Ela tem um recado para os moleques…
“Esse pessoal novo está vindo com muita ostentação, não é o que aprendemos na Cultura Hip-Hop” (Sara Cipri)
O Hip-Hop é uma ferramenta de modificação de vidas, de construção de trabalho de base e massificação. Não é de hoje que escutamos que o Hip-Hop salva!
Diante da necessidade que o ser humano tem de ser alguém e construir algo, o Hip-Hop com seus elementos pode ser um meio para este fim. Vários processos revolucionários no mundo se deram a partir dessa bandeira de luta.
O Rap é um dos elementos dessa cultura, sendo a voz que não se cala, que resiste atráves do tempo e das gerações.
O Portal Breaking World essa semana conversou com a rapper Sara Cipri, que com apenas 15 anos nos conta que é a nova geração da velha escola, ela acaba de lançar a musica “Recado Para Os Moleques” onde fala sobre a antiga e a nova escola, critica a ostentação e enaltece a verdadeira essência.
Confira a entrevista abaixo:
BW: Quantos anos você tem? Onde você nasceu? Queria que nos contasse um pouco sobre sua vida em família?
Sara: Eu tenho 15 anos, nasci em São Paulo, numa periferia do extremo sul e sou de uma família tradicional e contei sempre com o apoio dos meus pais no que faço e no meu trabalho junto à cultura.

BW: Seu pai e sua mãe já tinham alguma ligação com a Cultura Hip-Hop ou você foi a primeira da família a se envolver? E como se deu esse interesse? Você tinha algumas referências?
Sara: É uma história bem curiosa, eu estava no centro da cidade com os meus pais, eu deveria ter uns 3 anos e aí eu vi um telão que passava pessoas dançando Breaking e eu nunca tinha visto aquilo e cheguei em casa fiquei com aquilo na cabeça. E eu perguntei ao meu pai o que era aquilo que eu tinha visto no telão. E meu pai me explicou que era uma cultura chamada Hip-Hop, que educava e que inclusive ele tinha vindo dessa cultura e aí, foi ali o meu primeiro contato, ele começou a me passar os conhecimentos desde essa época, quando eu tinha 3 anos e não parou até hoje! Minhas referências a partir dali foram o Nelson Triunfo, o MC Jack, foi realmente o pessoal ali da São Bento, Old School mesmo!
BW: Quando você se apaixonou de fato pelo Rap? Quando e onde você aprendeu a rimar? Você chegou a participar de batalhas de rima?
Sara: Um tempo depois do primeiro contato, eu comecei a participar de um projeto que era para tirar crianças da rua, dando uma oportunidade a eles e nesse projeto tinha todos os elementos e nós fomos nos encaixando onde nós sentíamos mais afinidade e no começo eu fiquei meio perdida pois eu gostava de tudo (risos) mas eu me encontrei foi na rima mesmo e foi algo muito rápido, eu me identifiquei imediatamente. Poder passar mensagens através do Rap para mim não tinha nada melhor! E referente às batalhas dentro desse projeto do Hip-Hop nas quebradas, no bairro de Parelheiros, nós tinhamos as batalhas dentro do projeto, então, tinha campeonatos, mas batalhas fora do projeto eu participei da Batalha do Grajaú, Rap City também, mas eu me identifiquei mesmo em escrever, eu participo de batalhas, mas eu gosto é de escrever.

BW: Você falou que gosta de apresentar a nova geração para a geração mais antiga. Como é isso?
Sara: Na verdade às vezes as pessoas acham que é algo bem complexo, mas na verdade não é. É algo bem simples de entender, eu sou a nova geração da velha escola, então, no caso eu sou a continuação do legado que eles deixaram, eu continuo trilhando os mesmos caminhos que eles passaram, os mesmos ensinamentos, é a mesma coisa só que hoje, então quando eu coloco nas minhas letras ou quando eu vou apresentar o meu trabalho para alguém, eu sempre gosto de falar que eu sou a nova geração da velha escola, porque é um trabalho que não para por aqui e eu estou aqui para continuar! Inclusive uma vez o MC Jack, num comentário, disse algo muito sábio que eu sempre me lembro como um lema: o pessoal novo que está chegando vai tanto atrás, que vai chegar uma hora que vai bater no que é resistência, no que é base, no que é verdadeiramente a Cultura Hip-Hop, que é onde tudo começou!”.
BW: Como você acha que os mais antigos do Rap veem quem está chegando agora?
Sara: Olha, no meu caso eu sempre fui bem recebida. Tenho uma grande afinidade com o Nelson Triunfo, entre outros diversos que foram pioneiros no Rap. Então, eu acho que eles apoiam.

BW: É difícil nos dias de hoje conquistar o próprio espaço? Ter o próprio estilo? Fale sobre suas composições?
Sara: Sim, é bem complicado fazer um nome e adquirir um reconhecimento! Mas são lutas que valem a pena, porque lá na frente vem um resultado incrível e sobre as minhas composições, geralmente eu gosto de passar uma mensagem, principalmente para os jovens, porque muitos passam por situações que não sabem lidar e o Rap ajuda as pessoas passarem pelos problemas, passa mensagem de paz, de tranquilidade e além disso o Rap educa, ele mostra uma saída quando parece que não existe. E aí aparece o Rap como uma chama acesa, mostrando que ainda resta uma saída. Então, nas minhas músicas, minhas composições, eu tento passar isso para as pessoas.
BW: O fato de ser mulher já te criou alguma situação delicada dentro do Rap? Como você vê as mulheres dentro da cena?
Sara: Realmente, as mulheres no passado tiveram várias barreiras para hoje podermos conquistar o nosso espaço. Mas hoje as mulheres estão cada vez mais se igualando aos homens e no Rap também não é diferente, eu acho que em todo esse tempo estamos bem representadas. Eu tenho como referência, por exemplo, a Negra Li, a Cris da CNJ, entre outras diversas que podemos olhar e tomar como espelho, eu nunca passei por nenhum tipo de preconceito, eu acho que hoje o negócio está mais tranquilo para dividir o mesmo espaço com os homens.

BW: O que é para você ser da resistência? Ao que você resiste?
Sara: Bom, quando eu falo que eu sou a resistência, o que eu quero dizer é a resistência de defender uma ideologia mesmo mantendo a essência do Rap. Pois quando ele surgiu na década de 80, ele veio com a intenção de mostrar uma saida. Essa molecadinha nova que está entrando na cena estão tentando mudar as coisas, vindo com um linguajar diferente, então, a minha resistência é para manter as raízes do Rap e de toda a cultura viva, que continue educando e salvando vidas!
BW: Sara, verdade que você ensina crianças da comunidade? Nos fale desse trabalho que você realiza?
Sara: Sim, eu tenho um trabalho em Parelheiros na comunidade, onde eu moro e temos duas salas, uma em cada associação, são duas associações e uma creche e trabalhamos com crianças que foram abandonadas na rua, que não tinham um rumo e muitas dessas crianças enfrentam dificuldades dentro de casa com os pais, alguns os pais são separados, existem diversos cenários que acompanhamos e nosso foco é mante-los no caminho certo, estudando e resgatando todos eles.

BW: Você é meio que uma referência para eles?
Sara: Sim e eu fico muito feliz de poder servir de espelho para eles e sempre eu os incentivo a estudar, a se dedicarem buscando um futuro melhor. O projeto sempre vai além da sala de aula! O Rap e o Hip-Hop é isso!
BW: Você é um novo talento diante de muitos outros que já estão na estrada tem muito tempo! Você é uma menina, tem 15 anos, quais são seus planos para o futuro?
Sara: O que eu planejo é seguir carreira aprimorando as minhas letras, estar evoluindo a cada dia e também da mesma forma o projeto que ele venha a subir mais e conquistar mais coisas. O meu objetivo é aprimorar o que já tenho e o que existe!
BW: O que você tem feito nesse tempo de pandemia? Como tem se cuidado?
Sara: No momento, demos uma pausa no projeto por conta da pandemia estamos cumprindo a quarentena, evitando ao máximo sair de casa e os meus trabalhos estão sendo mais pelas redes sociais. Aproveito aqui em primeira mão para dizer que estou lançando nas plataformas digitais uma nova música, que fala exatamente sobre a nova geração para mostrar para eles o que realmente é a essência da Cultura Hip-hop. Esse pessoal novo está vindo com muita ostentação, não é o que aprendemos na Cultura Hip-Hop, vêm até com coisas que atingem as mulheres e o Rap relata a verdade da periferia, é uma coisa que toda a família pode ouvir e a minha música foi feita exatamente para essas pessoas, para eles acordarem, porque na verdade tudo isso não nos representa, o nome da musica é “Recado pros Mulekes”

BW: Recentemente você foi premiada no Troféu Arte em Movimento. Comente?
Sara: Eu fiquei muito feliz pela indicação, por poder participar daquela premiação, foi algo incrivel aquilo, foi a materialização do nosso reconhecimento, de cada uma ali, eu com os meus 10 anos de carreira alcançando objetivos e todos ali sendo reconhecidos.
BW: Para finalizar, o que significa o Hip-Hop na sua vida? Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Sara: Eu nem tenho palavras, o Hip-Hop, para descrever, tamanha a grandeza que ele tem na minha vida, Hip-Hop é o ar que eu respiro, tudo que eu olho ao meu redor tem Hip-Hop e tudo que eu sei e sou veio através do Hip-Hop, eu sou muito grata a toda essa cultura incrível que eu nem sei o que seria de mim sem essa cultura e para os jovens, os leitores do portal, eu digo para não desistirem dos seus sonhos, dos seus objetivos e para perseverarem, continuarem lutando, aprendendo, estudando, porque uma hora o reconhecimento chega e vou estar lá aplaudindo você!
Fotos: Arquivo Pessoal / Nós no Rolê (Mõnica Senna)









