“No caso do Brasil, precisamos desesperadamente trabalhar com a categoria de base e, se quisermos competir de frente com os gringos”. (B-Boy Alemão)
Estava aqui escrevendo um texto e, de repente, me lembrei do B-Boy Alemão! Quem não conhece essa introdução do querido André Dias, mais conhecido na cena como B-Boy Alemão, quando em seu canal Power Tube Moves vai lembrar de algum vídeo incrível de alguma lenda do Breaking brasileiro? Mas, desta vez, é o Portal Breaking World que vai, com muita satisfação, contar um pouco da história do menino arteiro de Diadema, que fez parte de um grupo seleto de Power Moves da história do Brasil, daqueles que faziam todos os movimentos para os dois lados! Atravessando os fusos horários entre Brasil e Austrália, conversamos com ele e o resultado dessas conversas virtuais deu na entrevista que temos orgulho de apresentar abaixo:
BW. Alemão, gostaria que você falasse nome completo, cidade em que nasceu e que lembranças tem da sua infância?
Opa, meu nome é André Dias, mais conhecido como B-Boy Alemão. Eu nasci na cidade de Diadema, São Paulo. Sempre fui uma criança muito arteira, que deu muito trabalho pro meu pai, vivia andando descalço, correndo e se machucando.
BW: Como era sua vida em família? Houve dificuldades ou sempre foi uma família estável?
Eu cresci numa família de classe média, meu pai era pedreiro, minha mãe era costureira, muita coisa minha mãe fez. E, graças a Deus, eu cresci numa família de trabalhadores e não tenho do que reclamar da minha infância.
BW: Como e quando (em que ano?) começou seu interesse pelo Breaking? Quando teve o primeiro contato?
Em 1993 eu estava em uma escola na Mooca, em São Paulo, chamada Monte Serrat, e eu vi alguns dos meus amigos de classe, no intervalo da escola, girando no chão. Primeiramente eu pensei que era fácil e tentei fazer, aí eu machuquei as costas e falei: nossa, vou ficar aprendendo isso só de raiva. Então foi em 1993, e aí eu parei e depois voltei em 1994 com o pessoal da minha rua.
BW: Houve uma pessoa em especial que te apresentou ao Breaking e que te ensinou os primeiros movimentos?
Como eu era cara de pau, eu ia perguntando para todo mundo, então não foi só uma pessoa. No começo foi o Petit e o Sérgio Ninja Zulu, aí o Danzinho mudou para Diadema e me ensinou como era importante ficar forte e flexível. Aí ele me apresentou para Detroit Break, e eu comecei a entender mais e a alavancar no break.
BW: Os Power Moves sempre estiveram muito presentes na sua dança, o que o tornou uma lenda até hoje! Fale um pouco da sua experiência com esses movimentos. Com que idade começou a treiná-los, como se preparava para eles e os aperfeiçoava? E quais foram aqueles movimentos que eram a assinatura do Alemão?
Quando eu comecei no Breaking, foi numa época em que tudo se misturava, tudo. A gente nem falava Power Move, falava manobra na época. E eu sempre me dei melhor com as manobras ou até mesmo com o robozinho, né, que na época era robozinho, mas hoje é Popping. Enfim, Power Move foi amor à primeira vista! Eu sempre adorei fazer Power Move. E quando eu conheci um pessoal que também era da minha turma, aí virou minha paixão o Breaking. Os movimentos em que eu mais me destaquei foram o flare fechado e o giro de mão, porque na época o máximo de voltas que estava registrado no mundo era 5 ou 6, e eu girei 4. E começaram a me chamar de Alemão do giro de mão. Então tá aí, foi o giro de mão e o flare fechado.
BW: Em que ano começou a competir? Tiveram eventos especiais que marcaram para sempre sua vida?
Tá aí, competição. Eu fui de uma época em que estava a transição do papelão, das praças, das rodas de rua para eventos abertos. Como teve competições, as nossas competições eram rodas em eventos, como teve a Battle of the Year, a Battle of Brazil, que foi pelo Rooney. A gente competia nas rodas, nos rachas de São Paulo. Mas a minha primeira competição foi contra Goiânia, em 96, que eu estava ali praticamente de reserva, e foi uma experiência muito legal ter viajado para Goiânia com 15 anos, fazendo 16. Foi muito bom.
BW: Como era dançar Breaking no Brasil na época em que você estava ativamente dançando?
Como era esse Breaking na minha época? Vale ressaltar que eu sou de uma época em que não existia celular, internet, e o Breaking era todo influenciado pelo Brasil. As referências que tinham lá fora eram só do filme Beat Street, mas o Power Move era tudo inspirado em ginástica olímpica, circo e capoeira. Então, os movimentos na minha época eram chatos porque você prendia o flare, você não podia lançar, você tinha que aperfeiçoar o flare, aprender a saltar, aprender a dançar para os dois lados e a fazer os mortais para os dois lados. Então, era uma constante busca de aperfeiçoamento. Foi uma época muito importante para mim, me consumiu de um jeito, me formou como homem e me fez buscar aperfeiçoamento em tudo que eu faço. Não me arrependo de nada.
BW: Verdade que você fez parte da “Diadema Sul”? Conte um pouco da história desta crew e do tempo que dançava nela? Tem boas lembranças que pode nos contar?
Na verdade, era Diadema Sul, que veio depois que meus amigos criaram uma outra crew, rapaziada linda pela arte. Aí o pessoal falou: “Olha, Alemão, não fica triste não que você não entrou nesse grupo, né?”. Porque é verdade, eles montaram o grupo e eu fiquei sabendo de última hora que eles estavam montando, porque um dos integrantes me achava chato demais, porque eu gostava de treinar sério, não aceitava bagunça no treino. Enfim, aí ele apontou pro Guinho, pro Átila e pro Amendoim e falou assim: “Monta o grupo com eles aí”. Aí eu montei o grupo, que era eu, o Átila, o Guinho, né? E vemos que foi na Diadema Sul Breakers, no campeonato de 2002, final, dá pra ver que a gente usou uma roupa azul-marinho, que era a Diadema Sul Breakers. E foi legal porque principalmente eu montei o grupo com meus alunos. E depois, no finalzinho, o Danzinho entrou também no grupo.
BW: Além do Breaking, do Power Move, das acrobacias, outros esportes como o Parkour fizeram parte da sua vida? Pode nos contar como isso entrou no seu dia a dia?
E o Parkour entrou na minha vida. Eu sempre fui uma criança que subia em árvore para pegar fruta, subia em casas abandonadas, sempre fui arteiro, como eu mencionei anteriormente. E na época da faculdade eu fui fazer ginástica olímpica, e aprendi um monte de exercícios. Quando o Parkour veio para o Brasil, eu falei: “Nossa, é muito parecido com o que a gente fazia na ginástica”. E eu lembro que eu estava no Ibirapuera, na roda, e vi o pessoal do Parkour, e fiquei brincando com eles ali. A minha experiência com o Parkour, antes de ser chamado Parkour, era só brincar na rua, e foi isso que eu fiz, eu brincava bastante na rua. E quando surgiu a oportunidade aqui na Austrália, eu vi que tinha bastante gente fazendo ginástica para criança, e resolvi dar aula de Parkour para todos, porque não tinha ninguém bom para dar aula para criança. Então foi isso, o Parkour na minha vida veio antes de se chamar Parkour.
BW: Em que ano você mudou para a Austrália? O que o fez sair do Brasil para o outro lado do mundo? Como é a vida na Austrália? Como foi essa adaptação? Houve dificuldades no início?
Vim pra Austrália em 2006. Eu tinha feito um evento no Ibirapuera chamado Ibira Power, que foi muito legal. Aí eu queria ser o primeiro brasileiro a fazer batalhas de Power Move que trouxessem gringo. Aí eu falei: “Vou pra Austrália, melhoro o meu inglês e volto”, porque várias oportunidades foram perdidas porque o meu inglês não estava bom. Mas quando eu cheguei aqui na Austrália foi um choque muito bom, porque, primeiro, eu lavando louça, limpando piscina ou trabalhando na lanchonete, eu estava ganhando mais que um professor renomado de educação física no Brasil. Aí eu comecei a ver o poder de compra muito forte, o que eu nunca tive no Brasil. Aí eu não consegui voltar. Com uma dor no peito, resolvi ficar e desisti desse meu sonho, porque foi muito bom, a Austrália foi muito boa pra mim. Foi difícil adaptar, porque ninguém gostava de dançar com a perna esticada, todo mundo me chamava de ginasta, entendeu? E foi difícil. O movimento aqui na Austrália, na cidade em que eu estava, não estava tão avançado como no Brasil. O que me fez olhar para o Brasil com orgulho de ver quantos Power Moves bons e B-Boys o Brasil tinha de alto nível.
BW: Você montou um centro de treinamento, nos fale um pouco do trabalho que você realiza nesse local. Ensina Breaking, Parkour? Fale sobre as aulas que dá?
Por muitos anos aqui na Austrália, eu fui gerente de uma academia de ginástica olímpica para crianças, de 18 meses a 10 anos de idade. Aí eu percebi que não tinha ninguém bom dando aula de Breaking ou Parkour para criança. Então eu montei o meu estúdio juntando tudo que o pessoal da ginástica jogava fora, colchões, equipamentos, eu botava numa caminhonete e levava para a minha casa. Fui juntando. Quando eu tinha bastante equipamento, resolvi começar a alugar uns espaços e levar meus equipamentos com a caminhonete e começar a dar aula. E foi pegando. O meu estúdio foi baseado na Casa do Hip-Hop de São Paulo. Eu fiz aula de Graffiti, DJ, Breaking, mortais. Mas, para ser sincero, o que salvou o meu estúdio foi o Parkour, porque o Parkour promove as crianças saindo do iPad, laptop, para poder se movimentar. Então eu tenho muita sorte de ter noção em várias coisas, senão o meu estúdio não estaria bem.
BW: Como são os alunos australianos? Como é sua vida atualmente?
Meus alunos australianos são uns amores, são minha família. Eu tô dando aula aqui desde 2009. Tem uns que já casaram e vêm me visitar. Tem uns que migraram para o Cirque Du Soleil. Os B-Boys param cedo, porque não tem uma cultura de vários eventos, então a motivação acaba. Depois daquele acidente que a gente teve com a B-Girl Raygun, muitas meninas pararam de fazer. E eu venho tentando lutar para fazer acontecer isso. Mas eu tive mais sucesso com os alunos de mortais, que migraram para o tricking e ficaram muito bons. Chegaram até os melhores da Austrália e chegaram para o Cirque Du Soleil. Mas a gente fez um Breaking, que é uma coisa que eu venho lutando para tentar conquistar aqui. Porque, se não fosse pelo Breaking, o estúdio DRE não existiria.
BW: Alemão, em todos esses anos, quais foram suas referências de Power Move no mundo e no Brasil?
Ok, essa pergunta é bem complicada, mas eu posso dizer que o pessoal da Detroit Break, né? Danzinho, Dedé, Kokada, Careca, Fatal da primeira geração, né? Teve o Petit, que eu já falei aqui, e o Sérgio, o Zulu, Ninja Zulu, o Andrezinho, que é da Sampa Crew número um, o irmão dele, o Didi, o pessoal de Goiânia, Neneca, Jean, Macaco, né? Esse pessoal aí com certeza me animou muito. E nos saltos mortais, olha o pessoal dos saltos mortais, né? Cidinho e o William.
BW: Fale um pouco do trabalho que realiza no canal POWER TUBE MOVES BRASIL e há quantos anos existe este canal?
Power Tube Moves é um canal que já existe há mais de 20 anos. Antes do YouTube existir, Power Tube Moves já existia e depois migrou para o YouTube. E começou a querer distribuir os B-Boys do Brasil. Eu também fui o primeiro cara que tentou ser gerente de B-Boys. Eu tentei gerenciar o Careca, o Guinho, tentei gerenciar o Guga, tentei gerenciar o Anão, fazendo vídeos deles, mas o que teve mais sucesso foi com o Guinho. E aí eu montei o canal, o canal começou para distribuir vídeos para eles. O canal era em inglês somente. Quando eu vi que não havia um canal em português fazendo outros tutoriais, eu decidi fazer o Power Tube Moves Brasil. Iniciou como um canal em português que era só dicas de B-Boys, e depois comecei a fazer tutoriais de mortal. E acho que foi, se eu não me engano, o primeiro. Eu também fui o primeiro a fazer blog, a fazer textos para ensinar B-Boys. E, a partir daí, começou a cair um pouco no algoritmo do estúdio e virei pai, porque ficou muito difícil conciliar criança pequena, meu estúdio e mais o canal do YouTube.
BW: Em todos esses anos, muita evolução houve no Breaking mundial. Entre as pessoas que dançam o Breaking, de repente vimos o Breaking nas Olimpíadas! Queria que você comentasse sobre o processo olímpico, sobre os melhores B-Boys e B-Girls que viu neste processo, onde o mundo inteiro participou, inclusive o Brasil.
Ver o Breaking nas Olimpíadas foi muito bom! Mas eu devo confessar para vocês que eu sempre foquei mais nos treinos, em ser treinador, do que ficar olhando a cena. Eu estava prestando atenção na cena da Austrália, porque é onde eu vivo e onde poderia me render frutos. E, infelizmente, a politicagem que aconteceu aqui, como em todo país, teve um pouco de corrupção e deu no que deu quando você fala de B-Boys e B-Girls da Austrália.
BW: O que, ao seu ver, aconteceu e acontece com o Brasil? Estamos atrás e por quê? O que falta, falando da dança de B-Boys e B-Girls brasileiros, para poder batalhar de igual para igual com os gringos?
Para ser sincero com você, eu fiquei muito triste que a Austrália conseguiu entrar e o Brasil não conseguiu entrar. Toda vez que eu queria saber como o Brasil estava indo, eu conversava muito com o B-Boy Amendoim e com o B-Boy Dunda. Eu acho que, no caso do Brasil, precisa desesperadamente trabalhar com a categoria de base e, se quiser competir de frente com os gringos, eu tô falando da geração nova, de 2025 para agora, quem está começando agora. Essa geração tem que ser trabalhada, mas se quiser, daqui uns 8 anos, poder bater de frente. É uma situação delicada em que o Brasil se encontra, temos que fabricar mais B-Boys e B-Girls.
BW: No último ano você tem divulgado muito a nova geração do Breaking brasileiro. Tem valorizado as crianças e os jovens, falou dos meninos do Pará, falou da B-Girl Angel do Brasil, de São Paulo, da Manu do Rio de Janeiro, entre outros. Fale da importância de se preparar a nova geração, da importância do trabalho junto à base. Na sua opinião, o que deve ser feito junto a esses jovens?
Olha, como treinador, eu falo para as pessoas procurarem inspirações, procurar aquela chave de sucesso que sempre foi o individualismo e a acrobacia, que sempre fizeram os brasileiros brilhar. Como no futebol tem o jogo bonito, o B-Boy brasileiro sempre voou, né? Mortal, power, uma combinação de gingado da capoeira. Isso seria muito importante. E não só isso, se preparar mentalmente, né? Porque hoje em dia, se você não tiver conhecimento, qualquer pessoa te passa a perna. Às vezes você tem o Power Move que é bom, chega um empresário, joga uma ladainha fácil em você e te come vivo e você nem ganha dinheiro. Já é difícil ficar bom, mas só ficar bom não basta. Tem que ficar bom e inteligente. Esse é o que eu posso dizer agora. Quantas vezes eu fui em campeonato e vi campeões juntando dinheiro para comprar um Mac, um McDonald’s. Então tem que ser muito inteligente, porque, se você conseguir ficar bom daquele jeito, você tem que saber vender sua imagem também. E sobre o que eu posso falar das confederações organizadoras: o Brasil tem muitos organizadores bons, muitos treinadores, teria tudo para dar certo. Eu não sei realmente o que aconteceu, estou há muito tempo fora da cena, mas não ter o Brasil na Red Bull, não ter o Brasil na Olimpíada, isso foi dolorido. Então alguma coisa tem que ser feita, e acho que tem que ter uma mudança radical, porque, se a gente seguir fazendo as mesmas coisas, não está dando resultado.
BW: Como você vê o futuro do Breaking brasileiro? Quais são os planos para o futuro? Pensa em retornar para o Brasil? Deixe uma mensagem para os leitores do Portal Breaking World.
Eu tenho vontade de ir para o Brasil ver minha família, os meus amigos e dar um workshop para a nova geração. Eu tenho um trabalho em mente, gostaria de fazer algo de conscientização do B-Boy e da B-Girl. O que fazer quando eles param de dançar e tentar apontar para a nova geração que, depois que você fica bom, é seu dever passar conhecimento para a geração que está vindo, e às vezes nem esperar fazer dinheiro, mas ensinar. Porque, quando chega num nível como está agora, quase sem criança, é necessário fazer alguma coisa, porque, senão, você vai ficar velho um dia, olhar para trás e não vai ter ninguém para você conversar sobre a dança que um dia te fez muito feliz. Então, Brasil, agora só para ver minha família e curtir a cena. E eu queria agradecer mais uma vez ao Portal Breaking World por essa oportunidade, e eu espero que B-Boys e B-Girls do Brasil treinem muita força, flexibilidade e, principalmente, conhecimento. Aprender outros idiomas, não esperar que as oportunidades apareçam. Se não te colocaram no time que está ganhando, faça seu próprio time e vire o jogo! Um abraço a todos do Brasil, muito obrigado!
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Essa semana, antes da Red Bull BC One em São Paulo, o Portal Breaking World teve o prazer de fazer uma entrevista exclusiva com Samuel Henrique, que também é conhecido na cena do Breaking como B-Boy Samuka.
Samuel nasceu e foi criado no Recanto das Emas, em Ceilândia, quebrada do Distrito Federal que, para quem não sabe, carrega esse nome por ter origens ligadas à quantidade de emas, uma ave do Cerrado que existia na região, e também a um sítio arqueológico chamado “Recanto”. Hoje o B-Boy é um dos grandes nomes da atualidade do Breaking brasileiro, muito esperado na final nacional que promete batalhas insanas. O rapaz do Cerrado, com sua dança, talento e história de superação após lutar contra um câncer ósseo e passar pela amputação de uma das pernas, conquistou o mundo e ganhou o coração dos brasileiros. E quem sabe, neste final de semana, possa ganhar também a competição nacional e, em novembro, ir a Tóquio em busca do grande cinturão do Touro Vermelho da Red Bull BC One, que há 15 anos foi levantado pelo B-Boy brasileiro Neguin.
Entre treinos e voos voltando da Europa para o Brasil, Samuka respondeu à nossa entrevista com muita humildade. O mano garante que quer dançar, se divertir, mas também quer ganhar, se for a vontade de Deus! Confira na íntegra esse bate-papo que inspira, motiva e promove aprendizados e reflexão para a vida e para quem pretende viver da dança:
BW: Queria que falasse um pouco de suas origens, de como foi sua infância, sua vida em família no Distrito Federal. Que lembranças tem dessa época? Na infância e na juventude, quais eram suas crenças e seus sonhos?
Samuka: Bom, eu venho do Recanto das Emas, Ceilândia, cidade que eu cresci, onde tive minha história, onde conheci a dança, o basquete, o futebol… Meu sonho quando criança era ser jogador de futebol. Acho que a maioria das crianças do Brasil tem esse mesmo sonho. Então, comigo não foi diferente. Gostava demais de jogar futebol. Nunca imaginei que eu iria viajar um dia. Então, na minha cabeça só queria ser jogador de futebol. Cheguei a ser jogador de basquete também na cadeira de rodas antes do Breaking, joguei pela seleção brasileira do sub-23. Mas, no final das contas, o verdadeiro amor foi o Breaking. A vida é cheia de surpresas!
Fotocomposição: ® Breaking World – Imagem: ® flowadelyx
BW: Verdade que começou a dançar Breaking em 2011 depois que teve uma perna amputada, devido a um câncer? Como foi começar no Breaking num momento tão difícil? Alguém te ajudou nesse aprendizado? De onde você tirou forças para começar e permanecer firme dançando até hoje?
Samuka: Eu conheci o Breaking na verdade em 2010, num projeto social na minha cidade, com o professor Klésio. Conheci, fui lá, peguei algumas aulas, mas nunca tinha levado tão a sério, porque como eu te falei, meu negócio era futebol, gostava de jogar pra caramba todo dia. Mas daí, depois da cirurgia, depois do câncer, quando eu já tinha perdido minha perna, eu me perguntei: “Pô, o que eu vou fazer agora?”. Jogar futebol tinha como, mas era mais difícil, e naquela época eu tinha desiludido um pouco de tudo, então comecei a assistir bastante vídeos no YouTube, o que eu podia fazer com a perna, e daí eu vi um B-Boy do Japão, e também outro da França, e esses dois foram referências para mim. Com uma perna dançando o Breaking, em alto nível, eu falei: “O quê? Se eles podem, acho que eu também consigo”. Tentei. E foi quando, mano, minha mente explodiu ali. O Breaking veio para mim como um desafio. Cada movimento era um desafio para aprender, então me deixava, tipo… ocupado, certo? Sempre tentando me adaptar, sempre tentando descobrir como fazer o movimento e, enfim, aquilo para mim foi a chave para sair da depressão, para sair da tristeza. E eu estava criando, asas… Na verdade, começar o Breaking para mim naquela época foi uma porta, foi um escape daquele pensamento que eu não conseguia mais fazer nada, daquele pensamento que ainda tinha acabado. Força, primeiramente Deus, minha mãe e meus amigos. Minha mãe, porque ela foi a primeira pessoa a dizer: ” Você vai fazer! Seja o que for, você vai fazer!”. Ela pedia para arrumar a casa, pedia para eu lavar o quintal e tal. E eu vinha com aquela desculpa, “ah, só tem uma perna” e ela falou “Não quero saber. Pode não ter uma perna, mas você tem dois braços, você tem cabeça para pensar, você vai fazer sim”. E aí, eu comecei a ver que eu conseguia fazer as coisas dentro de casa e aquilo foi só me dando força. Chegou lá fora, eu já conseguia desenrolar as coisas, entendeu? Então foi natural. E os meus amigos também, sempre me motivando, sempre dizendo que eu conseguia. E me empurrando mesmo, para continuar tentando, teve algumas épocas que eu desanimei, o que é normal, mas eles estavam lá, minha mãe estava lá também, e são essas pessoas que não me deixaram desistir.
My Squad @ill_abilities – Imagem: ® Arquivo Pessoal
BW: Quando e como surgiu a oportunidade de ir para Calais na França? Conte sua experiência de entrar e dançar numa Companhia Internacional fale sobre como foi sua vida nesse período?
Samuka: Então, essa oportunidade pra Calais já foi bem mais para a frente na minha carreira. Mas foi algo também que foi um novo começo, na verdade. Foi meu começo na dança contemporânea, foi meu começo numa companhia de dança, num grande passo da minha vida que foi morar fora. Então é bem interessante quando a gente acha que fez muito, na verdade a gente não tem nada, tá ligado? Sempre há um começo. E o dono de uma companhia na França, viu meus vídeos e tal, me enviou uma mensagem e me convidou para trabalhar com ele. Fui para uma audição que durou um mês praticamente. No início foi uma loucura. O B-Boy, a grande maioria tem a mente muito fechada. Só pensam em Breaking, mas quando você abre a sua mente, a dança é vasta, tá ligado? É infinita. Então, foi uma experiência bem da hora, graças a Deus, até hoje eu tô na companhia, gosto muito da companhia, gosto muito da galera, gosto muito do meu chefe, enfim. E é isso, tocar, conhecer o mundo através dessa companhia, fazendo shows, viajando… coisa que, tipo, é uma bênção, dançando que é uma bênção também, então tipo, eu vivo meu sonho todo dia e eu sou muito grato a Deus por isso.
Participação do ILL-Abilities nas olimpíadas de Paris 2024 – Imagem: ® Divulgação
BW: Alguma coisa mudou de como as pessoas te viam quando você estava no Brasil e depois que você foi para fora? Na sua opinião quais são os maiores desafios dos B-Boys e B-Girls brasileiros quando vão dançar fora do Brasil?
Samuka: Os maiores desafios do B-Boy ou B-Girl que vão dançar na gringa, isso depende bastante. Acredito que hoje, graças a Deus, tem muito mais oportunidade através de campeonatos ou de qualificatórias, então isso já é muito bom. Muitas vezes é o clima, muitas vezes é o fuso horário, saca? Acredito que um dos mais desafiadores é a língua. A galera se preocupa muito em dançar, sim, é uma grande parte, muito importante, mas a língua, cara, às vezes atrapalha muito quando a pessoa não fala, a comunicação acaba fechando portas, falta de comunicação, então eu creio que seja infelizmente ainda a língua hoje, né? Porém, tá muito melhor, eu vejo muitos brasileiros viajando hoje e representando o Brasil em vários lugares do mundo, o que é maravilhoso para a nossa cena!
BW: Como chegou no America´s Got Talent? Como foi ser semifinalista de um show de talentos americano tão conhecido em todo o mundo?
Imagerm: ® Divulgação
Samuka: Bom, sobre o America´s Got Talent. Fui visitar um amigo meu, Yuri, que mora em Los Angeles. E acabei fazendo a audição para o programa e deu tudo certo. Cheguei nas quartas. Essa experiência foi gigantesca mesmo. Poder conhecer o programa, né, o Terry Crews, o Julius de “Todo mundo odeia o Chis”. Foi uma realização de um sonho! Eu lembro de ter voltado para a minha cidade lá no Recanto das Emas. E a galera pedindo para tirar foto comigo. Onde eu ia era foto, escutei pessoas agradecendo por ter falado da nossa cidade. Então eles disseram que eu coloquei a cidade no mapa, o que foi muito gratificante! Vim de fora e poder dar esse gosto para a minha cidade, para a galera que eu cresci junto, que eu represento, foi demais!
Imagem: ® Arquivo Pessoal
BW: Em março de 2024 você fez história ao se tornar o primeiro brasileiro a conquistar em Tóquio o título mundial no “Undisputed Masters”. Fale sobre o que se passava na sua cabeça e o que sentiu quando foi anunciada a sua vitória. Como foi ver o Brasil em peso torcendo por você?
Imagem: ® Divulgação
Samuka: O Undisputed 2024, foi uma experiência surreal, maravilhoso demais! Ver a galera do Brasil lá torcendo por mim, no final das contas a galera do Japão também tava por mim, então foi uma parada louca demais! Tava numa fase da minha vida um pouco down e veio esse campeonato, eu não tinha expectativa nenhuma, eu me senti super sem estima lá, e de certa forma isso é ruim, mas também é muito bom. Sabe, dá um gás, dá um ranço, não sei se é a palavra certa, acho que dá um gás ali a mais, então poder provar para mim mesmo que era possível, e provar para a galera também que era possível, foi um tapa na minha cara primeiramente. Foi muito louco, só eu sei o quanto eu treinei ou batalhei para chegar lá. E a galera que estava à minha volta também, o Perninha também estava naquele momento, ele é um dos moleques que, tipo assim, tá comigo desde o início, eu chamo ele de coach, que é alguém que sempre me apoiou e muitas vezes quando eu desacreditei de mim, ele tava lá acreditando, e tipo, ele acreditando em mim, me dava poderes, é o que eu falo, quando eu tô feliz, tudo isso vem à tona e ele é uma das pessoas que me deixa muito feliz, foi mágico.
BW: Como você analisa o Breaking Brasileiro em relação ao Breaking do resto do mundo? Onde exatamente estamos e para onde estamos indo? Como você vê o futuro do Breaking brasileiro? Se pudesse dar um conselho para a nova geração de B-Boys e B-Girls do Brasil, o que diria?
Samuka: Cara, o Brasil, em comparação com o resto do mundo, tem muito potencial, mas infelizmente estamos um pouco atrás. Não é igual o investimento, por exemplo, que um país como a China coloca no Breaking, um país como a Rússia, um país como os da Europa. Galera tem que ralar pra caramba, muitas vezes já, a responsabilidade chega muito cedo, então é difícil conseguir viver do Breaking, tem um tempo ali para treinar e se dedicar somente para isso, não é igual aos outros países. Não é impossível, mas é difícil. Então, toda a molecada e da nova geração, se realmente quiser viver agora da dança, quiser aproveitar a melhor fase do corpo deve se capacitar primeiro, pensar só na parte da dança não basta, deve pensar no contexto geral. Um bom dançarino não quer dizer que você seja um bom profissional, então seja um bom dançarino e profissional. Fale outra língua, aprenda a falar com as pessoas, aprenda a administrar sua carreira ali, converse com quem sabe, aprenda, não tenha ego, não tenha medo de perguntar, tenha humildade de perguntar e aprender, escute mais, e se o país não está te apoiando, vai, viaja, não tenha medo de arriscar, vai para algum lugar que está te apoiando, não deixe de representar seu país. Eu comecei a morar fora, comecei a ter mais condição, mais oportunidade, nem por isso eu deixei de representar meu país, no meu caso tenho muito orgulho de ser brasileiro, de representar o Brasil, eu nunca representei outro país e nem quero. Porém, a gente tem que ser bem honesto. Não tem como continuar num lugar ou num país que não te dá suporte pra fazer o que você gosta, o que você ama tendo potencial pra ser bom.
Imagem: ® Divulgação
BW: Quais são suas expectativas para a Red Bull BC One? Como se preparou? Veja, Tóquio é mágico para os Brasileiros! Você ganhou Undisputed em Tóquio. Neguin ganhou Red Bull BC One em Tóquio. Está pronto para ganhar aqui no Brasil e para em Tóquio ajudar o Brasil a lavar a alma depois de 15 anos sem levantar e trazer o cinturão do grande Touro Vermelho para o Brasil?
Samuka: Red Bull, 2025 São Paulo, zero expectativas, quero me divertir, quero dar o meu melhor, acho que é isso que importa no final das contas, no final do dia. Tem muita gente boa, esse ano tá muita gente forte, o que é muito da hora, então sei que independente do resultado, eu sei que o Brasil vai ser bem representado lá fora, então eu tô bem tranquilo. Obviamente eu vou dar o meu melhor, quero ganhar! Vou dar o meu melhor pra fazer isso acontecer! Vou. E se for da vontade de Deus, vai tudo dar certo! Quem sabe esse ano posso estar no Japão e quem sabe do lado do Neguin com esse cinturão aí, né? Com ele nas costas!?
BW: Que mensagem você deixaria para os brasileiros que torcem por você e para aqueles que se inspiram em você e na sua história?
Samuka: E a mensagem que eu tenho para deixar para a galera é minha gratidão, por todo amor e carinho, pelas mensagens, pela energia e por tudo, por tudo mesmo. Muitos momentos que eu pensei em desanimar, sei lá, sempre a galera teve comigo, então eu sou grato mesmo e espero que a galera possa se inspirar mesmo e chegar a lugares maiores e mais altos e poder inspirar mais gente ainda, espero que a gente possa compartilhar essa mensagem de gerações em gerações e que possa atingir mais e mais pessoas.
Agradecemos ao B-Boy Samuka pela disponibilidade de nos conceder essa entrevista e à assessoria de imprensa da Red Bull BC One por intermediar esse encontro.
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Foi com essa energia do bem que Denílson Alves dos Santos (26), de Guaianazes, zona leste de São Paulo, na Cultura Hip-Hop conhecido como B-Boy Baby, conversou com o Portal Breaking World, falando de sua história e caminhada no Breaking e na vida!
Nesse papo falou sobre família, Breaking cultura e esporte, sobre grandes eventos do passado, essência, referências, treinos, lesões e principalmente a respeito de ser manter estável, psicologicamente, emocionalmente e financeiramente! “O mundo precisa de pessoas boas e o resto é consequência” é dele essa reflexão que desejamos que inspire você, leitor, a ser sempre pelo certo, pelo bem, nunca desistindo dos seus sonhos. Continuar é o foco, por mais difíceis que as coisas possam parecer! Fé no corre!
Confira essa entrevista que acabou de sair do forno:
BW: Queria que você nos falasse seu nome completo, idade e nos contasse um pouco da sua infância: onde nasceu e cresceu? Foi uma infância tranquila ou houve dificuldades? Que lembranças tem dessa época?
Baby: Eu sou Denílson Alves dos Santos, tenho 26 anos. Sou de Guaianazes, zona leste de São Paulo. Minha infância foi tranquila em alguns aspectos, foi uma infância bem vivida. Eu brinquei bastante, tive muitas amizades, joguei muita bola, andei muito de bicicleta. Brincava bastante com as brincadeiras da época que tinha, mas também houve dificuldades, sim. Eu sou de uma família humilde, periférica, mas meus pais nunca deixaram faltar nada, porque os meus pais sempre fizeram correria para ter. Meu pai é pedreiro e a minha mãe cuidava da casa. Eu tenho uma irmã autista, então, essa minha irmã depende muito da minha mãe. As duas são bem grudadas, tenho irmãos também. Então, foi bacana o tempo da escola, mas eu não tinha uma autoestima muito legal, por ser um preto e tal, sofri muito bullying com o cabelo que eu tenho. Mas foi na minha infância que eu conheci o Breaking!
De família humilde e periférica, Baby sofreu bullying mas o Breaking o ajudou a superar os problemas de autoestima. Imagem: ® Arquivo Pessoal
BW: Como foi isso? Quando surgiu o amor pelo Breaking? Onde aprendeu? Teve alguém que te ensinou os primeiros movimentos?
Baby: A partir daí comecei a ter minha personalidade e escolher esse caminho. Eu conheci a Cultura Hip-Hop entre 2008 e 2009, foi por meio do DVD Red Bull BC One 2005 muitas pessoas começaram através desse DVD, tinha um amigo meu que tinha um irmão que dançava Breaking e esse amigo nosso trouxe esse DVD para gente e através daí começou o encanto pelo Breaking. Fomos para rua tentar fazer os passos iguais dos dançarinos dessa época, que são conhecidos hoje mundialmente e até então encontrávamos uma divulgação aqui numa escola do meu bairro, onde estava acontecendo aulas de Hip-Hop e aí foi o meu primeiro contato com o Breaking e com os fundamentos, com pessoas me ensinando, foi a partir daí e até hoje essa pessoa que me ensinou os primeiros passos, o B-Boy Jean, até hoje somos muito amigos, somos da mesma crew e através daí eu fui tendo outros mestres. Fui conhecendo outras pessoas e outros lugares de treino. E assim foi fluindo!
BW: Existiram pessoas que foram referência na dança para você aqui ou fora do país?
Baby: Sim, existiram diversas referências para iniciar minha carreira e de início como foi pelo DVD da Red Bull daquela época, tiveram algumas pessoas, eu sempre gostei de coisas de flexibilidade, gostava do Lilou. No Brasil, tive muitas referências com o pessoal da Gangstyle, que era uma crew de muita referência, inclusive eu fiz parte dessas crew também. O Lula foi uma referência. O B-Boy Megaman foi uma grande inspiração, no início e até hoje.
B-Boy Baby foi um dos destaques da última edição do Breaking Combate, um dos mais tradicionais campeonatos do país. Imagem: ® The Sarará
BW: Na sua família você é o único que dança? Teve apoio da família quando começou a dançar?
Baby: Na verdade não. Quando eu comecei o meu irmão Denis também estava lá no Brasileiro, nós começamos juntos, na mesma época, então, vivemos os mesmos momentos e hoje em dia ele continua dançando, somos da mesma crew, moramos juntos e continuamos dançando até hoje. Referente ao apoio, na época, né, por ser algo novo e por eu vir de uma família antiga que não tinha muita informação, eu era proibido de treinar pelo meu pai. Eu ia treinar escondido às vezes, sabe? Eu dançava escondido porque o Breaking não tinha como, eu estou aqui até hoje. Com o tempo, fui recebendo apoio, no decorrer dos anos fui envelhecendo, meu pai foi vendo que não era exatamente isso que ele pensava. Na época, falava de Hip-Hop pensava na rua, em coisas erradas. Mas isso era falta de informação que depois chegou.
BW: De onde surgiu o nome Baby que você usa até hoje na dança?
Baby: Esse apelido é bem antigo, eu era chamado de Baby bem antes de dançar, era um apelido que eu não gostava, na verdade, foi meu irmão que me apelidou com esse nome. Eu era novinho, era bem chorão, então, por causa da “Família Dinossauro” (risos) me apelidaram de “Baby”. Eu não gostava, mas ficou e está aí até hoje!
BW: Quando começou de fato a competir? Nos fale dos eventos que foram os mais especiais até hoje na sua vida e porque te marcaram…
Baby: Quando eu comecei, mesmo não tendo nível para competir, eu sempre gostei da energia da competição. Das batalhas e dos desafios! Então, eu comecei bem cedo nas batalhas, 2010 eu já batalhava! Mas as que mais me marcaram foram Rival vs Rival 2015, Master Crews, onde fomos finalistas, eu fazia parte da Gangstyle na época, foi em 2013. Mas no Rival eu competi ao lado meu irmão Smoke e tinham várias duplas de alto nível e eu lembro que enfrentamos também duplas de outros países, foi muita gente de fora, então, foi muito marcante, porque o Rival vs Rival era um evento que nós acompanhamos muito no início da nossa carreira e é um evento que sinto falta até hoje, foi importante para nossa carreira e sempre foi um evento de alto nível nacional. Tem muita história, muita trajetória e todo um emocional. Estava eu e meu irmão, então, foi um momento muito nosso! Foi bacana essa experiência!
BW: Você, Baby, sempre tem uma grande torcida nos eventos, nos fale sobre essas pessoas, sobre sua crew e como é a relação de vocês.
Baby: Sobre as torcidas, eu acho bacana! Principalmente os meus amigos, minha crew é um sentimento bem real nesse momento! Eu acredito que conheçam a minha história, talvez achem que vai chegar junto nessa energia, eu sempre busco transmitir uma boa energia em todo lugar que eu estou, então, eu não vou falar que sempre foi dessa forma, mas é uma essência que temos de amizade, muito de alegria, de festa, principalmente minha crew que acompanha o meu crescimento e ficam felizes por isso e as pessoas que são reais comigo da Cultura também ficam felizes, porque eu tenho uma trajetória no Breaking, eu já passei por diversas situações também na minha vida, então, quem conhece a minha história fica feliz quando consigo coisas! E muitos que estão no meio da bagunça viveram muitas coisas comigo, têm uma relação de amizade. Quando eu estava com o Hip-Hop no Vagão, trabalhava muito nos vagões em São Paulo, fazendo muito trabalho artístico, então, sempre tivemos uma energia alta, compartilhando boas coisas! São amizades antigas, vivemos muitas coisas juntos além do Breaking, tanto coisas boas como ruins. É uma conexão que acaba gerando num momento de alegria com amizades antigas e também amizades que chegaram agora!
Este mês B-Boy Baby foi o campeão do RV Power, em Diadema. Imagem: ® Breaking World
BW: Como você vê os eventos que acontecem hoje em dia no Brasil? Você já competiu fora do país?
Baby: Com mais estrutura, mais oportunidades, as premiações melhoraram, mas sinto que perdeu a essência… Hoje em dia não vejo mais uma essência como antigamente, que existia muitas crews, hoje em dia não tem muitos eventos de crew, antigamente víamos as crews como família, cada família no seu canto, todo mundo com as camisas iguais, fazendo grito de guerra e isso se perdeu com o tempo, porque a estrutura, valores, não é ruim ter uma premiação alta, porque precisamos disso também para sobreviver, isso é um trabalho, que exige uma dedicação muito grande, leva anos… Mas a essência se foi um pouco e hoje é tudo diferente… Hoje é mais estrutura “hype”, mais a imagem, mas a essência real foi perdida e referente a competir fora do país, sim, já morei fora, morei em Santiago do Chile e eu competi e ganhei alguns títulos por lá. O meu primeiro título internacional foi o Surbreakers, foi bem bacana, foi em 2019, ganhamos também passagem para uma competição em Porto Rico, que não foi possível por causa da pandemia. Foi bem bacana, porque morei um ano lá e tive experiência também como arte-educador além do Breaking.
BW: Como são os seus treinos? Quantas vezes na semana e quantas horas treina? Como você descreve a sua dança?
Baby: Hoje em dia os meus treinos são mais conscientes. Eu tive algumas lesões no decorrer dos anos por falta de informação e teimosia também, confesso. Eu pratico Yoga, alongo pela manhã, faço minhas meditações, busco me centrar bastante. Também faço fortalecimentos específicos, fisioterapias com banda elástica, malho sempre, houve uma necessidade de ter um preparado de atleta, mesmo antes de ter sido anunciado como esporte olímpico, atendendo as necessidades do meu corpo. O Breaking eu treino de 2 a 3 horas, somando tudo pode dar 5 a 6 horas de trabalho corporal. Antigamente, eu me movimentava bastante, também trabalhava no vagão, fazia shows, também tinha ensaios, eu sempre busquei treinar o meu Breaking fora as outras atividades. Sempre me mantenho ativo e com os treinos em dia. Descrever a minha dança vai muito com a minha realidade de vida, as minhas dificuldades, as minhas guerras internas e busco essas inspirações da minha família. Minha maior inspiração é a minha família, pelo que os meus pais correram e eu busco muito essa questão. Às vezes treino todos os dias, ando de bicicleta e às vezes descanso.
Consciência para evitar lesões e evoluir sempre. Imagem: ® Breaking World
BW: O Breaking, que sempre foi um elemento da Cultura Hip-Hop, agora também virou esporte e será a nova modalidade olímpica de Paris 2024. Você participou do Primeiro Campeonato de Breaking como Esporte da CNDD. Como você vê todas essas mudanças de cultura para esporte?
Baby: O Breaking nunca vai deixar de ser cultura, mesmo estando inserido nos jogos olímpicos, estamos nas próximas olimpíadas agora também. Eu acho que ele segue como cultura, mas expandiu para o esporte e isso é bom, porque será mais visto pela mídia, pelas pessoas antigas também que viam de uma forma ruim e agora vão entender que é algo profissional, porque quando falamos esporte mostra que é algo profissional e dentro da cultura é profissional também, então, acho que é uma boa expansão, mas ele sempre vai seguir sendo cultura, expande para o esporte e vêm as oportunidades.
BW: Na sua opinião quais são as reais chances do Brasil nas Olimpíadas de 2024? Hoje em dia seu foco são as Olimpíadas? Como tem se preparado para esse grande evento? Quais são seus planos para o futuro?
Baby: Na minha opinião o Brasil tem chance, estamos mais próximos com a organização e o top 3 que rolou na CNDD foi bom, mesmo que eu queira estar preciso entender que os que estão à frente de mim são pessoas que às vezes já percorreram o que eu estou percorrendo, é uma questão de processos, aprendizados e experiências. Mas se eu tiver oportunidade de ir, vou dar o meu máximo, hoje em dia tenho me preparado bastante, busco ser mais consciente em diversas coisas, sigo treinando, aprendendo muitas coisas e buscando novas oportunidades, apoios e cuido do meu interno, que é o mais importante. Os meus planos para o futuro são saúde minha e ao meu redor, minha família, meus pais, cuidar da saúde deles, então, essas oportunidades eu busco entregar o melhor para a minha família e isso me mantém estável. Tanto psicologicamente, quanto emocionalmente e financeiramente!
Priorizar a saúde e a família para continuar tendo êxito como dançarino e atleta de Breaking. Imagem: ® Reprodução
BW: Deixe uma mensagem para os leitores do Portal Breaking World e para quem acompanha a sua dança.
Baby: Primeiramente, gratidão pela oportunidade, pela consideração do meu trabalho e trajetória. Feliz em poder compartilhar um pouco da minha história com vocês, é de grande importância para mim tudo isso! Tô ligado que existem muitas pessoas que não acreditam no meu corre, até sentir minha energia e meu Breaking! Porém, sei que tenho muito o que melhorar e trabalhar na minha dança. Eu sou muito grato por aqueles que acreditam realmente nisso aqui, isso me motiva a seguir! Independentemente de qualquer situação, não deixe de acreditar no seu potencial, não… Aprenda com os seus erros, trabalhe em cima disso, escute seu coração e nutra-se com todos os aprendizados possíveis! Seja leal consigo mesmo, só você sabe o coração que você tem… A humanidade precisa de boas pessoas, foque nisso e o restante virá como consequência… Muita fé no corre!
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Ele nasceu em Caxias, que é um município no estado do Maranhão, no Meio-Norte do Brasil. Morou parte na roça e outra parte na cidade. Mas foi quando mudou para Brasília, onde mora até hoje, que teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop por meio do Rap, que escutava na rádio e também com o Breaking, por meio de um conhecido da família, depois pela internet e com pessoas que praticavam o Breaking nos arredores de Brasília. Estamos falando de Mirley Allef Santos Carvalho, na cena conhecido como B-Boy Allef ou Allef The Deep. Quem esteve na última Red Bull BC One Cypher Brasil, que aconteceu em São Paulo, pode acompanhar de perto sua espetacular participação na semifinal, numa batalha com o B-Boy Bart e na final, contra o B-Boy Leony, conquistando o público presente. Fora dos palcos e longe das competições Allef, que é um gigante na dança e também na gentileza, transbordando calmaria, mostrou sua personalidade reflexiva, gentil e tranquila ao conversar com o Portal Breaking World e declarou que o “segredo” do seu sucesso não foi sobre defender o próprio estilo, mas também sobre mostrar para o mundo que se alguém acredita no que é, acredita na própria personalidade e consegue expressar isso dentro da arte, é possível alcançar o mundo! Confira essa primeira entrevista do ano no Portal Breaking World, na íntegra:
BW: Queria que você nos falasse um pouco da sua infância, onde nasceu e cresceu. E que lembranças tem dessa época? Você é o único artista da sua família?
Allef: Nasci em Caxias, no estado do Maranhão, tive uma boa infância, morava parte na roça e parte na cidade, estava sempre brincando na rua e ajudando minha família nos trabalhos, minha família é totalmente evangélica, então, eu também estava sempre acompanhando (principalmente minha avó) na igreja e cultos, tenho boas lembranças dessa época. Mas, hoje em dia, não sigo nenhuma religião, moro em Brasília (DF) e sou o único artista da minha família.
B-Boy Allef em ação na Red Bull BC One Brazil 2022, onde foi vice-campeão Imagem: ® Reprodução
BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? Verdade que conheceu o Breaking aos 14 anos por meio de um rapaz que cuidava das plantas da sua mãe? Como foi isso? O que mais te encantou ou te chamou a atenção?
Allef: Meu primeiro contato com a Cultura Hip-Hop foi quando eu mudei do Maranhão para Brasília, através das músicas que passavam na rádio, os Rap’s que as pessoas escutavam na rua e mais, depois através desse rapaz que, na verdade, ajudava a capinar o lote na casa da minha tia e mãe e que um dia fez um movimento pra me impressionar e isso me encantou, na hora eu quis também ter esse poder de fazer esses movimentos com o corpo, então comecei a treinar e hoje eu tenho essa percepção de que o que realmente me encantou aquele dia foi a possibilidade de encantar as pessoas com o movimento, o corpo, a dança.
BW: Como continuou o aprendizado? Onde aprendeu de fato os primeiros movimentos da dança? Teve alguém que te ensinou cada movimento?
Allef: Mais tarde eu continuei o aprendizado pesquisando na internet e foi assistindo vídeos que eu acabei aprendendo todos os movimentos básicos da dança. Depois, encontrei lugares e pessoas que praticavam nos arredores de Brasília e comecei a treinar junto.
BW: Em que ano começou a competir? De todos os eventos que participou até hoje tiveram aqueles que foram especiais, que marcaram sua vida? Pode falar desses eventos?
Allef: Com um ou dois anos de dança eu participei da minha primeira batalha, mas quando eu decidi focar em batalhas mesmo foi por volta de 2014, com 6 anos de dança, foi uma época que estavam acontecendo muitas batalhas de Top Rock em Brasília, eu acompanhei muitos B-Boys que eram mesmo apaixonados por essa parte do Breaking e isso me motivou a focar em batalhas de Top Rock e, nesse foco, fiquei até por volta de 2018, que foi quando eu participei do meu primeiro BC One Cypher Brazil, que aconteceu no Rio Grande do Sul e me classifiquei para a final nacional, que acabei sendo finalista e ali que eu enxerguei a minha potência em batalhas individuais e, a partir disso, decidi focar no 1vs1 e hoje, estou onde estou. Falando dos eventos atuais, o que marcou a minha vida foi a minha participação no The Notorious IBE Undisputed 2022.
BW: Allef, você vem nos últimos anos se destacando em vários eventos nacionais e internacionais e, esse ano de 2022, chegou na final da Red Bull BC One Cypher Brazil. Passou na semifinal pelo B-Boy Bart e depois competiu com o B-Boy Leony, à essa altura, a maioria do público presente já torcia e vibrava com a sua dança. Defender o seu estilo é um dos segredos do seu sucesso?
Allef: Acredito que o “segredo” do meu sucesso não é só sobre defender meu estilo, mas também sobre mostrar para o mundo que se você acredita em quem você é, acredita na sua personalidade e consegue expressar isso dentro da sua arte, você pode alcançar o mundo através da plataforma que é, ser você dançando Breaking.
Na batalha final contra o B-Boy Leony, Allef conquistou a torcida com seu estilo único Imagem: ® Reprodução
BW: Alguma vez sofreu preconceito por ser diferente de todos na dança?
Allef: Com certeza, principalmente e infelizmente no Brasil, a gente vive em um país preconceituoso e isso reflete e atrasa muito a nossa cena, o preconceito e o mal julgamento é uma das coisas que eu profundamente luto pra que acabe na cena do Breaking brasileiro, quando os brasileiros deixarem de julgar e falar mal de quem é diferente (que são todos, por que ninguém é igual) ou de quem tá conquistando algo, a cena do Breaking brasileiro vai avançar décadas à frente, nós somos um país continental, uma nação gigantesca, imagina se todos se apoiassem?
BW: O que você sente quando entra numa batalha? É o Allef que está ali ou existe um personagem criado para aquele momento? Fale um pouco sobre a sua dança e o que tenta passar sempre que participa de algum evento? Vale destacar a recente batalha entre você e o Lussy Sky, onde vocês deram um show não só de Breaking, mas de performance artística durante a competição. Fale sobre esse momento?
Allef: Quando eu entro numa batalha eu sinto o meu mais profundo eu, pronto pra deixar minha mensagem através da minha dança. Não tenho nenhum personagem, é sempre o meu eu mais verdadeiro em palco e campo de batalha. A batalha com o Lussy Sky, foi uma brincadeira, a gente já faz essa brincadeira de lutar em “slow motion” sempre que se encontra, quando ele viu que iria batalhar comigo ele veio até mim e disse que era um orgulho fazer uma batalha comigo e iria dar o melhor, eu também fiquei muito feliz em saber que ia batalhar com ele e entreguei meu melhor naquela batalha, durante o round final, ele começou a brincar e me chamar pra esse “slow motion fight”, eu percebi e entrei na brincadeira, foi totalmente uma cena de improviso, a gente estava mais preocupado em entregar nosso melhor um pro outro, pro público e pra nós mesmos, esse show que fizemos foi o resultado de tudo isso.
BW: O Breaking agora virou uma modalidade olímpica, como você vê essa mistura cultura e esporte? Na sua opinião, como será no futuro tudo isso?
Allef: Falando de cultura e esporte eu ainda não me sinto como um atleta, acho que tenho muito mais uma personalidade artística do que “atlética”, sabe? Mas eu admiro muito e quero ser mais inspirado por isso. E eu acho que as olimpíadas nos deram mais uma plataforma para fazer o Breaking, mais motivação pra muitos e mais algumas oportunidades, o futuro disso tudo é o futuro e isso é imprevisível, o “Breaking olímpico” é muito novo, então, só o que podemos prever é o que estamos vendo agora, uma nova oportunidade e muitas pessoas motivadas por essa nova oportunidade.
Allef dando show na Europa em batalha com o B-Boy Lussy Sky: momento marcante na carreira Imagem: ® Reprodução
BW: Você passa uma tranquilidade, uma calmaria quando compete, isso ajuda na sua dança? Como são as rotinas dos seus treinos?
Allef: Isso me ajuda muito! Eu, por exemplo, não sou uma pessoa apressada, barulhenta, estressada… sou bem calmo, silencioso, tranquilo e junto disso aprecio muito dançar Breaking com a minha personalidade. E essa personalidade só me dá vantagem e tempo pra reproduzir meus movimentos, expressar meu eu na minha dança e transmitir essa calma.
BW: Além da dança, você também é “film maker” e fotógrafo da cena de Hip-Hop. Como consegue fazer tudo junto?
Allef: Trabalho muito, trabalho muito mesmo e organizo meu tempo pra que durante o dia eu sempre consiga ter tempo pra trabalhar, estudar, editar meus vídeos e praticar meu Breaking.
BW: Recentemente, você esteve fora do Brasil junto com a Maia. Nos fale um pouquinho dessa vivência, como foi essa viagem fora do Brasil?
Allef: A viagem foi incrível, eu com a Maia nos organizamos muito bem, na parceria a viagem acaba ficando mais “prática” pois a gente se ajuda muito e conseguimos aproveitar de todas as experiências e oportunidades que fizemos acontecer e que apareceram na nossa frente.
BW: Quais são os planos para o futuro?
Allef: Tenho muitos planos pros próximos anos, mas os planos que eu tenho mais expectativa são para esse ano de 2023 e que já estão se concretizando, não posso dizer agora, mas em breve todos vão saber.
BW: Deixe uma mensagem para todos que curtem a sua dança…
Allef: Olhe pra você, ame você, mude você, escute e siga os bons conselhos de quem você gosta ou ama e se torne melhor do que você é todos os dias, acredite que dançar e se inspirar no que você é e no que você gostaria de ser no futuro, é o melhor caminho pra se encontrar. Dê o seu melhor pro mundo, apoie as pessoas que você admira e as pessoas que você não admira não precisa fazer nada, lembre-se que quando falamos de Breaking, todos que vivem nessa cultura estão no mesmo barco. Sinta um abraço.
Imagem em destaque: B-Boy Allef – ® Reprodução
Allef x Bart na Red Bull BC One
Allef e Maia: parceria na vida e no Breaking
B-Boy Allef
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B-Girl chinesa, de apenas 16 anos, vence a Outbreak Europa e The World Battle, mostrando que o futuro já chegou, é completo e tem pressa de subir no pódio
Em 2021, a Olimpíada de Tóquio consolidou a China como uma das maiores potências olímpicas do mundo. O país asiático era o que tinha conquistado mais medalhas de ouro nos Jogos e ocupava o topo do ranking à frente dos EUA, algo que no passado só foi visto em Pequim, em 2008, quando os chineses foram anfitriões.
Agora, em 2022, a China se destaca novamente, dessa vez no Breaking, nova modalidade olímpica de Paris 2024.
E o grande nome que faz todos os holofotes se voltarem para esse país asiático é de Liu Qingy (16) conhecida como B-Girl 671, que foi campeã no Outbreak Europe realizado na Eslováquia no mês de agosto, com a participação de mais de 30 países, representados por 600 dançarinos de Breaking. Ela chegou na final, mostrando um novo padrão para as B-Girls do mundo inteiro, com seus movimentos de Power Move e sua energia diferenciada. Nas finais, ela enfrentou a veterana holandesa B-Girl India e a venceu por dois a um.
Nessa última semana, 671 também participou da World Battle 2022, que foi na cidade de Porto, em Portugal, que é uma das maiores competições de Breaking da Europa e recebeu atletas de mais de 50 nacionalidades. No evento, ela se sagrou novamente campeã, indo na final contra a B-Girl Vanessa, de Portugal. O Portal Breaking World fez uma rápida entrevista com a B-Girl 671, que hoje apresentamos com exclusividade para vocês:
BW: Qual é o seu nome de nascimento? De onde veio o nome B-Girl 671? Esse número tem um significado especial para você?
671: Meu nome verdadeiro é Liu Qingyi. Tenho 16 anos. Eu sou da China. 671 é o meu nome em chinês. Esse nome foi dado por mim, sim.
BW: Sua família sempre te apoiou na dança? Como é ser uma B-Girl na China?
671: Eles sempre me apoiam. E em nosso país, o Breaking é uma coisa muito popular. Comecei a dançar em 2015.
B-Girl 671 campeã da Outbreak Europe 2022 Imagem: ® Little Shao
BW: Quando você teve contato com a Cultura Hip-Hop pela primeira vez? Com que idade você começou a aprender os primeiros movimentos? Alguém te ensinou?
671: Lembro que 7 anos atrás, eu vi na rua. Aí eu perguntei para alguém, eles me disseram que era Breaking. Eu gostei muito, então decidi estudar. Encontrei um estúdio de dança de rua. Então comecei a dançar.
BW: No Breaking, você teve pessoas que foram referência para você?
671: Sim, B-Boy Flea Rock, B-Boy Zoopreme
Comitiva chinesa na The World Battle, onde 671 foi campeã Imagem: ® Maiur Narendra
BW: Você venceu recentemente a categoria B-Girls no Outbreak e agora no The World Battle. Conte-nos sobre sua participação nesses dois eventos e como você se sentiu ao conseguir o 1º lugar em ambos?
671: Consegui ser campeã nesses dois eventos, estou muito feliz. São competições muito grandes e internacionais. Ambos foram os melhores resultados que já tive. Então, foi incrível.
BW: Você já esteve no Brasil? Gostaria de deixar alguma mensagem para os brasileiros?
671: Eu não estive no Brasil. Mas quem sabe um dia irei. Gostaria de agradecer o apoio do Portal Breaking World e a atenção. Obrigada pela oportunidade dessa entrevista.
Imagem: ® Suzana Luzir
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Ele esteve recentemente comandando as batalhas mais brabas da Red Bull BC One no Brasil e, também, B-Boys e B-Girls que desejam treinar ao som deste mestre das pickups podem encontrá-lo no Streetopia, quase todas as quintas à tarde, em São Paulo. O Portal Breaking World teve o privilégio de conversar com o DJ MF e trazer um pouco de suas vivências e opiniões ao longo da sua caminhada. Leia a entrevista:
BW: Carlos Augusto Soares, conhecido no mundo artístico como DJ MF. Queria que nos contasse um pouco sobre sua infância, onde nasceu e cresceu e que lembranças tem dessa época?
MF: Nasci e cresci em Pirituba, me lembro que era rua de terra, gostava de ficar brincando na rua… tinham as festas da família, já tinha um primo que tocava… na época, usava dois toca-fitas… rolava muito Samba, Samba-Rock e Funk [original].
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Quando nasceu o amor pelos toca-discos?
MF: A Cultura Hip-Hop entrou na minha vida de uma forma tão natural que nem me lembro… quando eu era criança, passava o filme “Break Dance” na Sessão da Tarde. Como falei no começo, meu primo foi a primeira referência de discotecagem (mas ele usava toca-fitas!), quando vi um clipe do Gang Starr, o DJ Premier fazendo scratches, na hora vi que eu queria tocar daquele jeito, um tempo depois, fui no show do Racionais MC’s, o KL Jay apavorou… pensei: quero ser uma mistura de KL Jay e DJ Premier!
BW: Quem eram os grandes DJ’s quando começou? Quem foram suas referências? Se inspirou ou recebeu apoio de alguns deles?
MF: Conheci Grand Master Nice (da Black Mad) falei que queria ser DJ, ele começou a me mostrar várias músicas… falava que DJ tem que conhecer música… por último, não menos importante, conheci o DJ Ninja, que me ensinou sobre técnicas. Depois, tive contato com KL Jay, ele ajudou muito também.
BW: Verdade que também começou em bailes de bairro, tocando com equipamentos emprestados? Quais foram as maiores dificuldades nessa época?
MF: Comecei tocando nas festas de garagem, com dois aparelhos 3 em 1… depois, um amigo comprou um equipamento de DJ, mas era o mais simples, a casa dele entrou em reforma e deixou tudo comigo… sorte que a reforma demorou (risos).
Dificuldades não impediram que o DJ se torna-se uma referëncia na cena nacional Imagem: ® Rafael Berezinski
BW: Fale de suas experiências fora do Brasil, nos conte um pouco da sua caminhada e de sua carreira internacional?
MF: Tive o privilégio de ir para 11 países… alguns deles foram mais de 3 vezes… comecei pela América Latina, depois Europa e Ásia (e pretendo ir além!).
BW: MF, a mistura feita com muita harmonia, das músicas novas e das antigas, é uma característica do seu trabalho. Fale um pouco como você faz a seleção dessas músicas, que no fim agradam tanto quem está na pista?
MF: Quando toco em festa vou muito pelo momento… sempre penso em algo, depois mudo na hora (risos).
BW: Tocar em batalhas, para B-Boys e B-Girls e comandar grandes eventos como você fez recentemente na Red Bull BC One é um trabalho que tem suas complexidades? O que jamais pode acontecer quando se está à frente de eventos como esses? Existem aquelas músicas mais esperadas? E as menos desejadas no gosto da galera?
MF: Tocar em grandes eventos de Breaking é uma responsabilidade enorme… lida com o sonho de competidores… não podemos perder a concentração… no caso da BC One têm as músicas próprias, por uma questão de direitos autorais… são mais de 1.000 músicas… tento escolher as melhores no meu conceito.
Imagem: ® Rafael Berezinski
BW: Gostaria que você falasse da importância do trabalho dos DJ´s dentro da Cultura Hip Hop. Falando de valorização, no Brasil você acha que os DJ´s são valorizados como deveriam?
MF: Começando que foi um DJ que fez a festa e o outro deu o nome de Hip-Hop… e os B-Boys e B-Girls mantiveram com força… acho que o Brasil não valoriza a Cultura DJ… têm alguns eventos que sim… mas, de um modo geral, não… temos o Erick Jay, multicampeão e as marcas preferem colocar influencers para tocar (Não são todas! Mas a maioria).
BW: Onde está Pelezinho está o DJ MF! Nos fale dessa amizade e dessa parceria que vem dando tão certo ao longo dos anos. Quantos anos são de amizade e de trabalho?
MF: Minha amizade com Pelezinho veio do trabalho… pegamos uma sequência de trabalho juntos e nasceu a amizade… ele hoje é como um irmão… em casa, minha família tem ele como parte dela: mãe, irmã, tios e primos. O Pelezinho não mistura as coisas, se eu errar, sou cobrado! A amizade continua, mas não me chama mais para trabalhar. Quem conhece ele tá ligado!
BW: Fale de suas produções. Está trabalhando em algo novo?
MF: Estava sim, mas meu computador deu pau, perdi tudo!
BW: MF, cada profissão com o passar do tempo tem suas dores… que dores normalmente sentem os DJ’s?
MF: DJ’s sentem dores nas costas e, alguns, tendinite, por isso precisam se cuidar.
DJ MF e os manos do Pavilhão 9 Imagem: ® Arquivo Pessoal
BW: O Breaking vive uma realidade olímpica. Tocar como DJ numa olimpíada seria algo que você gostaria de vivenciar?
MF: Sempre gostei de esportes, pratiquei vários… acompanho vários também… meu sonho era ir para uma Olimpíada como atleta… como DJ seria incrível!
BW: Que mensagem você deixaria para os DJ´s que estão começando e para todos os leitores do Portal Breaking World?
MF: Amem o que vocês fazem, respeitem e queiram sempre evoluir… terão momentos difíceis, mas não desistam.
Imagem: Rafael Berezinski
Imagem: ® Arquivo Pessoal
Imagem: ® Julio Nery
Imagem: ® Rafael Berezinski
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“Queria mostrar ao mundo a beleza de nossa cultura. No meu ambiente, meus pais e amigos nunca levaram o Breaking a sério, então, eu encontrei uma maneira de mostrar a eles que éramos super-heróis” (Little Shao)
Ele é de família vietnamita mas nasceu em Paris, cidade conhecida como a capital europeia da Arte ou Cidade das Luzes, que durante séculos e até hoje ainda recebe de braços abertos as mentes mais complexas, iluminadas, incríveis e brilhantes nas diversas vertentes das artes. Thinh Souvannarath, mais conhecido como Little Shao, escreveu seu nome na história mostrando toda sua paixão pelo Breaking através de seus cliques, evidenciando a beleza da Cultura Hip-Hop e dos seus elementos. Desde o início, esteve totalmente envolvido na cena underground. Passou toda a infância nos subúrbios de Paris, onde conheceu o Hip-Hop. Aos 14 anos começou no Breaking. Entrava em batalhas e também fotografava e testemunhava os principais eventos de Breaking. À medida em que se aprofundou, sentiu que havia falta de documentação fotográfica. Naquele momento, começou a analisar todas as fotografias que tinha tirado ao longo da sua caminhada. Decidiu que queria mostrar a sua visão da cena. Queria produzir registros de Breaking melhores do que qualquer outra coisa que já tinha sido feito na vida e levar a fotografia de dança para outro nível. Uau! E não é que ele conseguiu?! Essa semana durante a Red Bull BC One em São Paulo, o Portal Breaking World teve a oportunidade de conversar com Shao e apresentar para vocês, breakers, essa entrevista exclusiva e super especial, confira abaixo:
BW: Eu gostaria que você nos falasse sobre suas origens, onde você nasceu e cresceu. O que veio primeiro em sua vida, o amor pela fotografia ou o amor pelo Breaking? Quando e como isso aconteceu?
Little Shao: Minha origem é vietnamita, mas nasci em Paris, França, depois que meus pais se mudaram para lá para trabalhar. Eu cresci em bairros difíceis, mas meus pais me mantiveram muito focado na escola, mesmo que eu passasse todas as minhas noites e fins de semana brincando ao ar livre. Eu tinha um grande interesse em tudo, como esportes, vários jogos e atividades que me levaram a me apaixonar por Breaking, por volta de 1997. Esta foi definitivamente minha primeira paixão e a fotografia veio mais tarde, como um suporte para isso, como uma forma de arte que era fortemente ligada à dança, para captar e hipnotizar esta cultura. Isso acontece especialmente porque senti que queria mostrar ao mundo a beleza de nossa cultura. No meu ambiente, meus pais e amigos nunca levaram o Breaking a sério, então, eu encontrei uma maneira de mostrar a eles que éramos super-heróis… (risos).
Francês de família vietnamita, Little Shao se tornou referência na fotografia Imagem: ®Arquivo Pessoal
BW: Houve referências ou alguma pessoa especial na dança ou na fotografia que o encorajou a continuar e fazer o que faz com tanta perfeição e excelência?
Little Shao: Acho que minhas referências estavam realmente fora do nosso mundo da dança. Lembro que minha referência era Davehill, um fotógrafo que tinha um render específico de fotografia que se aproximava da pintura, da publicidade. Claro que mais tarde, quando vi as imagens do Red Bull BC One, sonhei em me tornar fotógrafo um dia para este evento e adicionar minha visão a ele, trazendo minha visão a bordo. Acho que minha perseverança, trabalho duro e mentalidade B-Boy me fizeram querer ser o melhor.
BW: Quando você decidiu se dedicar totalmente à fotografia? Foi difícil escolher entre o Breaking e a fotografia?
Little Shao: Em 2007, terminei meus estudos na Escola de Negócios de Paris, com especialização em Finanças. Comecei a trabalhar como consultor no mercado de bolsa de valores e foi realmente o momento em que não consegui encontrar tempo e motivação para praticar, para manter meu nível de Breaking no topo da batalha, então, fiz a escolha preguiçosa de fotografar mais batalhas de Breaking. Essa foi uma maneira de eu permanecer na minha paixão. A fotografia começou a ganhar força para mim entre 2010 e 2012, decidi mudar completamente e me dedicar como fotógrafo profissional em 2012. Todas as minhas escolhas sempre foram difíceis, mas segui meu coração.
O B-Boy que virou fotógrafo mundialmente reconhecido Imagem: ® Arquivo Pessoal
BW: Ser um B-Boy te ajuda a entender e capturar melhor os momentos e sentimentos de cada dançarino que você fotografa?
Little Shao: Sim, claro! Isso ajuda na sua conexão com as pessoas, as formas, os códigos que a gente tem na cultura é superimportante. Quando eu estava dançando, sempre fui superexigente com minhas formas e meu estilo, então, acho que queria refletir isso nas minhas fotos, é claro.
BW: A ausência de registros como documentação fotográfica de Breaking o motivou a intensificar seu trabalho, mostrar tudo o que aconteceu e sua visão da cena?
Little Shao: Sim, naquela época a internet não era o que é hoje, então, acho que era mais fácil não ser mimado e era mais fácil para mim desenvolver minha visão, porque como um B-Boy você sempre quer ser único, não copiar as pessoas. Graças aos meus estudos e dinâmica na escola, por volta de 2005/2006, minha atenção já estava em torno das plataformas sociais, então, eu meio que usei isso para divulgar minhas fotos e documentar nossa cultura.
Little Shao na Red Bull BC One Camp Brazil 2022 Imagem: ® The Sarará
BW: Aqui no Brasil temos bons fotógrafos, mas as condições de trabalho ainda são muito difíceis para a grande maioria. Como estão as coisas no país em que você mora? Conte-nos sobre sua rotina de trabalho, reconhecimento, valorização profissional e, claro, amor pela fotografia?
Little Shao: Ser artista é difícil também no meu país por causa dos números. Eu sinto que temos um acesso mais fácil a equipamentos e tecnologia, mas porque todos podem ter, traz muita competição e para poder viver como artista você realmente precisa ser o melhor. Quando você tem muita concorrência e fotógrafos, o valor cai. Lutei muito pelo meu reconhecimento e valorização profissional, por ter uma forte estratégia de marketing. A chave é como fazer as pessoas entenderem sobre seu custo, sua qualidade, seu profissionalismo e experiência.
BW: Como começou sua jornada na fotografia? Em todos esses anos, houve alguma foto especial que ficou imortalizada em sua carreira? Você pode falar sobre eles?
Little Shao: Comecei a fotografar muitos retratos para dançarinos franceses. Esses dançarinos começaram a viajar muito e usaram minhas fotos para se comunicar, o que me levou a ser convidado como fotógrafo para grandes eventos. Acho que, quando fiz o Urban Dance Camp, achei uma boa ideia fazer fotos criativas misturando dançarinos de todos os ambientes. Misturei bailarinos de coreografias famosas com breakers, com dançarinos de street style, etc… essas fotos viralizaram nas redes sociais porque eu trouxe um estilo diferente, com fotos que chamaram a atenção das pessoas. A estreia do Juste também foi um grande evento que cobri e me ajudou muito. Alguns anos depois, todos esses dançarinos começaram a dançar e coreografar grandes artistas da música, foi quando tive a chance de clicar e colaborar com Justin Bieber, Madonna, etc…
B-Boy Leony, campeão da Red Bull BC One Cypher Brazil 2022 Imagem: ® Little Shao
BW: Como você vê o fato do Breaking se tornar um esporte olímpico? Teremos clicks de Little Shao nas Olimpíadas de Paris?
Little Shao: Sim, eu escutei que meu nome foi cogitado para ser o fotógrafo principal de Breaking nas Olimpíadas, mas nada é certo, então, eu tenho que verificar esse ponto (risos). Nunca sabemos o que pode acontecer… você pode ser o melhor, mas se um amigo do amigo do organizador estiver por perto, essa pessoa pode ser recomendada e não você. Mas para ser honesto, eu ficaria super-honrado de registrar o primeiro evento de Breaking nas Olimpíadas, especialmente porque é na minha cidade! Mas eu acho que o Red Bull BC One é o melhor evento para fotografar.
BW: Você já esteve no Brasil outras vezes? O que você acha do nosso país?
Little Shao: Acho que essa é a minha 6ª ou 7ª vez… vim muito para o Rio e esta é apenas a minha segunda vez em São Paulo. Eu realmente amo este país. Minha primeira vez aqui foi na final mundial do Red Bull BC One, em 2012, e foi um choque para mim. Foi a minha melhor experiência. Eu já atirei com a minha câmera em muitos brasileiros (risos).
B-Boy Menno, campeão mundial da Red Bull BC One 2017 Imagem: ® Little Shao
BW: Esta semana aconteceu um workshop no Red Bull BC One aqui em São Paulo, conte-nos sobre o que apresentou aos brasileiros…
Little Shao: Fiz o possível para compartilhar minhas motivações e inspirar as pessoas. Se eu consegui apenas dar um vislumbre de motivação que tenho em minha alma para eles, então foi um sucesso!
BW: Qual é a sua mensagem para as pessoas que amam seu trabalho e o têm como referência?
Little Shao: Sem Arte, a vida é seca! (risos)
A editora do portal Breaking World, jornalista Luciana Mazza e o fotógrafo Little Shao na Red Bull BC One 2022 Imagem: ® Breaking World
Imagem em destaque: ®Piltosh
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Contar a história sem filtro, abrir espaço para que a verdade apareça, revelar o que foi vivido e construído mostrando o que realmente tem relevância na cena é um dos compromissos do Portal Breaking World.
Nessa entrevista, apresentamos um bate-papo épico que vai sem dúvida causar reflexão e ficar carimbado e registrado na história do nosso Portal e da Cultura Hip-Hop brasileira. Conversamos com o mestre Ellypretoriginal, do DMN. Rimador, professor de rimas, produtor e diretor musical, Elly, sem dúvida, é um dinossauro do Rap Nacional, mostrando que respeito se conquista e não se compra. Só de DMN são mais de 30 anos, entre tantos assuntos e vivências, Elly falou: “A temática e teor de nossas letras, sempre tiveram em seu contexto falar da nossa etnia, dos problemas que o povo preto e pobre da periferia vivenciavam e ainda vivem até hoje, tentar combater através das nossas músicas, todo tipo de injustiças, preconceitos, racismo e discriminação que todos nós de alguma maneira sofremos, e mostrar que temos que nos valorizar, que a nossa história é uma história de lutas, de grandes batalhas e que não podemos de maneira alguma desistir, ou abaixar a cabeça, o racismo é um câncer na humanidade. Nós sempre fomos linha de frente, sempre nos articulamos de informação, de cultura, de sabedoria, eram tempos difíceis, e sem tantas oportunidades, bem diferente do quadro que vivemos hoje, mas nós nunca desistimos, mas conquistamos o nosso lugar, entre os melhores”.
Atualmente, Elly se diz mais reflexivo, mais calmo e trabalha no novo álbum do DMN que segundo ele vai surpreender muita gente, ficando pronto em agosto. E junto com o DJ Heliobranco está produzindo um trabalho dançante, chamado “FUNKZTAZ” que é uma fusão da palavra FUNK com GANGZTAZ. Gostou das novidades? Então confira a entrevista:
BW: Elly, queria que você nos falasse: onde nasceu e foi criado? Como era sua vida em família? Que lembranças tem dessa época?
Elly: Em primeiro lugar, quero agradecer pelo convite, e por poder contar um pouco de minha história, nessa entrevista, enfim… nasci na Vila Matilde, em São Paulo e fui criado na Zona Leste de SP, quando criança no Jardim Nordeste, já adolescente, cresci em Itaquera, onde estou até hoje, desde os meus 8 anos de idade. Minha vida em família sempre foi das melhores, sempre amei minha família, tive uma ótima criação com meus pais, mas muito mais por minha mãe, pois perdi meu pai logo que mudei para Itaquera e tudo que aprendi, foi com minha mãe, que lutou duramente e se dedicou e lutou uma vida inteira para nos dar uma educação melhor e nunca nos deixar passar veneno por nada, trabalhando como diarista em casa de família, de vendedora de roupas, de doces e salgados e de cozinheira no hospital Bandeirantes. Hoje ela já é falecida, há 7 anos, moro com minha irmã, meu cunhado, meus sobrinhos e nos damos muito bem, graças a Deus. Minhas lembranças daquele tempo são as melhores, ainda que com as dificuldades que tínhamos na época, morávamos em um super quintal, com todo tipo de árvores frutíferas, tínhamos diversos amigos e amigas e brincávamos um bocado, de muitas coisas que hoje não vemos mais entre as crianças e voltar a pensar nas coisas daquele tempo me remete a muita coisa boa, indubitavelmente, principalmente pelo fato de meu pai gostar muito de músicas, comprar uma diversidade de vinil e na época dos 3X1, fazer muito barulho, como eu também faço hoje em dia, escutando suas músicas bem alto, os meus primeiros contatos com a música partiram dessa época, com pouco mais de 4 anos de idade e me acompanham até hoje.
O DMN é reconhecido como um dos maiores grupos de Rap nacional de todos os tempos Imagem: Arquivo Pessoal
BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? Em que ano foi isso? Quais foram suas referências?
Elly: Meu primeiro contato com o Hip-Hop teve início em 1982, com o lançamento de um compacto chamado “Ya Mama”, de Wuf Stick, em 1982, música que em época de ginásio, na 5ª. série, eu rolava nas festinhas numa sede do PT, situada em um quartinho, no fundo da casa de um dos meus grandes amigos, o Cidão, depois das aulas vagas que a minha sala tinha no “Chiquinho”, apelido da escola Professor Francisco de Assis Pires Correa, que estudei de 82 até 86 e que concluí meu ginásio, estudando lá, nessas festinhas eu era o DJ e usava 2 aparelhos de som 3 em 1, pra poder mixar as músicas. Nessa época, fiz amizade com outro grande amigo meu, o Josenaldo (Ferreira), que levou a um DJ mais velho e muito considerado da época, chamado DJ Ailtão, que começou a nos fornecer fitas K7, com diversos “Balanços” e “Pesos”, pois nessa época ainda não tínhamos a noção exata que o que estávamos ouvindo era Rap, Soul Music, Black Music e que aquela música e comportamento das pessoas, a dança da época, era o Breaking e que também dancei muito, faria parte da minha história até hoje… Em 86, tive a oportunidade de também conhecer no baile de formatura do meu ginásio o DJ Luis, que junto com ele, montamos a Star Som Produções e fazíamos diversos bailinhos aos finais de semana, até passar por uma fase mais profissional, tocando em diversas grandes equipes de bailes black e de house music naquela época, também influenciado pelos grandes DJ’s da época, como DJ Kl Jay, DJ Hum, DJ Iraí Campos, Ricardo Guedes, DJ Grandmaster Duda, DJ Vadão, DJ Gregão, Nathanael Valêncio, Silvio Miller, aqui no Brasil e lá fora, DJ Cash Money, Jazzy Jeff, Joe Cooley, até me tornar também um DJ de performance, conseguindo também ser campeão em alguns campeonatos aqui na Leste, ou seja, minha primeira paixão no Hip-Hop foi como DJ!
BW: O Rap, como surgiu na sua vida? Você chegou a participar de batalhas de rima? Que batalhas existiam naquela época?
Elly: Comecei a cantar “Ya Mama” de Wuf Stick, acompanhando o MC da música, sem imaginar que aquele estilo seria Rap, também percebi que eu tinha uma facilidade muito grande em aprender letras em inglês, claro que meio sem noção, pois não tinha conhecimentos da língua que era cantado aqueles versos, e aí, depois, comprei vários álbuns da época, como Whodini, Fat Boys, LL Cool J., Public Enemy, Kurtis Blow, The Boogie Boys, Dana Dane, Eric B and Rakin, Dj Jazzy Jeff & The Fresh Prince e, também, aprendi a cantar diversas tracks. Conheci, então, 3 amigos primordiais para me inserir neste universo do Hip-Hop, até pela identificação visual que tínhamos, estou falando de Duda da 7, Fábio Felizbino, conhecido como “Feliz” e um outro amigo conhecido como “Sombra”. Nós sempre usamos tênis cano alto da Reebok e Nike, L.A Gear, Avia, Adidas e camisetas da Nike, correntes douradas e prateadas, torcidas e em formato de corda no pescoço, cronômetros, bonés importados e calças largas e um dia eles me convidaram para ir à estação de metrô São Bento, onde conheci outros garotos e garotas, semelhantes a nós, que dançavam, se vestiam e batucavam nas latas de lixo fazendo um som, e ali, foi minha primeira vez dentro da cultura. Já o Rap, um dia eu ouvi a “Melô do Bastião” uma versão criada em cima de “Fly Guys” de Magic Trick, cantada por Pepeu & Mike, depois ouvi “Os Metralhas” cantando na Bandeirantes em cima de “They Call me Puma” de Seeborn & Puma, e tudo em português e aí entendi que era possível fazer aquilo que os gringos faziam com tanta maestria de forma falada, em português. Nessa época, mesmo sendo um DJ, eu já me vestia como um rapper, sem ser, tinha muita identificação visual com aquilo que eu via nas capas de disco da época e eu namorava com uma garota chamada Adriana Bueno, que me acompanhava sempre às lojas de discos e em alguns lugares nos quais trabalhei como DJ e que hoje fico pensando o que as amigas dela da época, pensavam vendo ela, que era uma garota muito bonita e totalmente normal em seu jeito de ser, com alguém que já era bem americanizado no jeito de ser e bem distante dos padrões de outros garotos da época… bons tempos demais! Nunca participei de batalhas de rimas, naquela época as batalhas eram mais lá fora, aqui não teve essa ascensão de hoje em dia, a gente curtia mesmo escrever as nossas próprias histórias e fazer críticas a tudo que fazia a vida das pessoas ficarem piores, como a opressão policial, a violência, drogas, política e por aí vai… O que rolava muito naquela época, eram os clubes do Rap e também, os concursos de Rap, promovidos pelas grandes equipes de baile como “Zimbabwe” do nosso amigo Willian Santiago e Serafim, onde nós fomos lançados em 1991, na coletânea “Consciência Black Vol. 2” com nosso primeiro Hit, “Isso não se faz” e em 93, o nosso primeiro álbum, “Cada vez + Preto” que saiu nos 3 formatos da época: vinil, CD e fita K7.
BW: Em 1988, surgia o pioneiro grupo DMN, nos conte como foi isso, fale de cada integrante, da formação original e da esfera política que se vivia naquela época. Sobre o que rimavam? Que grupos dominavam a cena naquela época?
Elly: Sim, o grupo surgiu em novembro de 1988, tínhamos um amigo em comum chamado Duda da 7, que já citei acima, que fez a ponte para que nós nos conhecêssemos, me apresentou ao Xis, ao LF e o D.J. Slick, que eu já conhecia dos campeonatos e em nossa primeira formação, era eu, Elly (Produção Musical), LF (Vocal), DJ Slick, X-Ato (Vocal), que depois virou, o Xis. A temática e teor de nossas letras sempre tiveram em seu contexto falar da nossa etnia, dos problemas que o povo preto e pobre da periferia vivenciava e ainda vive até hoje, tentar combater através das nossas músicas todo tipo de injustiças, preconceitos, racismo e discriminação que todos nós, de alguma maneira, sofremos e mostrar que temos que nos valorizar, que a nossa história é uma história de lutas, de grandes batalhas e que não podemos de maneira alguma desistir, ou abaixar a cabeça, o racismo é um câncer na humanidade. Nós sempre fomos linha de frente, sempre nos articulamos de informação, de cultura, de sabedoria, eram tempos difíceis, e sem tantas oportunidades, bem diferente do quadro que vivemos hoje, mas nós não desistimos nunca e, dentre tantos grupos daquela época, como MC Jack, Thaíde, Racionais, Ndee Naldinho, MT Bronx, Geração Rap, Sharylaine, Sampa Crew, nós também conquistamos o nosso lugar, entre os melhores.
BW: A primeira aparição importante do grupo foi na coletânea Consciência Black Volume II, na canção “Isso não se faz”, que tratava do racismo com negros mundo afora. Comente essa música?
Elly: “Isso não se faz” foi produzida pelo “KL Jay” e retratava o que nos deixava profundamente descontentes naquele momento, a maneira pejorativa que a imagem de nossos semelhantes eram mostradas nas novelas, nos filmes, nos comerciais, sempre fomos desprivilegiados, desvalorizados e estávamos cansados de ficar calados, de braços cruzados, sem fazer nada e aí tivemos a ideia da letra da música, foi aceitação geral na época e um dos grandes destaques da coletânea, nos abrindo as portas para fazer o nosso primeiro álbum e nos rendendo muitas matérias na época e também apresentações por toda São Paulo!
BW: O primeiro trabalho próprio foi o álbum Cada Vez Mais Preto, com canções como “4P” e “Como Pode Estar Tudo Bem”. Pode falar sobre essas canções?
Elly: Essas músicas foram produzidas por mim, assim como este álbum inteiro, menos “Já não me Espanto” que foi produção minha e de KL Jay e essas 2 músicas que foram perguntadas tiveram uma importância muito grande para a história do DMN e também do povo preto. “4P”, principalmente, que virou um grito de guerra para o nosso povo, que até então, não tinha ninguém que falasse por eles, que tocasse de uma forma que nós víamos como necessária, não só naquela época, mas que infelizmente ainda hoje é… O racismo é um carma, e a desigualdade social existente entre nós cria vilões, traz frustrações e falta de autoestima, para os homens e para as mulheres, para os adultos e principalmente para as crianças e em um clima totalmente desfavorável a nossa cor, não dá para dizer que está “Tudo bem”, daí a ideia de “Como pode estar tudo bem?”.
O racismo é um carma, e a desigualdade social existente entre nós cria vilões (Ellypretoriginal DMN) Imagem: Arquivo Pessoal
BW: Além desses, quais foram os principais trabalhos gravados do grupo DMN? Quem escrevia e escreve as letras?
Elly: No primeiro álbum, em 1993, podemos destacar ainda: “Mova-se”, outro grande grito de guerra periférico, “Aformaoriginalmental” que foi o nosso primeiro trabalho feito em vídeo clipe, com a direção do meu amigo Odorico Mendes, “Precisamos de nós mesmos”, citada por Racionais MC’s em “Voz Ativa” e, claro, “A Lei da Rua”, que o Xis na época escreveu com maestria falando das ruas e de suas doutrinas. Agora teve, em 1998, “H.aço” (clássica), com vídeo clipe dirigido por Maurício Eça. Em 2001, saiu nosso álbum “Saída de Emergência”, pela BROS Company, na época de nosso amigo Diogo Poças e Drico Melo. Teve produção de Edi Rock e minha e tiveram destaques de alguns clássicos, como “Cisco”, “Racistas Otários”, que tem vídeo clipe extraído do DVD “Saída de Emergência”, “Tenha uma meta a seguir” e “A Lei do Opressor (500 Anos)”. Em 2003, sai pela Mel Records o álbum “Essa é a cena”, com produção do DJ QAP, DJ King, Diogo Poças e minha, os clássicos desse álbum são: “Jão”, “Essa é a cena”, “Pra você Preta”, “Chove lá Fora” e “Talvez eu Seja”, com vídeo clipe dirigido por Rooneyoyo. Em 2013, lançamos “9 Anos Depois. Epílogo”, produzido por DJ QAP, eu, Markão II, Johnny Campanille, com os clássicos: “Eu sei que tem”, “VEm Kum Nóizz”, “Nunca Nada Tá Bom”, “Quem é o fora da Lei” e “US Preto Rimador”, que tem vídeo clipe dirigido por Odorico Mendes. Falando das composições do DMN, até o ano de 1997 quem escrevia era o LF e o Xis, de 98 em diante, eu comecei a compor junto com o Markão também, para reforçar o nosso time, tendo em vista que houve a saída de Xis, que foi fazer carreira solo, em 2003, LF saiu do grupo para carreira solo e hoje quem compõe todas letras do grupo sou eu e Markão, mas também se achamos que têm alguns compositores que fazem letras que têm o nosso perfil, não temos vaidade alguma em também grava-las, já venho fazendo algumas coisas nesse sentido no meu trabalho solo, com pessoas como o França (S.O.T) de Conchal, interior de SP, com meu mano Fernando Treze, com o Natho, com minha querida Luli, todos eles com um talento espetacular em suas canetas e que também têm seus trabalhos em particular, do qual tenho a honra de produzi-los e são compositores e rimadores de altíssimo nível.
BW: Como era ser um rapper na década de 80? Como vocês eram encarados pelo resto da sociedade?
Elly: Era ser meio que um alienígena, pois as pessoas e mídias da época não enxergavam a gente como artistas, como pessoas cultas e inteligentes que faziam a trilha sonora dos acontecimentos vividos na periferia, sempre fomos vistos como marginais, a nossa música e cultura sempre foi marginalizada aos olhos da sociedade, infelizmente…
BW: Podemos falar que o sucesso mesmo do DMN veio em 1998, com a música “Homem de Aço”, que teve grande popularidade entre os jovens e veiculações constantes nos veículos de mídia. A canção tem a participação especial de Edi Rock dos Racionais MC’s, foi indicada ao Vídeo Music Brasil 1998 e foi eleita como uma das melhores músicas da década no Prêmio Hutúz de 2009. O segundo álbum, chamado “Saída de Emergência” foi produzido por Edi Rock, com destaque para as canções “Cisco” e “Racistas otários” (com Mano Brown, Edi Rock e KL Jay); álbum no qual o grupo firma-se na escala do Rap nacional. No mesmo ano, teve três indicados no Hutúz: Slick, em DJ de Grupo, “Saída de Emergência”, em Álbum do Ano e o grupo em si no Artista do Ano. Comente esse momento da carreira de vocês.
Elly: Somos um grupo, graças a Deus, muito iluminado e abençoado com o lance da inspiração e a construção de trabalhos que, de fato, se tornam grandes clássicos. “H.aço”, veio num momento certo, na dosagem certa, onde as pessoas precisavam ouvir o que é dito em cada rima da letra e, também, foi o retorno triunfal de 6 anos sem lançar nada, pois naquela época, era muito difícil colocar músicas novas na rua, pela dificuldade que tínhamos para pagar estúdio, era tudo muito caro e as opções que tínhamos eram bem poucas realmente, e aí tínhamos que esperar o momento certo de conseguir juntar uma grana e fazer o trabalho para depois ver o que faríamos, não só DMN mais Racionais também estavam sem gravar há 6 anos e naquela época, quando começou a se espalhar o boato que nós tínhamos nos juntado para fazer uma música, o bicho pegou, até pirataria aconteceu da música, antes mesmo que ela fosse lançada, na época pela Cia. Paulista de Hip-Hop, a qual éramos sócios, junto com Milton Salles. O reconhecimento do grupo e da música foi imediato, tão logo quando a música saiu e foi executada nas principais rádios e pistas do Brasil e conseguimos tocar praticamente no Brasil inteiro, levando nossa música e trabalho a um outro nível e patamar…
BW: Elly, queria que você nos contasse um pouco sobre suas impressões sobre o Movimento Hip-Hop, o Movimento Rap existiu ou ainda existe? Queria que nos falasse um pouco da união ou da falta dela entre os elementos da Cultura. Queria uma reflexão sobre o que foi e o que se tornou hoje em dia a Cultura Hip-Hop, na sua opinião?
Elly: Eu quando entrei no Hip-Hop, nunca acreditei que houvesse o Movimento Rap, pois para mim sempre foi o Hip-Hop, porém, teve tempo em que o Rap, com um estilo um pouco mais gangsta de ser, com bases lentas e muito distantes das que a gente curtia na gringa, passaram a criar de fato o “Movimento Rap” e individualizaram o Rap do Hip-Hop, não foi o nosso caso, mas se você observar nos dias de hoje, muita gente que hoje faz Rap, não tem mais nenhuma identificação com o Hip-Hop, nem musicalmente e nem tampouco visualmente, acho uma merda isso, pois estamos de uma certa maneira caminhando para o fim de uma cultura que salva e salvou muitas vidas. Na minha opinião (e nem falo pelo DMN), nunca houve união realmente, nem tampouco com os grupos de Rap e MC’s, nem com os DJ’s, nem grafiteiros, nem tampouco B-Boys e B-Girls. Eu me recordo de sempre ouvir os B-Boys da época reclamarem que os MC’s não faziam músicas para que eles pudessem dançar e até concordo, até a página 2, pois em um momento do Rap, no Brasil, surgiram muitas músicas mais dançantes e descontraídas, que todos que curtem a arte da dança poderiam muito bem usar em suas danças e coreografias e também tinham a possibilidade de apresentá-las, a todos nós, demonstrando o que criaram para a música X ou Y de qualquer grupo de Rap e ainda tinham a opção de negociar a sua arte, para que pudéssemos utilizar em nossas apresentações, seria algo esplêndido, pois poderiam ganhar uma grana, poderiam enriquecer os shows de Rap, com as coreografias para determinadas músicas e já ligando 3 elementos dentro do show, assim como Thaíde fez muito e ainda faz até hoje e, sem contar também os grafiteiros, que poderiam também criar painéis bem coloridos, com o nome das bandas ou de protestos mesmo, que também poderiam ser utilizados por todos nós artistas, em nossas apresentações unificando os 4 elementos do Hip-Hop, infelizmente, perdemos muito tempo se preocupando com o “cada um por si” e não pensando no coletivo, aí quando pintam as oportunidades financeiras e o dinheiro, esquecemos a verdadeira essência do Hip-Hop e só pensamos e agimos no individual, se eu vou aparecer mais que X ou Y, ou se eles vão aparecer mais do que eu, desprestigiam os eventos e trabalhos que não estamos envolvidos, por vaidades e novamente só pensando no “Eu”, nunca temos uma visão do “Nós”.
BW: Como você vê tudo de novo que vem surgindo nos últimos anos: Boombap Rap, Trap, entre outros? Pode nos fazer uma comparação do que era feito no passado e o que é feito hoje? Houve mudanças para melhor ou para pior? Com que tipo de som você se identifica hoje? Que som escuta? Fale sobre a durabilidade de tudo isso?
Elly: A internet trouxe a independência para muita gente em vários aspectos, dentro da música hoje tem artistas que já não são mais escravos das gravadoras e preferem mesmo o caminho da independência musical. Todo mundo hoje é bom conhecedor de tudo e de todos, todo mundo se acha o “phoda”, tem cara que pensa que tudo que está acontecendo hoje, começou a partir deles, que eles são os idealizadores e pouco se importam com o que aconteceu antes, quem somos nós nos anos 90, qual a representatividade e importância de cada um. Subgêneros do Rap foram criados, começou com o “Crunk”, que era legal, depois virou “Dirth Sound” e o Rap começou a ficar mais mecânico, e enlatado, com o surgimento do “Trap”, o Rap segmentou e a essência e originalidade da nossa música começou a morrer, as músicas se tornaram descartáveis, todo mundo é exatamente igual, todo mundo ostenta, todo mundo fala de dinheiro, de mulher, de “bundalização”, de drogas. A cultura que inicialmente trazia em sua mensagem o distanciamento do jovem das gangues, de uma hora para a outra, passou a adotar a postura de fazer gestos elevando as gangues, o crime e começaram a dizer que ser de uma gangue é da hora, que ser pimp, cafetão e que as mulheres são vadias, entre outras coisas, é que é o da hora, como se não tivessem mãe, irmã, namorada, esposa… houve uma inversão total de valores, o certo virou errado e o errado virou certo. A falta de respeito se elevou em cada letra, não só no Rap, mas as influências negativas que vieram do Funk [carioca] também, que mesmo tendo o seu valor para alguns, traz em sua mensagem pornografias, que também é um mercado que dá muito dinheiro e vende muita coisa no mundo, e aí devido toda essa liberação que aconteceu nos últimos anos, as pessoas começaram a achar natural e tudo ficou meio que normal e aceitável. O Rap dos anos 90, que na minha concepção é o Rap dos homens, traz mensagens fortes e depoimentos sinceros e reais, falamos da vida real em nossas letras, e o Rap dos meninos, chamado “Trap”, só visa “estética”, se enchem de tatuagem em toda parte, usam todos os tipos de drogas e cantam isso em suas letras, como se fosse algo da hora, ostentam uma vida que em muitas das vezes nem têm, muitos têm um contrato assinado com o demônio que bem sabemos, e aí, ao invés de se agilizarem e fazerem o pé de meia, aproveitando o momento, ostentam mais e mais e bebem só bebidas fortes, com músicas cada vez mais de plástico, sem essência, sem mensagem, sem emoção. Têm alguns que ainda mantém a chama do real Rap, bem vivo, mas depois que esses subgêneros tomaram a cabeça dessa geração, ficou bem complicado para quem faz um trabalho sério de conscientização por meio da música. Agora, tem também o Drill, que particularmente prefiro mais que o Trap, porém, também acredito que é mais um estilo que, como os outros, é de plástico descartável, descartável music…
Tem cara que pensa que tudo que está acontecendo hoje, começou a partir deles, que eles são os idealizadores e pouco se importam com o que aconteceu antes, quem somos nós nos anos 90, qual a representatividade e importância de cada um. (Elly) Imagem: Arquivo Pessoal
BW: Elly, você também gravou trabalho solo, correto? Nos fale sobre esse trabalho?
Elly: Em 2008, com a ajuda de meu amigo Renato Scanzani, que foi o produtor executivo do CD, conseguimos colocar meu primeiro álbum solo na rua, intitulado “Acerto de Contas”. Johnny Campanille (SobTensão Podcast) foi quem produziu quase todas as faixas do álbum, menos “Se ainda Puder”, que é produção de Guilherme “Mandella” Tavares, “Pra você Preta” com feat de Silvera e “Mó Responsa” com feat de Ksslu e Paulo Henrique (meus sobrinhos),
que é produção de Diogo Poças e “Lembranças”, que tem feat da Tina e que é produção de Marden Jam. Daí em diante, adotei o nome artístico que uso hoje, que é “Ellypretoriginal” (exatamente assim), destacando meu valor individual como MC, mostrando também um outro lado de composições das quais eu fiz e não se encaixavam com a linha que o DMN faz e foi uma experiência muito bacana, pois consegui alcançar também essa visão do que é ser um artista solo, como eu me sairia fazendo shows, com outro DJ e outros novos artistas, quem me acompanhou nessa caminhada, foi meu irmãozaço, Dj Fabinho BW, que hoje está morando em Portugal, pude fazer coisas, à parte, sem o aparato do DMN, novos rimadores junto em meu CD. Mostrei também que seria possível criar uma outra vertente, à parte do DMN, mesmo sendo do grupo, para mim foi uma grande experiência, bem gratificante! Pretendo fazer outro! O clássico desse CD, que virou o hit, foi a faixa “Me Tirando”, que teve seu vídeo clipe imortalizado pela RecLife do meu mano Biofa e Lorde Sol. Estou neste momento com uma versão dela, que em breve vai sair numa fusão de DMN e Realidade Cruel… aguardem…
BW: Mais de 30 anos de DMN, correto? Qual o segredo para se manter unido tanto tempo? Como foi esse período de pandemia para vocês?
Elly: Sim, estamos indo para 34 anos de atividade do DMN, muitas águas rolaram embaixo da ponte e passamos por todas as fases do Rap, sempre ativos e vivos, fazendo música boa, interagindo com os nossos fãs, trocando ideias e trabalhando duro para nos mantermos vivos. Nestes 34 anos, o que posso dizer é que amamos o DMN e tratamos o grupo, com toda a importância que é necessária e possível. Tivemos algumas perdas de integrantes que também contribuíram muito para que chegássemos aqui, sou muito grato ao LF, ao Xis, ao Max e ao Slick, amo todos eles e sempre serão minha família e parte da história do DMN, mesmo depois do fim (um dia), escrevemos o nosso nome na história do Hip-Hop nacional e da música brasileira, pois graças a Deus extrapolamos o Rap e alcançamos outros estilos musicais também e temos o respeito de muitos, somos bem citados em diversas composições de grandes artistas de nosso segmento e isso não tem preço, é gratificante ter esse reconhecimento e saber que nossa música salvou e ainda salva a vida de muitos. Hoje, no DMN, quem toca o barco somos eu e meu irmãozaço, Markão II, que também é integrante do Realidade Cruel. Para nós, foi uma missão muito difícil tocar esse barco todos estes anos, sabendo da qualidade técnica de grandes rimadores que já passaram no grupo, mas acredito que depois de todos estes anos, não decepcionamos aos fãs e continuamos fazendo uma música boa e com conteúdo lírico apurado e, o principal, nunca perdemos a nossa originalidade, DMN4LIFE! Falando da pandemia, foi algo bem difícil para todo mundo e para nós não foi nada diferente, não foi nada agradável, estar em uma prisão domiciliar por quase 3 anos, longe das pessoas que amamos, sem trabalhar, ou poder fazer o que gostamos, vendo nossos amigos e amigas pegando as malas e indo embora, por causa desse vírus maldito, ver tanta gente morrendo em nossa frente, ver tanta gente maluca surgindo, com a vitória do atual presidente, do qual graças a Deus não contribuí em nada para que ele estivesse aonde está. A nossa vida só se tornou mais e mais difícil e torço muito para que as coisas mudem, que as pessoas acordem, para que façam as melhores escolhas nas urnas, para que não tenhamos novamente que passar por toda essa dor, que já vivemos emocionalmente, pois perdemos familiares, amigos e amigas, ainda vivemos com o fantasma da doença e o constrangimento de ainda andar com a máscara no rosto, sem saber mais quem é quem. Nossas vidas nunca mais serão as mesmas, pois nenhum de nós estava preparado para isso, então, vamos almejar novos tempos, mas, antes, temos que vencer essa guerra que enfrentaremos por todo esse ano e também com os efeitos que essa gestão causou no ser humano.
Adriana Lessa, Elly e Rose MC Imagem: Sérgio Most
BW: Ficamos sabendo que tem disco novo do DMN chegando… Pode nos adiantar o que vem por aí? O que será o “Funkztaz”? É dessa forma que escreve? Verdade que é a versão do que é o “Funk” para vocês?
Elly: Sim… pretendemos lançar o novo álbum do DMN em agosto possivelmente, estamos confeccionando as letras e as produções, posso dizer que será um trabalho bem legal, com muita coisa bacana e interessante, estamos caprichando na lírica, produção e temática, terá algumas participações das quais posso citar, nosso irmão GOG, na pesadaça música “Clássico”, Adriana Lessa, na pancada “O que será do Amanhã” e as outras ainda estamos refletindo sobre… mas aguardem, vai surpreender muita gente… é sério… (risos). Também estou produzindo, junto com o DJ Heliobranco, um trabalho muito bacana e dançante, chamado “FUNKZTAZ”, que é uma fusão da palavra FUNK com GANGZTAZ, somos os gangztaz do funk…(risos), é uma linha musical inspirada em Los Angeles, num estilo mais sofisticado, onde mostramos a nossa versão do que entendemos como Funk, muita gente fala mal do que foi feito com a palavra Funk por esse gênero que tomou posse do nome aqui no Brasil, mas não fazem nada para mostrar um outro caminho e nós resolvemos dar o nosso ponto de vista, a nossa versão musical e resposta à musicalidade em si. Contamos com a colaboração de diversos rimadores, que convidamos um a um, posso falar que vai ter feat de Fernando Treze, Luli, Rose MC, Adriana Lessa, Natho D.C., Dhavy O.C., Alambeat (Sampa Crew), Diwcy (Vítima Fatal), Nino (Cohabitantes), Magoo Jigsaw, Racional, Pastor Tom, Chris Britto, Tchello Rock (Fantastic Force), Cezinha, Paulo Break, Magno C4 (Visão Urbana), DJ Gato Magro e muito mais…
BW: E o trabalho que realizou junto com a Rose MC? Fale sobre ele. E sobre o que você anda produzindo?
Elly: Produzi o CD da Rose MC, inteiraço, e tem também tracks produzidas pelo DJ Heliobranco, que também cuidou dos detalhes da arte de capa do CD, foi muito bacana poder fazer parte desse projeto, pois a Rose é uma pessoa muito bacana, e correria, ela merecia ter um trabalho de qualidade, ainda mais depois de tantos anos lutando pelas causas da mulher, representando a classe trabalhadora dos professores, levantando a bandeira do Hip-Hop nos 4 cantos onde esteve, é importantíssimo ajudar a construir um trabalho de qualidade, para quem é de verdade e original, e aí, somando forças com um time que sempre que posso envolvo em meus projetos, como a minha parceira Luli, oldschool do Rap também como nós, que está produzindo seu primeiro trabalho comigo e também contribui com a composição de letras e vocais no trabalho, com a contribuição de Fernando Treze, que fez parte do time que acompanhava o Xis em tempos de destaque no cenário, que também é um monstro da caneta e nos vocais e Rose MC com seu talento natural e experiências vividas e escritas em suas letras, que são afiadas e inteligentes, eu a dirigi aqui em meu estúdio e o que posso dizer é que ficou um trabalho muito bonito e musical, ela está muito feliz com o resultado e agora, em junho, está na rua o CD físico e nas principais plataformas digitais. Estou também produzindo trabalhos para o Racional, um garoto novo e bem interessante, que já tive a honra de dividir uma track chamada “Criação de Dependência” que tem o vídeo clipe no YouTube, estou produzindo o trabalho de um rimador chamado D’Responsa, bem legal e diferenciado, que brevemente estará nas plataformas. Uma track para o Edy, junto com DMN, que está por vir, estou produzindo o CD do “Cohabitantes” do Nino & Renê, muito bom e pesado, com várias músicas boas, produzi o novo single do Magoo Jigsaw, “Código da Rua”, que também já está em todas as plataformas digitais… Estou produzindo uma track para a rapper Vanessa Kriolla e também estou produzindo o trabalho do grupo Negritude Ativa, do meu mano Gilmar, lá do Espírito Santo, com aproximadamente umas 10 faixas, muito bom também e, em breve, vai sair todos estes trampos com uma qualidade impecável!
Elly e sua mãe, Dona Severina Imagem: Arquivo Pessoal
BW: Elly, nesses últimos anos tiveram momentos bons e momentos tristes com a perda da sua querida mãe. Queria que nos contasse um pouco da sua relação com ela e o que ela significava na sua vida… E como foi superar essa dor e prosseguir?
Elly: Bom… minha mãe me deu a vida e me ensinou todos os valores de vida que tenho e levo comigo, eu a amo e a amarei incondicionalmente, até depois do meu fim, ela foi minha companheira e amiga por 44 anos, e não foi fácil saber que ela resolveu pegar as malas e partir não, foi algo doloroso, difícil de entender, o porquê que as mães têm que ir embora e de lidar com a falta dela, apesar de eu me sentir privilegiado, pois a tive comigo até os 79 anos e nunca fui um mal filho, nunca dei desgostos a ela e fiz minha parte, quando temos a consciência disto, ajuda muito a superar o processo da perda. Mas como temos que seguir em frente, fiquei bem abalado por alguns anos, principalmente no Natal, pois ela fazia aniversário nesta data, mas consegui superar e hoje entendo que tinha que ser assim e uma hora todos temos que ir… que ela esteja ao lado de Deus!
BW: O tempo passou, todos nós que acompanhamos o DMN estamos na fase dos “enta”… O que mudou em todos esses anos para você? Quem é o Elly hoje e que planos existem para o futuro?
Elly: A fase dos “enta” é algo bem interessante, pois nos deixa mais reflexivos, mais sensíveis em muitos aspectos, mais calmos, nos dá mais sabedoria, amplia nossa visão de alcance da vida, procuramos errar menos, e enxergamos muito longe, num imenso 360 graus, o mais maluco é que a vida inteira, escutamos que a vida começava aos 40, e, às vezes, eu ficava refletindo se era isso mesmo, queria muito que chegasse, mas com a idade vieram diversas complicações, também relacionadas a saúde, infelizmente, quando se fala de saúde, nunca são boas, mas eu acredito que temos sempre que buscar novos caminhos e focar nos desejos de vida, muita gente se ilude com sonhos, porém, os sonhos não temos o controle e só acontecem quando não esperamos e dormimos, o que nós temos que focar são nos desejos e objetivos, para poder alcança-los e aproveitar a vida, da melhor maneira. Meus planos para o futuro, é continuar fazendo o que amo fazer, que são minhas músicas, voltar a fazer minhas atividades físicas e jogar basquete, que tive que parar por motivos de saúde, quero poder me estabilizar, físico, mental e financeiramente, ter uma esposa, viver a minha vida da melhor maneira, também quero fazer aulas de canto e piano, para somar a tudo que já faço, poder viajar um pouco, talvez para o exterior e ficar um tempo [fora do Brasil].
DMN, Rashid e Emicida Imagem: Arquivo Pessoal
BW: Que mensagem você deixaria para a nova geração de rappers que está chegando? Que conselhos daria?
Elly: Acreditem sempre que é possível fazer o seu melhor, façam músicas boas, pesquisem mais, busquem conhecimento, tenham foco, não façam o que todo mundo faz, nesse mercado da música, só fica quem é original, quem tem estilo, se você é igual a todo mundo, sempre será comparado a alguém, isso é péssimo, pode até funcionar por um tempo, mas uma hora azeda mesmo o caldo e você vai cair no esquecimento e aí, para voltar depois, é quase que impossível, o mercado da música é pop e o pop não polpa ninguém, chegar lá no topo não é impossível e qualquer um pode chegar, mas se manter no topo é que é o difícil. Quando forem fazer seus trabalhos, procurem trabalhar sempre com os melhores, ser profissional, não trate sua música como qualquer coisa, dê o tratamento que daria a um filho seu e tenho certeza que você não colocaria seu filho em qualquer escola, nas mãos de qualquer um, é importante demais essa parte para poder dar frutos positivos pra você e, por último, escutem Rap, fiquem longe das drogas, respeitem os mais velhos, aproveitem bem a honra de ainda terem verdadeiros livros de histórias, bem vivos e ao lado de vocês, cheios de informação e conhecimento para passar pra vocês! Escutem DMN, escutem Ellypretoriginal!
BW: Pode deixar uma mensagem para os leitores do Portal Breaking World?
Elly: Valorizem cada vez mais espaços como este, sabemos a dificuldade que se tem hoje em dia para que tenham portais que falem realmente a nossa história, que abram espaço pra falar verdades, sem maquiagem, como realmente tem que ser! Sejam mulheres e homens de aço, em seu dia a dia e suas vidas! Fiquem com Deus e fortes na caminhada! Essa é a verdadeira cena, Ellypretoriginal DMN!
Imagem: Arquivo Pessoal
Imagem em destaque: Arquivo Pessoal
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Ele nasceu na Paraíba, na cidade de João Pessoa, mas foi em 2005, com apenas 12 anos, que após assistir um DVD de um campeonato de Breaking decidiu se dedicar de corpo e alma a esse elemento da Cultura Hip-Hop. Cresceu praticando saltos mortais, plantando bananeiras e se dedicando aos movimentos flexíveis, o que o levou a ser um dos caras mais flexíveis do Brasil, claro que estamos falando do Jonas Flex. Neste último mês, ele esteve em São Paulo como jurado e palestrante do campeonato Breaking Combate, onde falou de assuntos bem importantes como viver da dança, lesões e oportunidades para dançarinos. Jonas está de malas prontas para a Europa, onde pretende passar uns 40 dias participando de campeonatos, como World Breaking Classic, The Notorious I.B.E e Outbreak. O Portal Breaking World correu e levou aquele papo com esse mano que, sem dúvida, é uma referência não só na dança, mas na conduta dentro da cena. Confira a entrevista:
BW: Queria que você nos falasse um pouco da sua infância, onde nasceu e cresceu e que lembranças tem dessa época?
Jonas Flex: Nasci e cresci na Paraíba, na cidade de João Pessoa, no bairro do Geisel, toda minha infância foi cercada de aventuras, dentro do meu bairro, andando de bicicleta, soltando pipa, jogando bola, praticando saltos mortais e “plantando bananeira”.
Imagem: Jonas Flex / Arquivo Pessoal
BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? O que mais te chamou a atenção?
Jonas Flex: Desde criança eu sempre tive contato o Hip-Hop, na música e Graffiti e depois de alguns anos, com 12 anos de idade, tive meu primeiro contato com o Breaking, através de um DVD, onde assim que assisti me identifiquei com aqueles movimentos, pois sempre achei que meu corpo pedia isso.
BW: E com o Breaking? Quem foram suas referências e com quem aprendeu a fazer seus primeiros movimentos? Alguém te ensinou? Em que ano foi isso?
Jonas Flex: Minha primeira referência foi o DVD do Red Bull BC One 2005, após assistir eu fui atrás de pessoas que dançavam no meu bairro e acabei encontrando algumas pessoas que estavam iniciando e outras que já dançavam, assim fui criando conexões e comecei a praticar cada dia mais.
BW: Quando começou a se envolver com o Breaking, você teve apoio da sua família?
Jonas Flex: No início não tive tanto apoio, eu era muito novo e ainda estava no ensino fundamental e minha mãe disse que “eu só podia dançar se eu fosse aprovado e no dia que eu reprovasse nunca mais eu colocaria a mão no chão para dançar”, aí, desse jeito, eu me dediquei muito aos meus estudos e consegui finalizar ensino fundamental, médio e superior sem reprovar nenhuma vez, sendo assim, ganhei a confiança dos meus pais e com o tempo eles começaram a me apoiar muito e valorizar o que eu fazia. Hoje eu sou formado em Licenciatura em Dança pela UFPB (universidade Federal da Paraíba).
Imagem: Jonas Flex / Arquivo Pessoal
BW: E de onde vem tanta flexibilidade nos movimentos?
Jonas Flex: Quando iniciei no Breaking, eu me identifiquei com os movimentos flexíveis, me alonguei muito junto com o professor de ginástica, que me auxiliava nos alongamentos e me fazia ir além dos meus limites. Sempre achei que seria o cara mais flexível do mundo, mas aí eu alonguei tanto que quase me machucava e resolvi diminuir no alongamento para não ter um problema no futuro, mas ainda fiquei muito flexível até os dias de hoje, ultimamente tenho alongado apenas para manter o que eu já tenho.
BW: Com que idade começou a competir no Breaking? Fale um pouco das principais vitórias e dos principais eventos por onde passou.
Jonas Flex: Minha primeira batalha foi com 13 anos de idade, eu dançava Breaking há menos de um ano, foi uma experiência incrível, mas não me dei bem em relação a vitória, mas me dei bem com a experiência que adquiri, que foi essencial para minha evolução como dançarino, até que o tempo foi passando e fui ficando em vários pódios de terceiro, segundo e primeiro lugar. Ganhamos 5 vezes o Giga B-Boys/B-Girls em Pernambuco, ganhamos 4 vezes o EDCRA na cidade de Exu (PE), ficamos 3 vezes em segundo lugar no Festival Cearense de Hip-Hop em Fortaleza (CE), já participei de vários Red Bull BC One Cypher Brasil, já participei de eventos internacionais como Unidisputed, Crashfast, BBIC no The Notorious IBE Holanda, Breaking It Up Hungria, Outbteak Eslováquia.
BW: Recentemente, você esteve em um grande evento aqui em São Paulo e, numa roda de conversa, falou sobre viver do Breaking aqui no Brasil. Queria que nos contasse a sua experiência, se alguém te apoiou financeiramente, patrocinou e que conselhos você daria para quem pretende viver da dança?
Jonas Flex: Esse é um dos assuntos mais complicados e delicados para mim, pois viver bem trabalhando com dança aqui onde eu moro em João Pessoa, para mim foi e ainda está sendo impossível, tive que buscar outros meios para conseguir realizar “meus sonhos” e pagar meus boletos. Abri uma empresa e hoje trabalho com moda Street Wear, mas para quem realmente quer viver da dança, eu aconselho se dedicar bastante, mas sempre ter dois caminhos, para caso um caminho não dê certo, você tenha o outro, assim transformando os dois caminhos em um e não se tornar um “dançarino frustrado”.
Imagem: Jonas Flex / Arquivo Pessoal
BW: Nos últimos anos vivemos muitas mudanças, o Breaking virou uma modalidade olímpica. Como você vê todas essas mudanças, cultura versus esporte e a forma que vem sendo trabalhado no Brasil. Olhando o cenário mundial estamos preparados para subir num pódio?
Jonas Flex: O Breaking nos Jogos Olímpicos é de extrema importância, pois trará muita visibilidade e valorização para o Esporte/Dança, gerando emprego e patrocínio de grandes empresas para os B-Boys/B-Girls, sendo assim, alcançaremos o tão sonhado “Viver bem de dança no Brasil” algo que eu espero dizer um dia, hoje é possível para mim.
BW: Verdade que esse ano você vai para fora? Quais são seus planos? Por que países pretende passar? E por quanto tempo pretende ficar fora do Brasil?
Jonas Flex: Vou passar 40 dias na Europa, onde estarei participando de vários eventos, como World Breaking Classic, The Notorious I.B.E e Outbreak e, claro, fazendo aquele network, criando uma conexão com novos amigos e aprendendo um pouco da cultura de cada país que estarei passando.
BW: Jonas, você é um B-Boy bem experiente e já gravou vários tutoriais que têm ajudado B-Boys e B-Girls espalhados pelo Brasil. Outro assunto que você tocou na roda de conversa no evento aqui em São Paulo, foi sobre o “perigo das lesões”. Nos fale um pouco sobre esse assunto e se existe uma forma de se cuidar mais e de diminuir os riscos?
Jonas Flex: Esse é um assunto que eu posso falar, pois sou a prova viva. Infelizmente, para quem não sabe, eu sempre eu fiz Street Show, por 10 anos, como dependente, para completar minha renda, ou seja, se eu não dançasse no semáforo de trânsito e na orla da praia, eu ficaria sem dinheiro para se manter, o que foi um pensamento muito triste da minha parte, pois poderia ter pego outro trabalho para poupar meu corpo; no semáforo de trânsito eram, em média, 80 entradas com flares e handhops e isso foi desgastando meu corpo, principalmente a virilha, pois o corpo não aguentou o excesso de exercício físico. Hoje eu evito dançar sem me alongar ou aquecer, para não me lesionar. Muitas vezes você vai em um shopping ou algum passeio e as pessoas falam “Faz um flare aí, ou dá uma entrada para eu gravar” e, assim, na emoção, você acaba fazendo e aquilo pode te custar uma lesão crônica ou tão demorada que pode durar anos e nunca mais ser o mesmo corpo, eu fiquei lesionado da minha virilha por 7 anos, isso tudo porque eu fazia o Street Show na orla de praia sem me alongar e acabei adquirindo essa lesão, e olha que em 2014 eu era um dos caras mais flexíveis do Brasil, mesmo assim não teve jeito, a lesão ficou até 2021 e hoje estabilizou 90%, mas depois de passar por vários médicos, fisioterapia, nada dava jeito, até que desisti de tudo e deixei ver até onde ia e acabou melhorando, talvez por sorte (risos tristes).
Imagem: Little Shao
BW: Em alguns eventos, você tem dançado de luva devido a um suor excessivo nas mãos. Na medicina, isso é chamado de Hiperidrose, é isso? Talvez você não seja o único que passa por esse problema. Pode explicar um pouquinho da sua experiência, do que acontece com você e quais as alternativas para resolver isso?
Jonas Flex: Para quem não sabe, eu tenho esse problema de Hiperidrose, que é um suor excessivo nas mãos, isso me atrapalhou desde o início quando comecei a dançar Breaking, vários eventos eu deixei de participar devido o piso ser muito liso e não dar para mim. Perdi as contas de quantas vezes eu caí ou deixei de fazer meus movimentos devido o piso liso, até que eu fui para o evento Red Bull BC One Fortaleza 2021, onde estava super preparado, com várias entradas e movimentos para ganhar e acabei escorregando no piso e não consegui desenvolver como eu gostaria. Após sair de lá, muito triste, eu fui atrás de um método para solucionar o meu problema, o que eu já deveria ter corrido há muito tempo, tentei várias coisas, como pó magnésio, gesso, entre outros e nada deu certo. Então, fui atrás de uma luva que não deixasse escorregar e fosse confortável para eu dançar. E resolvi meu problema, por enquanto, porém, pretendo fazer essa cirurgia para parar de suar, ela no particular passa de R$ 20.000,00, mas estarei buscando pelo SUS aqui na minha cidade e espero conseguir o mais rápido possível, além disso, eu tenho Ceratocone, um problema de vista que deforma a córnea e fiz a cirurgia de um olho e ainda falta o outro, depois disso estarei 100% para me dedicar ainda mais ao meu Breaking.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
Jonas Flex: Meus planos para o futuro, é conseguir viver bem da dança, algo que no fundo eu ainda acredito que será possível, mas também se não der certo, continuarei firme e forte com meu Breaking e trabalhando na minha área de empreendedorismo e me dedicando ao máximo como sempre fui.
BW: Deixe uma mensagem para os leitores do Portal Breaking World?
Jonas Flex: Deixo meu agradecimento ao Portal Breaking World, por poder contar um pouco da minha história, também agradeço a todos vocês que tiraram um tempinho para ler mais sobre mim, que nós do Breaking e da dança no geral, nunca venham a desistir de sonhar, mas nunca fiquem apenas no sonho, vamos realizar, novos tempos estão por vir, foco no trabalho.
Imagem em destaque: Jonas Flex / Arquivo Pessoal
Imagem: Jonas Flex / Arquivo Pessoal
Imagem: Jonas Flex / Arquivo Pessoal
Imagem: Lucas Matheus
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E o Portal Breaking World tem a honra de trazer para vocês mais uma daquelas entrevistas que oferecem uma viagem ao túnel do tempo. Sim, o Hip-Hop não para e nem seus personagens e suas incríveis histórias! Nesse bate-papo convidamos Jackson Moraes ou MC Jack para conversar conosco! Jack é uma lenda viva, um dos caras mais versáteis do Hip-Hop nacional, além de ser MC, é DJ e também já foi B-Boy. Ele apareceu na primeira coletânea de Rap nacional, chamada “Hip-Hop Cultura De Rua”, em 1988, com as músicas “Centro da Cidade” e “Calafrio”. Filho do Seu Augusto e Dona Antônia, desde pequeno tinha muita música dentro de casa, de várias vertentes. No Breaking, gostava de dançar no meio da roda, viu a efervescência da São Bento e de algumas crews que fizeram história! Com mais de 30 anos de Hip-Hop, Jack, em 1991, foi Vice-Campeão Brasileiro do DMC, em 1996 ganhou o DMC BRASIL e se tornou o primeiro DJ brasileiro a figurar entre os 10 melhores do mundo! Ficando, também, em 4º lugar no DMC World, que foi realizado em Rimini, na Itália. Falamos do início de tudo, das rivalidades, do Breaking, do Rap Nacional, da nova geração, do Trap e etc… O mano é brabo e a entrevista foi reta! Confira:
BW: MC Jack você é uma lenda viva da Cultura Hip-Hop brasileira, são bem mais de 30 anos de caminhada, queria que você se apresentasse e nos contasse como foi seu primeiro encontro com essa cultura. Verdade que você começou no Breaking?
MC Jack: Salve! Eu sou o Jackson Moraes, filho do Seu Augusto e Dona Antônia. Desde pequeno, tinha muita música dentro de casa de várias vertentes: Samba, Pop, Rock, Black, Brega, Românticas, além de ouvir muita música de rádio. Diversão eram as matinês na Asteroides, no Boomerang e no Contra Mão. Um dia, um brother chamado Rildo chegou na matinê da Contramão e me disse: “Jackson, tem uma dança nova que os caras dançam igual robô e eles rodam…”, logo entendi que aquilo era para se dançar sozinho. Nunca fui muito de dançar os “passinhos”, eu gostava de dançar no meio da roda! Começamos a treinar aquela nova dança sem fazer ideia do que fazíamos. As referências sobre o Breaking eram escassas, um vídeo aqui e uma foto numa revista ali, mas ele já se espalhava pelos bairros de São Paulo.
Imagem: Reprodução
BW: Nos conte como foi seu primeiro contato com o Nelsão, o famoso “Homem Árvore”, e com as pessoas que dançavam Breaking no centro de São Paulo? Quem estava lá naquela época? E conte a história que na roda do Nelsão só entrava quem sabia dançar…
MC Jack: Quando fui a primeira vez na 24 de Maio, onde sabíamos que estava rolando um pessoal dançando, pedi para o Nelsão entrar na roda e ele me deixou de lado, e quando não tinha mais ninguém olhando ele me falou: “Dança ae mans!”, e eu respondi: “Agora não quero! Não tem ninguém olhando!” (risos). Ele me disse que só entrava na roda dele quem sabia dançar… aí fui para cima, sai rodando de costas e parei na ponte. Ele, surpreso, me perguntou: “Qual seu nome?”, eu falei: “Jackson!”… E ele, na pronúncia gringa, falou assim: “A partir de agora seu nome é Jack”. Daí nasce o B-Boy Jack. Minha primeira gangue foram os Bombetas Mágicas.
BW: Jack, nos fale um pouco da força e da efervescência do Breaking naqueles anos, das gangues e de toda atmosfera de quem participava de tudo isso aqui no Brasil? Das amizades, das rivalidades, das crews e das tretas?
MC Jack: Colei com o pessoal da 24 de Maio, Nelsão, Paul, Billy, Freddy, Raul, Nice, Charles, Função, João Break, Luizinho (LZ), Itaú, Maguila, André, enfim, estive na São Bento desde o começo. Fiz parte da gangue Nação Zulu, que era formada por: Zulu, Gerson, Renato, Mad Zoo, Bimbinho, Bicudo, Cabecinha e Getúlio. E a minha última gangue foi a Crazy Crew, onde faziam parte o Taroko, Hiro, Mistério, Sandrão, Azambaa e eu. A Crazy Crew perturbou a cena na época… fomos procurar mais informações na Ginástica Olímpica, fomos aprender as técnicas dos “mortais”, “flare” e outros movimentos. Eu amo a Crazy Crew! Ao passar dos tempos, o Breaking foi tomando conta do Brasil e o contato com outros B-Boys foi ficando mais frequente. Até que veio o “advento” do filme “Beat Street”, de 1984, que mudou tudo que todo mundo pensava sobre a dança. Foi mágico cabular aula no SENAI e ir ver o filme (risos). Fiquei o dia todo dentro do Cine Ritz no centro de SP, comi minha marmita gelada, mas valia… Era o Beat Street! As principais gangues de São Paulo, naquela época, eram: Crazy Crew, Nação Zulu, Street Warriors, Back Spin. Só lembrando que existiram várias outras gangues, em vários outros lugares de São Paulo e do Brasil… O clima entre as gangues era algo que queríamos imitar o enredo do filme Beat Street, havia rivalidade e, às vezes, passava dos limites, mas a dança sempre teve acima disso tudo! No meu caso, a Crazy Crew tinha uma rivalidade épica com a Back Spin. Tivemos rachas históricos!
BW: Em que ano o Rap começou a chegar com toda força aqui no Brasil? São Paulo foi o grande reduto de tudo isso?
MC Jack: O Rap começa a ser percebido por volta de 1985. Os B-Boys entenderam que o Rap era ligado ao Breaking e a partir disso foi um caminho natural cada gangue ter o seu Rapper e o disco “Hip-Hop Cultura de Rua” é um exemplo disso e, por causa disso, ele teve uma visibilidade muito grande quando foi lançado, em 1988. Foram Thaide & DJ Hum (Back Spin), Código 13 (Nação Zulu), MC Jack e DJ Ninja (Crazy Crew e Street Warriors). O Credo, foi quem articulou a reunião destes artistas nesse disco. Em nome do MC Who Uzi & DJ T e o Gilson no comando geral. O Rap, assim como o Breaking, se espalhou ao mesmo tempo pelo Brasil, mas São Paulo saiu na frente no quesito visibilidade. A reunião da São Bento teve o intuito de dar uma “apaziguada” nos ânimos das gangues, pois estava caminhando para uma direção onde o fundamental que era a dança estava começando a ficar em “segundo plano”… estava muvucando demais e gente dançando de menos… Importância fundamental para o bom andamento do movimento Hip-Hop… a partir dessa reunião muita coisa tomou um rumo mais profissional e mais raiz.
Imagem: Reprodução
BW: Como foi quando houve a junção de todas as gangues, dos B-Boys na São Bento? Quem eram os grandes nomes do Breaking naquela época? Tinham B-Girls, quem eram? Em que ano foi isso?
MC Jack: Foi em 1984 e 1985. Lendas da São Bento… Andrezinho & Silvão. B-Girls: Kika, Reka, Fernanda e Celina… Hoje em dia, tenho a grata satisfação de apertar a mão de quem já foi meu “inimigo”… todo último sábado do mês tem “Encontro na São Bento”, das 13h às 18h…
BW: Quando na sua vida começou a rolar de fato os trabalhos como MC Jack e como foi isso? Breaking e rima: foi necessário escolher entre um e outro? Como eram os shows e os bailes daquela época?
MC Jack: Em 1986, eu continuava a dançar, mas já estava começando a fazer umas rimas junto com o Azambaa. Ele parou um tempo depois e eu continuei. Ganhei o primeiro concurso de Rap do Clube da Cidade no baile da Chic Show. E assim, seguiu uma sequência de apresentações em outros bailes de outras equipes também. Em 1987, eu e o DJ Ninja já estávamos conciliando nossos trampos com os shows. Eu trabalhei no Mappin, de 1985 a 1988, o Ninja trabalhava nas lojas de discos na galeria 24 de Maio e o A.G. Naja (Rooneyoyo) trabalhava no Bamerindus da 7 de Abril. Em 1988, eu já estava um pouco distante do Breaking e me dedicando mais ao Rap… e nesse ano é quando rola a gravação do disco Hip-Hop Cultura de Rua… Produção de Dudu Marote nas duas faixas… Centro da Cidade & Calafrio… Scratches por DJ Ninja.
BW: Como era fazer Rap Nacional naquela época? Havia apoio? Alguém abria caminho? E como era esse vínculo do Rap com os B-Boys?
MC Jack: Os shows eram basicamente nos bailes Black das equipes, não havia uma cena fora disso. Mas ao longo do tempo fomos pavimentando nosso espaço como artistas. Pouca estrutura, mas muito esforço! Algumas equipes de baile ajudaram mais que as outras… Equipe Kaskatas ajudou muito o Rap Nacional! O vínculo entre Rappers e B-Boys eram uma simbiose natural. Os dois vinham do mesmo berço: a rua!
Imagem: Reprodução
BW: E quando aconteceu o movimento dos DJs? Nos fale da sua caminhada também como DJ?
MC Jack: Os DJs foi algo que aconteceu de uma forma muito mais tímida, porque havia o lance de ter os equipamentos. Algo muito mais difícil! Então, a primeira geração dos DJs do Movimento Hip-Hop foi pequena, estavam lá: DJ Hum, DJ Ninja, DJ KL Jay e DJ Mad Zoo. Em 1990, é desfeita a dupla MC Jack & DJ Ninja e eu sigo sozinho tanto como MC e como DJ. E, por incrível que pareça, no mesmo ano de 1990 eu fiquei em 9º lugar no Campeonato Brasileiro de DJs – DMC 90. Aprendi muita técnica de DJ num curto espaço de tempo e, em 1991, fui Vice-Campeão Brasileiro do DMC 1991! De 92 a 95 não tiveram campeonatos. De 1992 e 1993 passei tocando em várias casas noturnas, 1994 comecei a tocar numa casa noturna chamada Rivage, em Blumenau (SC). Já em 1996, ganhei o DMC Brasil e me tornei o primeiro DJ brasileiro a figurar entre os 10 melhores do mundo! Fiquei em 4º lugar no DMC World, que foi realizado em Rimini, na Itália. Em 1997, fui para as finais do DMC World e fiquei em 4º lugar novamente.
BW: Numa entrevista, você falou que a junção do Breaking com o Rap impediu o surgimento de uma indústria do Rap Nacional no nosso país. Houve uma ausência de se fazer negócios e tornar esse elemento como algo lucrativo… nos explique isso? E como você vê o que existe hoje no meio do Rap? E o que pensa sobre o Trap, essa mistura do Rap com a música eletrônica que virou uma febre da nova geração?
MC Jack: O Rap em específico nunca fez negócios aqui no Brasil! Éramos muito amadores neste sentido! Vou falar a minha visão: o lado B-Boy vindo da rua, praticante do racha, nunca falamos sobre o mercado que havia para a nossa arte. Queríamos treinar escondido e aparecer na hora e arrebentar nas rodas! Levamos parte desse pensamento para o Rap, escrever e esconder a letra para um “melhor momento” (risos). Não tínhamos nem cena. Esconder o quê? Mas, para nós, era uma visão muito natural! Se você pedisse para a maioria dos Rappers para escrever 5 letras para o dia seguinte, ele escreveria! E quando fosse perguntado quanto cobraria, não saberiam colocar valor naquela arte! E assim seguimos, nenhum Rapper pensava em ter um escritório ou tomar conta das próprias composições… estávamos preocupados em fazer show e levantar uma verbeta! E isso serviu de “espelho” para quem veio depois. Hoje consigo enxergar esse espaço deixado por nós mesmos, mas não existe culpa quando se faz de coração! Existem uns respingos disso até hoje. Ofereça o escritório do Emicida a algum Rapper e pode ser que ele queira somente o Nike do Emicida! Os negócios referentes ao Rap hoje em dia estão caminhando para o jeito certo, o artista toma conta da própria carreira, algo natural para qualquer Rapper gringo, que já faziam isso há anos! Devido ao “hiato” causado pelo próprio Rap Nacional, a nova geração criou o seu próprio estilo! O Trap é a síntese entre o Rap e o Funk, e os moleques tão rimando. Os assuntos falados nas letras de Trap refletem o tempo em que eles vivem… ah, não posso esquecer de falar que nos anos 90 eu lancei 3 CDs de música eletrônica.
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BW: Jack, recentemente foi lançado o minidocumentário da Puma “Onda do Break”, nos fale desse material e da sua participação.
MC Jack: O documentário da Puma registra o início de tudo. Não é algo “definitivo” porque na mesma época em que é retratado o documentário, em outros lugares do Brasil também estavam acontecendo a cena do Breaking. Agradecimento aos Gêmeos, que se empenharam para que isso se tornasse realidade!
BW: Estamos vivendo um momento em que o Breaking volta às mídias, dessa vez como um esporte olímpico. Falamos de uma cultura que virou esporte e que será uma modalidade olímpica em Paris 2024. Como você vê tudo isso? E o que acha sobre como o Brasil vem se organizando e se preparando para participar desse ciclo?
MC Jack: Nos meus melhores sonhos eu poderia imaginar o Breaking numa Olimpíada! Sensação de dever cumprido! Eu não estava errado! Faria tudo de novo! O atleta que for representar o Brasil vai levar parte de mim, porque parte de mim está nele! Somos um celeiro de talentos… vamos ter boas notícias num futuro!
BW: MC Jack, fale do que está fazendo neste momento, no que está trabalhando e quais são seus planos para o futuro?
MC Jack: Hoje em dia continuo tocando pelos vários cantos do Brasil como DJ. Têm músicas novas chegando…
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BW: Que recado você deixaria para a nova geração, seja do Rap, do Breaking, dos DJs ou do Graffiti?
MC Jack: O Recado é simples: O Hip-Hop não para!
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