Itsa revive trajetória na série e fase em que optou pela dança como profissão
Apaixonada por dança desde criança, Isabela Rocha, hoje conhecida como a B-Girl Itsa, não imaginava que sua paixão pelo Breaking viraria, de fato, uma profissão. Ela mostrava talento vencendo batalhas locais de dança e chamava a atenção de muita gente com seu gingado único, mas sua família sonhava mesmo em vê-la em um emprego estável e tradicional.
Quebrando preconceitos e barreiras, apostou todas as fichas na dança, tornando-se campeã brasileira de Breaking, bailarina na mais famosa companhia do mundo, o Cirque du Soleil, e sendo postulante do país nos Jogos Olímpicos, em Paris-2024. As nuances desse momento-chave na vida de Itsa são tema de um dos episódios da segunda temporada de “Until 18 – O Momento de Decisão”, disponível gratuitamente pela Red Bull TV, por meio do link www.redbull.com.br/until18.
“Quando comecei a dançar, descobri que posso ter atitude, posso ser quem eu quero ser”, afirma Itsa. “Ter a minha história nessa série, que foge de padrões e estereótipos, é bem importante para a sociedade, inclusive para as próximas gerações saberem que podem buscar o lugar e a posição (profissional, ideológica, artística) que quiserem. Todos temos o direito de criar e expressar a arte que sentimos e vivemos”, finaliza.
Ao longo do episódio, Itsa narra os seus dramas, dificuldades, batalhas diárias e, principalmente, o momento simbólico em que lutou pelo seu sonho e alcançou seus objetivos, transformando-se em artista do Cirque du Soleil e sendo uma das expoentes do Breaking no país, modalidade que estreará no maior evento multiesportivo do mundo, em Paris, no ano de 2024.
Além da mineira, outros personagens também contam as suas histórias na série ‘Until 18 – O Momento da Decisão’, como a vitoriosa e jovem skatista Yndiara Asp; o youtuber Flakes Power; o comentarista de games Gustavo Melão; o ciclista campeão mundial Henrique Avancini e a tricampeã mundial de Kitesurf Bruna Kajiya. O conceito do projeto é brasileiro e foi dirigido por Isadora Canela e Hugo Haddad.
B-Girl Itsa foi campeã brasileira de Breaking na Red Bull BC One, em 2019 e é bailarina do Cirque du Soleil
Sobre a série
A série “Until 18 – O Momento de Decisão” reúne atletas, artistas e personalidades de destaque em profissões pouco comuns para relembrar como eles lidaram com as decisões profissionais no final da adolescência e desbravaram um novo caminho na passagem para a vida adulta. Na temporada de estreia, a história da cantora Tássia Reis, do skatista Sandro Dias e do atleta de e-sports Yoda, entre outros. A recém-lançada segunda temporada já está disponível na Red Bull TV, com relatos de nomes como a skatista Yndiara Asp, do ciclista Henrique Avancini e da dançarina de Breaking Itsa.
Sobre a Red Bull TV
A Red Bull TV é um canal global de entretenimento digital com programação disponível a qualquer hora e em qualquer lugar. Combinando eventos ao vivo, uma extensa biblioteca On Demand e os melhores momentos de eventos que incluem esportes, festivais de música, séries originais, longas-metragens e documentários. A Red Bull TV oferece uma experiência de visualização envolvente pelo site redbull.tv, assim como em seu aplicativo ou via Smart TV.
Fotos: Divulgação Red Bull TV
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O documentário ‘Nem Eu Sei Tudo’, da Ancora Produções, de Bento Gonçalves, foi premiado no “Docs Without Borders Film” Festival nos Estados Unidos. O projeto, que integra o Fundo Municipal de Cultura, conta a história do coletivo de Hip-Hop Nest Panos.
Lançado em 2020, o média-metragem concorreu na categoria “Viagem/Cultura/Artes” no festival, que foi avaliado de maneira remota devido a pandemia e foi premiado com excelência pelo festival norte-americano.
Diferente de outros festivais, o DWBF tem um sistema de avaliação individual, que garante que cada filme possa competir pelos seus próprios méritos, podendo uma categoria inclusive não ter filmes premiados.
Para Fernanda Turchetto, diretora do filme, “receber um prêmio internacional já na nossa primeira produção cinematográfica tanto nos dá a certeza da importância deste documentário para a sociedade, quanto nos empolga ainda mais a continuar produzindo”.
Para o ano de 2021, o documentário pretende concorrer e ser exibido em festivais nacionais. “No mês de dezembro, fomos convidados para participar do Festival de Dança Mova-Se, de Manaus, onde foi exibido em uma sala de cinema independente e fizemos um bate-papo virtual com os presentes”, conta Pedrinho Festa, produtor cultural do projeto, que completa: “A mensagem do “Nem Eu Sei Tudo” é a transformação que o Hip-Hop promove, vamos propagá-la o máximo possível”.
Fotos: Divulgação Nest Panos
Fernanda Turchetto, diretora do filme
Pedrinho Festa, produtor cultural do projeto
"Nem Eu Sei Tudo" conta a história do Nest Panos
DWBF é um dos mais prestigiados prêmios de cinema nos EUA
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Planejamento, disciplina, foco e estratégia são fundamentais na vida de quem deseja ser um campeão, garante B-Boy Bart
Ele nasceu no Ceará, quando criança teve contato com muitos movimentos por meio do Kung Fu e da Capoeira. Aprendeu também a ter disciplina e flexibilidade desde cedo. Mas foram os pulos feitos na areia improvisada que pedia aos vizinhos que o fizeram se aproximar do Breaking.
Mateus Melo (22), conhecido como B-Boy Bart, hoje é um dos nomes mais cogitados para representar o Breaking brasileiro nas Olimpíadas de Paris, em 2024.
Ele compara a dança a um grande jogo de xadrez e afirma que, além de ter um corpo preparado, é necessário ter estratégias, planejar ações para se chegar no objetivo que se deseja.
O Portal Breaking World teve o prazer de conversar com ele na primeira semana do ano de 2021. E olha, aperte os cintos pois esse B-Boy não dança, ele voa! Fique por dentro do que rolou nessa conversa:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua infância, onde e como foi? Como era o Mateus criança?
B-Boy Bart: Eu sempre me movimentei muito quando criança! Tive muito contato com os movimentos. Fui muito influenciado pelo meu pai, que era do Kung Fu e também pela Capoeira. Dessa época, eu ganhei a disciplina e a flexibilidade. Conheci a Capoeira foi na curiosidade mesmo. Fiquei num grupo chamado Zumbi por menos de 1 ano. Aí eu entrei em outro grupo, porquê a minha vontade era pular e nesse outro grupo eu conheci pessoas que pulavam muito. Quando começava a passar cordas, essas coisas, eu saía pois não era o meu foco.
O menino que começou dando os primeiros saltos no “areião” ganhou o mundo com seu talento
BW: Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Como surgiu o Breaking na sua vida?
B-Boy Bart: Eu e alguns meninos da minha idade jogávamos sempre futebol e teve um dia, um iluminado que apareceu, um bêbado e ele disse que ia mostrar umas coisas que nós não sabíamos fazer e deu um mortal! Lógico que, como ele estava muito bêbado, caiu, mas depois daquilo nós falamos: “Nossa, é isso!”. Aí começamos pegar areia de um canto e de outro, de um vizinho aqui, de outro ali, para poder treinar mortal. Eu deveria ter uns 10 anos. Tudo isso aconteceu em Fortaleza. Passado algum tempo, eu me mudei. Meu pai ficou desempregado, nós vendemos a casa, fomos morar em outro bairro perto da Serrinha e lá, quando eu cheguei, eu não estudava, devido a problemas com papéis e tal… E, na verdade, eu também não queria naquela época. Então, eu e meus irmãos ficamos sem estudar um tempo. Meu irmão sempre existiu e esteve presente na minha vida! No mortal, na capoeira, em todos os momentos. E aí, chamei ele e disse que deveríamos ir atrás, naquele bairro, de algum lugar que tivesse Breaking, pois não poderíamos ficar parados. Então, descobrimos o “Programa Escola Aberta”, foi ali que tudo começou. Era como se abrisse a escola no final de semana, jovens e crianças podiam ter contato não só com o Breaking, mas com o Totó (Pebolim) e várias brincadeiras de criança. Eu ia pelo Breaking mesmo. Mas eu ia olhar. Eu sempre fui assim, de olhar primeiro, de observar, ver como é a movimentação, treino em casa e depois fazia fora. Mas foi após o meu filho nascer e eu me ver sem estrutura que realmente eu vi que aquilo era pra mim. Eu sempre tive disciplina, desde cedo e quando meu filho nasceu eu vi que precisava fazer alguma coisa, então, foquei no que eu mais gostava, que era dançar. E, em 2015, comecei a participar de muitos eventos, o primeiro evento foi o “Intime”, da Igreja Bola de Neve, “1vs1”, que dava vaga para um outro evento em Exu, em Pernambuco, com tudo pago. Eu ganhei e fui para lá. E isso foi muito marcante, a primeira vez que participei, ganhei e fui para uma outra cidade que ganhei também. Então, eu vi que era isso mesmo que eu deveria escolher na minha vida. Em 2015, eu saí ganhando todos os eventos. Eu tinha apenas 16 anos.
BW: Houve pessoas que foram referências para você na dança? Alguém te ensinou a dançar Breaking?
B-Boy Bart: Que me ensinou a dançar, não. Existiram aquelas pessoas que me davam um toque, falavam de um movimento… Agora, um treinador, não! Inspiração? Desde 2005, o Pelezinho foi um furacão que aconteceu.
BW: Como sua família via a sua relação com o Breaking? Você teve apoio da família?
B-Boy Bart: No começo, não tanto. Para eles, eram só pulos. Eles não tinham noção no que ia dar tudo isso. Só tiveram quando eu comecei a competir e ganhar! Mas, também, eles não falavam nada, mas para eles era perda de tempo.
A influência do Kung Fu e da Capoeira foram fundamentais para a criação do estilo próprio de dança do B-Boy Bart
BW: No tempo de aprendizado do Breaking houve dificuldades ou movimentos mais difíceis de aprender? Quais? Como foi a sua preparação para chegar onde chegou?
B-Boy Bart: Tiveram momentos que realmente foram mais chatos, principalmente nos freezes. Toda pessoa que dança Breaking tem um lado mais forte, no meu caso, foi fazer os movimentos nos dois lados. Para passar de um lado que era mais forte para o outro foi trabalhoso, porque até eu poderia ficar torto fazendo os movimentos só de um lado. Essa transição de aprender fazer as coisas para os dois lados foi muito chata, mas necessária. Tipo Chair, doía muito! Na hora do treino eu não sentia, mas depois doía muito! Mas eu precisava chegar no meu objetivo.
BW: Em outras danças é bem normal escutar os dançarinos falando de dor aqui e dor ali. Meio que faz parte da vida do dançarino… Como você vê isso?
B-Boy Bart: Sim, a dor caminha junto e faz parte da vida de quem dança. Sempre que um B-Boy ou uma B-Girl ganha um evento, você vai ver depois: parece que houve um esgotamento. Toda hora tem dor e tem que dançar sempre mais do que dança. É real! É necessário superar os limites para ser campeão! A dor significa muitas vezes que você está chegando perto dos seus objetivos!
BW: A maioria dos seus movimentos são de impacto, de poder. Como você prepara o seu corpo para isso?
B-Boy Bart: Eu treino normalmente com a galera do meu grupo e também treino com a galera de outros grupos. Mas penso que o que me diferencia é que eu já chego no treino treinado. E saio do treino ainda tem mais um pouquinho de treino. O Breaking é o meu estilo de vida. Eu acordo cedo, faço alongamento. Dia sim, outro não, eu corro. Eu sou vegetariano, comecei com vegano três anos atrás. Antes dos eventos, fazer a dieta vegana ajuda muito! A diferença no rendimento é muito rápida, esse tipo de comida traz leveza, mais explosão, define muito mais a musculatura. Mas de vez em quando podemos sair um pouco disso e comer coisas boas, merecemos isso (risos). Mas nunca antes de evento.
Bart e Leony se tornaram grandes amigos e têm representado o Brasil em diversos torneios internacionais
BW: Em 2018, você foi campeão brasileiro do Red Bull BC One, nos conte o que você sentiu naquele momento que saiu o resultado? Passou um filme na cabeça? Para você já era algo esperado?
B-Boy Bart: Esperado não era, mas eu tinha uma intuição que poderia acontecer e quando aconteceu, eu falei: “Caramba eu vou para Zurique!”, e pensei, “vamos ver o que é o Breaking do outro lado do mundo”. Naqueles dias, a Europa estava com muito Breaking! Para mim, batalhar com outras pessoas, até com a dança maior que a minha, me levou para um outro nível. Foi algo empolgante demais! Eu treinei com eles, eu comi com eles e o Leony estava lá comigo, me motivando, naquele evento ele foi Top 16. Então, ele falava: “Vamos lá, falta mais um!”. Ele é um cara muito amigo, humilde e ele fez eu me sentir mais seguro, porque eu estava em outro país, só tinha ele, então, ele me dava força. Tinha também Pelezinho e Neguin, mas não estavam perto, não tinha como ter uma conexão.
BW: Bart, você tem a experiência de ser dançarino da internacional Flying Steps. Como foi sua entrada na companhia? Fale um pouco do tempo junto com os outros dançarinos, dos ensaios, dos espetáculos antes da pandemia e o que você faz para atingir o seu melhor desempenho.
B-Boy Bart: Sim, eu trabalho com eles e com uma outra da Alemanha. Quando comecei, eu já cheguei chegando, tinha 45 shows para fazer. Nesse mundo, tem uma séria de coisas, tinha uma orquestra tocando ao vivo, tinha bonecos gigantescos, tivemos 1 mês e meio para criar tudo. Era de segunda a sábado, de 8h até 19h ensaiando. Nesse tempo, eu não falava muito inglês, mas depois de 1 semana, eu me virei e ainda eu morava com três deles, então, nós só pensávamos na dança, no espetáculo e no que íamos fazer. E isso me ensinou muito a ser regrado, a ter paciência com processos de montar movimentos. Eu consegui trazer isso também para o meu Breaking. Pra mim também! Eu estava treinando para batalhas futuras e estava mesclando tudo. A experiência foi muito boa! Foram 45 espetáculos e muito ensaio. Foi um grande aprendizado, único na minha vida, que guardo até hoje.
BW: Você falou que muita coisa você levou para o seu Breaking. Qual a importância de diversificar movimentos, de buscar algo novo e trazer coisas diferentes para as sessions?
B-Boy Bart: É muito importante você ter um arsenal gigantesco de movimentos. Porque você mostra confiança, atitude e personalidade na dança. Hoje já se olha a execução dos movimentos nos eventos. Com a possibilidade de você colocar tudo que traz na dança, você chega mais perto do ser original, mostrando variações.
Na Europa, 45 shows, ensaios e muita experiência (na foto o espetáculo com a Flying Steps)
BW: Em 2019, você participou do mundial da Red Bull em Mumbai, na Índia, junto com mais 2 brasileiros. No seu caso, você foi convidado pela organização a entrar diretamente na decisão, como um dos finalistas ‘wildcards’ do evento. Como foi sua participação? Nos fale sobre o resultado e suas impressões.
B-Boy Bart: Três semanas antes desse evento, eu tinha participado de um outro na Bélgica e eu já sabia que estaria no Top 16 da Red Bull em Mumbai, em 2019. E eu tinha que destruir na Bélgica para eu chegar em Mumbai. E foi o que aconteceu, eu cheguei na final na Bélgica e foi totalmente gratificante, muita gente assistiu e aquilo levantou o meu astral. E cheguei na Red Bull mais tranquilo, estava tudo muito fresco na minha cabeça, por mais que a pressão seja muito, mais muito grande mesmo… a pressão psicológica é muito alta, mas eu me senti bem. Cheguei lá, perdi para o Killa Kolya na semifinal, no ano de 2018 eu ganhei dele. Então, eu cheguei na semifinal achando que ia para a final, pois eu já tinha ganhado dele. Eu perdi, mas nós estamos ainda no 1 a 1 (risos). Ainda tem muita coisa pela frente na próxima para ganhar!
BW: E falando de tempo… Que tempo sobra para sua família? Você tem filho! Como administra tudo isso?
B-Boy Bart: É um mix de coisas! Nem todos os dias são iguais e fazemos o estilo brasileiro mesmo (risos). Eu tento estar com a minha família e ao mesmo tempo treinar. Meu filho tem 5 anos e é bem tranquilo. Deus mandou a criança perfeita para mim! (risos). Quando ele vê que cheguei de viagem, sempre vem “papai, trouxe alguma coisa para mim?”, ele já pratica alguma coisa de capoeira, mas no tempo dele…
BW: Bart, muitos B-Boys e B-Girls brasileiros não vivem da dança. Que conselhos você pode dar para quem pretende viver da dança?
B-Boy Bart: Planejamento. Planejamento é tudo! Saber o que você vai fazer, como você vai ganhar dinheiro e manter o foco. Tem que participar de eventos, afinal, eventos são vitrines. Você tem que batalhar. Planejar o seu ano tipo um ano antes. É algo fundamental!
Em 2018, Bart chegou na semifinal da Red Bull BC One, na Índia, disputando com Killa Kolya uma vaga na final
BW: O que você tem feito em todo esse tempo de pandemia? Como tem treinado? Como acha que será o “novo normal” da vida de um B-Boy ou de uma B-Girl pós-pandemia?
B-Boy Bart: Eu tento fugir da depressão, tento me manter feliz. Estou no Brasil, em Fortaleza, morando com a minha noiva, continuo treinando dia após dia, colocando minha mente em outras coisas, como redes sociais, YouTube, navegando e estudando áudio visual, cuidando da minha casa e treinando mortal.
BW: Sim, falando sobre o mortal, é verdade que os gringos quando veem os brasileiros dançando, eles aguardam o mortal? Como uma marca nossa?
B-Boy Bart: Eu acho que é porquê temos muitos B-Boys capoeiristas. Isso é Brasil! Eles já esperam por causa disso, seja como Pelezinho, Neguin ou Bart. Eles sabem que com nós é mais embaixo (risos).
BW: Muito tem se falado de Breaking nas Olimpíadas. O que você acha sobre isso? Algumas pessoas criticam e falam da possibilidade de se perder a essência da cultura por ser, agora, também um esporte. Como você vê isso?
B-Boy Bart: Eu vejo como uma evolução, na verdade, não acho que seja positivo e nem negativo, é somente algo do mercado. Isso já vem acontecendo tem muito tempo. O R16, todos esses eventos que tem, são em ritmo de Olimpíada, de ranking. Existe o ranking de B-Boys tem muito tempo. A Olimpíada entrou para apimentar ainda mais a competição. Acho que nada vai mudar… Como no futebol existem pessoas que jogam pelada e existem pessoas que jogam nos mundiais. Então, acho que vai melhorar muita coisa!
Para Bart, os brasileiros são fortes candidatos a medalhas nas Olimpíadas de Paris 2024
BW: Como você imagina que será para um B-Boy ou uma B-Girl dançar numa Olimpíada? Como a nova geração deve se preparar para isso?
B-Boy Bart: Aqui nós somos ainda muito samba. Estamos ainda presos em algumas perguntas: tem isso? Tem aquilo? Tem incentivo? O pessoal lá fora está se preparando, enquanto aqui temos que ser competidor e também ensinar, talvez isso aconteça com a nova geração… Será que respondi essa pergunta?!?
BW: Bart, seu nome tem sido lembrado o tempo todo na imprensa e nas grandes mídias. Então, vou direto ao ponto: Você se sente preparado para representar o Brasil numa Olimpíada e trazer uma medalha para casa?
B-Boy Bart: Estou sim! (risos). Eu venho me preparando para isso. Vejo o Breaking como um jogo de xadrez, tem que usar a cabeça e muita estratégia. O momento conta muito! Mesmo que eu não tenha treinado no dia anterior, eu não fico mais do que uma semana sem treinar. Nas oportunidades, precisamos estar “okay” e eu estou preparado!
BW: Na sua opinião, temos mais brasileiros preparados para o pódio?
B-Boy Bart: Sim, temos! O Brasil é potente no Breaking, todo brasileiro tem uma chavezinha que mostra algo a mais.
Foco, concentração, determinação, planejamento: “Estou pronto para as Olimpíadas!”
BW: Quais são seus planos para o futuro?
B-Boy Bart: Praticar Breaking, participar de eventos, voltar a fazer shows na Europa e me manter preparado para as Olimpíadas! O meu foco agora é esse! Estou rezando para que tudo volte ao normal.
BW: Que mensagem você deixaria para os B-Boys, B-Girls do Brasil? E o que você diria para a nova geração do Breaking que o tem como uma grande referência?
B-Boy Bart: Nossa, que pergunta! Preciso pensar… Complicado inspirar as pessoas… Penso que o Breaking deva ser passado para a nova geração, quanto mais passado, mais vamos fortalecer o Brasil. Mas aconselho que tenham planejamento, que sejam persistentes e teimosos, sempre treinar além do que já existe e do que se vê: é isso!
Fotos: Arquivo Pessoal
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Já entramos em 2021! Quanta saudade de reencontrar os amigos e sentir aquele calor humano. Que saudade das boas vibes dos eventos e das Cyphers!
Finalizamos o ano de 2020 com muitas perdas, mas com a promessa da chegada da vacina. Seria o momento de flexibilizar o isolamento e voltar aos eventos presenciais, B-Boys ou B-Girls?
Segundo os epidemiologistas, a resposta é NÃO!
O risco dos eventos para a transmissão da Covid-19 ainda é muito grande e as consequências letais: em alguns casos, basta um infectado para causar um surto e espalhar a doença por diversas regiões. Além do potencial para propagar o novo coronavírus, “superdisseminadores” podem também ser uma arma.
Surtos locais de infecção com o novo coronavírus surgem frequentemente após eventos ou aglomerações, tanto em espaços fechados, quanto ao ar livre, mesmo cumprindo os “protocolos”.
Beijo, abraço ou aperto de mão? Em tempos de pandemia o melhor mesmo é manter o distanciamento social e evitar aglomerações
Abraços, beijos, conversas próximas, toques, danças, fazem parte da vida e muitas pessoas não estão emocionalmente preparadas para perder, mesmo em tempos de pandemia… Todos querem a antiga vida de volta.
Embora os eventos ainda estejam proibidos, alguns organizadores decidiram criar suas próprias regras e protocolos, onde após a realização fica provado, pelo aparecimento de novos casos de Covid, que o distanciamento e o uso de máscaras nem sempre foram eficazes.
No Breaking não é diferente, alguns eventos presenciais têm acontecido pelo Brasil afora, até com a presença de menores de idade sem máscaras, acompanhados de seus “educadores”. A irresponsabilidade, segundo os médicos, de alguns e a pressão e o convite para deixar o isolamento por parte da galera é grande, por meio das redes sociais, fotos, cartazes de eventos e competições nos “stories” proliferam no Instagram e Facebook, deixando claro que para esses apenas o hoje, a diversão e a premiação que podem ganhar importam.
Nos últimos meses a alta incidência de Covid-19 em jovens e crianças tem alarmado estudiosos e médicos. “Realmente temos aumento dos casos positivos em todos os laboratórios, envolvendo jovens”, comenta José Medina, do Centro de Contingência da Covid, do governo. Em recente entrevista, Sylvia Lemos Hinrichsen, médica e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, declarou: “Esse fenômeno acontece, porque são essas pessoas (os jovens) que não querem seguir protocolos de distanciamento, eles não pensam em como vão transmitir para os outros”, afirma.
Quem é o superdisseminador?
Um superdisseminador é um infectado que transmite a doença para um número grande de pessoas. O infectado não tem culpa, qualquer um pode se tornar um superdisseminador se tiver tido contato com muitos no momento errado. O momento também é crucial, pois um infectado já pode ser altamente contagioso mesmo antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Durante esta fase, a carga viral na garganta parece ser particularmente elevada. Entretanto, muitos não apresentam sintomas ou quase não os têm e, portanto, nem mesmo percebem que foram infectados e que são fontes de contágio. Além disso, algumas pessoas parecem espalhar mais vírus e durante mais tempo que outras. Isto pode ocorrer devido a seu sistema imunológico ou à distribuição de receptores de vírus no corpo. Muitas vezes nem é possível identificar o superdisseminador….
Especialistas apontam que o relaxamento das medidas de isolamento social e o consequente aumento das aglomerações, está diretamente ligado ao crescimento de casos de Covid-19 pelo país nas últimas semanas – o Brasil já registrou mais de 7,9 milhões de infecções pelo coronavírus e mais de 200 mil mortes até o fechamento dessa matéria.
Há eventos que dizem seguir todos os protocolos necessários. No entanto, especialistas afirmam que não é possível haver qualquer medida para conter o vírus quando há aglomeração de pessoas sem máscaras. “A contaminação ocorre pelo contato próximo, principalmente quando a pessoa está sem a máscara. Quanto maior a quantidade de gente em um local, maior o risco de contaminação. Não há como garantir que não haverá contaminação em um ambiente fechado com algumas pessoas por tempo prolongado, sem distanciamento adequado”, acrescenta o epidemiologista Márcio Sommer Bittencourt, pesquisador do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da USP.
Segundo especialistas, os protocolos não garantem que não haverá contaminação em eventos fechados ou abertos
Definidos então como “superdisseminadores”, esses ambientes fechados e com aglomerações foram alguns dos primeiros fechados em muitos países no início da pandemia, para combater o aumento dos casos de Covid-19.
Em locais assim, se alguém estiver com o vírus — com ou sem sintomas — logo pode infectar outras pessoas e dar início à cadeia de transmissão que pode atingir larga escala. “Se houver, por exemplo, uma pessoa que é ‘superdisseminadora’, ela pode infectar aproximadamente até 15 pessoas ali, como já foi observado em outros eventos. Em ambiente fechado, o vírus pode circular no ar-condicionado e aumentar ainda mais a transmissão. É uma situação que não tem como ser minimizada”.
Além dos riscos aos convidados e aos trabalhadores da festa, especialistas apontam que esses eventos podem provocar muitas mortes de pessoas que sequer estavam na comemoração. “Uma pessoa que é infectada na festa pode expor a própria família ao vírus. Isso é um risco, principalmente, para idosos e pessoas com doenças pré-existentes”, comenta o epidemiologista.
“Pelo mundo, há casos de eventos que geraram mais de 100 casos de Covid-19″, acrescenta o especialista. A pessoa vai à festa e depois a vida dela continua, porque ela pode não sentir nada. Nos próximos dias, todos os que convivem com ela correm risco. A pessoa pode pegar, depois visita o pai, passa para ele, que passa para a mãe e alguém morre”, pontua Bittencourt.
“Além disso, é importante dizer que não é garantido que uma pessoa jovem não vai ser um caso grave de Covid-19. Há várias situações assim. Além disso, a pessoa pode ter sequela funcional e não conseguir retomar atividades rotineiras”, acrescenta Márcio.
A aglomeração pode dar início à cadeia de transmissão que pode atingir larga escala, o negacionismo e a irresponsabilidade pode colocar a vida de muitas pessoas em risco
Testar os dançarinos é uma opção antes de um evento?
Uma estratégia adotada em vários eventos durante a pandemia, para fazer aglomerações é a realização de testes para apontar se a pessoa está com a Covid-19. No entanto, especialistas alertam que a medida não garante que não há convidados infectados pelo novo coronavírus.
“Não há nenhum exame que exclua com 100% de segurança a possibilidade de você estar infectado pelo vírus da Covid-19”, afirma Bittencourt.
O teste considerado o mais preciso para a Covid-19 é o RT-PCR, que deve ser coletado entre os dias três a cinco, a partir do início dos sintomas. “Ele tem uma sensibilidade entre 70% a 80%. Ou seja, mesmo com o melhor exame existe a possibilidade de 20% a 30% de falso negativo, no qual a pessoa está infectada e o teste falha em detectar o vírus”, pontua o especialista. O percentual de erro aumenta quando a pessoa é assintomática.
Os demais testes têm segurança menor. “As sorologias não estão indicadas para identificar a infecção ativa por Covid porque têm altíssimas chances de falso negativo (maior ou superior a 50%) por conta da janela imunológica, período que demora para o surgimento dos anticorpos no sangue, entre 8 a 14 dias após os primeiros sintomas”, conclui o epidemiologista.
A testagem e a vacina são fatores que podem ajudar, mas ainda não garantem 100% de segurança
E quando a vacina chegar?
Veja o que a BBC escreveu sobre o assunto:
“Vamos ver se surge uma vacina e tudo isso acaba” é uma das frases mais ouvidas durante a pandemia. Muitas pessoas estão cansadas de viver com medo e de não poderem sair de casa com tranquilidade. Por isso, a descoberta de uma vacina contra a Covid-19 que acabe com essa crise é uma esperança para milhões de pessoas. Criar a falsa esperança de que vamos contar em breve com uma vacina ou um tratamento eficaz contra a Covid-19 pode ser uma enorme decepção. Não há dúvida de que as vacinas são um dos grandes avanços da história da humanidade e a melhor forma de prevenir e reduzir as doenças infecciosas. Mas o desenvolvimento de vacinas apresenta muitos desafios para torná-las seguras e eficazes, e este caso não é exceção.
Vamos a algumas questões:
O processo normal de desenvolvimento de uma vacina geralmente varia de 10 a 15 anos. Não se deve esperar que tenhamos uma vacina perfeita em menos de um ano e que ela nos permita voltar automaticamente à vida que tínhamos.
Em 1984, quando o vírus da imunodeficiência humana (HIV) foi identificado como responsável pela pandemia da AIDS, o secretário de saúde e serviços humanos dos Estados Unidos declarou que uma vacina estaria disponível em dois anos. Hoje, 36 anos depois, ainda não há uma vacina contra o vírus.
As vacinas, como qualquer medicamento, podem provocar efeitos colaterais. Um dos principais problemas enfrentados pelos investigadores é a potencialização dependente de anticorpos, mais conhecida como ADE. Trata-se de uma reação indesejada na qual a geração de anticorpos frente a um agente infeccioso, a exemplo do uso de uma vacina, pode dar lugar a sintomas muito piores. Ou seja, a doença acaba potencializada em caso de infecção pelo vírus.
Um dos principais desafios que enfrentaremos caso se obtenha uma vacina eficaz contra o coronavírus será a sua produção em larga escala, para que chegue à maior parcela possível da população mundial. Estamos falando em produzir bilhões de doses. Isso sem levar em conta que muitas das vacinas em estudo demandam duas doses por pessoa. Além disso, outro problema adicional seria a produção em massa de doses sem afetar a produção de outras vacinas importantes.
Vamos pensar que a vacina eficaz contra o Sars-CoV-2 está sendo desenvolvida e produzida em larga escala. O próximo problema a enfrentar é a entrega eficiente a bilhões de pessoas em todo o mundo. Não adianta ter vacina se ela não chega ao usuário final.
Durante meses, anúncios de possíveis reinfecções circularam em diferentes partes do mundo. Hoje é um fato que pessoas que já tiveram a doença podem ser infectadas novamente. Isso é relativamente comum em doenças infecciosas. Na verdade, não há doença viral respiratória conhecida em que não ocorram reinfecções. Uma possível explicação seria que, como ocorre com outros coronavírus que infectam humanos, a presença de anticorpos desaparece gradualmente ao longo de alguns meses após a infecção. O principal problema com as reinfecções é que, apesar do fato de que as vacinas geralmente desenvolvem uma resposta imunológica mais forte do que a infecção natural, os resultados esperados não seriam os melhores se já que se sabe de antemão que a imunidade natural é de curta duração. Embora o papel desempenhado pela resposta celular nas vacinações e sua relevância na proteção contra infecções ainda estejam para ser analisados e confirmados, tudo parece indicar que seria, muito provavelmente, necessário se revacinar de vez em quando.
A maioria das vacinas que usamos envolve a injeção de um vírus enfraquecido e inativado, ou simplesmente componentes do vírus que são produzidos e purificados em laboratório. No entanto, muitas das vacinas candidatas que agora estão sendo testadas em humanos são baseadas em tecnologias genéticas relativamente recentes. São conhecidas como “vacinas genéticas”, que podem ser de DNA ou RNA.
Tudo parece indicar que, no caso de surgir uma candidata bem-sucedida, as primeiras vacinas devem proteger parcialmente contra a infecção, a imunidade teria vida curta e não funcionaria para todas as pessoas. No entanto, é sempre melhor ter uma vacina parcialmente eficaz do que nenhuma. Seria muito útil proteger parte da população e reduzir o aumento da taxa de infecções. Além disso, tendo tantas candidatas diferentes em desenvolvimento, é possível que objetivos diferentes sejam alcançados. Por outro lado, é possível que em um futuro mais distante sejam desenvolvidas vacinas mais complexas e com melhores resultados.
Em resumo, embora o esforço sem precedentes e os resultados preliminares possam convidar ao otimismo, a realidade pode ser muito diferente. Portanto, é preciso evitar o excesso de otimismo e contemplar todos os cenários possíveis.
Por fim, é importante lembrar que até que a pandemia desapareça, é de vital importância respeitar as medidas básicas de proteção à saúde, que realmente funcionam para prevenir infecções, como o uso correto da máscara, lavar as mãos frequentemente com água e sabão e manter o distanciamento social.
Conscientização e informação são armas poderosas contra a Covid-19: cuidar ainda é o melhor remédio
A difícil decisão de dizer “não” a Covid-19
A impressão de dizer não a tudo e todos que gostamos não é fácil. Mas o seu “não” nunca será para pessoas ou para eventos que gosta, mas para o contágio e disseminação da Covid.
Deixar de frequentar as rodas, eventos e as Cyphers que são vida para um B-Boy ou uma B-Girl não é algo simples. Mas é a única forma de garantir que eles continuem acontecendo no futuro e com a presença das pessoas que você gostaria de reencontrar.
Em tempo de pandemia, os eventos on-line têm sido uma opção, assumido um papel importante e responsável na vida de muitos dançarinos. Prevenir é sempre melhor do que tratar as consequências de uma escolha errada. Se prepare para fazer parte do futuro, se cuide!
Se for teimoso e decidir ir a algum evento presencial, pelo menos use máscara, álcool gel e mantenha o distanciamento social: a vida agradece!
Fotos: Reprodução
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Iniciar o ano de 2021 conversando com o futuro do Breaking brasileiro não tem preço!
Ele, com apenas 15 anos, já esteve em Portugal, na França e no Chile. Foi Tri-Campeão Brazil Batlle Pro e também premiado no Dance Summer Camp, em Portugal.
“O Breaking é vida!”, garante B-Boy Marcin, da Dream Kids Brazil. E tem sido por meio desse elemento da Cultura Hip-Hop que o menino, que perdeu recentemente a mãe vítima da Covid-19, tira forças para seguir em frente, para treinar e lutar por seus sonhos e objetivos.
Veja a entrevista:
BW: Queria que você falasse seu nome completo e idade. Nos conte um pouco da sua infância e da sua vida em família. Que lembranças tem dessa época? Como era o Marcin criança?
Marcin: Meu nome é Marcio Vinícius Nunes de Souza, tenho 15 anos. Bom, eu sempre fui uma criança muito agitada, não parava quieto com nada, toda hora estava correndo, pulando ou fazendo alguma bagunça.
De menino agitado a B-Boy focado: “Breaking é vida!” para a nova geração brasileira
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip- Hop? Quando viu pela primeira vez o Breaking e pensou que aquilo era para você?
Marcin: Desde pequeno sempre gostei de dançar e me inspirava no Michael Jackson, mas o primeiro contato mesmo foi quando eu vi o filme “Se ela dança, eu danço”, todas as sagas, sendo 1, 2, 3 dos filmes e, daí, eu me apaixonei, sempre ficava tentando imitar as coreografias deles, mas nunca conseguia. Então, um dia, minha irmã que fazia Breaking na época me viu dançando (ou pelo menos tentando dançar – risos) e falou para minha mãe que precisava me colocar numa aula de dança e que ela sabia onde tinha essa dança, no caso o Breaking. Foi quando conheci o professor Thiago, pai de Sonek e daí foi, desde os 6 anos de idade até hoje nunca mais parei.
BW: Quem te ensinou os primeiros movimentos? Nos fale um pouco de suas referências no Breaking?
Marcin: O professor Thiago me ensinou os primeiros movimentos, os mais básicos como: Top Rock, Footwork, Freeze e Power Moves.
BW: Quando começou a competir? Em que ano?
Marcin: Minha primeira competição foi em 2014, tinha 9 anos de idade e fui campeão em meu primeiro campeonato.
B-Boy Marcin e B-Boy Sonek: dupla de campeões do Breaking Kids brasileiro
BW: Quais foram os principais eventos que participou e ganhou?
Marcin: Esse ponto foi automático. Foram Rival vs Rival, na Seven To Smoke, Brazil Battle Pro, onde fui campeão 3 vezes seguidas e Vibe das Ruas. Fiquei em segundo no mundial.
BW: Você já foi para fora do Brasil, correto? Para onde foi? Onde competiu? Nos conte sua experiência fora do Brasil…
Marcin: Sim. Fui para Portugal, França e Chile. Em Portugal, competi no evento “Dance Summer Camp”, que sinceramente foi uma das melhores experiências da minha vida e o melhor evento que já fui até então, competi na França, Lille Battle Pro 2018, que também foi um baita evento e no Chile, no Sur Breakers. Bom, pra mim aconteceu tudo muito rápido, não me falaram que eu iria viajar pro exterior e que eu iria competir, fui ganhando campeonato, no caso o Battle Pro, daí surgiu um convite do produtor do Sur Breakers no Chile e graças a Deus ocorreu tudo bem nessas viagens e espero voltar lá algum dia e agradeço o meu treinador Dunda, que sempre me ajuda e que me levou pra essas viagens.
BW: No seu aprendizado existiram movimentos que foram mais difíceis de aprender? Ou todos foram fáceis?
Marcin:Sempre aprendi as coisas muito rápido, sinceramente sou muito ágil e tal, mas não vou falar que todos os movimentos que eu aprendi foram fáceis, óbvio tem movimentos que eu tenho mais facilidade e outros não. Então, tudo depende da agilidade e garra da pessoa pra aprender os movimentos.
B-Boy Marcin e o treinador da Dream Kids Brazil, Eder Devesa (Dunda) em Portugal
BW: Nos conte quando começou a treinar com o B-Boy Dunda e como é até hoje essa relação?
Marcin: Conheci o Eder no final de 2012, quando tinha 7 anos de idade, após um ano de eu ter começado a dançar. E dessa época em diante, viramos tio e sobrinho, amo esse cara!
BW: Como foi a sensação de ganhar fora do Brasil? Que idade você tinha? Que sentimento você tem quando vai competir?
Marcin: Como foi minha primeira viagem eu sinceramente não esperava que iria chegar tão longe, foi incrível demais ganhar este evento!
BW: O que você acha dos eventos de Breaking que acontecem no Brasil comparados aos que acontecem lá fora?
Marcin: Sinceramente, eu acho os eventos muito ralos, porque primeiro no Brasil é muito difícil tu ganhar um apoio pra fazer um evento de Breaking, já lá fora, eles têm tudo, no caso eles vivem do Breaking.
Treinar e treinar e treinar, na certeza de ser um eterno aprendiz…
BW: O que acha do Breaking ter virado uma modalidade olímpica? Você gostaria de ir para as Olimpíadas?
Marcin: Acho que o Breaking vai ficar mais conhecido, é óbvio que eu quero ir para as Olimpíadas e acho que qualquer B-Boy atleta almeja isso. Vou fazer de tudo para ir, creio que cada treino ou cada gota de suor minha não será em vão.
BW: Como são seus treinos atualmente? Quantas vezes por semana treina? E quantas horas?
Marcin: Treino todos os dias da semana, das 14h às 16:30 e corro terça e quinta, descansando sexta-feira e treinando sábados e domingos também.
BW: Como é ser B-Boy no Catalão? Tem outros B-Boys? Onde você treina? Recebe algum apoio?
Marcin:Ser B-Boy em Catalão é dificil, porque ninguém sabe quem é você. Tem, sim! No caso, B-Boy Sonek e alguns iniciantes, treino em casa e aos sábados e domingos em um lago que tem aqui perto de casa e nunca recebi nenhum apoio da cidade.
Os irmãos-amigos: uma longa amizade e parceria na vida e no Breaking
BW: Você e o B-Boy Sonek são da mesma Crew? Vocês parecem ser muito amigos, nos fale sobre essa amizade…
Marcin: Sim, somos da Dream Kids Brazil, junto com o Eagle e a Angel de São Paulo e o Samukinha de Goiânia. Bom, digamos que eu e Sonek somos irmãos, crescemos juntos, batalhamos juntos e sempre foi assim, sempre estivemos juntos!
BW:Esse ano foi um ano bem difícil… Você perdeu sua mãe com Covid-19. Como ficou sua vida depois disso tudo e o que te deu força para continuar? Que papel sua mãe tinha na sua vida?
Marcin: Simplesmente o Breaking me deu força, é onde eu me mantenho calmo e onde eu consigo me manter no foco e no controle de tudo. Minha mãe, sinceramente, era a única que me apoiava em tudo…
BW:Se pudesse falar algo sobre ela ou para ela o que falaria?
Marcin: Falaria que sinto saudade e sinto muita falta dela.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
Marcin: Meus planos para o futuro são trabalhar bem a minha imagem e ano que vem ir em todos os eventos possíveis. Mas o objetivo é tentar ficar fora do Brasil para sempre.
BW: Que mensagem deixaria para os leitores do Portal Breaking World?
Marcin: Não importa a dificuldade ou problema, se tem um sonho nunca desista dele, continue firme, por mais que pareça que o mundo vai desabar… Um dia terá resultados e saiba que nunca será fácil, mas não desista!
Continuar firme, nunca desistir e ter a certeza que o futuro do Breaking no Brasil será brilhante
Fotos: Arquivo Pessoal
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Ele nasceu no litoral de São Paulo, perdeu a mãe biológica quando tinha apenas 1 mês de vida e depois a mãe adotiva, quando tinha 5 anos, tendo apenas o pai e irmãos. Sua infância foi dentro da aldeia e na cidade. Vivenciou no ano 2000 a retomada das terras indígenas do Piaçaguera, que significa “o caminho ancestral”. Seu tio Awa Dju Pitotó e mais um grupo recuperou o Piaçaguera, pois ali era e sempre será o ponto de encontro e descanso dos Nhandewa Tupi-Guarani e, entre outros, nessa luta travaram brigas com duas grandes mineradoras pela terra.
Mas você deve estar pensando: o que essa história tem a ver com a Cultura Hip-Hop?
Bom, foi em 2003, por meio de um primo que Renato, também conhecido como Kuaray O’ea, que siginifica “amanhecer” teve contato com a Cultura. Desde então,vem praticando Breaking, não como algo para disputar, mas para se manter equilibrado. Ele fala: “Quem dança voa e quem voa precisa manter o equilíbrio, por isso danço Breaking”.
O Portal Breaking World conversou com o B-Boy Kuaray O’ea e vejam o resultado desse interessante bate-papo:
BW: Pode nos falar seu nome, sua idade e lembranças da sua infância?
Kuaray: Sou Kuaray O’ea, tenho 30 anos no caminho do aprendizado, sou gente boa! (risos). Ainda com uma semana de vida, assim me contaram, que partiu minha mãe para o outro mundo, outro plano. Pequeno, sendo mal cuidado pela família, uma linda moça e seu marido me pegou para cuidar. Dizem que a minha situação não era brincadeira, tinha feridas por toda parte do meu corpo, furúnculo por todo o corpo, falam que não conseguia nem chorar. A moça linda que mencionei é minha mãe de criação e Carlos é meu pai de criação. Eles me adotaram e cuidaram de mim, minha mãe adotiva também partiu nos meus cinco anos de idade… Meu pai aguentou a barra comigo e meu irmão mais velho, desde os doze anos já bebia muito, ainda tinha minha irmã mais velha e outro irmão, éramos em quatro, hoje em três e as lembranças… Todos eram músicos na época também, eu acompanhei boa parte disso na minha infância, pois, às vezes, eu tocava nos intervalos. Bateria, eu tocava desde os quatro anos de idade e até hoje um pouco (risos). Desde pequeno no meio de tanta gente que tocava pra caramba, não tinha como evitar, a música já fazia parte de mim. Aos doze anos eu, Kuaray, aprendi a tocar violão, só observando e ouvindo, também estava compondo alguma coisa já..Antes que eu me esqueça: nasci em Itanhaém, depois que meu pai ficou doente, fomos morar em Peruíbe, perto da minha irmã mais velha.
Kuaray O’ea teve uma infância difícil e encontrou no Breaking o equilíbrio
BW: Como era a vida na aldeia?
Kuaray: No ano 2000, aconteceu a retomada das terras indígenas do Piaçaguera, que significa “o caminho ancestral”.
Meu tuty (tio) Awa Dju Pitotó e mais um não tão pequeno grupo, recuperaram o Piaçaguera pois ali era e sempre será o ponto de encontro e descanso dos Nhandewa Tupi-Guarani e entre outros. Enfrentaram muita gente, pois ali habitavam duas mineradoras, Jazilda de Leão Novaes e o Popesco. Eles detonaram boa parte da terra, extraindo areia, cavando buracos para enterrar entulhos e fazer vidro. Têm muitos buracos naquelas terras e muitos destes são lagoas que, nem sabemos ao certo o que tem lá em baixo.
BW: Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Kuaray: Em 2003, tive o primeiro contato por meio de um primo que dançava Breaking, falávamos dançar Hip-Hop na época (risos). Comecei aprender os movimentos e não parei, desde então, venho praticando Breaking não como algo para disputar mas para me manter equilibrado, quem dança voa, quem voa precisa manter o equilíbrio e por isso, eu danço. Junto com tudo isso, também buscava falar minha própria língua, o tupi-guarani, conheci várias aldeias e dancei em muitas delas, ensinei e aprendi, na maioria mais aprendi.
BW: Fale um pouco do seu nome e como surgiu?
Kuaray: Quando completei dezoito anos, meu tio Awa Dju Pitotó sonhou com meu nome, Kuaray O’ea. Na minha cultura, os nomes são dados a nós, ainda recém-nascidos. Quando não temos o nome, não temos direção. Meu nome significa “primeira luz” ou “amanhecer”, meu tio diz que esse era meu nome, então, assim é.
Na aldeia, os treinos inspirados nos Power Moves de B-Boys consagrados: no chão de terra em busca do equilíbrio para voar!
BW: No seu aprendizado de Breaking tiveram movimentos que foram mais difíceis de aprender?
Kuaray: O Air Flare, tive muita dificuldade para executá-lo, mas persisti. Nesta mesma época, eu pensava que não daria certo juntar outras culturas ao Breaking. Então, imitava outros B-Boys, como Hong10 e Physicx, também tem o Lil G, Bart, Taisuke e Issei, que pra mim eram os melhores, depois comecei a criar os meus próprios movimentos. Por ter Power Moves semelhantes ao Hong 10, me chamavam no início de B-Boy Korea, não me sentia mal não, levava na boa. Neste tempo, treinávamos numa escola chamada Carmen Miranda aos finais de semana e durante a semana, treinava no Guaraú, em Peruíbe, com os B-Boys de lá. Muitas vezes, treinava com os B-Boys Grilo, Polegar e Leandro, na minha aldeia na grama ou areia. Era bom, mas nao desenvolvia os “Moves” por não deslizar. Depois que machuquei o ombro, fiquei um bom tempo sem dançar.
BW: Alguma vez sofreu discriminação por ser um índio no mundo dos B-Boys ou ser um B-Boy no mundo dos índios?
Kuaray: Na cidade de Peruibe treinava com alguns B-Boys que sempre me trataram muito bem e na aldeia outros índios até gostavam do que eu fazia.
BW: Verdade que depois que aprendeu começou a dar aula de Breaking na aldeia?
Kuaray: Sim, em 2018 continuei dançando, dessa vez era fora da aldeia, no estúdio de dança da bailarina Luciana Amancio e no estúdio de dança Cinthia Riggo, por lá fiquei alguns meses. Nessa época, ensinava Breaking na aldeia, nos meus alongamentos, com as crianças, usava o treinamento de Txondaro para fortalecer ossos, corpo e principalmente o espírito.
Kuaray encontrou seu próprio estilo ao incorporar movimentos do Txondaro ao Breaking: a dança e a arte não têm limites
BW: O que era o treinamento Txondaro?
Kuaray: O Txondaro é uma dança praticada na minha cultura, é algo milenar. É um treinamento de guerreiros para enfrentar florestas, enfrentar inimigos, nessa dança aprendemos a nos desvencilhar dos perigos, aprendemos vários tipos de rolamentos. Aprendemos a ter habilidades nos movimentos e também uso essa dança no Breaking.
BW: Você também é Rapper e rima em tupi-guarani. Nos fale sobre isso?
Kuaray: Consegui fazer minha primeira rima em tupi-guarani em 2019, a música chama Txondaro. Comecei fazer essa música na aldeia e só consegui completá-la quando vim para a cidade novamente. Na cidade, me dediquei ao Breaking e também à vida de MC. Consegui juntar o Rap à cultura tupi-guarani, hoje treino também Power Moves usando o Txondaro como base da minha dança, é algo louco.
BW: como é ser indio e ser B-Boy?
Kuaray: Nós do Tupi-Guarani, tudo que vemos, aprendemos na hora e na dança não foi diferente, quando eu comecei a treinar, evoluí rápido. Mesmo sendo gordo, eu consegui fazer muitos movimentos que pessoas magras não conseguiam. Eu sempre peguei as coisas rápido e isso vem da minha familia, todos são assim. Alguns tocam instrumentos, outros dançam. Ser B-Boy não é só ser um dançarino que flutua e faz movimentos. O B-Boy procura a cura do corpo, da alma, da superação. Despertamos tudo.
Para Kuaray, ser B-Boy não é apenas flutuar, mas buscar a cura do corpo, da alma, a superação
BW: O que pensa sobre o Breaking virar uma modalidade olímpica?
Kuaray: Independente do Breaking virar esporte, para mim o Breaking sempre será meu equilíbrio, pois quem dança voa, quem voa precisa manter o equilíbrio e é por isso que eu danço.
BW: Que mensagem você deixaria para quem está lendo essa entrevista?
Kuaray: Independente de qualquer movimento, de qualquer dança, o importante é despertar tudo o que existe dentro da gente, o que realmente somos. Eu quando danço, eu penso em voar, precisamos do equilíbrio, as pessoas precisam de equilíbrio e o mundo precisa de equilíbrio. Por isso busque o melhor dentro de si, o melhor!
Fotos: Arquivo Pessoal
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“Entender que o sucesso do coletivo é melhor que o individual, pois cria uma base de sustentação” (Street Breakers)
Conhecer o passado para viver o presente e escrever o futuro é fundamental, contar a história das Crews e sua importância na Cultura Hip-Hop e na vida de cada indivíduo, seja B-Boy, B-Girl, DJ ou MC, tem sido para o Portal Breaking World um desafio, mas também um privilégio.
Toda obra jornalística são registros, documentos de grande valor, pois traz comportamentos e construções históricas do passado que são permanentes. Eternizar esses registros para as novas gerações é um legado do nosso Portal. Cumprindo essa missão, hoje temos o prazer de apresentar para vocês, queridos leitores, a entrevista que fizemos com a Street Breakers, que é uma das Crews mais antigas em atividade no país, sem dúvida eles fazem parte da primeira geração do Hip-Hop no Brasil.
Esse ano, a SB completou 31 anos. Falamos sobre o início, sobre a formação da Crew, sobre as festas, opiniões, algumas polêmicas, claro, falamos sobre a Master Crews, sobre a nova geração, sobre as Olimpíadas e muito mais. Ficou curioso sobre o que esse pessoal de peso tem para contar? Então, não perca mais tempo e confira a entrevista na íntegra:
BW: A Street Breakers é uma das Crews mais antigas do país, correto? Queria que nos contasse quando e como surgiu a Crew? Que tempos eram? Como a sociedade via a Cultura Hip-Hop e seus elementos?
SB: A Street Breakers Crew nasceu em 1989. É uma das mais antigas “em atividade”, visto que, infelizmente, muitas pararam ou interromperam suas movimentações. Abrigou em suas gerações todos os elementos básicos da Cultura Hip-Hop. Sua ideologia sempre foi de multiplicar essa cultura e sua ideologia positivista. Éramos um grupo de jovens que decidiu fazer desta manifestação seu lar e seu “Life Style”. A SB nasceu em um período difícil para a Cultura Hip-Hop, havia passado o modismo do início, com filmes nos cinemas (Beat Street – 1984) e competições em programas de TV. O Breaking foi o elemento que proporcionou este estouro midiático no mundo e no Brasil, mas passado isto veio o preconceito. Não éramos aceitos nem em bailes. Éramos expulsos só por estar dançando Breaking. Graffiti era caso de polícia, nossas músicas eram de “bandido”. Começamos a ser vistos como uma subcultura ou menos que isso. Afinal, foram as classes menos favorecidas que deram continuidade a tudo isso, neste pós modismo. Mas, voltando à Crew, esta época também fortaleceu nossa ideologia enquanto coletivo. Sempre almejamos ser como uma família, cuidar dos nossos e ajudar a comunidade que nos cerca. O aprendizado além de meios formais foi importante e a persistência foi uma constante.
A Street Breakers, fundada em 1989, é uma das mais antigas Crews em atividade
BW: Quem foi o fundador do grupo? Como era ser B-Boy naqueles dias? Quais eram os grandes desafios?
SB: Trabalhamos com a ideia de coletivo em tudo que fazemos, não houve somente um fundador. São eles Bispo Sb, Fukão, Wantuir, Wellington, Neguinho, Sandro, Jardel. Gosto da pureza e inocência do início. Não havia competições, apenas os rachas. Poucos se apresentavam. Sucesso era ser reconhecido pelos seus companheiros de cultura. Nossa sede era no Largo do Carrão, à vista de todxs [sic], então, é como se nos apresentássemos para os pedestres e veículos diariamente. Sempre havia o responsável por dar atenção a quem perguntava sobre o que estávamos fazendo e era mais uma oportunidade de multiplicar o nosso conceito de Hip-Hop, ou ver nascer mais um “Hip-Hoper”. Curioso é que, nesta época, já tínhamos a certeza absoluta de que o que fazíamos deveria ser por amor e não por dinheiro, que era mais uma consequência do que uma meta. Na atualidade, continuamos firmes com essa concepção. Hip-Hop é pra quem ama. Sempre haverá aqueles que conseguirão um sucesso financeiro e também é legal isso. Mas Hip-Hop não é algo que você faz, é algo que você é.
BW: Como surgiu o nome Street Breakers? Quem deu esse nome ?
SB: Surgiu através do Wellington e resumindo a história… foi aceito pelos demais. Street é rua, Breakers é “quem quebra, detona”. Tinha aquela aura da época, em que os nomes, a maioria, eram quase referência a algo mágico, super, guerreiro. Ser Street Breakers é “quebrar” conceitos errados, é pensar e agir além, quebradores, destruidores, mas ajudar na construção de algo melhor e não se constrói nada de cima, é da base, das ruas.
BW: Nos fale da formação do SB. São os mesmo B-Boys desde a década de 80? Ou já tiveram várias gerações? A Crew também tinha mulheres?
SB: Somos uma crew que mantém seus membros por muito tempo. Afinal, não tiramos ninguém da Crew, é a pessoa quem sai. Todo voto tem o mesmo peso. Nossa formação atual é Mr-Fe, B-Girl Nitro, Sutra SB, Puber SB, Delog, Alisson “Tokuoshi”, John Facility, Marina “Mary D.”, Mike Knight e Bispo SB. Com relação às outras gerações, também tivemos a B-Girl Rose, Árabe, Magrão, Perneta, Vagão, Giuliano Gema, Cudis, Andrezinho, Bad, Kase Kreator, DJha, King Stone, Nari, Energy… depois de 31, esperamos ter citado todxs [sic]. Era muito difícil ser B-Girl, pois além de todas as dificuldades e preconceitos já citados, era visto como uma dança quase que exclusivamente masculina por leigos. Existir na SB, uma B-Girl como a Nitro, que dança desde 1992 (28 anos), passando por duas gestações e com todos os problemas que só nós sabemos, é motivo de orgulho. Apesar de considerarmos ela a B-Girl mais antiga em atividade, gostaríamos de aproveitar e parabenizar a todas, sem exceção. Aquelas que foram as primeiras, as que mais competiram fora do país, as que mais ensinaram, ou aquelas que só dançaram alguns meses, nunca competiram ou estão começando agora. O mais importante é se manterem unidas, a sociedade já as separa o suficiente.
BW: Como se aprendia a dançar Breaking na época de vocês? Vocês recebiam influências do que acontecia fora do país? Como as informações chegavam?
SB: O aprendizado na década de 80 era através do que víamos nos filmes, documentários e vídeo-clipes. Não havia academias ou local de aprendizado. Na verdade, isso acontecia em relação à toda cultura. Não vou dizer que nunca houve alguém que tinha mais recursos e tenha viajado para os EUA, mas isso não chegava até nós. Fundamento, na época, era todo movimento “comum”, aquele que todos faziam nos filmes. Mas o mais importante era ser único, fazer um movimento que outros não conseguiam, inventar algo. Outros conceitos como técnica, musicalidade, cuidados com o corpo, foram adaptados de outras danças/culturas com mais tempo de existência. Era uma época de traduzir textos de revistas “gringas” com um dicionário de papel na mão. De buscar informações em uma foto somente. A geração dos anos 90 no Brasil (coincide com o começo da popularização da internet), em nossa opinião, foi a que mais estudou e procurou informações sobre histórico da Cultura, sobre conceitos técnicos, escreveu livros, fez documentários e procurou, reivindicou a aceitação profissional em escolas, casas de cultura e espaços diversos. Luta esta que ainda continua árdua até hoje. Também nesta geração tivemos acesso a vários precursores da nossa cultura, ou pesquisadores e praticantes de outros países, aumentando ainda mais nossas informações.
O “Master Crews” foi reconhecido como um dos maiores eventos de Breaking do Brasil
BW: Havia muita rivalidade entre as Crews brasileiras? Como era essa relação entre as Crews? Existia aquela Crew que era a grande rival de vocês?
SB: Sinceramente, conosco não, tínhamos sim um histórico de admiração e amizade pela lendária Crazy Crew e treinamos muito com o Mistério e o Sandrão. Isso se estendeu para a Nação Zulu, do atual DJ Zulu, pois ambas eram da Zona Leste [de São Paulo]. Ao invés de virarmos rivais das Crews com quem tínhamos “racha”, acabamos chegando na São Bento, depois do importante pacto de não agressão entre as Crews. Então, até hoje existe amizade com a Back Spin Crew (Marcelinho, Geléia, Casper…), Street Warriors (André, Edu…), Fantastic Force (Minu, B-Girl Baby, Tchelo…), Jabaquara Breakers (Pex, Tripa…), Guetto Freak, Break Mania Renegados, Suburban Breakers, Style Crew… tanta gente que veio depois, perdão por tantos que não citamos. Com a chegada da nova fase de competições e dos prêmios nos anos 2000, houve muitas disputas. Mas é um bom momento para afirmarmos que nosso respeito se estende a todas as Crews, sem exceção. Não é fácil ser uma Crew no Brasil, quando a música pára, a cypher fecha, devemos focar nos maiores rivais em comum que temos, que são a intolerância, o preconceito. Entender que somos uma forma de expressão que nem deveria existir se dependesse de governos e políticos, talvez ajude neste entendimento.
BW: Em que local vocês se reuniam para dançar e para trocar ideias?
SB: Nós éramos do Largo do Carrão (Zona Leste), antigo local da Crazy Crew. Ficamos anos lá. Depois, fomos para a Praça Princesa Isabel, pois alguns da Crew mudaram para o centro. Atualmente, estávamos nos reunindo em dois locais: no Tamanduateí, em um espaço do Metrô/Trem e, aos sábados, na sede do CEDECA Sapopemba, onde o Bispo está há 21 anos com ações culturais e sociais. Mas, durante a pandemia, preferimos nos manter em casa, em treinos individuais, exceção a quem mora junto com outros integrantes.
BW: Onde aconteciam as batalhas de Breaking? E o que se mostrava nas rodas? Que movimentos eram mais comuns naquela época e mostravam conhecimento e habilidade de um B-Boy?
SB: As batalhas de Breaking, na década de 80 e 90, aconteciam em qualquer lugar que B-Boys e B-Girls imaginassem (risos). Exemplos: nos intervalos entre as exibições do filme Beat Street (era possível ficar assistindo várias vezes o filme sem sair da sala); nas sedes das Crews, lembro de um especial na Praça de São Mateus, sede do pessoal da São Mateus Break; na estação São Bento; na Avenida São João; nos salões, nos bailes. Houve uma época em que era permitido (Projeto Radial, Clube das Cidade, Santana Samba, Salão do Flor de Mogi, A Ponta, Terraço, Love Story da João XXlll, etc) em qualquer espaço público, até no asfalto (risos). Houve a época em que toda a batalha parecia um pouco com o filme Beat Street, pois era referência pra todos. Então, tinham aqueles mais ao estilo da crew New York City Breakers, com ênfase nos Spins/Power Moves e aqueles mais ao estilo Rock Steady Crew, com acrobacias, mas também com muito Footwork. Por mais que a dança Breaking seja uma coisa só, haviam os modismos normais em qualquer cultura. Houve a geração Beat Street, a geração Power Move (movimentos acrobáticos para ambos os lados), depois veio uma geração Foundation (pesquisa em fundamentos e o que definia esta dança), “geração dos flex”, “dos tricks”, até chegar aos dias atuais, com mais mescla. Mas nós nos definimos como Two Styles. Estudávamos os fundamentos e mantínhamos um treino forte também em “Spins” e inovações. É um pensamento que mantemos nos dias atuais, acompanhado da busca do “movimento criativo”.
BW: Na década de 80, vocês criaram a SB Revista. Nos fale desse veículo de comunicação? Ainda existe? Quem era responsável por ele?
SB: A Revista SB foi uma criação do Bispo SB e do Mr-Fe, era uma revista que falava de Cultura Hip-Hop, não somente de Breaking. A provocação inicial veio da B-Girl Nitro, que sugeriu que fizéssemos um fanzine falando da Cultura Hip-Hop. Então, existiu antes uma SBZine. Eles (Nitro e Mr-Fe) estavam morando em Maringá nesta época. Basicamente o Bispo cuidava das matérias escritas e o Mr-Fe diagramava. A finalização era feita em Maringá e o lançamento era em São Paulo. Esta revista não existe mais. Ela seguia um dos ideais básicos da Crew, que era fazer algo que não existia na época e em prol da cultura. Com a chegada da internet, outras formas de distribuir informações foram possíveis e mais acessíveis.
A Street Breakers além de participar de batalhas tem vários projetos sociais
BW: Vocês também, em 1997, faziam festas para B-Boys. Como eram essas festas? O que rolava?
SB: As festas que começaram com o propósito de unir as pessoas e fazer o lançamento da Revista SB. Os participantes recebiam uma revista quando entravam no evento. Mas a motivação disto foram as primeiras festas de Breaking, que começaram com o Marcelinho BSC, o Alam Beat (Street Warriors) e o Banks, em 1996. Quando eles pararam, nós e Os Gêmeos começamos. Eles tinham uma revista também, a Fiz Graffiti Attack. Nossa primeira festa tinha motivos de orgulho, como uma batalha anunciada em flyer colorido (no Hip-Hop só havia divulgação em preto e branco na época); Super Sonic B-Boys x Street Breakers Crew, feita no centro de São Paulo, no salão América Graffiti. B-Boys e B-Girls de várias partes se reuniam para dançar, compartilhar informações, articular. Vamos lembrar que ainda sofríamos com o preconceito de sermos expulsos de outros locais, estes encontros foram de extrema importância e motivaram outros a fazerem o mesmo em outros estados.
BW: Em 1998 começaram o CInB (Campeonato Individual Brasileiro de Breaking), que em 2001 teve uma edição histórica no SESC Itaquera, com cerca de 3.000 pessoas. Como era esse campeonato? Como funcionava e qual eram as regras para participar? Verdade que nele se misturava todos os elementos da Cultura Hip-Hop?
SB:O CInB era nosso campeonato individual. Por quê não unir as pessoas em uma competição, que fosse ao mesmo tempo um encontro de Cultura Hip-Hop? Fazíamos eliminatórias e os ganhadores se encontravam na final. A competição seguia em sistema de pirâmide e o método de julgamento era entrada por entrada com os mesmos critérios técnicos que são usados hoje no regulamento do Master Crews. Também foi uma realização do Bispo SB e do Mr-Fe com colaboração da Crew toda. Bispo: “Lembro que mandamos projetos para vários locais e todos negaram. Tínhamos economizado dinheiro pro evento, já tínhamos latas de tinta spray, equipamentos, a ideia era não depender de ninguém. Sem local pra fazer, o Mr-Fe resolveu enviar o projeto pro SESC, sem esperanças mesmo, só porque era o único lugar que faltava tentar, e eles abraçaram. Foi bonito demais. Teve batalhas de MCs lendárias, performances de DJS, batalhas de Breaking, o Graffiti com um mural enorme, as 3 quadras do SESC Itaquera lotadas…
BW: Em 2002, nascia o Master Crews. Sem dúvida, um dos maiores eventos de Breaking já feitos no Brasil. Como surgiu o Master Crews? Qual era o objetivo do evento? Qual foi o maior número de público já reunido nesse evento e em que ano isso aconteceu? E, pensando no futuro: o Master Crews continua? Existem planos futuros?
SB: O Master Crews inicialmente seria uma Jam, com competições de Crews. Queríamos sair do formato individual competitivo e estimular as Crews, bases organizacionais da nossa Cultura. De novo, haveriam várias Jams e vários ganhadores que se encontrariam em uma final. Entretanto, a cada festa o evento enchia mais e vinham Crews, B-Boys e B-Girls de outros estados. A própria Cultura Hip-Hop abraçou o evento e o impulsionou. A ideia nunca foi ser o maior, mas o que trata a Cultura com mais respeito, não dever premiações, nem nenhum pagamento, ter cuidado com as locações, proporcionar banheiros limpos, uma alimentação acessível, com opções saudáveis como as veganas. Resumindo, tratar as pessoas com respeito, não é público somente, são irmãos e irmãs da nossa Cultura. As pessoas confundem contagem de público com “grandeza”, nosso maior público com o Master Crews foi por volta de 5.000 pessoas, mas não é isso que o define. Por exemplo, fizemos 2 anos de “Tenda B-Boys” em evento da AMBEV (GAS Festival 2008 e 2009) com público rotativo de milhares de pessoas e fizemos uma competição de Breaking dentro de uma das edições do Lollapalooza Brasil. Mas quando a gente olha para eventos como “Batalha da Amizade”, “Batalha no Topo”, “CelebraCrew”, Rival x Rival” e tantos outros pelo Brasil, esses sim impulsionam, fomentam e multiplicam nossa Cultura. Voltando a falar do Master, nossas últimas edições foram de 3 dias de evento, contando palestras, oficinas, competições, apresentações, Graffiti. O domingo sendo sempre na Casa das Caldeiras, mas pouca gente sabe que o projeto do Master inclui 6 meses de Oficinas de Produção de Eventos e Breaking antes ou depois do evento principal. Além de vir depois das edições mensais e totalmente gratuitas da “For Fun Party”. E sim, teremos Master Crews nos próximos anos. Como na maior parte das edições era custeado pela bilheteria e nossos bolsos, tivemos dificuldades financeiras em alguns anos, mas decidimos que é preciso continuar. Em 2020, no meio da pandemia, resolvemos não optar pelo formato de competições on-line. Preferimos focar em outras ações, planejamento, articulações e ajudas, distribuir cestas básicas e realizar formações pareceu o certo a fazer neste momento. Afinal, não somos somente Master Crews. É importante relatar que outros integrantes da Crew são idealizadores e realizam eventos e ações que são apoiados pelos demais. B-Girl Nitro e Sutra são realizadores do Breaking The Floor, Puber é realizador do OUC (Original Urban Culture), entre outras realizações. John e Alisson são realizadores do Three Points junto com Future K. BispoSB realiza individualmente o Festival SanRafa. Alisson já realizava eventos no Nordeste antes de entrar na SB. Delog realiza ações de Graffiti, Lettering e trabalhou junto ao artista Doze Green. Sutra e Mr-Fe também atuam na área do Graffiti. Bispo SB e Mr-Fe são sócios na Spray Studio Produções.
BW: Nos fale das várias ações sociais, palestras que a Street Breakers faz o ano todo. O que são os Encontros Urbanos?
SB: Encontros Urbanos é um projeto de apresentações culturais que proporcionam um encontro entre a Cultura Hip-Hop e outras manifestações artísticas. Começou em 2007, no Teatro Sérgio Cardoso, quando proporcionamos o “encontro” de várias Crews e coletivos e nos apresentamos com o Instituto Afrika Viva, da mestra Fanta Konatê. Em 2020, no mês do Hip-Hop, nosso encontro foi conosco, com nossa trajetória, um momento de olhar pro passado e repensar o futuro. Através de seus membros a Street Breakers Crew é parceira de ONGs como do CEDECA Sapopemba (Monica Paião Trevisan). São ações de oficinas culturais, oficinas de produção, encontro de jovens, Sarau da Nova, encontros de Cultura Hip-Hop, encontro de Danças Urbanas, debates, intervenções sociais na comunidade, visita a famílias, mapeamento de risco social… muita coisa feita já. Existem ações em muitos outros locais e estados também, através de oficinas, palestras, doações, Graffitis e outros elementos da Cultura. Lembrando que para nós, a ação social mais importante é aquela que você faz sem ser contratado para tal. Apesar do Bispo SB, por exemplo, ter dado aulas na Fundação Casa (e isso é importante também), ele foi contratado para tal, são as realizações continuadas em cada comunidade feitas independente de recursos que vão fazer a diferença. Talvez seja um defeito nosso não divulgar tanto essas ações.
BW: De 1980 aos dias de hoje muita coisa mudou no Breaking? Quais as mudanças vocês reconhecem como positivas e quais acham que foram negativas?
SB: Positivas: a busca de mais informações, fundamentos, técnicas, história, estudos em geral, que gerou uma evolução. Por causa disto vemos nossos B-Boys e B-Girls em grandes apresentações, grupos renomados, ministrando aulas e palestras. Negativas: muitos não entendem que a competição é apenas uma face de tudo que somos. Ao mesmo tempo em que a competitividade nos impulsiona, ela pode ser negativa também. Mesmo diante de um resultado duvidoso, outras competições virão, outros juradxs [sic], vitórias e derrotas. Não gosta do júri, não concorda com as regras? Não participe. O pior para um evento é estar vazio. Somos Hip-Hop e somos da arte também, existe vitória em fazer outras coisas como dar aulas, palestras, se apresentar.
BW: Como vocês veem o Breaking de hoje em dia? Os grandes eventos? Os movimentos que são feitos hoje tanto por B-Boys como por B-Girls espalhados pelo mundo? O que acham da nova geração, que a cada dia chega mais cedo nas rodas?
SB: O Breaking é evoluir sem perder a conexão com suas bases e com sua história. A cada novo movimento criado e novo B-Boy/B-Girl que surge, comemoramos. Vemos a conexão entre as coisas “novas” e os fundamentos. Sem um Chair Freeze não existiria Air Chair. A fusão entre Footworks, Spin Moves, Freezes é muito interessante, torna as sequências mais longas. É mais uma opção. Apesar de gostarmos daquele Freeze que realmente “pára”. Para nós, a interação com a música é muito importante e isto evoluiu, mas não somente seguir os efeitos, interagir com a música toda, ter junto aquele Flow, Flava, “ter um sabor” diferente em cada apresentação. Ver crianças na dança é motivo de alegria, a integrante mais jovem da SB tem 11 anos, B-Girl Mary D., existe um belo futuro pela frente. Desejamos, entretanto, que os responsáveis por essa nova geração se preocupem com a formação geral destes diamantes brutos. Não coloquem muita pressão, expectativas, cada coisa vem no seu tempo e de uma forma diferente para cada um, queremos eles e elas por muito tempo na Cultura Hip-Hop.
A última edição do Master Crews (2018) reuniu milhares de breakers na Casa das Caldeiras. Há planos para o retorno do evento após a pandemia.
BW: Em 2019, o Comitê Olímpico Internacional recomendou a inclusão do Breaking nas Olimpíadas de Paris, em 2024 e, agora, em 2020, foi confirmado. Então, começou uma discussão sobre o assunto por aqueles que são contra, alegando que poderia perder a essência da Cultura e por outros, na maioria mais jovens, que veem como algo positivo, sendo mais uma grande oportunidade de mostrar a cultura das ruas para a sociedade e mudar conceitos errados. O que vocês pensam sobre isso?
SB: As pessoas inverteram as coisas. Quem precisa do Breaking e outras manifestações jovens pra acessar os jovens é a organização chamada “Olimpíadas”. O Breaking já organiza grandes eventos e competições, grandes marcas já apoiam eventos pelo mundo afora. Esquecem que nossa arte já é presente na mídia, filmes e propagandas. Na nossa opinião, é mais um local que conseguimos acessar por merecimento, mas se não formos organizados, corremos o risco de ver empresas, federações e instituições lucrando, enquanto continuamos nas periferias com o tênis rasgado. Agora já é oficial, o que não é oficial é nossa articulação coletiva. Conseguimos fazer muito em pequenos grupos, Crews, mas é necessário uma união nacional pra brigarmos por nossa arte. E também, o foco principal não pode ser o dinheiro, tem que ser expandir nossa cultura mais e acessarmos os mais vulneráveis. O assunto Olimpíadas tem que sair do campo da “opinião” e entrar no campão da “articulação”. Empresas já lucram pelo mundo com a manifestação Breaking e a maioria nem percebe. Não somos contra o Breaking nas Olimpíadas, mas entendemos que, como isso vai acontecer tem que ser decidido por B-Boys e B-Girls. Reafirmamos que persistiremos, como sempre. Quando a Olimpíada acabar ainda seremos Street Breakers Crew, e sabemos que a maioria das Crews do Brasil também vai continuar. Não perderemos nossa Cultura, não é uma medalha que te faz mais B-Boy ou B-Girl.
BW: O Breaking continua salvando vidas? O que o Breaking significa na vida de vocês?
SB: Muitas pessoas têm uma visão quase religiosa e usam esta frase, em relação à Cultura Hip-Hop mesmo. Concordando ou não com o formato da afirmação, a verdade inegável é que os membros das Crews, posses, coletivos, B-Boys, B-Girls, Writers, DJs, MCs, Cultura Hip-Hop em geral, são adeptos da ideologia da cultura de paz e positividade, acreditam em melhorar a comunidade em que vivem através de suas ações, na pandemia ficou evidente as ações em prol de alimentos, roupas, recursos, lives, quando na própria casa destas pessoas faltava o básico. Temos muito orgulho de nossa cultura e do que ela realiza na vida das pessoas. Street Breakers é uma Crew que se organiza em formato de família, um ajuda o outro, a outra e multiplicamos para nossas famílias de sangue e comunidade. Mas são ações pensadas, não é só dar o peixe… conhecimento é como comida, não se deve negar.
BW: Como vocês imaginam que será o futuro da Cultura Hip-Hop e de seus elementos?
SB: Difícil falar sobre futuro. Mas, modismos vêm e vão, existe uma essência que deve ser mantida para que a continuidade seja possível. O Hip-Hop se adaptou a muitas mudanças que aconteceram no mundo. Achamos também que o Hip-Hop interferiu no mundo. Nas roupas é fácil notar, o que era antes e o que foi depois da década de 80. A visão do DJ enquanto “criador musical” veio da Cultura Hip-Hop. No Brasil, o Hip-Hop contagia outras artes, quando a pessoa quer uma mensagem mais consciente procura um Rapper ou MC. O Graffiti agora está em prédios e em grandes exposições, o Breaking nas Olimpíadas, filmes. Pode parecer pouco, mas achamos que a melhor coisa que vai acontecer é que o Hip-Hop vai existir e resistir a qualquer grande distorção em sua essência.
BW: Que mensagem vocês deixariam para a nova geração de B-Boys e de B-Girls?
SB: A evolução está no conhecimento. Precisam aprender sobre seu corpo e sua mente. Pesquisar formas de serem melhores que antes, pesquisar sua cultura, sua história. É um processo que nunca pára, sejam eternos aprendizes, curiosidade é a base da formação. Entender que o sucesso do coletivo é melhor que o individual, pois cria uma base de sustentação. Paz, União, Consciência, Atitude e sem esquecer a Diversão. E nunca recusem uma boa Cypher!
Fotos: Arquivo Pessoal
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“Naquela época tudo era diferente, as Crews eram algo que, se mexesse com um integrante, era como mexer com enxame de abelhas: todos iam para cima. E a Jabaquara Breakers tinha fome e sede de racha…” (B-Boy Tripa – Jabaquara Breakers)
Dançar Breaking? Aprender seus fundamentos? Hoje, numa simples busca pela internet, numa passagem rápida nos vídeos do YouTube ao alcance de qualquer pessoa e seus dedos, é possível por meio de tutoriais de inúmeros B-Boys espalhados pelo mundo aprender e aperfeiçoar vários movimentos. Não conseguiu pegar um movimento? É só retroceder o vídeo e começar do zero. Mas nem sempre foi assim, conta o B-Boy Tripa, da pioneira Jabaquara Breakers: “Éramos bem jovens, porém muito ligados à música, costumávamos andar com pessoas mais velhas que nos encaminharam nos bailinhos dos vizinhos e nos trouxeram a ver vídeos e filmes e um programa que chamava Realce, se não estou enganado e num desses vídeos, vimos uma “dança diferente, tipo que mexe com a gente”, um clip do Michael Jackson fazendo aqueles passos tipo robô, era algo surpreendente… foi quando vimos o filme “Beat Street”, aqueles caras fazendo aqueles passos com alegria e suavidade e ao mesmo tempo com muita raiva, com vontade de vencer… nossa, relatar isso me faz viajar no tempo, onde entrava na primeira seção do cinema e só saía na última (naquela época isso era possível) vendo e revendo o filme “Beat Street” e tentando fazer alguns passos no corredor, o “Breaking” era uma febre. No começo, nem sabíamos o que era B-Boy, éramos mesmo conhecidos como os meninos que dançam Breaking ou dança Robozinho, esta evolução e conhecimento veio anos depois e o nossos grandes desafios era mesmo dançar e sermos melhores no que fazíamos, mostrando que o Breaking e a Cultura Hip-Hop nada tinha a ver com uma febre, mas com uma cultura cada dia mais sólida…”.
O Portal Breaking World, mesmo nesses tempos difíceis de pandemia não pára e conversar com a Crew Jabaquara Breakers foi uma viagem ao túnel do tempo, confira tudo que rolou na entrevista:
BW: Queria que vocês nos contassem quando e como surgiu a Crew Jabaquara Breakers? Que tempos eram? Como a sociedade via a Cultura Hip-Hop e seus elementos? Vocês sofreram muito preconceito?
Jabaquara Breakers: Acreditamos que a Jabaquara Breakers surgiu como todas as outras Crews; éramos bem jovens, porém, muito ligados à música, costumávamos andar com pessoas mais velhas que nos encaminharam nos bailinhos dos vizinhos e nos trouxeram a ver vídeos e filmes e um programa que chamava Realce, se não estou enganado, e num desses vídeos vimos uma “dança diferente, tipo que mexe com a gente”, um clip do Michael Jackson fazendo aqueles passos tipo robô, era algo surpreendente… foi quando vimos o filme “Beat Street”, aqueles caras fazendo aqueles passos com alegria e suavidade e, ao mesmo tempo, com muita raiva, com vontade de vencer… nossa, relatar isso me faz viajar no tempo, onde entrava na primeira seção do cinema e só saia na última (naquela época isso era possível) vendo e revendo o filme “Beat Street” e tentando fazer alguns passos no corredor. Fantástico, isso 83, 84 e como todas as Crews tínhamos o nome americanizado de Flash Break, neste momento não sabíamos que o “Breaking” fazia parte de uma Cultura chamada Hip-Hop, somente mais para frente, depois de muitas pesquisas, vimos a ter esta informação. E também não tivemos preconceito ainda nesta época, pois o “Breaking” era uma febre. Tanto que, em 1984, teve o primeiro festival de “Breaking” na Praça da Sé, onde participamos e conhecemos uma pessoa que gostou tanto da nossa dança que nos fez um convite para fazermos shows no Interior de São Paulo e Sul de Minas, viajamos por diversas cidades como Bauru, Agudos, Machado, Poços de Caldas, etc., éramos uma celebridade, porém muito pequenos. E, sim, depois que a febre do “Breaking” passou, tivemos que suportar muitos preconceitos, mas superamos todos com muita sabedoria.
Foto histórica dos Encontros da São Bento nos anos 1980, o “templo do Hip-Hop brasileiro”
BW: Onde vocês se encontravam, se reuniam para dançar e treinar?
Jabaquara Breakers: Por muitos anos, treinamos na estação Conceição do Metrô, tínhamos também um local que era nosso QG, que carinhosamente chamávamos de “Byongo”, neste local estiveram gente de todo o Brasil e do exterior também, até um b-boy da Rock Steady Crew esteve lá, passou o famoso e conhecido mundialmente o grafiteiro Eduardo “Kobra”, que era um integrante da Jabaquara Breakers e treinamos também no Ibirapuera, no final dos anos 80, começo dos anos 90, tínhamos também um espaço nos domingos no Centro Cultura do Jabaquara, onde existe até hoje o “Sítio da Ressaca”, conhecido como acervo afro-brasileiro, administramos muitas aulas de Graffiti, Breaking, Discotecagem e Posicionamento de Palco, trouxemos muitos artistas neste espaço, como Dona Ivone Lara, grupos de Rap como Filosofia de Rua, Black Panters, entre outros, muitos subiram no palco pela primeira vez aqui. E realizamos a primeira festa em São Paulo, direcionada exclusivamente para a Cultura Hip-Hop, para B-Boys e B-Girls mesmo, onde só se tocou músicas para se dançar Breaking, na Sede do Acadêmico.
BW: Quem foi o fundador do grupo? Como era ser B-Boy naqueles dias? Quais eram os grandes desafios?
Jabaquara Breakers: Tivemos como fundador o Paulo (Baleia), Moisés (Guetho), o Rogério (Tripa), Vandervam (Nego), Reginaldo (Neno) e o famoso DJ Maguila (R.I.P.), com o nome de “Flash Break”, porém, no começo dos anos 90 sentimos a necessidade de trocar o nome por um nome nacional, por ter muitos B-Boys vindos de outros estados e regiões e, nesta transição, tivemos como referência para decidir o nome o “Quilombo do Jabaquara”, que existiu no “Sítio da Ressaca”, já que estávamos estudando muito para realizarmos nossas palestras nas escolas, casa de cultura, éramos os únicos na época a fazer este trabalho e somaram aos nomes já mencionados o do Júlio (PEX) e do Eduardo (DJ Edu), para se tornar a Jabaquara Breakers conhecida hoje. No começo, nem sabíamos o que era B-Boy, éramos mesmo conhecidos como os meninos que dançam Breaking ou dançam Robozinho, esta evolução e conhecimento veio anos depois e o nossos grandes desafios eram mesmo dançar e ser melhores no que fazíamos.
BW: Como se aprendia a dançar Breaking na época de vocês? Vocês recebiam influências do que acontecia fora do país? Como as informações chegavam?
Jabaquara Breakers: Como já disse anteriormente, não tínhamos nenhum conhecimento, a não ser o que víamos na TV ou vídeos, principalmente alguns que meu patrão naquela época trazia dos EUA para mim, então, pegávamos o vídeo-cassete, instalávamos na garagem da minha casa e apertávamos o play (risos), mas nunca dava para pegar na primeira vez, então, voltávamos a fita por diversas vezes, até pegar o passo pretendido. Era bem difícil, não havia internet, as informações eram de B-Boy para B-Boy mesmo e acabávamos machucando muito por treinar, às vezes, do jeito errado. As Crews residentes da São Bento, Back Spin, Street Warriors, Crazy Crew e Nação Zulu, tinham mais informações e, por isso, eram bem respeitados, mas estavam no estúdio gravando o LP “Cultura de Rua” onde tivemos, juntos com a Fantastic Force, de se envolver mais na Estação São Bento e, por sinal, um dos discos mais importantes direcionados ao Hip-Hop no Brasil.
A Crew, que já chegou a ter 70 componentes, além do Breaking desenvolve vários projetos sociais
BW: Havia muita rivalidade entre as Crews brasileiras? Jabaquara Breakers, Street Warrios, Back Spin e muitas outras. Como era essa relação entre as Crews? Existia aquela Crew que era a grande rival de vocês?
Jabaquara Breakers: Sim, existia muita rivalidade, sim, todas queriam sair vencedoras de suas batalhas e a Jabaquara Breakers não era diferente, porém, havia muito respeito também e desde que começamos a fazer nossos trabalhos de palestras, éramos visto com outros olhos e muitas das Crews vieram a nos ver como referência nacional e acho que não tinha uma Crew em especial como rival, mas sim, tivemos momentos únicos. Acho que um racha com a Red Crazy Crew de Santos, que até nas lentas não paramos de dançar e outra foi no Palmeiras, com um público de 10 mil pessoas, onde chegamos todos de agasalho e fomos invadindo a roda e batalhamos com todos ali presentes, terminando o racha em cima do palco, foi épico! (Ficou parecendo o grande racha do filme “Beat Street”). E, também, não posso deixar de dizer sobre o famoso Club House, em Santo André, pois ali sempre que possível, nas horas vagas, estávamos lá, pois sabíamos que além das músicas boas ali tocadas, teria algum “Break” para racharmos, lembrando que nestas épocas diferenciamos os B-Boys, hoje popularmente ditos como dançarinos de Breaking aéreo ou Breaking de chão.
BW: Onde aconteciam as batalhas de Breaking? E o que se mostrava nas rodas? Que movimentos eram mais comuns naquela época e mostravam conhecimento e habilidade de um B-Boy?
Jabaquara Breakers: Naquela época tudo era diferente, as Crews eram algo que, se mexesse com um integrante, era como mexer com enxame de abelhas: todos iam para cima! E a Jabaquara Breakers tinha fome e sede de racha, pra nós não tinha lugar, qualquer lugar era lugar (risos) e por ser diferente dos dias de hoje, começando pelos abrigos, tínhamos no grupo especialistas em cada movimento, era desta forma as batalhas, então, a gente já se conhecia e sabia os movimentos de cada um, então os rachas acabavam, tipo, quem fazia mais voltas nos movimentos, tipo, nas tartarugas, moinhos de vento e giros de cabeça, bem diferente dos Power Move dos dias de hoje, eram poucos dançarinos que faziam todos os movimentos com perfeição.
BW: Nos fale da formação do Jabaquara Breakers. São os mesmo B-Boys desde a década de 80? Ou já tiveram várias gerações? Fale também das ações sociais que já tiveram envolvidos?
Jabaquara Breakers: Não tem como falar da formação da Jabaquara Breakers, pois já chegamos a ter com palestrantes, grafiteiros, MC’s, DJ’s, B-Boys e B-Girls mais de 70 integrantes e, costumamos dizer, uma vez Jabaquara sempre será um Jabaquara, uma família verdadeiramente, passaram diversas pessoas, onde cada um foi seguindo seus caminhos, mas somos orgulhosos de saber que passaram aqui no grupo grafiteiros como Kobra, o Cyracks, ator como Da Antiga, que fez o filme “Profissão MC”, entre muitos outros e temos até hoje contatos e respeito um pelo outro e sempre nos ajudando. Agora, falar de obras sociais, isto é impossível, pois fazemos até hoje, basta saber de uma necessidade de alguém que já estamos lá para ajudar de alguma forma, temos integrantes que frequentam a Cracolândia, mesmo nos dias de hoje, com pandemia e tudo; nos anos 90, fizemos tanto show de graça, por simplesmente sabermos que era para um orfanato ou um asilo, era e é o nosso prazer fazer o social, está em nosso sangue, na nossa alma.
O grafiteiro Eduardo “Kobra” (ao centro, de chapéu) é membro da Crew e tem sua arte reconhecida mundialmente
BW: No Jabaquara Breakers tinham também B-Girls?
Jabaquara Breakers: Sempre tivemos B-Girls no grupo e ainda as tínhamos como grande representantes das mulheres, dávamos toda força, física e moral para elas. Fomos os únicos a se apresentar no Festival da São Bento com uma Crew só de mulheres, as Jabaquara Breakers Girls e isso incentivou várias meninas a dançarem, também formamos outros grupos de garotas em outras regiões. Saíram até na revista Carícia e várias reportagens de jornais e, até hoje, são chamadas para falarem destas proezas e como é ser mulher no mundo do Hip-Hop.
BW: Quem são hoje os Jabaquara Breakers? Qual a atual formação?
Jabaquara Breakers: A Jabaquara Breakers hoje praticamente são as mesmas pessoas, porém, cada um leva sua vida normalmente, temos muitos espalhados por todo o Brasil e pelo mundo, como disse anteriormente, temos B-Boys do Ceará, Minas, Goiânia, por isso fica meio difícil de unirmos todos como antigamente, porém, cada um representante, faz o que pode e da maneira que pode, principalmente pelo social, numa palavra de conforto ou numa cesta básica, por exemplo. Somos uma família unida e pronta para ajudar.
BW: De 1983 aos dias de hoje, muita coisa mudou no Breaking? Quais as mudanças que vocês reconhecem como positivas e quais acham que foram negativas?
Jabaquara Breakers: Na vida, tudo muda… quando você nasce, não sabe andar, não sabe falar, etc., e, aos poucos, você começa a dar as primeiras engatinhadas, as primeiras passadas e o Breaking é a mesma coisa, no começo apenas dançava Breaking, depois, descobrimos que era uma dança que fazia parte da Cultura Hip-Hop, tivemos que estudar e muito para saber e ter o conhecimento do que era esta cultura, porém, não tínhamos meios para isso, informações eram precárias, batalhamos muito para obter tal conhecimento, não tinha internet, não tínhamos dinheiro, dançávamos na rua para arrecadar alguns trocados para comprar pilhas para o Box e filmes, para tirar algumas fotos, tanto que nem isso era tão importante para nós naquela época, pois mal tínhamos condições de ter uma câmera fotográfica e, quando tínhamos, teria que arrecadar mais dinheiro para revelar o filme. Os dias de hoje são outras realidades, temos internet, celulares que fazem vídeos e fotos, muito melhores do que no passado e, se não ficar boa, tira de novo, não custa nada… não vou enumerar as mudanças, mas acredito eu que a maior mudança eram as dificuldades que tínhamos em conseguir as coisas, de ter conhecimento e, hoje, é tudo mais simples, mais prático, está tudo aí pronto, vimos sim evolução na dança, nas técnicas, etc., mas, no geral, a dificuldade de antes era conseguir conhecimento. E as negativas, acho que é está facilidade de conseguir as fotos, informações disso ou daquilo, tudo se acha na internet, lembro que para eu aprender a fazer o moinho de vento, um B-Boy na época me disse, mostrando seus ferimentos no ombro e lombar: “quando você estiver com estes hematomas, você volta aqui para falar comigo!”. Olha só a situação e hoje basta digitar, não precisa nem ser no computador, no celular mesmo, em qualquer lugar e perguntar como fazer o moinho de vento. Pronto! Vai estar lá toda informação técnica, com câmera lenta e posições. Fácil não? E isso deixa muitos B-Boys preguiçosos em procurar e ter maior conhecimento de como surgiu isso ou aquilo.
Jabaquara Breakers participaram de muitos eventos Brasil afora no auge da “febre do Break” dos anos 80/90
BW: Vocês também frequentavam a São Bento? O que significa aquele local para vocês?
Jabaquara Breakers: Sim, não só frequentamos como também por algum tempo fomos responsáveis por ela, com uma autorização por escrito da diretoria do Metrô, pois sempre fomos recebidos ali como invasores e, por muitas vezes, fomos expulsos do local, os B-Boys não eram bem vindos ali. Ajudamos na realização do Festival São Bento, juntamente com as outras Crews. A São Bento é como o quintal de minha casa, a São Bento não era naqueles tempos um mar de rosas, como é nos dias de hoje, por ali vimos acontecer muitas coisas e evitamos muitas coisas também, tiveram muitas discussões, muitas brigas e até separação, onde veio a nascer a Praça Roosevelt, que foi frequentada pela Jabaquara Breakers também, mas a São Bento é um local sagrado, pois todos queriam conhecer e pisar naquele lugar, seja do Brasil ou do exterior, ali era e é mágico, é contagiante, pois ali trocávamos ideias, conhecimento, informações, mas tinha um detalhe: somente era trocado se alguém tivesse algo a nos oferecer também, senão ficava guardado à sete chaves, éramos infantis e egoístas (risos), isso acontecia com todo mundo, ninguém dava sem receber algo em troca. Mas, com o tempo, isso foi mudando e as nossas mentes foram se abrindo, transformando, e começamos a entender que teríamos que dividir e passar conhecimento, pois isso era a Cultura Hip-Hop que todos ali estavam envolvidos, por diversas vezes ficamos ali, até altas horas da noite, trocando ideias, era algo que só quem viveu sabe do que eu estou falando. A São Bento foi um grande aprendizado nas nossas vidas, como pessoas mesmo, pois íamos bem pequenos se divertir como uma criança vai a um parque infantil e, ao passar dos anos, descobrimos que ali era uma escola, uma faculdade de conhecimento e vendo hoje, olhando para trás, descobrimos que somos todos ali uma grande família e a São Bento os nossos pais.
BW: Como vocês veem o Breaking de hoje em dia? Os grandes eventos? Os movimentos que são feitos hoje, tanto por B-Boys como por B-Girls espalhados pelo mundo? O que acham da nova geração, que cada dia chega mais cedo nas rodas?
Jabaquara Breakers: Nossa, hoje tem movimentos que nem no sonho achávamos que era possível realizar, mas é a evolução, é a modernidade, existe no mercado inúmeros eventos, alguns feitos por pessoas aproveitadoras e outros não, porém, devemos nos lembrar de onde veio o Breaking, qual foi sua origem e no que ele faz parte. Nós viemos do começo, somos um “Old School”, as nossas origens sempre prevalece, sempre dançamos por respeito de gostar e amar a Cultura Hip-Hop e hoje muitos nem conhecem a Cultura Hip-Hop, dançam por três, quatro, cinco anos apenas para ganhar dinheiro e não por amor! É importante, sim, começar a dançar cedo, sua evolução acontece mais cedo, é como uma criança recém-nascida que antigamente levava uma semana ou duas para abrir os olhos, hoje eles já nascem de olhos abertos, quase falando e o Breaking também é assim, já começam cedo a despertar para a dança e sobre as B-Girls sempre fomos a favor delas dançarem, elas são capazes de fazer os mesmos movimentos dos homens.
BW: Em 2019, o Comitê Olímpico internacional recomendou a inclusão do Breaking nas Olimpíadas de Paris em 2024. Então, começou uma discussão sobre o assunto por aqueles que são contra, alegando que poderia perder a essência da cultura e por outros, na maioria mais jovens, que veem como algo positivo, sendo mais uma grande oportunidade de mostrar a cultura das ruas para a sociedade e mudar conceitos errados. O que vocês pensam sobre isso?
Jabaquara Breakers: A modernidade existe e está aí, tudo evolui, os verdadeiros B-Boys da Old School sempre vão levar na sua mente de onde veio e porque existem as batalhas, lembrando que veio dos guetos dos EUA, das rivalidades das gangues, já os mais jovens não estão interessados em ter este conhecimento e vão olhar mais para o lado financeiro, esportivo e de fama, pouco provável que irão se lembrar que o Breaking faz parte de uma cultura linda chamada Hip-Hop. Não generalizando.
A Crew participou de várias matérias em veículos impressos e redes de televisão
BW: O Breaking continua salvando vidas? O que o Breaking significa na vida de vocês?
Jabaquara Breakers: Sim, com certeza, não só o Breaking, mas a Cultura Hip-Hop salva vidas ou, pelo menos, muda! Tenho vários exemplos sobre isso, tanto que minha vida foi mudada, que estou hoje eu B-Boy Tripa aqui, participando desta entrevista… Olha meu amigo, irmão Kobra, começou na Jabaquara Breakers e hoje é conhecido mundialmente, olha Os Gêmeos, Racionais MC’s, Doctor’s MC’s, poderia citar vários nomes, vários B-Boys que dançam pelo mundo representando o Brasil, como Pelezinho, Katatau, entre muitos outros, a sua filha que é uma B-Girl nos representando também, o que seria dela se não fosse uma B-Girl? O espaço está aí, basta ter inteligência e vontade de vencer que algo você poderá produzir na Cultura Hip-Hop, seja grafitando, seja rimando, seja escrevendo, seja dançando, fotografando, discotecando ou produzindo…
BW: Como vocês imaginam que será o futuro da Cultura Hip-Hop e de seus elementos?
Jabaquara Breakers: O que imaginamos é que um dia a Cultura Hip-Hop seja vista como uma cultura que veio para mudar a vida de muita gente, pois nos dias atuais muita gente não acredita na beleza desta cultura, porém, sabemos que ela é responsável por muitos não estarem nas ruas, roubando ou algo parecido, ela abriu as portas de muitos empregos, hoje dentro da cultura temos pessoas que trabalham com roupas, com vídeo e fotografia, são escritores, artistas plásticos, produtores musicais, grafiteiros, rappers, MC’s, B-Boys e B-Girls! Ufa! É tanta coisa! Onde estaria todo este pessoal empregado? O que fariam de suas vidas?
BW: Todos do Jabaquara Breakers ainda dançam? Vocês pensam em parar?
Jabaquara Breakers: Na verdade, hoje não dançamos mais, a grande maioria está acima dos 50 anos (risos), o que fazemos é se divertir com o que conseguimos fazer nos dias de hoje e não pretendemos parar, pois sempre estamos aprendendo algo e também passando nossos conhecimentos com nossa vivência.
BW: Cite, por favor, 10 nomes que na opinião de vocês fizeram toda a diferença na história do Breaking brasileiro?
Jabaquara Breakers: Nossa! Aí fica complicado, pois podemos deixar alguém de importância fora e não queremos ser injustos, podemos dizer que tiveram vários B-Boys em anos e em momentos e tempos diferentes, de muita importância e por todo o Brasil.
BW: Que mensagem vocês deixariam para a nova geração de B-Boys e de B-Girls?
JB: Estudem e lutem pelos seus ideais e seus objetivos e seus sonhos serão realizados. Não posso deixar de mencionar que nos anos 90 ganhamos todos os prêmios possíveis, tivemos o privilégio de dançar em quase todas as redes de televisão, termos conhecido a Rock Stead Crew, que foi nossa grande inspiração e sermos inspiração para muitos, tivemos umas das nossas letras de música publicadas no primeiro livro do gênero “ABC RAP”, fomos os primeiros grupos de rua a participar do ENDA, temos o orgulho de termos sido reconhecidos como a verdadeira escola do Hip-Hop.
Fotos: Arquivo Pessoal
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A madrugada do dia 13 de dezembro era para ser animada para Rafael Ferreira dos Santos (35) mais conhecido como Primo Break, e sua esposa Beatriz (25), conhecida como Dedé. Eles foram a comemoração de um aniversário de uma amiga e do outro lado da rua estava acontecendo uma festa de Hip-Hop.
Rafael saiu da comemoração por um tempo, dizendo que ia fumar, acredita-se que Rafael tenha atravessado a rua em direção à festa de Hip-Hop para dançar, era o que mais gostava de fazer e, nesse momento, foi atropelado por um carro, que fugiu sem prestar nenhum socorro.
Passado um tempo, Dedé foi a procura do marido e o encontrou caído no chão, mas estava lúcido, então, desesperada, começou a pedir ajuda para as pessoas que estavam em volta, mas muitos tiveram medo de ajudar, então, um rapaz veio até ela e disse que poderia levá-los ao hospital.
Dedé ligou para a irmã de Rafael, Andrea, que estava em casa com marido e filhos dormindo, acordou com o barulho do celular despertando e seu marido observou que alguém estava ligando insistentemente. Era Dedé, a cunhada de Andrea, irmã do Primo Break que estava ligando desde às 5h, tinham umas dez ligações perdidas, então, ela recebeu a notícia que o irmão tinha sido atropelado e que estava no hospital, mas que aparentemente estava bem.
Rafael (Primo Break) foi vítima de um atropelamento no último dia 13. O motorista fugiu do local.
Mas ela continuou falando com a cunhada, que estava nervosa e começou a desconfiar que ele poderia estar mais grave do que ela tinha falado. Andreia se arrumou, pegou um Uber de uma moça conhecida e foi de São Bernardo do Campo, onde mora, até o hospital. Antes passou na mãe, que já sabia o que tinha acontecido, a ideia de Andrea era, chegando no hospital, levar o irmão para São Bernardo. Ele tinha sido socorrido no Hospital Tiradentes. Andrea já tinha perdido outro irmão, em 2013, num acidente de moto e aquilo começou a passar na cabeça e ela pensava: “Eu não posso perder outro irmão”. E aí, junto com a cunhada, de Uber, foram para o hospital.
“Quando chegamos no hospital a moça que nos recebeu foi bem seca, falou que o atendimento seria só na segunda-feira”, conta Andrea. Continuaram conversando e ela ficou sabendo que a gravidade do irmão era grande e que no hospital não tinha cirurgião, observou também que receberam uma etiqueta diferente de todo mundo. Dali, passaram por uma triagem e foram conduzidas a um ambiente onde tinha um cenário de guerra, foi assim que Andrea descreveu: “Muitas pessoas, muita gente doente, acidente, covid, muita movimentação. Tinha gente gritando, porque tinham pessoas de covid junto com pessoas que não estavam ainda contaminadas. Elas entraram na frente de um médico e pediram informação, aí ele respondeu: “O Rafael?”, o médico estava com um papel na mão que parecia a ficha dele, então, ele entrou num outro local”. Aí, Andrea viu o cenário tumultuado que existia, ele a levou para um local mais calmo e começou a explicar que o Primo Break, em relação ao peito, estômago, aparentemente não tinha nada grave, mas explicou que “o problema foi a cabeça, Rafael deu entrada no hospital com um traumatismo craniano, estava saindo muito sangue pelo ouvido e não foi possível estancar a hemorragia e o coração dele começou a falhar, dando uma parada cardiorrespiratória, foi dado o socorro e nós não conseguimos salvá-lo. Então, nós perdemos o Rafael”, disse o médico.
Jow Robotic, Primo Break e B-Girl Naira Sales
Andrea não acreditou, num primeiro momento foi um choque! O mundo acabou para Andrea naquele momento! O médico estava bem abatido também, parecia que eles estavam ali havia dois dias. Faltavam médicos, os que estavam em plantão estavam sobrecarregados. Andrea saiu de lá e quem deu a notícia para cunhada foi a Cintia, que dirigia o Uber. Depois, teve que cuidar de todas as coisas e avisar as pessoas, porque ele era bem conhecido, ele era muito festeiro.
O outro irmão de Rafael chegou, foi ele quem foi à delegacia com um tio fazer o boletim de ocorrência e lá, ele foi orientado que depois teria que voltar ao IML para o reconhecimento do corpo. Em casa, as crianças choravam, os filhos de Andrea e os filhos de Rafael. O menorzinho tinha muita dor de barriga, todos viveram um grande pesadelo.
No dia seguinte, foram ao IML, depois, tiveram que cuidar de várias questões burocráticas em Itaquera e foram avisados que o enterro seria só no dia seguinte. O reconhecimento do corpo só aconteceu à noite e depois o velório, no dia seguinte foi o enterro, onde apareceu bastante gente, foi feito um revezamento para não ter aglomeração, em função do risco alto de contaminação para Covid-19.
Primo Break dava aulas de Breaking em projetos sociais.
Lembranças de um irmão
Andreia fala sobre o Primo Break: “eu conheci três pessoas dentro de um único Rafael: o Rafinha para a minha mãe, o Rafael para os primos e para as pessoas próximas da comunidade onde nós morávamos é o Primo Break que ele se transformou, ele sempre foi uma criança amorosa, respeitosa, nunca foi de responder aos mais velhos. Nós fomos filhos de pais separados, ele ficou carente com isso, sempre buscava afeto, tinha um olhar triste, nunca deu trabalho. Com a separação dos nossos pais eu virei mãe dele. Minha mãe teve que ir à luta para trabalhar e eu tinha 9 anos, Rafael tinha 2 e nosso outro irmão tinha 1 e ainda tinha o André, que era o mais velho. Então, o Rafinha ficou um tempão comigo. Ele dançava muito bem! Nós sempre gostamos de dançar. Ele já dançava com 6 anos, ele já tinha muito gingado, ele tinha uma grande percepção musical, chegou a estudar música. Os próprios professores elogiavam a afinidade dele com a música, mas eu nunca tive dinheiro para investir nele. Passaram-se muitos anos e quando eu vi uma apresentação do Rafael nós ficamos encantados, não era algo terreno. Eu fiquei emocionada com a apresentação dele num teatro, na hora que terminou eu levantei, eu gritei: “É meu irmão, é meu irmão!”, e quando ele me viu, nós dois começamos a chorar. Eu sempre tive uma revolta do porquê as Danças Urbanas não são algo bem remunerado, nunca houve incentivo, outras danças são bem remuneradas, você vê um Ballet, as pessoas pagam para assistir, mas para esses meninos do Breaking, não. E ele foi se envolvendo com a dança, passou o tempo ele casou, teve os filhos e eu vivia dizendo para ele: você tem que parar, porque você não é remunerado, sua família precisa de dinheiro, as crianças precisam comer, Rafa… E ele dizia que não conseguia deixar as outras crianças que ficavam na rua sendo pegas pelo tráfico. Dentro do estúdio eles dançam, veem que conseguem, dessa forma eles se olham e deixam de olhar para o tráfico, eles são capazes de fazer, de ser alguém. E, além disso, nossa família sempre gostava de Hip-Hop. Quando ele dançava, estava feliz. Ele amava dar aula de Hip-Hop para as crianças, era a felicidade dele. Andreia conta que tem uma filha que dança Hip-Hop e o sonho sempre era ela dançar com o Primo Break, para ela, Tio Rafa. E, de repente, acontece essa interrupção de vida, de história, de legado terrível”, conclui.
A comunidade local ficou sensibilizada com a tragédia e prestou homenagens ao artista
O apelo da família
“Pedimos encarecidamente que, se alguém anotou a placa de quem atropelou e matou meu irmão Primo Break Rafael, por favor nos mande. Foi na Avenida Ragueb Chohfi, no número 5.915, Jardim Pedra Branca, São Paulo, na madrugada de domingo dia 13 de dezembro de 2020, às 3h, na madrugada. A pessoa fugiu do local sem chamar um socorro, tivemos um dos piores dias de ter que enterrar mais um irmão de acidente de trânsito, deixou 2 crianças que choram, esposa e pais também. Não temos nenhum contato. Por favor, se você tirou foto eu te peço: nos envie por mensagem, vamos manter em sigilo. Não deixe isso impune, não quero que a minha dor seja a sua amanhã. Meu sobrinho, o filho dele, chora demais. Já conseguimos mais um passo, só manteremos em sigilo para não atrapalhar o andamento das coisas, assim que tivermos mais notícias, falaremos aqui. Foi feito o boletim mais detalhado do local, com ajuda de vocês, orações e compartilhamento, sabemos que essa vida se foi, mas que com isso possamos ser mais gentis, generosos e responsáveis no volante. Obrigada. Deus abençoe a todos!” (Andrea, irmã de Rafael).
O Portal Breaking World se solidariza com essa tragédia. Não foi e nunca será mais um na estatística. Foi um filho, um irmão, um pai, um arte-educador, um irmão da Cultura Hip-Hop, que fazia diferença dentro de sua comunidade com sua arte. Primo Break teve sua história tragicamente encerrada. Vidas sempre importam! Se você tem informações, nos colocamos à disposição para recebê-las, mantendo identidade em sigilo. Entre em contato com o nosso portal pelo e-mail breakingworldoficial@gmail.com ou no canal Entre Em Contato do site.
Fotos: Arquivo Pessoal
Primo Break
Primo Break
Primo Break, sua esposa Dedé e seu filho
Primo Break em família
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Ela nasceu na Vila Carrão, zona leste de São Paulo, filha de artesã e de um metalúrgico que também era maestro e trombonista. Teve contato bem cedo com a arte e a música, mas aprendeu a dançar Breaking com amigos nos bailes. Foi num concurso durante uma matinê que, sendo a única mulher do grupo, recebeu o apelido de “Mina do Breaking”.
Estamos falando da pioneira Rose MC, que também é B-Girl.
Ela, no início dos anos 90, começou a fazer Rap, gravou músicas em coletâneas, fez inúmeras participações, se formou professora de artes, deu aulas em escolas públicas e viajou o mundo desenvolvendo projetos que mesclavam Hip-Hop e pedagogia.
Entre um compromisso e outro, Rose aceitou conversar com o Portal Breaking World. Veja a história de vida dessa “Diva do Hip-Hop”:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua infância, onde nasceu e cresceu? E como era sua vida em família?
Rose MC: Eu nasci na Vila Carrão, Zona Leste e logo mudamos para a Vila Aricanduva, onde morei durante toda a infância e adolescência. Minha mãe Tânia era costureira e artesã e meu pai Joaquim era metalúrgico e músico (maestro e trombonista). Cresci em um ambiente musical. Meu pai foi trabalhar como torneiro mecânico, mas continuou com a Orquestra Sul América de São Paulo, onde era maestro e tocava trombone. Os ensaios eram em minha casa e eu sempre o acompanhava nas apresentações, ajudando nos bastidores ou dançando no cantinho do palco.
Filha de maestro, a música sempre esteve presente na vida de Rose MC
BW: Quando e onde teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? O que mais a fascinou nessa cultura?
Rose MC: Eu frequentava a danceteria TOCO, aqui na Vila Matilde. Aprendi a dançar o “breaking”, que a gente chamava de “robozinho” com colegas do baile. Realizaram um concurso de dança na matiné. Fui convidada pelos meus amigos Luis Break e Sidney para um grupo de dança onde eu era a única mulher. Concorremos ao som do Black Juniors: “Mas que linda estás” e ganhamos! Ganhei o apelido de “mina do breaking” pelo DJ Iraí Campos e passei a ser conhecida pelo bairro. O que mais me fascinou foi o fato de ser diferente, inovador, dançar no alto ou no chão, e a disponibilidade de quem sabia os passos ensinava aos que estavam iniciando e queriam aprender.
BW: Primeiro B-Girl e depois MC, como sua família e a sociedade que estava à sua volta via isso? Você sofreu algum tipo de discriminação por caminhar numa cena onde a grande maioria eram homens?
Rose MC: No início meus pais não gostaram muito… Meu pai falou: “agora você mudou de nome e de sobrenome?”, porque eu assumi o nome de rua, de “Rose MC”. Ele queria que eu estudasse música, me deu um caderno com as notas musicais. Depois passou a me orientar, principalmente sobre contrato de gravadora, a experiência dele no meio foi fundamental para que eu não assinasse nada sem ler. Minha mãe não gostava do estilo, depois passou a costurar minhas roupas de show. Era difícil e caro o acesso ao estilo de se vestir do Hip-Hop. Eu levava as fotos e ela costurava. Assim, pude me sentir uma Salt n Pepa, Queen Latifah, etc. Na verdade eu tive muita sorte quanto à aceitação e apoio masculino. O Doctor MC’s me apadrinhou em 1992, Thaíde & DJ Hum me convidaram para participar da faixa “A entrevista” do LP Brava Gente, em 1994. Mas também passei muito perrengue, indo a eventos e era deixada para cantar no final ou nem cantava, como muitos grupos iniciantes que não tinham disco gravado. Pelos flyers da época, podemos constatar que a participação feminina era muito pequena. Consegui espaço com muita insistência: às vezes cordial e outras metendo o pé na porta.
BW: No Breaking você tinha referências? Alguém te ensinou a dançar?
Rose MC: Minha fase como B-Girl foi aqui no bairro. Aprendi a dançar com o Luis Break e o Sidney (do grupo que eu participei na TOCO). Quando vi na TV os grupos Electric Boogies e o Black Juniors, tive a dimensão de que aquela dança que eu fazia no bairro estava em outros lugares do Brasil. Vale lembrar que não tinha rede social e nosso único canal de comunicação era a TV aberta. Minhas referências da época eram: o Luís Break e o Nelson Triunfo (que estava aqui na reinauguração da TOCO na Praça da Conquista).
Ganhou do DJ Iraí Campos o apelido de “Mina do Breaking”
BW: Dançar Breaking era algo fácil para você ou tinham movimentos mais difíceis? Quais eram seus movimentos favoritos?
Rose MC: Não foi algo fácil aprender a dançar Breaking. Só treinava durante o baile com os amigos e não havia vídeos para treinar em casa. Os meus movimentos favoritos eram de “robozinho”, lembrando que ainda não havia aqui no Brasil as definições de Popping, Locking e Freestyle.
BW: Como foi ser B-Girl nos dias que você começou? Quais eram os principais desafios enfrentados pelas mulheres naquela época? Aconteciam muitos problemas? Muito assédio? Como esses problemas eram resolvidos?
Rose MC: Na verdade, eu acho que tive muita sorte em ter amigos no baile que eu frequentava aqui no bairro, que me acolheram nos treinos, me ensinaram várias coreografias, me respeitaram como mulher e como iniciante no Breaking. Não sofri assédio, ao contrário, tive muito apoio e incentivo. Depois do concurso, passei a ser respeitada por todos e sempre era solicitada para entrar na roda. Também participei de um grupo de dublagens (o meu “breaking” era um diferencial) fomos em diversas casas noturnas fazer shows como a Pop Corn Disco Club e outras. As minhas amigas não gostavam deste estilo de dança, portanto não se dispunham a treinar e aprender.
BW: Fale um pouco da sua caminhada junto a crew que fazia parte. Era tudo tranquilo ou às vezes rolava aquela treta?
Rose MC: Era muito tranquilo. A gente contava os dias para chegar logo o domingo, para ir ao baile e treinar. Na Toco Dance Club, só na matiné o DJ Iraí Campos tocava as músicas perfeitas para dançar o Breaking. Claro que um queria aparecer com um passo diferente… a gente criava as coreografias em casa para ir ao baile dançar na roda e juntar os amigos e ensinar o que aprendeu. A treta era para os meninos disputarem a roda. Como eu era a única mulher minha entrada sempre estava garantida.
Depois do Breaking, veio o Rap, onde assumiu o nome “Rose MC”
BW: O Filme “Beat Street” foi um marco na sua vida? Comente isso…
Rose MC: Este filme mudou a minha vida! Pudemos ver na tela o nosso sonho materializado. Ir ao cinema várias vezes foi emocionante, desafiador e inesquecível. Eu ia sozinha, assistia a várias seções e nos intervalos, o pessoal ficava dançando no hall até a próxima seção. Ali eu vi os B-Boys e B-Girls treinando o que tinham acabado de ver no filme. Para os jovens de hoje é meio surreal esta experiência, tipo: por que eles não assistiam ao vídeo em casa para treinar? Porque não havia esta possibilidade! Enquanto o filme esteve nas telas, nem me lembro quantas vezes fui assistir, às vezes com meus amigos, outras sozinha. Vi algumas mulheres dançando nos cantos, mas não tive coragem de puxar conversa, timidez da época.
BW: De repente MC, quando surgiu o amor pelo Rap? Alguma vez teve que escolher entre o Breaking ou o Rap?
Rose MC: Em 1988 eu decidi ir à Universidade. Não havia políticas públicas, abri mão dos rolês para se dedicar totalmente aos estudos. Nos finais de semana eu trabalhava em um buffet porque o meu salário só dava para pagar a mensalidade, com isto parei com os treinos e apresentações de dança. Mas, em 1992, a sala de teatro da Faculdade entrou em uma reforma interminável e nós estávamos perdendo muitas aulas. As reclamações não eram ouvidas. Escrevi um Rap, comprei um instrumental na Galeria do Rock e pedi para cantar no intervalo. Me cederam o som, microfone… Fiz a denúncia, protestei através da música e todos ficaram sabendo do problema… Em 15 dias a sala estava pronta e nossas aulas retornaram. Ao término do curso reencontrei meu amigo DJ Smokey Dee (Doctor MC’s), que morava aqui na Vila Matilde, contei o ocorrido, e cantei o Rap para ele. A partir daí o grupo me incentivou, passei a frequentar os ensaios do grupo, abri o show deles no Clube House, em Santo André. Fui convidada pelo Carlinhos Kaskatas para participar da primeira coletânea só com mulheres: “Sociedade Alternativa – Elas por Elas”, onde canto duas músicas: “Paixão Bandida” e “Exemplo de Mulher” (lançado em 1994). Eu já havia parado com os treinos, então decidi investir no elemento Rap.
BW: Fale um pouco da sua caminhada como B-Girl, dos principais eventos que participou e também da sua carreira como MC?
Rose MC: Como B-Girl o principal evento foi no concurso de Dança da TOCO Dance Club, onde meu grupo foi campeão e eu ganhei o apelido do DJ Iraí Campos: “a mina do breaking”. Como MC eu tive vários momentos importantes mas vou citar só 3: fui uma das MCs do 1º Encontro Nacional de Hip-Hop na Estação São Bento do Metrô, em março de 1993, organizado pelo Geledés (Instituto da Mulher Negra) e São Bento Força Break. Participei da música “A Entrevista” do LP Brava Gente de Thaíde & DJ Hum (1994), Cantei na Conferência Internacional da Ong IEARN (International Education and Resource Network), em Puerto Madryn, Argentina (2014). Ali nasceu meu projeto de Hip-Hop e Educação: “Hip-Hop On The Spot”.
Rose destaca a importância da São Bento para o Hip-Hop brasileiro
BW: Rose, fale sobre a importância da São Bento para todos que amam e respeitam a Cultura Hip-Hop?
Rose MC: A São Bento é onde conheci a verdadeira essência de ser um “hip-hopper”. Ali as pessoas se reuniam para treinar, trocar experiências, marcar shows, trocar materiais de estudo sobre o Hip-Hop mundial. Neste solo sagrado pude conhecer pessoas como o B-Boy Banks, que deixou o seu legado de luta e resistência. A volta dos encontros da São Bento foram imprescindíveis para que pudéssemos dar continuidade a este espírito de amizade e respeito a todos os elementos. E agora é um local de encontro “True School”, onde a “Old School” e a “New School” se unem em prol da união verdadeira no Hip-Hop.
BW: Você é uma das autoras do livro “Perifeminas”. Nos conte sobre ele, sobre o assunto que aborda e sobre as vivências que teve para escrevê-lo?
Rose MC: Eu estava estagnada com minha participação aos eventos de Hip-Hop e em 2012 a Lunna, presidente da FNMH2 (Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop) me convidou para participar do livro. Tivemos encontros com formações e uma troca entre mulheres, que eu defino como um divisor de águas na minha vida. Foi emocionante reencontrar as mulheres da década de 90 e conhecer as mulheres que estavam iniciando na Cultura. A partir daí voltei à cena, retornei com tudo na carreira de MC. Eu escolhi escrever uma crônica sobre a história da minha vida na música. Outras autoras escolheram poesia, conto ou letra de música.
BW: Rose você é uma das pioneiras do Hip-Hop brasileiro e abriu caminho para muitas mulheres. Faça um paralelo entre a participação das mulheres na Cultura Hip-Hop na sua época e nos dias de hoje. O que mudou para melhor e para pior na sua opinião?
Rose MC: O machismo no Rap continua presente, mas hoje as mulheres têm mais liberdade para se vestir, serem femininas e a temática na composição das letras é diversificada. Na década de 90, as mulheres não podiam escolher o produtor musical ou opinar sobre o beat escolhido pela gravadora. Eu não pude nem escolher a minha foto que saiu na capa do disco. Melhorou a facilidade ao acesso para gravar uma música. Os valores são mais acessíveis e as gravadoras não dominam mais o mercado. Um artista pode viver de stream, direcionar a sua carreira, fazer a própria divulgação, etc. A única coisa que continua igual é a dificuldade em dividir o espaço. Ainda tentam colocar só uma mulher, seja B-Girl, MC, Grafiteira ou DJ, para justificar a participação feminina. Queremos igualdade e equidade.
“Queremos igualdade e equidade”. Para Rose as mulheres ainda precisam de mais espaço na cena.
BW: Como você vê a nova geração feminina do Breaking e das rimas? Se pudesse deixar um recado para eles, o que falaria?
Rose MC: Eu fico extremamente feliz em ver as mulheres quebrando tudo, tanto nas batalhas de Breaking, como nas rimas das MCs. É bom demais ver isto acontecer depois de 35 anos que eu iniciei como B-Girl. Temos muitas mulheres guerreiras e talentosas dentro da Cultura de Rua. O meu recado é: continuem esta luta, vocês não estão sozinhas, quando uma menina ganha um prêmio, ela carrega todas as mulheres nesta vitória! É muito treino, muito ensaio, mas o resultado sempre vem. Não desista dos teus sonhos!
BW: O que significa a Cultura Hip-Hop na sua vida?
Rose MC: O Hip-Hop é a oportunidade que eu tive para realizar os meus sonhos, direcionar meu talento e criatividade, ter amigos de verdade há mais de 30 anos e ser feliz.
BW: Nos conte como tem sido a experiência de, junto com Rúbia e Sharylaine, fazer as lives das Clássicas?
Rose MC: É incrível unir as experiências de três mulheres guerreiras e criar um canal de troca de conhecimento através das Lives. O nosso encontro semanal nos fortalece pela nossa amizade e pelo nosso compromisso como “hip-hoppers”, para além do elemento Rap.
BW: O que você tem feito nesses meses de pandemia?
Rose MC: Eu tenho seguido o isolamento social, só saio para coisas inadiáveis. Estou organizando a casa, compondo, gravando as músicas do meu CD solo, lendo muitas coisas, prestigiando os amigos nas Lives e assistindo a filmes e séries. Estou mudando a alimentação (tentando ser mais saudável) e fazendo exercícios pelo YouTube (aulas de Hip-Hop de baixo impacto).
BW: Defina a Rose MC em um único parágrafo.
Rose MC: Uma mulher guerreira, bem-humorada, feliz, positiva, que luta diariamente pela paz mundial.
BW: Deixe um recado para os nossos leitores.
Rose MC: Espero que o Hip-Hop te traga emoções fortes, amigos verdadeiros e conquistas importantes. Ele pode ser a ferramenta que falta para que você atinja a felicidade na tua vida. Paz nas quebradas e Hip-Hop na veia!
Fotos: Arquivo Pessoal
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