Mulheres da Cultura Hip-Hop participam da 2ª edição do Empowerment Day, contam suas vivências e refletem sobre alguns temas de empoderamento feminino.
Aconteceu no último dia 3, a gravação de mais uma edição do Empowerment Day, que vai ao ar no próximo dia 8 de março de 2021, no Dia Internacional da Mulher.
Idealizado pela Casa de Cultura Urbana Street House, de São Paulo, o evento que teve início no ano de 2020 e se tornou um marco quando o assunto é empoderamento feminino, esse ano aconteceu de uma forma híbrida devido a pandemia, seguindo os protocolos e as normas de segurança, como parte da semana “Street House Em Ação”, realizada com recursos da Lei Aldir Blanc por meio da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo e do Governo Federal e apoio da CBRB – Confederação Brasileira de Breaking e do Breaking World.
As convidadas dessa edição foram:
Rose MC: Faz parte da cultura desde 1985, Rapper desde 1992, professora de Artes, umas das autoras do livro Perifeminas. Rose faz parte do coletivo Hip Hop All Stars e Clássicas do Hip-Hop.
B-Girl Bia: Beatriz Sena atua na cultura Hip-Hop desde 2012, através da conhecida Crew Street Son e do coletivo Multiforme. B-Girl, dançarina, professora de Educação Física, produtora de eventos e modelo publicitário.
Mel Zabunov: Ela veio de São Bernardo do Campo, formada em Teologia e Jornalismo Cultural. Mel Zabunov é uma vigorosa grafiteira. Resgata em seus trabalhos o empoderamento feminino e todas as suas nuances.
DJ Tati Laser: Ela sempre comanda a festa. Como o nome fala, a DJ Tati é super rápida, daí o apelido “laser”. Idealizadora do projeto As Minas Risca, Tati faz parte do coletivo Applebum DJS e da Hotstepper Crew. Ela ensina a arte dos toca-discos para crianças!
Luciana Mazza: Presente na cultura desde 1986, quando viajava do Rio de Janeiro onde morava para acompanhar e participar da efervescência da Cultura Hip-Hop em São Paulo. Ela é editora do Portal Breaking World, jornalista, cineasta, assessora de imprensa e mãe de B-Boy e de B-Girl.
Juntas, essas mulheres incríveis não se calaram, tomaram conta do bate-papo totalmente empoderadas e falaram sobre diversos temas como preconceito, discriminação, assédio, violência, sobre suas referências e sobre o legado que pretendem deixar para as próximas gerações femininas. Provando que o lugar das mulheres, é onde eles quiserem!
A roda de conversa foi mediada pelo jornalista Marcelo Rebello e a filmagem feita pelo fotógrafo e cinegrafista The Sarará. O evento será exibido na próxima segunda-feira a partir das 14h (horário de Brasília) e depois reprisado no Facebook, no Instagram e no canal de YouTube da Casa de Cultura Urbana Street House (@streethousebrasil).
Fotos: The Sarará / Street House
Mel Zabunov
DJ Tati Laser
B-Girl Bia
Rose MC
Luciana Mazza
The Sarará nos bastidores da gravação
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“Esse pessoal novo está vindo com muita ostentação, não é o que aprendemos na Cultura Hip-Hop” (Sara Cipri)
O Hip-Hop é uma ferramenta de modificação de vidas, de construção de trabalho de base e massificação. Não é de hoje que escutamos que o Hip-Hop salva!
Diante da necessidade que o ser humano tem de ser alguém e construir algo, o Hip-Hop com seus elementos pode ser um meio para este fim. Vários processos revolucionários no mundo se deram a partir dessa bandeira de luta.
O Rap é um dos elementos dessa cultura, sendo a voz que não se cala, que resiste atráves do tempo e das gerações.
O Portal Breaking World essa semana conversou com a rapper Sara Cipri, que com apenas 15 anos nos conta que é a nova geração da velha escola, ela acaba de lançar a musica “Recado Para Os Moleques” onde fala sobre a antiga e a nova escola, critica a ostentação e enaltece a verdadeira essência.
Confira a entrevista abaixo:
BW: Quantos anos você tem? Onde você nasceu? Queria que nos contasse um pouco sobre sua vida em família?
Sara: Eu tenho 15 anos, nasci em São Paulo, numa periferia do extremo sul e sou de uma família tradicional e contei sempre com o apoio dos meus pais no que faço e no meu trabalho junto à cultura.
Sara Cipri e o Rapper Thaíde
BW: Seu pai e sua mãe já tinham alguma ligação com a Cultura Hip-Hop ou você foi a primeira da família a se envolver? E como se deu esse interesse? Você tinha algumas referências?
Sara: É uma história bem curiosa, eu estava no centro da cidade com os meus pais, eu deveria ter uns 3 anos e aí eu vi um telão que passava pessoas dançando Breaking e eu nunca tinha visto aquilo e cheguei em casa fiquei com aquilo na cabeça. E eu perguntei ao meu pai o que era aquilo que eu tinha visto no telão. E meu pai me explicou que era uma cultura chamada Hip-Hop, que educava e que inclusive ele tinha vindo dessa cultura e aí, foi ali o meu primeiro contato, ele começou a me passar os conhecimentos desde essa época, quando eu tinha 3 anos e não parou até hoje! Minhas referências a partir dali foram o Nelson Triunfo, o MC Jack, foi realmente o pessoal ali da São Bento, Old School mesmo!
BW: Quando você se apaixonou de fato pelo Rap? Quando e onde você aprendeu a rimar? Você chegou a participar de batalhas de rima?
Sara: Um tempo depois do primeiro contato, eu comecei a participar de um projeto que era para tirar crianças da rua, dando uma oportunidade a eles e nesse projeto tinha todos os elementos e nós fomos nos encaixando onde nós sentíamos mais afinidade e no começo eu fiquei meio perdida pois eu gostava de tudo (risos) mas eu me encontrei foi na rima mesmo e foi algo muito rápido, eu me identifiquei imediatamente. Poder passar mensagens através do Rap para mim não tinha nada melhor! E referente às batalhas dentro desse projeto do Hip-Hop nas quebradas, no bairro de Parelheiros, nós tinhamos as batalhas dentro do projeto, então, tinha campeonatos, mas batalhas fora do projeto eu participei da Batalha do Grajaú, Rap City também, mas eu me identifiquei mesmo em escrever, eu participo de batalhas, mas eu gosto é de escrever.
Sara Cipri e Nelson Triunfo, o “Nelsão”
BW: Você falou que gosta de apresentar a nova geração para a geração mais antiga. Como é isso?
Sara: Na verdade às vezes as pessoas acham que é algo bem complexo, mas na verdade não é. É algo bem simples de entender, eu sou a nova geração da velha escola, então, no caso eu sou a continuação do legado que eles deixaram, eu continuo trilhando os mesmos caminhos que eles passaram, os mesmos ensinamentos, é a mesma coisa só que hoje, então quando eu coloco nas minhas letras ou quando eu vou apresentar o meu trabalho para alguém, eu sempre gosto de falar que eu sou a nova geração da velha escola, porque é um trabalho que não para por aqui e eu estou aqui para continuar! Inclusive uma vez o MC Jack, num comentário, disse algo muito sábio que eu sempre me lembro como um lema: o pessoal novo que está chegando vai tanto atrás, que vai chegar uma hora que vai bater no que é resistência, no que é base, no que é verdadeiramente a Cultura Hip-Hop, que é onde tudo começou!”.
BW: Como você acha que os mais antigos do Rap veem quem está chegando agora?
Sara: Olha, no meu caso eu sempre fui bem recebida. Tenho uma grande afinidade com o Nelson Triunfo, entre outros diversos que foram pioneiros no Rap. Então, eu acho que eles apoiam.
Sara Cipri vai abrindo caminhos e escrevendo sua história no Rap
BW: É difícil nos dias de hoje conquistar o próprio espaço? Ter o próprio estilo? Fale sobre suas composições?
Sara: Sim, é bem complicado fazer um nome e adquirir um reconhecimento! Mas são lutas que valem a pena, porque lá na frente vem um resultado incrível e sobre as minhas composições, geralmente eu gosto de passar uma mensagem, principalmente para os jovens, porque muitos passam por situações que não sabem lidar e o Rap ajuda as pessoas passarem pelos problemas, passa mensagem de paz, de tranquilidade e além disso o Rap educa, ele mostra uma saída quando parece que não existe. E aí aparece o Rap como uma chama acesa, mostrando que ainda resta uma saída. Então, nas minhas músicas, minhas composições, eu tento passar isso para as pessoas.
BW: O fato de ser mulher já te criou alguma situação delicada dentro do Rap? Como você vê as mulheres dentro da cena?
Sara: Realmente, as mulheres no passado tiveram várias barreiras para hoje podermos conquistar o nosso espaço. Mas hoje as mulheres estão cada vez mais se igualando aos homens e no Rap também não é diferente, eu acho que em todo esse tempo estamos bem representadas. Eu tenho como referência, por exemplo, a Negra Li, a Cris da CNJ, entre outras diversas que podemos olhar e tomar como espelho, eu nunca passei por nenhum tipo de preconceito, eu acho que hoje o negócio está mais tranquilo para dividir o mesmo espaço com os homens.
Além de cantar, a MC também participa de batalhas de rimas
BW: O que é para você ser da resistência? Ao que você resiste?
Sara: Bom, quando eu falo que eu sou a resistência, o que eu quero dizer é a resistência de defender uma ideologia mesmo mantendo a essência do Rap. Pois quando ele surgiu na década de 80, ele veio com a intenção de mostrar uma saida. Essa molecadinha nova que está entrando na cena estão tentando mudar as coisas, vindo com um linguajar diferente, então, a minha resistência é para manter as raízes do Rap e de toda a cultura viva, que continue educando e salvando vidas!
BW: Sara, verdade que você ensina crianças da comunidade? Nos fale desse trabalho que você realiza?
Sara: Sim, eu tenho um trabalho em Parelheiros na comunidade, onde eu moro e temos duas salas, uma em cada associação, são duas associações e uma creche e trabalhamos com crianças que foram abandonadas na rua, que não tinham um rumo e muitas dessas crianças enfrentam dificuldades dentro de casa com os pais, alguns os pais são separados, existem diversos cenários que acompanhamos e nosso foco é mante-los no caminho certo, estudando e resgatando todos eles.
Em Parelheiros com as crianças dos projetos sociais
BW: Você é meio que uma referência para eles?
Sara: Sim e eu fico muito feliz de poder servir de espelho para eles e sempre eu os incentivo a estudar, a se dedicarem buscando um futuro melhor. O projeto sempre vai além da sala de aula! O Rap e o Hip-Hop é isso!
BW: Você é um novo talento diante de muitos outros que já estão na estrada tem muito tempo! Você é uma menina, tem 15 anos, quais são seus planos para o futuro?
Sara: O que eu planejo é seguir carreira aprimorando as minhas letras, estar evoluindo a cada dia e também da mesma forma o projeto que ele venha a subir mais e conquistar mais coisas. O meu objetivo é aprimorar o que já tenho e o que existe!
BW: O que você tem feito nesse tempo de pandemia? Como tem se cuidado?
Sara: No momento, demos uma pausa no projeto por conta da pandemia estamos cumprindo a quarentena, evitando ao máximo sair de casa e os meus trabalhos estão sendo mais pelas redes sociais. Aproveito aqui em primeira mão para dizer que estou lançando nas plataformas digitais uma nova música, que fala exatamente sobre a nova geração para mostrar para eles o que realmente é a essência da Cultura Hip-hop. Esse pessoal novo está vindo com muita ostentação, não é o que aprendemos na Cultura Hip-Hop, vêm até com coisas que atingem as mulheres e o Rap relata a verdade da periferia, é uma coisa que toda a família pode ouvir e a minha música foi feita exatamente para essas pessoas, para eles acordarem, porque na verdade tudo isso não nos representa, o nome da musica é “Recado pros Mulekes”
No Troféu Arte em Movimento, o reconhecimento e a felicidade pela indicação
BW: Recentemente você foi premiada no Troféu Arte em Movimento. Comente?
Sara: Eu fiquei muito feliz pela indicação, por poder participar daquela premiação, foi algo incrivel aquilo, foi a materialização do nosso reconhecimento, de cada uma ali, eu com os meus 10 anos de carreira alcançando objetivos e todos ali sendo reconhecidos.
BW: Para finalizar, o que significa o Hip-Hop na sua vida? Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Sara: Eu nem tenho palavras, o Hip-Hop, para descrever, tamanha a grandeza que ele tem na minha vida, Hip-Hop é o ar que eu respiro, tudo que eu olho ao meu redor tem Hip-Hop e tudo que eu sei e sou veio através do Hip-Hop, eu sou muito grata a toda essa cultura incrível que eu nem sei o que seria de mim sem essa cultura e para os jovens, os leitores do portal, eu digo para não desistirem dos seus sonhos, dos seus objetivos e para perseverarem, continuarem lutando, aprendendo, estudando, porque uma hora o reconhecimento chega e vou estar lá aplaudindo você!
Fotos: Arquivo Pessoal / Nós no Rolê (Mõnica Senna)
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“Nós que somos diferentes, somos carimbados como loucos. Eu gosto de ser visto dessa forma, pois foram os loucos e malucos que melhoraram o mundo! Talvez se eu fosse diferente eu não gostaria de mim!” (Nelson Triunfo)
Ele nasceu no nordeste do Brasil, numa cidade localizada na parte setentrional do Vale do Pajeú, local de um povo hospitaleiro rodeado de serras e vegetação. O nome da cidade, Triunfo, originou-se de uma luta ocorrida entre uma poderosa família dos Campos Velhos, da cidade de Flores e os habitantes da povoação da Baixa Verde. No turismo, o município tem o privilégio de reunir tantos atrativos, a começar pelo clima, que contradiz a aridez do sertão nordestino, com temperaturas oscilantes entre 8ºC no inverno e 28ºC no verão. Está a 400 km de Recife e a uma altitude de 1.004m, tem vegetação diferente da que predomina na região e uma variedade de lugares a se visitar sem similar em todo Sertão nordestino. Com tudo isso, passou a ser conhecida como “O Oásis no Sertão” mas foi um de seus filhos que a encheu de orgulho e a tornou famosa em todo o mundo adotando seu nome como sobrenome, estamos falando de Nelson Gonçalves Campos Filho, mais conhecido como Nelson Triunfo (66), filho de sanfoneiro, o menino da roça ganhou o mundo sendo considerado o pai do Hip-Hop brasileiro. Nelsão, como é chamado carinhosamente por todos, iniciou sua carreira artística como dançarino de Soul e Funk na década de 1970, sem dúvida sempre foi a figura-chave na história da cultura Hip-hop no Brasil. Genial, bem humorado e dono de uma personalidade marcante. O Portal Breaking World teve a honra de bater um longo papo com ele e agora apresentamos para vocês, confiram!
Nelson Triunfo é considerado por muitos o “Pai do Hip-Hop” no Brasil
BW: Nelson, você nasceu em 1954, em Pernambuco, correto? Queria que você falasse um pouco da sua infância e da sua família. Que lembranças tem dessa época? Nelson Triunfo: Falando um pouco da infância vem todo um princípio que eu tive, que foi muito importante em toda a minha trajetória, eu fui privilegiado quando eu nasci lá na divisa de Pernambuco com a Paraíba, na verdade foi em Triunfo. Foi uma infância de moleque do interior de uma cidade simples, que também conviveu com a roça. A roça foi muito presente na minha infância, às vezes, nas férias, meu pai passava no sítio conosco, eu tomava conta de gado e tudo, e ao mesmo tempo eu estudava em Triunfo e ia apenas à noite para dormir lá. Eu trabalhei muito no sítio, fiz roça, fazia colheita de goiaba, bananas. No colégio eu sempre fui muito bom aluno, sempre fui um dos primeiros da classe. Eu tive uma base forte, naquela época já tinha o samba, já tinha o frevo, o maracatu muito presente! O forró! Luiz Gonzaga estava estourado naquela época e fazia muito sucesso! E fora isso, eu já curtia Beatles, Jovem Guarda, o som Black lá de fora. Na minha cidade, eu vi muitos filmes históricos com Gene Kelly, Fred Astaire, nessa época que eu também aprendi dar pião e espacate, os mortais. Tenho lembranças muito boas de festas de São João, eu com 13 anos ia tocar no forró com aquela sanfona, meu pai era sanfoneiro e eu já arranhava um pouquinho, às vezes nós íamos para festejos que tinha fogueira. Nós fazíamos milho na fogueira. Me lembro da moenda dos engenhos para fazer rapadura, por muito tempo a rapadura foi o açúcar do nordeste, era algo tradicional. Na época da cana de açúcar aquilo era uma delícia! O cheiro do mel, da cana de açúcar viaja quilômetros. As brincadeiras do colégio, que fazíamos corridas e olimpíadas, natação, tudo isso tinha no nordeste. Muitos imigrantes levaram esses avanços para lá. Triunfo chegou a ter o terceiro colégio mais importante do Brasil. Eu gostava de ficar na praça à noite, namorando as menininhas (risos), nós chamávamos de conquista, nós olhávamos para elas, se ela não tirasse o olho de você é porque estava interessada, tinha alto falante, você pagava para tocar as músicas e podia oferecer para quem desejasse. Depois da última música, tinha o cinema. Antes de chegar a luz em Paulo Afonso, ela só ia até às 22h10, depois disso era vela. Nessa época, não tinha televisão, ainda era só rádio. Na Copa de 70 é que chegou a televisão preto e branco mas vimos mais chuvisco do que imagem. BW: No tempo que o rádio chegou dentro de sua casa muita coisa mudou? Se aprofunde mais nos interesses culturais que tinha naquela época, além do frevo, do samba, do maracatu, do forró… Você viveu várias “ondas culturais”. Fale das influências que sofreu?
Nelson Triunfo: Eu já dançava muito! Dançava o frevo, que era tradição, o samba, o forró, que na época era chamado de pagode. Na minha época, pagode significava uma festinha. Vamos num pagode? Vamos numa festinha? Não tinha nada a ver com o samba que eles chamam hoje de pagode. Nessas festas, rolava muito uma mistura de Beatles, Jerry Adriani, Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, The Fevers, Martinho da Vila estava começando… eu vivi tudo isso, além das danças regionais, por isso que tive uma grande diversidade cultural eclética. Eu via o que acontecia lá fora também, como eu tinha vontade de conhecer Nova York, Alemanha! Mas eu pensava que era tudo distante… E hoje, graças a Deus, eu já conheço todos esses lugares! As influências que eu sofri com os tipos de dança, uma dança sempre arrastou a outra, as danças não são iguais, mas têm passos que se repetem entre uma e outra, tudo isso me alucinou um pouco, me trouxe alegria, eu comecei brincar de uma forma que virou verdade e todo mundo gostava e aplaudia. E tudo isso passou a fazer parte da minha vida, foi quando eu tomei a decisão de fazer da dança minha profissão.
A dança sempre esteve presente na vida de Nelson Triunfo, o “Nelsão”
BW: Na década de 70 muita coisa aconteceu, correto? Você se mudou para a Bahia, começa a frequentar os famosos Bailes Blacks, começa a gostar muito nessa mesma época de James Brown e cria uma estilo próprio de dança. Comente sobre como eram esses bailes, o que rolava e comente como foi a criação dos “Invertebrados” que foi o primeiro grupo de dança Black do nordeste? Nelson Triunfo: A dança Black não tinha comércio no Brasil, hoje nós temos batalhas de Hip-Hop, temos batalha de Soul, de Breaking, isso não tinha naquela época, eu fui um dos primeiros caras a fazer disso aí um produto cultural e alguns que queriam ter em determinado local, nos contratava. Em 1984, na novela Partido Alto, nós abríamos a novela, fomos pagos para isso, então, a dança era uma profissão também. Trabalhava de uma forma consciente, focando também no social. Nossa dança também é um sentimento que se carrega. Exemplo são as crianças: quando você coloca um som e ela começa a balançar a cabeça, quem foi que ensinou a ela que tinha que balançar a cabeça? Então, é um sentimento! Sobre os Invertebrados, quando eu saí de Triunfo, com 16 para 17 anos e fui estudar em Paulo Afonso, lá tinha um programa no Cine Coliseu, ele ficava no meio de uma praça e tinha um cinema, um palco lindo e lá tinha um programa que era parecido com o Programa do Chacrinha, tinha calouros, tinha grupos lançando músicas, o nome do programa era “O Coliseu Show” e aí eu comecei a me apresentar ali, a dançar, e chegou um cara do Rio e tinha outro amigo meu de Paulo Afonso, que pediu para subir no palco para dançar comigo e aí nós dançamos “Sex Machine”, do James Brown. Nossa! Foi uma gritaria! Foi muito legal e quando nós descemos do palco, veio uma senhora e perguntou assim: “Meu filho, nossa! Como vocês dançaram, são lindos, são maravilhosos! Vocês não têm ossos!”. Aí perguntou: “Qual o nome do grupo?”, e aí eu aproveitando o “não tem ossos” dela, já inventei na hora e respondi: “Por isso o nome do nosso grupo é Invertebrados!”. Daquele dia em diante nos tornamos os Invertebrados (risos). Já os Bailes Blacks é mais nos meados dos anos 70, o grande auge no Rio de Janeiro foi 1976, mas continuou em 1977, 1978, aqui em São Paulo foi até 1986, aí depois terminaram os Bailes Blacks, pois já tinham outras coisas entrando, depois se tornaram algo mais simples, sendo o mesmo pessoal hoje que faz baile de nostalgia, que usa mais samba rock. No Rio, era mais soul e em São Paulo era soul e samba rock e as letras eram legais, isso aconteceu no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre, foram cidades que concentraram os Bailes Blacks. Depois, se espalhou para o nordeste e para algumas cidades do interior. No Rio, acontecia em Barra Mansa e em Volta Redonda, Teresópolis. Mas nos anos 80 já começou a se misturar com o Hip Hop. BW: Nesse tempo você deixa o cabelo crescer, criando uma imagem que iria o seguir pelo resto da vida. Ficou décadas sem cortar o cabelo! Nos fale da importância desse visual em todo o contexto?
Nelson Triunfo: O meu estilo vem de uma coisa de criança, eu era uma criança muito curiosa, lia sobre tudo, nisso eu puxei o meu pai. Mesmo sendo criado na roça eu era bem aculturado. Eu sempre quis ser meio maluco e os meus pais não deixavam (risos). No sítio mesmo eu já fazia batuque, já fazia festas, campeonato de futebol, eu sempre fui meio doido, mas não tinha liberdade. Quando eu fui morar sozinho, virei um Black Power: era bonito e eu gostava! Nos EUA estava rolando o Festival Woodstock e eu sempre estive atualizado com tudo que rolava lá fora. Nessa época, eu já fazia parte da resistência, fui para Brasília, passei três anos trabalhando mas com o cabelo do mesmo jeito. E depois, vim para São Paulo. Até hoje eu nunca cortei o cabelo! Estou há muitos anos longe de Paulo Afonso, foi onde tomei a atitude de deixar crescer o meu cabelo, fiquei tão famoso lá que eu saí de lá em 1974 e até hoje os moleques deixam o cabelo crescer como o meu (risos). E quando o cabelo fica grande chamam de Nelsão (risos). Os meus fãs do Brasil inteiro e os que me conhecem de fora, eles acham uma coisa muito legal minha, que é aquela hora quando eu começo a dançar e tiro a touca e solto o cabelo (risos), eles adoram essa parte, eu também fazia no futebol, porque eu jogava futebol e toda vez que eu fazia um gol eu tirava a touca e balançava o cabelo, é minha marca registrada! Sem o cabelo não é o verdadeiro Nelsão! É a verdaeira resistência que ninguém conseguiu me engravatar, ninguém conseguiu cortar ele, ninguém me forçou a seguir algum modismo. Desde de 70 eu fui Black Power até hoje! Talvez o único cara do Brasil que é Black Power daquela época. Ele já está caindo um pouco, já tenho 66 anos, não é o que era antes!
O cabelo é uma das marcas registradas do artista
BW: Em 1976 você chegou em São Paulo, como foi sua chegada na terra da garoa? Foi nesse tempo que você se dedicou completamente a dança, participou de bastante shows, fazendo parte do Black Soul Brothers. Pode comentar? Nelson Triunfo: Começando em Paulo Afonso tinha alguns grupos que me chamavam para dançar e quando chegava a hora eu fazia o maior sucesso. Foi lá que eu comecei a dançar! Isso acontecia no final de semana, pois eu trabalhava. Em Brasilia não foi diferente… eu trabalhava em topografia, estudava à noite e no final de semana eu ia para os bailes. Às vezes, nós iamos para o Rio para curtir os Bailes Black Rio, comprava aqueles sapatos pisantes… Aí em 1976, eu vim umas duas vezes para São Paulo, mas eu vim para fazer televisão: Silvio Santos, Chacrinha, aí pronto! No final de 1976, eu terminei os estudos em Brasília e no início de 1977 eu vim de vez para São Paulo, mas quando eu vim para São Paulo eu decidi que não queria mais trabalhar com topografia e que iria me dedicar aquilo que sempre eu gostei, na música, na dança, nas composições. E comecei forte, em 1977, com Tony Tornado, Miguel de Deus, Moisés da Rocha do Samba Pede Passagem, que na época ele tinha uma equipe de Black Music, já conhecia as equipes do Rio de Janeiro, quase sempre eu ia para lá! Nessa época, a Black Rio estava estourada! E naqueles anos, eu já tinha dentro da minha dança o Robô, o Wave, um pouco de giro de cabeça, eu fui uma das primeira pessoas a fazer movimentos de Breaking aqui no Brasil. Em 1982, já era possível aqui ver pessoas dançando Popping e em 1983, tem um vídeo muito interessante chamado “Gilberto Gil Funk-se Quem Puder”, nesse tempo nós já dançávamos nas ruas, mas dançávamos mais Funk. É possivel ver o Original Funk e Cia. saindo do Soul e entrando na Dança de Rua. Mas na verdade, nunca saímos do Soul Funk, só entramos de cara no Hip-Hop e estamos aí até hoje, numa grande mistura no Freestyle. Tem as coisas originais, mas sempre aparecem as coisas novas, as novidades!
BW: Em 1977 acontece a gravação do disco de Miguel de Deus e Mr. Funk, de sua autoria, está no disco. E ainda na década de 70 surge o Funk e Cia. Nos conte sobre esse trabalho e sobre o grupo?
Nelson Triunfo: Na verdade, em 1977 foi um ano que aconteceu muita coisa, eu fui na TV Tupi, onde hoje é a MTV e lá eu encontrei o Tony Tornado, o Moisés da Rocha, que trabalhava na Difusora, eles me convidaram para um baile que era grande em São Paulo, na Associação Atlética São Paulo, inclusive eles convidavam equipes do Rio de Janeiro, para fazer som com eles e alí surgiu o Miguel de Deus, que me convidou e até no disco dele tem uma musica que é minha, o Mr. Funk e também criamos a Black Soul Brothers, foi o nome do primeiro grupo que eu formei em São Paulo, existiu apenas para o trabalho do disco de Miguel de Deus. Assim que acabei esse trabalho, pensei em formar um grupo bem maior e potente, foi quando eu pensei no Funk e Cia. e em 1977 fui montando o Funk e Cia. com pessoas muito boas, pesadas! Eram 10 componentes! Todos foram escolhidos a dedo! Eu formei o Funk e Cia. com os melhores dançarinos da Black Music de São Paulo. Foram as que participaram do Funk-se Quem Puder. Passamos do Soul para o Hip-Hop, depois vieram outras formações do Funk e Cia. com os anos os componentes foram mudando. Hoje existe o Funk e Cia. mas atualmente é mais dançante e cantante. Mas a formação pesada foi de 1978 a 1983. Eles foram escolhidos de uma forma bem exigente, eu ia nos bailes blacks e via os caras dançarem, entrarem na roda e as vezes pintava aquele que dançava muito, aí eu conversava com ele e o convidava para o Funk e Cia. Eram os melhores dançarinos da Black Music de São Paulo. BW: Como foi participar de shows de artistas tão importantes como Tim Maia, Gilberto Gil, Sandra de Sá e Jorge Ben Jor? Verdade que o Tony Tornado te chamava de “O Homem Árvore”? Nelson Triunfo: Foi importante eu dançar com todos esses nomes da Black Music Brasileira, porque eu também era um astro da dança, então, eu me sentia em casa e me dava muito bem com todos, era muito legal e no caso do Tony Tornado, a primeira vez que ele me viu os caras estavam junto com ele, o Serginho e falaram “nossa, o cabelo dele parece uma árvore!”. E ele disse “verdade parece um homem árvore” (risos). E na hora de um show, quando foi me apresentar, “agora com vocês, pessoal, o Homem Árvore”… Aí pronto, nunca mais ele me apresentou diferente desse nome e outra coisa, nos bailes blacks do Rio e do Sul que tinham os melhores dançarinos, que eles me respeitavam muito. No Black Rio o meu nome era o Homem Árvore!
Foto tirada em 1978, no show de James Brown com a equipe Chic Show, no Ginásio de Palmeiras em São Paulo. No destaque, Nelson Triunfo
BW: Em 1978, James Brown veio ao Brasil. Você conversou com ele… Como foi conhecer James Brown? O que vocês conversaram? Verdade que você ganhou um presente dele? Fale da foto icônica e emblemática feita por Penna Prearo onde você aparece? Nelson Triunfo: Foi muito legal! Nos encontramos no Aeroporto de Congonhas, estava o Paulo Inglês, que era o nosso intérplete e mais alguns caras da Chic Show. Batemos um grande papo, eu disse a ele que gostava e que era um fã do ritmo dele, falei que eu era um dançarino no Brasil, que existiam os bailes blacks no brasil e ele disse que tinha visto reportagens sobre isso e tudo e eu disse para ele que o show no Palmeiras ia ter muita gente! Dancei um pouco para ele ver e ele disse: “The best, the best!”. Aí ele me presenteou com uma capa a qual eu levei para o show que eu iria me apresentar depois dele e infelizmente na hora que eu fui me trocar no camarim a capa sumiu. Alguem entrou lá e só de maldade levou a capa. A foto me mostra neste show com a capa antes dela ser furtada! BW: Nelson, comente a importância de James Brown para a cultura mundial, fale sobre o legado que ele deixou e nos diga o que sentiu quando recebeu a notícia do falecimento dele em 2006? Nelson Triunfo: A música do James Brown sem dúvida foi uma das maiores revoluções da música black do mundo, foi uma música que trouxe em si a dança, as mudanças, o próprio Original Funk virou várias outras coisas, inclusive até o Heavy Metal veio do Funk. O Funk é uma música muito louca. A grande maioria samplearam James Brown, eram músicas que se tornaram muito conhecidas do povo, o Rap cantado em cima daquelas bases, já pegava moral também. Ele foi um cara único, que quase não deixou nada para ninguém fazer a maioria das Danças Urbanas, vem do Original Funk. Sem dúvida é a maior base original para vários estilos, que são esses que rolam inclusive dentro da nossa Cultura Hip-Hop, quando estamos nas festas que têm os Poppers, os Lockers, B-Boys, B-Girls, até o House e o Freestyle, em todos esses estilos de dança, a base deles são do Original Funk. A noticia do falecimento dele foi muito triste, me desmontou, foi um tempo muito ruim e muito triste, ele não tinha sinal nenhum de estar ruim e de uma hora para outra partiu.. foi algo louco! Eu me lembro quendo eu voltava de Berlim, em 2006, era dezembro e eu vim chorando dentro do avião, pois estava escutando uma rádio e tocou aquela musica dele “O Mundo dos Homens”. O sentimento que eu tive foi de uma perda muito grande!
Nelson Triunfo (esquerda) e James Brown (direita), em 1978: encontro de gigantes
BW: Muitos te consideram o pai do Hip-Hop no Brasil, fale da sua ligação com toda a cultura e com o Breaking? Como era o Breaking na década de 80? O que se mostrava nas rodas? E nos fale dos dias e da importância da São Bento? Nelson Triunfo: Na verdade o Breaking aqui no Brasil, no final dos anos 70, o Funk e Cia. já fazia o Robô, o Wave, inclusive eu tinha três pessoas no grupo que eram capoeiristas, eles faziam Head Spin, davam mortais, já tinha um bocado dessas coisas que hoje os B-Boys fazem aí, depois chegou o Six Step que era o Footwork, quando nós fomos para a rua em 1973, já tinham caras fazendo Moinho de Vento e alí começavam os primeiros breakers do Brasil, porque até então nós tinhamos algumas coisas no Funk e Cia. mas ligado ao Soul e foi juntando tudo e, em 1983 e 1984, nós já tínhamos bons dançarinos de chão, mas na concepção daquelas danças da época. Na época do Beat Street é que foi aprimorado mais movimentos e técnicas e maior conhecimento de todos os elementos. Em 1984, já tinha uma revista falando sobre os elementos do Hip-Hop com o tempo, houve a evolução da danças, os caras foram aperfeiçoando a ponto que eu já falava que o Breaking tinha muitos jovens que eram melhores que os ginastas olímpicos. Então, esse negócio agora do Breaking estar nas Olimpiadas eu vejo como uma reparação. Eu acho que desde 1999 nós já estávamos numa evolução muito capaz! Sobre a São Bento, nós dançavamos no passado em vários lugares de São Paulo, depois fomos ficando mais na 24 de maio, em 1984 a 24 de Maio virou point. Em 1985, começou a se procurar outro lugar, foi quando surgiu a São Bento que era apenas no sábado, os encontros aconteciam sábado à tarde! No final de 1985 a São Bento estava estourada e não cabia mais ninguém, em 1986 começaram as grandes batalhas das crews, virando um point nacional. Em 1993, aconteceu a primeira batalha de Breaking no Brasil, interestadual. O próprio Mano Brown, o KL Jay iam para lá, o Thayde, isso era 1985, que fazia parte da Dragon Breakers, depois virou Back Spin Crew, aí depois Thayde e DJ Hum formaram a dupla e começaram outros trabalhos. As duas grandes bases de tudo isso foi a 24 de Maio com a São José e a São Bento. E a Casa do Hip-Hop em Diadema.
Nelson Triunfo na Casa do Hip-Hop de Diadema
BW: Bom Nelson, você falou de Olimpíadas… Entrando nesse assunto, esse ano o Breaking passou a fazer parte dos jogos olímpicos. E B-Boys e B-Girls começam a ser vistos como atletas. Qual sua opinião sobre esse assunto?
Nelson Triunfo: Isso é evolução, todos aqueles que foram contra a evolução ficaram para trás: eu não! Eu vim para cá, fundei a Casa do Hip-Hop em Diadema e outros já fundaram outras casas, é uma evolução, às vezes alguns reclamam da notoriedade e de tudo, mas não tem como dizer que o Breaking, que o Graffiti não são comerciais. O Graffiti está no mundo inteiro hoje, grandes prédios de grandes cidades têm Graffiti, os DJ’s sempre estiveram aí, fazendo as festas. O Rap está no mundo inteiro e o B-boy sempre esteve em evidência, em todos esses anos aconteceram batalhas maravilhosas, antes tinha a Battle of the Year que era na Alemanha mas hoje tem no mundo inteiro, na Coreia, no Japão, na Rússia, nos EUA, no mundo inteiro têm B-Boys e hoje os caras desafiam até a lei da física, fazem movimentos com o corpo incriveis, eu até me lembro dos Invertebrados, a evolução e as precisões são muito boas! Hoje eu considero um bom B-Boy, avançado mesmo, como um bom ginasta de solo. Por isso que falo que não é surpresa o Breaking estar nas Olimpíadas para mim é uma reparação, pois deveríamos estar desde 1999. É algo evidente! BW: Falando da Casa do Hip-Hop de Diadema, fale da importância dela na cena e na recuperação e educação de jovens? Nelson Triunfo: A Casa do Hip-Hop nasceu de um projeto, o Repensando, que nós já fazíamos dentro das escolas, foram as primeiras aberturas da sala de aula para a Cultura Hip-Hop e ali tinha uma pessoa chamada Elisete, que trabalhava na educação junto com o Paulo Freire e ela foi chamada para trabalhar em Diadema, que foi a primeira cidade que o PT ganhou uma prefeitura no Brasil e, com isso, foi o pessoal da educação e tinha uns moleques lá que pediram para levar o trabalho que acontecia em São Paulo para lá e começamos o trabalho em alguns centros culturais lá. E de uma hora para outra estourou, tinha uma divisão de bairros, Diadema era vista como uma das cidades mais violentas de São Paulo. Começamos o trabalho em 1990, o trabalho cresceu e em 1994 já tinha o Centro Cultural do Caema, que mais tarde iria virar a Casa do Hip-Hop. Naquele tempo eu e Marcelinho Back Spin queriamos fazer a Casa do Hip-Hop e lá se tornou um centro cultural padrão, nós fazíamos os eventos e bombavam. Criamos o Hip-Hop em Ação, entre os centros culturais, para se apresentar lá todo o final do mês onde aconteciam todas as oficinas juntas do Caema e de todos os centros culturais, sempre trabalhávamos os 4 elementos e se tornou algo nosso, era um trabalho social desenvolvido, que começou a vir gente do Brasil inteiro para aprender conosco e já funcionava como Casa do Hip-Hop e, em 1999, nos tornamos Casa do Hip-Hop de Diadema, saía na grande mídia, saí no Fantástico, no Globo Repórter, uma porção de coisas, mostrando os trabalhos sociais com jovens e foram muitos jovens que sairam de lá e que hoje estão no mundo inteiro. Só no Estado de São Paulo deve ter mais de 50 Casas do Hip-Hop, a nossa foi a primeira Casa do Hip-Hop da América Latina. Nós criamos vários jovens, vários multiplicadores do Hip-Hop através da Casa do Hip-Hop.
Nelson Triunfo sofreu preconceito e muitas prisões mas jamais desistiu de sua arte
BW: Nelson, certa vez você declarou que escreveu sua história no “Brasil dos Preconceitos”, você sofreu muito com isso? Verdade que na época da ditadura você foi preso e até apanhou? Como você se sente hoje, como vê algumas pessoas do atual governo defendendo a volta da ditadura? Nelson Triunfo: Hoje pessoas que defendem a ditadura são pessoas que estão de embalo, como sempre existiram essas pessoas na história, não sabem nem o que foi a ditadura e falam besteira e outros devem ser filhos dos militares, porque claro que filhos de militares foram criados dentro de uma doutrina que eles não acham problema, de ver o país sendo governado por militares e pessoas que têm esse dom da suástica, essa aversão a esquerda e querem ser os melhores através da estupidez e não da inteligência, você vê quanta gente não sabe nada e quer discutir sobre politica, politica é uma ciência, é o conhecimento da sociedade, tanto do lado do bem como do lado do mal, no caso desses é do lado do mal, então, eles veem todo o lado artístico como ameaça. No meu caso, eu sofri muito preconceito, o preconceito de ser nordestino, no meu sotaque quando eu cheguei aqui, tinha preconceito até na comida quando eu pedia em alguns lugares farinha para colocar no feijão, a farinha ficava escondida debaixo do balcão para ninguém ver, era vergonhoso usar farinha. Outra coisa: eu era o cara do cabelo Black Power e tinham preconceito com o meu sotaque, mas eu assumia o que eu era, como eu falava, o meu cabelo, eu nunca mudei. Eu assumi o Brasil Nordestino que eu representava e também mostrei muito o conhecimento que eu tinha lá de fora, eu lia muito. Então os caras vinham com argumento furado, racista, de gente boba e eu só dava cassetada nas testas deles com as minhas ideias e eles não podiam muito comigo. Eu fui um dos caras que mais fui preso na cidade, eu ia preso porque eu estava dançando, me apresentando e para os policiais aquilo era coisa de malandro, era tanto que eles pediam a carteira assinada. Como eu ia dançar nas ruas e ter minha carteira assinada? Quem ia assinar? Então, se não tinha carteira assinada, não era trabalhador! Era vagabundo! Eles levavam preso por vadiagem e mais para desfazer a roda mesmo, onde todo mundo estava aplaudindo. E eles não queriam isso. Então eu fui um dos caras que mais fui preso defendendo a cultura. E quando eu fiquei doente, muitos novos ficaram sem acompanhamento nas ruas, pois era o mais antigo, eu vinha de outras gerações, eu era revolucionário. Hoje eu tenho 66 anos e eu não parei graças a Deus! Todos me veem como da própria familia! Eu sempre ajudei a todos como pude! Nosso trabalho sempre foi de ajuda e de militância! Quantos moleques fizeram parte desse trabalho e hoje são doutores! Campeões Mundiais! Outra lembrança interessante é que quando eu fui dançar no Chacrinha, os caras falaram que não era para eu falar e sim apenas para dançar, na época tinha muita gente que cantava em inglês, aí eu dancei, dancei e dancei, saí sem falar com ninguém e depois eu fui descobrir porque foi que o cara não queria que eu falasse, depois em outra ocasião aconteceu a mesma coisa eu ia cantar uma música chamada 84 na 24 e quando eu cantei uma mulher da produção disse que eu tinha problema na lingua e que não daria daquela forma, enfim, o que aconteceu foi um racismo feio comigo! O problema na língua era o meu sotaque nordestino! Para eles a minha forma de falar era uma vergonha! E eu fui vencendo isso tudo, os mesmos que falaram mal de mim, me vendo na televisão, me vendo vencendo, se tornaram meus amigos! Foi mais uma vitória do Triunfo! BW: Nelson fale das homenagens que já recebeu na sua vida? E também do teatro, do filme, da biografia e da sua estátua em Triunfo?
Nelson Triunfo: Já recebi alguns prêmios e homenagens, como o do Hutuz de Melhor Lider Comunitário, ganhei em São Paulo em 2008 o título de Cidadão Paulistano, também em 2008 a Comenda da Cultura Nacional, o reconhecimento que o Ministério da Cultura tem por algumas pessoas que desenvolvem trabalhos muito importantes dentro da cultura do país, teve o “Se Liga Mano” que foi uma peça feita em 96 para 97, tinha 60 atores, todos eram alunos do Centro Cultural de Diadema, foi algo maravilhoso! Triunfo, o filme, dirigido por Cauê Angeli, que passou umas 30 vezes no Canal Brasil, feito em 2014, é um filme interessante que conta um pouco da minha história, foi premiado em vários lugares, inclusive num festival na Espanha. Aí vem a minha biografia, que foi feita por Gilberto Yoshinaga em março de 2014, quem leu gostou muito! E por fim a estátua em Triunfo, o pessoal vinha cogitando faz tempo que iriam fazer uma homenagem a minha pessoa e eles fizeram uma estátua lá e isso mostra uma mudança, pois antigamente se fazia homenagens dessa na ausência da pessoa, no meu caso fizerem uma estátua em vida e fiquei muito feliz! Eu vejo que as coisas são resultado do que você planta. A estátua foi feita pela Prefeitura de Triunfo, no sertão de Pernambuco, minha cidade de origem!
BW: O que você tem feito nesse tempo de pandemia? Nelson Triunfo: Eu tenho ficado em casa, de boa, estou compondo, eu escrevo, tenho lido muito, fazendo minhas lives e tenho me comportado dessa forma, com cuidado, enquanto não tomo a vacina. Acho que ainda vai demorar um pouco e a parada ainda vai longe… BW: Que mensagem você deixaria para a nova geração que vai continuar essa história do Hip-Hop no Brasil? Nelson Triunfo: Eu os vejo como a continuação, tem B-Boys e B-Girls novos que são maravilhosos! Eu sei também que tem muitos B-Boys hoje que estão no auge que, quando chegar em 2024, talvez não estejam mais e outros novos aparecem, tudo é uma questão de tempo, mas também acho que alguns dos antigos serão mentores, técnicos, coisas assim, eu acredito muito na galera jovem, principalmente na dança deles, porém, eu gostaria de vê-los mais politizados, valorizando a educação, os livros, a informação, essas coisas que eu gostaria de falar aos jovens, além de serem atletas, dançarinos, que procurassem ser pessoas boas, pessoas que não prejudiquem outras, porque o que você não gosta que façam com você não deve fazer com os outros! Sejam pessoas incríveis e felizes! BW: Para finalizar, Nelson, tem alguma coisa na sua vida que você se pudesse mudaria? Como gostaria de ser lembrado ? Nelson Triunfo: Eu gostaria de ser lembrado de alguma forma fazendo parte dos representantes do Brasil que vão para as Olimpíadas. Como guru, como um símbolo da Dança de Rua do Brasil. Gostaria de ser lembrado por ter feito parte dessa primeira equipe que será escolhida para representar o Breaking brasileiro nas Olimpíadas! Algumas pessoas acham que eu sou louco, nós que somos diferentes algumas pessoas já carimbam como louco, eu gosto de ser visto dessa forma, pois todos que foram vistos como loucos e malucos foram os que melhoraram o mundo! Talvez se eu fosse diferente eu não gostasse de mim! Foram os descobridores e inventores das coisas, foram esses que transformaram de vez o mundo! No passado eu fiz o que eu pude e continuo fazendo de boa, sem estresse, numa nice e suave na nave!
Fotos: Arquivo Pessoal
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“O acordo ressalta o compromisso do WDSF em dar à comunidade do Breaking as melhores plataformas possíveis para mostrar seus talentos, ao mesmo tempo que ajuda a impulsionar seu desenvolvimento em todo o mundo” (Shawn Tay)
A World DanceSport Federation (WDSF) anunciou a assinatura de uma parceria de quatro anos com a Red Bull GmbH.A aproximação visa promover o desenvolvimento do Breaking em sua jornada olímpica, incluindo o lançamento do “WDSF Breaking for Gold World Tour” que começa em 2021.
A colaboração pretende criar grupos de trabalho dedicados, envolvendo a comunidade do Breaking e a introdução de projetos de desenvolvimento projetados para crescer o Breaking globalmente, com foco particular nos países em desenvolvimento e aqueles com pouca ou nenhuma experiência anterior com o Breaking competitivo.
Mais detalhes vão ser anunciados nas próximas semanas, conforme a evolução da parceria. “O acordo ressalta o compromisso do WDSF em dar à comunidade do Breaking as melhores plataformas possíveis para mostrar seus talentos, ao mesmo tempo que ajuda a impulsionar seu desenvolvimento em todo o mundo”, disse o presidente do WDSF Shawn Tay. “Com a experiência, o know-how e a rede que a Red Bull e a WDSF trazem para a mesa, estamos entusiasmados com o futuro do Breaking como parte do Movimento Olímpico.”
O Comitê Olímpico Internacional (COI) incluiu oficialmente o Breaking no programa de esportes para os Jogos Olímpicos de Paris 2024, isso aconteceu em dezembro de 2020, após sua estreia bem recebida nos Jogos Olímpicos da Juventude em Buenos Aires 2018. Em 2019, o WDSF World Breaking Championships foi realizado com sucesso em Nanjing, China, com a próxima edição marcada para acontecer neste verão, se a pandemia permitir.
Apesar da pandemia, o Breaking continua crescendo e sua popularidade vem aumentando, sendo incluido nos programas dos Jogos Asiáticos e Jogos Mundiais de 2022 e nos Jogos Olímpicos da Juventude de 2026, entre outros.
Foto: Divulgação Red Bull
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
É B-Girl/B-Boy e sonha em competir fora do país, ser reconhecido na cena do Breaking e/ou viver dessa arte? Porém, tem atitudes/comportamento de amador!
Irei abordar alguns assuntos para você se tornar um artista e/ou atleta de destaque e boa postura.
Antes de tudo, tenha em mente que para se alcançar bons resultados, o principal protagonista é você mesmo.
O artista/atleta é uma figura pública que, muitas vezes, é tido como referência, um exemplo a ser seguido. Dessa forma, é essencial que a imagem pessoal seja pensada e trabalhada de acordo com a essência da B-Girl/B-Boy e alinhada com as expectativas do seu público-alvo, dessa forma vai alavancar ainda mais o seu sucesso.
Extremamente positivo manter-se ativo na internet, mas com preferências aos conteúdos relacionados ao Breaking, não se envolver em polêmicas que não englobem seu nome diretamente.
Tome muito cuidado com suas postagens nas rede-sociais, com publicações fumando cigarro, maconha, bebidas alcoólicas e gestos obscenos em fotos e até mesmo nas batalhas. Isso deixa uma imagem negativa, em se falando de um futuro patrocínio, nenhuma empresa vai associar a marca dela a uma pessoa com imagem negativa.
Ter cuidado com a integridade física, convívio social e desempenho nos treinos é algo muito levado em consideração, pois a partir do momento em que a B-Girl/B-Boy preserva sua saúde e preza por bons hábitos pessoais, familiares, físicos e sociais, sua dança também tende a ser mais valorizada e, com certeza, trará bons resultados.
Hora de mudar algumas atitudes:
Em um evento, sendo ele para competir ou curtir uma cypher, procure não usar as mesmas roupas e calçados de treino. O artista/atleta tem que ter uma boa imagem visual. Como você quer ganhar um patrocínio se não se veste bem? Ser uma excelente B-Girl/B-Boy e o visual horrível, isso desperta uma imagem “negativa” para os olhares da imprensa e de um futuro patrocinador.
Sei que muitos não têm condições de comprar roupas de qualidade ou caras. Porém, é possível se vestir bem usando o básico mesmo, basta você pesquisar e começar a ter um olhar para esse assunto. Além de você ter seu estilo de dançar, procure criar o seu estilo visual também, muitas B-Girls e B-Boys se vestem muito bem, mas seguindo uma tendência de alguma B-Girl ou B-Boy que estão na elite e acabam se tornando só mais um que copiou o estilo do outro e está seguindo uma moda.
Higiene: ir limpo para o evento, reuniões, entrevistas, etc. Ter cuidado com cheiro, seja ruim ou com muito perfume; tenha muito cuidado com hálito, pergunte para alguém que você tem intimidade, se seu hálito está OK. Imagina você conversar com um futuro patrocinador e/ou autoridades e estar suado, fedendo e com mau hálito? Tu perderá uma grande oportunidade… Veja bem, não estou generalizando, são alguns cuidados para que não passe por constrangimentos futuros, tenha cuidado com isso na vida pessoal e profissional.
Não chegue atrasado aos eventos! Pontualidade em qualquer parte do mundo é apreciada e bem vista.
Vamos falar sobre o emocional
A vida das B-Girls/B-Boys que competem, sendo ela profissional ou amador, é feita de vitórias e derrotas. Com isso, é preciso ter equilíbrio emocional para saber lidar com todas as situações. Assim, o artista/atleta não sofrerá demais diante de uma derrota e não desenvolverá espírito arrogante nas vitórias.
Como não é uma tarefa fácil amadurecer sozinho, você pode procurar um profissional para te ajudar nesse acompanhamento. Vale ressaltar que a própria mente é um grande obstáculo. Se você sofre de ansiedade pré-evento, procure se abrir para alguém que se sinta confortável em falar. E se tiver condições, procure um especialista em psicologia do esporte, esse profissional entende como os fatores psicológicos influenciam o desempenho físico, rendimento e de que forma a participação nessas atividades melhora o desenvolvimento emocional, a saúde e o bem-estar da dançarina(o)/atleta nesse ambiente e muito mais…
Tome muito cuidado quando se “perde” uma batalha, algumas pessoas saem reclamando das(os) juradas(os) ou até mesmo querem tirar satisfação chamando-o para batalhar. Uma falta de respeito para com o profissional que está concentrado(a) trabalhando e com o corpo frio, com grande risco de causar uma lesão. Será muito mais produtivo se você questionar quais foram os pontos “fracos” que fizeram com que “perdesse” naquele momento, pergunte não somente para o jurado que não votou em você e sim para todos. Estou ciente que muitos(as) jurados(as) votam para o amiguinho(a): isso também é uma falta de profissionalismo e respeito. Se você foi para um evento e soube com antecedência quem seriam os(as) jurados(as) e aceitou competir, então, saiba que você aceitou ser avaliado. Se você foi campeão(ã) ou até mesmo se sentiu bem em ter participado, questione os(as) jurados(as) sobre seu desempenho, para assim você ter um foco no que precisa melhorar mais.
O ponto principal é que você se avalie, assista com calma suas sessions e a do oponente, veja o que acertou e o que errou, faça o mesmo com as sessions do outro, tire suas conclusões. Ao invés de sair falando mal do(a) jurado(a) e/ou evento, em um outro momento procure entrar em contato com os (as) jurados(as), mostre seu levantamento, você irá aprender muito com isso e ensinar também.
Condicionamento físico
O condicionamento físico é mais um passo importantíssimo para se tornar um bom artista/atleta profissional e ou de alto nível. É preciso ter preparo e condicionamento ideal para conquistar resultados esperados. Com todos os movimentos limpos, treinos aeróbicos e exercícios específicos, você consegue chegar à forma ideal. Muitas B-Girls/B-Boys ainda têm certo preconceito para com o condicionamento físico, pois até alguns anos atrás aqui no Brasil pouco se falava nesse assunto, na Ásia e Europa já se faz esse trabalho há anos.
Tome muito cuidado e não saia por aí fazendo exercícios errados, como exemplo, alguns B-Boys fazendo Power Moves com pesinhos nas pernas, isso poderá causar uma séria lesão. Busque orientações, temos muitos profissionais de Educação Física no Breaking, troque uma ideia, peça orientações básicas. Outro ponto fundamental é a quantidade de horas de sono, procure entrar em uma rotina de dormir entre 6 a 8 horas, nosso corpo é uma máquina e precisa de descanso. Comece a incluir no seu treino corrida ou natação para melhorar sua resistência aeróbia, você vai sentir uma enorme diferença na sua resistência. Treinos específicos, como crossfit, musculação, entre outros, vai ajudar a melhorar sua resistência Anaeróbia. Não irei me aprofundar nesses assuntos por serem amplos (Em breve iremos falar especificamente sobre as resistências Aeróbia e Anaeróbia para um melhor entendimento)
Marketing pessoal
O marketing pessoal envolve um conjunto de esforços a serem promovidos por meio de bons hábitos, novas posturas e trabalhos com foco em resultados para desenvolvimento de uma boa imagem sustentável e próspera no universo social e empresarial.
Atentar-se às redes sociais: para toda ação, há uma reação. Muitas vezes, principalmente após derrotas ou desempenhos abaixo do esperado, o artista/atleta está sujeito a críticas, como qualquer outro profissional. Se você realmente “perdeu”, não fez a autoavaliação, vai passar a ser visto como a mina/mano que só sabe reclamar e nada de dançar.
Da mesma forma, como a rede social é uma oportunidade para estreitar relações com os fãs e amigas (os), pode ser também o caminho para discussões e polêmicas desnecessárias. Evitar debates é uma alternativa viável e necessária. E promover a imagem por meio de ações que favoreçam e preservem a sua integridade devem ser prioridade, pensando inclusive nas relações com patrocinadores, apoiadores e produtores.
Faça sessões de fotos e vídeos, quando for possível valorize profissionais da cena. Faça um portfólio, em algum momento você vai usá-lo; vídeos curtos treinando, dançando e poste em suas redes sociais. Lembre-se: “Quem não é visto, não é lembrado!”.
Algo que no mundo do Breaking é vago, é referente a assessoria de imprensa, hoje em dia se tornou essencial ter uma para cuidar da sua imagem, receber orientações do que fazer publicamente e do que não fazer, um nome leva anos para ser criado e se tornar respeitado, no entanto, pode ser destruído em segundos. Por isso, todo cuidado é pouco! É importante fazer um trabalho para alavancar sua carreira, evitando situações negativas. É o profissional da assessoria de imprensa que é a ponte entre você e a imprensa;
Gere mídia espontânea: Com o trabalho de produção e divulgação de releases, sugestão de pautas e coletivas. A assessoria de imprensa oferece informação de qualidade aos jornalistas, cavando boas oportunidades para seus clientes na mídia e também administra problemas de imagem quando necessário, cobrando junto aos veículos correções e direito de resposta. Não confunda divulgadores com um assessor de imprensa. O assessor de imprensa é um jornalista formado, que se torna responsável por tudo que é relativo à sua imagem. Não é simplesmente alguém que vai fazer publicações em suas redes sociais. É importante que tudo que vá para a imprensa seja revisado, pois quem vai receber não é da cena, mas sim alguém que trabalha dia e noite com textos e notícias.
Planejamento
Estabelecer um plano de carreira: traçar etapas e segui-las. A partir do momento que é traçado um planejamento da carreira, enumerando etapas pelas quais você precisa passar para se solidificar no meio artístico/esportivo e agarrar grandes oportunidades, consequentemente, poderá se concentrar melhor em sua evolução e constante aprimoramento, agregando inclusive valor no seu currículo e assim despertando interesse de novos patrocinadores, produtores de eventos e apoiadores.
Faça um planejamento a curto, médio e longo prazo. Por exemplo: em 6 meses, o que pretende fazer? Quais movimentos pretende aprender, participar em quais eventos? Faça isso traçando metas de 6 meses, 12 meses e 24 meses ou mais. Mas planeje suas metas e objetivos…
Alimentação
O trabalho da Nutrição auxilia o artista/atleta e o praticante de exercícios na criação de uma rotina mais saudável e eficiente. Bom, em termos de resposta física à mudança alimentar, o acompanhamento nutricional é capaz de melhorar a formação de energia, aumentando o rendimento e, principalmente, ajudando na recuperação muscular e dos estoques de energia para que o B-Boy e B-Girl possam cumprir as sessões de treino e competições sem prejuízos de desempenho e de saúde.
Muitos assuntos abordados aqui, são amplos para falar por completo, a ideia desse artigo é para mostrar o que devemos melhorar para termos ótimos resultados no mundo do Breaking e até mesmo para a vida. Procure um profissional da área que pretende melhorar a sua vida de artista ou atleta, se não tem condições de pagar um profissional, converse, ofereça uma parceria, assim como ele tem algo a oferecer, você também tem…
Fotos: Reprodução
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
Letra de RAP emociona e fala do amor e da relação entre pai e filho
Para quem segue e curte o trabalho do B-Boy e MC Lucas Lameu, conhecido como Churcks MC, ele lançou esse mês mais uma música e dessa vez emociona fazendo uma homenagem ao próprio filho Davi, de 4 anos, que vive no Macapá com a mãe.
Churcks mora em São Paulo e o tempo que passa com o filho considera algo sagrado. A música se chama “Jogador Caro”.
Nessa composição, fala do amor entre pai e filho, incentivando os homens a prestar mais atenção e valorizar essa relação. A produção foi uma parceria entre Churcks MC e Mix Matheus, sendo dirigido por por Will Aleixo.
São de Churcks MC as palavras: “Essa letra fala do amor, fala de sonhos, sonho de menino que quer ser jogador de futebol. Mostro que sempre estarei com ele, independente da distância e da circunstância nosso vínculo será eterno”.
O Portal Breaking World, que acompanha o trabalho de Lucas Lameu tem a honra de mostrar aos leitores o vídeo desse novo sucesso:
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
O nome que consta na certidão de nascimento é Alex José Gomes Eduardo, ele não poderia ser mais brasileiro. Nasceu numa família alegre de sambistas e capoeiristas em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.
Da infância guarda boas lembranças das feijoadas e dos churrascos em família. Criado pela avó, matriarca da família, o menino que não tinha tênis, mas que desde pequeno já mostrava habilidades diferentes e muito especiais, a famosa estrelinha no meio da testa que alguns carregam para esse mundo, filho de mestre de capoeira era bom nos movimentos do corpo e também no futebol, por isso recebeu o apelido de “Pelezinho”, mas seu destino não foi escrito num campo de futebol e nem jogando capoeira mas sim nas ruas.
As rodas que frequentava eram outras, as de Breaking, onde sua grandeza foi reconhecida e conquistada, sendo ponte para o resto do mundo.
Numa entrevista super especial e exclusiva ao Portal Breaking World, B-Boy Pelezinho, que esta semana se posicionou sobre o assunto “Breaking nas Olimpíadas”, contou sua história de vida, suas experiências, conquistas no Breaking, falou sobre a pandemia, sobre amigos que sente saudades, sobre o futuro e mostrou sua preocupação com a nova geração de B-Boys e B-Girls.
Hoje fora das competições, porém comprometido com o Breaking pelo resto da vida, ele sempre lembra: “O Breaking mudou a minha vida e pode mudar de muitas pessoas”.
Com vocês: Pelezinhoooooooo!
BW: Você é de São José do Rio Preto, correto? Queria que você nos contasse: como foi sua infância, sua adolescência e sua vida em família? Que lembranças boas guarda dessa época? Foi uma vida tranquila ou difícil?
Pelezinho: Sim, eu sou de São José do Rio Preto, nascido e criado lá. Eu venho de uma família de sambistas e capoeiristas, eu lembro que, principalmente nos finais de semana, nós tínhamos aquele momento familiar, que tinha música, almoço, churrasco, feijoada. Na infância era bem tranquilo! A minha avó é que era a matriarca da família, ela cuidava de todos! Eu fui criado pela minha avó. Mas a minha família sempre foi aquela família animada! Tenho boas recordações!
Oriundo de uma família de sambistas e capoeiristas, Pelezinho encontrou-se no Breaking e incorporou movimentos da Capoeira na dança, criando um estilo próprio que ganhou o mundo e influenciou gerações de B-Boys e B-Girls
BW: E na adolescência, como foi? Quando e como teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Pelezinho: Na adolescência, foi um pouquinho mais complicado. Eu saí de casa cedo, era muito jovem e eu conheci o Breaking por meio de um amigo, ele esta numa Cypher aqui no centro da cidade e, na verdade, eu achei que fosse uma roda de capoeira e quando cheguei vi que era uma roda de Breaking e eu fiquei encantado com aquilo. Logo depois, ele fez uma performance na minha escola e foi quando ele me convidou, disse que eu tinha uma facilidade para dançar, a minha família era do samba, então, achava que eu teria muita facilidade. E me fez um convite para treinar na casa dele, isso foi em 1995 ou 1996. E desde então, eu tenho uma história dentro do Breaking.
BW: Com que idade você saiu de São José do Rio Preto? O que sentiu quando chegou em São Paulo?
Pelezinho: Na verdade, eu só sai da casa da minha avó quando eu fui para São Paulo. Na primeira vez foi para um evento de dança, foi aquele choque com a cidade grande, de conhecer mais a galera da dança, porque eu só ficava no interior. Mas quando eu cheguei no evento achei incrível, quando eu vi todas as Crews de São Paulo reunidas. Me lembro que quando os caras chegavam, eles já chegavam batalhando e eu pensei: “puxa, vou voltar para casa e treinar muito, pois eu não quero mais que esses caras fiquem me zoando na dança não…”.
BW: Mas quando houve aquela decisão mesmo em relação ao Breaking? Tipo: “É isso que eu quero para a minha vida”? Porque afinal, você cresceu no meio do samba e da capoeira e também era bom no futebol, daí o nome Pelezinho. Mas quando ficou claro que era o Breaking?
Pelezinho: Em relação ao futebol, foram os amigos do meu bairro que me deram esse apelido na época da escola, porque eu não era o craque e tal (risos), mas jogava bem. E o Breaking eu peguei gosto pela dança, pelos treinos e era algo incrível que eu estava vivendo, eu gostava muito de praticar. As informações já estavam começando a chegar de alguns eventos, surgia alguns convites e comecei a gostar muito do que eu estava vivendo.
Pelezinho em uma de suas viagens para Lima, no Peru: a preocupação da avó virou orgulho em ver o neto saindo do interior de São Paulo e ganhando o mundo
BW: Você teve apoio da família quando decidiu se dedicar à dança?
Pelezinho: Naquela época, minha avó não tinha informação, ela estava meio preocupada de eu ficar pela rua, ficar dançando no coreto da cidade com uns caras… Então, eu não tive um apoio, demorou um tempo para que ela entendesse o que eu estava fazendo, mas natural, às vezes eram costumes daquela época, estamos falando de 1995, não existia informação direito como se tem hoje. Realmente ela se preocupou, achando que eu iria por um caminho errado, mau. Mas eu insisti muito e hoje ela fala: “Meu neto é um exemplo!”.
BW: Fale da relação da Capoeira e do Breaking na sua vida. Um completou o outro?
Pelezinho: A relação minha com a Capoeira foi dentro de casa, né? Meu tio era mestre de Capoeira, meu pai era mestre de Capoeira e eles tinham a academia deles e tal e eu fui influenciado, porque eu nasci naquele meio. No meio das músicas, no meio da Capoeira… E eu acredito que a Capoeira tem muita ligação com o Breaking, vários movimentos são semelhantes, tem musicalidade e quando eu comecei a dançar Breaking, realmente alguns movimentos do Breaking foi muito fácil de aprender graças à Capoeira. Eu tive bastante facilidade para aprender o Breaking, claro que teve alguns movimentos que tinham uma dificuldade a mais, porém, falando de equilíbrio, de firmeza, de movimentação de giro, para mim foi mais fácil, então, resumindo, eu fui influenciado pelo meu pai e pelo meu tio, eu só pratiquei a Capoeira por um determinado tempo, eu não peguei corda, não segui da forma que tinha que ser, mas eu tenho um baita respeito pela Capoeira e ela foi fundamental na minha adolescência.
BW: Houve pessoas na dança que o ensinaram e o ajudaram e que também foram inspiração e referência para você? Parece que teve um B-Boy que você admirava muito e tinha o desejo de um dia conhecê-lo pessoalmente. Quem era? E de que país ele é? Esse encontro já aconteceu?
Pelezinho: Ah, sim! Eu falo que no Breaking eu tive essas pessoas, primeiro o amigo que me convidou para praticar na casa dele, depois umas outras pessoas da época, que hoje já nem praticam mais, mas eu tenho, sim. Quando eu vi esse cara dançando, ele se chama B-Boy Remind, um dos fundadores da Style Elements Crew, da Califórnia. Quando esse cara apareceu para nós nos eventos nos Estados Unidos, o Battle of the Year, foi um dos primeiros vídeos que eu vi dele, eu vi o estilo dele dançando e eu acredito que ele mudou todo o cenário da dança, principalmente no Breaking pois ele introduziu um estilo mais carismático, envolvendo alguns passos de House e eu gostei muito disso. E eu tenho um sonho de conhecê-lo. Até hoje eu viajei o mundo e não tive a chance de conhecê-lo, conheci alguns membros da Crew dele, mas ainda não o conheci. E um dia ainda eu vou conhecê-lo, se Deus quiser!
O apelido foi dado pelos amigos do bairro onde morava: a intimidade com a ‘pelota’ foi deixada para trás quando o B-Boy descobriu o prazer de dançar
BW: Quando começou a participar e ganhar eventos de Breaking? Que eventos foram especiais para você, antes da Red Bull, é claro? Que conquistas foram memoráveis?
Pelezinho: Eu participei de muitos eventos na minha vida! Mas, um dos que eu mais gostei, foi um que era relacionado a esportes radicais, ele foi feito dentro do Ibirapuera e eu fui campeão do 1vs1, tiveram outros eventos que eu não ganhei, mas foram muito legais. Uma vez eu estava de jurado na Batalha Final e aí eu fiz uma batalha muito memorável. Estava eu e Chaveirinho, nós batalhamos por um bom tempo dentro do evento e aí, depois, nós acabamos fazendo vários trabalhos pelo Brasil, a gente era meio que inimigo antes do BC One, mas claro, o maior reconhecimento internacional foi o Red Bull BC One de 2005.
BW: Sim, falando do ano de 2005, como chegou na final mundial da Red Bull, que aconteceu na Alemanha? Como foi aquela sua primeira viagem para fora do país e o que sentiu naqueles minutos que teve que representar o Brasil numa terra tão distante e diferente?
Pelezinho: Quando eu fui convidado pela Red Bull BC One, eu não tinha noção do que poderia acontecer… Claro que alguns B-Boys que estavam ali eu já via pela fita k-7, pelos DVD´s que já estavam rolando, então, tinha B-Boys que eu admirava, o Lilou já estava despontando na Europa e quando eu cheguei na semifinal, pra mim foi uma batalha apenas, só que eu só fui entender a proporção do que aconteceu comigo quando eu retornei para o Brasil, depois da repercussão que teve e a vivência que eu tive lá na Alemanha, em 2005, foi incrível, pois era tudo novidade pra mim, então, foi a primeira vez que eu saí para fora do país, um evento como aquele, era a segunda edição dele, deu um ‘boom’ na dança… Então, pra mim, foi muita experiência, aqueles 5 dias que eu fiquei em Berlim foi só aprendizado, uma bagagem incrível para poder entender o que poderia vir logo em seguida. Na final mundial em 2006, no Brasil, eu já estava classificado nesse período, eu fui conhecido mundialmente mesmo eu não sendo o campeão, porque na época ainda existia primeiro, segundo, terceiro e quarto lugar. Esses quatro eram classificados automaticamente para o próximo ano, então pra mim foi incrível!
BW: Falando ainda de 2005, como foi batalhar com o B-Boy italiano Cico?
Pelezinho: Então, a minha primeira batalha foi com o Cico, um cara que estava se destacando muito pelos Power Moves que ele vinha fazendo e, principalmente, o Giro de Mão, ali foi uma grande pressão. Como foi a primeira batalha minha, num palco daquele, numa estrutura daquela, pra mim ali foi difícil de verdade! Depois que eu passei do Cico, fui passando… aí eu cheguei na semifinal com o Hong 10, ali eu já estava mais confortável, mas ao mesmo tempo, né [sic], tive alguns errinhos, acabei esquecendo um movimento. O Hong 10 ganhou de mim naquela noite e ele fez a final com o Lilou.
Pelezinho, Lilou, Menno, Hong 10, Wing e Lil Zoo durante turnê da Red Bull BC One All Stars em Meknes, Marros (Maio, 2018)
BW: O que sentiu e como foi a sensação de ter chegado tão perto de vencer o mundial? Fale da repercussão de ser o primeiro brasileiro a participar de uma final mundial? Isso fez diferença na sua vida?
Pelezinho: Eu, naquela época, na hora que eu perdi, eu falei: “Nossa! Puxa! Eu quase fui para a final!”. Então, deu aquela frustradinha no momento, mas na verdade, como tinha terceiro e quarto, eu nem pensei muito! Eu só fui pensar mais quando retornei ao Brasil, realmente passou um tempo até a galera descobrir, porque naquela época as informações não chegavam como hoje, que você pode ver ao vivo, demorava um tempinho para chegar as informações dos eventos. O You Tube estava começando, pelo menos para nós aqui do Brasil, aí depois que a galera descobriu, saiu o DVD, aí a repercussão foi uma loucura! A prova disso que até hoje as pessoas lembram, pessoas que não são da dança, pessoas que me encontram na rua, sempre tem um que lembra e fala que assistiu o DVD da Red Bull BC One.
BW: Pelezinho, depois você já viajou para muitos países pelo mundo. A ginga do B-Boy e da B-Girl do Brasil é um diferencial? O que os gringos esperam ver quando tem um B-Boy brasileiro ou uma B-Girl do Brasil numa competição?
Pelezinho: Desde quando os brasileiros começaram a competir no circuito europeu e, principalmente, nesse período de 2005 pra cá, é natural os gringos verem algo diferente, então, eu cheguei com um pouco mais de movimentos acrobáticos, misturando tudo com Power Move, enfim! Aí depois apareceu Neguin, então a galera sempre espera que o brasileiro chegue com um movimento diferente, mas o mais importante é cada dançarino ter o seu próprio estilo, a galera tem que pensar que o nosso passaporte é brasileiro, temos que mostrar o nosso cotidiano… É o que eu falo, a dança já foi criada pelos caras lá de fora, já tinham movimentos criados, é necessário cada um mostrar de onde vem, qual é o seu estilo de dança, a sua marca, então isso é importante.
BW: Como foi sua entrada na Tsunami All Stars e na Red Bull BC One All Stars? Fale da sua experiência dentro dessas Crews?
Pelezinho: Então, sobre a Tsunami All Stars, na verdade, nós a criamos porque na época teve um evento em São Paulo e nós queríamos batalhar e nesse período, Kokada estava sem Crew, eu estava em show com Marcelo D2, Katatau também estava praticamente sem Crew e aí nós participamos de um campeonato em São Paulo. E o Aranha era próximo de nós, porque quando o Chaveiro viajava, o Aranha cobria ou vice-versa, na época do show com Marcelo D2. Aí nós entramos em cinco no campeonato e ganhamos! E depois ficou aquela história que sempre que nós nos encontrávamos em São Paulo, dançávamos juntos e tal, aí o Katatau dançava com o Chaveiro em alguns lugares, o Aranha junto e aí nós só reunimos a Crew quando teve o convite para disputar o R16 na Coreia, quando chegou o convite dos coreanos que eram os ‘managers’ e aí foi quando o Neguin já estava próximo do Katatau, eu convidei o White e o Chuchu e montamos a Crew, aumentamos a Crew e aí participamos do R16, ficamos entre os finalistas e foi esse processo na criação da Tsunami. E o Red Bull BC One All Stars eu participei de duas turnês pela Red Bull Internacional para levar o que o Red Bull BC One estava fazendo, então, fizemos Austrália (2008), Índia (2009) e dali surgiu uma ideia, começamos a conversar com uma manager e aí demos a ideia de criar um time dentro da Red Bull e então criamos o Projeto Red Bull All Stars. Eu ajudei a criar esse projeto, eu, o Lilou e a manager e hoje está aí um dos melhores times que tem no mundo, onde estão os melhores dançarinos do mundo. Atualmente, eu não estou no time para competição, porque eu já sai do circuito de competição já tem um tempo, mas o time está aí, eu ajudei a criar e tenho muito orgulho disso.
Pelezinho e a Tsunami All Stars
BW: Falando um pouco mais sobre quem fazia parte da Tsunami, queria que você falasse de sua proximidade ao Kokada, que era alguém que, sem dúvida, escreveu uma história de muito valor no Breaking e tinha uma personalidade muito singular, deixando um enorme vazio quando partiu aos 35 anos, vítima de uma meningite, em 2012.
Pelezinho: Falar do Kokada pra mim é prazeroso! Porque nós vimemos juntos um período de conquistas, vou lembrar do Kokada lá atrás, quando eu fui para são Paulo a primeira vez, o Kokada já era já o grande B-Boy Kokada junto com o Careca da Detroit Breakers. O Kokada já fazia shows, ele era famoso pelo Brasil todo! E quando eu tive a oportunidade de conhecê-lo, de virar amigo dele e surgiu a história de montarmos a Tsunami, eu o chamava de “mentor”, porque era ele que cuidava das coisas da Crew e, assim, nós vivemos muitas coisas! Kokada teve a sorte de viajar também e de competir, mas no período que ele estava fazendo as coisas não existia muita informação, naquela época então, o momento que o cara estava não existia o contato do Brasil com o pessoal de fora, então, alguns gringos começaram a vir para o Brasil e justamente nesse momento nós estávamos juntos realizando sonhos, mesmo sendo de cidades diferentes. O Kokada foi incrível! O legado que ele deixou está ai e ninguém nunca vai esquecer! Ele era mesmo difícil, era um cara mais complicado (risos), ele tinha o jeitão dele, o gênio dele sempre foi forte, só que nós nos entendíamos muito bem quanto viveu conosco. Mas ele vive em nossos corações! E ele era uma baita de uma pessoa! Até hoje ele faz muita falta! E eu acredito que nos sonhos dele eu o ajudei também, tanto que a primeira viagem dele internacional para o evento R16 fomos eu, ele, Chaveiro, Katatau, Aranha, o Neguin e fizemos parte de uma geração, mas Kokada veio primeiro que nós e é isso! Muita saudade!
BW: Voltando um pouco no tempo, Pelezinho, numa outra entrevista você falou que quando começou a dançar não tinha um tênis… Décadas depois, você foi convidado para assinar um tênis junto com o Sandro Dias e, na ocasião, você falou que queria ver o Breaking e o Skate nas Olimpíadas de Paris 2024. Hoje, creio que você tenha vários tênis e o Breaking está nas Olimpíadas. Se sente realizado?
Pelezinho: Verdade, eu não tinha tênis para dançar, passei por essa dificuldade! Eram tempos bem diferentes! Mas quando eu recebi o convite do Sandro Dias para poder participar do projeto que ele estava iniciando, que ele queria ir pelo lado da cultura, da dança e ele me convidou para fazer a Colab, puxa, eu nunca imaginei isso na minha vida e aí foi quando eu falei numa entrevista que passou um filme na minha cabeça, quando ele me ligou para me convidar, ele era o dono da marca e eu aceitei na hora. Ele tinha um sócio, mas eu aceitei na hora! Hoje eu tenho um tênis assinado, modelo 1, já tem um projeto do modelo 2, já era para ter saído ano passado. Sim, graças a Deus hoje eu tenho muitos tênis (risos) e sobre as Olimpíadas é uma coisa que nós não imaginávamos que pudesse acontecer, ter o Breaking nas Olimpíadas. Eu sou a favor! Eu acho que está aí, já está concretizado, eu acredito que é mais uma porta se abrindo dentro do cenário da dança mundial, muitas pessoas terão oportunidades. Eu sei que aqui no Brasil têm acontecido muitas conversas, mas as coisas negativas devemos deixar para trás e pegar as coisas positivas das pessoas que têm o mesmo interesse, que isso possa trazer mais informação para quem não tem e isso vai agregar muito para a nova geração. Eu costumo falar para a galera que não é porque eu não tive lá atrás que eu deva embarreirar a nova geração, eu sou a favor mesmo do Breaking nas Olimpíadas e fiquei muito feliz!
Sandro Dias (Mineirinho) e Pelezinho lançam linha de tênis com sua assinatura: grande conquista para o menino que não tinha tênis para dançar
BW: Falando sobre as Olimpíadas e sobre toda a discussão em volta desse assunto, fale sobre suas impressões sobre esse elemento do Hip-Hop virar um esporte olímpico. Na sua opinião, estamos preparados para viver isso? Normalmente atletas olímpicos levam anos se preparando para uma participação numa Olimpíada. E nós, como estamos? Ao seu ver, temos B-Boys e B-Girls brasileiros prontos e bem preparados para brigar por uma medalha olímpica?
Pelezinho: Espero que com toda essa situação que está acontecendo, que o Brasil possa ter representante em 2024, porque já não teve nos Jogos da Juventude, espero que as pessoas se organizem, fazendo a sua parte e quem estiver no comando que faça de verdade, que pense no Breaking, na dança Breaking e não no próprio bolso. Pelo amor de Deus! Estamos em 2021, estamos dentro de uma pandemia, muitas coisas mudaram, muitas não serão mais a mesma coisa! Então, por favor! Precisamos fazer de verdade e principalmente para a nova geração! Olha, sendo bem sincero sobre o que vem acontecendo no Brasil, eu ando observando, não tenho participado de muitos bate-papos que estão tendo pelas redes sociais, só participei de duas que eu achei interessante e no meu olhar, o Brasil já está começando atrasado, porque eu já vou entrar: desde os Jogos da Juventude e dos simulados que tiveram na China e o Brasil não estava ali como convidado, então, estamos começando tarde, porque precisamos preparar, tem que ter mesmo toda uma estrutura, eu sei que as pessoas vão fazer do modo deles. Mas preparados na parte de dança: Sim! Temos B-Boys e B-Girls que possam disputar medalhas para o Brasil, mas tudo depende de toda a estrutura e logística que será montada aqui no Brasil, de como será, se vai convidar os B-Boys e as B-Girls direto ou se vai fazer etapas. Então, dando uma resumida, eu acho que já estamos atrás dos outros países: o Japão já tem o time pronto, a Holanda praticamente também, a França, EUA, a China… E o Brasil ainda não está! Quem estiver na frente tem que fazer de verdade! E resolver tudo o mais rápido possível, porque esse ano já descartamos praticamente, então, só sobra 2023 e 2024. Porque até o processo todo ser feito com a estrutura… Estou falando da minha visão como dançarino e como produtor e criador de eventos. Essa é a minha opinião!
Pelezinho: “Precisamos fazer de verdade e principalmente para a nova geração!”
BW: Verdade que você se posicionou sobre o assunto e agora faz parte da Confederação Brasileira de Breaking (CBRB). Você gostaria de falar sobre isso?
Pelezinho: Eu tive uma conversa com o Rooneyoyo e juntamente com o HP, estamos nos posicionando para participar junto com o Rooneyoyo, porque eu acho que juntos podemos conduzir coisas melhores para a nova geração.
BW: Falando sobre sua experiência como jurado… Hoje em dia, Pelezinho, você participa de muitos eventos. O que você gosta de ver numa batalha e o que você acha inaceitável na mesma?
Pelezinho: Sobre as batalhas, como jurado eu gosto de ver aqueles B-Boys e B-Girls que mostram movimentos, que sejam completos: musicalidade, criatividade, movimentos básicos. Mas eu gosto sempre daqueles dançarinos que percebemos aquela vontade de competir, que vai lá, que expressa a dança dele, que mostra movimentos surpreendentes sem errar, porque tem movimentos que jurado pega erros. Enfim, eu gosto dos completos no Breaking! Gosto de ver movimentos diferentes e interessantes para julgar, porque o nível da batalha fica avançado. E coisa que eu detesto ver é a má vontade de alguns dançarinos quando estão em competição, tem dançarino que parece que não está a fim… Aí eu pergunto: “Por que participou, então? Por que se inscreveu?” E outra coisa é essa história de questionar jurado, no passado já questionei também, só que eu acho desnecessário hoje em dia, de tanta informação que temos, nós precisamos respeitar os jurados que estão sentados ali, porque têm uma bagagem, então vamos respeitar. As pessoas precisam entender que numa competição estão sujeitos a serem julgados, então, vai lá, treina e seja o mais transparente possível para o jurado e mostra o porquê quer ser campeão!
BW: Com a pandemia e todo o isolamento necessário, o que você tem feito? O que acha das batalhas on-line? É uma tendência?
Pelezinho: Sobre a pandemia, eu acredito que foi um aprendizado para várias pessoas, estamos nela ainda! Nesse período eu tive que me reinventar, me readaptar a essa realidade que estamos vivendo. Sobre as batalhas on-line, claro que não é a mesma coisa, não é a mesma energia, de estar ali na Cypher, naquele calor todo, mas é um meio de manter a galera em atividade, em competição, até mesmo dando suporte para eles, porque teve alguns eventos on-line bacanas! Pela produção, pelo o que fizeram e acabou ajudando vários B-Boys e B-Girls, então, eu sei que isso pode continuar. Alguns eventos vão manter on-line e a pandemia é uma coisa muito triste, que ninguém imaginou que ia passar nesse plano de vida, mas ela é um aprendizado para muitas pessoas e quem não se adaptar, nem imagino o que vai fazer da vida.
Pelezinho acredita que a pandemia foi um período de aprendizado para várias pessoas: reinventar, readaptar, continuar…
BW: Você tem uma frase célebre: “O Breaking salvou a minha vida”. Comente a importância do Breaking como ferramenta de transformação.
Pelezinho: Sobre o que eu falo do Breaking ter mudado a minha vida, realmente ele mudou, ele fez uma transformação tremenda! Eu fiz coisas que eu jamais imaginei que eu iria fazer! Por meio da minha dança, eu viajei praticamente o mundo todo e sou uma pessoa conhecida através do Breaking. Financeiramente foi bom pra mim, consegui ter algumas coisas, mas o que eu mais falo é que nada disso teria acontecido se não fosse a minha vontade, a determinação que eu tive e toda a história que eu tenho há mais de 20 anos dentro do Breaking. Então, quem quer alguma coisa, principalmente dentro do Breaking, a galera nova, da nova geração, que vocês têm tudo, rápida informação, eventos, então aproveitem, porque na minha época que eu comecei a dançar nós não tínhamos nada disso! Aproveitem as oportunidades! Porque as poucas que eu tive aproveitei todas! E corri muito atrás! E foi nisso que o Breaking mudou a minha vida e pode mudar de outras pessoas também.
BW: Hoje quem é o Pelezinho? Você pensa em um dia parar de dançar?
Pelezinho: Pelezinho hoje é essa pessoa aí que a galera está vendo, que o Breaking deu uma visão de transformação e também de ajudar, porque o que venho fazendo hoje em dia é ajudar a cena, principalmente o Breaking. E sobre parar de dançar, eu não me vejo parando, como vou parar algo que amo fazer? É natural com o tempo desconectar algumas coisas, eu não me vejo competindo mais, mas eu adquiri uma bagagem que posso ajudar a nova geração aqui no Brasil.
BW: Para finalizar essa entrevista, que conselhos você daria para a nova geração de B-Boys e de B-Girls?
Pelezinho: Respeitem as oportunidades que vocês têm agora, se desejam competir, treinem para isso e aproveitem as oportunidades, que façam isso de verdade! Para aqueles que desejam uma vida de atleta, principalmente agora que têm vários eventos, Olimpíadas: se preparem! Nunca esqueçam que a nossa dança é uma cultura e se você desejar, pode viver como um dançarino atleta também, você pode se dedicar, você pode praticar, você pode se proteger. Se eu tivesse a mentalidade que eu tenho hoje, com certeza eu teria competido por mais tempo, eu também poderia ter evitado algumas lesões, porque é natural, somos seres humanos e não somos máquinas e, devido alguns anos repetindo movimentos, é natural ter um desgaste, só que de alguns anos para cá, já podemos proteger isso, então, vá atrás de uma pessoa que possa te dar uma educação física como dançarino, para que você possa ter sua vida como dançarino e, se desejar, como atleta também. Respeitem e aproveitem o que vocês têm hoje, pois tudo está mais fácil!
Fotos: Arquivo Pessoal / Red Bull Content Pool (Fabio Piva, Yassine Alaoui, Dimitri Crusz) Vídeos gentilmente cedidos pela Red Bull
Pelezinho comemora seus 20 anos de dança
B-Boys Pelezinho, Lil G e Kokada no projeto "B-Boys In Motion" - 2011
Pelezinho: #RespeitaOBreaking
Pelezinho além de B-Boy é MC, jurado e produtor
Pelezinho e o tênis com sua assinatura
Neguin e Pelezinho: geração de vencedores
Pelezinho, Lilou e Neguin
Red Bull BC One All Stars
"Mister" Kokada, Lilou e Pelezinho
Tsunami All Stars
Pelezinho
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“As festas de 1970 foram incríveis, você nunca sabia o que iria acontecer, mas nós sempre soubemos que seria emocionante.” (Mr. Freeze)
Em 20 anos de jornalismo, já tive a honra de entrevistas, algumas com celebridades do Show Business, do mundo do esporte e da arte. Mas quando o papo é com uma lenda mundial que fez parte da criação de uma arte legítima que se espalhou pelo mundo todo, atraindo milhares de seguidores até hoje, conhecida como Hip-Hop, é necessário ouvir muito mais do que falar…
B-Boys e B-Girls: o Portal Breaking World tem o prazer de apresentar a entrevista com o Mr. Freeze, um papo reto, diretamente de New York para o Brasil.
Para quem não sabe, Mister Freeze nasceu em New York, morou na França e se mudou para o Bronx quando tinha apenas sete anos, exatamente quando a Cultura Hip-Hop estava ganhando vida. Ele começou a dançar Breaking, criou o movimento “Freeze” e logo foi convidado para se juntar ao mundialmente famoso Rock Steady Crew. Fez filmes, documentários e shows por todo o mundo.
Atualmente com 58 anos, dono de uma personalidade incrível e de uma humildade exemplar, ele fala sobre sua história, suas opiniões. Sobre o Breaking nas Olimpíadas, sobre sua experiência como homem de marketing e aconselha a nova geração sobre o futuro. Confiram a entrevista:
BW: Marc Lemberger, do South Bronx, New York, mas para o resto do mundo uma lenda chamada Mr. Freeze. Queria que você falasse sobre sua infância e vida familiar, que lembranças você tem dessa época?
Mr. Freeze: Nasci em New York, em 7 de setembro de 1963, filho de Renee e de Isidore. Meus pais decidiram voltar para Paris quando eu era pequeno, mas meu pai procurava trabalho em New York. Tive uma infância magnífica em Paris, mas um dia, meu pai falou à minha mãe que iríamos voltar para New York e que iríamos viver lá uns cinco anos, que ele ganharia muito dinheiro e depois poderíamos voltar para Paris. O problema é que ele nunca ganhou dinheiro, então, nunca mais voltamos à Paris. Fui criado no bairro do Bronx, perto do Yankee Stadium, na Avenida Anderson, 1130. Foi ali que dei meus primeiros passos como um menino e, depois, como um B-Boy.
Nascido em New York, Mr. Freeze teve sua infância em Paris. Após retornar aos EUA conheceu o Breaking, sem saber que iria se tornar uma lenda viva do Hip-Hop
BW: Quando e como você conheceu toda a arte que acontecia nas ruas?
Mr. Freeze: A primeira vez que encontrei a verdadeira arte e cultura de rua foi nos meados dos anos 70, com todos os grafiteiros e DJs que estavam na rua e iam junto para as festas de dança.
BW: Na época em que você começou, você sabia que estava participando do nascimento de uma cultura, de uma arte legítima que se espalharia pelo mundo?
Mr. Freeze: Quando comecei, nunca, em meus sonhos mais loucos, pensei que a cultura que vi crescer iria se tornar o que é hoje a maior indústria lucrativa de maior sucesso do planeta.
BW: Fale do tempo que você morou em Paris? O que aconteceu durante esse tempo?
Mr. Freeze: Morar em Paris não trouxe nada para a minha vida. A minha vida nas ruas no Bronx é que acabou trazendo minhas habilidades performáticas para as ruas de Paris. Sempre que voltava para visitar minha família, sempre assistia a grandes artistas de rua em um bairro de Paris, foi lá que dei meu primeiro passo como um Street Mime.
Mr. Freeze se tornou B-Boy em 1970 e ganhou o mundo com sua arte
BW: Quando você realmente começou a dançar e como foi esse encontro com a dança?
Mr. Freeze: Meus primeiros passos como um B-Boy foram em 1970, eu sempre seguia pessoas tocando música na esquina, um dia o círculo esquentou e um senhor pulou muito alto e, então, se colocou em uma pose que agora conhecemos como “Freeze”. A partir daí, outra pessoa faria uma pose, mover o Footwork para outra pose, para outra e outra, que foi a primeira vez que eu realmente me apaixonei pela dança, porque ela evoluiu para algo diferente. Rápido encaminhando para anos depois, sou contrariado por um grupo de dançarinos que se aproximou de mim quando me viu dançando na rua com um Boombox, eles me perguntaram se eu queria batalhar, eu disse a eles: “Com certeza!”, e eles começaram a batalha. Havia um jovem, Sr. Ed, que pulou em um círculo, um pequeno cavalheiro latino, as letras em suas costas diziam “sete pecados capitais”, foi a primeira vez que realmente vi os fundamentos da dança que conhecemos agora como Breaking. Este homem me hipnotizou completamente e foi nesse momento que soube que tinha que aprender esta dança.
BW: O ano de 1970 foi marcado pelo nascimento da Cultura Hip-Hop, do Breaking e das festas denominadas “Block Partys”. Fale sobre a importância dessas festas, o que aconteceu nelas e quem compareceu?
Mr. Freeze: As festas de 1970 foram incríveis, você nunca sabia o que iria acontecer, mas nós sempre soubemos que seria emocionante. Foi a primeira vez que vimos o grande mago DJ Theodore, o primeiro a tocar nas mesas giratórias para DJ Kool Herc, derrotar seus incríveis “break beats” para B-Boy; a roda se expandindo e sabendo que estávamos prestes a ver algo especial; aqueles tempos eram confiáveis porque nada havia sido criado, mas tudo o que você via era autêntico, estava sendo criado na frente de seus olhos.
BW: Era possível ficar parado ouvindo “Sex Machine”, “Just Begun” ou “Apache”? Fale sobre a energia dessas músicas?
Mr. Freeze: Era algo louco. A música “Sex Machine”, quando tocava, ninguém ficava parado, todo mundo enlouquecia!
Ao som de James Brown e outros hits, Mr. Freeze conta que “todo mundo enlouquecia, era impossível ficar parado”
BW: Como era ser um B-Boy no seu tempo? O que era inaceitável nas rodas de Breaking?
Mr. Freeze: Durante os nossos dias, a regra número um era não copiar movimentos de ninguém, era completamente inaceitável fazer os movimentos de outra pessoa, você seria visto como um ladrão, em outras palavras, no vocabulário de Breaking. Naquela época, todo mundo era extremamente criativo e original.
BW: Em 1977 nascia a Rock Steady Crew, correto? É verdade que você era o único B-Boy branco? Você chegou a sofrer algum preconceito por ser branco entre a grande maioria de negros?
Mr. Freeze: Provavelmente fui o único B-Boy branco, embora não possa dizer 100% com certeza isso, porque não busquei em toda New York, mas sem dúvida era o mais conhecido, em todos os bairros predominantemente negros. Fui excluído não porque eu era branco, mas porque eu era extremamente bom no que fazia, minha reputação como um B-Boy me seguia por toda parte. É por isso que eu não tive problemas e estava completamente à vontade, quando se trata de qualquer tipo de arte, as pessoas não se prendiam em raças e cor de pele.
BW: Como surgiu a Rock Steady Crew? Houve alguma rivalidade importante entre as crews?
Mr. Freeze: Eu pertenci à segunda geração da Rock Steady Crew, nós somos os que realmente tornaram o nome famoso na época, não existiam muitas crews de Breaking, então, éramos praticamente os melhores, a única referência que existia era o Dynamic Roccus do Queens e, depois, veio os Floor Masters.
Mr. Freeze fez parte da lendária Rock Steady Crew
BW: Quando e como foram criados os famosos “Freezes” que estão incorporados no Breaking hoje e fazem parte da dança de qualquer breaker do mundo?
Mr. Freeze: Todos nós tínhamos nossa próprias minas de Freezes, as paradas eram extremamente rápidas. Ao longo dos anos, os freezes tornaram-se mais complexos e pareciam lindos em comparação com o que fazíamos na nossa época.
BW: O Rock Steady Crew teve grande exposição na imprensa. Fale sobre esse relacionamento.
Mr. Freeze: Quando começamos a fazer filmes e documentários, a imprensa estava muito interessada em nós, era algo novo e fresco e isso nos fez conhecidos em todo o mundo.
BW: Na década de 1980, filmes como “Flashdance” foram revolucionários. Conte-nos sobre isso e também sobre sua participação neste filme e em outros como “Style Wars”, assim como anúncios e shows. Foi um momento memorável e importante?
Mr. Freeze: Honestamente, a coisa mais memorável que já fizemos foi o filme “Flashdance”. Lembro-me de sentar na Broadway ao lado de Crazy Legs e quando nos vimos na tela, não pudemos acreditar… quando a apresentação aconteceu, apesar de a imprensa estar em cima de nós, foi provavelmente um dos melhores sentimentos que qualquer um de nós já sentiu em nossas vidas e nunca o esqueceremos.
A inesquecível cena com o guarda-chuva no filme “Flashdance” (assista no vídeo ao final da matéria)
BW: Como foi dançar para a Rainha da Inglaterra com o Rock Steady Crew? E como surgiu esse convite? O que você sentiu naquele momento?
Mr. Freeze: Eu infelizmente estava fazendo minha própria turnê em outras partes do mundo, não participei junto com a Crew desse encontro. Lamentável!
BW: Além do Breaking, você também caminha pelo mundo do marketing, conte-nos um pouco sobre sua experiência e sobre o UBC “The Ultimate B-Boy Championship”. É verdade que, em 2010, o evento inaugural juntou mais de 23.000 participantes no MGM Grand Garden Arena e foi coberto e televisionado pela ESPN? Como está o evento atualmente? Fale sobre os principais objetivos e metas do evento com os jovens. E quem pode participar?
Mr. Freeze: Sim! O principal objetivo da UBC é legitimar os meninos como profissionais reconhecidos, como o UFC tem feito para os lutadores, é meu sonho de vida poder levar isso para a comunidade de B-Boys.
BW: Mr. Freeze, como você vê os B-Boys e B-Girls de hoje? E os eventos que existem atualmente? Todos os dias, meninos e meninas de todo o mundo chegam mais jovens no Breaking. Muita coisa mudou do seu tempo para hoje? O que foi positivo e o que foi negativo?
Mr. Freeze: A diferença é que antes fazíamos puramente porque era emocionante criar algo todos os dias, agora é estritamente feito para competir. Eu sei que é uma nova era e é possível que todos gostem de como as coisas acontecem atualmente, mas eu simplesmente não consigo vê-los gostando por muito tempo se sua intenção for estritamente e apenas tentar ganhar dinheiro e vencer competições.
Em 2010 o UBC reuniu mais de 23 mil pessoas no MGM Grand Garden Arena
BW: Neste ano, o Breaking passa a fazer parte dos Jogos Olímpicos. O que você acha disso? Combinar cultura com esporte? Na sua opinião, o que podemos esperar do futuro?
Mr. Freeze: Eu e minha família nos encontramos com o Comitê Olímpico Internacional, fomos para a Suíça. Pode acontecer de duas maneiras: número um, os espectadores assistirem os meninos girando suas cabeças e dizerem que eles são lindos; espero que o Comitê Olímpico use todos os antigos da dança para que tenha algo a ver com a criação do Breaking, para a história do Breaking possa ser conhecida e para que possam explicar o significado de como tudo aconteceu.
BW: Em toda a sua vida como breaker, já viajou por diversos países e também pela América do Sul. Você já conheceu o Brasil?
Mr. Freeze: Infelizmente, nunca fui ao Brasil e adoraria ir um dia com minha família. Acontece que eu fazia Jiu-Jitsu brasileiro e aprendi com uma das famílias mais conhecidas do Brasil, os Gracies. Eu conheci alguns B-Boys incríveis vindos do Brasil.
BW: O Mr. Freeze ainda dança? O que tem feitos nos últimos anos?
Mr. Freeze: Sinceramente, parei de dançar anos atrás. Tenho um negócio aqui em New York. Ainda estou tentando fazer do UBC um sucesso para que o Breaking esteja em todo o mundo e forme dançarinos profissionais pagos, como disse antes, como atletas.
Mr. Freeze fez Jiu-Jitsu com a família Gracie e gostaria de conhecer o Brasil
BW: Na sua opinião, para onde vai a Cultura Hip-Hop?
Mr. Freeze: A Cultura Hip-Hop, pelo menos aqui em New York, é completamente inexistente da maneira que acontecia e conhecíamos no passado, simplesmente não acontece mais, entretanto, em outras partes do mundo pode ser diferente. Pode ser que ainda aconteça… O futuro é incerto… Eu sinto que não existe mais aqueles dias que eu vivi. Eu sei que é uma época completamente diferente do que as pessoas vivem agora.
BW: Que mensagem você deixaria para a nova geração de B-Boys e B-Girls? Que conselho você gostaria de transmitir a eles?
Mr. Freeze: Meu conselho para a geração jovem é curtir, dançar e se divertir com isso, não o faça estritamente para competir, para ganhar um prêmio, encontre “Jams” onde tenham grandes músicas e DJ´s, teste-se contra grandes dançarinos. E muito obrigado por me permitir responder tantas perguntas magníficas!
Fotos: Arquivo Pessoal
Mr. Freeze e Crazy Legs no filme "Flashdance". Assistam o vídeo:
Mr. Freeze e Sérgio Valente
Mr. Freeze e Rock Steady Crew
E as Block Partys eram demais!
Mr. Freeze refaz a famosa coreografia de "Flashdance"
Memorabília autografada do filme "Flashdance"
E o "Freeze" do Mr. marcou a história do Breaking
Pop Master Fable e Mr. Freeze
Mr. Freeze e Pop Master Farsel
Mr. Freeze ainda garoto na França, antes da mudança para Nova Iorque
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
Itsa revive trajetória na série e fase em que optou pela dança como profissão
Apaixonada por dança desde criança, Isabela Rocha, hoje conhecida como a B-Girl Itsa, não imaginava que sua paixão pelo Breaking viraria, de fato, uma profissão. Ela mostrava talento vencendo batalhas locais de dança e chamava a atenção de muita gente com seu gingado único, mas sua família sonhava mesmo em vê-la em um emprego estável e tradicional.
Quebrando preconceitos e barreiras, apostou todas as fichas na dança, tornando-se campeã brasileira de Breaking, bailarina na mais famosa companhia do mundo, o Cirque du Soleil, e sendo postulante do país nos Jogos Olímpicos, em Paris-2024. As nuances desse momento-chave na vida de Itsa são tema de um dos episódios da segunda temporada de “Until 18 – O Momento de Decisão”, disponível gratuitamente pela Red Bull TV, por meio do link www.redbull.com.br/until18.
“Quando comecei a dançar, descobri que posso ter atitude, posso ser quem eu quero ser”, afirma Itsa. “Ter a minha história nessa série, que foge de padrões e estereótipos, é bem importante para a sociedade, inclusive para as próximas gerações saberem que podem buscar o lugar e a posição (profissional, ideológica, artística) que quiserem. Todos temos o direito de criar e expressar a arte que sentimos e vivemos”, finaliza.
Ao longo do episódio, Itsa narra os seus dramas, dificuldades, batalhas diárias e, principalmente, o momento simbólico em que lutou pelo seu sonho e alcançou seus objetivos, transformando-se em artista do Cirque du Soleil e sendo uma das expoentes do Breaking no país, modalidade que estreará no maior evento multiesportivo do mundo, em Paris, no ano de 2024.
Além da mineira, outros personagens também contam as suas histórias na série ‘Until 18 – O Momento da Decisão’, como a vitoriosa e jovem skatista Yndiara Asp; o youtuber Flakes Power; o comentarista de games Gustavo Melão; o ciclista campeão mundial Henrique Avancini e a tricampeã mundial de Kitesurf Bruna Kajiya. O conceito do projeto é brasileiro e foi dirigido por Isadora Canela e Hugo Haddad.
B-Girl Itsa foi campeã brasileira de Breaking na Red Bull BC One, em 2019 e é bailarina do Cirque du Soleil
Sobre a série
A série “Until 18 – O Momento de Decisão” reúne atletas, artistas e personalidades de destaque em profissões pouco comuns para relembrar como eles lidaram com as decisões profissionais no final da adolescência e desbravaram um novo caminho na passagem para a vida adulta. Na temporada de estreia, a história da cantora Tássia Reis, do skatista Sandro Dias e do atleta de e-sports Yoda, entre outros. A recém-lançada segunda temporada já está disponível na Red Bull TV, com relatos de nomes como a skatista Yndiara Asp, do ciclista Henrique Avancini e da dançarina de Breaking Itsa.
Sobre a Red Bull TV
A Red Bull TV é um canal global de entretenimento digital com programação disponível a qualquer hora e em qualquer lugar. Combinando eventos ao vivo, uma extensa biblioteca On Demand e os melhores momentos de eventos que incluem esportes, festivais de música, séries originais, longas-metragens e documentários. A Red Bull TV oferece uma experiência de visualização envolvente pelo site redbull.tv, assim como em seu aplicativo ou via Smart TV.
Fotos: Divulgação Red Bull TV
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
O documentário ‘Nem Eu Sei Tudo’, da Ancora Produções, de Bento Gonçalves, foi premiado no “Docs Without Borders Film” Festival nos Estados Unidos. O projeto, que integra o Fundo Municipal de Cultura, conta a história do coletivo de Hip-Hop Nest Panos.
Lançado em 2020, o média-metragem concorreu na categoria “Viagem/Cultura/Artes” no festival, que foi avaliado de maneira remota devido a pandemia e foi premiado com excelência pelo festival norte-americano.
Diferente de outros festivais, o DWBF tem um sistema de avaliação individual, que garante que cada filme possa competir pelos seus próprios méritos, podendo uma categoria inclusive não ter filmes premiados.
Para Fernanda Turchetto, diretora do filme, “receber um prêmio internacional já na nossa primeira produção cinematográfica tanto nos dá a certeza da importância deste documentário para a sociedade, quanto nos empolga ainda mais a continuar produzindo”.
Para o ano de 2021, o documentário pretende concorrer e ser exibido em festivais nacionais. “No mês de dezembro, fomos convidados para participar do Festival de Dança Mova-Se, de Manaus, onde foi exibido em uma sala de cinema independente e fizemos um bate-papo virtual com os presentes”, conta Pedrinho Festa, produtor cultural do projeto, que completa: “A mensagem do “Nem Eu Sei Tudo” é a transformação que o Hip-Hop promove, vamos propagá-la o máximo possível”.
Fotos: Divulgação Nest Panos
Fernanda Turchetto, diretora do filme
Pedrinho Festa, produtor cultural do projeto
"Nem Eu Sei Tudo" conta a história do Nest Panos
DWBF é um dos mais prestigiados prêmios de cinema nos EUA
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!