que foram minhas entradas e, por fim, venci o evento, então, os organizadores tiveram que vir me dar a premiação e me parabenizar mesmo, não acreditando que aquele deficiente “chato” tinha ganho o evento deles, que inclusive foi o último que eles fizeram, evento esse que tinham grandes nomes presentes no 1×1 como Luka, Kapu, Aranha, Canito, Kley, Rock Lee, dentre outros e um deficiente desconhecido lá da Paraiba ganhou; e o terceiro momento foi no ano de 2019, no The Legits Blast Festival na Eslováquia, onde recebi o prêmio de “B-Boy Float Most Valuable Breaker OutBreak 2019”, como o destaque das cyphers e do evento, no qual se encontravam mais de 1000 B-Boys e B-Girls de todo o mundo, mais uma vez um paraibano no meio desse povo todo foi visto por alguém. Esses três momentos para mim foram os mais marcantes na minha carreira até hoje, pois em cada um teve seu significado para que eu pudesse conquistar ou ser quem eu sou, tanto como profissional, mas também como pessoa.
BW: Você é um cara atuante, principalmente nos debates dentro da Cultura e no meio do Breaking. Você se acha polêmico em algumas circunstâncias? Já teve problemas em expor algumas opiniões?
Perninha: Não me acho polêmico, eu não me acho nada na verdade (risos), o que eu acho é que há muita coisa que precisa ser conversada e muitas vezes apenas A ou B fala, enquanto muitos seguem calados ou com medo de se expressar e serem julgados, entende? Eu, como fui julgado minha vida inteira até dentro de casa, não ligo muito pra isso, sou uma pessoa sincera, se eu gosto, eu gosto, se eu não gosto, não gosto. O problema são os outros que criam, porque eu mesmo sigo trabalhando e fazendo meus projetos, dançando e sendo diferença na vida de quem precisa e quem quer “problematizar” o que eu falo ou faço, pra mim tá só perdendo tempo, onde o mesmo poderia estar ajudando e incentivando alguém. Por isso, eu sigo nos meus objetivos, as pessoas falando ou não de mim. Isso não muda nada na minha vida (risos).
BW: Como você analisa os B-Boys e as B-Girls brasileiras? Na sua opinião, temos condições de competir de igual para igual lá fora? Principalmente em eventos como as Olimpíadas?
Perninha: Então, sendo bem direto, todos nós sabemos da diferença em estrutura e incentivo que temos no nosso país, se comparado com Estados Unidos, Europa e Ásia, mas mesmo em condições precárias de treinamento ou de sobrevivência, muitos de nós batem de frente, se destacando muitas vezes e até ganhando eventos de grande porte, na minha opinião, temos sim condições de competir com qualquer Breaker pelo mundo, mas sendo crítico e sabendo entender que estamos saindo alguns passos atrás e que precisamos correr alguns passos a mais para diminuir essa diferença que existe, as Olimpíadas podem ser uma plataforma que irá gerar mais investimento e visibilidade para que possamos ter mais apoio e condições de encurtar essa diferença que citei, comparando com os países de primeiro mundo. É apenas uma especulação, mas eu estou bem confiante sobre as Olimpíadas, pois sei que temos sim um potencial de crescimento ainda maior, é só ver nos últimos 5 anos o número de brasileiros que têm se destacado no cenário internacional.
BW: Normalmente, como funciona sua rotina de treinos?
Perninha: No momento, eu estou parado a cerca de 3 meses, devido a lesão, mas normalmente eu treino entre 4 a 5 vezes por semana, em média 3 a 6 horas por dia, costumo dividir meu treino entre criação (novidades), aperfeiçoamento (de coisas que já sei), preparo de competição (treino várias entradas e todas as possibilidades possíveis e em músicas diferentes).
BW: O que tem feito nesse tempo de pandemia?
Perninha: No início da pandemia, como falei eu estava parado devido às medidas de proteção, mas depois, voltei a treinar e competir, ano passado fui destaque na primeira edição on-line do Break Free, no primeiro semestre de 2020, fui finalista da segunda edição e vencedor da terceira edição, ambas em 2020, no final do ano, fui indicado ao prêmio de destaque internacional do ano ao qual estava concorrendo com mais 4 grandes nomes, Hong 10, Shigekix, Amir e Gravity. No início do ano de 2021, fui campeão do Campeonato Nacional Fluxo, que teve sua edição em formato on-line e fui destaque do evento na primeira edição de 2021 do Break Free. após isso, eu me lesionei e desde então sigo sem treinar, ajudando o pessoal do meu estado com a Federação Paraibana de Breaking e também trabalhando no projeto The Big Players, juntamente com alguns outros nomes da cena nacional.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
Perninha: Trabalhar muito! Pense numa coisa que eu gosto, é de treinar e trabalhar, ainda quero tirar minha mãe do aluguel e ter condição de olhar pra ela e falar “pode parar de trabalhar, deixa comigo”, há muitos países ainda que tenho pra conhecer e alguns projetos que quero concretizar para ajudar mais pessoas.