Na última semana, o Portal Breaking World foi convidado pela Red Bull BC One para cobrir mais uma edição de um dos maiores festivais de Breaking do país, já na sua 18ª edição. Aceitamos o convite e agora dividimos com vocês, leitores, toda a correria desse evento tão esperado por B-Boys e B-Girls.
O festival da Red Bull BC One e seu filtro passou pelas cidades de Fortaleza (CE), Brasília (DF) e Curitiba (PR). Durante todas as disputas, os critérios avaliados pelos jurados Pelezinho, FabGirl e Neguin foram: criatividade, originalidade, dinâmica, combinações de movimentos e musicalidade – que significa dançar em cima da ‘quebra’ da música, o que traduz o nome desse elemento da Cultura Hip-Hop.
No último sábado (2), a festa foi em São Paulo e a decisão também. O evento começou com a testagem de Covid-19 em todos os dançarinos e profissionais envolvidos, nossa equipe também foi testada pelo laboratório Hilab Life, que trabalhou intensamente no local, depois do resultado do teste negativado, entramos na Red Bull Station. O clima era de animação e dava para sentir de longe a energia de cada B-Boy e B-Girl, que depois de meses isolados tiveram a oportunidade de voltar ao convívio social.
Alguns chegaram de longe para participar do evento, como foi o caso do B-Boy Russo, da Crew 021, que veio do Rio de Janeiro direto para São Paulo ou do B-Boy Luizin de Ipatinga, que também é responsável pelo Portal Cultura Urbana e viajou quase 13 horas para participar do evento. São dele as palavras: “O evento é um dos mais conhecidos, está bem organizado e a vibe está ótima. Valeu todo o tempo de viagem”.
A competição começou com os filtros das B-Girls e conversamos com algumas delas:
B-Girl Loirinha, de Fortaleza: “Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a Deus por me dar força de correr atrás dos meus objetivos. A Red Bull está top, está legal o evento. Graças a Deus eu fui classificada, fiquei no Top 8. É isso aí, galera, vale participar e todos que puder compartilhem a cultura!”
B-Girl Keka: “A preparação para a Red Bull BC One esse ano foi difícil, porque eu ainda estou lesionada, eu lesionei o tendão, mas mesmo assim eu não parei. Continuo fazendo o que mais amo que é dançar Breaking e não vou parar, mas da próxima vez vou me preparar mais”, perguntamos sobre um climão que rolou na batalha de Keka com a B-Girl Jeizzy, ela respondeu: “Se você quer respeito, então dê respeito, quando as pessoas desrespeitam então precisamos cobrar…”.
B-Girl Marcelina, de Campinas: “Salve pessoal, é a primeira vez que eu estou batalhando na Red Bull numa batalha de B-Girls! Eu treino desde 2016, não passei no filtro, mas a experiência está sendo muito boa. Eu gosto muito de Power Move, foi muito bom conhecer outras B-Girls aqui e trocar experiências com elas e com os B-Boys também.”
Os jurados também opinaram sobre o evento e sobre as batalhas de B-Girls:
B-Boy Pelezinho comentou: “Olha, se a eliminatória Cypher São Paulo estava nessa vibe, nessa energia, as meninas com sangue nos olhos, estou imaginando como será na final nacional… Parabéns paras as meninas, devem ir para cima mesmo!”. FabGirl também acrescentou: “Foi incrível, depois de tanto tempo de pandemia, é como se as pessoas estivessem com muita fome de Breaking, muito entusiasmo de dançar, de se expressar, está sendo lindo e para mim uma experiência única, é isso! Só amor!”
Também conversamos com os B-Boys e veja o que eles falaram:
B-Boy Ruddy: “Eu não participo da Cypher São Paulo, mas no domingo participo do nacional como convidado! Bom, eu vim daquela forma, representando o interior de São Paulo. Aquele jeitinho maroto de ser, sendo ridículo e único, quebrando técnica todo o tempo. Obrigado ao Portal também pela informação, que também salva vidas! Quanto mais falar do Breaking, mais pessoas são alcançadas e isso é bom.”
B-Boy Suco: “Salve a todos! Eu sou o B-Boy Suco, do Hip-Hop Educa, satisfação de estar aqui na Red Bull BC One. O evento está bom! Sobre o Hip-Hop Educa, continuamos com os trabalhos sociais, amanhã mesmo tem um evento lá em Mauá. O mês de outubro todo será dedicado às crianças e continuaremos o trabalho!”
B-Boy Alan Jackass: “Esse ano foi incrível, passamos por muitas coisas, perdas na família, com a volta da Red Bull estou feliz por estar aqui, ver os amigos, treinei bastante, mas aqui o chão está difícil pois escorrega e não ajuda quem é Power Move! Fora isso, o evento está ótimo! Tudo tranquilo. Esse ano tive Covid, foi minha mãe que cuidou de mim, eu fiquei com o pulmão 50% comprometido, eles queriam me internar, mas eu fiquei com medo de chegar lá e ser entubado e morrer, então, fugi do hospital. Afinal, temos visto tantas mortes! Nunca esperamos que as coisas aconteçam conosco, achamos que somos fortes e aprendemos que temos que nos cuidar mais! Hoje mesmo, aqui, fizemos o teste e acho que está tudo tranquilo, todo mundo que está aqui não tem nada! Então, me sinto bem!”
Rooneyoyo (De São Paulo, Presidente da Confederação Brasileira de Breaking – CBRB): “Estamos aqui prestigiando o evento da Red Bull BC One. Acabamos de ver os filtros e logo saberemos os nomes que vão competir amanhã! O evento está muito bom e desejamos sucesso a todos os competidores!”
B-Boy Amendoim: “Eu, um tiozão, participei hoje da Red Bull BC One. Eu bagacei, a galera curtiu a entrada (risos), agora vamos ver os resultados! A energia de encontrar todos novamente foi algo muito louco! A galera veio para mostrar o peso, para mostrar que treinou e que estava preparado, foi um filtro muito difícil e os 16 nomes que vão sair serão B-Boys muito bons! Quem treinou e quem estava preparado! A batalha de B-Girl também foi boa e estamos na expectativa!
Enquanto o programa olímpico, que engloba o Breaking a partir de 2024, busca um diálogo mais aberto com a nova geração, lembrando que em Tóquio, em outros esportes urbanos como o Skate foram eles que ocuparam os pódios, no festival da Red Bull BC One a presença da nova geração ainda aconteceu de uma forma discreta! Alguns, que são inclusive destaques em eventos internacionais representando o Brasil, não puderam participar por causa da idade, lembrando que a idade mínima para se inscrever na Red Bull BC One é 16 anos. Mas conversamos com o B-Boy Marcin (16) da Dream Kids Brazil, que mora em Catalão (GO) e com o B-Boy Richard, de São Paulo (16), ambos representaram essa nova geração no evento. Marcin nos contou: “Foi uma experiência muito boa, fiz o meu melhor no filtro! Quem conhece a minha história sabe que não foi fácil nesses últimos anos, perdi minha mãe com Covid, mas dei a volta por cima, continuo treinando e evoluindo!”
Richard também falou: “Estive na eliminatória em Brasília e agora em São Paulo foi muito bom, gostei muito da energia! A minha viagem para Brasília foi de doideira, fui sozinho e foi muito bom! Agradeço a todos que me acolheram e me ajudaram.”
O primeiro dia da Red Bull BC One em São Paulo foi um sucesso! E a vibe estava incrível! E os destaques entre os que passaram no filtro foram B-Girl Jeizzy e B-Boy Training, entre outros nomes que também foram para a final.
Domingo chegou e com ele a decisão da final nacional, onde numa grande festa foram escolhidos os melhores breakers quem vão representar o Brasil na Last Chance Cypher, evento que vale vaga na Final Mundial, marcada para dias 5 e 6 de novembro de 2021, em Gdansk, na Polônia. A tarde foi marcada pelas eliminatórias femininas e masculinas. A primeira competição foi entre as 16 melhores B-Girls, em duelos 1×1 elas se enfrentaram numa disputa que não foi somente entre B-Girls e B-Boys mas claramente entre marcas. Itsa e Nathana, duas mineiras, uma de Belo Horizonte e outra de Uberlândia, brigaram pelo título, mas o primeiro lugar ficou com Itsa, que foi campeã na última Red Bull BC One Brazil em 2019 e que esse ano com muita tranquilidade, técnica, fluidez e Power Moves, mais uma vez garantiu seu lugar na BC One Mundial derrotando a B-Girl Nathana, patrocinada pela Everlast, marca que recentemente montou um time de B-Boys e B-Girls e vem tentando se fixar no setor, porém, sem muito sucesso. A noite foi de Itsa, a bicampeã, que recentemente também perdeu seus avós com Covid e, muito emocionada, fez um discurso que comoveu a todos que assistiram.
No masculino, o goiano Alexandre Duarte, conhecido como B-Boy Xandin, de Anápolis, da Rock Niggaz Crew, garantiu o primeiro lugar contra o B-Boy Kapu, da 021 Crew, do Rio de Janeiro.
A competição foi cheia de emoção e aconteceu em alto nível. O evento pela primeira vez teve transmissão ao vivo pela SporTV, com narração de Renata Silveira e como comentaristas B-Boy Aranha, da Tsunami All Stars e B-Girl Sandra Kelly. O Portal Breaking World, no domingo, também transmitiu ao vivo a competição! Essa foi a primeira edição após a entrada oficial do Breaking nos Jogos Olímpicos. Agradecemos a Red Bull BC One o convite e a atenção dada ao Portal Breaking World!
“Eu percebi que o Brasil não me oferecia muita coisa e resolvi me projetar para fora, onde a minha arte é mais valorizada! ” (B-Boy Neguin)
Ele é de Cascavel, Paraná, mas hoje mora em New York e se considera um mensageiro da Cultura Hip-Hop e da arte. Com 33 anos, é considerado um dos melhores B-Boys do mundo. Conhece mais de 141 países e já participou de mais de 100 campeonatos internacionais, sendo o único latino-americano e brasileiro a conquistar o cinturão de campeão da Red Bull BC One. Também coleciona outros títulos, destaque para: UBC Championship em Las Vegas, Unbreakable, Freestyle Session e Outbreak Europe. Foram vários mundiais 1 vs 1, onde foi o único brasileiro a alcançar esses títulos até hoje. Trabalhou com grandes nomes internacionais como Fergie, Gwen Stefani, Sean Paul, Justin Timberlake, Paul McCartney e Missy Elliot. Estamos falando de Fabiano Carvalho Lopes, mais conhecido na cena e no resto do mundo como Neguin. O nosso Neguin do Brasil! O Portal Breaking World bateu um papo com ele e hoje apresentamos com exclusividade para vocês:
BW: Queria que você falasse como foi sua infância. O que gostava de fazer quando criança e que lembranças tem dessa época? Foram tempos difíceis ou tranquilos?
Neguin: Minha história começa em Cascavel, no Paraná, eu comecei na capoeira aos três anos de idade. E, depois de 10 anos praticando capoeira, me interessei em aprender uma cultura diferente, então, eu despertei o interesse e comecei a praticar a Cultura Hip-Hop. Eu pratiquei todos os elementos da Cultura Hip-Hop, mas o que eu mais me destaquei foi o Breaking, devido eu já ter toda essa filosofia e conhecimento da capoeira. Então, eu mesclei as duas artes que englobam várias artes em uma só e a partir dali dei início a uma nova trajetória dentro da Capoeira e do Breaking, onde sou reconhecido mundialmente hoje. Mas, nesse período de criança, da infância, eu me envolvi também com outras atividades, o skate, o jiu-jitsu, sempre me envolvi com artes, pinturas. Sempre fui um menino voltado a aprender coisas novas que me inspiravam artisticamente. Sim, foram tempos difíceis devido ao nosso país não proporcionar apoio e nada, eu vim de família super humilde, que sempre apoiaram a minha arte, mas financeiramente sempre houve um obstáculo de viajar, ir para outros estados para poder competir, mas foi uma infância muito saudável, curti muito e ainda curto. Hoje estou com 33 anos, mas eu ainda me sinto aquele moleque de 13…
Mesclando capoeira e jiu-jitsu ao Breaking, ele se tornou um dançarino completo e conquistou o mundo
BW: Quando você disse: “É isso que eu quero para minha vida”? A capoeira, o jiu-jitsu vieram antes da paixão pela dança?
Neguin: Foi quando eu terminei o ensino médio e a capoeira e o jiu-jitsu chegaram antes do Breaking, sim. Eu terminei o ensino médio, comecei a trabalhar, eu teria a capacidade de ser um gerente numa empresa mas não foi isso que eu escolhi, pois a minha arte sempre falou mais forte e eu me joguei, peguei a primeira oportunidade e saí para fora do país, como competidor de Breaking e aproveitei essa oportunidade e me destaquei, a partir dali eu já fiz o meu cartão de visita, as pessoas identificaram o meu talento e eu comecei a viajar para outros países, em princípio para competir e, obviamente, eu comecei a ministrar palestras, workshops e tal, e surgiram outras coisas como Cirque du Soleil, comecei a trabalhar com a Madonna e minha carreira teve uma projeção rápida, ainda nos meus 19 e 20 anos.
BW: Verdade que você sofreu grandes influências dos seus irmãos que dançavam e faziam ensaios em casa? O que eles dançavam? Nos fale um pouco dessa convivência com os irmãos e como passou a entender a dinâmica da música e da dança?
Neguin: Sim, os meus irmãos dançavam o estilo deles de “club”, os “flashbacks” e foi minha irmã que me introduziu na capoeira. A minha família sempre me inspirou na arte, mas o estilo de dança deles era de passinho e tal, mas o que me influenciou bastante foram as músicas que eles escutavam na época. Escutavam flashbacks e as músicas mais clássicas e obviamente passando pelo Techno e música eletrônica. Eu cresci ouvindo música eletrônica e mesmo quando eu comecei a praticar o Breaking eu ia também nas festas raves, então, a música eletrônica sempre esteve presente dentro do meu estilo.
BW: Nos fale um pouco sobre inspirações… houve pessoas que te inspiraram na dança? Queria que você falasse também da fusão de Breaking, capoeira, movimentos acrobáticos, jiu-jitsu. No Breaking houve movimentos mais difíceis de aprender ou você sempre teve facilidade em todos?
Neguin: As inspirações, como qualquer arte que você aprende no início, lógico que tem várias inspirações, várias pessoas que são referência na modalidade, então, as minhas maiores inspirações foram vários dançarinos. Ken Swift, K-Mel, os membros da minha equipe, Pelezinho, antes de o conhecer eu já admirava bastante o trabalho dele e a minha mesclagem com a capoeira é um complemento, toda movimentação da capoeira introduzida no Breaking é uma característica minha e vice-versa e o Breaking sim, tem o grau de dificuldade mais difícil que a capoeira, mas um complementa o outro e a dedicação em cada movimento e cada etapa dentro do que você pratica acaba se adaptando e desenvolvendo uma movimentação nova. Enfim, um complementa o outro.
141 países, mais de 80 competições internacionais, vários títulos mundiais: este é o Neguin do Brasil!
BW: Fale dos principais eventos que participou e que foram especiais para você?
Neguin: Eu participei de mais de 100 campeonatos internacionais, eu sou o único latino-americano, o único brasileiro a ser campeão mundial do Red Bull BC One, eu sou o campeão de 2010, também ganhei outro mundial chamado UBC Championship, em Las Vegas e ainda Unbreakable, Freestyle Session e Outbreak Europe. Foram vários mundiais 1 vs 1, eu fui o único brasileiro a alcançar esses títulos. No Brasil, participei de vários também menores, mas o início da minha carreira como competidor já me destaquei mais nos eventos internacionais, então, uma vez que eu entrei no circuito internacional, as batalhas foram em todos os continentes e eu já viajei a 141 países e dentro desse número, pelo menos nuns 80 eu estive competindo.
BW: Neguin, viver da dança é um desafio? Recentemente vi um depoimento seu onde dizia que você conheceu o mundo através da dança e da Cultura Hip-Hop. Que dicas você dá para quem pretende viver da dança?
Neguin: Sempre será um desafio como artista ter obstáculos a serem enfrentados. Primeiramente, você tem que acreditar na sua arte, ser bom naquilo que você faz, se dedicar, porque nada na vida vem fácil, é muita dedicação, muita disciplina e é preciso ter foco, ser focado nessa arte e ver o que o mundo te oferece para facilitar esse espaço para você, no meu caso era sempre difícil, mas eu pensava “eu vou me preparar para quando rolar a oportunidade eu estar pronto, então, o que vou precisar? Vou precisar do e-mail? Vou! Vou precisar falar inglês? Opa, não falo inglês, então, vou praticar inglês, não vou ficar no Facebook falando com as garotinhas. Eu vou afiar o meu inglês para que eu esteja preparado para viajar para o exterior”. Então, é uma questão de preparação! Falar inglês, estudar a sua arte! Ter todo o conhecimento para investir na sua arte, no seu talento, aproveitando as oportunidades que virão e a partir dali ter o que chamamos de sucesso! Para chegar no sucesso, precisa valorizar a sua arte e estudar muito!
BW: Atualmente, onde você mora? Como foi sair da sua terra e viver em outro país, com outro idioma e outros costumes? Como foi essa transição e adaptação?
Neguin: Atualmente, eu moro em New York, essa cidade sempre foi a minha base, eu morei na Califórnia um tempo, mas atualmente eu moro em New York. Com as viagens que eu fazia como competidor, através das minhas viagens com a dança, com a capoeira e o jiu-jitsu, eu percebi que era o lugar que eu me identifico muito, é um local onde as oportunidades estão aqui para tentar! Tanto New York como São Paulo não é nada fácil, é o mesmo perrengue e a mesma correria, porém, eu sempre gostei da Cultura Hip-Hop e como nasceu lá e a Cultura House Dance no contexto geral, New York despertou essa minha possibilidade de viver lá, então, me projetei para viver naquele local e já tem 12 anos que moro lá. Não me lembro muito das dificuldades do início, mas olha, eu não olhei para trás não! Eu percebi que o Brasil não me oferecia muita coisa e resolvi me projetar para fora, onde a minha arte é mais valorizada!
A busca pela valorização de sua arte o levou para fora do Brasil
BW: Parece que você conseguiu rapidamente se conectar com as pessoas certas, trabalhando com celebridades como Madonna, Fergie, Gwen Stefani, Sean Paul, Justin Timberlake, Paul McCartney and Missy Elliot. Nos conta como tudo aconteceu?
Neguin: O meu talento sempre se destacou de uma certa forma, as redes sociais também, a internet facilita esse traslado, o network com as pessoas que eu conheci. Eu já estava morando em New York quando a Madonna assistiu um vídeo que mostraram para ela e ela ficou sabendo que eu estava em New York, ela foi no clube onde eu estava e falou: “eu quero ir lá ver quem é esse cara e vou conhecê-lo”. Na verdade, a Madonna foi até uma festa onde eu estava dançando em pessoa, você vê como em New York tem uma realidade bem diferente, a celebridade, a ícone da música pop chegou lá na festa, como uma cidadã comum, né? Ninguém olhou para ela como celebridade e a partir dali eu comecei a trabalhar com ela, aí a história vai muito mais a fundo. O meu network sempre foi voltado a estar em lugares e representar bem quem eu sou, representar a minha imagem, representar o Brasil, eu acho que isso reflete em todos os meios, seja num show, seja num vídeo. Seja na rede social.
BW: Falando especificamente da Madonna, nos conte sobre o tempo que dançou e trabalhou com a Rainha do Pop. Como foi essa oportunidade e o que lembra desse período?
Neguin: Eu conheci a Madonna em 2009, então, eu fiquei de 2009 até 2014, foram 5 anos, eu desenvolvi trabalhos com ela como performance, como coreógrafo nas turnês e acabei também ficando com ela! Eu tive um “affair” com ela também, durante um ano, poucas pessoas sabem disso, mas aconteceu, foi uma coisa bem saudável, um relacionamento saudável, teve toda a dinâmica, a gente ainda conversa, ultimamente pouco, faz muitos anos que não nos vemos, mas sempre trocamos ideia pela internet, mas foram 5 anos de trabalho e tive essa experiência muito legal.
Neguin e Madonna (ao centro): 5 anos de trabalho e 1 ano de “affair” com a Rainha do Pop
BW: E o Cirque du Soleil? Fale como surgiu o convite e como foi essa experiência?
Neguin: O Cirque du Soleil desenvolvo trabalhos com eles desde 2008, mas eu sempre trabalhei com eles num formato de fazer shows de viagens e turnês e não num lugar fixo em Las Vegas, então, sempre fiz shows em Andorra, na Europa, no México onde eles me chamavam. Aí eu ia fazia um mês, às vezes ou uma semana. Ou shows específicos numa reunião ou num evento, então, eu sempre trabalhei em turnê com o Cirque du Soleil. Isso aconteceu em 2010, 2014, 2016, ou seja, sempre estou fazendo shows com eles. Então, o meu relacionamento é desde 2008!
BW: Em 2010, como você mesmo falou, você foi o único latino-americano, único brasileiro a vencer o Red Bull BC One, que é um dos maiores campeonatos 1vs 1 do mundo. E as pessoas o têm como referência. O que na sua opinião foi determinante para esse sucesso?
Neguin: A diferença é nítida, se eu cheguei lá é porque eu sou autêntico através da minha arte de representar quem eu sou e o que eu aprendi, nesse caso, a capoeira misturando e tendo uma identidade específica, não sendo igual a todos. Eu não sou que nem o europeu, asiático ou americano. Eu tenho características brasileiras! Afrodescendente, toda a mistura que o Brasil nos oferece, então, isso caracterizou muito o meu estilo, o meu talento. E seu eu cheguei lá foi porquê eu busquei isso! Eu passei as dificuldades, superei todos os obstáculos e foquei naquilo, o foco e a disciplina ajudaram que eu alcançasse o que alcancei. Então, se eu consegui, qualquer um pode conseguir também! Basta ter esses princípios para ser autêntico, original e ter foco e força na disciplina!
Campeão da Red Bull BC One 2010: único latino-americano a conquistar o mais cobiçado título da categoria
BW: Bom, atualmente o assunto que mais se fala aqui no Brasil entre B-Boys e B-Girls é o fato do Breaking ter entrado para os Jogos Olímpicos. O que acha sobre isso? Na sua opinião temos B-Boys e B-Girls preparados para competir de igual para igual com outros países e trazer uma medalha olímpica para o Brasil? O que acha do nível dos nossos B-Boys e B-Girls atualmente?
Neguin: Essa é uma conquista extremamente importante, não que o Breaking precise das Olimpíadas, mas com certeza nessa nova plataforma, que são os jogos olímpicos, isso vai fazer com que as pessoas que não conhecem o Breaking vão ter uma visão de conhecer um pouco mais, então, isso veio para somar. Referente ao Brasil, somos um dos povos mais reconhecidos no circuito mundial, eu acredito que os brasileiros têm sim um grande potencial de trazer medalhas e representar mas vai ter que correr atrás, bastante, porque têm outros países que já são maiores potências, ter mais disciplina, ter mais apoio. Tipo a Rússia, a China e, então, para os brasileiros, acho que vão precisar continuar praticando e estudando, ter todo esse lado de ajuda, de tentar ajudar o país o melhor possível com toda a minha bagagem como competidor, mas é isso… As Olimpíadas eu apoio totalmente, porque o Breaking não é um esporte apenas, é uma cultura, mas também somos atletas, querendo ou não, então, seja um campeonato da Red Bull BC One, seja nas Olimpíadas ou numa batalha da esquina o Breaking vai estar presente em todas as plataformas e torcemos para que os brasileiros tenham grande destaque e nos representem bem e esperamos também que o Brasil apoie um pouco mais seus competidores, seus atletas! Vamos ver o que rola…
BW: Para finalizar, queria que falasse sobre o Programa da MTV “De férias com o Ex” que participou recentemente. Foi desafiador?
Neguin: A participação veio através de um convite logo em novembro, e eu resolvi participar porque eu não estou viajando muito, então, estou disponível e usei o programa como uma forma de experiência nova para mim e ao mesmo tempo representar o que eu faço dentro de um ambiente que é bem diferente do que eu faço, então, entrei lá como atleta e toda a minha vida, style, que tem esse lado de curtição, foi uma experiência muito boa para mim e vamos ver agora como vai ser, eles vão lançar essa semana, por ser um programa editado espero que a repercussão da minha imagem seja bem positiva e que tragam novos públicos e pessoas que não me conheciam e passem a me conhecer vendo o que faço artisticamente.
BW: Que mensagem você deixaria para todos os B-Boys e B-Girls que curtem o seu trabalho?
Neguin: A mensagem que eu deixaria é gratidão! Eu tento sempre inspirar essas pessoas e cada um ensina um (risos), então, eu acho que se eu posso inspirar milhares de pessoas, que as pessoas que se inspiram em mim possam fazer o mesmo! A minha mensagem é que estamos todos num mesmo barco, somos todos mensageiros da arte e da Cultura! Abraço a todos!
Fotos: Arquivo Pessoal
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E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
Ele nasceu no bairro do Tatuapé, mas sua infância foi na Vila Curuçá, em São Miguel Paulista. Seu sonho, como a maioria dos meninos brasileiros, era ser jogador de futebol, sempre incentivado pela família. Começou a jogar com apenas 4 anos. Depois, conheceu a capoeira, onde no primeiro dia se identificou, sentindo-se em casa e livre. Durante anos, jogava futebol e fazia capoeira. Mas foi em 2006, com apenas 12 anos, que mergulhou de corpo e alma no Breaking. Sua evolução foi rápida! Foi o futebol e a capoeira que lhe deram a base para tudo, confessa que sem eles não teria a dedicação e foco que tem hoje. Foram nessas artes que aprendeu a ser persistente, paciente e dedicado. Os primeiros passos de Breaking deu na própria sala da casa onde morava, vendo um DVD da Red Bull BC One, onde tentava copiar os movimentos, o pai também tinha coleção de discos em casa, cresceu escutando alguns clássicos do Hip-Hop, a música sempre foi presente em sua vida. O menino ganhou idade, conquistou seu espaço, aprendeu a dançar no meio da pressão e sobreviver às críticas, resolveu viver sua própria vida, da sua forma e aprendeu que o segredo sempre foi focar no presente, no agora, plantar as sementes para colher no futuro com muita paciência e dedicação. Recebeu influência de grandes nomes do Breaking e caminhou alguns anos lado a lado com o inesquecível B-Boy Kokada, esse foi um amigo que se tornou irmão. Sim, estamos falando do B-Boy Lukas Galante, o Portal Breaking World teve o prazer de conseguir conversar com ele, entre um compromisso e outro, nuns horários bem doidos e conhecer boa parte da sua história de vida, que apresentamos com exclusividade para vocês. Confira a entrevista!
BW: Luka, nos fale onde e quando nasceu, nos conte um pouco sobre sua infância, adolescência e família. O que gostava de fazer? E que lembranças memoráveis você tem dessa época? Foi uma infância tranquila e feliz ou houve dificuldades?
Luka: Nasci em São Paulo, no bairro do Tatuapé, no dia 21 de fevereiro de 1994. Cresci na Vila Curuçá, em São Miguel Paulista. Eu sempre tive o apoio dos meus pais, desde pequeno meu sonho era ser jogador de futebol. Foi onde comecei a praticar em uma escolinha do bairro, por volta dos 4 anos de idade. Nessa mesma época, meu pai queria que eu praticasse Ginástica Olímpica, acredito que a ideia dele era proporcionar opções para eu poder praticar e me identificar com alguma arte. Lembro que ele foi atrás, mas não tinha nenhum espaço ou ginásio que ensinasse na região em que morava. Foi aí que surgiu a ideia da Capoeira. Morávamos a um minuto de uma academia e lá eles tinham aulas. Meus pais tiveram interesse e me levaram para fazer uma aula e ver como eu me sentia. Eu me senti livre e me identifiquei demais com a Capoeira, desde a primeira aula. Capoeira duas vezes na semana e futebol todos os sábados. Com o tempo, passei a treinar futebol quase todas as manhãs. Fiquei anos praticando e conciliando as duas atividades. Eu tive uma infância feliz, nunca faltou nada pra mim.
Luka e Neguin (campeão mundial da Red Bull BC One). Em comum: a Capoeira
BW: Futebol no Curuçá Society pela manhã e Capoeira à tarde: quando surgiu tudo isso e até onde você foi? Fale da sua relação especificamente com a Capoeira e de todo o benefício que isso trouxe à sua vida e à sua dança?
Luka: Pratiquei as duas atividades por um bom tempo. No futebol eu fiquei firme até uns 14 anos de idade, tentei virar profissional. Eu comecei a praticar Breaking no final de 2006, eu tinha 12 anos de idade. Na época, eu mergulhei no Breaking, minha evolução foi rápida pelo fato de saber alguns movimentos parecidos da Capoeira. Eu me inspirei tanto no Breaking, que a energia que eu sentia na aula ou na roda de Capoeira fazia eu tentar uns movimentos a mais no meu estilo de jogo. Meu corpo se interessava mais pelos floreios, mortais, pulos de mão. Foi quando meu instrutor Marcelo Lampanche conversou com meus pais e depois comigo. Ele sabia que eu estava aprendendo e super inspirado no Breaking, mas estava tirando um pouco o meu foco da Capoeira. Ele conversou e deu a ideia de eu seguir firme somente no Breaking. Sem a formação de vida que eu aprendi não só na Capoeira mas no futebol também, eu não teria a dedicação e foco que eu tenho hoje. Foram nessas artes que eu aprendi a ser persistente, paciente e dedicado. Me ensinou que nada cai do céu, você tem que ir atrás, treinar e se dedicar se quiser atingir um nível bom. Fora os valores que você leva para a vida, como história, música, respeito e valor em fazer aquilo que você ama.
BW: Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? E com o Breaking? Teve algum mentor ou pessoas que te inspiraram na dança?
Luka: Desde criança, meu pai tinha coleção de discos em casa, eu cresci escutando alguns clássicos do Hip-Hop, a música sempre foi presente. Antes do Breaking eu já tirava algumas batalhas de saltos mortais na escola, tinham sempre uns moleques que gostavam de rachar para ver quem fazia melhor. Depois, eu tive influências que me levaram a praticar o Breaking. No final de 2006, eu vi uma reportagem de TV sobre a Red Bull BC One mundial, em São Paulo. Quando eu vi o nome da competição, procurei saber mais. Lembro que achei o DVD da BC ONE 2005 na Galeria do Rock, em São Paulo. Pedi para o meu pai e ele comprou. Assistia o DVD todos os dias e tentava copiar os movimentos na sala de casa. Tinha o DVD acústico do Marcelo D2 também, onde me inspirei muito no Pelézinho e o Chaveirinho. O Pelé foi uma grande referência pra mim, me marcou porque o vi na BC One e na performance para o D2. A partir disso, acabei conhecendo uma galera que praticava no Centro Cultural do Itaim Paulista, bem próximo da minha casa. Foi onde comecei a receber ajuda e conheci algumas lendas da zona leste de São Paulo: Cidinho, Júnior Favela, Careca, Dan… Esses foram os primeiros caras que me ajudaram a desenvolver a minha dança e acabaram sendo grandes mentores e influências para mim.
BW: Onde você deu os primeiros passos e fez os primeiros movimentos de Breaking? Quando você decidiu realmente que era o Breaking que você queria para a sua vida?
Luka: Na sala de casa! Consegui aprender com facilidade, alguns movimentos que já fazia desde criança foram base para aprender depois no Breaking. A minha evolução começou na época do Centro Cultural. Não teve momento de decidir se o Breaking era algo que deveria seguir… tudo aconteceu naturalmente, acredito que foi fruto de toda a dedicação e persistência. Eu fui plantando sementes dia após dia e esse processo sempre foi presente na minha vida, não só no Breaking. Tudo o que eu visualizo e quero, eu aplico as sementes e atitudes necessárias para a colheita no futuro. O segredo é focar no presente, no agora. O futuro ainda não chegou. Você só pode atuar no agora. O futuro é consequência do presente. Quando você ama o que faz, já está decidido e tudo trabalha para você naturalmente.
Treinar na sala vendo o DVD da Red Bull BC One: o início de uma grande jornada como B-Boy
BW: Normalmente, a maioria dos B-Boys e B-Girls não têm o apoio da família na dança. No seu caso, como isso aconteceu? Seu pai e sua mãe parecem muito presentes e incentivadores da sua dança. Nos conte como foi essa relação Breaking e família?
Luka: Sempre presente. Não só no Breaking, em todas as atividades que participei. Esse apoio é fundamental, imagine quantos talentos e sonhos seriam realizados se as crianças tivessem o apoio de suas famílias. O problema é que os pais fazem pelos filhos aquilo que eles acham que seria o melhor caminho da vida… A profissão ideal, algo que vai te proporcionar conforto e dinheiro. Mas não reparam na energia e amor, naquilo que a criança ou jovem quer seguir como carreira. Eu acredito que muitos jovens são reprimidos nessa questão, de seguir a sua vontade e intuição e acabam desistindo de seus sonhos por não ter aquele apoio e conexão com aqueles que estão do seu lado todos os dias. Por isso a importância de ter a família lado a lado, te apoiando em cada passo. O investimento no apoio, sendo assim os pais se aproximam e passam a entender a vontade do jovem. No meu caso, foi isso que aconteceu. Eu tive fases, Capoeira, Futebol, Basquete… sempre fui apoiado, mas segui a natureza do meu talento na dança. Na escola, sempre fui um bom aluno, mas nada me cativava e eu me questionava… O que vou ser quando crescer? Eu gostava de me movimentar, não importava a atividade. E na dança eu percebi bem novo que era uma arte vista como sem futuro, na opinião de muitas pessoas próximas de mim. Mas, graças ao meu próprio apoio, da minha família e das pessoas que acreditavam em mim, eu segui meu coração e vivo do Breaking.
BW: No aprendizado do Breaking houve movimentos mais difíceis para aprender? Ou tudo foi bem tranquilo para você?
Luka: Eu sempre tive facilidade para aprender qualquer movimento. Acho que isso faz parte do meu estilo diversificado. Principalmente atualmente, eu sinto que tudo é possível. Eu consegui perceber certa facilidade bem cedo no Breaking. Como eu tinha facilidade, eu tive inspiração para aprender tudo. Cada um do meu círculo de treino tinha algo especial e eu fui extraindo as técnicas de cada um. Kokada, Careca… lendas do Power Move, estavam lado a lado comigo. O Cidinho e outros caras nos saltos mortais. Jack, Allan e os outros meninos me ajudaram nos tricks e transições, na minha época da Biohazard Crew. B-Boy Fatal na influência de dinâmica, velocidade, Top Rock, Footwork e espírito de batalha. Eu fui aplicando as minhas idéias e trabalhei todos os fundamentos. Lógico que eu tenho minhas dificuldades, todos nós temos… mas como eu sempre estou ativo e treinando, o processo de aprendizagem acaba sendo mais rápido. Eu tenho muito o que aprender e melhorar e sempre será assim, no Breaking e na vida. Influências diferentes, gostos e ideias… que continue fluindo e criando.
BW: Em que ano você começou a competir e participar de eventos? Imagino que foram muitos eventos até hoje que você participou, mas teve algum que te marcou de uma forma diferente? Nos conte?
Luka: Em 2007 foi o ano do meu primeiro evento. Lembro que foi um evento em Mauá, SP. Depois desse evento, comecei a competir com frequência com a minha Crew, Biohazard, na época. Foi aí que comecei a minha história. A Biohazard foi a primeira Crew criada por mim e os outros meninos da época. Dois eventos marcaram bastante, a BOTY (Battle Of The Year) Brasil, em 2010, onde ganhamos a vaga para a BOTY Internacional, sonho que eu tinha, de viajar com meus parceiros e ver o nível mundial de perto. E o segundo evento, a minha participação na BC One Camp 2007, em Amsterdam. O Camp me marcou muito, faziam 3 anos que não competia, já estava morando aqui nos Estados Unidos. Comprei o vôo para a BC One na Holanda e fui com a ideia de curtir com minha Crew (Tsunami) e competir no 3 versus 3, no Camp. Me marcou porque não sabia o que esperar da minha performance e da energia da batalha depois de alguns anos.
Bio All Stars e Luka
BW: E quando você começou de fato a viver da dança? Como foi isso? E que mudanças foram necessárias ocorrer na sua vida, na sua rotina para que isso fosse possível?
Luka: A minha rotina sempre foi treino, me preparar ao máximo para as oportunidades e também o jeito que eu transmitia a minha energia em cada sessão e trabalho que participava. Acho que essa rotina de treinos intensos e acreditar na minha dança ajudaram na minha formação e oportunidades de trabalho. No Brasil eu já vivia da dança, mas não tinha um retorno necessário para poder caminhar com as minhas próprias pernas. Eu dava aulas, participava de shows, TV e os eventos de Breaking. Mas minha vida mudou quando recebi a proposta do Cirque Du Soleil, em 2014. Foi a base para eu poder viver só da minha dança. A mudança necessária não foi fácil, sair da casa dos meus pais e morar fora do país. Mas foi onde mudou e marcou de fato a minha carreira. Na época eu tinha 20 anos, estava viajando e competindo, mas percebi que não estava gerando nenhum retorno financeiro, mesmo dando workshops, viajando pelo Brasil e fazendo shows… eu não tinha nada fixo e nenhum apoio. Tudo mudou quando vim para os EUA.
BW: Quando você foi a primeira vez para fora do país? O que sentiu? Quais as diferenças que sentiu entre o Breaking que aprendeu aqui e o que era feito lá fora?
Luka: Em 2010, BOTY Internacional. Eu Tinha 16 anos. O sentimento era incrível. Tinha todo o lance da cultura de um país diferente, a curiosidade de um lugar diferente, a comida, o visual. Sempre acompanhava a cena internacional pelos vídeos, foi a minha inspiração diária. Estar presente pela primeira vez e ver B-Boys e B-Girls que assistia através dos videos pessoalmente foi especial. Me mostrou oportunidade futura, porque consegui ver meu próprio potencial se eu trabalhasse e confiasse no meu Breaking. A diferença pra mim foi a dinâmica e criatividade, principalmente nas Cyphers e backstage. Mesmo eu sendo novo na época, lembro que consegui entender uma diferença. A energia que nós Brasileiros transmitimos, tem muita história. Não precisamos de movimentos complicados e dinâmicos, a nossa energia já era dinâmica, sendo assim, movimentos que talvez para a cena internacional seriam básicos e visto várias vezes… Nós do Brasil tínhamos um jeito único de dançar e apresentar esses movimentos, com uma dinâmica diferenciada. Um sentimento diferente e história de vida.
BW: Quando participou a primeira vez da Red Bull BC One? E quais foram suas impressões e sentimentos naquele momento?
Luka: Em 2018, final mundial em Zurich, na Suíça. Significou demais! Um sonho desde quando comecei a minha jornada no Breaking e aos 12 anos de idade. Principalmente pelo fato de ser convidado direto e por tudo o que passei para chegar até lá. Cheguei a me questionar se chegaria a pisar um dia no palco da BC One, pela mudança de vida que tive e por deixar a competição de lado por alguns anos. Mas tudo acontece no tempo certo e talvez do jeito que você nem imaginou. O momento marcante pra mim de toda a história foi comprar a passagem de vôo para o meu pai me encontrar lá na Suíça, logo depois que recebi o convite. Foi a primeira intuição que tive, quando acabei de ler o convite. O sentimento era retribuir e ele poder ver eu subindo no palco do evento que me fez começar a dançar e que ele acompanhava. Eu perdi a batalha, mas ganhei no meu objetivo interno, meu pai assistiu ao vivo. Minha missão foi cumprida naquela noite. Queria poder levar todo mundo que me apoiou, se pudesse, como forma de gratidão. A minha impressão foi diferente daquilo que tinha em mente. No sentimento passa um filme, antes de chamar o seu nome passam várias cenas em 5 segundos na mente, de toda a sua trajetória, mas rapidamente você volta para o foco antes da batalha e se sente presente. É realmente incrível! Uma energia totalmente diferente de qualquer outro evento.
A realização do sonho que começou com 12 anos de idade: participar da Red Bull BC One
BW: Em que ano você passou a fazer parte da Tsunami All Stars? Como era conviver com a Crew?
Luka: Em 2017, foi quando oficializou. Mesmo convivendo com o Kokada na época, entre 2009 e 2012, eu era bem novo ainda, ele me convidava para treinar de vez em quando com a Tsunami, foi onde comecei a conhecer todos da Crew. Mesmo com o calendário de cada um do grupo e por alguns morarem em outras cidades, quando tinha algum evento ou show eu lembro que eles faziam o máximo para estarem juntos e poder trabalhar ideias e criar. Eu acompanhava de vez em quando o processo. Na época, eu tinha meu grupo Biohazard e quando o Kokada estava junto a BioAllstars. Em 2011, dois dias antes da Tsunami viajar para um campeonato na Polônia (Warsaw Challenge), o Pelé teve um problema de visto e não pôde viajar com o grupo, foi quando eu recebi o convite para cobrir a vaga dele e batalhar internacionalmente pela primeira vez com a Tsunami. Naquela época nada foi oficializado, mesmo eu estando envolvido em alguns projetos e eventos. Em 2017 foi quando oficializamos.
BW: Você teve uma grande amizade com o B-Boy Kokada, comente sobre esse tempo… Que lembranças você tem dele?
Luka: O que marca são os momentos fora do Breaking. Eu digo isso porque o “ego” que criamos na cena, na verdade, não é a sua verdadeira essência como pessoa. O Kokada me fez perceber isso. Ele não era o cara que todos achavam que ele era. A nossa relação era de irmãos, consegui entender quem ele era fora da imagem de ranço e lenda do Power Move que ele tinha. Foi um tempo de grande aprendizado e visão. Ele me mostrou visão para o futuro e que a chave para conquistar qualquer objetivo seria somente através de paciência e dedicação. Época também de aprender a lidar com a pressão, ou você gostava do Kokada ou você o odiava. Eu tive essa influência através dele. Já chegamos a dançar com todo mundo vaiando, a música virou vaia e xingamento. Todo mundo contra. Foi onde comecei a evoluir. Essa era a imagem criada por ele, onde todos nós, eu e os outros meninos do grupo, abraçamos e seguimos juntos. Tudo isso marcou a nossa história e também a nossa amizade. Eu aprendi com ele que independente do que acham, continue sempre fazendo o seu. Continue acreditando e lutando, ninguém faz por você. Ele acreditou em uma nova geração e hoje eu ainda continuo aqui, vivendo a vida da minha maneira, dentro e fora da cena. Foi esse o aprendizado na nossa relação, viva a sua história à sua maneira, seja único.
BW: Quando surgiu o Cirque du Soleil na sua vida? Nos fale sobre a experiência e a vida de quem atua num circo? Alguma vez teve que escolher entre o circo e os eventos de Breaking?
Luka: Em 2014, foi quando assinei o contrato e vim para o Cirque. O mais gratificante é você poder viver e respirar aquilo que ama. No Cirque eu tive essa oportunidade, de poder acordar todos os dias e fazer o que mais amo. Treinar, dançar e inspirar as pessoas. No show, todos nós artistas, através da sua especialidade, inspiramos o público a viver a vida com amor e que tudo vai melhorar. O show é dos Beatles, se chama LOVE. Tem uma história e uma mensagem em cada música e ato. Na verdade, no Cirque você tem muita liberdade, tudo no começo é rotina de treino e ensaios, mas com o tempo tudo se torna natural, o volume de ensaios diminui por você repetir os atos várias vezes. Sendo assim, mais tempo livre para treinar meu Breaking e meu físico. Como profissional, eu acredito que eu tenho que estar pronto, meu corpo é o meu investimento, por isso sempre estou treinando e aprimorando minhas técnicas e espírito. O Cirque me deu essa estrutura, tratamento físico, preparação e performance. A escolha na época foi o Cirque, mas isso não tirou a minha vontade de competir e aparecer nos eventos. O ritmo de batalha você acaba perdendo um pouco e isso é natural. Mas mesmo participando poucas vezes em eventos nos últimos 6 anos, eu me mantenho criativo e em forma. Cada experiência me traz um aprendizado. Eu volto para o meu treino com ideias e absorvo a energia que tenho que trazer de volta para melhorar no próximo evento. Sempre que tiver a oportunidade de aparecer e se eu estiver livre, eu irei e expressarei minha dança.
B-Boy Kokada e Luka: uma relação entre irmãos com a lenda do Power Move
BW: Vamos falar do ano de 2018 e daquela batalha com o B-Boy Issei na Red Bull BC One. Quanto tempo antes você se preparou para aquele evento? O que de fato aconteceu? Como você se sentiu quando inesperadamente o seu sapato saiu? Aquilo te atrapalhou? Houve muitas cobranças após aquela situação? Na época, você chegou a escrever tipo um desabafo no seu Facebook, dizendo que voltaria! Olhando toda essa situação 3 anos depois, o que você aprendeu com tudo isso? E o que diria às pessoas que foram rápidas nas críticas e nas cobranças?
Luka: O que aconteceu foi o que todos viram. O melhor que pôde acontecer pra mim naquele dia. O meu lance é que eu sinto o que aconteceu no momento, como competidor e ser humano. Mas eu não me importo com o que aconteceu. Sendo assim, não carreguei frustração. Isso é algo profundo e poderoso se você souber aceitar. Não precisa de entendimento. Você absorve e usa aquilo como uma grande experiência e aprendizado para seguir evoluindo na sua dança e sua vida. Quando você se frustra e luta contra algo que já passou e aconteceu, você cria uma negatividade. Por que o resultado desejado não veio, porque você achou que merecia ter ganhado por tudo aquilo que você se dedicou e treinou para chegar ali. Foram 6 meses de preparação. Claro que na hora eu senti o peso, quando aconteceu, eu sabia que no primeiro round eu me sai muito bem e que tinha um arsenal forte para sair bem nos últimos dois. Foi quando o tênis saiu e eu não pude pensar com rapidez e usar aquilo ao meu favor. Eu tinha o terceiro round que poderia decidir a batalha. Mas não foi o que eu pensei no momento presente. Eu me deixei abalar. A única cobrança, se teve, foi comigo mesmo, o barulho externo não é barulho no meu interno. Cobrança externa não importa, você é o seu templo. Disse que voltaria porque a vida continua, outras oportunidades surgem. E eu sabia que continuaria minha jornada que pode me levar de volta se eu tiver que voltar. Eu aprendi a deixar fluir, sem expectativa criada pela mente, focar em mim e na minha positividade, que vai ser expressada através da minha dança, resultado é resultado. Alguns ajustes na minha maneira de treinar e preparar também. No final do dia, a mensagem que fica é que eu fiz o melhor que pude com todo o meu poder do momento. E a história continua… sou grato a tudo e a todos.
BW: Luka, nos conte um pouco sobre suas atuais rotinas de treinos de Breaking. Como divide o seu tempo? O que tem feito nesse período de pandemia? Em que país você está? Como é viver longe da família e do seu país? Como você trabalha o seu emocional?
Luka: Treino 5 vezes na semana e descanso dois. Nesses dois dias de descanso, eu relaxo com alongamento, para recuperar meu corpo e estar bem para a rotina nos próximos 5 dias. Treino fisico na manhã duas vezes na semana, com o meu preparador e Breaking à tarde, todos os dias. Essa é minha rotina diária. Ultimamente, tenho tocado e venho estudando o DeeJay também. Nesse período de pandemia, tenho focado mais em mim e nas coisas que amo fazer. Eu estou em casa, nos Estados Unidos. Bate muita saudade de casa e da minha família no Brasil, mas tento focar minha atenção no que venho vivendo atualmente e isso me ajuda a manter o pé no chão, mas não é fácil ficar longe. É assim que trabalho o emocional, foco no agora. Atenção totalmente no presente, em qualquer atividade ou situação que eu estiver faço o melhor que posso. Esse modo de pensar me traz confiança, se eu estiver completamente presente no agora, tudo o que vier no futuro será próspero. Projetos, planos e objetivos são criados aqui no agora e o que tiver de ser será. Eu sou o criador da minha realidade.
No Cirque Du Soleil, com Paul McCartney, no show LOVE em homenagem aos Beatles
BW: Recentemente, o Breaking entrou para os Jogos Olímpicos. O que acha sobre isso? Como você vê o Brasil e seus B-Boys e B-Girls nessa realidade? Estamos preparados para disputar medalhas olímpicas? Como anda esse assunto no país que você está?
Luka: Grande conquista para a arte do Breaking, grandes oportunidades para aqueles que estiverem preparados. A realidade é que o Brasil tem um potencial enorme, muitos talentos no país. Agora, vai depender de como tudo será planejado e organizado. Talento e vontade eu sei que não vão faltar, eu acredito e visualizo a medalha para o país. Eu vejo o assunto bastante nas redes sociais, aqui nos EUA até pela questão da pandemia eu não escuto falar muito pessoalmente. É hora de começar a se estruturar, passo a passo, construir e se dedicar para colher bons frutos. O tempo passa rápido e eu espero que aqueles que estiverem envolvidos tenham boas intenções e planos para apoiar a cena e os dançarinos.
BW: Luka, quais são seus planos para o futuro? O que significa o Breaking na sua vida? Se pudesse voltar no tempo, mudaria alguma coisa?
Luka: Continuar experienciando o que a vida me oferecer, as oportunidades irão surgir como sempre surgiram, abraçar e viver. Eu vou estar preparado e vou fazer o melhor com o meu espirito e consciência. Ultimamente não venho planejando muito, o que eu faço é manter minha energia e espírito em paz. Isso me traz inspiração e harmonia no meu treino e dia-a-dia.
Treinar para estar pronto e aproveitar as oportunidades que a vida traz
BW: Que conselhos você daria para a nova geração do Breaking? Como devem se preparar? O que devem buscar? E o que não devem fazer?
Luka: Não preparem somente o corpo e movimento, trabalhem a mente e procurem construir uma base. Hoje as oportunidades estão aí. O Breaking vem fazendo parte de empresas e eventos grandes, procurem se valorizar e entender o business por trás dos eventos e trabalhos. Como se comportar, aprender a falar outras línguas, principalmente o inglês. Se hoje o B-Boy brasileiro tem uma oportunidade, tem que saber conversar e negociar. Muitos da nova geração têm o sonho de viver de eventos e batalha, mas não podem esquecer que temos outros caminhos e oportunidades para viver e se expressar através da dança. Cada dia mais estamos evoluindo, o mundo está em constante crescimento, novos talentos e oportunidades. Precisamos acompanhar esse processo de mudança. Quem acompanhar essa evolução não só do movimento mas da cultura em si, são aqueles que irão colher bons frutos. A nossa ação precisa ser aplicada no nosso momento presente, no agora. Não adianta querer ser um bom B-Boy ou B-Girl, ser campeão, fazer parte de grandes eventos e projetos, se não estiver preparando e vivendo o dia-a-dia. Não vamos esquecer o poder de cura e mudança de vida que a nossa dança pode trazer na vida das pessoas, como inspiração. Quando dançar, mostre o seu espírito em sua maneira única. Não coloque rótulos na sua dança, pois dançar é infinito e cada movimento é uma nota na música. Repare que quando você dança de mente livre, você entra na zona e em uma dimensão diferente. Essa é sua essência e verdade. Busquem isso e sigam a sua jornada, sem olhar pra trás. O que passou, passou. Continuem evoluindo, estudando e vivendo.
BW: Você parece ser um cara que reflete muito sobre as coisas, sobre a vida. Quem é o Luka hoje? O que aprendeu em todos esses anos de dança, qual foi a maior das lições?
Luka: Eu aprendi que tudo passa. Eu não sei quem eu sou. Só sei que sou uma consciência vivendo experiências e aprendendo com elas. O Lucas de hoje não é o Lucas amanhã. Tudo é uma constante evolução, precisamos entender que o mundo pede uma versão diferente de nós em diferentes situações e capítulos da vida. A dança é isso, se adaptar. Quando a música toca, nada mais importa. Somente aquele momento, nada mais existe. Eu acho que venho entendendo isso, focar minha atenção na música que toca no momento e na minha vida. A maior das lições não existe, todos os dias pra mim é a minha maior lição e eu agradeço por todas elas. Eu larguei mão daquilo que eu acho que eu deveria ser ou fazer na cena, pois eu acredito que eu já sou, a dança já me completa. Eu não preciso que algo aconteça ou que eu ganhe algum evento para me sentir completo e feliz. Eu comecei a dançar anos atrás, feliz, sem querer nada em troca. Tudo já está em mim. Eu vou continuar minha jornada, vou continuar participando dos eventos, a minha maior competição é comigo mesmo, todos os outros B-Boys que competem, são parceiros que ajudam na minha evolução. Ganhar ou perder, não existe. Todos nós ganhamos e por isso eu continuo motivado a continuar. A cultura, em primeiro lugar, surgiu através da alegria que conectou e reuniu. Por isso o amor pelas Cyphers, não tem julgamento. Somente alegria e uma grande festa.
Fotos: Arquivo Pessoal
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O nome que consta na certidão de nascimento é Alex José Gomes Eduardo, ele não poderia ser mais brasileiro. Nasceu numa família alegre de sambistas e capoeiristas em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.
Da infância guarda boas lembranças das feijoadas e dos churrascos em família. Criado pela avó, matriarca da família, o menino que não tinha tênis, mas que desde pequeno já mostrava habilidades diferentes e muito especiais, a famosa estrelinha no meio da testa que alguns carregam para esse mundo, filho de mestre de capoeira era bom nos movimentos do corpo e também no futebol, por isso recebeu o apelido de “Pelezinho”, mas seu destino não foi escrito num campo de futebol e nem jogando capoeira mas sim nas ruas.
As rodas que frequentava eram outras, as de Breaking, onde sua grandeza foi reconhecida e conquistada, sendo ponte para o resto do mundo.
Numa entrevista super especial e exclusiva ao Portal Breaking World, B-Boy Pelezinho, que esta semana se posicionou sobre o assunto “Breaking nas Olimpíadas”, contou sua história de vida, suas experiências, conquistas no Breaking, falou sobre a pandemia, sobre amigos que sente saudades, sobre o futuro e mostrou sua preocupação com a nova geração de B-Boys e B-Girls.
Hoje fora das competições, porém comprometido com o Breaking pelo resto da vida, ele sempre lembra: “O Breaking mudou a minha vida e pode mudar de muitas pessoas”.
Com vocês: Pelezinhoooooooo!
BW: Você é de São José do Rio Preto, correto? Queria que você nos contasse: como foi sua infância, sua adolescência e sua vida em família? Que lembranças boas guarda dessa época? Foi uma vida tranquila ou difícil?
Pelezinho: Sim, eu sou de São José do Rio Preto, nascido e criado lá. Eu venho de uma família de sambistas e capoeiristas, eu lembro que, principalmente nos finais de semana, nós tínhamos aquele momento familiar, que tinha música, almoço, churrasco, feijoada. Na infância era bem tranquilo! A minha avó é que era a matriarca da família, ela cuidava de todos! Eu fui criado pela minha avó. Mas a minha família sempre foi aquela família animada! Tenho boas recordações!
Oriundo de uma família de sambistas e capoeiristas, Pelezinho encontrou-se no Breaking e incorporou movimentos da Capoeira na dança, criando um estilo próprio que ganhou o mundo e influenciou gerações de B-Boys e B-Girls
BW: E na adolescência, como foi? Quando e como teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Pelezinho: Na adolescência, foi um pouquinho mais complicado. Eu saí de casa cedo, era muito jovem e eu conheci o Breaking por meio de um amigo, ele esta numa Cypher aqui no centro da cidade e, na verdade, eu achei que fosse uma roda de capoeira e quando cheguei vi que era uma roda de Breaking e eu fiquei encantado com aquilo. Logo depois, ele fez uma performance na minha escola e foi quando ele me convidou, disse que eu tinha uma facilidade para dançar, a minha família era do samba, então, achava que eu teria muita facilidade. E me fez um convite para treinar na casa dele, isso foi em 1995 ou 1996. E desde então, eu tenho uma história dentro do Breaking.
BW: Com que idade você saiu de São José do Rio Preto? O que sentiu quando chegou em São Paulo?
Pelezinho: Na verdade, eu só sai da casa da minha avó quando eu fui para São Paulo. Na primeira vez foi para um evento de dança, foi aquele choque com a cidade grande, de conhecer mais a galera da dança, porque eu só ficava no interior. Mas quando eu cheguei no evento achei incrível, quando eu vi todas as Crews de São Paulo reunidas. Me lembro que quando os caras chegavam, eles já chegavam batalhando e eu pensei: “puxa, vou voltar para casa e treinar muito, pois eu não quero mais que esses caras fiquem me zoando na dança não…”.
BW: Mas quando houve aquela decisão mesmo em relação ao Breaking? Tipo: “É isso que eu quero para a minha vida”? Porque afinal, você cresceu no meio do samba e da capoeira e também era bom no futebol, daí o nome Pelezinho. Mas quando ficou claro que era o Breaking?
Pelezinho: Em relação ao futebol, foram os amigos do meu bairro que me deram esse apelido na época da escola, porque eu não era o craque e tal (risos), mas jogava bem. E o Breaking eu peguei gosto pela dança, pelos treinos e era algo incrível que eu estava vivendo, eu gostava muito de praticar. As informações já estavam começando a chegar de alguns eventos, surgia alguns convites e comecei a gostar muito do que eu estava vivendo.
Pelezinho em uma de suas viagens para Lima, no Peru: a preocupação da avó virou orgulho em ver o neto saindo do interior de São Paulo e ganhando o mundo
BW: Você teve apoio da família quando decidiu se dedicar à dança?
Pelezinho: Naquela época, minha avó não tinha informação, ela estava meio preocupada de eu ficar pela rua, ficar dançando no coreto da cidade com uns caras… Então, eu não tive um apoio, demorou um tempo para que ela entendesse o que eu estava fazendo, mas natural, às vezes eram costumes daquela época, estamos falando de 1995, não existia informação direito como se tem hoje. Realmente ela se preocupou, achando que eu iria por um caminho errado, mau. Mas eu insisti muito e hoje ela fala: “Meu neto é um exemplo!”.
BW: Fale da relação da Capoeira e do Breaking na sua vida. Um completou o outro?
Pelezinho: A relação minha com a Capoeira foi dentro de casa, né? Meu tio era mestre de Capoeira, meu pai era mestre de Capoeira e eles tinham a academia deles e tal e eu fui influenciado, porque eu nasci naquele meio. No meio das músicas, no meio da Capoeira… E eu acredito que a Capoeira tem muita ligação com o Breaking, vários movimentos são semelhantes, tem musicalidade e quando eu comecei a dançar Breaking, realmente alguns movimentos do Breaking foi muito fácil de aprender graças à Capoeira. Eu tive bastante facilidade para aprender o Breaking, claro que teve alguns movimentos que tinham uma dificuldade a mais, porém, falando de equilíbrio, de firmeza, de movimentação de giro, para mim foi mais fácil, então, resumindo, eu fui influenciado pelo meu pai e pelo meu tio, eu só pratiquei a Capoeira por um determinado tempo, eu não peguei corda, não segui da forma que tinha que ser, mas eu tenho um baita respeito pela Capoeira e ela foi fundamental na minha adolescência.
BW: Houve pessoas na dança que o ensinaram e o ajudaram e que também foram inspiração e referência para você? Parece que teve um B-Boy que você admirava muito e tinha o desejo de um dia conhecê-lo pessoalmente. Quem era? E de que país ele é? Esse encontro já aconteceu?
Pelezinho: Ah, sim! Eu falo que no Breaking eu tive essas pessoas, primeiro o amigo que me convidou para praticar na casa dele, depois umas outras pessoas da época, que hoje já nem praticam mais, mas eu tenho, sim. Quando eu vi esse cara dançando, ele se chama B-Boy Remind, um dos fundadores da Style Elements Crew, da Califórnia. Quando esse cara apareceu para nós nos eventos nos Estados Unidos, o Battle of the Year, foi um dos primeiros vídeos que eu vi dele, eu vi o estilo dele dançando e eu acredito que ele mudou todo o cenário da dança, principalmente no Breaking pois ele introduziu um estilo mais carismático, envolvendo alguns passos de House e eu gostei muito disso. E eu tenho um sonho de conhecê-lo. Até hoje eu viajei o mundo e não tive a chance de conhecê-lo, conheci alguns membros da Crew dele, mas ainda não o conheci. E um dia ainda eu vou conhecê-lo, se Deus quiser!
O apelido foi dado pelos amigos do bairro onde morava: a intimidade com a ‘pelota’ foi deixada para trás quando o B-Boy descobriu o prazer de dançar
BW: Quando começou a participar e ganhar eventos de Breaking? Que eventos foram especiais para você, antes da Red Bull, é claro? Que conquistas foram memoráveis?
Pelezinho: Eu participei de muitos eventos na minha vida! Mas, um dos que eu mais gostei, foi um que era relacionado a esportes radicais, ele foi feito dentro do Ibirapuera e eu fui campeão do 1vs1, tiveram outros eventos que eu não ganhei, mas foram muito legais. Uma vez eu estava de jurado na Batalha Final e aí eu fiz uma batalha muito memorável. Estava eu e Chaveirinho, nós batalhamos por um bom tempo dentro do evento e aí, depois, nós acabamos fazendo vários trabalhos pelo Brasil, a gente era meio que inimigo antes do BC One, mas claro, o maior reconhecimento internacional foi o Red Bull BC One de 2005.
BW: Sim, falando do ano de 2005, como chegou na final mundial da Red Bull, que aconteceu na Alemanha? Como foi aquela sua primeira viagem para fora do país e o que sentiu naqueles minutos que teve que representar o Brasil numa terra tão distante e diferente?
Pelezinho: Quando eu fui convidado pela Red Bull BC One, eu não tinha noção do que poderia acontecer… Claro que alguns B-Boys que estavam ali eu já via pela fita k-7, pelos DVD´s que já estavam rolando, então, tinha B-Boys que eu admirava, o Lilou já estava despontando na Europa e quando eu cheguei na semifinal, pra mim foi uma batalha apenas, só que eu só fui entender a proporção do que aconteceu comigo quando eu retornei para o Brasil, depois da repercussão que teve e a vivência que eu tive lá na Alemanha, em 2005, foi incrível, pois era tudo novidade pra mim, então, foi a primeira vez que eu saí para fora do país, um evento como aquele, era a segunda edição dele, deu um ‘boom’ na dança… Então, pra mim, foi muita experiência, aqueles 5 dias que eu fiquei em Berlim foi só aprendizado, uma bagagem incrível para poder entender o que poderia vir logo em seguida. Na final mundial em 2006, no Brasil, eu já estava classificado nesse período, eu fui conhecido mundialmente mesmo eu não sendo o campeão, porque na época ainda existia primeiro, segundo, terceiro e quarto lugar. Esses quatro eram classificados automaticamente para o próximo ano, então pra mim foi incrível!
BW: Falando ainda de 2005, como foi batalhar com o B-Boy italiano Cico?
Pelezinho: Então, a minha primeira batalha foi com o Cico, um cara que estava se destacando muito pelos Power Moves que ele vinha fazendo e, principalmente, o Giro de Mão, ali foi uma grande pressão. Como foi a primeira batalha minha, num palco daquele, numa estrutura daquela, pra mim ali foi difícil de verdade! Depois que eu passei do Cico, fui passando… aí eu cheguei na semifinal com o Hong 10, ali eu já estava mais confortável, mas ao mesmo tempo, né [sic], tive alguns errinhos, acabei esquecendo um movimento. O Hong 10 ganhou de mim naquela noite e ele fez a final com o Lilou.
Pelezinho, Lilou, Menno, Hong 10, Wing e Lil Zoo durante turnê da Red Bull BC One All Stars em Meknes, Marros (Maio, 2018)
BW: O que sentiu e como foi a sensação de ter chegado tão perto de vencer o mundial? Fale da repercussão de ser o primeiro brasileiro a participar de uma final mundial? Isso fez diferença na sua vida?
Pelezinho: Eu, naquela época, na hora que eu perdi, eu falei: “Nossa! Puxa! Eu quase fui para a final!”. Então, deu aquela frustradinha no momento, mas na verdade, como tinha terceiro e quarto, eu nem pensei muito! Eu só fui pensar mais quando retornei ao Brasil, realmente passou um tempo até a galera descobrir, porque naquela época as informações não chegavam como hoje, que você pode ver ao vivo, demorava um tempinho para chegar as informações dos eventos. O You Tube estava começando, pelo menos para nós aqui do Brasil, aí depois que a galera descobriu, saiu o DVD, aí a repercussão foi uma loucura! A prova disso que até hoje as pessoas lembram, pessoas que não são da dança, pessoas que me encontram na rua, sempre tem um que lembra e fala que assistiu o DVD da Red Bull BC One.
BW: Pelezinho, depois você já viajou para muitos países pelo mundo. A ginga do B-Boy e da B-Girl do Brasil é um diferencial? O que os gringos esperam ver quando tem um B-Boy brasileiro ou uma B-Girl do Brasil numa competição?
Pelezinho: Desde quando os brasileiros começaram a competir no circuito europeu e, principalmente, nesse período de 2005 pra cá, é natural os gringos verem algo diferente, então, eu cheguei com um pouco mais de movimentos acrobáticos, misturando tudo com Power Move, enfim! Aí depois apareceu Neguin, então a galera sempre espera que o brasileiro chegue com um movimento diferente, mas o mais importante é cada dançarino ter o seu próprio estilo, a galera tem que pensar que o nosso passaporte é brasileiro, temos que mostrar o nosso cotidiano… É o que eu falo, a dança já foi criada pelos caras lá de fora, já tinham movimentos criados, é necessário cada um mostrar de onde vem, qual é o seu estilo de dança, a sua marca, então isso é importante.
BW: Como foi sua entrada na Tsunami All Stars e na Red Bull BC One All Stars? Fale da sua experiência dentro dessas Crews?
Pelezinho: Então, sobre a Tsunami All Stars, na verdade, nós a criamos porque na época teve um evento em São Paulo e nós queríamos batalhar e nesse período, Kokada estava sem Crew, eu estava em show com Marcelo D2, Katatau também estava praticamente sem Crew e aí nós participamos de um campeonato em São Paulo. E o Aranha era próximo de nós, porque quando o Chaveiro viajava, o Aranha cobria ou vice-versa, na época do show com Marcelo D2. Aí nós entramos em cinco no campeonato e ganhamos! E depois ficou aquela história que sempre que nós nos encontrávamos em São Paulo, dançávamos juntos e tal, aí o Katatau dançava com o Chaveiro em alguns lugares, o Aranha junto e aí nós só reunimos a Crew quando teve o convite para disputar o R16 na Coreia, quando chegou o convite dos coreanos que eram os ‘managers’ e aí foi quando o Neguin já estava próximo do Katatau, eu convidei o White e o Chuchu e montamos a Crew, aumentamos a Crew e aí participamos do R16, ficamos entre os finalistas e foi esse processo na criação da Tsunami. E o Red Bull BC One All Stars eu participei de duas turnês pela Red Bull Internacional para levar o que o Red Bull BC One estava fazendo, então, fizemos Austrália (2008), Índia (2009) e dali surgiu uma ideia, começamos a conversar com uma manager e aí demos a ideia de criar um time dentro da Red Bull e então criamos o Projeto Red Bull All Stars. Eu ajudei a criar esse projeto, eu, o Lilou e a manager e hoje está aí um dos melhores times que tem no mundo, onde estão os melhores dançarinos do mundo. Atualmente, eu não estou no time para competição, porque eu já sai do circuito de competição já tem um tempo, mas o time está aí, eu ajudei a criar e tenho muito orgulho disso.
Pelezinho e a Tsunami All Stars
BW: Falando um pouco mais sobre quem fazia parte da Tsunami, queria que você falasse de sua proximidade ao Kokada, que era alguém que, sem dúvida, escreveu uma história de muito valor no Breaking e tinha uma personalidade muito singular, deixando um enorme vazio quando partiu aos 35 anos, vítima de uma meningite, em 2012.
Pelezinho: Falar do Kokada pra mim é prazeroso! Porque nós vimemos juntos um período de conquistas, vou lembrar do Kokada lá atrás, quando eu fui para são Paulo a primeira vez, o Kokada já era já o grande B-Boy Kokada junto com o Careca da Detroit Breakers. O Kokada já fazia shows, ele era famoso pelo Brasil todo! E quando eu tive a oportunidade de conhecê-lo, de virar amigo dele e surgiu a história de montarmos a Tsunami, eu o chamava de “mentor”, porque era ele que cuidava das coisas da Crew e, assim, nós vivemos muitas coisas! Kokada teve a sorte de viajar também e de competir, mas no período que ele estava fazendo as coisas não existia muita informação, naquela época então, o momento que o cara estava não existia o contato do Brasil com o pessoal de fora, então, alguns gringos começaram a vir para o Brasil e justamente nesse momento nós estávamos juntos realizando sonhos, mesmo sendo de cidades diferentes. O Kokada foi incrível! O legado que ele deixou está ai e ninguém nunca vai esquecer! Ele era mesmo difícil, era um cara mais complicado (risos), ele tinha o jeitão dele, o gênio dele sempre foi forte, só que nós nos entendíamos muito bem quanto viveu conosco. Mas ele vive em nossos corações! E ele era uma baita de uma pessoa! Até hoje ele faz muita falta! E eu acredito que nos sonhos dele eu o ajudei também, tanto que a primeira viagem dele internacional para o evento R16 fomos eu, ele, Chaveiro, Katatau, Aranha, o Neguin e fizemos parte de uma geração, mas Kokada veio primeiro que nós e é isso! Muita saudade!
BW: Voltando um pouco no tempo, Pelezinho, numa outra entrevista você falou que quando começou a dançar não tinha um tênis… Décadas depois, você foi convidado para assinar um tênis junto com o Sandro Dias e, na ocasião, você falou que queria ver o Breaking e o Skate nas Olimpíadas de Paris 2024. Hoje, creio que você tenha vários tênis e o Breaking está nas Olimpíadas. Se sente realizado?
Pelezinho: Verdade, eu não tinha tênis para dançar, passei por essa dificuldade! Eram tempos bem diferentes! Mas quando eu recebi o convite do Sandro Dias para poder participar do projeto que ele estava iniciando, que ele queria ir pelo lado da cultura, da dança e ele me convidou para fazer a Colab, puxa, eu nunca imaginei isso na minha vida e aí foi quando eu falei numa entrevista que passou um filme na minha cabeça, quando ele me ligou para me convidar, ele era o dono da marca e eu aceitei na hora. Ele tinha um sócio, mas eu aceitei na hora! Hoje eu tenho um tênis assinado, modelo 1, já tem um projeto do modelo 2, já era para ter saído ano passado. Sim, graças a Deus hoje eu tenho muitos tênis (risos) e sobre as Olimpíadas é uma coisa que nós não imaginávamos que pudesse acontecer, ter o Breaking nas Olimpíadas. Eu sou a favor! Eu acho que está aí, já está concretizado, eu acredito que é mais uma porta se abrindo dentro do cenário da dança mundial, muitas pessoas terão oportunidades. Eu sei que aqui no Brasil têm acontecido muitas conversas, mas as coisas negativas devemos deixar para trás e pegar as coisas positivas das pessoas que têm o mesmo interesse, que isso possa trazer mais informação para quem não tem e isso vai agregar muito para a nova geração. Eu costumo falar para a galera que não é porque eu não tive lá atrás que eu deva embarreirar a nova geração, eu sou a favor mesmo do Breaking nas Olimpíadas e fiquei muito feliz!
Sandro Dias (Mineirinho) e Pelezinho lançam linha de tênis com sua assinatura: grande conquista para o menino que não tinha tênis para dançar
BW: Falando sobre as Olimpíadas e sobre toda a discussão em volta desse assunto, fale sobre suas impressões sobre esse elemento do Hip-Hop virar um esporte olímpico. Na sua opinião, estamos preparados para viver isso? Normalmente atletas olímpicos levam anos se preparando para uma participação numa Olimpíada. E nós, como estamos? Ao seu ver, temos B-Boys e B-Girls brasileiros prontos e bem preparados para brigar por uma medalha olímpica?
Pelezinho: Espero que com toda essa situação que está acontecendo, que o Brasil possa ter representante em 2024, porque já não teve nos Jogos da Juventude, espero que as pessoas se organizem, fazendo a sua parte e quem estiver no comando que faça de verdade, que pense no Breaking, na dança Breaking e não no próprio bolso. Pelo amor de Deus! Estamos em 2021, estamos dentro de uma pandemia, muitas coisas mudaram, muitas não serão mais a mesma coisa! Então, por favor! Precisamos fazer de verdade e principalmente para a nova geração! Olha, sendo bem sincero sobre o que vem acontecendo no Brasil, eu ando observando, não tenho participado de muitos bate-papos que estão tendo pelas redes sociais, só participei de duas que eu achei interessante e no meu olhar, o Brasil já está começando atrasado, porque eu já vou entrar: desde os Jogos da Juventude e dos simulados que tiveram na China e o Brasil não estava ali como convidado, então, estamos começando tarde, porque precisamos preparar, tem que ter mesmo toda uma estrutura, eu sei que as pessoas vão fazer do modo deles. Mas preparados na parte de dança: Sim! Temos B-Boys e B-Girls que possam disputar medalhas para o Brasil, mas tudo depende de toda a estrutura e logística que será montada aqui no Brasil, de como será, se vai convidar os B-Boys e as B-Girls direto ou se vai fazer etapas. Então, dando uma resumida, eu acho que já estamos atrás dos outros países: o Japão já tem o time pronto, a Holanda praticamente também, a França, EUA, a China… E o Brasil ainda não está! Quem estiver na frente tem que fazer de verdade! E resolver tudo o mais rápido possível, porque esse ano já descartamos praticamente, então, só sobra 2023 e 2024. Porque até o processo todo ser feito com a estrutura… Estou falando da minha visão como dançarino e como produtor e criador de eventos. Essa é a minha opinião!
Pelezinho: “Precisamos fazer de verdade e principalmente para a nova geração!”
BW: Verdade que você se posicionou sobre o assunto e agora faz parte da Confederação Brasileira de Breaking (CBRB). Você gostaria de falar sobre isso?
Pelezinho: Eu tive uma conversa com o Rooneyoyo e juntamente com o HP, estamos nos posicionando para participar junto com o Rooneyoyo, porque eu acho que juntos podemos conduzir coisas melhores para a nova geração.
BW: Falando sobre sua experiência como jurado… Hoje em dia, Pelezinho, você participa de muitos eventos. O que você gosta de ver numa batalha e o que você acha inaceitável na mesma?
Pelezinho: Sobre as batalhas, como jurado eu gosto de ver aqueles B-Boys e B-Girls que mostram movimentos, que sejam completos: musicalidade, criatividade, movimentos básicos. Mas eu gosto sempre daqueles dançarinos que percebemos aquela vontade de competir, que vai lá, que expressa a dança dele, que mostra movimentos surpreendentes sem errar, porque tem movimentos que jurado pega erros. Enfim, eu gosto dos completos no Breaking! Gosto de ver movimentos diferentes e interessantes para julgar, porque o nível da batalha fica avançado. E coisa que eu detesto ver é a má vontade de alguns dançarinos quando estão em competição, tem dançarino que parece que não está a fim… Aí eu pergunto: “Por que participou, então? Por que se inscreveu?” E outra coisa é essa história de questionar jurado, no passado já questionei também, só que eu acho desnecessário hoje em dia, de tanta informação que temos, nós precisamos respeitar os jurados que estão sentados ali, porque têm uma bagagem, então vamos respeitar. As pessoas precisam entender que numa competição estão sujeitos a serem julgados, então, vai lá, treina e seja o mais transparente possível para o jurado e mostra o porquê quer ser campeão!
BW: Com a pandemia e todo o isolamento necessário, o que você tem feito? O que acha das batalhas on-line? É uma tendência?
Pelezinho: Sobre a pandemia, eu acredito que foi um aprendizado para várias pessoas, estamos nela ainda! Nesse período eu tive que me reinventar, me readaptar a essa realidade que estamos vivendo. Sobre as batalhas on-line, claro que não é a mesma coisa, não é a mesma energia, de estar ali na Cypher, naquele calor todo, mas é um meio de manter a galera em atividade, em competição, até mesmo dando suporte para eles, porque teve alguns eventos on-line bacanas! Pela produção, pelo o que fizeram e acabou ajudando vários B-Boys e B-Girls, então, eu sei que isso pode continuar. Alguns eventos vão manter on-line e a pandemia é uma coisa muito triste, que ninguém imaginou que ia passar nesse plano de vida, mas ela é um aprendizado para muitas pessoas e quem não se adaptar, nem imagino o que vai fazer da vida.
Pelezinho acredita que a pandemia foi um período de aprendizado para várias pessoas: reinventar, readaptar, continuar…
BW: Você tem uma frase célebre: “O Breaking salvou a minha vida”. Comente a importância do Breaking como ferramenta de transformação.
Pelezinho: Sobre o que eu falo do Breaking ter mudado a minha vida, realmente ele mudou, ele fez uma transformação tremenda! Eu fiz coisas que eu jamais imaginei que eu iria fazer! Por meio da minha dança, eu viajei praticamente o mundo todo e sou uma pessoa conhecida através do Breaking. Financeiramente foi bom pra mim, consegui ter algumas coisas, mas o que eu mais falo é que nada disso teria acontecido se não fosse a minha vontade, a determinação que eu tive e toda a história que eu tenho há mais de 20 anos dentro do Breaking. Então, quem quer alguma coisa, principalmente dentro do Breaking, a galera nova, da nova geração, que vocês têm tudo, rápida informação, eventos, então aproveitem, porque na minha época que eu comecei a dançar nós não tínhamos nada disso! Aproveitem as oportunidades! Porque as poucas que eu tive aproveitei todas! E corri muito atrás! E foi nisso que o Breaking mudou a minha vida e pode mudar de outras pessoas também.
BW: Hoje quem é o Pelezinho? Você pensa em um dia parar de dançar?
Pelezinho: Pelezinho hoje é essa pessoa aí que a galera está vendo, que o Breaking deu uma visão de transformação e também de ajudar, porque o que venho fazendo hoje em dia é ajudar a cena, principalmente o Breaking. E sobre parar de dançar, eu não me vejo parando, como vou parar algo que amo fazer? É natural com o tempo desconectar algumas coisas, eu não me vejo competindo mais, mas eu adquiri uma bagagem que posso ajudar a nova geração aqui no Brasil.
BW: Para finalizar essa entrevista, que conselhos você daria para a nova geração de B-Boys e de B-Girls?
Pelezinho: Respeitem as oportunidades que vocês têm agora, se desejam competir, treinem para isso e aproveitem as oportunidades, que façam isso de verdade! Para aqueles que desejam uma vida de atleta, principalmente agora que têm vários eventos, Olimpíadas: se preparem! Nunca esqueçam que a nossa dança é uma cultura e se você desejar, pode viver como um dançarino atleta também, você pode se dedicar, você pode praticar, você pode se proteger. Se eu tivesse a mentalidade que eu tenho hoje, com certeza eu teria competido por mais tempo, eu também poderia ter evitado algumas lesões, porque é natural, somos seres humanos e não somos máquinas e, devido alguns anos repetindo movimentos, é natural ter um desgaste, só que de alguns anos para cá, já podemos proteger isso, então, vá atrás de uma pessoa que possa te dar uma educação física como dançarino, para que você possa ter sua vida como dançarino e, se desejar, como atleta também. Respeitem e aproveitem o que vocês têm hoje, pois tudo está mais fácil!
Fotos: Arquivo Pessoal / Red Bull Content Pool (Fabio Piva, Yassine Alaoui, Dimitri Crusz) Vídeos gentilmente cedidos pela Red Bull
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