As batalhas de rima sempre foram nas ruas, estações e praças, locais típicos de encontros de equipes e crews. Mas, com esse momento de quarentena, elas foram para um local totalmente diferente: a internet.
Aliás, diferente em partes, elas já estavam na internet. Canais como Batalha da Aldeia (SP), Batalha do Tanque (RJ) e outras com nomes conhecidos nacionalmente, já batiam números absurdos no YouTube e outras plataformas de vídeo, chegando diversas vezes na guia em alta, tornando as batalhas cada vez mais famosas.
Com o coronavírus e a proibição de eventos com aglomeração, as batalhas foram obrigadas a ficar somente no meio on-line, o que tirou aquele visual de roda na praça que todos estavam acostumados a ver. Apesar disso, batalhas com um pouco mais de estrutura logo se organizaram e começaram as edições on-line, que nesse momento, inclusive, abriram algumas opções que talvez não foram pensadas antes por que não havia necessidade.
Agora podemos fazer uma batalha on-line entre pessoas de estados diferentes sem que necessitem se deslocar por terra ou ar, assim tendo maior disponibilidade de horário. A organização também será completamente diferente quanto a sorteio e votação – não tínhamos experiências em votações on-line, todas as batalhas que partiram para uma versão on-line tiveram que se esforçar para aprender e, com isso, também vieram alguns pontos negativos, que é o motivo de um número muito baixo se arriscarem nessas edições: a estrutura.
As organizações não têm um orçamento para se bancarem; podemos chutar que menos de 5% das batalhas têm uma renda que pague as contas e possa ser investida em um escritório ou QG e isso dificulta muito com um país com péssima internet, planos às vezes com valores altos e locais que você só pode optar por uma operadora.
Esse problema de estrutura, também é somado ao problema de que boa parte dos MCs também não possuem uma internet rápida ou boa para acompanhar a live. O atraso e falhas entre beat e rima dificultam e atrapalham o MC, deixando a batalha às vezes desinteressante e difícil de acompanhar.
No entanto, isso não está fazendo com que as batalhas diminuam, e sim aumentem, porque se tem uma coisa que as organizações e MCs estão com saudade é da vibração da plateia numa Punch ou Fatality daqueles.
OPINIÃO MC
Afro Max: “tudo sempre tem prós e contras. O MC sente falta das batalhas, isso faz parte da vida dele, não é mais um hobby, mesmo com toda dificuldade de itinerário, locomoção, acesso, muitos querem a volta das batalhas. Em contrapartida, por questões de saúde e segurança, o retorno presencial nos locais destinados não é uma opção. As batalhas on-line têm sido a forma mais segura de darmos continuidade aos trabalhos.
Claro que a energia não é a mesma, a adrenalina não é a mesma, mas cada um luta com a arma que tem, cada um rima com a batida que tem.
Então, ainda assim, a internet tem sido o meio mais seguro e mais viável a ser usado”.
OPINIÃO ORGANIZAÇÃO
Aqui vai uma dica de estrutura e organização para quem ainda não desenvolveu a sua batalha on-line:
Primeiramente, faça! Mesmo com pouca estrutura, porque essas coisas vão se ajustando com o tempo, vocês vão se acostumando e melhorando a cada edição.
Tenha um notebook.
Faça ligações para os MCs por Google Meet (gratuito e sem limitação de tempo).
Deixe somente os áudios dos MCs ativos, para que fique mais leve a transmissão e mantenha apenas equipe e MCs na sala de bate papo – sempre lembrando de só deixar ativo o microfone de quem está rimando.
Muitos estão utilizando YouTube ou Twitch como plataforma de transmissão, mas ambas têm maneiras complicadas de fazer a votação, muitas precisando de aplicativos ou softwares externos, já o Facebook dá opção de fazer enquetes durante a transmissão, direto no chat ou mesmo em cima da imagem da transmissão.
Foto: Fotomontagem BW
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Conhecer o passado e respeitar quem o escreveu é um dever e uma sábia decisão de quem pretende viver o verdadeiro Hip-Hop ou falar em nome dele.
A História dessa cultura não é uma lista de nomes, datas e feitos de pessoas antigas, mas sim um registro de homens e mulheres desbravadores que abriram caminhos, criaram pontes onde não existiam, enfrentaram preconceitos, quebraram tabus, resistiram a tudo e a todos, erraram e acertaram para que hoje tudo fosse diferente.
Como certa vez disse Afrika Bambaataa: “O Hip-Hop é conhecimento, cultura, entendimento, autoconhecimento, conhecimento sobre os outros”.
O Portal Breaking World acredita na verdade dessas palavras e teve a honra de conversar essa semana com “O Guardião” da história do Hip-Hop brasileiro.
Queridos leitores, convidamos a todos para esse incrível bate-papo com Rooneyoyo, onde falamos do passado, do presente e do futuro.
Está pronto para essa conversa? Então senta que lá vem história…
BW: Rooney, queria que você falasse um pouco da sua infância, da adolescência e como era seu relacionamento com sua família. Quem era o Rooney nessa época, o que pensava e sonhava?
Rooneyoyo: Eu nasci debaixo da ponte, no Bixiga (risos), como brinca minha mãe até hoje, porque foi demolido e virou um elevado naquela região. Costumava sair cedo de casa e só voltava à noite, jogava bola, andava de Skate, bicicleta, patinete, pula-pula, corda, brincava com o que meus amigos emprestavam. Alguns brinquedos eram feitos por mim, tais como: carrinhos de rolimã, que eram construídos com restos de madeira que pedia nas oficinas e que achava em terrenos baldios; pipas, com papel de pão e vareta de bambu que encontrava na rua; taco, feito de madeira de construção; bolinhas de gude, feito à mão lixado de epóxi, além disso, fazia rolos e trocava por figurinhas para poder bater. Na adolescência, para levantar um dinheiro, fazia pulseirinhas artesanais com nomes personalizados de linha de tricô, pranchinhas de surfe como pingente de acrílico, que achava na rua, aprendi olhando os artesãos de rua. Mas, a minha paixão era jogar botão de mesa que fazia com tampa de relógio, fui campeão paulista quando tinha uns 14 anos. Nessa época, ia para o centro da cidade a pé, entrava nos condomínios comerciais perguntando se havia relojoaria para pedir vidro de relógio riscado e adesivo da empresa, que também colecionava, com o troco do pão juntava e comprava adesivo dos times e números à base de água e colava nestas tampas e pintava com tinta de guache escolar ou esmalte, escondido da minha mãe. Aos 16, conheci o Break e também o ioiô, numa promoção de refrigerante e treinava mesmo fora da temporada, quando chegou a promoção, em 1998, comecei a participar das competições de bairro e intimava os campeões da época, até que um deles me deu “uma lavada”. A partir daí, comecei a treinar mais e um colombiano me ensinou uns truques, fui convidado a participar de uma competição interna no fim da promoção e ganhei o título de “Internacional Champion Yo-Yo” da Russel Company, fui convidado a viajar com a Cia. de Yo-Yo, ou seja, minha infância dura até hoje (risos). Nesta época, recebi vários apelidos: Ninaco, Tanajura, Pé na Cova, Índio, Tijelinha, Tripa, Zé ou Zé Ricardo mesmo, cada lugar que frequentava tinha um apelido, pois não ficava em casa, vivia procurando algo para fazer e andava demais e a cada período eu tinha um ciclo de amizade para poder usufruir do que eles tinham para oferecer. Sobre pensamentos e sonhos ao decorrer da entrevista vocês vão conhecer.
Uma vida difícil e a inquietude curiosa o trouxeram naturalmente para a Cultura Hip-Hop.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Rooneyoyo: Em 1983, vieram uns promotores do SENAC na minha escola, oferecendo apostilas para vender e quem comprasse ganhava a inscrição do curso de datilografia gratuita, minha mãe meio que me obrigou a fazer o curso e eu tinha que ir a pé para o centro, na Rua 24 de Maio, fazer o tal curso depois da escola, entre agosto e dezembro, muitas vezes antes de começar o curso tinha umas rodas no centro. Era muito comum na época, com capoeiristas, puladores de círculo de facas, jogadores de bolinha da sorte. Em meados de outubro vi uma roda diferente, eram os dançarinos de “Breakdance”, vi um monte de meninos dançando ao som de um rádio gravador (boombox) pequeno, a mesma dança que assistia nos programas de TV e dos videoclipes, pois raramente passava algo interessante para mim, o encantamento foi imediato, fazia curso 2 vezes por semana, saía da escola e corria para o centro, para ver se encontrava esta roda de novo, para tentar aprender algo, enturmei-me e vi a Gênesis do que hoje chamamos de Hip-Hop se formar em São Paulo, de lá para cá tudo virou História e hoje profissão.
BW: Quem eram suas referências? Que elementos fizeram toda a diferença na sua vida? Com quem você aprendeu?
Rooneyoyo: Minhas referências eram os dançarinos da Rua 24 de Maio com a Rua Dom José de Barros, mas não sabia o nome de quase ninguém, até começar a ouvir quando um chamava o outro pelo apelido, eram alguns artistas dos videoclipes da época de 1983 e quando vieram os filmes em 1984, aí perdi a linha mesmo. Na época, não tínhamos conhecimento dos elementos artísticos que conhecemos. A “Febre Breakdance” tomou conta de mim, após a chegada dos filmes no Brasil, achava que tinha que fazer tudo para ser reconhecido dentro da Cultura, comecei dançando, depois fazia uns desenhos e pintava em roupas e vez ou outra um traço no muro devido a falta de grana para tintas, mais tarde, conheci o Rap, pouco antes de ir para a São Bento, em 1985 e, na sequência, tive a oportunidade de conhecer os equipamentos de DJ. Lembrando que estive presente na 24 de Maio, no aniversário de São Paulo na Praça da Sé, em 1984, no “Festival de Break”. Ver os caras que eram meus amigos indo para a novela “Partido Alto”, da TV Globo, assistir os filmes “Breakin” e “Beat Street” no cinema e, em seguida, frequentar o Boulevard da São Bento, isso foi uma “lobotomia” (risos). O aprender foi natural com todos que convivi, mas o principal era que tínhamos que ter uma Gangue, a minha era a AclimaçãoBreaker´s, com Hamilton, Eu (Ninaco), o Marcelo Gueta e seu irmão mais novo Guetinha, treinávamos no parque da Aclimação, no centro, me aproximei do Andrezinho (ALAM Beat), que era amigo do Mancão do Cambuci, treinávamos no meio da semana, durante a noite. Logo, nos encontramos enquanto irmãos e viramos da Família Street Warriors. Nesta época, conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário, além disso, com frequência o ALAM Beat me chamava para treinar na Pompéia, na casa de uns amigos que tinham uma garagem de azulejo, com Faustinho (Falecido) e Gula, a gente frequentava os bailes de matinê aos domingos, mas raramente entrava, pois não tínhamos grana para frequentar, às vezes entrava escondido, cerca de meia hora antes de fechar, assim conheci o Jack (MCJack) no clube A Ponta, no Tatuapé e revezava os treinos de domingo, quando ia ao Parque do Ibirapuera, lá treinava uma gangue de manhã em um período e no outro período vinham outras gangues diversas, ou seja, ficava de manhã até o fim da tarde, para aproveitar, sem comer e a pé (risos).
Amizade de longa data: “conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário”.
BW: Outra paixão foi o ioiô, que deu significado ao seu nome, Rooneyoyo. Fale um pouco dessa outra paixão.
Rooneyoyo: O nome “Rooneyoyo” tem vários significados, bora lá: Rooney foi o Heliobranco que me apelidou, na época das visitas à casa do DJ Ninja com a Rádio NWBass, para poder mixar num racha, simulávamos uma rádio fictícia e eu gostava muito de Gangsta Rap e meu apelido no disco Radicais do Peso ficou “Gang$taRooney”, o nome foi inspirado no Filme “Action Jackson” um Blacksploitation (filmes feitos por e para negros americanos) onde tinha um personagem tipo Robin Hood Urbano do Gueto, o porquê fica por conta da imaginação do leitor… (nada a declarar); Rooneyoyo foi a junção do nome porque alguns me chamavam de Yo-Yo também e outros me chamavam de Rooney Yo-Yo e juntei tudo para ser único nas buscas na internet. Então, tenho vários personagens e moldo conforme a necessidade.
BW: Onde tudo começou para os B-Boys e B-Girls de São Paulo? Fale sobre o Marco Zero e sobre a pedra que até hoje tem o seu nome.
Rooneyoyo: Em São Paulo, as coisas foram simultâneas em vários bairros, pois os clipes começavam a ser exibidos com cenas de “Breakdance” (a febre) de 1983 a 1985, os dançarinos eram oriundos de grupos de dança dos Bailes Blacks, mas a Rua 24 de Maio com a Dom José de Barros nos deu a explosão midiática que as pessoas conhecem da História da Gênesis do Hip-Hop de São Paulo e mesmo sem saber a nomenclatura correta, os programas de auditório passavam as disputas semanalmente e durante meses. Quando falamos de B-Boys e B-Girls o prisma muda, pois naquela época só vi uns três dançarinos irem para o chão, os movimentos eram simples. Depois do clipe do Break Machine e os filmes Breaking e Beat Street, a dança melhorou um pouco, em relação às mulheres não vi nenhuma, somente fui vê-las fazer uma entrada nos encontros da São Bento e creio que por volta de 1987, nós temos um grande vácuo na cena feminina. A participação delas foi intensificada após os encontros da B-Boys Battle Party, de 1998 em diante. O Breaking de hoje é diferente do que vimos no início, para entendê-lo, necessita-se compreender o contexto de cada época. Anos depois, no ano de 2014, Nelson Triunfo com apoio do ALAM Beat leva um projeto na Secretaria de Cultura e aprova um evento em homenagem aos tempos primórdios e eu fui carinhosamente homenageado pelo Mestre Nelson Triunfo, a quem sou muito grato pela sua contribuição pela arte e cultura.
Na época em que o Breaking era conhecido como “BreaK” ou “Breakdance”, Rooneyoyo já fazia seus moinhos de vento!
BW: Você é considerado um dos pioneiros do Hip-Hop no Brasil, são quantos anos envolvidos com o Hip-Hop? Nos conte como tudo começou aqui no Brasil e como era viver a Cultura Hip-Hop na década de 80?
Rooneyoyo: Eu datei minha participação quando frequentei a Rua 24 de Maio com Dom José de Barros em agosto de 1983 em diante, quando fazia um curso de datilografia ali no Senac. Como já destaquei, este período chamávamos de “Break” ou “Breakdance” o que conhecemos hoje de Cultura Hip-Hop. Nessa época, tudo era muito orgânico e presencial, não havia internet, telefone de fácil acesso, as informações eram disseminadas via TV, rádio, jornal, revista, vinil, k7. As Informações eram raríssimas, para se ter uma foto de dança, tinha que comprar a revista para ter acesso ao conteúdo. Quando me perguntam sobre a década, foram sete anos de evolução, pesquisa, visitas em lojas de disco para busca dos conteúdos, mas nem sempre comprávamos, olhávamos revistas em bancas de jornais para saber se tinha alguma informação nas revistas, ia em laboratórios médicos e entrava nos consultórios para ficar folheando página por página para ver se achava algo que interessava, ia em bibliotecas todos os dias para folhear os jornais do dia na seção de cultura, para saber se sairia algo naquele dia, isso era interminável. Nos encontrávamos no Boulevard da Estação de Metrô São Bento para ver o que cada um trazia de informação e ficávamos olhando por horas e discutindo teorias sobre matérias, fotos, roupas, etc. Faço isso até hoje (risos).
BW: Que boas lembranças você tem dessa época, como era a vibe de quem dançava?
Rooneyoyo: É interessante lembrar dessa época para resgatar as memórias, principalmente porque se não revivermos e contarmos nossa história, ninguém o fará, vivemos em um país que invisibiliza as nossas histórias, apreciá-las ou respeitá-las não é cultural, principalmente por ser uma cultura marginalizada. Esse período foi incrível, principalmente porque estávamos inventando o nosso jeito de fazer arte e a cultura com todas as suas camadas, que muda de lugar para lugar. Minha energia sempre foi de troca de informação, militância, de luta, de abertura de espaço, estávamos no pós-ditadura e a dança também era um aprendizado constante, todo dia aprendíamos coisas novas. A dança moldou meus pensamentos e por ela tenho feito reflexões e construído caminhos em prol de comunidade, como não tínhamos nada de referência, (re)criávamos, faço isso até hoje, se não tínhamos uma roupa a fazíamos, se não tínhamos um som, montávamos. Então, a vibe era se reinventar.
Para Rooney a dança molda pensamentos, traz reflexões e muda caminhos em prol do bem da sociedade.
BW: O Breaking da sua época era diferente da forma que é dançado hoje? Que diferenças você pode citar entre os B-Boys e B-Girls da sua época e os de hoje?
Rooneyoyo: É de fato diferente, já na nomenclatura, no conceito e na equidade de gênero, primeiro porque estávamos em uma bolha da moda e tudo era ditado pela TV, jornal e algumas revistas, a era “Breakdance” de 1983 a 1985. Depois temos a época dos que resistiram e suavizaram a inserção e o acesso à informação da nova geração, pois as informações foram chegando aos poucos, as descobertas e estudos sobre o que vivíamos, eram moldados à nossa realidade e foi se transformando no que todos vivenciam hoje, um exemplo disso é o termo B-Girl, que não existia, pois na época todos dançavam o “Breakdance” que hoje conhecemos como Popping, Waving, Tuttting, Robbot, alguns passos de Locking misturados com algo de Breaking. Sobre as B-Girls, só as vi depois de 1987 e elas estavam vinculadas por serem namoradas de algum Breaker que frequentava aquele espaço. Alguém precisa me rememorar, se alguma delas foi lá só para dançar o Breaking e algumas se tornaram MC em meados de 1987/1988. Havia também uma época que todos eram denominados de B-Boy, o B-Boy que tocava era o DJ, o B-Boy que grafitava, era o grafiteiro. Nossa dança, era coreografada ou muito improvisada e sempre fora do ritmo, outro detalhe que mudou muito também para melhor, claro e para corrigir isso, tivemos brigas homéricas de conceitos e provar, algo que demorava, pois os documentos e vídeos com informações não estavam ao alcance dos dedos como é hoje, mas dávamos mais valor a cada momento.
BW: Fale um pouco da Street Warriors, se não me engano foi fundada em 1983, correto? Como era o relacionamento com a sua Crew?
Rooneyoyo: Essa parte da História é linda, pois somos uma família até hoje e para entender isso tive que rever com nossos personagens da época, pois foi uma junção de várias gangues e grupos de dança. Em 1983, no Cambuci, formou-se o P.O.R.T.A.L., que era como chamamos hoje de guarda-chuva de tudo isso e podemos começar com a Star Break do ALAM Beat, Didi, Gula e Faustinho, que virou Zulu On A Time Bomb com ALAM Beat, Didi e Silvão que virou B-Boys City Breakers com a entrada do Raul (ex Funk & Cia), Deley (ex Os Cobras) e Paulinho. Gula e Faustinho (Falecido) montaram a Duck Rockers, a Fantastic Break do Cambuci com Edinho, Mancão, Fubá, Edu “O Bárbaro”, Bulldog, Luciano e Aninha; o Tico e Teco (Os Gêmeos) eram Cambuci Breakers, mas também eram B-Boys Due (nosso grupo de grafiteiros), eu, Tico e Teco e quando iam cantar Rap eram MC Due e, para finalizar a família, a minha Gangue Aclimação Breakers que eram, eu (Ninaco), Hamilton, Gueta e Guetinha, muitos grupos da época mudavam de nome para entrar em concursos. Isso tudo acontecia em 1 ano, ou seja, tem grupo que não durou 2 meses, até que o Mancão e o ALAM Beat com Silvão fundam a Street Warriors e DJ Carlão (Ninja) foi convidado para ser o DJ do grupo. A data é comemorada todo segundo fim de semana de dezembro junto com o P.O.R.T.A.L no Cambuci.
Street Warriors e Rooneyoyo: muito mais que uma gangue, uma família!
BW: Você foi um dos caras que fez os primeiros eventos de Breaking com público abrangendo todos os estados. Fale um pouco dessa vida como organizador de eventos em todos esses anos. O que foram as festas chamadas B-Boys Party, que aconteceram na Avenida Rio Branco?
Rooneyoyo: Eu virei organizador, como pode perceber nas falas anteriores, porque não tinha ninguém que fizesse a produção e também porque tenho sede de ver as coisas acontecerem. Via eventos competitivos acontecendo no exterior pelas revistas e VHS trazidas por amigos que viajavam para o exterior e pensei: “vou fazer isso igual”. Na época, eu tinha uma loja de roupas de Hip-Hop voltada para o nosso público e usava o lucro da loja para subsidiar e promover estas festas. Foi como tudo começou, mandando cartas pelo correio, colocava anúncios em revistas especializadas e quando respondiam, os convidava, fiz muita feira de moda fora de São Paulo, quando vinham ao meu balcão de vendas itinerante (estande) comprar alguma peça, já pegava contato e com certeza iriam receber um convite pelos Correios. A B-Boys Battle Party era uma festa mensal que promovíamos nos clubes do centro da cidade daquela época, entre 1998 até 2001, alugávamos o local e trazíamos os equipamentos. Tudo devido a julho de 1998, quando os encontros da Estação São Bento do Metrô foram proibidos, pois estavam mudando para um lado mais comercial com lojas e não queriam nosso povo lá, tentamos ir para a rua em outros pontos e não vingou, foi aí que decidimos fazer estes encontros, uma vez por ano fazia o B-Girls Battle Party, onde descobri uma mina, a DJ Nice, que competia no DMC (competição de DJs Nacional), ela gostava de Break Beat Europeu, uma parte da festa era comandada por elas; uma vez ao ano também fazíamos a Batalha Final, uma competição de coreografias e no final tinham batalhas de grupo. Os anos foram passando e fui mudando regras e categorias, hoje temos o foco voltado em competições de alto rendimento.
BW: A primeira “Batalha do Ano” que levou 3 mil pessoas aconteceu em qual ano? Como foi esse evento?
Rooneyoyo: Nosso primeiro evento da Batalha aconteceu em 1999, como fazíamos as festas mensais com batalhas individuais, de duplas, misto, de Old School vs New School (acima de 30 anos versus abaixo de 14 anos), B-Girls Battle, pensamos: vamos fazer a B-Boys Battle Party Annual Contest, com o nome Batalha do Ano que foi um desastre comercial em um negócio mal elaborado com o B.O.T.Y mundial, mas o público veio em massa. Tentamos mais um ano, mas para arrumar patrocínio era muito difícil, pois levar até quatorze pessoas para a Alemanha era oneroso e comercialmente inviável, mudamos o nome que segue até hoje, Batalha Final. Creio que este público de 3 mil seja em 2004, no Parque Dom Pedro, na antiga fábrica da Comgás, um espaço com 11 mil metros quadrados e dezenas de espaços, criamos uma sala onde só tocava Funk Style, creio ser a primeira deste gênero, um ambiente de 1.200 m², onde forramos com Madeirit branco para o Breaking, tivemos 17 DJs, em um pico totalmente abandonado, lembro que até os Guardas da Polícia Metropolitana ajudavam a segurar as escadas pros Pichadores e Grafiteiros fazerem seus trabalhos, ali nosso público dos 2 dias atingiu cerca de 8 mil pessoas, 3 mil no sábado e 5 mil no domingo. Foi assustador ver aquele mundaréu de gente em um pico sem nenhuma estrutura, mas era uma época Roots mesmo, fazíamos as coisas com muito amor, paixão, hoje somos mais comerciais, seguimos regras e leis, outros tempos.
Na foto como MC da DMC. Rooney foi pioneiro ao criar a primeira Batalha de Breaking profissional, trazendo grande público, Batalha Final, que ano passado comemorou seus 20 anos de existência.
BW: Fale sobre sua experiência como DJ e quando fez a escolha de parar de dançar e se dedicar a essa carreira? Estar nas pick-ups é melhor do que estar nas rodas?
Rooneyoyo: O ser DJ era uma época que achava que tínhamos que ser tudo para ser da cultura, adoro música e adorava ver como os DJ´s faziam para mixar, achava aquilo mágico, os toca discos eram um sonho de consumo distante. Então, comprava os discos, ouvia, lia, traduzia, copiava as roupas, ficava tentando entender porque das correntes, dos chapéus, das marcas, ficava horas decifrando fotos e encartes. Conheci o DJ Carlão no Cambuci, ele me mostrou um som, o Love Master Ace com a música Diseases e o refrão parecia que ele falava Ninja, foi aí que o batizei com seu apelido, DJ Ninja. Na casa dele aprendi a mixar, cortar, fazer back to back, alguns poucos scratchs, mas demorei muito para ter meu primeiro set de DJ e não escolhi parar de dançar, tenho problema na coluna, sinto dores e fui diminuindo minha ação como dançarino gradativamente, na real sempre quis dançar Popping, mas não tenho essa aptidão e fui parar no chão mesmo. E não tem comparação uma arte com outra, estar nos toca discos comandando um evento ou festa é diferente de estar nos palcos ou numa roda (Cypher) como dançarino. Gosto de tudo, então, pulo esta decisão.
BW: Você esteve fora do país algumas vezes, nos conte sobre suas experiências e sobre grandes amizades que fez pelo mundo.
Rooneyoyo: Todo ser humano tem que se oportunizar a sair de seu bairro, município, estado e país, trocar experiências ou vivenciar outras culturas, estudar para poder entender, respeitar para poder se posicionar, cultivar seres com propósitos parecidos, ser respeitado e ser verdadeiro com sua essência, olhando de fora parece algo surreal conhecer seus ídolos, mas criar seu conceito dentro de outra cultura traz verdade no seu eu, faz ser respeitado pelos criadores de uma arte que pode ser usada para o bem. Fazer amizades pelo mundo é algo que me faz bem, traz paz, faz o mundo ficar pequeno. Nada é impossível.
DJ Ninja e DJ A.G. Naja (Rooneyoyo): parceria de longa data na Cultura Hip-Hop.
BW: Tocar na São Bento tem algum significado especial para você? De onde saíram os nomes DJ Naja e O Guardião?
Rooneyoyo: Sim, tocar ali, onde eu aprendi a estudar, pesquisar, me moldou para ser o que sou hoje, é impagável. Me fez entender quem eu sou e porque estou na Cultura. A.G. Naja, A. G. era o Assistente Geral do DJ Ninja, da época do disco do Hip-Hop Cultura de Rua, da Dupla MC Jack e DJ Ninja. Eles tinham muitas colagens e intervenções durante o show, não dava tempo de fazer tudo sozinho, eu tinha que ser preciso, tinha que ser dinâmico, segurava os discos, fazíamos shows com vinil e eu era como um Roadie, um faz tudo do grupo. O apelido Naja foi para combinar foneticamente com o nome do Ninja. O Guardião veio após uma palestra sobre a evolução disso ou evolução daquilo sobre Hip-Hop, mas poucos defendiam a raiz da cultura, sabemos que um povo sem passado é um povo sem História. Fui para casa pensativo e irritado, então adotei este codinome como simbologia de ser um cara que respeita a raiz, como tenho muito material da “Febre Breakdance” é como se fosse um ancião, quando alguém precisa de uma informação, procuro as referências que tenho para contribuir.
BW: Em sua caminhada, você ajudou muitos B-Boys e B-Girls a encontrarem seu próprio caminho. Em recente evento a B-Girl Miwa falou justamente da gratidão que tinha a você! Na sua visão, quais são as maiores dificuldades hoje na vida de um B-Boy ou de uma B-Girl?
Rooneyoyo: Creio muito no ajudar sem olhar a quem, mas lógico, com o passar do tempo você aprende a ajudar a quem quer ser ajudado e hoje estou bem seletivo, pois muitas pessoas acabam se aproximando para tirar proveito da sua boa vontade e você vai perdendo a fé nas pessoas, justamente por causa dos mal-intencionados e muita gente deixa de ser beneficiada por isso, e todos perdem. É um assunto delicado e muito pessoal, a Miwa que você citou é uma mulher inteligente e dedicada, na época vi um potencial circunstancial diferente e foi uma troca mútua de trabalho e conhecimento, tinha minhas ideias e ela fome de fazer algo importante para ela e pra Cultura, tenho esse olhar de perceber o potencial em algumas pessoas, umas dão muito certo outras não, devido a fatores variados, os que dão certo ficam para a História, os que dão errado dá vontade de desistir de tudo, porque são pessoas que te traem e não entendem o quão profundo é ser leal e respeitar sua criação intelectual. Isso vem acontecendo com mais frequência, alguns querem ser você sem viver a sua experiência, os valores de hoje são fúteis e sem pudor, cada vez eu vejo menos pessoas criativas e sem propósitos longínquos, são imediatistas, isso não é bom para ninguém. Não há dificuldades se fizer um planejamento, mas para isso o dançarino precisa entender e respeitar vários níveis de ação global. Estamos falando de Brasil? Aqui estamos muito à frente dos nossos vizinhos, porém, sonhando errado. É fácil, falando de competições, derrotar o mundo todo com nossa aptidão corpórea, mas não respeitam as hierarquias e conhecimentos dos mais velhos e se baseiam em pessoas erradas, apoiam um desconhecido que nunca fez nada pela sua categoria em detrimento de achar que é seu concorrente. Muitos criam mecanismos abstratos e temporários, isso não funciona e vai dar errado. Se não unir a categoria, nunca dará certo e tem um monte de gente indo no caminho errado, porque é o mais curto, dificuldade haverá sempre, devido às escolhas egoístas.
Para Rooneyoyo “O Guardião” tocar na São Bento é uma experiência impagável e traz sensações inigualáveis.
BW: Das festas de B-Boys Party na Rio Branco diretamente para o futuro. Hoje falamos de Olimpíada e você é o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking. Você imaginava no passado que o Breaking chegaria a virar uma modalidade olímpica? O que acha sobre o fato do Breaking ter sido indicado como mais uma modalidade olímpica? É possível com toda essa evolução que se perca a essência desse elemento como muitos temem?
Rooneyoyo: Já tive esta conversa com Crazy Legs em 1999, quando o trouxemos, em um dos jantares parece que tivemos a mesma sensação e desejo de ver o Breaking competitivo nas Olimpíadas, porque falamos da abertura nas Olimpíadas de 1984 nos EUA, justo na febre do “Breakdance” e ficamos imaginando como seria, foram horas discutindo conceitos, pois eles são os criadores e nós consumidores, então, até ele entender a ótica de quem não vive nos Estados Unidos da América, que eles estão em um país corporativo e nós em um país assistencialista e isso não é fácil. Mas, não imaginava de fato que isso aconteceria. Hoje tenho um pensamento crítico muito profundo sobre este assunto, creio que é cedo para essa admissão da nossa modalidade, pois o mundo todo precisaria ter uma política pública voltada para o esporte e um apoio mais forte em todos os países, o que ninguém percebe é que temos uma disparidade cruel e injusta, enquanto Europa e Ásia gasta cerca de 6 milhões de reais para fazer um evento de um final de semana, nós aqui, por exemplo, não conseguimos captar recursos na casa dos 50 mil reais para um evento, muito menos nossos vizinhos Sul e Centro Americanos, Africanos e Oceania, para que estejamos entre os 64 países como consta na proposta para o COI. Politicamente é um evento para envaidecer o capitalista eurocêntrico. Para mudar a ótica da nossa categoria, agora falando dos brasileiros, precisam entender que temos um plano, mas sem adesão não vai funcionar. O que vejo é daqui uns anos, não termos brasileiros competindo pela falta de escolhas coerentes e assertivas neste momento, pois um erro pode frustrar toda uma geração e teremos um delay como estamos tendo no futebol. Conversamos com um dos colaboradores da elaboração das regras para as competições da modalidade, o Storm, apontei várias incongruências na competição, mas como disse, politicamente e esportivamente vai sim perder a essência como muitos temem. Creio que quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar. Daqui 20 anos teremos dois tipos de dança e como irei continuar fazendo as duas danças, a do Hip-Hop e a Olímpica, não tenho este problema. As pessoas vão ter que aprender a separar isso no conceito desde o início, hoje a confusão está estabelecida, Breakers formados em Educação Física criticam as competições de alto rendimento, mas aceitam ser produtores e jurados de competições de empresas que trabalham com o esporte de alto rendimento. Competidores atuais da modalidade, dançam, competem e julgam competições de alto rendimento e são contra as competições Olímpicas, o dinheiro compra as pessoas, mas não admitem que o fazem. Por isso, digo que não vai dar certo se não entrarem num consenso. O que eu vejo é medo de se assumirem publicamente, pois ser de uma Federação ou estar em uma Confederação dá trabalho, custa caro e é muita responsabilidade, as pessoas não sabem como funciona, não querem aprender e se dar o trabalho de criar algo que não existe. Repetindo, as pessoas não querem trabalhar para criar algo inexistente, querem o produto pronto para consumo, para poderem criticar em vez de aderir e ajudar a realizar.
Para o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar no alto rendimento.
BW: Com o advento das Olimpíadas o que muda na vida daqueles que pretendem de fato se tornarem atletas olímpicos? O que essa nova geração de B-Boys e B-Girls pode esperar?
Rooneyoyo: Sempre acreditei que tudo pode ser bom, vai mudar a vida de quem ingressar neste foco Olímpico, não só para o Atleta Dançarino, mas para todos que se envolverem, ainda vão abrir caminho para outros profissionais da categoria como comissão técnica, profissionais da saúde, entre outros, mas para que isto dê certo aqui no nosso país teremos que mudar nossa cultura do pensamento, cultura de postura, cultura do estudar, pesquisar, respeitar e nossa política tem que mudar para um campo diferente do que temos hoje, a política do assistencialismo, a política de dar migalhas popularmente falando. Isso nunca funcionou em nenhum país do mundo. O esporte pode mudar isso, melhorar a vida dos brasileiros, mas a política tem que mudar também, a mudança deve demorar uns 50 anos ou umas três gerações, ou seja, não veremos isso acontecer. Mas, vou dar um voto de esperança e fazer um apelo para quem ler esta entrevista, vamos nos unir pela causa juntos ou iremos sempre brigar entre nós e não vamos chegar a lugar algum.
BW: No último ano você realizou a Batalha Final em alguns lugares como no Shopping Tatuapé e no Centro Esportivo Tietê, na Virada Esportiva. Como foram esses eventos?
Rooneyoyo: Desde o início as Batalhas que fazemos são tematizadas, cada ano criamos um conceito e aplicamos nas peças publicitárias e tentamos envolver os participantes para este universo lúdico que nos possibilita viajar dentro da arte. Não fizemos nada novo, porém inédito em São Paulo, entrar em um Shopping e executar um evento com todas as exigências e prazos cumpridos, além de participar de uma Virada Esportiva, com a Secretaria Municipal de Esportes, só mostra o quanto nós amadurecemos profissionalmente e estamos preparados para assumir responsabilidades internacionais com todas as exigências Olímpicas. Executar eventos com apoio governamental é sempre uma roleta russa, exige um grau de flexibilidade de alto nível mental. Nunca é fácil depender e assumir a responsabilidade com as leis que temos, a burocracia não ajuda, os prazos são curtos para uma execução com excelência. Mas, concluímos e superamos a expectativa das metas impostas pelo grupo de trabalho. Com o orçamento que tínhamos foi planejado 4 eventos e executamos um total de 7, incluindo a contrapartida e com uma ação social de doação de reciclagem dos banners que sempre ficam inutilizados, ajudando uma comunidade de mulheres de vulnerabilidade social. Foi emocionante concluir e conseguir este feito dentro da realidade imposta.
Rooneyoyo faz parte do grupo de Rap R.D.P. (Radicais do Peso) e da coletânea SP Hip-Hop All Stars.
BW: Com a pandemia, muitos planos mudaram na vida das pessoas. Em muitos casos, foi necessário uma readaptação. O que você tem feito? É verdade que está trabalhando num novo modelo de evento? Pode falar sobre ele? Quando será e de que forma será?
Rooneyoyo: Essa pandemia nos atrasou 2 anos de planejamento, li e estudei muito e fiquei pensando como poderia mudar parte desta realidade atual. Tínhamos planejado um Brasileiro e um Sul-Americano para este ano, mas seguindo as normas e decretos da OMS (Organização Mundial de Saúde), tivemos que nos adaptar e voltar à realidade imposta. Então, vamos fazer um evento semipresencial, com a participação somente dos competidores, DJ, MC e produção reduzida, sem público, para isso criamos um programa de TV On-Line, com um conceito Cibernético e Eletrônico com o piso individual e com o distanciamento social necessário. Teremos um sistema de julgamento presencial com um aplicativo digital com desenvolvimento de inteligência artificial, muito parecido com o que vai ser usado se aprovado no futuro Olímpico, ou seja, quem participar desta competição já irá sentir a emoção de como será daqui alguns anos. A Batalha Final ocorrerá em breve. Sobre o que eu tenho feito desde março, estudando, consegui ler 19 livros e 8 dissertações de mestrado de amigos, escrevi um texto para um livro que será publicado em breve pelo Os Gêmeos, falando da parte do Rap brasileiro e a correção cronológica do mesmo. Já era para a exposição “Segredos” deles, que será exibida na Pinacoteca, em São Paulo, estar aberta ao público e deve abrir em outubro, tem obras minhas feitas na época que trocávamos desenhos pela janela, não posso dar spoiler mas quem for irá entender este universo do Hip-Hop da sua raiz até o lado mais comercial e aqui fica meu convite para a visita. Dica: comprem o livro e os brindes, vai virar item de colecionador. É isso, estou fazendo algo produtivo, sendo eu e aproveitando para pesquisar mais, pois tenho novidades para lançar em breve, muitos acontecimentos artísticos.
A pandemia mudou os rumos das produções de Breaking no mundo todo. A Batalha Final volta em novo formato na última semana de setembro.
BW: Na sua opinião, o que você acha dos eventos on-line que têm acontecido e como acredita que será a vida futura de B-Boys e B-Girls com esse fator de risco, o novo coronavírus? Que desafios terão que ser enfrentados ao seu ver?
Rooneyoyo: É fato que gostaríamos de ter público presente, mas a pandemia mudou nossas realidades, adaptar faz parte da continuidade. Estou acompanhando alguns eventos on-line e só me mostra o que não fazer, pois conceitualmente estão executando de maneira emotiva, tendenciosa, faz com que desmotivem alguns dançarinos e isso não é bom, por outro lado é importante ter alguns eventos neste conceito, faz com que motivem os dançarinos continuarem treinando, um paradoxo e vejo também muitos competidores com o propósito sem planejamento assertivo e isso é um erro que pode custar caro, procurar uma assessoria seria um bom caminho para melhoria de alguns produtores, uma agenda coletiva poderia ser algo construtivo. Essa doença (Covid-19) é implacável e invisível, os cuidados para com os participantes diretos e indiretos têm que ser levados à sério, temos que aprender a conviver remotamente e conviver conosco sozinhos, este é o maior desafio que enfrentaremos.
BW: Quem é hoje o Rooneyoyo? Qual o legado que pretende deixar para as gerações futuras? E o que significa o Hip-Hop na sua vida?
Rooneyoyo: O Guardião hoje é um cara mais tranquilo e focado em fazer algo que o deixe feliz e em paz. Vai continuar lutando e brigando pelo que acredita, causas que ache importantes, têm muitos sonhos a serem realizados, ideias para tirar do papel e realizar. Um ser pensante e pulsante. O legado é algo que depende de quem vai receber, pois o imediatismo faz parecer inútil o lapidar do tempo, quem dá valor a arte sabe que já cumpriu mais do que prometeu para si próprio, daqui para a frente as ideias estão implementadas e outras podem surgir. Hip-Hop é algo espiritual e orgânico, só vivendo pra sentir e entender.
Fotos: Cadu Barbosa, Willian Machado, 77Produz, DMC e Arquivo Pessoal.
O B-Boy
O Grafiteiro
O DJ
O MC
Rooneyoyo "O Guardião"
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“O futuro não existe. Só existe o hoje e o agora. Faço o agora se realizar.” (DJ Heliobranco)
Ele nasceu no Brás, bairro tradicional da cidade de São Paulo, teve uma infância simples, como qualquer criança da periferia, jogando futebol na rua, nos campinhos e também gostava de andar de bicicleta. Se livrou duas vezes da morte, primeiro da meningite e depois da hepatite. Morando na casa da avó, foi por meio de um tio que sempre viajava para os Estados Unidos que, sem perceber, conheceu e teve acesso ao Funk, o Soul e o Jazz, o que daria origem a trilha sonora do Hip-Hop. Mas seu primeiro contato com a faísca que acenderia o fogo para viver essa cultura diretamente foi por meio da música “Rappers Delight” de Sugarhill Gang, no início dos anos 80.
Estamos falando do DJ Heliobranco, ele não tinha ideia que tudo aquilo seria uma cultura e que se tornaria um representante dela. O Portal Breaking World teve o privilégio de bater um longo papo com esse “DJ de Peso”, que não gosta muito de entrevistas, confessa, mas que quebrou o protocolo e teve muita coisa a falar. Então, prepara-se para essa pesada entrevista! Com vocês, DJ Heliobranco no Portal Breaking World:
BW: Hélio, queria que você falasse um pouco da sua infância e da sua juventude. E que lembranças você tem dessa época? Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Heliobranco: Sou natural de São Paulo, nascido no Brás. Minha base até hoje é o bairro do Tremembé, localizado na zona norte da capital. Minha infância foi simples, com muitos amigos e jogos de futebol na rua e campinhos da época. Não fui diferente de muitas crianças da periferia. No início dos anos 70, passei pela epidemia de meningite que assolou São Paulo, que me atingiu e que quase me levou e, dois anos depois, de tanto andar de bicicleta nas enchentes que ocorriam no bairro, fiquei com hepatite infecciosa que novamente quase me levou. Sobrevivi e acho que já paguei contas que tinha de outras encarnações (risos). Ainda criança, vivia na casa de minha vó onde também morava meu tio. Ele estava sempre nos Estados Unidos, tendo morado lá, de onde trazia muitos discos que lá eram sucesso. Foi daí que conheci, mesmo sem ter essa consciência, da fonte que daria origem à trilha sonora do Hip-Hop – o Funk, o Soul e o Jazz. Por meio de meu tio, pude ouvir recém lançados os discos do Mandrill, Average White Band, Barry White Harold Melvin & The Blue Notes, O´Jays, Jacksons 5, Temptations, Tavares, Bob James, Cruzaders e onde tive também o primeiro contato com o som de James Brown com o disco “Hell” e de sua banda incrível, os JB´s, com o discos “Given´ Up Food For Funk”. Por causa das linhas de baixo pesadonas, gostava muito de ouvir estes discos toda vez que meu tio colocava na vitrola. Todos estes discos que ouvi quando tinha meus 8 anos, foi me presenteado por meu tio anos depois e ainda os tenho guardado na coleção até hoje. Mas meu primeiro contato com a faísca que acenderia o fogo para viver a Cultura Hip-Hop diretamente, foi por meio da música “Rappers Delight” de Sugarhill Gang, no início dos anos 80. Não tinha ideia que seria uma cultura naquele momento, para ser bem sincero, e que sequer me tornaria seu agente. Nesta época, pelo pouco acesso ao que seria Hip-Hop, pois só ouvia rádio, o que me atraía era a música e a nova forma de mensagem nela contida, que depois vim saber que era chamado de RAP.
BW: Você começou no Hip-Hop em 1985, correto? Como era ser DJ na década de 80? O que se tocava naquela época?
Heliobranco: Não é que comecei em 1985. Eu me dei conta disso nesta época, pelo envolvimento que tinha com a música. Eu tocava os discos que tinha na época – Afrika Bambaataa, Kurtis Blow, Sugarhill Gang, Grandmaster Flash – em festinhas de aniversário de familiares e amigos. Lógico que olhavam torto, mas como sempre fui “marrento”, para evitar bate boca, acabavam aceitando (risos).
BW: Como a sociedade via os DJ´s? Como era a vibe das festas e dos eventos?
Heliobranco: A cena dos DJ´s na década de 80 era muito seleta e elitista. Os DJ´s eram idolatrados, tanto pela Cultura “Discotheque”, vinda de New York e, também, pelo surgimento de rádios de Hip-Hop nos Estados Unidos, mais especificamente em New York, como a Kiss FM e a WBLS, dos famosos DJs Red Alert e Mr. Magic, respectivamente. DJ´s brasileiros se firmaram lá, como Tuta Aquino e Julinho Mazzei, onde lançaram verdadeiras obras de arte em vinil com sua série “Big Apple”, lançados por seu label “J&T”. Aqui no Brasil, conheci muito da trilha sonora do Hip-Hop pelas mãos dos DJ´s que tocavam na Band FM – 96,1, dentro dos programas diários com convidados, chamado “Mix Disco Ban”. Muitos DJ´s de renome tocaram lá, com destaque para Sylvio Muller e Iraí Campos e DJ´s das equipes de festas como “Furacão 200”, “Sunshine”, “Pop Corn”, “Toco”, entre outras.
BW: Que estrutura você tinha para trabalhar?
Heliobranco: Eu não tinha equipamento nenhum, era tudo tocado no famoso “3 em1” da casa em que eu estava e sem sequer ter ideia do que seria “mixagem” de uma música para outra. Eu colocava o disco pra tocar, esperava acabar a música e aí trocava os discos.
BW: Sua família te apoiava na sua profissão?
Heliobranco: Minha família nunca se envolveu ou deu qualquer pitaco no que eu fazia ou faço até hoje. Eles só observam e, claro, dão seu apoio indiretamente.
Banks, Heliobranco, Thaíde e Mancão no Encontro da São Bentos, em 2017
BW: Você fez algum curso para aprender o ofício de DJ ou foi tudo na cara e na coragem?
Heliobranco: Eu nunca fiz curso para DJ´s, mesmo porquê estes cursos surgiram mais seriamente no início dos anos 90, com a chegada do campeonato de DJ´s chamado DMC e eu já estava na pista antes disso. Em 1987, eu conheci um DJ, que na época tinha acabado de participar da mais respeitada coletânea de Rap brasileiro “Hip-Hop Cultura de Rua” e que nesta época também era famoso, por trabalhar com o famoso DJ Armando Martins da equipe de bailes Circuit Power, tocando na inesquecível rádio Brasil 2000. O nome deste DJ era DJ Ninja. Ele me deu os primeiros toques e direcionamentos sobre noção de compasso e principalmente de batidas por minuto (BPM) que a música possui e que é primordial para que possamos fazer uma boa mixagem sem distorcer a harmonia da música acelerando ou reduzindo muito seu “bpm”. A partir das dicas do DJ Ninja, comecei a me atrever a tocar em festas, fazendo mixagens e fui aprimorando de acordo com o espaço que tinha para tocar. Toquei muito na Baixada Santista, onde o pessoal curte dançar e isso me incentivou a procurar por este perfil de público, pois o público “Rap” não curtia muito dançar. E DJ que toca olhando para uma pista congelada, não tem vibe que segure. Isso fez com que eu aprimorasse também o aspecto “feeling de pista” que eu acredito que todo bom DJ deva ter para manter a pista fervendo e a casa funcionando, coisa que raramente percebo nos dias de hoje.
BW: Como surgiu o convite do MC Jack para participar do Grupo Radicais de Peso? Fale um pouco sobre esse grupo?
Heliobranco: O Radicais do Peso, na realidade, já era formado sem ter este nome pois, tanto eu, como Rooneyoyo, Ninja, Alambeat, GDO e o próprio MC Jack, nos encontrávamos rotineiramente na casa do DJ Ninja para trocar ideia, ouvir música e fazermos a famosa “família” para mixar. Para quem não sabe, “família” é uma espécie de jogo que criamos, que consistia em um de nós começar a tocar um disco, fazer uma mixagem e passar para o outro colocar novo disco e fazer nova mixagem. Se você pegasse o disco que ia tocar, colocasse no toca disco e não conseguisse mixar, já saía de cena. Como a gente tinha uma visão “radical” sobre o cenário político da época, culminando com o Presidente Collor sequestrando todo o dinheiro das poupanças do povo e também porque sempre tocávamos muito “peso” (que era como apelidávamos os discos que traziam as músicas com muito grave) nestes “jogos”, a criação do nome saiu meio quase que automaticamente. O Radicais do Peso foi um dos grupos que gravaram no início das atividades do Atelier Studio, do grande amigo Wander Carneiro, com apoio do DJ Kri e Gibass do Região Abissal. No Atelier gravamos “O Peso”. Gravamos também no estúdio do DJ Cuca, a música “Acerto de Contas”. Em 1991, a gravadora “Rhythym & Blues” abraçou as músicas que tínhamos prontas e lançamos o single “O Peso”, que trazia duas músicas e suas versões – “O Peso” e “Acerto de Contas” (vocal e instrumental).
Lançamento “Ameaça ao Sistema” do Radicais do Peso, em 1992. Heliobranco no toca-discos.
BW: Como era gravar um disco na década de 90?
Heliobranco: No final de 1991, era muito difícil você gravar um disco. Olhando por este aspecto, MC Jack utilizou seu prestígio. Por ser um grande nome ativo do Hip-Hop na época e ter ido muito bem no campeonato de DJ´s do DMC, conseguindo uma reunião, onde apresentou e firmou com a “Kaskatas Records” de Carlinhos K, a produção de um álbum completo para o Radicais do Peso, iniciando-se aí a produção do álbum “Ameaça ao Sistema”. Estávamos com dificuldade de encontrar alguém que ouvisse, respeitasse e seguisse nossas ideias e concepções e foi aí que nos deparamos com um amigo que dava seus primeiros passos como produtor musical e que era também fruto da São Bento e membro do grupo “Código 13”, que participara da coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua”. Me refiro à Mad Zoo. Eu, MC Jack & Mad Zoo produzimos o álbum “Ameaça ao Sistema”, em 1991, lá na Vila Zelina, onde depois de prontas as instrumentais, fomos para o estúdio Camerate, localizado em Santo André, para gravarmos as vozes, scratches e fazer a mixagem do disco. Neste disco, temos a participação especial de um dos ícones do rap da baixada santista, o Criminal D.
BW: Quando foi lançado o disco “Ameaça do Sistema”? Ele ganhou uma importante premiação, fale sobre isso?
Heliobranco: Em 1992, o álbum “Ameaça ao Sistema” é lançado, fizemos vários shows de lançamento, culminando com a premiação dada pelo programa “Dr. Rap” do DJ Armando Martins, como disco revelação daquele ano. Ressaltando que neste momento, já tínhamos Racionais MC´s, Thaíde e DJ Hum, Baseado Nas Ruas e muitos outros grupos lendários já em ação. Foi realmente um toque muito especial em nossa carreira como membros ativos da Cultura Hip-Hop.
BW: O nome que usava nessa época era “Mega”. Porque mudou?
Heliobranco: Eu nunca tive apelido e todos me chamavam de “Hélio” e ponto final. Só que nesta época da criação do Radicais do Peso, eu trabalhava em empresa de consultoria empresarial e de alguma forma tinha que me desvencilhar de meu nome, para poder andar livremente no underground. Numa ida à Campinas para assistir ao show de “Kool Rock Jay & DJ Slice” no Bahamas, durante o trajeto, dentro do ônibus da Viação Cometa, o famoso “Dinossauro”, começamos a falar em nomes que cada um poderia assumir dentro do grupo. Como eu gostava de um som mega alto e mega pesado, acabamos por colocar meu pseudônimo de “Mega”, assim como MC Jack teve o seu pseudônimo conhecido por “Dr. Hype Bass”, por ainda ter algum contrato com a gravadora Eldorado, detentora do álbum “Hip-Hop Cultura de Rua”, o que poderia trazer algum inconveniente para a gente. Hoje meu pseudônimo artístico é Heliobranco, sim, escreve-se tudo junto por ser tipo uma marca. Este nome deve-se ao fato de existir realmente um Hélio preto. Este Hélio preto trabalhava na mais famosa loja de discos importados dos anos 80 – a “Trucks Discos”. Sempre que ligavam lá perguntavam: “É o Hélio branco ou o Hélio preto?”. Observação: O Hélio preto era chamado de Babyface também, porque ele era muito parecido com o cantor norte americano. Um camarada muito fino e educado que nunca mais o vi.
Radicais do Peso na Virada Cultural em São Paulo, 2018.
BW: Conte um pouco da sua caminhada como DJ, produtor musical e produtor de eventos. Por onde passou, com quem trabalhou e eventos que produziu em todos esses anos.
Heliobranco: Eu tinha pouco tempo na época para me de dedicar a ser DJ, pelo fato de viajar muito a trabalho. As minhas experiências iniciais foram sendo DJ em festas de pequena e média frequência de público, pois eu encarava apenas como uma válvula de escape para soltar um pouco da pressão que recebia em meu trabalho profissional como consultor. Com o passar do tempo, fui me dando mais atenção em ser DJ, onde pude participar da maioria dos eventos criados pelo Rooneyoyo. Participei das primeiras “B-Boy Battle Party” de 1997 a 1999, que depois se tornou o maior evento de Breaking da América Latina – “Batalha Final”. Em 1999, voltei a viajar e me distanciei dos eventos. Voltei dentro do “Batalha Final” em 2003 e toquei até 2006. Como produtor musical, minha caminhada ficou mais séria do que a de DJ, onde no final de 1999, fui ser DJ de Criminal D em sua turnê de lançamento do álbum “O Conteúdo do Sistema”, lançado pela gravadora Trama. Nesta ocasião, MC Jack entrou para o cast de artistas e o convite para produzir seu disco foi automático. Em 2000, entrei no Atelier Studios e, com a grande ajudar do mestre Wander Carneiro, completava-se um ciclo iniciado com o Radicais do Peso em 1991 e que agora tomava uma forma mais sólida e profissional, uma vez que eu tinha contrato de produção com a Trama. A partir deste momento produzi muitas músicas que nem lembro mais, para uma cena underground de rappers da periferia – que é a minha preferida. Produzi também um single para a atleta da seleção americana de vôlei, Danielle Scott e também um single para o recém campeão mundial de vôlei, Sérgio Escadinha. Como produtor de eventos, eu tenho muito pouco a falar pois sempre trabalhei como DJ convidado. Contudo, em 2007 fui convidado por André Rockmaster para formar com ele a equipe de produção e execução da “Rockmaster Party”, projeto voltado ao resgate da dança nas baladas noturnas, onde fui DJ residente de 2007 até 2012, momento que senti que minha missão neste projeto estava concluída.
BW: Você produziu trilhas para os B-Boys da Tsunami All Stars. Fale desse trabalho e da responsabilidade do DJ na hora de criar algo para profissionais de dança.
Heliobranco: Com a experiência que ganhei dentro da “Rockmaster Party” e também pelo conhecimento musical que já tinha dentro do Hip-Hop, não foi muito difícil alinhar com um time de alto nível, B-Boy Kokada, B-Boy Catatau, B-Boy Pelezinho, B-Boy Neguin, B-Boy Aranha, o formato musical para que pudessem expor toda sua arte. Em 2008, produzi a trilha sonora utilizada pelo super time de B-Boys vencedores do “Battle of The Year”, que os levou à Alemanha. Produzi também a trilha sonora, juntamente com o memorável DJ Primo, para a coreografia de abertura da participação da Tsunami All Stars na Coreia, em 2009, se minha memória não falha.
DJ Heliobranco no Programa Manos e Minas, TV Cultura, 2010.
BW: Você foi o DJ do B-Boying do Brasil. Fale sobre.
Heliobranco: Sim, fui o DJ que juntou forças a outros DJ´s e que fortaleceram o projeto do visionário Rooneyoyo para, aí sim, criar toda uma cena profissional e respeitada do que seria, para nós, o “B-Boying” (e já fui criticado porque eu ainda chamo de breakdance – risos). Eu ainda acho que trabalhamos com muita energia e determinação para isso se fortalecer, mas como no Brasil a cultura da cópia do que é bom nunca é seguida à risca, vi muitos projetos cópia surgirem, brilharem por pequenos períodos e serem sepultados sumariamente.
BW: Como você vê hoje o trabalho de DJ e o que era feito na década de 80? Mudou muita coisa? Para melhor ou para pior?
Heliobranco: O que noto de diferente são duas coisas: 1 – Os equipamentos hoje facilitam demais a apresentação de um DJ, focando na vibração da pista, onde antes a coisa era mais visceral, olho no olho, suor no chão e muita, mas muita pesquisa e repertório para ser o diferente; 2 – Os equipamentos facilitaram tanto a apresentação de um DJ, que eles se tornaram “robots” à mercê de botoeiras infinitas e que, em muitos casos, desprezam a vibração da pista em prol de uma ginástica absurda demonstrada em coreografias ridículas mexendo nessas botoeiras, ao invés de demonstrarem repertório e pesquisa.
BW: O que acha dos DJ´s da nova geração? Quais são os novos desafios?
Heliobranco: Não tenho muito a falar sobre DJ´s da nova geração. Pertenço à uma casta de DJ´s “vibeiros”, que curtem tocar pelo prazer de ver seu público dançando até não aguentar mais. Por este motivo, vejo que o trabalho de um DJ da nova geração tenderá a se tornar pífio e sem importância, pois o DJ hoje se baseia num playlist de provedores de música que apontam o que mais estão ouvindo. Não tem vibe sua apresentação. Não olham e nem sentem a reação do público quando tocam. E o mais fatal de todos eles: os DJs agindo desta forma, favorecerão que qualquer um faça de graça o que ele cobra pra fazer, coisa que já vemos por ai, muito ao contrário do que nós encontramos no início. Mesmo assim, acredito que o DJ da nova geração que sobreviver terá o seguinte desafio: tocar o que as pessoas querem realmente ouvir e que arremate em seus corações e pernas, que poderá não ser o seu playlist de Spotify ou Deezer.
Foto que deu a ideia de montar o “SP Hip-Hop All Stars”.
BW: Fale sobre o “SP Hip-Hop All Stars”, como surgiu a ideia desse trabalho? E como foi reunir num único CD todos esses grandes nomes do Hip-Hop Paulista? Quanto tempo levou para produzir esse trabalho?
Heliobranco: A faísca do projeto “SP Hip-Hop All Stars” surgiu quando muitos dos nomes que hoje compõem o projeto, fizeram seu show na Virada Cultural realizada no Parque Dom Pedro, em 2008. Após tirarmos uma foto com boa parte dos participantes daqueles shows, fiquei pensando sobre como poderia juntar todos ou a maioria, num projeto musical que seria histórico. Deixei isso guardado até em 2010, numa conversa via Messenger junto a MC A, do Doctor MC´s e MC Jack, perguntei sobre o que eles achavam de criar um projeto neste sentido e eles me incentivaram na hora em seguir e fazer as produções, que pelo menos eles dois estariam dentro. Em 2010, passei a entrar em contato e confirmar quem estaria disposto a participar. Naquele momento, consegui o apoio de Sampa Crew, Grandmaster Fish, Big Flea, Região Abissal, Mike (da dupla com Pepeu), $mokey D, M.T. Bronks e também de um ídolo da Old School que havíamos trazido em 2008 para fazer um show no Memorial da América Latina, T La Rock, o primeiro artista a ser lançado pela gravadora Def Jam. Além, é claro, de MC Jack, MC A e até mesmo do próprio Radicais do Peso! Levei 2 anos produzindo o disco, vendi meu carro pra pagar a prensagem e em 2012 o álbum “DJ Heliobranco apresenta SP Hip-Hop All Stars – Beats 80´s” foi lançado, com 18 músicas inspiradas na musicalidade do Rap dos anos 80. Neste ínterim, produzi músicas que foram lançadas em discos na Europa pela gravadora CBR Electro Underground, no álbum “CBR Electro vol 2” em 2012, “CBR Electro vol 4” em 2016 e do álbum “Underground Electro”, em 2018. Em 2014, produzi e lancei junto com DJ Cleston, do single “Serenity – Sacrifice”, que virou hit nas pistas de dança que curtem o gênero “freestyle”. Nos Estados Unidos, pela gravadora Cut It Up Def, em 2013, participei do single “Subway”, em 2015 participei do álbum de “Afrika Bambaataa – What You Want” e também participei do DVD “The Bass That Ate Miami” lançado em 2016, onde também fiz a tradução e narração para a versão em português que está disponível no YouTube. Em 2018, fui contratado junto com o DJ Cleston, pela gravadora Ground Control da Alemanha, para a produção do artista “Kyper”. Voltando ao projeto “SP Hip-Hop All Stars”, em 2015 planejei fazer o volume 2 do álbum, com alguns artistas que fizeram parte do volume 1 e agregando outras lendas do Hip-Hop paulista e com alguns convidados muito especiais. Com uma ideia inicial de fazer pelo menos 18 músicas, como havia feito no primeiro, acabei por fazer 35 músicas, tamanha foi a vontade de grandes nomes em participar, como também, daqueles que estiveram na luta lá atrás. Em 2016, inicio a produção do volume 2, onde levei 2 anos para finalizá-lo, pagando todos os custos de meu bolso, seja por meio de permutas ou de dinheiro vivo. Com isso cheguei a um cast respeitável, composto de Nelson Triunfo, Thaíde, Pump Killa, DJ Erick Jay, Catito, Electric Boogies, Sampa Crew, Doctor MC´s, Mr. Rizada, Sharylaine, DJ Gato Magro, Kuryña G-Funk, Apelidado Xis, DJ Alpiste, Grandmaster Fish, Rappin Hood, MC Eddie, Big Flea, Ellypretoriginal, DJ Dehco, Branco P9, Piveti, Radicais do Peso, Junior D, Paulo Break, Tchello Rock, Falcon, DJ Jamaika, Rivas, James D, DJ Cleston, Slow Dabf, Filosofia de Rua, Mike, Visão Urbana, Pepeu, Frank Bruno (Black Jrs.), Ieda Hills e das pessoas que mais me fizeram ser Hip-Hop em minha vida e que foram convidados especialíssimos: Afrika Bambaataa, T La Rock e T Boyz DL. Em 2018, o álbum duplo foi lançado e consolidava-se assim o projeto em suas propostas de resgate de toda uma geração de pioneiros que desbravaram palcos e espaços que não eram nossos mas que, com seu trabalho e perseverança, implantou toda uma geração na história do Hip-Hop brasileiro. E está aí mais um registro marcado na história!
Tarde de Autógrafos “SP Hip-Hop All Stars”, em 2018.
BW: Em 2019, você foi um dos contemplados com o Prêmio Sabotage, feito pela Câmara Municipal de São Paulo. Como foi receber um Prêmio tão importante na cena? O que sentiu naquele momento?
Heliobranco: Nunca é fácil ser contemplado pelo que você faz no Brasil, ainda mais dentro do Hip-Hop e ainda mais ainda sendo DJ. Conhecia o Sabotage antes mesmo dele gravar seu primeiro disco e lembro bem quando ele já estava sendo reconhecido pelo seu disco recém lançado, onde fomos fazer o lançamento do disco do MC Jack e ele estava lá como convidado. Isso foi em 2001. Lembro dos comentários e dos toques que MC Jack deu à ele e de sua risada acanhada por receber tão sábios conselhos de quem já estava lá. Com isso na cabeça e sabendo da força que Sabotage tem até hoje nas camadas mais sofridas da sociedade e que é onde justamente o Hip-Hop está e sempre precisa estar, receber este prêmio é algo que compartilhei no momento em que recebi com todos os presentes e que até hoje faço questão de compartilhar. Um DJ não toca para si. Ele precisa de audiência. E foi esta audiência que me respondeu positivamente ao me conceder a honra de receber tal premiação. Infelizmente, muita gente de boa expressão não prestigia este prêmio, só porque ele é promovido por um órgão governamental e entregue em suas instalações. Eu sinto que muitos acham que é comédia ser premiado pela prefeitura. Eu não penso assim e acho que quanto mais perto estivermos de órgãos governamentais, quanto mais dentro de suas instalações estivermos e ainda por cima recebendo prêmios, mais relevantes seremos no momento em que pleitearmos algo para a Cultura Hip-Hop. Com o maior respeito eu digo: muito obrigado pelo prêmio! Não é comédia ser premiado como agente ativo do Hip-Hop.
DJ Heliobranco, vencedor do “Prêmio Sabotage 2019 – Categoria DJ”, na Câmara Municipal de São Paulo.
BW: Nesse período de pandemia, o que você tem feito? Tem trabalhado em algo? O que pensa sobre esse momento que estamos vivendo?
Heliobranco: Neste ano de 2020, já tinha planejado fazer um projeto musical dentro do “SP Hip-Hop All Stars, junto com meu brother Ellypretoriginal, fora do espectro que envolve o apelo do projeto, mas sim, explorando outras tendências musicais e o talento do pessoal do projeto. Com isso tudo que estamos passando, tive que segurar e possivelmente no início de 2021 voltaremos com tudo. Ainda neste ano de 2020, provavelmente em outubro, sairá mais um álbum na Europa em que faço parte junto com T La Rock. Fora isso, presto serviços de mixagens e masterização de músicas dentro do universo Hip-Hop. Estamos passando por um momento único de experiência em nossas vidas. Experiências quase que de guerra. Só que não temos inimigos disparando balas contra nós, jogando bombas em nossas casas ou tomando nosso território. Nosso inimigo é altamente perigoso por ser invisível e por ter se tornado matéria de manipulação política. Por isso eu digo: sem vacina, não há distância social, máscara, cumprimento com cotovelo ou o que seja, que vá evitar que qualquer um de nós possa ser contagiado e até mesmo vitimado. Não confie em nada que te disserem até o dia em que você for vacinado. A partir deste momento, começaremos a retomar nossa realidade.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
Heliobranco: Não tenho muitos planos para o futuro. O futuro não existe. Só existe o hoje e o agora. Faço o agora se realizar. Mesmo assim, dentro de minha cabeça penso em lançar o “SP Hip-Hop All Stars volume 3”, com novos convidados que fazem parte da história do Hip-Hop, depois que lançar o projeto intermediário que envolve o pessoal do projeto, que já mencionei acima. É isso aí pessoal. São raras as minhas entrevistas. Não curto muita exposição de minha vida, apesar de saber que crio produtos públicos. É complicado e eu sei… (risos). Fica aqui minha mensagem para vocês que vivem o Hip-Hop 24h por dia: “Quando você estiver triste e passar ou entrar em algum lugar que o faça se sentir feliz, procure saber quem está tocando, certamente será DJ Heliobranco namixxx”.
Fotos: Arquivo Pessoal
Discos Produzidos e Lançados
CBR volume 2, 2012
Subway, 2013
Afrika Bambaataa, 2015
Afrika Bambaataa, 2015, Rótulo
CBR volume 4, 2016
CBR, 2018
Kyper, 2018
Serenity, 2018
Radicais do Peso
Ameaça ao Sistema, 1992
Case-RDP, 1992
DJ Heliobranco no microfone, Virada Cultural, 2008
Lançamento "Ameaça ao Sistema", MC Jack, Rooney e Keliobranco, 1992
RDP, 1992R
Reunião do RDP, 2013
Single "O Peso", 1991
RDP na Virada Cultural, 2008
SP Hip-Hop All Stars
SP Hip-Hop All Stars Volume 1, 2012
Casa do Hip-Hop de Diadema, 2012
Lançamento do SP Hip-Hop All Stars, 2012
Heliobranco e T La Rock, 2012
SP Hip Hop All Stars Volume 2
Hip-Hop All Stars no Teatro Sergio Cardoso, 2017
SP Hip-Hop All Stars, 2019
SP Hip-Hop All Stars, 2019
Tocando Por Aí...
Produzindo o Disco de MC Jack e Show Blen Blen, 2001
Show Criminal D - Blen Blen, 2000
Batalha Final, 2004
Rockmaster Party 2007
Rockmaster Party, 2008
Batalha Final, 2009
Impacto de Estilo, 2016
Virada Cultural, 2017
Festa no Portal do Cambuci, 2018
Festa no Portal do Cambuci, 2018
Projeto Som do Bom, 2018
Encontro da São Bento, 2019
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Jay-Z é um dos maiores artistas da Cultura Hip-Hop, empresário de negócios e também vencedor do Grammy, o Rapper está investindo e acreditando na nova geração de líderes da indústria da música no Brooklyn, local onde nasceu. Esta semana, sua empresa, a global de entretenimento Roc Nation e a Universidade Nacional de Long Island (LIU) anunciaram uma parceria para lançar a Escola Roc Nation de Música, Esportes e Entretenimento.
A nova escola, que neste outono começará a aceitar alunos para o semestre de outono de 2021, no campus da LIU no Brooklyn, está oferecendo a 25% dos calouros que ingressam uma bolsa Roc Nation Hope, para apoiar uma educação sem dívidas.
Isso acontece a partir da primavera de 2021, quando serão oferecidas bolsas de estudo para estudantes do ensino médio e os programas de sábado, durante todo o ano, para crianças de 10 a 18 anos. Essa ação tem o objetivo de inspirar jovens talentos a se transformarem em gestores de música e esportes.
A escola Roc Nation do Brooklyn oferecerá cursos de graduação em música, tecnologia da música, empreendedorismo e produção e gestão esportiva. Os alunos construirão uma rede de contatos profissionais por meio de visitas de artistas convidados e palestrantes, estágios imersivos e experiência prática em vários campos.
“Esta parceria, prevista ao lado do presidente da LIU, Dr. Kimberly Cline, é um verdadeiro investimento em nossa comunidade e jovens no Brooklyn, na cidade de Nova York e além”, disse o CEO da Roc Nation, Desiree Perez, em um anúncio.
Rapper Jay-Z faz parceria com universidade e funda a Roc Nation
Animado com o fato de que a Escola de Música, Esportes e Entretenimento da Roc Nation fornecerá ideias, conhecimentos e experiências únicos para os alunos e apresentará ao mundo a próxima geração de talentos inigualáveis, Brett Yormark, presidente de operações e estratégia de negócios da Roc Nation, diz que a empresa mantém um relacionamento de trabalho de longa data com a LIU e música e esportes continuam sendo uma prioridade para Cline e o Conselho de Administração da LIU.
Ele também diz que a expansão além da nova escola do Brooklyn em colaboração com a LIU seria considerada. “Nossa proximidade dentro e ao redor do epicentro musical e esportivo da cidade de Nova York claramente nos posiciona para oferecer aprendizado experiencial incomparável e acesso a oportunidades profissionais que levarão os alunos ao sucesso”, disse Cline em um comunicado. “Estamos ansiosos para nos juntar à Roc Nation para oferecer um recurso educacional sem precedentes que abre o mundo do entretenimento e esportes para uma geração nova e ansiosa”.
Tanto as bolsas de estudo quanto os programas da nova escola capacitarão alunos que, de outra forma, nunca seriam expostos ou consideraram uma carreira na música, dado o declínio constante da educação artística em meio a cortes no orçamento das escolas americanas.
Os programas de música comunitária também mantêm os alunos conectados às artes. Michael Sticka, presidente do Grammy Museum, a fundação oficial da Recording Academy que supervisiona as iniciativas educacionais da academia, concorda que a comunidade musical deve se unir e ajudar a preparar seus futuros líderes. Ele declara: “Como líder de uma organização sem fins lucrativos cuja missão é apoiar a educação musical, estamos sempre entusiasmados em conhecer novas escolas e programas que vão inspirar a próxima geração de criadores e líderes da música”, conclui.
Fotos: Divulgação
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Segundo estudos de experts no assunto, fonoaudiólogos, conseguem comprovar anatomicamente que a voz negra (preta) é mais potente que as demais.
Vou começar mencionando alguns nomes que fizeram e ainda fazem história no cenário musical: Milton Nascimento, Jair Rodrigues, Cassiano, Robson Jorge, Elza Soares, Fat Family, Tim Maia, Seu Jorge, Luís Melodia, Ed Mota, Robson Nascimento, esses são alguns exemplos de vozes negras (pretas) de destaque no cenário musical do Brasil.
Há também uma infinidade de artistas internacionais, tais como: Barry White, Stevie Wonder, Marvin Gaye, Louis Armstrong, Aretha Franklin, Betty Wright, Minie Riperton, Patrice Hushen, Whitney Houston, Rihanna, Alicia Keys, Beyoncé.
Comprovadamente, a voz negra (preta) é mais ressoante, mais potente, perceba nos exemplos que citei, na sua maioria tendem a ser mais graves e carregam uma aspereza característica, além de ter milhares de possibilidades melódicas.
Essa potência e diferencial foi explicada por meio de estudos, diversos trabalhos foram elaborados, analisando e comparando características fisiológicas, anatômicas e vocais da raça negra (preta) para as demais, o que mais chama a atenção são que os pretos têm músculos mais fortes, mais largos que os brancos, o que favorece absurdamente a potência vocal.
Para toda a regra existem suas exceções e podemos citar o “Rei do Pop”, Michael Jackson, como essa exceção, voz extremamente aguda, que foi desenvolvido um trabalho desde sua infância, ainda com os Jackson Five, para manter a voz de criança, mesmo depois de adulto, um mestre na dança e no canto.
Vale ressaltar que as vozes negras (pretas) são mais potentes por um conjunto de fatores, mas a música não tem cor, ela não segrega e tem espaço pra todos.
O melhor caminho? Além de primeiramente ter um dom e amor ao que faz, estude, conheça seu corpo, para poder utilizar técnicas que irão te levar à excelência, cante e espante todos os males, esse é o melhor remédio, ah, e sem contra indicação!
Foto: Reprodução
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Esta semana comemoramos o “Dia do Rap Nacional”, graças à Lei 13.201/2008, o Portal Breaking World, comemora esse dia apresentando uma entrevista lendária feita por nossa editora com o MC e letrista W-Yo, do grupo “RPW”, em 2009.
Sem dúvida, o Rap brasileiro é um divisor de águas, seja pelas inovações musicais ou pela capacidade de dar voz às pessoas, mostrando sua visão de mundo sobre a realidade e se fazendo visível e atuante numa sociedade que insiste em negá-la e renegá-la ao silêncio.
O grupo “RPW” cumpriu sua missão e deixou um legado para a nova geração. Obrigada Rubia, DJ Paul e W-Yo pelo trabalho de vocês. Vamos em frente, viva o Rap Nacional!
Leia a matéria:
BW – O grupo “RPW” foi criado em 1991, correto? O que faziam antes da união? Já eram amigos? Conte um pouco da história de vocês. E quando tiveram o primeiro contato com a música?
W-Yo – Nascido e criado em “Sampa” mesmo, aos 13 anos já tocava bateria em uma banda de Thrash Metal, aliás, conheci a Black Music pelo Rock (B.B. King, Louis Armstrong, Chuck Berry e outros). Aos 15 anos, na extinta casa “Toco” (Zona Leste de São Paulo), um dia, ouvi e vi o vídeo clipe traduzido do “Public Enemy – Fight the Power”, foi o que precisava. Voltei pra vila lembrando o nome do grupo, depois, conheci “Racionais MC’s” (Holocausto Urbano) e disse: É isso que quero fazer! Já tinha o dom da rima e comecei a aprimorá-la enquanto saía para pichar, de 1987 a 1992, com meus amigos, fazia Raps com os nomes dos pichadores da época. Montei meu primeiro grupo, “Crime Perfeito” e comecei a me apresentar aqui no lado oeste, aí o produtor Fabio Macari me apresentou para a Rubia e comecei a dançar para ela, logo depois, como escrevia também, ela me deixou fazer alguns backings, até adquirir independência no grupo.
Rúbia, DJ Paul e W-Yo: “RPW” está na área!
BW – De quem foi a ideia de formar um grupo de Rap? Como era rimar nos anos 90? Tinha alguma diferença do que é feito hoje?
W-Yo – Sem dúvidas, o nosso primeiro hit (“Pule ou Empurre”), montamos junto com o Fabio Macari no meio da sala da minha mãe, deck de rolo, loops emendados com esmalte, quando com muita conversa o DJ Armando Martins (“Projeto Rap Brasil – Metrô FM”), começou a tocá-la. Lembro que íamos todos, cada um de um orelhão (de ficha… risos) ligar pra pedir a música, inventávamos nomes e bairros diferentes para que o som rolasse com frequência (risos e um gole na cerveja).
BW – Houve influências no trabalho de vocês? De quem ou de que grupos? O que vocês escutavam?
W-Yo – (Um gole) Sem dúvidas, RPW é original e criou o estilo “Bate-Cabeça” no Brasil pela diversidade de influências, cada um dos três veio e curtia uma época, então somamos tudo, minha contribuição veio com o Rock, Hardcore, Rap e Crossover. Como vivi a época Skate Punk no final dos anos 80, trouxe e incluí muitas influências de sons que curti e curto até hoje.
BW – No seu caso é verdade que foi pichador no passado? Que lembranças tem dessa época? Porque escolheu a sigla M.O.R.T. na época e como foi a mudança para W-Yo?
W-Yo – Legal! (risos) Então, na verdade comecei com esse vandalismo em meados de 1985/86, com canetão nos bancos de ônibus trabalhando como office-boy, depois, “evoluí” quando um amigo do colegial me levou para o “point”, na época era o Mc Donald’s do Borba Gato, lá comecei a sair para pichar com spray e me “profissionalizei” (risos). A sigla era uma música da minha banda “Madness Of Riot Testy” (cantávamos em inglês), tenho mais lembranças boas do que ruins, amigos até hoje, já com filhos e filhas como eu, na rua e madrugada aprendi muito as regras do jogo e a nota triste foi ir pra “Febem” e minha mãe me ver naqueles trajes, foi foda, jamais esquecerei. Daí, quando o W-Yo surgiu, comecei a conciliar as duas “pessoas”, sempre agradeci os pichadores, que são uma fatia grande do nosso público até hoje e tem muito pichador que me conhece mas não sabe que eu sou o W e muito rapper que pica e não sabe que eu era o M.O.R.T. (risos).
O grupo “RPW” sempre teve um grande público de praticantes do Skate
BW – O grupo teve importantes participações em grandes shows. Pode falar dessa época, dos principais eventos e baladas?
W-Yo – Poxa… (um gole)… Graças a Deus foram vários eventos e grandes shows, lembro de alguns: ser o primeiro grupo de Rap paulista a cantar no extinto “Olympia”, na abertura para o “Cypress Hill” na primeira vez que eles vieram para o Brasil, junto com o “Planet Hemp”. Ganhar o prêmio “DJ Sound Award’s 95” na categoria de melhor grupo de Rap nacional, onde uma atriz global (não lembro o nome… risos…) nos entregou o prêmio e nos divertimos muito nessa noite no “Tom Brasil”. O festival no campo de marte, “300 anos de Zumbi” com vários outros grupos. O clássico evento no extinto palco do Vale do Anhangabaú, onde caiu “mó chuva” quase no final. Participar da primeira edição do “GAS Festival” no palco Skate junto com a banda “Strike”. Cantar no “Mundial Brasileiro de Skate” no Ginásio do Ibirapuera, e assim vai…
BW – Vocês criaram o “Estilo Bate-Cabeça” no Rap Nacional, como foi isso? Explique esse estilo para quem não conhece. Receberam muitas críticas na época?
W-Yo – Sim, nós o criamos aqui no Brasil, isso foi devido a influência do grupo americano “Onyx”. Como já vim do Thrash Metal, acostumado com o fluxo entre público e artista, quando no Rap vi que na maioria das vezes, o que o MC falava, o público só confirmava, mas sem muito entusiasmo, daí pensei: Porque não fazer isso no Rap também?!? Aí quando vi o clipe da música “Slam” (“Onyx”), falei: é isso aí! Escrevi a letra de “Pule ou Empurre” no ônibus e cheguei no ensaio com base e tudo… risos… Apresentei pra Rubia e o Paul, no começo eles torceram o nariz, mas aí foram vendo que era o começo de uma nova tendência, aí começamos a fazê-la nos shows e a receptividade começou a fluir como eu queria, isso antes de gravá-la, em cima de base gringa mesmo. Demos o nome de “Bate-Cabeça” (todos pulando e se batendo no bom sentindo, mais com consciência, sem fazer disso uma briga) e a principal ideia é justamente fazer esse “funnyfluxo” divertido entre artista e público, dando chance a todos de curtirem o show, como se sentir bem. No começo houve várias críticas de resistência como: “Isso não faz parte do Hip-Hop”, “isso é só modinha, vai passar”, “o Rap não é brincadeira” e assim foi. Precisamos em uma época fazer um show com Thaíde e GOG no antigo “Santana Samba”, para apaziguar os bate-cabeças e os breakers, pois quando abria a roda, uns queriam moinho de vento e outros pular (risos). Na maioria dos shows também, tínhamos que pedir para quem fosse curtir, tomar cuidado com quem queria ficar de boa nos cantos para não dar briga, parecia manual de instrução (risos).
BW – Fale sobre a discografia do grupo, das músicas de trabalho e das participações especiais. Qual a música do “RPW” que foi mais conhecida e difundida nas rádios?
W-Yo – Orra! (dois goles grandes) Essa foi pesada heim!? (risos). “Coletânea Mov. Hip-Hop” (1992), “Pule Ou Empurre 12” (1993), “RPW… Está Na Área” (1996), “RPW Ao Vivo” (1996), “A Luta Continua, O Real Bate Cabeça” (2000) e “Talento Não Morre, Recicla” (2006). Essa é a discografia original, fora inúmeras outras coletâneas, muitos hits cravados desses álbuns e participações nas produções, como nas músicas, somam nomes de peso como: “Branco”, “Ugly C.I.”, banda “Ambulância”, banda “Calibre 12”, “DJ KLJay”, “Nill”, banda “Maguerbs”, “Thunder (ex P9)”, “DJ Cia”, “CCO” e algumas outras.
Reprodução da capa do CD “RPW… Está na Área!”, um clássico do Rap Nacional
BW – Como ficou a formação do grupo depois da saída do DJ Paul? Como foi a adaptação e aceitação do público?
W-Yo – Certo, na verdade eu e a Rubia optamos por duas formações do “RPW”, a primeira forma mecânica clássica, somando nós dois e um DJ contratado. Outra é com banda nos lugares e festivais que deem estrutura para isso, achamos interessante porque o “RPW” sempre tocou em festivais e campeonatos de Skate com outras bandas e as vezes a potência do som mecânico não chegava igual acústica e agora é de igual pra igual, essa formação de peso é: Oscar Cake na bateria (banda “Calibre 12”), Ricardo Q-Pam e Tobéx, respectivamente, guitarra e baixo (banda “DeCore”). Quanto ao público, num show de estreia dessa formação na casa Hangar 110 em São Paulo, curtiram e aprovaram, pois, sempre fizemos crossovers com bandas e usamos samples sujos com guitarras.
BW – Em uma entrevista, você falou sobre “A perda do respeito da hierarquia da história pelos jovens que estão começando”. Declarou: “Isso pode prejudicá-los no futuro e pôr em vão toda a correria que foi feita por nós lá atrás. Quem está chegando agora precisa de referências, o que não está acontecendo”. Acha que esse problema ainda ocorre? Como vê o Rap que é feito hoje? O que considera bom e ruim?
W-Yo – Sem dúvidas (gole), isso ainda ocorre, pois com a facilidade que a tecnologia moderna dá às pessoas que querem fazer Rap, a maioria faz um trabalho mal elaborado e sem qualidade, na ansiedade de ter “algo gravado” e também faz o jogo da gravadora monopolizadora (105FM) a “Telefônica do Rap”, vendendo às vezes até carro ou algo assim para tocar por um mês e nisso sem perceber, cai nos braços dos mercenários, não se importando com a base sólida da história, hoje o Rap está definhado, perdido. O que era o termômetro hoje não é mais nada, os interiores paulistas e outros estados um dia debochados por muitos, crescem (como nunca pararam) e mostra à nave mãe como se pode trabalhar de uma forma humilde e sem demagogia. Bom? A internet hoje conecta Rappers do mundo todo para fazer música e eu sou prova disso, com parcerias com China, Hungria, República Dominicana, Espanha e Alemanha. Ruim? A nova rapaziada chegar agora, sem referência nacional como nós dos anos 90 temos e com isso não conseguiram dar sequência na corrida, o bastão foi passado mas caiu no chão, tocar na rádio não é ser artista (lembro do Facção: “Artistas de um mundo que não existe…”). Enfim, o Rap em São Paulo está um lixo!
BW – No passado, “Urbania” era um lugar para fazer música e rever os amigos? Comente.
W-Yo – Nossa! (outro bom gole) “Muiiiiiiiiiiiito bom” sempre falar do “Urbania”, uma casa diferenciada dos anos 90 em SP, destinada a molecada Skatista, que curtiam um bom som alternativo e queriam extravasar no fim de tarde de domingo. Foi lá que nos apresentamos a primeira vez para Skatistas de verdade, antes de gravar a “Pule Ou Empurre”, lá criamos nossa personalidade musical e nosso público direto, o alternativo. E gravando o primeiro disco (“Pule Ou Empurre”), não pensamos duas vezes no local de lançamento, a Alva Footwear e a Dekton Skates, que nos patrocinavam na época, garantiram os cem primeiros fãs a entrar de graça no pico e podendo ainda fazer uma sessão no mini ramp ao lado do palco, foi uma tarde frenética e hoje temos contato direto com esse mesmo público nos campeonatos de Skate de todos segmentos, festas de marcas, lançamentos de DVD’s, revistas do gênero e inaugurações de pistas de skate.
Entre um gole e outro, W-Yo falou sobre o cenário do Rap na época do “RPW”
BW – Como você vê o movimento Hip-Hop? Acha que no caso do Rap ainda existe muito a se conquistar?
W-Yo – No caso do Brasil, sempre teremos muito a conquistar, estamos avançados até, mas o ego e o orgulho nos impede e muito de sermos muito mais fortes, nem temos noção disso.
BW – Fale sobre os clipes do grupo. Onde foram feitos e transmitidos.
W-Yo – O primeiro clipe oficial do grupo é a música “Pule Ou Empurre”, de 93, aí saíram também o “RPW Está na área”, para um programa esportivo de canal fechado e muitos outros independentes disponíveis no canal YouTube.
BW – Sobre um dos trabalhos de vocês, o que quiseram dizer com “Talento não morre, recicla”?
W-Yo – O título surgiu de uma conversa entre o grupo, e falávamos sobre a necessidade de se reciclar e renovar. Daí surgiu a frase e casou perfeitamente com o que queríamos transmitir ao nosso público. Que o talento é eterno e se renova. As participações foram do “Branco”, que somos fãs de carteirinha, na música “Estilo de Vida” e as produções dos DJ’s Cia e KLJay. Foi muito divertido e legal a gravação desse último álbum, pois tivemos experiências com produtores que nunca tínhamos trabalhado antes, estilos diferentes e amigos de longa data.
BW – Em todos esses anos, o que gostariam de esquecer para sempre?
W-Yo – Esquecer… hummm… Acredito que o estresse interno do grupo que tivemos no show de lançamento do disco “Sobrevivendo No Inferno” do “Racionais”, no “Ginásio do Corinthians”, onde o cronograma foi alterado de última hora e deixando o penúltimo bloco que eram “RPW”, “Doctor MC’s”, “Consciência Humana” e “GOG”, se não me engano, para último bloco após os shows de “Thaíde” e “Racionais”. Isso foi foda, tocar para umas 100 fiéis pessoas das 5.000 que estavam no local, com luz acesa e rapaziada desligando os cabos, afetou nosso psicológico e quase acabamos o grupo. Mas ainda bem que fomos fortes.
BW – Deixe um salve para os nossos leitores!
W-Yo – Quero agradecer ao nosso público fiel que sempre nos acompanhou, minha eterna gratidão! E pedir pras guerreiras e guerreiros do Hip-Hop que não abandonem a causa e nem deixem a cultura se perder. O futuro está nas mãos de vocês, eu em breve me aposento! Abraços! A toda equipe do portal pelo convite e atenção, importante esse trabalho continuar com personalidades da velha escola, assim os novos conseguem saber um pouco mais da história que foi feita e quem levou tapa na cara por eles, não peço amém, mais sim um pouco de respeito! A todos Skatistas, Pichadores, Grafiteiros, Tatuadores, Punks, Heavys, Darks, Surfistas, enfim, todos que direta ou indiretamente apoiam “RPW”. Aos fãs que a internet nos apresentou no mundo, como na Alemanha, Japão, China, Espanha, Hungria, Argentina, Austrália e Portugal… Qualquer dia estaremos por esses lados, U.B.C. até o fim… Abraços, beijos, muito sexo, cerveja, Skate, Rap e Hardcore, sempre!
Em 2017, depois de 25 anos de trabalho, o lendário grupo de “Bate-Cabeça” anunciou em sua “fanpage” o fim dos trabalhos, escreveram: “RPW é esse ciclo, que hoje se encerra, após 25 anos de trabalho em conjunto, companheirismo e muita vontade de mudar a vida das pessoas através da música. Se alcançamos o objetivo, não sabemos, mas com certeza a vida de Rubia, DJ Paul e W-Yo se transformaram graças a esse intenso e belo ciclo chamado RPW. E cada um levará a bagagem adquirida para seus projetos individuais daqui pra frente, sempre com muito respeito aos fãs e principalmente ao Hip-Hop, essa grande mãe que salvou e salva vidas pela arte e militância”.
Na semana do “Dia do Rap”, no ano de 2020, é uma honra para o Portal Breaking World republicar essa matéria feita por nossa editora, que na época era só uma repórter! Salve W-Yo e “RPW” pela oportunidade e vida longa ao Rap Nacional!
Fotos: Cristina Sininho Sá/Reprodução
"RPW" viajou por todo o país
W-Yo
W-Yo e Rubia
Rubia, W-Yo e DJ Paul
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O que sobra para as crianças da periferia? Os bares, as igrejas, as lajes para empinar pipas, os parques, as feiras, são os únicos locais socioculturais da quebrada, nessa realidade é um desafio não perder os jovens para o crime e tráfico.
Mano Brown, do grupo “Racionais MC´s”, já citava no Rap “Fim de Semana no Parque”: “O investimento no lazer é muito escasso e o Centro Comunitário é um fracasso, mas aí, se quiser se destruir está no lugar certo; tem bebida e cocaína sempre por perto, a cada 100, 200 metros nem sempre é bom ser esperto”.
A música de Brown retrata o perigo sempre presente nas periferias e o descaso do governo diante de tudo. Mas a terra sofrida, regada muitas vezes por sangue de culpados e inocentes, também é uma terra fértil em talentos. Exemplo é o projeto “Família UniVersos”, que começou no quintal da casa de Robertinho Filho do Céu, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, quando ele ensaiava seus próprios Raps, que compõe desde 2004.
Certa vez seus sobrinhos e amigos começaram a cantar suas músicas e tudo começou ali. Cansado de ver tantas crianças se perderem e morrerem cedo, naquele momento Robertinho descobriu qual seria sua missão junto aquela comunidade onde morava e até hoje não parou mais.
O Portal Breaking World conheceu Robertinho e as brilhantes crianças da “Família UniVersos” na São Bento, se encantou pelos pequenos artistas e agora resolveu contar a história desses grandes talentos. Leia a matéria abaixo:
BW – Robertinho, queria que você falasse primeiro de você e de sua caminhada na Cultura Hip-Hop. Quando se envolveu com a cultura?
Robertinho – Eu sou natural de São José do Rio Preto, sou educador social no “Céu das Artes”. Mas nas ruas sou conhecido como Robertinho Filho do Céu. Eu me envolvi com a Cultura Hip-Hop ainda criança, por intermédio de um padrasto de um amigo que me mostrou na época a música “Fim de Semana” dos Racionais MC’s. Nos dias de feira eu sempre pedia a minha mãe para comprar Fita K7 de Rap. Na escola, tinham amigos que também curtiam Rap, foi quando escutei a música do Thaíde e do DJ Hum “Nada pode me parar”. Naquela época, fui influenciado pelo Programa da MTV “Yo Raps”. Lá passavam vários clipes e comecei a conhecer outros grupos. Tive o primeiro contato com o Hip-Hop em projeto social no bairro Santo Antônio, lá comecei meu primeiro contato com o Breaking, Graffiti e em seguida o Rap. Iniciando em 2004 uma trajetória musical.
Robertinho Filho do Céu (de vermelho, sentado no Boombox) e a “Família UniVersos”
BW – Quem foram suas referências na Cultura Hip-Hop?
Robertinho – Minhas primeiras referências foram Mano Brown e Thaíde. E aqui em São José do Rio Preto foram o DJ Basim, Ana Paula e o Mano Di.
BW – Quando e como começou essa oficina de Rap junto com as crianças? Como foi o início desse trabalho? De quem foi a ideia?
Robertinho – Em agosto de 2016, fundamos o grupo musical “Família UniVersos”. Começou assim: já estávamos cansados de ver crianças e adolescentes envolvidos com o mundo do crime. Esses jovens iam presos, outros morriam muito cedo, então pensei em criar ações mais efetivas no bairro, ensaiando no quintal da minha casa. Certa vez, recebi meus sobrinhos e alguns amigos, foi nesse dia que percebi que por meio do Rap poderia iniciar um projeto social, trabalhando valores de vida e a conscientização para se ter uma vida cidadã!
BW – Como é trabalhar com crianças num projeto social independente? Fale dos principais desafios?
Robertinho – É gratificante demais doar nossas vidas por uma causa como essa. Eu falo de projeto social porque além de fazer Rap, eu trago sempre informações para esses jovens, capacitações de pessoas voluntárias, pessoas de teatro, de oratória, pessoas de outros elementos da Cultura Hip-Hop, do Breaking, do Graffiti, do DJ, então, o que eu posso agregar de conhecimento na vida deles eu faço. Hoje, nós pagamos do próprio bolso cursos de computação para alguns meninos. Então, tudo que é possível eu faço em nós por nós. É gratificante demais semear coisas boas! Na esperança que virão muitos frutos para que eles cresçam e multipliquem tudo que estão aprendendo. A maior dificuldade é a falta de apoio financeiro, porque para gravar música, para produzir beat, para gravar clipe e para ir nos eventos para cantar fora, tudo precisa de dinheiro. E às vezes não temos condição, não temos uma van. Então, o principal desafio é a falta de apoio financeiro e de ter uma estrutura melhor, ter uma aparelhagem de som e eu preciso ter um trabalho para sobreviver e ainda arrumo tempo para poder estar com os meninos. Eu gostaria de poder trabalhar integralmente com eles, mas por enquanto não tem condições.
“Família UniVersos” nasceu na periferia de São José do Rio Preto, interior de SP
BW – Quantas crianças estão envolvidas nesse projeto, qual a faixa etária e como funcionam as oficinas? O que você ensina exatamente nelas?
Robertinho – Hoje, o projeto conta com 15 meninos e mais 3 que já são jovens adultos, então, ao todo, são 18 e uma menina que já conhece o nosso trabalho. E a mãe dela falou que ela queria participar, então, ela vai começar a vir, porém, depois que passar a pandemia. A faixa etária é de 8 a 20 anos. Eu compartilho a minha experiência desde 2004, compartilho com eles de como eu crio as músicas, de como criar as rimas, de como cantar no ritmo certo, no compasso, na métrica e no flow e também estudar a cultura de que eles fazem parte. Então, dentro do grupo “UniVersos” nasceu a oficina e funciona no quintal de casa e quem desejar chegar é só colar, logo depois que passar o problema do coronavírus. Além de eu ensinar Rap, eu ensino os valores da vida. Acreditar em Deus, valorizar a família, estudar, trabalhar, ser luz por onde passar. O mundo precisa de pessoas que enxerguem a vida de uma forma diferente. Por isso a frase que é o lema do nosso grupo “Que a nossa vida, seja vida, na vida de outras pessoas”.
BW – Parque Cidadania, local onde há violência e tráfico de drogas, foi o local onde você começou esse trabalho. Que estratégia você desenvolveu para manter as crianças longe da vida do crime?
Robertinho – Sim, realmente Parque Cidadania é onde eu moro e onde eles moram e o índice de criminalidade é grande. Muitos chegam sem limites dentro da família deles, da educação que eles não tiveram, então, precisamos ensinar limites e regras. Não é fácil mas, graças a Deus, tem dado certo. Temos várias lutas mas fazemos a nossa parte. E a estratégia que todo educador deve ter é olhar essas crianças e esses jovens de uma forma que eles nunca foram olhados. É enxergar dentro deles e descobrir o talento, o dom o que cada um tem de melhor, qual a aptidão de cada aluno, extraindo de dentro deles o que têm de melhor. Olhar de uma forma especial para que eles se sintam especiais. E sempre mostro as consequências das escolhas. Mostrando o porquê é bom escolher, trabalhar, estudar e respeitar o próximo e não escolher o crime. E acima de tudo, de dar amor e os fazendo se sentir importantes.
BW – Explique como chegou no nome “UniVersos”? A ideia foi sua?
Robertinho – Eu não tinha nenhum nome, eu ia cantar com os meninos. Então, era Robertinho e os meninos do Rap. Pensando muito, estudando sobre nomes, orando, aí eu estava no carro curtindo o som e me veio esse nome de unir versos, unir rimas e o mundo, em todo o mundo. Então eu falei: que legal, tem duplo sentido essa palavra. E chegamos no nome “UniVersos” e o que significa é unir versos, unir rimas e cada ser humano é um universo dentro de si, vários sonhos, várias lutas, várias tristezas e várias alegrias, várias vontades. É um universo dentro de nós! Então somos a “Família UniVersos”!
BW – No ano passado, os meninos ganharam o prêmio “Nelson Seixas”, projeto que investiu cerca de R$ 1 milhão em todas as categorias premiadas de artistas residentes em Rio Preto e dava direito a gravação de um CD. Mas você conseguiu, além do CD, gravar um clipe. Nos conte: como foi tudo isso?
Robertinho – Sim, no ano passado e retrasado nós ganhamos o prêmio “Nelson Seixas”. Em 2018, nós ganhamos a gravação do CD e 2019 foi o lançamento do CD, o show de lançamento, a circulação do CD. A gravação do clipe foi o seguinte: na verdade, a premiação foi a minha história, quem ganhou foi o Robertinho e na minha história eu falo que eu fundei um grupo e coloquei os meninos todos para gravar, eu ganhei R$ 15.000,00 e investi no clipe.
Robertinho investiu todo o dinheiro do prêmio na gravação do vídeo clipe com as crianças
BW – A música vencedora do prêmio foi “Eu Acredito”. De quem é a autoria e como foi feita? Como foi dirigir todas as vozes dessas crianças?
Robertinho – A música “Eu acredito”, eu coloquei o título do projeto, que é eu acredito que dias melhores virão, porque dentro da minha história entra o “Família UniVersos” e nessa primeira música dos meninos, que se chama “Eu acredito”, nós elaboramos juntos na oficina. Eu estimulo eles a pensar, peço para eles anotem no caderno o que têm de melhorar, as palavras foram extraídas de dentro deles, eles foram anotando e fomos colocando as palavras uma rimando com a outra e então a música nasceu em conjunto. Por ser a primeira música, teve muita opinião minha, mas hoje já temos meninos que criam sozinhos, mas eu sempre procuro caminhar com eles e dirigir todas as vozes é trabalhoso, mas graças a Deus, pelo talento dos meninos, fluiu bem, mas eu fui bem exigente com eles.
BW – Verdade que o clipe chegou a ter mais de 1 milhão de visualizações e, ainda, foi compartilhado pelo Edi Rock dos “Racionais MC’s”? Como você e as crianças se sentiram com tudo isso?
Robertinho – Sim, a música ultrapassou esse número! Mas no Facebook, várias páginas foram postando, aí o Edi Rock postou também e repercutiu bastante. A página “Raplandia” postou. Só nessa página, eu tenho os prints, nessa página foram 945 mil, depois do Edi Rock 195 mil, a página Rap Nacional, Realidade Cruel, tudo 200 mil, então, no Facebook repercutiu muito e quando o Edi Rock postou foi muito importante, todos sabem a importância dos “Racionais” na cena. Então, ter esse apoio e o olhar do Edi Rock voltado para a nossa música foi algo muito importante para nós! Isso nos incentiva e aumenta cada vez mais o nosso compromisso. Ficamos muito felizes.
A realização de um sonho: cantar na São Bento, berço do Hip-Hop no Brasil
BW – Ano passado vocês estiveram se apresentando na São Bento, que é o templo do Hip-Hop em São Paulo. Como foi essa experiência?
Robertinho – Foi um sonho realizado! Eu sempre falava para os meninos sobre a São Bento, falava da importância de conhecer a história do Hip-Hop, sabendo que o Rap é um elemento da Cultura Hip-Hop, então, temos que conhecer todos os elementos, passei documentários para eles falando da 24 de Maio e da São Bento, o marco zero do Hip-Hop, depois, eu passei vários vídeos, nós já sabíamos da importância e da responsabilidade de cantar naquele lugar e então tivemos o convite e a oportunidade. Alguns amigos viabilizaram as vans e fomos bem abraçados e pisar nesse território sagrado do Hip-Hop foi um sonho realizado. Lá foi onde tudo começou no Brasil.
BW – Em abril, vocês lançaram o vídeo clipe de seu primeiro single de 2020, “Foi Assim”, com produção do DJ e produtor musical paulistano Caíque, que já realizou trabalho com MV Bill, Rashid, Haikass e Projota. Como aconteceu esse encontro entre vocês? E como foi a gravação?
Robertinho – A primeira música de 2020 foi com o DJ Caíque, ele viu nosso vídeo clipe na internet e aí mandou mensagem parabenizando e pediu para saber mais do projeto e ele me explicou a forma que trabalhava, que ele só gravava o que gostava e onde via alguma coisa e aí ele decidiu gravar com os meninos, mandou os beats, eu escolhi, nós gravamos as vozes aqui e mandamos para ele. No estúdio, ele mixou e masterizou, finalizou a música em São Paulo. E aí ele decidiu gravar um clipe, porque a música era muito boa. Ele arcou com as despesas do clipe e nós fomos para São Paulo, eu corri para conseguir ajuda e consegui uma van para ir para São Paulo. Chegamos em São Paulo, gravamos o clipe e lançou no canal dele. E para mim o Caíque é dos maiores produtores de Rap do Brasil foi uma grande conquista para nós.
Capa do CD “Periferia é Terra Fértil”
BW – Fale sobre o disco já lançado, que se chama “Periferia é Terra Fértil” e sobre a experiência com as plataformas de streaming de músicas?
Robertinho – Esse disco é um sonho! Era um sonho ter um CD gravado, original! Eu estendi esse sonho para os meninos, mesmo que as pessoas hoje em dia não use mais o CD físico, foi uma forma de presentear os amigos e os familiares. Tendo um CD em mãos também para vender e para divulgar mais o trabalho e a experiência foi sensacional, de poder lembrar de toda a caminhada, de todas as músicas construídas e concretizar tudo foi um sonho. E o nome “Periferia é Terra Fértil” foi porque as pessoas falam muito mal da periferia, mas tem muito mais coisas boas do que ruins. Coisas ruins tem em todos os lugares! E nós citamos na música que os maiores cantores, os maiores jogadores de futebol, nasceram na periferia. A periferia tem muitos nomes valiosos! Então, terra fértil, porque se saber semear vai dar muitos bons frutos, é necessário dar oportunidade para a periferia, existe todo um sistema que nos oprime, que nos joga só os restos, mas quando temos boas oportunidades a coisa vira e dá muitos frutos! Estou aprendendo a mexer nas plataformas, então, a experiência é muito nova ainda, mas a música tem que chegar nas pessoas, isso é que é importante.
BW – Parece que esse ano tem mais músicas para serem lançadas ainda, correto? Fale delas e também do novo single “Covid-19”?
Robertinho – Sim, tem algumas músicas prontas para serem lançadas, infelizmente, ainda não temos condições de pagar o estúdio, então, eu estou vendendo camisetas para levantar dinheiro. Temos umas 4 músicas para lançar. A situação complicou um pouco por causa da pandemia. Sobre a música “Covid-19” foi assim: uma ideia em cima da hora, cada um escreveu na sua casa e depois todos nos encontramos de máscaras e construímos juntos a música e foi importante lançar essa música da Covid, porque tem crianças e adolescentes falando sobre esse assunto e consequentemente nós fizemos a nossa parte, saiu pelo “Trilha Sonora do Gueto”, lá no canal e todos gostaram da música. Foi sensacional conseguir a tempo lançar uma música sobre esse assunto.
“Família UniVersos” gravou o single “Covid-19” durante a pandemia do novo coronavírus
BW – Neste período de pandemia, como você tem trabalhado e orientado as crianças?
Robertinho – Neste momento de pandemia está bem complicado, estamos evitando reunir com os meninos, mas tem horas que não tem como. Nós temos um grupo de WhatsApp e eu sempre troco ideia por lá, sempre os estimulando a continuarem criando, estudando, pensando e quando nos encontramos trocamos ideia, mas temos evitado o contato. Tudo faço pelo WhatsApp. Nos encontramos uma vez a cada duas semanas presencialmente.
BW – O Rap salva? O que você diria para crianças que estão neste momento no mundo do crime?
Robertinho – O Rap salva, com certeza! Deus deu um dom para cada pessoa, um dom que pode ser desenvolvido, então, tem meninos que já estão mais desenvolvidos para fazer Rap, outros ainda não então trabalhando, se descobre, como é maravilhosa essa cultura e desta forma o Rap vai salvando. Deus usa esse instrumento, cada mensagem que construímos, ela faz sentido primeiro dentro de nós, depois cantamos, as pessoas se identificam, esse alguém manifesta que a música fez bem a vida dela, então, nos sentimos úteis. Ou seja, temos uma missão! E cada vez mais seguimos esse caminho, o que nos afasta do crime e para todos os meninos que se encontram no crime, nas drogas eu digo: Eu já passei por isso! Eu consegui acordar a tempo, é gostoso você se envolver no crime, nas drogas, mas chega uma hora que as consequências vão aparecer e tudo nessa vida tem consequências, boas ou ruins. Se você escolhe drogas, crime e as fitas loucas, as consequências ruins chegam, as tristezas na família, o caixão e a polícia. Então eu pergunto: Até quando vai valer a pena? O fruto vai ser de paz ou de medo e dor? Então, não compensa! A vida é valiosa demais para se perder dessa forma! Então eu falo o agora ou o eterno? Quer ficar sofrendo ou viver uma vida com paz interior? O crime não compensa!
BW – Quais são os planos da “Família UniVersos” para o futuro?
Robertinho – Os planos são concluir essas participações, eu quero conseguir estruturar o nosso projeto de uma forma que tenhamos patrocínio para conseguir praticar mais. O sonho é ter um “Instituto UniVersos” para conseguir realmente conviver com os meninos, formá-los e eles cuidarem de outras crianças que ainda vão surgir, ter vários outros cursos, atividades. Um lugar onde vamos poder todos os dias trabalhar e se reunir. Condições de gravar nossas músicas e fazer nossas apresentações e viver dos shows para impactar mais vidas.
“Família Universos” diante da fachada da lendária Estação São Bento do Metrô, ao fundo o Mosteiro de São Bento
Fotos: Arquivo Pessoal
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Primeiro de tudo, é necessário amor pelo que faz. Aliás, em tudo na vida, quando nos propomos a desenvolver algo profissional, mais do que escolas, faculdades renomadas, a inserção do amor é fundamental para ser excelência no que você irá desenvolver.
No caso do Rap, vamos muito além. Ferramenta criada para ser arma dos menos favorecidos e totalmente excluídos, durante muitos anos era música de marginal.
Em meados dos anos oitenta, o Rap chega ao Brasil, grandes nomes fizeram os alicerces do estilo no país e alguns deles ainda estão em atividade até hoje.
Ataliba e a Firma, Thaíde e Dj Hum, DMN, Racionais, Pepeu, Gog, entre outros.
A cena mudou muito, o Rap não é mais o mesmo? Será isso uma verdade?
Estudiosos do assunto dizem que o Rap hoje é superficial, fala muito sobre ostentação, romances, baladas, sexo e drogas, meio ao estilo de muitos rappers americanos. Já para os antigos ou expressão muito utilizada “Old School”, o Rap perdeu sua essência, não é mais protesto, ou pior, existe uma minoria de artistas no cenário, que tem posicionamento cultural e político.
Estaria o Rap fadado a morte, sem pensadores e cheio de aproveitadores?
Ao longo desses muitos anos de Rap percebo muitas mudanças, uma série de novidades, talentos, tragédias anunciadas, mas o principal: sinto falta de ouvir aquele som que me inspire, que me faça sentir sede de justiça, que me faça gritar e protestar sobre meus direitos que foram roubados, sinto falta de referências.
Para finalizar, esses dias escutei um lançamento “Public Enemy – State of the Union”. Pronto! Renasce minha referência, o protesto à flor da pele preta e da voz!
Poder para o Rap, pros pretos e para os excluídos de uma sociedade racista e cruel.
Foto: Reprodução
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Para quem não sabe, antes de ser reconhecido como um dos melhores rappers da história, Tupac Shakur dançava no grupo “Digital Underground”, que foi um grupo de Rap de Oakland, Califórnia, fundado em 1987 por Gregory, Tupac Shakur e Jacobs, conhecido como “Shock-G”.
Shock-G passou a maior parte de sua juventude em Nova York, sendo fortemente influenciado pelo Funk dos anos 1970, então, começou a se envolver com música criando um estilo de Rap na West Side (Costa Oeste).
O grupo foi formado para prestar uma homenagem aos ativistas sociais do “Black Panthers” (Panteras Negras), que tinha todas as ligações com a família de Tupac.
B-Boy Tupac dançando na “Digital Underground”
A mãe de Tupac, Afeni Shakur, fazia parte deste famoso grupo político, um movimento que lutava contra o preconceito aos afro-americanos. Afeni estava grávida de Tupac quando foi presa. Seu padrasto, Mutulu Shakur, foi sentenciado a 60 anos de cadeia por roubar um carro e matar a vítima. Isso teve um grande impacto na vida Tupac, que cresceu sem a figura paterna ao seu lado. Nas ruas, os únicos modelos em que Tupac podia se espelhar eram os traficantes e cafetões.
No final da década de 1980, o “Digital Underground” alcança um grande sucesso com o álbum “Sex Packets”, que chega a ganhar Disco de Platina e a receber comentários positivos da crítica. Tupac também ajudava a carregar equipamentos e algumas vezes teve a chance de cantar com o grupo. Ele se tornou dançarino aos 19 anos, quando o grupo conseguiu o primeiro sucesso com “The Humpty Dance”, em 1990. A faixa chegou ao 11º lugar na parada “Hot 100” da “Billboard”, além do primeiro lugar no chart de Rap da revista.
Dono de uma carreira meteórica e de um talento único que iria impactar o mundo para sempre, suas primeiras letras eram notáveis e revelaram a tendência para sua personalidade violenta. Em uma música que fez parte da trilha sonora do filme “Nothing But Trouble” chamada “Same Song”, Tupac conheceu o sucesso pela primeira vez e não parou mais! Em 1995, o Rapper foi acusado de abusar sexualmente de uma mulher em um hotel.
Talentoso e polêmico, Tupac se tornaria uma lenda do Rap em muito pouco tempo.
Segundo Pac, a mulher, que ele havia conhecido em uma boate, teria feito sexo oral nele em plena pista de dança e teria ido com ele para um hotel por livre e espontânea vontade. Shakur disse que tudo não passou de uma armação. Em fevereiro do mesmo ano, devido a tal fato, Tupac foi sentenciado a quatro anos e meio de prisão por estupro, embora tivesse negado veementemente. Pouco depois do ocorrido, Tupac havia levado cinco tiros em um assalto ocorrido em um estúdio de Nova York. Tupac deu informações em detalhes sobre o ocorrido em uma entrevista para “Vibe”. O astro começou a cumprir sua pena no presídio de Clinton.
Pouco depois, seu multiplatinado “Me against the world” é lançado. Tupac entra para a história como o único artista a ter um álbum em primeiro nas paradas estando preso. “Este sempre será meu álbum favorito”, disse ele a uma entrevista. Enquanto os guardas provocavam na cadeia dizendo que Tupac não era mais o mesmo, ele ria e dizia: “Meu álbum é número 1 no país inteiro e apenas bateu Bruce Springsteen no topo da Billboard”. Após quase onze meses na prisão, Tupac foi liberado, logo depois de ter feito um acordo com Suge Knight, o cabeça do “Death Row Records”. Suge pagou a fiança de 1.4 milhões de dólares. Em troca, o artista deveria lançar 3 álbuns pela sua gravadora. Imediatamente após sair da prisão, Tupac começou a trabalhar em um novo álbum. Em fevereiro de 1996, ele lança seu quarto álbum, “All eyes on me”, o primeiro álbum duplo da história do Rap. O sucesso foi tremendo e vendeu mais de 9 milhões de cópias e é considerado por muitos o melhor álbum do gênero. Em meio a tanto sucesso, Tupac foi assassinado em 1996, quando saía de uma luta de seu amigo Mike Tyson.
Tupac com Mike Tyson um pouco antes de sua trágica morte.
Logo após sua morte, a “Death Row” lança o álbum “The Don Killuminati”, com o pseudônimo de “Makavell”. A capa traz um 2Pac crucificado, com uma coroa de espinhos na cabeça e um mapa das principais gangues do país. Em janeiro de 1997, a “Gramercy Pictures” lança “Gridlock’d”, um filme em que Tupac interpreta um viciado em drogas e que foi bem aceito pela crítica, recebendo inúmeros elogios. Seu último filme, “Gang Related”, seria lançado meses depois. Antes de morrer, Tupac deixou centenas de músicas gravadas na época de “Death Row”. A maioria foi lançada em álbuns póstumos como “Better Dayz”, “Until the end of time”, “Loyal to the game” e em seu último póstumo “Pac’s Life”. Tupac é o Rapper que mais vendeu álbuns na história. Sua morte até hoje continua a ser motivo de discussão, não só pela forma que foi mas principalmente no mundo das grandes gravadoras onde o artista vende mais discos morto do que vivo.
Sim, a história é estranha no entanto representativa de um dos nomes mais fortes do que chamamos de “Gangsta Rap”. Tupac era considerado um terrorista como também um dos mais promissores poetas do Hip-Hop. Tupac, que era do signo de gêmeos, tanto foi considerado um B-Boy machista como um talentoso ator. E o Rap? O Rap era sua arte, sua obra prima, o milagre poético que o mundo conheceu!
Fotos: Reprodução
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“O Rap é um dicionário da vida. Ele te dá uma visão ampla de tudo. É sentimento e lógica.” (MC Ryan)
“Se você ama essa cultura, como eu amo essa cultura, diga Hip-Hop, Hip-Hop” ou “Cachorro sapeca mijou no hidrante, o que vocês querem ver? Sangue!”. São com essas frases que começam as “Batalhas de MC’s” no litoral de São Paulo. Um encontro de todos, do antigo com o novo, fazendo uma verdadeira renovação cultural. Mas desde cedo aprendem que o Hip-Hop não é moda e que é necessário ter personalidade e criatividade, fazendo as próprias rimas. As decoradas não são bem-vindas. A cada dia a nova geração chega e acontece com mais força, escrevendo assim seu nome na história.
Mostrar a nova geração da Cultura Hip-Hop, esse também é um dos compromissos do Portal Breaking World, afinal, eles são o futuro e a continuidade da cultura. Nesta matéria, conversamos com o MC Ryan, da cidade de Itanhaém, que foi visto por muito tempo como o menorzinho das Batalhas de MC’s, mas hoje o menino com 15 anos mostra nessa entrevista que ser MC é muito além de segurar um microfone: é necessário ter conhecimento, flow, uma boa métrica, se afastar das drogas, ter sonhos e saber onde deseja chegar. Se liga na entrevista:
BW – Ryan, queria que você falasse um pouco de você e da sua família.
MC Ryan – Eu sou o Ryan da Silva, na rima MC Ryan, tenho 15 anos, moro no litoral de São Paulo, em Itanhaém. Sou filho de uma enfermeira e a profissão do meu pai não sei, pois não tive convivência com ele. Tenho uma irmã chamada Tamires que é técnica em enfermagem.
BW – Nos conte quando e como surgiu o interesse pela rima que é feita por MC’s?
MC Ryan – Bom, a minha família tem diversos gostos musicais, mas Rap quem escutava era minha irmã e meu tio, mas o interesse surgiu realmente quando eu tinha 13 anos, eu ia numa praça e lá rolava Batalha de MC’s. Aqui, nessa época, em Itanhaém, tinha o Big Mike que estava rimando aqui na Cabuçu, aí eu vi aquilo e gostei muito. Cheguei em casa e comecei a pesquisar sobre o assunto, sobre Batalhas de MC’s, foi aí que eu comecei a ver uns garotos da minha idade, o Thiago, o Leozinho, tudo novinho, rimando, aí eu comecei a assistir muita batalha e me espelhei nisso. Eu queria fazer aquilo também. Até que no meio do ano eu já estava fazendo “freestyle” e comecei a rimar na internet por meio de um programa que várias pessoas, de várias batalhas, que até vários MC’s que são famosos começaram lá, e que se chama “Radical”. Aí eu comecei a batalhar, os caras falavam que eu batalhava bem. Mas o primeiro contato que eu tive com uma batalha de fato, ao vivo e em cores, fora do mundo virtual, foi na “Batalha do Secreto”, que acontecia sexta-feira, mas que eu por ser menor de idade tinha muitos problemas por causa do horário, minha mãe ficava preocupada de eu voltar tarde para casa. Mas, mesmo assim, teve um dia que eu fui lá, batalhei e ganhei! Sendo essa a primeira vez que fui campeão numa batalha de rima.
BW – Como você aprendeu a rimar? Rimar não é algo fácil, a pessoa tem que ter a resposta certa na hora certa e pensar muito rápido. Alguém te ajudou nisso ou te ensinou?
MC Ryan – Bom, eu não vou dizer que aprendi de primeira, eu tive muita dificuldade no começo. Eu era um tipo de MC que mandava muito suporte, falava várias vezes “Tá ligado”, “Mano”, mas eu já me sentia chocado pelo simples fato de estar ali rimando, já me sentia feliz. Mas realmente não era fácil, eu tive muita dificuldade no começo de encaixar as rimas no beat, de ter a métrica certa e conseguir pensar numa resposta, mas quando você está rimando e está batendo de frente com um outro MC, parece que sua mente fica automática, o cara manda um ataque e você já tem a resposta. Eu não tive muita ajuda de ninguém. Me lembro que eu conheci o Chad, mas nessa época eu já sabia rimar e ele também sabia. A minha primeira batalha depois que eu ganhei a do Secreto foi eu vs Chad MC, ele me levou para batalhar, mas antes pediu que eu mostrasse o que eu sabia. Então, nós rimamos, os amigos dele gostaram e aí ele me levou em outras batalhas e disse que eu era cria dele (risos), aí eu fui aos poucos me destacando. Mas ajuda de MC’s eu nunca tive, eu sempre fui muito independente. Eu colocava o beat em casa e ia encaixando palavra por palavra.
BW – Alguns MC’s falam que leem dicionário para poder aumentar o vocabulário. Você faz isso?
MC Ryan – Eu não leio muito dicionário não. Mas ajuda, muita gente usa. Eu comecei a batalhar em 2018, nessa época o povo já falava que eu rimava bem. Falavam que eu deveria continuar e aí eu fui me aprofundando nisso.
BW – Onde você mora sempre participou das principais batalhas da cidade. Me fale dessas batalhas? E das principais dificuldades enfrentadas por MC’s que moram em cidades pequenas?
MC Ryan – As principais que eu conheço eram: A “Batalha da Praça”, “Batalha da Consciência”, “Batalha do Secreto”, “Batalha da Pista” e a “Batalha do Quadrado”. Nessa última, vários MC’s conhecidos já encostaram lá. Sobre as dificuldades de morar numa cidade pequena, bate às vezes um desânimo. Mas não só por ser pequena, mas muitas vezes pela falta de apoio das pessoas, da família, tem muita gente que acha que Rap não é futuro, que não dá dinheiro. E realmente, em cidade pequena não rende muito, aqui tem poucos eventos, nenhum apoio, mas no meu caso eu pretendo sair de Itanhaém, ir para outros estados, aqui tem bastante dificuldade. Na caminhada de MC’s você é desmotivado até mesmo por outros MC’s que acompanham o seu progresso, por exemplo, eu fui muito desmotivado pela minha idade, em 2018 eu comecei a me destacar, o povo já falava: “é o menorzinho das batalhas”. Eu já era conhecido e por causa disso gerou um conflito de outros MC’s comigo. Muitas pessoas chegavam a falar que eu ganhava por causa da minha torcida, mas não era por isso, eu me esforçava bastante, ficava rimando por horas, rimando em aplicativos, só para fazer o melhor na batalha.
MC Ryan campeão da “Batalha da Praça”, em Itanhaém (2019)
BW – Você falou de apoio. A sua família apoiava sua arte ou não?
MC Ryan – Minha família é um caso complicado (risos). Nem sempre eles me apoiaram, começaram mais me apoiar agora. Minha mãe no início olhava meio torto para mim. Eu nasci em São Paulo, morava numa favela, em São Paulo as coisas eram bem diferentes, tinha gente desde pequena indo para o lado errado das coisas e a minha mãe veio para Itanhaém por causa disso. Ela queria uma vida melhor e mais segura para a gente. Ela falava que eu tinha que estudar, que Rap não dava futuro para ninguém, que isso deveria ser um hobby para mim. Mas, na minha visão, nunca foi assim, eu sempre enxerguei o Rap como uma forma de se expressar, eu sou uma pessoa muito complicada, eu reflito muito sobre várias coisas, sobre eu mesmo. Mas agora ela fica feliz por mim, acha que é uma coisa bacana de se fazer porque ela me vê feliz, tanto que no evento do “Prêmio Sabotage” que eu me inscrevi esse ano, ela estava me apoiando. Ela hoje me diz que eu tenho que mostrar a todos o meu trabalho de uma forma diferenciada. Minha avó me apoia muito, às vezes ela muda de lado (risos), mas ela tem alguns motivos e no final das contas eu sei que ela quer o melhor pra mim. Mas quando eu pegar mais fama eu vou lançar uns sons.
BW – Já se sentiu preterido por ser criança?
MC Ryan – Sim, quando existe uma criança numa batalha, normalmente as pessoas não olham como MC e vão te olhar como criança. Mas eu vou falar… Eu nunca rimei decorada numa batalha, sempre improvisei e me esforcei, o meu freestyle sempre foi muito agressivo. Mas sempre teve muito preconceito. Tiveram várias batalhas que eu arranquei grito e aí uma torcida veio falar que eu ganhei as pessoas porque era criança. E isso desmotiva quem é novo! Eu acho esse negócio de preconceito pela idade muito errado!
BW – Nas batalhas existe uma divisão entre batalha de tema e de sangue. De qual você gosta mais?
MC Ryan – De conteúdo de batalha entre conhecimento e sangue eu prefiro sangue, porque conhecimento é basicamente para você testar sua cultura, o que você sabe. A batalha de sangue já é bate volta a pessoa rima com o que desejar, tem “gastação”, eu sou mais de sangue pois é mais liberado.
BW – Nas batalhas rola de tudo, às vezes xingamentos a familiares e outras coisas. Já aconteceu, depois da batalha, de ficar aquele “climão”? Ou quando termina a batalha acaba tudo e as coisas voltam ao normal?
MC Ryan – Sobre os desentendimentos nas batalhas, realmente tem MC’s que um esculacha a família do outro e isso gera brigas. Antes eu era um garoto que falava muito de pederastia, mas com o passar do tempo comecei a usar mais ideologia. Na verdade, eu não era pederasta, apenas rimava em cima do assunto que outros estavam rimando. Mas esse clima depende muito da energia da plateia. Os MC’s também julgam muito o outro pela classe social, às vezes alguns me chamavam de boy, mas ninguém sabe do meu passado, não sabem do esforço que eu tenho que fazer para ser alguém na vida, que minha mãe teve. Minha mãe levantava todos os dias às 3 horas da madrugada para ir trabalhar em São Paulo, mesmo morando aqui no litoral. Hoje, por exemplo, ela foi num dia e só volta no outro. Isso é perigoso e exaustivo, ela é uma grande batalhadora, uma guerreira e eu a amo demais! E por classe social eles nem sabem que eu morava dentro de uma favela e não conhecem a minha história. Mas não ligo para isso!
BW – Na sua opinião, o que é necessário para um MC ser considerado bom?
MC Ryan – Muitos acham que a gastação é uma forma de freestyle, mas eu não concordo não. A essência de um bom MC é ele ter um bom conteúdo nas batalhas. Não ficar falando de pai, de mãe, ter uma mente aberta, ter poesia na cabeça, ter pensamento grande, tem que ser esforçado, tem que ser competitivo e tem que ter amor pelo que faz.
BW – No meio das batalhas rola muita droga? Como você faz para fugir disso?
MC Ryan – Olha, para mim nunca fez sentido as drogas. Eu sempre tive cabeça, desde pequeno eu já tinha uma noção do que eram as drogas. Noção do que era certo ou errado. Tanto que minha mãe não me deixava ir nas batalhas, às vezes, por medo. Pelo simples fato da pessoa usar droga ela já é horrível, está se autodestruindo e desses eu mantenho distância, tendo plena consciência de que aquilo não é certo. Eu nunca tive atração por droga nas batalhas, diversas vezes já trombei com vários MC’s que estavam drogados e muita gente bêbada e isso atrapalha na batalha, algumas vezes chegam pessoas embriagadas atrapalhando e um amigo, o Dodô, que era o responsável pela batalha tomava atitude, dava bronca, mas muitas situações as pessoas não respeitam, às vezes você está batalhando e o cara joga bafo na sua cara de maconha, isso é o cúmulo da falta de respeito ou coisa assim e isso gera conflito. Minha mãe embaçava muitas vezes de eu ir em batalhas por isso, ela sabia que no centro, de sexta-feira, tinha muita gente embriagada, muitas drogas e ela tinha medo do que poderia acontecer. Mas muitas vezes eu insisti e fui. Mas tem que ter cabeça para sair fora dessas coisas!
BW – Entre os MC’s famosos, qual você mais se identifica? E você falou que estava gravando alguma coisa em estúdio, pode falar sobre isso?
MC Ryan – Hoje em dia têm bastante MC’s que eu acho que não tem muito conteúdo, mas que chama a atenção da galera. Mas tem dois que mais me identifico: um é o Dudu MC, ele tem um ótimo flow, conteúdo, a métrica como ele manda as rimas, ele tem toda uma habilidade, aquilo surge naturalmente e o outro é o Thiago MC, que agora foi mais para o Trap, mas gosto muito dele. Assistindo ele batalhando e o Dudu são inspiração! Inclusive muitas pessoas veem semelhança entre eu e o Thiago. Sobre as gravações, eu tenho gravado algumas coisas pelo celular, usando aplicativos profissionais que são usados em estúdios, tem masterização e outros recursos. Eu estou querendo aprender mais sobre esses aplicativos e lançar algumas coisas. Nessa quarentena tenho feito isso.
BW – Quais são seus planos e sonhos para o futuro?
MC Ryan – Meus planos para o futuro é viajar para o Espírito Santo e ir na batalha do “Oh Shit”, em Registro, e lançar um som no estúdio! E se tornar um MC conhecido! E eu ainda quero, quem sabe, lançar um Trap com o Dudu. Esse moleque é muito bom! Ah também quero ser um jogador profissional de “FreeFire” (risos).
BW: O que significa o Rap na sua vida?
MC Ryan – Essa pergunta foi impactante (risos). O Rap é a vida, é o sentimento para mim, é a lógica de tudo. Ele diferencia aquilo que eu vivo nas convivências, no passado. Ele é aquilo que contraria todo o julgamento, o preconceito, o racismo, ele diferencia tudo, é o modo de você viver a vida com mais respeito. Ele é um dicionário da vida. Ele te dá uma visão ampla que temos que ter em relação às pessoas que estão à nossa volta. Existem pessoas que são muito preconceituosas! Esse negócio de preconceito de idade ou qualquer outro tipo de preconceito, uma pessoa que pensa assim, não sabe o que é Rap. O Rap é onde somos todos iguais!
Fotos: Arquivo Pessoal
MC Dodô e MC Ryan na final da "Batalha da Consciência"
MC Ryan na "Batalha da Consciência"
MC Ryan duelando com MC Bob Leal na "Batalha da Consciência"
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