B-Boy Alemão – De referência do Power Move à inspiração da nova geração do Breaking brasileiro
Luciana Mazza
“No caso do Brasil, precisamos desesperadamente trabalhar com a categoria de base e, se quisermos competir de frente com os gringos”. (B-Boy Alemão)
Estava aqui escrevendo um texto e, de repente, me lembrei do B-Boy Alemão! Quem não conhece essa introdução do querido André Dias, mais conhecido na cena como B-Boy Alemão, quando em seu canal Power Tube Moves vai lembrar de algum vídeo incrível de alguma lenda do Breaking brasileiro? Mas, desta vez, é o Portal Breaking World que vai, com muita satisfação, contar um pouco da história do menino arteiro de Diadema, que fez parte de um grupo seleto de Power Moves da história do Brasil, daqueles que faziam todos os movimentos para os dois lados! Atravessando os fusos horários entre Brasil e Austrália, conversamos com ele e o resultado dessas conversas virtuais deu na entrevista que temos orgulho de apresentar abaixo:
BW. Alemão, gostaria que você falasse nome completo, cidade em que nasceu e que lembranças tem da sua infância?
Opa, meu nome é André Dias, mais conhecido como B-Boy Alemão. Eu nasci na cidade de Diadema, São Paulo. Sempre fui uma criança muito arteira, que deu muito trabalho pro meu pai, vivia andando descalço, correndo e se machucando.
BW: Como era sua vida em família? Houve dificuldades ou sempre foi uma família estável?
Eu cresci numa família de classe média, meu pai era pedreiro, minha mãe era costureira, muita coisa minha mãe fez. E, graças a Deus, eu cresci numa família de trabalhadores e não tenho do que reclamar da minha infância.
BW: Como e quando (em que ano?) começou seu interesse pelo Breaking? Quando teve o primeiro contato?
Em 1993 eu estava em uma escola na Mooca, em São Paulo, chamada Monte Serrat, e eu vi alguns dos meus amigos de classe, no intervalo da escola, girando no chão. Primeiramente eu pensei que era fácil e tentei fazer, aí eu machuquei as costas e falei: nossa, vou ficar aprendendo isso só de raiva. Então foi em 1993, e aí eu parei e depois voltei em 1994 com o pessoal da minha rua.
BW: Houve uma pessoa em especial que te apresentou ao Breaking e que te ensinou os primeiros movimentos?
Como eu era cara de pau, eu ia perguntando para todo mundo, então não foi só uma pessoa. No começo foi o Petit e o Sérgio Ninja Zulu, aí o Danzinho mudou para Diadema e me ensinou como era importante ficar forte e flexível. Aí ele me apresentou para Detroit Break, e eu comecei a entender mais e a alavancar no break.
BW: Os Power Moves sempre estiveram muito presentes na sua dança, o que o tornou uma lenda até hoje! Fale um pouco da sua experiência com esses movimentos. Com que idade começou a treiná-los, como se preparava para eles e os aperfeiçoava? E quais foram aqueles movimentos que eram a assinatura do Alemão?
Quando eu comecei no Breaking, foi numa época em que tudo se misturava, tudo. A gente nem falava Power Move, falava manobra na época. E eu sempre me dei melhor com as manobras ou até mesmo com o robozinho, né, que na época era robozinho, mas hoje é Popping. Enfim, Power Move foi amor à primeira vista! Eu sempre adorei fazer Power Move. E quando eu conheci um pessoal que também era da minha turma, aí virou minha paixão o Breaking. Os movimentos em que eu mais me destaquei foram o flare fechado e o giro de mão, porque na época o máximo de voltas que estava registrado no mundo era 5 ou 6, e eu girei 4. E começaram a me chamar de Alemão do giro de mão. Então tá aí, foi o giro de mão e o flare fechado.
BW: Em que ano começou a competir? Tiveram eventos especiais que marcaram para sempre sua vida?
Tá aí, competição. Eu fui de uma época em que estava a transição do papelão, das praças, das rodas de rua para eventos abertos. Como teve competições, as nossas competições eram rodas em eventos, como teve a Battle of the Year, a Battle of Brazil, que foi pelo Rooney. A gente competia nas rodas, nos rachas de São Paulo. Mas a minha primeira competição foi contra Goiânia, em 96, que eu estava ali praticamente de reserva, e foi uma experiência muito legal ter viajado para Goiânia com 15 anos, fazendo 16. Foi muito bom.
BW: Como era dançar Breaking no Brasil na época em que você estava ativamente dançando?
Como era esse Breaking na minha época? Vale ressaltar que eu sou de uma época em que não existia celular, internet, e o Breaking era todo influenciado pelo Brasil. As referências que tinham lá fora eram só do filme Beat Street, mas o Power Move era tudo inspirado em ginástica olímpica, circo e capoeira. Então, os movimentos na minha época eram chatos porque você prendia o flare, você não podia lançar, você tinha que aperfeiçoar o flare, aprender a saltar, aprender a dançar para os dois lados e a fazer os mortais para os dois lados. Então, era uma constante busca de aperfeiçoamento. Foi uma época muito importante para mim, me consumiu de um jeito, me formou como homem e me fez buscar aperfeiçoamento em tudo que eu faço. Não me arrependo de nada.
BW: Verdade que você fez parte da “Diadema Sul”? Conte um pouco da história desta crew e do tempo que dançava nela? Tem boas lembranças que pode nos contar?
Na verdade, era Diadema Sul, que veio depois que meus amigos criaram uma outra crew, rapaziada linda pela arte. Aí o pessoal falou: “Olha, Alemão, não fica triste não que você não entrou nesse grupo, né?”. Porque é verdade, eles montaram o grupo e eu fiquei sabendo de última hora que eles estavam montando, porque um dos integrantes me achava chato demais, porque eu gostava de treinar sério, não aceitava bagunça no treino. Enfim, aí ele apontou pro Guinho, pro Átila e pro Amendoim e falou assim: “Monta o grupo com eles aí”. Aí eu montei o grupo, que era eu, o Átila, o Guinho, né? E vemos que foi na Diadema Sul Breakers, no campeonato de 2002, final, dá pra ver que a gente usou uma roupa azul-marinho, que era a Diadema Sul Breakers. E foi legal porque principalmente eu montei o grupo com meus alunos. E depois, no finalzinho, o Danzinho entrou também no grupo.
BW: Além do Breaking, do Power Move, das acrobacias, outros esportes como o Parkour fizeram parte da sua vida? Pode nos contar como isso entrou no seu dia a dia?
E o Parkour entrou na minha vida. Eu sempre fui uma criança que subia em árvore para pegar fruta, subia em casas abandonadas, sempre fui arteiro, como eu mencionei anteriormente. E na época da faculdade eu fui fazer ginástica olímpica, e aprendi um monte de exercícios. Quando o Parkour veio para o Brasil, eu falei: “Nossa, é muito parecido com o que a gente fazia na ginástica”. E eu lembro que eu estava no Ibirapuera, na roda, e vi o pessoal do Parkour, e fiquei brincando com eles ali. A minha experiência com o Parkour, antes de ser chamado Parkour, era só brincar na rua, e foi isso que eu fiz, eu brincava bastante na rua. E quando surgiu a oportunidade aqui na Austrália, eu vi que tinha bastante gente fazendo ginástica para criança, e resolvi dar aula de Parkour para todos, porque não tinha ninguém bom para dar aula para criança. Então foi isso, o Parkour na minha vida veio antes de se chamar Parkour.
BW: Em que ano você mudou para a Austrália? O que o fez sair do Brasil para o outro lado do mundo? Como é a vida na Austrália? Como foi essa adaptação? Houve dificuldades no início?
Vim pra Austrália em 2006. Eu tinha feito um evento no Ibirapuera chamado Ibira Power, que foi muito legal. Aí eu queria ser o primeiro brasileiro a fazer batalhas de Power Move que trouxessem gringo. Aí eu falei: “Vou pra Austrália, melhoro o meu inglês e volto”, porque várias oportunidades foram perdidas porque o meu inglês não estava bom. Mas quando eu cheguei aqui na Austrália foi um choque muito bom, porque, primeiro, eu lavando louça, limpando piscina ou trabalhando na lanchonete, eu estava ganhando mais que um professor renomado de educação física no Brasil. Aí eu comecei a ver o poder de compra muito forte, o que eu nunca tive no Brasil. Aí eu não consegui voltar. Com uma dor no peito, resolvi ficar e desisti desse meu sonho, porque foi muito bom, a Austrália foi muito boa pra mim. Foi difícil adaptar, porque ninguém gostava de dançar com a perna esticada, todo mundo me chamava de ginasta, entendeu? E foi difícil. O movimento aqui na Austrália, na cidade em que eu estava, não estava tão avançado como no Brasil. O que me fez olhar para o Brasil com orgulho de ver quantos Power Moves bons e B-Boys o Brasil tinha de alto nível.
BW: Você montou um centro de treinamento, nos fale um pouco do trabalho que você realiza nesse local. Ensina Breaking, Parkour? Fale sobre as aulas que dá?
Por muitos anos aqui na Austrália, eu fui gerente de uma academia de ginástica olímpica para crianças, de 18 meses a 10 anos de idade. Aí eu percebi que não tinha ninguém bom dando aula de Breaking ou Parkour para criança. Então eu montei o meu estúdio juntando tudo que o pessoal da ginástica jogava fora, colchões, equipamentos, eu botava numa caminhonete e levava para a minha casa. Fui juntando. Quando eu tinha bastante equipamento, resolvi começar a alugar uns espaços e levar meus equipamentos com a caminhonete e começar a dar aula. E foi pegando. O meu estúdio foi baseado na Casa do Hip-Hop de São Paulo. Eu fiz aula de Graffiti, DJ, Breaking, mortais. Mas, para ser sincero, o que salvou o meu estúdio foi o Parkour, porque o Parkour promove as crianças saindo do iPad, laptop, para poder se movimentar. Então eu tenho muita sorte de ter noção em várias coisas, senão o meu estúdio não estaria bem.
BW: Como são os alunos australianos? Como é sua vida atualmente?
Meus alunos australianos são uns amores, são minha família. Eu tô dando aula aqui desde 2009. Tem uns que já casaram e vêm me visitar. Tem uns que migraram para o Cirque Du Soleil. Os B-Boys param cedo, porque não tem uma cultura de vários eventos, então a motivação acaba. Depois daquele acidente que a gente teve com a B-Girl Raygun, muitas meninas pararam de fazer. E eu venho tentando lutar para fazer acontecer isso. Mas eu tive mais sucesso com os alunos de mortais, que migraram para o tricking e ficaram muito bons. Chegaram até os melhores da Austrália e chegaram para o Cirque Du Soleil. Mas a gente fez um Breaking, que é uma coisa que eu venho lutando para tentar conquistar aqui. Porque, se não fosse pelo Breaking, o estúdio DRE não existiria.
BW: Alemão, em todos esses anos, quais foram suas referências de Power Move no mundo e no Brasil?
Ok, essa pergunta é bem complicada, mas eu posso dizer que o pessoal da Detroit Break, né? Danzinho, Dedé, Kokada, Careca, Fatal da primeira geração, né? Teve o Petit, que eu já falei aqui, e o Sérgio, o Zulu, Ninja Zulu, o Andrezinho, que é da Sampa Crew número um, o irmão dele, o Didi, o pessoal de Goiânia, Neneca, Jean, Macaco, né? Esse pessoal aí com certeza me animou muito. E nos saltos mortais, olha o pessoal dos saltos mortais, né? Cidinho e o William.
BW: Fale um pouco do trabalho que realiza no canal POWER TUBE MOVES BRASIL e há quantos anos existe este canal?
Power Tube Moves é um canal que já existe há mais de 20 anos. Antes do YouTube existir, Power Tube Moves já existia e depois migrou para o YouTube. E começou a querer distribuir os B-Boys do Brasil. Eu também fui o primeiro cara que tentou ser gerente de B-Boys. Eu tentei gerenciar o Careca, o Guinho, tentei gerenciar o Guga, tentei gerenciar o Anão, fazendo vídeos deles, mas o que teve mais sucesso foi com o Guinho. E aí eu montei o canal, o canal começou para distribuir vídeos para eles. O canal era em inglês somente. Quando eu vi que não havia um canal em português fazendo outros tutoriais, eu decidi fazer o Power Tube Moves Brasil. Iniciou como um canal em português que era só dicas de B-Boys, e depois comecei a fazer tutoriais de mortal. E acho que foi, se eu não me engano, o primeiro. Eu também fui o primeiro a fazer blog, a fazer textos para ensinar B-Boys. E, a partir daí, começou a cair um pouco no algoritmo do estúdio e virei pai, porque ficou muito difícil conciliar criança pequena, meu estúdio e mais o canal do YouTube.
BW: Em todos esses anos, muita evolução houve no Breaking mundial. Entre as pessoas que dançam o Breaking, de repente vimos o Breaking nas Olimpíadas! Queria que você comentasse sobre o processo olímpico, sobre os melhores B-Boys e B-Girls que viu neste processo, onde o mundo inteiro participou, inclusive o Brasil.
Ver o Breaking nas Olimpíadas foi muito bom! Mas eu devo confessar para vocês que eu sempre foquei mais nos treinos, em ser treinador, do que ficar olhando a cena. Eu estava prestando atenção na cena da Austrália, porque é onde eu vivo e onde poderia me render frutos. E, infelizmente, a politicagem que aconteceu aqui, como em todo país, teve um pouco de corrupção e deu no que deu quando você fala de B-Boys e B-Girls da Austrália.
BW: O que, ao seu ver, aconteceu e acontece com o Brasil? Estamos atrás e por quê? O que falta, falando da dança de B-Boys e B-Girls brasileiros, para poder batalhar de igual para igual com os gringos?
Para ser sincero com você, eu fiquei muito triste que a Austrália conseguiu entrar e o Brasil não conseguiu entrar. Toda vez que eu queria saber como o Brasil estava indo, eu conversava muito com o B-Boy Amendoim e com o B-Boy Dunda. Eu acho que, no caso do Brasil, precisa desesperadamente trabalhar com a categoria de base e, se quiser competir de frente com os gringos, eu tô falando da geração nova, de 2025 para agora, quem está começando agora. Essa geração tem que ser trabalhada, mas se quiser, daqui uns 8 anos, poder bater de frente. É uma situação delicada em que o Brasil se encontra, temos que fabricar mais B-Boys e B-Girls.
BW: No último ano você tem divulgado muito a nova geração do Breaking brasileiro. Tem valorizado as crianças e os jovens, falou dos meninos do Pará, falou da B-Girl Angel do Brasil, de São Paulo, da Manu do Rio de Janeiro, entre outros. Fale da importância de se preparar a nova geração, da importância do trabalho junto à base. Na sua opinião, o que deve ser feito junto a esses jovens?
Olha, como treinador, eu falo para as pessoas procurarem inspirações, procurar aquela chave de sucesso que sempre foi o individualismo e a acrobacia, que sempre fizeram os brasileiros brilhar. Como no futebol tem o jogo bonito, o B-Boy brasileiro sempre voou, né? Mortal, power, uma combinação de gingado da capoeira. Isso seria muito importante. E não só isso, se preparar mentalmente, né? Porque hoje em dia, se você não tiver conhecimento, qualquer pessoa te passa a perna. Às vezes você tem o Power Move que é bom, chega um empresário, joga uma ladainha fácil em você e te come vivo e você nem ganha dinheiro. Já é difícil ficar bom, mas só ficar bom não basta. Tem que ficar bom e inteligente. Esse é o que eu posso dizer agora. Quantas vezes eu fui em campeonato e vi campeões juntando dinheiro para comprar um Mac, um McDonald’s. Então tem que ser muito inteligente, porque, se você conseguir ficar bom daquele jeito, você tem que saber vender sua imagem também. E sobre o que eu posso falar das confederações organizadoras: o Brasil tem muitos organizadores bons, muitos treinadores, teria tudo para dar certo. Eu não sei realmente o que aconteceu, estou há muito tempo fora da cena, mas não ter o Brasil na Red Bull, não ter o Brasil na Olimpíada, isso foi dolorido. Então alguma coisa tem que ser feita, e acho que tem que ter uma mudança radical, porque, se a gente seguir fazendo as mesmas coisas, não está dando resultado.
BW: Como você vê o futuro do Breaking brasileiro? Quais são os planos para o futuro? Pensa em retornar para o Brasil? Deixe uma mensagem para os leitores do Portal Breaking World.
Eu tenho vontade de ir para o Brasil ver minha família, os meus amigos e dar um workshop para a nova geração. Eu tenho um trabalho em mente, gostaria de fazer algo de conscientização do B-Boy e da B-Girl. O que fazer quando eles param de dançar e tentar apontar para a nova geração que, depois que você fica bom, é seu dever passar conhecimento para a geração que está vindo, e às vezes nem esperar fazer dinheiro, mas ensinar. Porque, quando chega num nível como está agora, quase sem criança, é necessário fazer alguma coisa, porque, senão, você vai ficar velho um dia, olhar para trás e não vai ter ninguém para você conversar sobre a dança que um dia te fez muito feliz. Então, Brasil, agora só para ver minha família e curtir a cena. E eu queria agradecer mais uma vez ao Portal Breaking World por essa oportunidade, e eu espero que B-Boys e B-Girls do Brasil treinem muita força, flexibilidade e, principalmente, conhecimento. Aprender outros idiomas, não esperar que as oportunidades apareçam. Se não te colocaram no time que está ganhando, faça seu próprio time e vire o jogo! Um abraço a todos do Brasil, muito obrigado!





















































