O chão vai estalar: está chegando a nova geração do Breaking.
Com cara de brava, com uma força que parece não caber dentro de uma garotinha de 10 anos, Chaya Gabor, mais conhecida no circuito de campeonatos de Breaking como B-Girl Angel do Brasil, sempre gostou de batalhas!
O que muitos não sabem é que a maior delas foi assim que chegou ao mundo e o prêmio foi a própria vida. Com um passado ligado a muitos fios, incubadora, balão de oxigênio e muitas orações, foram assim os primeiros meses da vida dessa B-Girl, marcada pela prematuridade extrema, Chaya nasceu com 850 gramas, ficando internada numa UTI Neo Natal por muitos dias, tendo sobrevivido a 2 paradas cardiorrespiratórias. Angel é um milagre vivo! Após sua alta médica, teve apneia da prematuridade, necessitando de monitoramento contínuo e utilização de oxímetro em seu primeiro ano de vida, ela esquecia-se de respirar mas não deixava de batalhar pela vida jamais.
Seu nome significa “Presente de Deus” e segundo sua família, sempre representou isso na vida de todos que a conhecem. Sua emocionante história virou até um livro chamado “Gerando Milagres”.
Passadas todas as tempestades e incertezas, Angel começou a dançar, no início por uma indicação médica, já que não gostava de nadar. Primeiro no Ballet, depois, acompanhando o irmão, B-Boy Eagle (13), já com quase 4 anos trocou o Ballet por algo bem radical, o Breaking, onde se encontrou.
Curada por Deus e abraçada pela Cultura Hip-Hop, a menina que é bem conhecida na cena, nas redes sociais e na imprensa, tem despontado como um grande nome da nova geração do Breaking. Só no Instagram tem mais de 2000 seguidores que acompanham seu dia a dia, os campeonatos que participa e suas vitórias. Recentemente, ganhou o primeiro lugar na qualificatória brasileira do Festival de Dança “All Dance”, o que garantiu uma vaga no mundial que acontece agora em Setembro. Com uma personalidade forte e marcante na hora da dança, é carinhosamente chamada por seu treinador Eder Devesa de “Senhorita Power Move”. Leia a entrevista:
BW: Fale um pouco sobre você, sobre sua história?
B-Girl Angel: Meu nome é Chaya Gabor, tenho 10 anos. Nasci bem antes do tempo que os médicos e minha mãe esperavam. Nasci com 850 gramas e quase morri. Isso me fez ficar no hospital muito tempo com minha mãe até eu ganhar peso e ficar boa dos meus problemas respiratórios. Mamãe diz que foram muitos dias, onde muitas pessoas oraram pela minha vida. Para alguns, sou um milagre, parei duas vezes de respirar. Lutei para viver, essa foi minha primeira batalha. E minha mãe até escreveu um livro contando a minha história.
Gerando Milagres: Uma história real da luta pela vida. A B-Girl nasceu com apenas 850g, ficou 110 dias internada na UTI e teve 2 paradas cardiorrespiratórias.
BW: Quando você começou a dançar Breaking e quem te ensinou?
B-Girl Angel: Acho que comecei a dançar Breaking dentro da barriga da minha mãe (risos). Nessa época, minha mãe trabalhava com alguns Rappers e quando eles começavam a rimar em shows, eu me mexia muito em sua barriga, às vezes ela não conseguia nem andar. Mas aprender dançar mesmo comecei aos 2 anos no Ballet, com a tia Luciana Amâncio, no litoral de São Paulo, meu irmão também dançava, fazíamos sapateado juntos. Até que um dia conhecemos o Zeca Break, foi ele quem nos ensinou os primeiros movimentos do Breaking e nos fez amar essa cultura. Tenho muito carinho pelo Zeca.
BW: Você tem referências no Breaking?
B-Girl Angel: Sim, algumas: B-Girl Mini Japa, B-Boy Ruddy, B-Girl Ayumi, B-Boy Lilou, B-Boy Menno, B-Boy Bruce, B-Boy Issei, B-Boy André Herculess, B-Boy Dynabeat, B-Boy Vapor, todos os meninos da minha Crew, meu coach B-Boy Dunda e meu irmão.
B-Boy Eagle, B-Boy Zeca Break e B-Girl Angel do Brasil: homenagem ao primeiro professor de Breaking.
BW: Quem te treina hoje?
B-Girl Angel: É o Eder do Breaking Combate, já estamos juntos há 2 anos. Gosto muito dele, já faz parte da minha família. Ele me chama de “Senhorita Power Move” (risos).
BW: Tiveram movimentos que foram mais difíceis de aprender, que levaram mais tempo?
B-Girl Angel: Sim, tiveram e têm até hoje! Mas Breaking é repetição. E de tanto repetir, aprendemos.
BW: Sua família sempre apoiou a sua dança? Como é sua vida em família?
B-Girl Angel: Sempre! Minha mãe e o meu pai sempre nos apoiaram demais! Os meus avós também! Todos são grandes incentivadores da nossa arte.
“Rival vs Rival” foi a primeira vez de B-Girl Angel em uma batalha de Breaking.
BW: Quando começou a ir para campeonatos? Qual foi o primeiro campeonato que você foi?
B-Girl Angel: Foi em 2017. O primeiro campeonato que eu participei foi o “Rival vs Rival”. Depois, o “Master Crews” e não parei mais de participar de campeonatos. Eu gosto muito de competir! É um momento que me sinto bem e tranquila, pois estou fazendo o que mais gosto.
BW: E qual foi o primeiro que você ganhou? Qual foi a sensação de levantar o primeiro troféu? Você guarda esse troféu até hoje?
B-Girl Angel: Acho que o primeiro que eu ganhei foi em Juquitiba. Foi muito bom ganhar o primeiro troféu e foi contra o meu irmão (risos). O troféu faz parte da minha coleção e está na estante até hoje!
BW: Me fale um pouco da sua rotina de treinos. Que horas e quantas vezes na semana você treina e com quem?
B-Girl Angel: Treino quase todos os dias, às vezes até final de semana e os meus treinos são divididos. Dura em média umas 3 horas.
B-Girl Angel treinando na Street House com o coach Eder Devesa (de boné), B-Boys Sonek e Eagle, da Dream Kids Brazil.
BW: É fácil ser B-Girl e uma boa aluna na escola? Os colegas e os professores pedem para você dançar para eles na escola?
B-Girl Angel: Não é fácil. Sim, sempre pediram, principalmente nos eventos da escola. Os colegas também, na hora do recreio. E até ensinava para alguns.
BW: Fale um pouco sobre a sua Crew?
B-Girl Angel: Eu faço parte da Dream Kids Brazil, que é uma Crew formada por crianças e juntos somos uma família. Somos treinados pelo B-Boy Dunda. Na Crew somos B-Boy Sonek, B-Boy Marcin, B-Boy Samukinha, B-Boy Eagle e eu.
BW: O que você sente quando você dança? O que se passa na sua cabeça?
B-Girl Angel: Liberdade e felicidade de poder sempre ser eu na minha dança. De ter a minha personalidade. Me sinto muito bem. Admiro muita gente, mas não quero ser os outros, eu quero ser eu. Lembro que no passado, por algum tempo, treinei com um professor que usava as crianças e não respeitava isso e transformava todos os alunos em seus bonecos de imitação. E até hoje é assim. É só olhar para eles, são os meninos e meninas do B-Boy fulano, que dançam igual a ele! Não quero ser conhecida desta forma. Eu não gosto disso! Eu sou a B-Girl Angel!
“Não quero ser os outros, quero ser eu!”, personalidade é a marca de B-Girl Angel nas batalhas e na vida.
BW: Uma das suas principais características é a cara de brava dentro das rodas? Você é brava?
B-Girl Angel: Nas batalhas e nas rodas sou concentrada. Mas não sou brava!
BW: Para você o que é o Breaking? O que ele representa na sua vida?
B-Girl Angel: Breaking é a minha vida! Depois de Deus, foi o Breaking que me curou dos meus problemas respiratórios.
BW: Você se acha competitiva? O que te deixa muito irritada durante uma batalha de Breaking?
B-Girl Angel: Sim, sou bastante! Pessoas que parecem presas, repetitivas e que têm movimentos sujos.
A B-Girl treina forte para estar sempre pronta nas competições, mas sem esquecer a essência do Hip-Hop, o valor da família e das verdadeiras amizades.
BW: Nos campeonatos que você compete contra adulto, você acha que já deixou de ganhar algum pelo fato de ser criança? Acha que as crianças são valorizadas nos eventos?
B-Girl Angel: Não me lembro, mas acho que aqui no Brasil, os eventos não valorizam as crianças como lá fora! Meu irmão foi para a Europa no ano passado e as crianças eram reconhecidas nos grandes eventos. Mesmo tendo adultos também! Se a criança for melhor que o adulto deve ganhar!
BW: O que você se sente quando você não ganha ou perde? Consegue lidar bem com isso?
B-Girl Angel: Me sinto normal, faz parte ganhar e perder. Quando eu não ganho porque errei, na hora fico aborrecida, sim. Mas, quando sei que fui bem e não ganhei porque houve panela acho feio para quem senta na cadeira de jurado. Se um dia for convidada para ser jurada, jamais quero participar de coisas assim.
BW: Além da dança, o que mais você gosta de fazer?
B-Girl Angel: Eu gosto de rimar, gosto de Batalhas de Rima! Gosto de ir na São Bento, gosto de desenhar, de ver vídeos de dança e de como construir as coisas.
Além de dançar Breaking, a menina gosta de rimar e desenhar.
BW: Quais são os seus maiores sonhos na dança? Onde quer chegar?
B-Girl Angel: Meu sonho é morar e dançar fora do país. É ser completa na dança, eu sou B-Girl e eu posso!
BW: Tiveram muitas crianças que começaram na mesma época que você e hoje já não dançam mais. Você alguma vez pensou em desistir de dançar?
B-Girl Angel: Não vou desistir da minha vida. O Breaking é a minha vida.
BW: O que você acha da possibilidade de poder participar de uma Olimpíada?
B-Girl Angel: Acho muito bom! Mais uma grande oportunidade para a minha geração.
Dançar e dançar e dançar. A beleza de ser uma eterna aprendiz!
BW: Fale sobre os eventos que já participou.
B-Girl Angel: Em 2019, fui a primeira criança a chegar na final do Prêmio Sabotage, 1º lugar na Batalha Final Kids e 3° lugar na Batalha Final de B-Girls. 1° lugar Batalha de Juquitiba, participei de Rival Vs Rival (SP), Breaking Combate (SP), 2° lugar no Peruíbe Dance Festival (SP), Master Crews (SP), BreakSP Battle, B-Boy World Classic (SP), Nike Battle Force na Streetopia (SP), 2º lugar São Matheus Break, 1º lugar Fábricas de Cultura (SP), Ar Dance (Peruíbe/SP), 2° lugar na Tattoo Week (SP), Festival Santos Café (Santos/SP), R16 (SP), Tropical Battle (RJ), Battle Kids Argentina, Quando as Ruas Chamam (DF), Red Bull BC One Camp Brazil, Campeã da Quebrada Viva Battle, 1° lugar no Arte Breaking, 2º lugar no São Vicente Festival, 1° lugar na modalidade Kids do All Dance Brazil 2020.
A paixão pela dança é o que move o coração da B-Girl Angel do Brasil.
BW: Como foi ganhar a vaga para o mundial no All Dance World?
B-Girl Angel: Foi bem especial! Treinamos durante meses a coreografia “Anjo do Breaking” e o resultado foi a resposta a um bom trabalho feito. Vou lutar pelo mundial também!
BW: Quem é a Angel?
B-Girl Angel: B-Girl Angel do Brasil sou eu! Fora das batalhas sou a Chaya!
BW: Que mensagem você deixaria para outras crianças que pensam em começar no Breaking?
B-Girl Angel: Venha logo dançar e conhecer essa cultura!
Conhecer o passado e respeitar quem o escreveu é um dever e uma sábia decisão de quem pretende viver o verdadeiro Hip-Hop ou falar em nome dele.
A História dessa cultura não é uma lista de nomes, datas e feitos de pessoas antigas, mas sim um registro de homens e mulheres desbravadores que abriram caminhos, criaram pontes onde não existiam, enfrentaram preconceitos, quebraram tabus, resistiram a tudo e a todos, erraram e acertaram para que hoje tudo fosse diferente.
Como certa vez disse Afrika Bambaataa: “O Hip-Hop é conhecimento, cultura, entendimento, autoconhecimento, conhecimento sobre os outros”.
O Portal Breaking World acredita na verdade dessas palavras e teve a honra de conversar essa semana com “O Guardião” da história do Hip-Hop brasileiro.
Queridos leitores, convidamos a todos para esse incrível bate-papo com Rooneyoyo, onde falamos do passado, do presente e do futuro.
Está pronto para essa conversa? Então senta que lá vem história…
BW: Rooney, queria que você falasse um pouco da sua infância, da adolescência e como era seu relacionamento com sua família. Quem era o Rooney nessa época, o que pensava e sonhava?
Rooneyoyo: Eu nasci debaixo da ponte, no Bixiga (risos), como brinca minha mãe até hoje, porque foi demolido e virou um elevado naquela região. Costumava sair cedo de casa e só voltava à noite, jogava bola, andava de Skate, bicicleta, patinete, pula-pula, corda, brincava com o que meus amigos emprestavam. Alguns brinquedos eram feitos por mim, tais como: carrinhos de rolimã, que eram construídos com restos de madeira que pedia nas oficinas e que achava em terrenos baldios; pipas, com papel de pão e vareta de bambu que encontrava na rua; taco, feito de madeira de construção; bolinhas de gude, feito à mão lixado de epóxi, além disso, fazia rolos e trocava por figurinhas para poder bater. Na adolescência, para levantar um dinheiro, fazia pulseirinhas artesanais com nomes personalizados de linha de tricô, pranchinhas de surfe como pingente de acrílico, que achava na rua, aprendi olhando os artesãos de rua. Mas, a minha paixão era jogar botão de mesa que fazia com tampa de relógio, fui campeão paulista quando tinha uns 14 anos. Nessa época, ia para o centro da cidade a pé, entrava nos condomínios comerciais perguntando se havia relojoaria para pedir vidro de relógio riscado e adesivo da empresa, que também colecionava, com o troco do pão juntava e comprava adesivo dos times e números à base de água e colava nestas tampas e pintava com tinta de guache escolar ou esmalte, escondido da minha mãe. Aos 16, conheci o Break e também o ioiô, numa promoção de refrigerante e treinava mesmo fora da temporada, quando chegou a promoção, em 1998, comecei a participar das competições de bairro e intimava os campeões da época, até que um deles me deu “uma lavada”. A partir daí, comecei a treinar mais e um colombiano me ensinou uns truques, fui convidado a participar de uma competição interna no fim da promoção e ganhei o título de “Internacional Champion Yo-Yo” da Russel Company, fui convidado a viajar com a Cia. de Yo-Yo, ou seja, minha infância dura até hoje (risos). Nesta época, recebi vários apelidos: Ninaco, Tanajura, Pé na Cova, Índio, Tijelinha, Tripa, Zé ou Zé Ricardo mesmo, cada lugar que frequentava tinha um apelido, pois não ficava em casa, vivia procurando algo para fazer e andava demais e a cada período eu tinha um ciclo de amizade para poder usufruir do que eles tinham para oferecer. Sobre pensamentos e sonhos ao decorrer da entrevista vocês vão conhecer.
Uma vida difícil e a inquietude curiosa o trouxeram naturalmente para a Cultura Hip-Hop.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Rooneyoyo: Em 1983, vieram uns promotores do SENAC na minha escola, oferecendo apostilas para vender e quem comprasse ganhava a inscrição do curso de datilografia gratuita, minha mãe meio que me obrigou a fazer o curso e eu tinha que ir a pé para o centro, na Rua 24 de Maio, fazer o tal curso depois da escola, entre agosto e dezembro, muitas vezes antes de começar o curso tinha umas rodas no centro. Era muito comum na época, com capoeiristas, puladores de círculo de facas, jogadores de bolinha da sorte. Em meados de outubro vi uma roda diferente, eram os dançarinos de “Breakdance”, vi um monte de meninos dançando ao som de um rádio gravador (boombox) pequeno, a mesma dança que assistia nos programas de TV e dos videoclipes, pois raramente passava algo interessante para mim, o encantamento foi imediato, fazia curso 2 vezes por semana, saía da escola e corria para o centro, para ver se encontrava esta roda de novo, para tentar aprender algo, enturmei-me e vi a Gênesis do que hoje chamamos de Hip-Hop se formar em São Paulo, de lá para cá tudo virou História e hoje profissão.
BW: Quem eram suas referências? Que elementos fizeram toda a diferença na sua vida? Com quem você aprendeu?
Rooneyoyo: Minhas referências eram os dançarinos da Rua 24 de Maio com a Rua Dom José de Barros, mas não sabia o nome de quase ninguém, até começar a ouvir quando um chamava o outro pelo apelido, eram alguns artistas dos videoclipes da época de 1983 e quando vieram os filmes em 1984, aí perdi a linha mesmo. Na época, não tínhamos conhecimento dos elementos artísticos que conhecemos. A “Febre Breakdance” tomou conta de mim, após a chegada dos filmes no Brasil, achava que tinha que fazer tudo para ser reconhecido dentro da Cultura, comecei dançando, depois fazia uns desenhos e pintava em roupas e vez ou outra um traço no muro devido a falta de grana para tintas, mais tarde, conheci o Rap, pouco antes de ir para a São Bento, em 1985 e, na sequência, tive a oportunidade de conhecer os equipamentos de DJ. Lembrando que estive presente na 24 de Maio, no aniversário de São Paulo na Praça da Sé, em 1984, no “Festival de Break”. Ver os caras que eram meus amigos indo para a novela “Partido Alto”, da TV Globo, assistir os filmes “Breakin” e “Beat Street” no cinema e, em seguida, frequentar o Boulevard da São Bento, isso foi uma “lobotomia” (risos). O aprender foi natural com todos que convivi, mas o principal era que tínhamos que ter uma Gangue, a minha era a AclimaçãoBreaker´s, com Hamilton, Eu (Ninaco), o Marcelo Gueta e seu irmão mais novo Guetinha, treinávamos no parque da Aclimação, no centro, me aproximei do Andrezinho (ALAM Beat), que era amigo do Mancão do Cambuci, treinávamos no meio da semana, durante a noite. Logo, nos encontramos enquanto irmãos e viramos da Família Street Warriors. Nesta época, conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário, além disso, com frequência o ALAM Beat me chamava para treinar na Pompéia, na casa de uns amigos que tinham uma garagem de azulejo, com Faustinho (Falecido) e Gula, a gente frequentava os bailes de matinê aos domingos, mas raramente entrava, pois não tínhamos grana para frequentar, às vezes entrava escondido, cerca de meia hora antes de fechar, assim conheci o Jack (MCJack) no clube A Ponta, no Tatuapé e revezava os treinos de domingo, quando ia ao Parque do Ibirapuera, lá treinava uma gangue de manhã em um período e no outro período vinham outras gangues diversas, ou seja, ficava de manhã até o fim da tarde, para aproveitar, sem comer e a pé (risos).
Amizade de longa data: “conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário”.
BW: Outra paixão foi o ioiô, que deu significado ao seu nome, Rooneyoyo. Fale um pouco dessa outra paixão.
Rooneyoyo: O nome “Rooneyoyo” tem vários significados, bora lá: Rooney foi o Heliobranco que me apelidou, na época das visitas à casa do DJ Ninja com a Rádio NWBass, para poder mixar num racha, simulávamos uma rádio fictícia e eu gostava muito de Gangsta Rap e meu apelido no disco Radicais do Peso ficou “Gang$taRooney”, o nome foi inspirado no Filme “Action Jackson” um Blacksploitation (filmes feitos por e para negros americanos) onde tinha um personagem tipo Robin Hood Urbano do Gueto, o porquê fica por conta da imaginação do leitor… (nada a declarar); Rooneyoyo foi a junção do nome porque alguns me chamavam de Yo-Yo também e outros me chamavam de Rooney Yo-Yo e juntei tudo para ser único nas buscas na internet. Então, tenho vários personagens e moldo conforme a necessidade.
BW: Onde tudo começou para os B-Boys e B-Girls de São Paulo? Fale sobre o Marco Zero e sobre a pedra que até hoje tem o seu nome.
Rooneyoyo: Em São Paulo, as coisas foram simultâneas em vários bairros, pois os clipes começavam a ser exibidos com cenas de “Breakdance” (a febre) de 1983 a 1985, os dançarinos eram oriundos de grupos de dança dos Bailes Blacks, mas a Rua 24 de Maio com a Dom José de Barros nos deu a explosão midiática que as pessoas conhecem da História da Gênesis do Hip-Hop de São Paulo e mesmo sem saber a nomenclatura correta, os programas de auditório passavam as disputas semanalmente e durante meses. Quando falamos de B-Boys e B-Girls o prisma muda, pois naquela época só vi uns três dançarinos irem para o chão, os movimentos eram simples. Depois do clipe do Break Machine e os filmes Breaking e Beat Street, a dança melhorou um pouco, em relação às mulheres não vi nenhuma, somente fui vê-las fazer uma entrada nos encontros da São Bento e creio que por volta de 1987, nós temos um grande vácuo na cena feminina. A participação delas foi intensificada após os encontros da B-Boys Battle Party, de 1998 em diante. O Breaking de hoje é diferente do que vimos no início, para entendê-lo, necessita-se compreender o contexto de cada época. Anos depois, no ano de 2014, Nelson Triunfo com apoio do ALAM Beat leva um projeto na Secretaria de Cultura e aprova um evento em homenagem aos tempos primórdios e eu fui carinhosamente homenageado pelo Mestre Nelson Triunfo, a quem sou muito grato pela sua contribuição pela arte e cultura.
Na época em que o Breaking era conhecido como “BreaK” ou “Breakdance”, Rooneyoyo já fazia seus moinhos de vento!
BW: Você é considerado um dos pioneiros do Hip-Hop no Brasil, são quantos anos envolvidos com o Hip-Hop? Nos conte como tudo começou aqui no Brasil e como era viver a Cultura Hip-Hop na década de 80?
Rooneyoyo: Eu datei minha participação quando frequentei a Rua 24 de Maio com Dom José de Barros em agosto de 1983 em diante, quando fazia um curso de datilografia ali no Senac. Como já destaquei, este período chamávamos de “Break” ou “Breakdance” o que conhecemos hoje de Cultura Hip-Hop. Nessa época, tudo era muito orgânico e presencial, não havia internet, telefone de fácil acesso, as informações eram disseminadas via TV, rádio, jornal, revista, vinil, k7. As Informações eram raríssimas, para se ter uma foto de dança, tinha que comprar a revista para ter acesso ao conteúdo. Quando me perguntam sobre a década, foram sete anos de evolução, pesquisa, visitas em lojas de disco para busca dos conteúdos, mas nem sempre comprávamos, olhávamos revistas em bancas de jornais para saber se tinha alguma informação nas revistas, ia em laboratórios médicos e entrava nos consultórios para ficar folheando página por página para ver se achava algo que interessava, ia em bibliotecas todos os dias para folhear os jornais do dia na seção de cultura, para saber se sairia algo naquele dia, isso era interminável. Nos encontrávamos no Boulevard da Estação de Metrô São Bento para ver o que cada um trazia de informação e ficávamos olhando por horas e discutindo teorias sobre matérias, fotos, roupas, etc. Faço isso até hoje (risos).
BW: Que boas lembranças você tem dessa época, como era a vibe de quem dançava?
Rooneyoyo: É interessante lembrar dessa época para resgatar as memórias, principalmente porque se não revivermos e contarmos nossa história, ninguém o fará, vivemos em um país que invisibiliza as nossas histórias, apreciá-las ou respeitá-las não é cultural, principalmente por ser uma cultura marginalizada. Esse período foi incrível, principalmente porque estávamos inventando o nosso jeito de fazer arte e a cultura com todas as suas camadas, que muda de lugar para lugar. Minha energia sempre foi de troca de informação, militância, de luta, de abertura de espaço, estávamos no pós-ditadura e a dança também era um aprendizado constante, todo dia aprendíamos coisas novas. A dança moldou meus pensamentos e por ela tenho feito reflexões e construído caminhos em prol de comunidade, como não tínhamos nada de referência, (re)criávamos, faço isso até hoje, se não tínhamos uma roupa a fazíamos, se não tínhamos um som, montávamos. Então, a vibe era se reinventar.
Para Rooney a dança molda pensamentos, traz reflexões e muda caminhos em prol do bem da sociedade.
BW: O Breaking da sua época era diferente da forma que é dançado hoje? Que diferenças você pode citar entre os B-Boys e B-Girls da sua época e os de hoje?
Rooneyoyo: É de fato diferente, já na nomenclatura, no conceito e na equidade de gênero, primeiro porque estávamos em uma bolha da moda e tudo era ditado pela TV, jornal e algumas revistas, a era “Breakdance” de 1983 a 1985. Depois temos a época dos que resistiram e suavizaram a inserção e o acesso à informação da nova geração, pois as informações foram chegando aos poucos, as descobertas e estudos sobre o que vivíamos, eram moldados à nossa realidade e foi se transformando no que todos vivenciam hoje, um exemplo disso é o termo B-Girl, que não existia, pois na época todos dançavam o “Breakdance” que hoje conhecemos como Popping, Waving, Tuttting, Robbot, alguns passos de Locking misturados com algo de Breaking. Sobre as B-Girls, só as vi depois de 1987 e elas estavam vinculadas por serem namoradas de algum Breaker que frequentava aquele espaço. Alguém precisa me rememorar, se alguma delas foi lá só para dançar o Breaking e algumas se tornaram MC em meados de 1987/1988. Havia também uma época que todos eram denominados de B-Boy, o B-Boy que tocava era o DJ, o B-Boy que grafitava, era o grafiteiro. Nossa dança, era coreografada ou muito improvisada e sempre fora do ritmo, outro detalhe que mudou muito também para melhor, claro e para corrigir isso, tivemos brigas homéricas de conceitos e provar, algo que demorava, pois os documentos e vídeos com informações não estavam ao alcance dos dedos como é hoje, mas dávamos mais valor a cada momento.
BW: Fale um pouco da Street Warriors, se não me engano foi fundada em 1983, correto? Como era o relacionamento com a sua Crew?
Rooneyoyo: Essa parte da História é linda, pois somos uma família até hoje e para entender isso tive que rever com nossos personagens da época, pois foi uma junção de várias gangues e grupos de dança. Em 1983, no Cambuci, formou-se o P.O.R.T.A.L., que era como chamamos hoje de guarda-chuva de tudo isso e podemos começar com a Star Break do ALAM Beat, Didi, Gula e Faustinho, que virou Zulu On A Time Bomb com ALAM Beat, Didi e Silvão que virou B-Boys City Breakers com a entrada do Raul (ex Funk & Cia), Deley (ex Os Cobras) e Paulinho. Gula e Faustinho (Falecido) montaram a Duck Rockers, a Fantastic Break do Cambuci com Edinho, Mancão, Fubá, Edu “O Bárbaro”, Bulldog, Luciano e Aninha; o Tico e Teco (Os Gêmeos) eram Cambuci Breakers, mas também eram B-Boys Due (nosso grupo de grafiteiros), eu, Tico e Teco e quando iam cantar Rap eram MC Due e, para finalizar a família, a minha Gangue Aclimação Breakers que eram, eu (Ninaco), Hamilton, Gueta e Guetinha, muitos grupos da época mudavam de nome para entrar em concursos. Isso tudo acontecia em 1 ano, ou seja, tem grupo que não durou 2 meses, até que o Mancão e o ALAM Beat com Silvão fundam a Street Warriors e DJ Carlão (Ninja) foi convidado para ser o DJ do grupo. A data é comemorada todo segundo fim de semana de dezembro junto com o P.O.R.T.A.L no Cambuci.
Street Warriors e Rooneyoyo: muito mais que uma gangue, uma família!
BW: Você foi um dos caras que fez os primeiros eventos de Breaking com público abrangendo todos os estados. Fale um pouco dessa vida como organizador de eventos em todos esses anos. O que foram as festas chamadas B-Boys Party, que aconteceram na Avenida Rio Branco?
Rooneyoyo: Eu virei organizador, como pode perceber nas falas anteriores, porque não tinha ninguém que fizesse a produção e também porque tenho sede de ver as coisas acontecerem. Via eventos competitivos acontecendo no exterior pelas revistas e VHS trazidas por amigos que viajavam para o exterior e pensei: “vou fazer isso igual”. Na época, eu tinha uma loja de roupas de Hip-Hop voltada para o nosso público e usava o lucro da loja para subsidiar e promover estas festas. Foi como tudo começou, mandando cartas pelo correio, colocava anúncios em revistas especializadas e quando respondiam, os convidava, fiz muita feira de moda fora de São Paulo, quando vinham ao meu balcão de vendas itinerante (estande) comprar alguma peça, já pegava contato e com certeza iriam receber um convite pelos Correios. A B-Boys Battle Party era uma festa mensal que promovíamos nos clubes do centro da cidade daquela época, entre 1998 até 2001, alugávamos o local e trazíamos os equipamentos. Tudo devido a julho de 1998, quando os encontros da Estação São Bento do Metrô foram proibidos, pois estavam mudando para um lado mais comercial com lojas e não queriam nosso povo lá, tentamos ir para a rua em outros pontos e não vingou, foi aí que decidimos fazer estes encontros, uma vez por ano fazia o B-Girls Battle Party, onde descobri uma mina, a DJ Nice, que competia no DMC (competição de DJs Nacional), ela gostava de Break Beat Europeu, uma parte da festa era comandada por elas; uma vez ao ano também fazíamos a Batalha Final, uma competição de coreografias e no final tinham batalhas de grupo. Os anos foram passando e fui mudando regras e categorias, hoje temos o foco voltado em competições de alto rendimento.
BW: A primeira “Batalha do Ano” que levou 3 mil pessoas aconteceu em qual ano? Como foi esse evento?
Rooneyoyo: Nosso primeiro evento da Batalha aconteceu em 1999, como fazíamos as festas mensais com batalhas individuais, de duplas, misto, de Old School vs New School (acima de 30 anos versus abaixo de 14 anos), B-Girls Battle, pensamos: vamos fazer a B-Boys Battle Party Annual Contest, com o nome Batalha do Ano que foi um desastre comercial em um negócio mal elaborado com o B.O.T.Y mundial, mas o público veio em massa. Tentamos mais um ano, mas para arrumar patrocínio era muito difícil, pois levar até quatorze pessoas para a Alemanha era oneroso e comercialmente inviável, mudamos o nome que segue até hoje, Batalha Final. Creio que este público de 3 mil seja em 2004, no Parque Dom Pedro, na antiga fábrica da Comgás, um espaço com 11 mil metros quadrados e dezenas de espaços, criamos uma sala onde só tocava Funk Style, creio ser a primeira deste gênero, um ambiente de 1.200 m², onde forramos com Madeirit branco para o Breaking, tivemos 17 DJs, em um pico totalmente abandonado, lembro que até os Guardas da Polícia Metropolitana ajudavam a segurar as escadas pros Pichadores e Grafiteiros fazerem seus trabalhos, ali nosso público dos 2 dias atingiu cerca de 8 mil pessoas, 3 mil no sábado e 5 mil no domingo. Foi assustador ver aquele mundaréu de gente em um pico sem nenhuma estrutura, mas era uma época Roots mesmo, fazíamos as coisas com muito amor, paixão, hoje somos mais comerciais, seguimos regras e leis, outros tempos.
Na foto como MC da DMC. Rooney foi pioneiro ao criar a primeira Batalha de Breaking profissional, trazendo grande público, Batalha Final, que ano passado comemorou seus 20 anos de existência.
BW: Fale sobre sua experiência como DJ e quando fez a escolha de parar de dançar e se dedicar a essa carreira? Estar nas pick-ups é melhor do que estar nas rodas?
Rooneyoyo: O ser DJ era uma época que achava que tínhamos que ser tudo para ser da cultura, adoro música e adorava ver como os DJ´s faziam para mixar, achava aquilo mágico, os toca discos eram um sonho de consumo distante. Então, comprava os discos, ouvia, lia, traduzia, copiava as roupas, ficava tentando entender porque das correntes, dos chapéus, das marcas, ficava horas decifrando fotos e encartes. Conheci o DJ Carlão no Cambuci, ele me mostrou um som, o Love Master Ace com a música Diseases e o refrão parecia que ele falava Ninja, foi aí que o batizei com seu apelido, DJ Ninja. Na casa dele aprendi a mixar, cortar, fazer back to back, alguns poucos scratchs, mas demorei muito para ter meu primeiro set de DJ e não escolhi parar de dançar, tenho problema na coluna, sinto dores e fui diminuindo minha ação como dançarino gradativamente, na real sempre quis dançar Popping, mas não tenho essa aptidão e fui parar no chão mesmo. E não tem comparação uma arte com outra, estar nos toca discos comandando um evento ou festa é diferente de estar nos palcos ou numa roda (Cypher) como dançarino. Gosto de tudo, então, pulo esta decisão.
BW: Você esteve fora do país algumas vezes, nos conte sobre suas experiências e sobre grandes amizades que fez pelo mundo.
Rooneyoyo: Todo ser humano tem que se oportunizar a sair de seu bairro, município, estado e país, trocar experiências ou vivenciar outras culturas, estudar para poder entender, respeitar para poder se posicionar, cultivar seres com propósitos parecidos, ser respeitado e ser verdadeiro com sua essência, olhando de fora parece algo surreal conhecer seus ídolos, mas criar seu conceito dentro de outra cultura traz verdade no seu eu, faz ser respeitado pelos criadores de uma arte que pode ser usada para o bem. Fazer amizades pelo mundo é algo que me faz bem, traz paz, faz o mundo ficar pequeno. Nada é impossível.
DJ Ninja e DJ A.G. Naja (Rooneyoyo): parceria de longa data na Cultura Hip-Hop.
BW: Tocar na São Bento tem algum significado especial para você? De onde saíram os nomes DJ Naja e O Guardião?
Rooneyoyo: Sim, tocar ali, onde eu aprendi a estudar, pesquisar, me moldou para ser o que sou hoje, é impagável. Me fez entender quem eu sou e porque estou na Cultura. A.G. Naja, A. G. era o Assistente Geral do DJ Ninja, da época do disco do Hip-Hop Cultura de Rua, da Dupla MC Jack e DJ Ninja. Eles tinham muitas colagens e intervenções durante o show, não dava tempo de fazer tudo sozinho, eu tinha que ser preciso, tinha que ser dinâmico, segurava os discos, fazíamos shows com vinil e eu era como um Roadie, um faz tudo do grupo. O apelido Naja foi para combinar foneticamente com o nome do Ninja. O Guardião veio após uma palestra sobre a evolução disso ou evolução daquilo sobre Hip-Hop, mas poucos defendiam a raiz da cultura, sabemos que um povo sem passado é um povo sem História. Fui para casa pensativo e irritado, então adotei este codinome como simbologia de ser um cara que respeita a raiz, como tenho muito material da “Febre Breakdance” é como se fosse um ancião, quando alguém precisa de uma informação, procuro as referências que tenho para contribuir.
BW: Em sua caminhada, você ajudou muitos B-Boys e B-Girls a encontrarem seu próprio caminho. Em recente evento a B-Girl Miwa falou justamente da gratidão que tinha a você! Na sua visão, quais são as maiores dificuldades hoje na vida de um B-Boy ou de uma B-Girl?
Rooneyoyo: Creio muito no ajudar sem olhar a quem, mas lógico, com o passar do tempo você aprende a ajudar a quem quer ser ajudado e hoje estou bem seletivo, pois muitas pessoas acabam se aproximando para tirar proveito da sua boa vontade e você vai perdendo a fé nas pessoas, justamente por causa dos mal-intencionados e muita gente deixa de ser beneficiada por isso, e todos perdem. É um assunto delicado e muito pessoal, a Miwa que você citou é uma mulher inteligente e dedicada, na época vi um potencial circunstancial diferente e foi uma troca mútua de trabalho e conhecimento, tinha minhas ideias e ela fome de fazer algo importante para ela e pra Cultura, tenho esse olhar de perceber o potencial em algumas pessoas, umas dão muito certo outras não, devido a fatores variados, os que dão certo ficam para a História, os que dão errado dá vontade de desistir de tudo, porque são pessoas que te traem e não entendem o quão profundo é ser leal e respeitar sua criação intelectual. Isso vem acontecendo com mais frequência, alguns querem ser você sem viver a sua experiência, os valores de hoje são fúteis e sem pudor, cada vez eu vejo menos pessoas criativas e sem propósitos longínquos, são imediatistas, isso não é bom para ninguém. Não há dificuldades se fizer um planejamento, mas para isso o dançarino precisa entender e respeitar vários níveis de ação global. Estamos falando de Brasil? Aqui estamos muito à frente dos nossos vizinhos, porém, sonhando errado. É fácil, falando de competições, derrotar o mundo todo com nossa aptidão corpórea, mas não respeitam as hierarquias e conhecimentos dos mais velhos e se baseiam em pessoas erradas, apoiam um desconhecido que nunca fez nada pela sua categoria em detrimento de achar que é seu concorrente. Muitos criam mecanismos abstratos e temporários, isso não funciona e vai dar errado. Se não unir a categoria, nunca dará certo e tem um monte de gente indo no caminho errado, porque é o mais curto, dificuldade haverá sempre, devido às escolhas egoístas.
Para Rooneyoyo “O Guardião” tocar na São Bento é uma experiência impagável e traz sensações inigualáveis.
BW: Das festas de B-Boys Party na Rio Branco diretamente para o futuro. Hoje falamos de Olimpíada e você é o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking. Você imaginava no passado que o Breaking chegaria a virar uma modalidade olímpica? O que acha sobre o fato do Breaking ter sido indicado como mais uma modalidade olímpica? É possível com toda essa evolução que se perca a essência desse elemento como muitos temem?
Rooneyoyo: Já tive esta conversa com Crazy Legs em 1999, quando o trouxemos, em um dos jantares parece que tivemos a mesma sensação e desejo de ver o Breaking competitivo nas Olimpíadas, porque falamos da abertura nas Olimpíadas de 1984 nos EUA, justo na febre do “Breakdance” e ficamos imaginando como seria, foram horas discutindo conceitos, pois eles são os criadores e nós consumidores, então, até ele entender a ótica de quem não vive nos Estados Unidos da América, que eles estão em um país corporativo e nós em um país assistencialista e isso não é fácil. Mas, não imaginava de fato que isso aconteceria. Hoje tenho um pensamento crítico muito profundo sobre este assunto, creio que é cedo para essa admissão da nossa modalidade, pois o mundo todo precisaria ter uma política pública voltada para o esporte e um apoio mais forte em todos os países, o que ninguém percebe é que temos uma disparidade cruel e injusta, enquanto Europa e Ásia gasta cerca de 6 milhões de reais para fazer um evento de um final de semana, nós aqui, por exemplo, não conseguimos captar recursos na casa dos 50 mil reais para um evento, muito menos nossos vizinhos Sul e Centro Americanos, Africanos e Oceania, para que estejamos entre os 64 países como consta na proposta para o COI. Politicamente é um evento para envaidecer o capitalista eurocêntrico. Para mudar a ótica da nossa categoria, agora falando dos brasileiros, precisam entender que temos um plano, mas sem adesão não vai funcionar. O que vejo é daqui uns anos, não termos brasileiros competindo pela falta de escolhas coerentes e assertivas neste momento, pois um erro pode frustrar toda uma geração e teremos um delay como estamos tendo no futebol. Conversamos com um dos colaboradores da elaboração das regras para as competições da modalidade, o Storm, apontei várias incongruências na competição, mas como disse, politicamente e esportivamente vai sim perder a essência como muitos temem. Creio que quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar. Daqui 20 anos teremos dois tipos de dança e como irei continuar fazendo as duas danças, a do Hip-Hop e a Olímpica, não tenho este problema. As pessoas vão ter que aprender a separar isso no conceito desde o início, hoje a confusão está estabelecida, Breakers formados em Educação Física criticam as competições de alto rendimento, mas aceitam ser produtores e jurados de competições de empresas que trabalham com o esporte de alto rendimento. Competidores atuais da modalidade, dançam, competem e julgam competições de alto rendimento e são contra as competições Olímpicas, o dinheiro compra as pessoas, mas não admitem que o fazem. Por isso, digo que não vai dar certo se não entrarem num consenso. O que eu vejo é medo de se assumirem publicamente, pois ser de uma Federação ou estar em uma Confederação dá trabalho, custa caro e é muita responsabilidade, as pessoas não sabem como funciona, não querem aprender e se dar o trabalho de criar algo que não existe. Repetindo, as pessoas não querem trabalhar para criar algo inexistente, querem o produto pronto para consumo, para poderem criticar em vez de aderir e ajudar a realizar.
Para o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar no alto rendimento.
BW: Com o advento das Olimpíadas o que muda na vida daqueles que pretendem de fato se tornarem atletas olímpicos? O que essa nova geração de B-Boys e B-Girls pode esperar?
Rooneyoyo: Sempre acreditei que tudo pode ser bom, vai mudar a vida de quem ingressar neste foco Olímpico, não só para o Atleta Dançarino, mas para todos que se envolverem, ainda vão abrir caminho para outros profissionais da categoria como comissão técnica, profissionais da saúde, entre outros, mas para que isto dê certo aqui no nosso país teremos que mudar nossa cultura do pensamento, cultura de postura, cultura do estudar, pesquisar, respeitar e nossa política tem que mudar para um campo diferente do que temos hoje, a política do assistencialismo, a política de dar migalhas popularmente falando. Isso nunca funcionou em nenhum país do mundo. O esporte pode mudar isso, melhorar a vida dos brasileiros, mas a política tem que mudar também, a mudança deve demorar uns 50 anos ou umas três gerações, ou seja, não veremos isso acontecer. Mas, vou dar um voto de esperança e fazer um apelo para quem ler esta entrevista, vamos nos unir pela causa juntos ou iremos sempre brigar entre nós e não vamos chegar a lugar algum.
BW: No último ano você realizou a Batalha Final em alguns lugares como no Shopping Tatuapé e no Centro Esportivo Tietê, na Virada Esportiva. Como foram esses eventos?
Rooneyoyo: Desde o início as Batalhas que fazemos são tematizadas, cada ano criamos um conceito e aplicamos nas peças publicitárias e tentamos envolver os participantes para este universo lúdico que nos possibilita viajar dentro da arte. Não fizemos nada novo, porém inédito em São Paulo, entrar em um Shopping e executar um evento com todas as exigências e prazos cumpridos, além de participar de uma Virada Esportiva, com a Secretaria Municipal de Esportes, só mostra o quanto nós amadurecemos profissionalmente e estamos preparados para assumir responsabilidades internacionais com todas as exigências Olímpicas. Executar eventos com apoio governamental é sempre uma roleta russa, exige um grau de flexibilidade de alto nível mental. Nunca é fácil depender e assumir a responsabilidade com as leis que temos, a burocracia não ajuda, os prazos são curtos para uma execução com excelência. Mas, concluímos e superamos a expectativa das metas impostas pelo grupo de trabalho. Com o orçamento que tínhamos foi planejado 4 eventos e executamos um total de 7, incluindo a contrapartida e com uma ação social de doação de reciclagem dos banners que sempre ficam inutilizados, ajudando uma comunidade de mulheres de vulnerabilidade social. Foi emocionante concluir e conseguir este feito dentro da realidade imposta.
Rooneyoyo faz parte do grupo de Rap R.D.P. (Radicais do Peso) e da coletânea SP Hip-Hop All Stars.
BW: Com a pandemia, muitos planos mudaram na vida das pessoas. Em muitos casos, foi necessário uma readaptação. O que você tem feito? É verdade que está trabalhando num novo modelo de evento? Pode falar sobre ele? Quando será e de que forma será?
Rooneyoyo: Essa pandemia nos atrasou 2 anos de planejamento, li e estudei muito e fiquei pensando como poderia mudar parte desta realidade atual. Tínhamos planejado um Brasileiro e um Sul-Americano para este ano, mas seguindo as normas e decretos da OMS (Organização Mundial de Saúde), tivemos que nos adaptar e voltar à realidade imposta. Então, vamos fazer um evento semipresencial, com a participação somente dos competidores, DJ, MC e produção reduzida, sem público, para isso criamos um programa de TV On-Line, com um conceito Cibernético e Eletrônico com o piso individual e com o distanciamento social necessário. Teremos um sistema de julgamento presencial com um aplicativo digital com desenvolvimento de inteligência artificial, muito parecido com o que vai ser usado se aprovado no futuro Olímpico, ou seja, quem participar desta competição já irá sentir a emoção de como será daqui alguns anos. A Batalha Final ocorrerá em breve. Sobre o que eu tenho feito desde março, estudando, consegui ler 19 livros e 8 dissertações de mestrado de amigos, escrevi um texto para um livro que será publicado em breve pelo Os Gêmeos, falando da parte do Rap brasileiro e a correção cronológica do mesmo. Já era para a exposição “Segredos” deles, que será exibida na Pinacoteca, em São Paulo, estar aberta ao público e deve abrir em outubro, tem obras minhas feitas na época que trocávamos desenhos pela janela, não posso dar spoiler mas quem for irá entender este universo do Hip-Hop da sua raiz até o lado mais comercial e aqui fica meu convite para a visita. Dica: comprem o livro e os brindes, vai virar item de colecionador. É isso, estou fazendo algo produtivo, sendo eu e aproveitando para pesquisar mais, pois tenho novidades para lançar em breve, muitos acontecimentos artísticos.
A pandemia mudou os rumos das produções de Breaking no mundo todo. A Batalha Final volta em novo formato na última semana de setembro.
BW: Na sua opinião, o que você acha dos eventos on-line que têm acontecido e como acredita que será a vida futura de B-Boys e B-Girls com esse fator de risco, o novo coronavírus? Que desafios terão que ser enfrentados ao seu ver?
Rooneyoyo: É fato que gostaríamos de ter público presente, mas a pandemia mudou nossas realidades, adaptar faz parte da continuidade. Estou acompanhando alguns eventos on-line e só me mostra o que não fazer, pois conceitualmente estão executando de maneira emotiva, tendenciosa, faz com que desmotivem alguns dançarinos e isso não é bom, por outro lado é importante ter alguns eventos neste conceito, faz com que motivem os dançarinos continuarem treinando, um paradoxo e vejo também muitos competidores com o propósito sem planejamento assertivo e isso é um erro que pode custar caro, procurar uma assessoria seria um bom caminho para melhoria de alguns produtores, uma agenda coletiva poderia ser algo construtivo. Essa doença (Covid-19) é implacável e invisível, os cuidados para com os participantes diretos e indiretos têm que ser levados à sério, temos que aprender a conviver remotamente e conviver conosco sozinhos, este é o maior desafio que enfrentaremos.
BW: Quem é hoje o Rooneyoyo? Qual o legado que pretende deixar para as gerações futuras? E o que significa o Hip-Hop na sua vida?
Rooneyoyo: O Guardião hoje é um cara mais tranquilo e focado em fazer algo que o deixe feliz e em paz. Vai continuar lutando e brigando pelo que acredita, causas que ache importantes, têm muitos sonhos a serem realizados, ideias para tirar do papel e realizar. Um ser pensante e pulsante. O legado é algo que depende de quem vai receber, pois o imediatismo faz parecer inútil o lapidar do tempo, quem dá valor a arte sabe que já cumpriu mais do que prometeu para si próprio, daqui para a frente as ideias estão implementadas e outras podem surgir. Hip-Hop é algo espiritual e orgânico, só vivendo pra sentir e entender.
Fotos: Cadu Barbosa, Willian Machado, 77Produz, DMC e Arquivo Pessoal.
O B-Boy
O Grafiteiro
O DJ
O MC
Rooneyoyo "O Guardião"
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A pandemia chegou e virou o país (e o mundo!) de pernas para o ar… Pessoas morrendo diariamente, quarentena, crise global e, é claro, os B-Boys e B-Girls não poderiam deixar de serem atingidos por esta situação caótica. Muita coisa mudou em muito pouco tempo: os praticantes da dança Breaking se viram de uma hora para outra com seus planos adiados, muitos entraram em um estresse contínuo causado pelo isolamento social, crise financeira e um inevitável esgotamento físico e mental. A desigualdade social que já era grande, principalmente no cenário urbano, mostrou-se ainda maior nestes tempos ruins.
A autocobrança acaba refletindo no desempenho. Nas redes sociais vi muitos B-Boys e B-Girls reclamando que seu rendimento caiu, seja pela falta de local adequado para treinar, seja pelo excesso de stress gerado pelo tédio de ficar em casa, alguns engordaram, perderam a forma, outros estão sem motivação, sem alegria e sem energia, alguns, até, entrando em um início de estado depressivo. Tudo isso causado, principalmente, pela falta de convívio mais intenso com as pessoas. Sim! A tecnologia até nos permite aproximação e algum consolo diante de tanta notícia ruim, mas nunca vai substituir o contato físico, aquele bate-papo gostoso entre amigos num churrasco de final de semana!
Isso tudo nos trouxe um quadro generalizado de desequilíbrio emocional e social. Estamos todos com os nervos à flor da pele, pois descobrimos, enfim, que as conexões são muito mais importantes do que imaginávamos outrora. Nada será como antes!
E o “novo normal”, enfim, bateu à nossa porta. “Caramba! E agora? O que vai ser?”, esta é a pergunta que não sai da cabeça de todos nós que amamos a cultura urbana, a arte, a dança, a música… E o novo sempre assusta. Em alguns, dá até calafrios tentar entender e perceber o que pode estar por vir.
Mas, afinal, o que vem a ser o “novo normal”?
Bem, antes de me aprofundar no novo, acho importante voltarmos um pouco no tempo… Pensar em nosso conceito do que é normal e do que não é tão normal assim. Afinal de contas, como diz o velho ditado “de louco, todo mundo tem um pouco”!
Não dá para entender o que é “normal” sem entender antes o que significa “comum”. Sim, por mais semelhanças que estas duas palavrinhas possam ter, não são a mesma coisa. Comum é a junção de “como um”, é a resposta para a pergunta: “o que eu tenho do outro e que ele se identifica? E o que o outro tem de mim que eu me identifico?”.
O comum é quando há um padrão estabelecido como “um de todos”, que de alguma maneira garante proteção e sobrevivência que, para aqueles que fazem parte de determinada sociedade, se torna o conceito de normal. Ou seja, o padrão de comportamento leva a uma identificação, que por sua vez traz em si opiniões, hábitos e costumes. Se somarmos, então, o comum mais a sobrevivência, chegamos ao nosso “normal”. E o que é a sobrevivência senão o nosso instinto de proteção, segurança e continuidade?
Seguindo esta linha de raciocínio, chegamos, concluímos que quando a nossa sobrevivência e proteção estão ameaçadas “não é normal”! É comum vermos alguns B-Boys e B-Girls usarem bebidas alcóolicas em excesso ou substâncias ilícitas. Mas isso não é normal, pois estão ameaçando suas próprias vidas, fazendo mal ao próprio corpo que é a ferramenta e o instrumento que utilizam para externar a sua arte e sua dança.
O “novo normal” então, nada mais é que um novo padrão que a pandemia da Covid-19 trouxe para a sociedade, um novo padrão que visa garantir a nossa sobrevivência por meio de protocolos de proteção e acompanhamento.
No Breaking era normal, até então, os B-Boys e B-Girls chegarem nos eventos, se cumprimentarem com abraços, beijos, apertos e toques com as mãos… O contato físico é uma característica da Batalha de Breaking: o olhar nos olhos, passar a mão por cima, as pernas por baixo do oponente, provocar, ironizar, tudo isso faz parte da cultura desta dança e dessa arte das ruas… A roda! Sim, a roda é o maior símbolo desta gente que nas “cyphers” se encontra, se solta, tem sua liberdade e sua arte saindo pelos poros (e pela boca também, com suas milhares de gotículas e aerossóis sem fim!).
Como será o futuro, o que muda e o que esperar deste novo normal?
É fato que por mais que o Breaking una as pessoas (e vai continuar unindo) alguns cuidados terão que ser tomados nos campeonatos pós-pandemia para que se mantenha a segurança dos participantes: andar com máscaras, ser menos expansivo, mais contido, manter o distanciamento social, talvez dançar também com luvas, pois o contato com o chão é a marca registrada desta dança… Pois é: nada de abraços, nada de beijinhos no rosto, nada de selinhos, nada de apertos de mão… O mundo está mudado e é claro que o Breaking não seria exceção.
Os campeonatos, além das preocupações usuais, terão que se adaptar a uma nova realidade, pelo menos até que se encontre uma vacina e que seja novamente seguro enfiar o dedo na cara do seu oponente! As batalhas presenciais deverão retornar aos poucos, mas cumprindo os protocolos da OMS (Organização Mundial da Saúde). Batalhas sem público e com transmissão on-line, com limpeza do local no final de cada round, distribuição de máscaras e álcool gel para todos os participantes e trabalhadores, testagem da presença do vírus de competidores, jurados, DJs, MC’s, produtores e outros personagens que possibilitam acontecer um evento de qualidade é um caminho, pelo menos por ora, sem volta.
A própria produção e estrutura dos eventos devem passar por modificações para garantir a segurança de todos. A dinâmica das batalhas, sem dúvida, vai cair bastante com estas medidas, pois sem aglomeração e sem aproximação entre os oponentes, vamos ter uma maior frieza nos campeonatos. E isso porque temos ainda um longo caminho a percorrer até que as batalhas se tornem novamente seguras: as vacinas, na melhor das hipóteses deve sair até o final deste ano. Mas deve-se levar em consideração os estudos que apontam que o novo coronavírus pode passar por mutações genéticas que, a médio e longo prazo, podem tornar a vacina ineficaz. Isso sem falar que estudos recentes demonstram que algumas pessoas foram reinfectadas… Ufa!
Mesmo diante deste quadro, ainda podemos respirar fundo (com máscara, claro!), pensar naquela metáfora do copo com água pela metade (meio cheio ou meio vazio?) e tirar algumas vantagens: por exemplo, os eventos on-line têm menor custo de produção e maior alcance de público, as empresas e os produtores independentes podem economizar muito dinheiro com o sistema de “home-office”. Novas oportunidades, como a abertura de novos mercados para os dançarinos e dançarinas, como aulas on-line, oficinas, vivências e outras atividades não presenciais. E ainda: melhor qualidade de vida. Menos stress no trânsito, menos poluição; para ir aos eventos os B-Boys e B-Girls não precisam mais percorrer grandes distâncias ou enfrentar chuvas, gastar com alimentação, transporte, hospedagem.
Enfim, o “novo normal” pode ser uma oportunidade incrível para os breakers descobrirem uma nova forma de viver, ao descobrirmos o valor da nossa própria casa, aprendemos a ter a humildade e a consciência que já não temos mais tanto controle assim de nossas vidas como pensávamos! A possibilidade de fazer novos amigos e participar de eventos internacionais sem sair de casa acabou abrindo novas frentes para muitos que jamais teriam a oportunidade de “rachar com a gringa”!
A normalidade, meus caros leitores, é uma busca constante por segurança e proteção, então, jamais poderemos dizer que somos completamente normais. Vivemos uma dicotomia: estamos sempre entre a vida e a morte. As nossas escolhas nos levam a uma encruzilhada aonde de um lado estamos de frente com a morte, trazida por exemplo pelo hábito de beber e dirigir, uso de drogas, brigas e discussões, etc. e de outro a vida, trazida pela prudência, pela busca do saudável, de querer cuidar de seu próprio corpo, sua mente e das pessoas que ama.
O “novo normal” é traumático e assustador e pode trazer ansiedade e insegurança para muitos. Mas não se trata de um “bicho de sete cabeças”! A pandemia vai passar e mesmo que deixe algumas sequelas, a nossa vontade de sobreviver e de nos proteger vai trazer adaptação e ambientação com a nova realidade e os novos padrões.
Portanto, meu conselho para os B-Boys e B-Girls é: preparem-se para o “novo normal”! “Mas, como, mano?!?”, você pode estar se perguntando… Proteja-se, cuide do outro, crie novas expectativas para si, novas rotinas, explore todo o seu potencial… Aprenda a controlar as suas emoções e a sua mente: olhe para dentro de si, descubra o que há de melhor, aproveite o tempo para treinar mais, ver tutoriais, aprender novos passos e novos movimentos. Fale com quem você ama, mesmo que seja por videoconferência, diga para seus parentes e amigos o quanto você os ama, leia, regule suas emoções e encontre algum equilíbrio emocional e mental… Não é fácil! Tem que ter força de vontade e uma boa dose de determinação, mas vai ajudar-lhe a ser bem melhor como B-Boy ou B-Girl e, muito mais, como ser humano.
Fotos: Reprodução
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“Eu quero que minha história alcance o maior número de pessoas possíveis, para que possam refletir e valorizar a vida o máximo possível.” (B-Girl Branca)
Ela começou no Breaking cedo, mas foi apenas com 16 anos que passou a participar de competições, seu sonho era ir para fora do país e ter sua dança reconhecida mundialmente. Sempre foi competitiva, guerreira e gostava de desafios.
Estamos falando de Geisiane Aguilar, mais conhecida na cena como B-Girl Branca. Em 2015, ela participou da Batom Battle, sendo ganhadora do evento de B-Girls. Junto com suas crews Rock Niggaz e We Can Do It, teve várias conquistas. Esteve também na eliminatória no Brasil da Eurobattle, ficando em segundo lugar.
Tudo caminhava bem, mas foi durante o treino, numa noite em agosto de 2016, que Branca seria apresentada a maior de todas as batalhas da sua vida: seu nome era “Mielite Transversa Cervical” ou “DEVIC”, uma inflamação na coluna cervical que a deixaria tetraplégica. Segundo os médicos, Branca tinha apenas 7 meses de vida.
Ela encarou o diagnóstico como mais uma grande batalha que seria vencida! Foi forte, guerreira, pediu a Deus uma nova oportunidade e quando recebeu a agarrou com unhas e dentes, tendo grandes melhoras e avanços no seu quadro.
Branca é um milagre, um exemplo de superação! Uma verdadeira inspiração para todos que conhecem sua história!
Hoje B-Girl Branca luta para continuar seu tratamento de reabilitação, que não é barato! Se recuperar e voltar a dançar faz parte de seus sonhos futuros! Por isso, criou nas redes sociais uma “vakinha” para levantar dinheiro para custear o tratamento.
Foi nesse momento que o Portal Breaking World teve a oportunidade de conversar com esta B-Girl incrível que, sem dúvida, é uma Rainha do Breaking Brasileiro! Sim ela é forte! Ela é B-Girl! O Portal Breaking World convoca a todos, B-Boys, B-Girls, DJ’s. MC’s, promotores de eventos e amantes da Cultura Hip-Hop para a ajudar a B-Girl Branca! Confira a entrevista:
BW: Queria que você falasse um pouco sobre sua infância, sua adolescência e quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Branca: Olá, meu nome é Geisiane, conhecida no Brasil como B-Girl Branca. A minha infância foi maravilhosa, sempre fui uma menina saudável e que amava praticar esportes como futebol, basquete e alguns outros mais. Eu tive meu primeiro contato com o Hip-Hop por meio de um projeto que acontecia na minha cidade, chamado “Segundo Tempo” e lá tinham várias atividades físicas e tinham aulas de Hip-Hop, esse foi o meu primeiro contato e me encantei.
Voltar a dançar Breaking é um dos sonhos de B-Girl Branca.
BW: Quando nasceu o amor pelo Breaking? Com que idade começou a dançar? Alguém te ensinou?
Branca: Eu acho que eu já amava o Breaking, só que não conhecia. Eu me apaixono por algo que seja competitivo, coisas difíceis e desafiadoras. E foi quando eu conheci o Breaking e já tinha todas essas essências que eu gostava e acabei me identificando. Foi quando eu acabei me apaixonando. Quem me ensinou foi o César Rodrigues do grupo QDM. Ele estava à frente do projeto onde eu conheci o famoso Hip-Hop. Hoje somos amigos e irmãos, ele acredita que irei voltar mais forte.
BW: Você teve o apoio da sua família na prática do Breaking?
Branca: Nunca tive apoio da minha família, meus pais sempre questionavam, diziam que era coisa de louco, que era coisa para meninos. Eu tinha mais ou menos um pouco de apoio da minha mãe, mas da minha família nunca tive.
B-Girl Branca foi campeã da Batom Battle 2015
BW: Com que idade começou a competir? Fale um pouco dos principais eventos que participou e que também ganhou. Quais eram seus objetivos e sonhos nessa época?
Branca: Eu comecei a competir com 16 anos de idade, participei da Batom Battle, em 2015 e ganhei o campeonato de B-Girls. Era um evento para B-Girls e tinham várias de todos os estados e países. E também competia muito com a minha crew. Meu sonho era conhecer a gringa e ser reconhecida no mundo inteiro.
BW: Fale sobre sua vivência nas Crews Rock Niggaz e We Can Do It e o que conquistou ao lado delas. Você chegou também a participar de alguns eventos internacionais, como a Eurobattle? Nos fale sobre eles…
Branca: Eu sou do grupo da Rock Niggaz e da We Can Do It B-Girls, com a Rock Niggaz participei de um campeonato chamado Batalha na Vila e ficamos em segundo lugar e outros que participei com eles foi chegando em semifinais. Com a We Can Do It B-Girls, nós participamos da Master Crews e a gente foi a primeira crew de B-Girls a passar do filtro desse evento, onde tinham mais de 32 Crews e ficamos entre os 16. Eu participei da eliminatória aqui no Brasil da Eurobattle onde fiquei em segundo lugar. Era um evento com várias modalidades e eu participei da de B-Girls, onde quem ganhasse o campeonato iria ter uma vaga na OutBreak, na gringa.
Branca competiu com a Rock Niggaz e a Crew Feminina We Can Do It B-Girls
BW: Você disse que 2015 tinha sido o melhor ano da sua vida. Nos conte o que aconteceu nesse ano?
Branca: Em 2015, foi o ano que eu treinei mais para poder ganhar esse dois campeonatos: Batom Battle e Eurobattle. Foi o melhor ano porque eu consegui provar pra mim mesma que eu consigo sim ganhar as coisas e mostrar pra quem desacreditava do Breaking que não ia me levar a nada, foram o que mais me levou a conquistar as coisas e ser reconhecida no Brasil. E mostrar pra minha família que o Breaking sim, dá retorno!
BW: Passado um ano, o que aconteceu na noite de 16 de agosto de 2016, no Ginásio de Esportes, em Brasília? Foi durante o treino? Quando notou que tinha algo errado? Como tinha sido aquele seu dia?
Branca: Eu fui pro treino bem, tinha acabado de me recuperar de uma dengue que eu tinha pegado. Não tive o repouso, que é de 15 dias, só esperei melhorar e fui para o treino. Treinei muito naquele dia, mas estava me sentindo cansada, com o corpo doendo, ainda por conta da dengue. Foi quando eu fui fazer um movimento chamado “Coin Drop” (conhecido como “Giro de Moeda”), fui fazendo ele várias vezes no treino, a partir desse movimento eu me senti mal, sentei, coloquei a mão no pescoço e estava doendo muito. Foi aí que meus colegas de treino preferiram me pegar e me levar ao hospital. Aquele dia foi horrível para mim!
BW: Quais foram as primeiras medidas tomadas? Quem te socorreu? Para onde te levaram? Que procedimentos e exames foram feitos? Chegou a fazer alguma ressonância magnética no primeiro momento?
Branca: Meus colegas de treino me levaram até o hospital, logo após minha mãe chegou. Cheguei chorando e eles me atenderam o mais rápido possível, me deram “Dipirona” na veia e não passava a dor, me deram um relaxante muscular e foi quando eu não consegui sentir meu corpo. Isso foi no hospital da minha cidade, eu moro no entorno de Brasília. Minha cidade se chama Cidade Ocidental, no outro dia, eu fui pra Brasília, no Hospital de Base, fizeram um monte de exames e não descobriam o que era. Pediram uma ressonância e viram minha medula completamente inflamada.
BW: O que você sentia naquele momento e o que os médicos te falaram?
Branca: Os médicos não me passavam nada, só conversavam bastante com a minha família. Eu me senti muito mal de me ver toda cheia de aparelhos e estava no estado de intubação. E disseram pra minha família que meu estado era gravíssimo…
BW: Quando de fato o diagnóstico foi fechado? Os médicos falaram de “Mielite Transversa Cervical” ou “DEVIC”, consegue nos explicar o que é essa inflamação, qual a causa e quais são as consequências? Verdade que os médicos compararam a sua situação a uma pessoa que tivesse sofrido um acidente muito grave?
Branca: Os médicos não sabem o motivo da inflamação, eu perguntei se foi por conta da dança, eles disseram que não foi. A inflamação foi tão forte que foi como se eu tivesse sofrido um acidente de carro e tivesse batido minha cabeça várias vezes. Hoje eu tenho acompanhamento médico e eles estão definindo o que aconteceu para causar essa informação toda. Em outubro, eu vou ver o resultado do exame e eles vão dizer o que eu tenho realmente. Eles deram que é 100% DEVIC, mas eles dependem desse exame para sair o resultado que é o que eles querem saber, se é DEVIC mesmo para eles confirmarem e me passarem o resultado! As consequências eles não me passaram e nem me deram esperança, conheci uma moça com DEVIC e ela disse que ela não ia voltar a andar e ela ficou 3 anos na cadeira de rodas e voltou a andar e está normal hoje em dia.
BW: Você chegou a pensar que essa inflamação teria alguma ligação com a dança? Chegou a mostrar vídeos para os médicos, correto? O que eles falaram?
Branca: Eu cheguei a pensar que sim, porque eu não tinha uma alimentação tão saudável. Comigo era tudo corrido e deixava minha alimentação em segundo lugar e dava a prioridade à dança, ao trabalho, etc. Cheguei a mostrar o vídeo de dança e eles começaram a rir e disse que eu sou bem agitada e folgada. E que não tinha capacidade de ter causado essa informação tão alta e forte.
BW: O que você sentiu quando recebeu o diagnóstico? O que se passava na sua cabeça?
Branca: Diagnóstico eles fecharam como DEVIC, eu imaginei várias coisas, quase entrei em depressão por saber que eu iria demorar um pouco a voltar os movimentos do meu corpo. Mas eu sempre acreditei em Deus e ele sabe de todas as coisas e ele que vai dar o resultado final. Hoje, as minhas forças vêm de Deus.
B-Girl Branca teve forças para superar os desafios, mas não foi fácil pois ela ama a dança.
BW: Uma pessoa cheia de vida, que dançava, que tinha movimentos rápidos e precisos, de repente se vê tetraplégica. Como você viveu esse momento, o que te deu forças para passar por tudo isso?
Branca: Foi muito difícil pra mim saber que eu iria fica tetraplégica e ficar numa cadeira de rodas e estar dependendo de outro pessoa, aquilo me matava por dentro, porque sempre fui independente e nunca passou pela minha cabeça que eu iria ficar assim. Eu sempre fui mudando meus pensamentos ao passar dos tempos, ficava pensando que eu sempre fui uma menina positiva e que isso é só uma fase e que as coisas vão ficar bem e que também vão dar certo. Eu sou evangélica, minha força toda vem de Deus, minha segunda força vem da minha companheira, que é minha mãe. Eu falo que ela é minha psicóloga (risos). Ela fala pra mim umas coisas bonitas e positivas. Quando estou nos meus dias ruins, ela fala: “minha filha, você é forte, guerreira e está viva, graças a Deus. Logo, logo você vai estar bem, fé em Deus”, eu ouço, reflito bem aquilo que ela me diz e aí me dá mais ânimo de correr atrás pra me ver bem logo.
Mesmo passando por momentos difíceis, Branca nunca perdeu sua fé.
BW: Você fez cirurgia? Por que isso foi necessário? Como foi a recuperação?
Branca: Sim, eu fiz uma traqueostomia no pescoço, a recuperação foi ótima e rápida. Só senti muita dor quando eu acordei da cirurgia, parecia que tinha arranhado minha garganta, foi horrível. Mas quando tirei, foi um alívio, porque me incomodava demais.
BW: Por que os médicos falaram que você tinha apenas 7 meses de vida? No que se baseavam? O que você sentiu nesse momento? E como você reagiu a tudo isso?
Branca: Eu não sei o porquê eles falavam isso, médicos são muito desacreditados das coisas, eles passam uma carga negativa, sabe. Não te dão esperança. Os médicos diziam para ninguém me falar que eu só tinha 7 meses de vida. Mas eu via eles conversando baixo e sabia que não era uma boa notícia, mas eu nunca me desesperei. Eu também tinha pegado uma pneumonia na UTI e tudo estava dando alterado, os resultados de exames, etc. Eu dei a volta por cima e estou aí de volta, eu fui lá no hospital visitar o médico que falou pra minha família que eu tinha 7 meses de vida, o encontrei e disse a ele: “Os seus cálculos deram errado, hein, Doutor!”. E ele veio, me abraçou forte e se emocionou, falou que eu era um milagre, que era muito forte, que era para eu e minha família continuarmos tendo fé. Porque eu conseguiria ter uma boa recuperação.
BW: Como sua família reagiu a toda a situação?
Branca: Minha família ficou desesperada, não sabiam o que fazer, não tinham muitas notícias minhas porque eu era maior de idade, tinha 20 anos na época. E era só uma hora de visita e os médicos só falavam coisa ruim. E quando minha família disse que eu ia pra UTI e iria ficar usando traqueostomia, foi desesperador. Mas depois todos mantiveram uma calma e só vou dando certo e recebendo notícias boas pelo celular, que o hospital ligava.
BW: Após isso, como foi o tempo de fisioterapia e de recuperação? De onde você tirava força para prosseguir?
Branca: Após ter alta, eu fui para outro hospital de reabilitação em Brasília, chamado Hospital de Apoio, onde eu tive meus primeiros acessos às fisioterapias. Eu tirava as minhas forças vendo outras pessoas que estavam com a mesma dificuldade que a minha se recuperando um dia de cada vez. Aí eu pensei: eu vou fazer igual essa pessoa; só que ao invés de eu estar fazendo fisioterapia, eu vou imaginar que eu estou tentando pegar um movimento difícil que eu queria aprender e colocava toda minha força nas fisioterapias e nas reabilitação.
BW: Fale um pouco das amizades nesse período da sua vida, você disse que 100% dos amigos sumiram… Nos conte isso.
Branca: Sim, eu tinha amigos fora da dança, que a gente sempre se juntava pra curtir umas festas e, quando eu adoeci, todos sumiram! Restaram 2 ou 4 que me ajudam quando eu preciso. Mas eu não liguei muito, fiquei chateada na época, mas passou. Encontro alguns na rua e cumprimento todos normalmente. Eu acho que, tipo, ninguém quer ter responsabilidade ou alguns só estava comigo por estar, outros por outros motivos. Eu não sei muito bem explicar!
O professor César Rodrigues e a B-Girl Branca: amizade fortalecida em momentos de crise.
BW: Por outro lado, tiveram pessoas mais que especiais, como por exemplo, o professor de dança Cesar Rodrigues, alguns fisioterapeutas e amigos que foram mais chegados do que irmãos, não é verdade? Nos fale dessas pessoas e o que significam na sua vida.
Branca: Sim, eu conheci uma fisioterapeuta maravilhosa. Bem prestativa, sempre querendo o meu bem em todos os momentos. E aí a gente virou amiga depois que sai do hospital. Ela se chama Juliana Alves, continua me dando o maior apoio e força também, gosto bastante dela, é uma pessoa muito especial para mim. Tenho uma outra amiga, chamada Arianne, ela sempre me ajuda no que eu preciso. Me ajudou bastante na minha reabilitação, ficando comigo nos hospitais, ela é uma irmã pra mim. A amo e teve outras pessoas também, que me ajudaram bastante no meu processo em casa. O César Rodrigues eu já disse, é meu irmão também, sempre está comigo quando ele tem seu tempo vago, um cara super especial pra mim também. Amo todos que me ajudaram, de coração!
BW: Quando você voltou a recuperar alguns movimentos, conseguiu sentar e ficar depois de pé, nos conte o turbilhão de emoções que você sentiu?
Branca: Quando eu tive meu primeiro movimento, foi na UTI, eu mexi lentamente o meu dedo e mandei minha mãe conferir se estava mexendo mesmo. Ela disse que sim e chamou os médicos e fisioterapeutas, foi uma alegria esse dia. Eu me senti tipo uma “fênix renascendo das cinzas”, tipo feliz demais, chorei horrores (risos), aí eu imaginei, se o dedo mexeu, o resto vai mexer também. Aí eu tenho movimentação na perna direita, de encolher e esticar, tenho movimento nas mãos e nos dedos, de encolher e esticar. Mas não consigo ficar em pé e não consigo levantar os braços, não consigo comer só, banhar só, não consigo abraçar alguém, não consigo fazer cumprimentos levando os braços. E tenho equilíbrio de tronco.
BW: Você fala em um vídeo, que tudo tem um propósito e o seu tempo e demonstra gratidão a Deus por ter te dado uma nova chance. Você já descobriu qual foi o propósito disso tudo que você passou? O que mudou na sua vida após tanta luta?
Branca: O propósito que eu acho que Deus teve comigo foi mostrar que nós, seres humanos, não somos nada diante dele. E eu sou uma prova viva disso, para quem tinha 7 meses de vida vocês não acham que tem algum propósito aí?! Eu quero que minha história alcance o maior número de pessoas possível, para as pessoas refletirem e valorizarem a vida o máximo possível. E sempre agradecer, todos os dias! Esse é o recado que eu tenho para dar! Passar para todos! O que mudou na minha vida foram os valores, passei a valorizar as mínimas coisas que as pessoas desprezam. Hoje em dia, essa minha luta está me amadurecendo demais. E espero levar isso comigo pro resto da minha vida.
BW: Quais são seus desafios e sonhos para o futuro? O Breaking se encontra neles?
Branca: Sim, o Breaking se encontra neles. Quero volta a dançar, se Deus permitir. E desafios para o futuro é continuar alcançando os meus objetivos e sonhos que eu pretendo realizar em breve.
B-Girl Branca competiu em vários campeonatos com a Rock Niggaz
BW: Quem é a B-Girl Branca hoje?
Branca: A B-Girl Branca hoje continua sendo a mesma, gentil, marrenta, um amor de pessoa, agradável. E sempre com pensamentos positivos e querendo voltar o mais rápido possível. Estou com mais experiência na vida, penso demais antes de fazer alguma coisa errada ou falar algo que possa magoar o próximo. Hoje eu sinto uma paz que eu não sentia antes. E quero que as coisas só tenham progresso, na minha vida é isso.
BW: Nesse momento, segundo informações, você precisa de um trabalho de recuperação mais efetivo, fazendo uma terapia intensiva que não é barata e para isso foi lançada uma campanha nas redes sociais “Ajude B-Girl Branca”. Nos fale sobre essa campanha, quanto precisa levantar e como as pessoas podem ajudar?
Branca: Então, eu estou fazendo fisioterapias particulares, que custam R$ 120,00 a sessão. Hoje em dia, eu faço uma vez na semana. Porque lá eles fecham o pacote que é R$ 480,00 e pretendo fazer duas vezes na semana. Eu criei a “vakinha” para a galera ajudar a compartilhar e poder conseguir esse valor pedido na vaquinha virtual. Para que eu possa fechar um pacote indo pelo menos 2 vezes na semana. Fora o transporte, que eu tenho que pagar por fora, que é R$ 70,00. Na “vakinha” eu peço só a quantia da fisioterapia mesmo e no valor total de R$ 8.000,00. Toda quantia é bem-vinda no site da “vakinha”, a questão do transporte a gente tenta correr atrás!
BW: Que mensagem você deixaria para B-Boys, B-Girls ou dançarinos que estão lendo essa entrevista?
Branca: Quero que a minha história seja uma inspiração para todos os B-Boys e B-Girls. Acreditem sempre no potencial de vocês, nunca deixem nada desmotivar. Sempre curtam o momento, dancem mesmo e vivam as coisas mínimas com mais intensidade. Porque não sabemos o dia de amanhã! Um abraço da B-Girl Branca e me sigam nas minhas redes sociais, para motivar e inspirar vocês a cada dia.
“O futuro não existe. Só existe o hoje e o agora. Faço o agora se realizar.” (DJ Heliobranco)
Ele nasceu no Brás, bairro tradicional da cidade de São Paulo, teve uma infância simples, como qualquer criança da periferia, jogando futebol na rua, nos campinhos e também gostava de andar de bicicleta. Se livrou duas vezes da morte, primeiro da meningite e depois da hepatite. Morando na casa da avó, foi por meio de um tio que sempre viajava para os Estados Unidos que, sem perceber, conheceu e teve acesso ao Funk, o Soul e o Jazz, o que daria origem a trilha sonora do Hip-Hop. Mas seu primeiro contato com a faísca que acenderia o fogo para viver essa cultura diretamente foi por meio da música “Rappers Delight” de Sugarhill Gang, no início dos anos 80.
Estamos falando do DJ Heliobranco, ele não tinha ideia que tudo aquilo seria uma cultura e que se tornaria um representante dela. O Portal Breaking World teve o privilégio de bater um longo papo com esse “DJ de Peso”, que não gosta muito de entrevistas, confessa, mas que quebrou o protocolo e teve muita coisa a falar. Então, prepara-se para essa pesada entrevista! Com vocês, DJ Heliobranco no Portal Breaking World:
BW: Hélio, queria que você falasse um pouco da sua infância e da sua juventude. E que lembranças você tem dessa época? Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Heliobranco: Sou natural de São Paulo, nascido no Brás. Minha base até hoje é o bairro do Tremembé, localizado na zona norte da capital. Minha infância foi simples, com muitos amigos e jogos de futebol na rua e campinhos da época. Não fui diferente de muitas crianças da periferia. No início dos anos 70, passei pela epidemia de meningite que assolou São Paulo, que me atingiu e que quase me levou e, dois anos depois, de tanto andar de bicicleta nas enchentes que ocorriam no bairro, fiquei com hepatite infecciosa que novamente quase me levou. Sobrevivi e acho que já paguei contas que tinha de outras encarnações (risos). Ainda criança, vivia na casa de minha vó onde também morava meu tio. Ele estava sempre nos Estados Unidos, tendo morado lá, de onde trazia muitos discos que lá eram sucesso. Foi daí que conheci, mesmo sem ter essa consciência, da fonte que daria origem à trilha sonora do Hip-Hop – o Funk, o Soul e o Jazz. Por meio de meu tio, pude ouvir recém lançados os discos do Mandrill, Average White Band, Barry White Harold Melvin & The Blue Notes, O´Jays, Jacksons 5, Temptations, Tavares, Bob James, Cruzaders e onde tive também o primeiro contato com o som de James Brown com o disco “Hell” e de sua banda incrível, os JB´s, com o discos “Given´ Up Food For Funk”. Por causa das linhas de baixo pesadonas, gostava muito de ouvir estes discos toda vez que meu tio colocava na vitrola. Todos estes discos que ouvi quando tinha meus 8 anos, foi me presenteado por meu tio anos depois e ainda os tenho guardado na coleção até hoje. Mas meu primeiro contato com a faísca que acenderia o fogo para viver a Cultura Hip-Hop diretamente, foi por meio da música “Rappers Delight” de Sugarhill Gang, no início dos anos 80. Não tinha ideia que seria uma cultura naquele momento, para ser bem sincero, e que sequer me tornaria seu agente. Nesta época, pelo pouco acesso ao que seria Hip-Hop, pois só ouvia rádio, o que me atraía era a música e a nova forma de mensagem nela contida, que depois vim saber que era chamado de RAP.
BW: Você começou no Hip-Hop em 1985, correto? Como era ser DJ na década de 80? O que se tocava naquela época?
Heliobranco: Não é que comecei em 1985. Eu me dei conta disso nesta época, pelo envolvimento que tinha com a música. Eu tocava os discos que tinha na época – Afrika Bambaataa, Kurtis Blow, Sugarhill Gang, Grandmaster Flash – em festinhas de aniversário de familiares e amigos. Lógico que olhavam torto, mas como sempre fui “marrento”, para evitar bate boca, acabavam aceitando (risos).
BW: Como a sociedade via os DJ´s? Como era a vibe das festas e dos eventos?
Heliobranco: A cena dos DJ´s na década de 80 era muito seleta e elitista. Os DJ´s eram idolatrados, tanto pela Cultura “Discotheque”, vinda de New York e, também, pelo surgimento de rádios de Hip-Hop nos Estados Unidos, mais especificamente em New York, como a Kiss FM e a WBLS, dos famosos DJs Red Alert e Mr. Magic, respectivamente. DJ´s brasileiros se firmaram lá, como Tuta Aquino e Julinho Mazzei, onde lançaram verdadeiras obras de arte em vinil com sua série “Big Apple”, lançados por seu label “J&T”. Aqui no Brasil, conheci muito da trilha sonora do Hip-Hop pelas mãos dos DJ´s que tocavam na Band FM – 96,1, dentro dos programas diários com convidados, chamado “Mix Disco Ban”. Muitos DJ´s de renome tocaram lá, com destaque para Sylvio Muller e Iraí Campos e DJ´s das equipes de festas como “Furacão 200”, “Sunshine”, “Pop Corn”, “Toco”, entre outras.
BW: Que estrutura você tinha para trabalhar?
Heliobranco: Eu não tinha equipamento nenhum, era tudo tocado no famoso “3 em1” da casa em que eu estava e sem sequer ter ideia do que seria “mixagem” de uma música para outra. Eu colocava o disco pra tocar, esperava acabar a música e aí trocava os discos.
BW: Sua família te apoiava na sua profissão?
Heliobranco: Minha família nunca se envolveu ou deu qualquer pitaco no que eu fazia ou faço até hoje. Eles só observam e, claro, dão seu apoio indiretamente.
Banks, Heliobranco, Thaíde e Mancão no Encontro da São Bentos, em 2017
BW: Você fez algum curso para aprender o ofício de DJ ou foi tudo na cara e na coragem?
Heliobranco: Eu nunca fiz curso para DJ´s, mesmo porquê estes cursos surgiram mais seriamente no início dos anos 90, com a chegada do campeonato de DJ´s chamado DMC e eu já estava na pista antes disso. Em 1987, eu conheci um DJ, que na época tinha acabado de participar da mais respeitada coletânea de Rap brasileiro “Hip-Hop Cultura de Rua” e que nesta época também era famoso, por trabalhar com o famoso DJ Armando Martins da equipe de bailes Circuit Power, tocando na inesquecível rádio Brasil 2000. O nome deste DJ era DJ Ninja. Ele me deu os primeiros toques e direcionamentos sobre noção de compasso e principalmente de batidas por minuto (BPM) que a música possui e que é primordial para que possamos fazer uma boa mixagem sem distorcer a harmonia da música acelerando ou reduzindo muito seu “bpm”. A partir das dicas do DJ Ninja, comecei a me atrever a tocar em festas, fazendo mixagens e fui aprimorando de acordo com o espaço que tinha para tocar. Toquei muito na Baixada Santista, onde o pessoal curte dançar e isso me incentivou a procurar por este perfil de público, pois o público “Rap” não curtia muito dançar. E DJ que toca olhando para uma pista congelada, não tem vibe que segure. Isso fez com que eu aprimorasse também o aspecto “feeling de pista” que eu acredito que todo bom DJ deva ter para manter a pista fervendo e a casa funcionando, coisa que raramente percebo nos dias de hoje.
BW: Como surgiu o convite do MC Jack para participar do Grupo Radicais de Peso? Fale um pouco sobre esse grupo?
Heliobranco: O Radicais do Peso, na realidade, já era formado sem ter este nome pois, tanto eu, como Rooneyoyo, Ninja, Alambeat, GDO e o próprio MC Jack, nos encontrávamos rotineiramente na casa do DJ Ninja para trocar ideia, ouvir música e fazermos a famosa “família” para mixar. Para quem não sabe, “família” é uma espécie de jogo que criamos, que consistia em um de nós começar a tocar um disco, fazer uma mixagem e passar para o outro colocar novo disco e fazer nova mixagem. Se você pegasse o disco que ia tocar, colocasse no toca disco e não conseguisse mixar, já saía de cena. Como a gente tinha uma visão “radical” sobre o cenário político da época, culminando com o Presidente Collor sequestrando todo o dinheiro das poupanças do povo e também porque sempre tocávamos muito “peso” (que era como apelidávamos os discos que traziam as músicas com muito grave) nestes “jogos”, a criação do nome saiu meio quase que automaticamente. O Radicais do Peso foi um dos grupos que gravaram no início das atividades do Atelier Studio, do grande amigo Wander Carneiro, com apoio do DJ Kri e Gibass do Região Abissal. No Atelier gravamos “O Peso”. Gravamos também no estúdio do DJ Cuca, a música “Acerto de Contas”. Em 1991, a gravadora “Rhythym & Blues” abraçou as músicas que tínhamos prontas e lançamos o single “O Peso”, que trazia duas músicas e suas versões – “O Peso” e “Acerto de Contas” (vocal e instrumental).
Lançamento “Ameaça ao Sistema” do Radicais do Peso, em 1992. Heliobranco no toca-discos.
BW: Como era gravar um disco na década de 90?
Heliobranco: No final de 1991, era muito difícil você gravar um disco. Olhando por este aspecto, MC Jack utilizou seu prestígio. Por ser um grande nome ativo do Hip-Hop na época e ter ido muito bem no campeonato de DJ´s do DMC, conseguindo uma reunião, onde apresentou e firmou com a “Kaskatas Records” de Carlinhos K, a produção de um álbum completo para o Radicais do Peso, iniciando-se aí a produção do álbum “Ameaça ao Sistema”. Estávamos com dificuldade de encontrar alguém que ouvisse, respeitasse e seguisse nossas ideias e concepções e foi aí que nos deparamos com um amigo que dava seus primeiros passos como produtor musical e que era também fruto da São Bento e membro do grupo “Código 13”, que participara da coletânea “Hip-Hop Cultura de Rua”. Me refiro à Mad Zoo. Eu, MC Jack & Mad Zoo produzimos o álbum “Ameaça ao Sistema”, em 1991, lá na Vila Zelina, onde depois de prontas as instrumentais, fomos para o estúdio Camerate, localizado em Santo André, para gravarmos as vozes, scratches e fazer a mixagem do disco. Neste disco, temos a participação especial de um dos ícones do rap da baixada santista, o Criminal D.
BW: Quando foi lançado o disco “Ameaça do Sistema”? Ele ganhou uma importante premiação, fale sobre isso?
Heliobranco: Em 1992, o álbum “Ameaça ao Sistema” é lançado, fizemos vários shows de lançamento, culminando com a premiação dada pelo programa “Dr. Rap” do DJ Armando Martins, como disco revelação daquele ano. Ressaltando que neste momento, já tínhamos Racionais MC´s, Thaíde e DJ Hum, Baseado Nas Ruas e muitos outros grupos lendários já em ação. Foi realmente um toque muito especial em nossa carreira como membros ativos da Cultura Hip-Hop.
BW: O nome que usava nessa época era “Mega”. Porque mudou?
Heliobranco: Eu nunca tive apelido e todos me chamavam de “Hélio” e ponto final. Só que nesta época da criação do Radicais do Peso, eu trabalhava em empresa de consultoria empresarial e de alguma forma tinha que me desvencilhar de meu nome, para poder andar livremente no underground. Numa ida à Campinas para assistir ao show de “Kool Rock Jay & DJ Slice” no Bahamas, durante o trajeto, dentro do ônibus da Viação Cometa, o famoso “Dinossauro”, começamos a falar em nomes que cada um poderia assumir dentro do grupo. Como eu gostava de um som mega alto e mega pesado, acabamos por colocar meu pseudônimo de “Mega”, assim como MC Jack teve o seu pseudônimo conhecido por “Dr. Hype Bass”, por ainda ter algum contrato com a gravadora Eldorado, detentora do álbum “Hip-Hop Cultura de Rua”, o que poderia trazer algum inconveniente para a gente. Hoje meu pseudônimo artístico é Heliobranco, sim, escreve-se tudo junto por ser tipo uma marca. Este nome deve-se ao fato de existir realmente um Hélio preto. Este Hélio preto trabalhava na mais famosa loja de discos importados dos anos 80 – a “Trucks Discos”. Sempre que ligavam lá perguntavam: “É o Hélio branco ou o Hélio preto?”. Observação: O Hélio preto era chamado de Babyface também, porque ele era muito parecido com o cantor norte americano. Um camarada muito fino e educado que nunca mais o vi.
Radicais do Peso na Virada Cultural em São Paulo, 2018.
BW: Conte um pouco da sua caminhada como DJ, produtor musical e produtor de eventos. Por onde passou, com quem trabalhou e eventos que produziu em todos esses anos.
Heliobranco: Eu tinha pouco tempo na época para me de dedicar a ser DJ, pelo fato de viajar muito a trabalho. As minhas experiências iniciais foram sendo DJ em festas de pequena e média frequência de público, pois eu encarava apenas como uma válvula de escape para soltar um pouco da pressão que recebia em meu trabalho profissional como consultor. Com o passar do tempo, fui me dando mais atenção em ser DJ, onde pude participar da maioria dos eventos criados pelo Rooneyoyo. Participei das primeiras “B-Boy Battle Party” de 1997 a 1999, que depois se tornou o maior evento de Breaking da América Latina – “Batalha Final”. Em 1999, voltei a viajar e me distanciei dos eventos. Voltei dentro do “Batalha Final” em 2003 e toquei até 2006. Como produtor musical, minha caminhada ficou mais séria do que a de DJ, onde no final de 1999, fui ser DJ de Criminal D em sua turnê de lançamento do álbum “O Conteúdo do Sistema”, lançado pela gravadora Trama. Nesta ocasião, MC Jack entrou para o cast de artistas e o convite para produzir seu disco foi automático. Em 2000, entrei no Atelier Studios e, com a grande ajudar do mestre Wander Carneiro, completava-se um ciclo iniciado com o Radicais do Peso em 1991 e que agora tomava uma forma mais sólida e profissional, uma vez que eu tinha contrato de produção com a Trama. A partir deste momento produzi muitas músicas que nem lembro mais, para uma cena underground de rappers da periferia – que é a minha preferida. Produzi também um single para a atleta da seleção americana de vôlei, Danielle Scott e também um single para o recém campeão mundial de vôlei, Sérgio Escadinha. Como produtor de eventos, eu tenho muito pouco a falar pois sempre trabalhei como DJ convidado. Contudo, em 2007 fui convidado por André Rockmaster para formar com ele a equipe de produção e execução da “Rockmaster Party”, projeto voltado ao resgate da dança nas baladas noturnas, onde fui DJ residente de 2007 até 2012, momento que senti que minha missão neste projeto estava concluída.
BW: Você produziu trilhas para os B-Boys da Tsunami All Stars. Fale desse trabalho e da responsabilidade do DJ na hora de criar algo para profissionais de dança.
Heliobranco: Com a experiência que ganhei dentro da “Rockmaster Party” e também pelo conhecimento musical que já tinha dentro do Hip-Hop, não foi muito difícil alinhar com um time de alto nível, B-Boy Kokada, B-Boy Catatau, B-Boy Pelezinho, B-Boy Neguin, B-Boy Aranha, o formato musical para que pudessem expor toda sua arte. Em 2008, produzi a trilha sonora utilizada pelo super time de B-Boys vencedores do “Battle of The Year”, que os levou à Alemanha. Produzi também a trilha sonora, juntamente com o memorável DJ Primo, para a coreografia de abertura da participação da Tsunami All Stars na Coreia, em 2009, se minha memória não falha.
DJ Heliobranco no Programa Manos e Minas, TV Cultura, 2010.
BW: Você foi o DJ do B-Boying do Brasil. Fale sobre.
Heliobranco: Sim, fui o DJ que juntou forças a outros DJ´s e que fortaleceram o projeto do visionário Rooneyoyo para, aí sim, criar toda uma cena profissional e respeitada do que seria, para nós, o “B-Boying” (e já fui criticado porque eu ainda chamo de breakdance – risos). Eu ainda acho que trabalhamos com muita energia e determinação para isso se fortalecer, mas como no Brasil a cultura da cópia do que é bom nunca é seguida à risca, vi muitos projetos cópia surgirem, brilharem por pequenos períodos e serem sepultados sumariamente.
BW: Como você vê hoje o trabalho de DJ e o que era feito na década de 80? Mudou muita coisa? Para melhor ou para pior?
Heliobranco: O que noto de diferente são duas coisas: 1 – Os equipamentos hoje facilitam demais a apresentação de um DJ, focando na vibração da pista, onde antes a coisa era mais visceral, olho no olho, suor no chão e muita, mas muita pesquisa e repertório para ser o diferente; 2 – Os equipamentos facilitaram tanto a apresentação de um DJ, que eles se tornaram “robots” à mercê de botoeiras infinitas e que, em muitos casos, desprezam a vibração da pista em prol de uma ginástica absurda demonstrada em coreografias ridículas mexendo nessas botoeiras, ao invés de demonstrarem repertório e pesquisa.
BW: O que acha dos DJ´s da nova geração? Quais são os novos desafios?
Heliobranco: Não tenho muito a falar sobre DJ´s da nova geração. Pertenço à uma casta de DJ´s “vibeiros”, que curtem tocar pelo prazer de ver seu público dançando até não aguentar mais. Por este motivo, vejo que o trabalho de um DJ da nova geração tenderá a se tornar pífio e sem importância, pois o DJ hoje se baseia num playlist de provedores de música que apontam o que mais estão ouvindo. Não tem vibe sua apresentação. Não olham e nem sentem a reação do público quando tocam. E o mais fatal de todos eles: os DJs agindo desta forma, favorecerão que qualquer um faça de graça o que ele cobra pra fazer, coisa que já vemos por ai, muito ao contrário do que nós encontramos no início. Mesmo assim, acredito que o DJ da nova geração que sobreviver terá o seguinte desafio: tocar o que as pessoas querem realmente ouvir e que arremate em seus corações e pernas, que poderá não ser o seu playlist de Spotify ou Deezer.
Foto que deu a ideia de montar o “SP Hip-Hop All Stars”.
BW: Fale sobre o “SP Hip-Hop All Stars”, como surgiu a ideia desse trabalho? E como foi reunir num único CD todos esses grandes nomes do Hip-Hop Paulista? Quanto tempo levou para produzir esse trabalho?
Heliobranco: A faísca do projeto “SP Hip-Hop All Stars” surgiu quando muitos dos nomes que hoje compõem o projeto, fizeram seu show na Virada Cultural realizada no Parque Dom Pedro, em 2008. Após tirarmos uma foto com boa parte dos participantes daqueles shows, fiquei pensando sobre como poderia juntar todos ou a maioria, num projeto musical que seria histórico. Deixei isso guardado até em 2010, numa conversa via Messenger junto a MC A, do Doctor MC´s e MC Jack, perguntei sobre o que eles achavam de criar um projeto neste sentido e eles me incentivaram na hora em seguir e fazer as produções, que pelo menos eles dois estariam dentro. Em 2010, passei a entrar em contato e confirmar quem estaria disposto a participar. Naquele momento, consegui o apoio de Sampa Crew, Grandmaster Fish, Big Flea, Região Abissal, Mike (da dupla com Pepeu), $mokey D, M.T. Bronks e também de um ídolo da Old School que havíamos trazido em 2008 para fazer um show no Memorial da América Latina, T La Rock, o primeiro artista a ser lançado pela gravadora Def Jam. Além, é claro, de MC Jack, MC A e até mesmo do próprio Radicais do Peso! Levei 2 anos produzindo o disco, vendi meu carro pra pagar a prensagem e em 2012 o álbum “DJ Heliobranco apresenta SP Hip-Hop All Stars – Beats 80´s” foi lançado, com 18 músicas inspiradas na musicalidade do Rap dos anos 80. Neste ínterim, produzi músicas que foram lançadas em discos na Europa pela gravadora CBR Electro Underground, no álbum “CBR Electro vol 2” em 2012, “CBR Electro vol 4” em 2016 e do álbum “Underground Electro”, em 2018. Em 2014, produzi e lancei junto com DJ Cleston, do single “Serenity – Sacrifice”, que virou hit nas pistas de dança que curtem o gênero “freestyle”. Nos Estados Unidos, pela gravadora Cut It Up Def, em 2013, participei do single “Subway”, em 2015 participei do álbum de “Afrika Bambaataa – What You Want” e também participei do DVD “The Bass That Ate Miami” lançado em 2016, onde também fiz a tradução e narração para a versão em português que está disponível no YouTube. Em 2018, fui contratado junto com o DJ Cleston, pela gravadora Ground Control da Alemanha, para a produção do artista “Kyper”. Voltando ao projeto “SP Hip-Hop All Stars”, em 2015 planejei fazer o volume 2 do álbum, com alguns artistas que fizeram parte do volume 1 e agregando outras lendas do Hip-Hop paulista e com alguns convidados muito especiais. Com uma ideia inicial de fazer pelo menos 18 músicas, como havia feito no primeiro, acabei por fazer 35 músicas, tamanha foi a vontade de grandes nomes em participar, como também, daqueles que estiveram na luta lá atrás. Em 2016, inicio a produção do volume 2, onde levei 2 anos para finalizá-lo, pagando todos os custos de meu bolso, seja por meio de permutas ou de dinheiro vivo. Com isso cheguei a um cast respeitável, composto de Nelson Triunfo, Thaíde, Pump Killa, DJ Erick Jay, Catito, Electric Boogies, Sampa Crew, Doctor MC´s, Mr. Rizada, Sharylaine, DJ Gato Magro, Kuryña G-Funk, Apelidado Xis, DJ Alpiste, Grandmaster Fish, Rappin Hood, MC Eddie, Big Flea, Ellypretoriginal, DJ Dehco, Branco P9, Piveti, Radicais do Peso, Junior D, Paulo Break, Tchello Rock, Falcon, DJ Jamaika, Rivas, James D, DJ Cleston, Slow Dabf, Filosofia de Rua, Mike, Visão Urbana, Pepeu, Frank Bruno (Black Jrs.), Ieda Hills e das pessoas que mais me fizeram ser Hip-Hop em minha vida e que foram convidados especialíssimos: Afrika Bambaataa, T La Rock e T Boyz DL. Em 2018, o álbum duplo foi lançado e consolidava-se assim o projeto em suas propostas de resgate de toda uma geração de pioneiros que desbravaram palcos e espaços que não eram nossos mas que, com seu trabalho e perseverança, implantou toda uma geração na história do Hip-Hop brasileiro. E está aí mais um registro marcado na história!
Tarde de Autógrafos “SP Hip-Hop All Stars”, em 2018.
BW: Em 2019, você foi um dos contemplados com o Prêmio Sabotage, feito pela Câmara Municipal de São Paulo. Como foi receber um Prêmio tão importante na cena? O que sentiu naquele momento?
Heliobranco: Nunca é fácil ser contemplado pelo que você faz no Brasil, ainda mais dentro do Hip-Hop e ainda mais ainda sendo DJ. Conhecia o Sabotage antes mesmo dele gravar seu primeiro disco e lembro bem quando ele já estava sendo reconhecido pelo seu disco recém lançado, onde fomos fazer o lançamento do disco do MC Jack e ele estava lá como convidado. Isso foi em 2001. Lembro dos comentários e dos toques que MC Jack deu à ele e de sua risada acanhada por receber tão sábios conselhos de quem já estava lá. Com isso na cabeça e sabendo da força que Sabotage tem até hoje nas camadas mais sofridas da sociedade e que é onde justamente o Hip-Hop está e sempre precisa estar, receber este prêmio é algo que compartilhei no momento em que recebi com todos os presentes e que até hoje faço questão de compartilhar. Um DJ não toca para si. Ele precisa de audiência. E foi esta audiência que me respondeu positivamente ao me conceder a honra de receber tal premiação. Infelizmente, muita gente de boa expressão não prestigia este prêmio, só porque ele é promovido por um órgão governamental e entregue em suas instalações. Eu sinto que muitos acham que é comédia ser premiado pela prefeitura. Eu não penso assim e acho que quanto mais perto estivermos de órgãos governamentais, quanto mais dentro de suas instalações estivermos e ainda por cima recebendo prêmios, mais relevantes seremos no momento em que pleitearmos algo para a Cultura Hip-Hop. Com o maior respeito eu digo: muito obrigado pelo prêmio! Não é comédia ser premiado como agente ativo do Hip-Hop.
DJ Heliobranco, vencedor do “Prêmio Sabotage 2019 – Categoria DJ”, na Câmara Municipal de São Paulo.
BW: Nesse período de pandemia, o que você tem feito? Tem trabalhado em algo? O que pensa sobre esse momento que estamos vivendo?
Heliobranco: Neste ano de 2020, já tinha planejado fazer um projeto musical dentro do “SP Hip-Hop All Stars, junto com meu brother Ellypretoriginal, fora do espectro que envolve o apelo do projeto, mas sim, explorando outras tendências musicais e o talento do pessoal do projeto. Com isso tudo que estamos passando, tive que segurar e possivelmente no início de 2021 voltaremos com tudo. Ainda neste ano de 2020, provavelmente em outubro, sairá mais um álbum na Europa em que faço parte junto com T La Rock. Fora isso, presto serviços de mixagens e masterização de músicas dentro do universo Hip-Hop. Estamos passando por um momento único de experiência em nossas vidas. Experiências quase que de guerra. Só que não temos inimigos disparando balas contra nós, jogando bombas em nossas casas ou tomando nosso território. Nosso inimigo é altamente perigoso por ser invisível e por ter se tornado matéria de manipulação política. Por isso eu digo: sem vacina, não há distância social, máscara, cumprimento com cotovelo ou o que seja, que vá evitar que qualquer um de nós possa ser contagiado e até mesmo vitimado. Não confie em nada que te disserem até o dia em que você for vacinado. A partir deste momento, começaremos a retomar nossa realidade.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
Heliobranco: Não tenho muitos planos para o futuro. O futuro não existe. Só existe o hoje e o agora. Faço o agora se realizar. Mesmo assim, dentro de minha cabeça penso em lançar o “SP Hip-Hop All Stars volume 3”, com novos convidados que fazem parte da história do Hip-Hop, depois que lançar o projeto intermediário que envolve o pessoal do projeto, que já mencionei acima. É isso aí pessoal. São raras as minhas entrevistas. Não curto muita exposição de minha vida, apesar de saber que crio produtos públicos. É complicado e eu sei… (risos). Fica aqui minha mensagem para vocês que vivem o Hip-Hop 24h por dia: “Quando você estiver triste e passar ou entrar em algum lugar que o faça se sentir feliz, procure saber quem está tocando, certamente será DJ Heliobranco namixxx”.
Fotos: Arquivo Pessoal
Discos Produzidos e Lançados
CBR volume 2, 2012
Subway, 2013
Afrika Bambaataa, 2015
Afrika Bambaataa, 2015, Rótulo
CBR volume 4, 2016
CBR, 2018
Kyper, 2018
Serenity, 2018
Radicais do Peso
Ameaça ao Sistema, 1992
Case-RDP, 1992
DJ Heliobranco no microfone, Virada Cultural, 2008
Lançamento "Ameaça ao Sistema", MC Jack, Rooney e Keliobranco, 1992
RDP, 1992R
Reunião do RDP, 2013
Single "O Peso", 1991
RDP na Virada Cultural, 2008
SP Hip-Hop All Stars
SP Hip-Hop All Stars Volume 1, 2012
Casa do Hip-Hop de Diadema, 2012
Lançamento do SP Hip-Hop All Stars, 2012
Heliobranco e T La Rock, 2012
SP Hip Hop All Stars Volume 2
Hip-Hop All Stars no Teatro Sergio Cardoso, 2017
SP Hip-Hop All Stars, 2019
SP Hip-Hop All Stars, 2019
Tocando Por Aí...
Produzindo o Disco de MC Jack e Show Blen Blen, 2001
Show Criminal D - Blen Blen, 2000
Batalha Final, 2004
Rockmaster Party 2007
Rockmaster Party, 2008
Batalha Final, 2009
Impacto de Estilo, 2016
Virada Cultural, 2017
Festa no Portal do Cambuci, 2018
Festa no Portal do Cambuci, 2018
Projeto Som do Bom, 2018
Encontro da São Bento, 2019
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“Para quem é da velha escola, ter uma jaqueta e um boombox grafitado é como representar as raízes do Hip-Hop em sua essência.” (Fabiano Minu)
Ele nasceu na Vila Maria, bairro da capital de São Paulo. A paixão pela arte do Graffiti e pelas cores em jaquetas aconteceu com a chegada do filme “Beat Street” (A loucura do ritmo), em 1984. Fez parte da 1ª geração de B-Boys de Guarulhos, em 1984 e também da 1ª geração de B-Boys da São Bento, no início de 1985.
Integrante do lendário grupo de B-Boys Fantastic Force (Guarulhos), teve como referências no Graffiti em jaquetas, os grafiteiros Paulo “Robô” e Bad “Break Mania”. Participou da 2ª Amostra Paulista de Graffiti de São Paulo, em 1993, com vários artistas na época, como Os Gêmeos, Speto, Gugu, Vitché, Arhur Lara, entre outros.
Estamos falando de Fabiano Minu e de todo o seu talento, reconhecido dentro da Cultura Hip-Hop. O grafiteiro conversou com o Portal Breaking World e deu importantes dicas para quem pretende aprender mais dessa arte. Leia:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua vida, quando começou sua relação com a Cultura Hip-Hop?
Minu: Bom… eu nasci em São Paulo, no bairro da Vila Maria… porém, cresci e moro até hoje na cidade de Guarulhos, atualmente no bairro do Jardim Bela Vista. Na minha adolescência, curtia muito o Original Funk, tanto na dança, como nas músicas. Aos meus 14 e 15 anos frequentei um salão em Guarulhos, que se chamava “Bancários Disco Clube”, onde predominava esse estilo musical na época, no início dos anos 1980. Meu início no Hip-Hop se deu por conta da chegada do “Break Dance” [nome comercial dado pela imprensa dos anos 80/90 para o elemento Breaking da Cultura Hip-Hop – nota da redação] colocado pela mídia no Brasil por volta de 1983. Mas foi em 1984, com o lançamento do filme “Beat Street” que eu e vários dançarinos de “Break Dance” começamos a entender que não era só uma moda de dança passageira e sim que se tratava de uma cultura de rua, que se chamava Hip-Hop, cultura essa que ao passar dos anos vimos toda a sua importância revolucionária em termos de expressão na arte, dança e música.
Fabiano Minu começou no Breaking e foi um dos pioneiros da São Bento.
BW: Verdade que fez parte da primeira geração de B-Boys de Guarulhos e também da São Bento? Nos conte como era ser B-Boy na década de 80?
Minu: Sim… nesse mesmo ano de 1984 em que lançou o filme “Beat Street” eu participava de um grupo de “Breakers” (na época nem se falava B-Boys) e começamos a frequentar um salão no centro de Guarulhos que se chamava “Sundays Disco Club”. Esse salão de dança lembrava muita a “Roxy” do filme “Beat Street”, tocava muitas músicas apropriadas para esse estilo de dança e isso foi o ingrediente para se tornar um dos principais “points” de Hip-Hop antes do início da São Bento, em1985. Em 1984, naquele salão deu-se início a primeira geração de B-Boys de Guarulhos, pois era ponto de encontro para vários “Rachas de Dança” (na época nem se falava que eram “Batalhas”) com grupos de outras cidades, como São Paulo e cidades do interior. Empolgados e impulsionados pelo filme “Beat Street”, começamos a dançar nas ruas e metrôs na cidade de São Paulo. Ainda no ano de 1984, tinha um grupo de “break” do bairro Parque Novo Mundo (próximo de Guarulhos) que participava de um concurso de dança numa emissora de TV em São Paulo, a TV Record, no programa Barros de Alencar. Esse grupo usava o nome de “Break Dance” (Paulinho, Amauri, Adeildo e Paulo Robô) para participar do concurso e passava pelo Metrô São Bento para praticar um pouco da dança antes de se apresentarem no programa e era um grupo que frequentava a Sundays Disco Club, sendo nosso principal rival nos “rachas de dança”. Com o passar do tempo, acabamos sendo convidados por eles a frequentar o Metrô São Bento, junto com outros B-Boys do Bom Retiro… nascia aí os Encontros de B-Boys na São Bento, em 1985. Com Paulinho, Adeildo, Amauri, Paulo Robô, Tadão, Minu, Zé Neguinho, Falcon, Wilson, Cebolão e mais uns 2 a qual não se lembram os nomes.
BW: Fale da sua crew “Fantastic Force”. Como foi criada, sua importância e as principais crews rivais na dança.
Minu: Com a amizade fortalecida do nosso grupo, junto com os B-Boys do Parque Novo Mundo criamos essa união… Mas somente em 1987 com outros integrantes batizamos o nome de Fantastic Force pelo Tchello Rock …porém dá-se essa identidade “Fantastic Force” no início da São Bento por ser os mesmos B-Boys a qual estiveram no início dos encontros. Toda Crew tem sua importância e soma dentro do hip hop, acredito que a partir que uma pessoa se torna uma referência para outra pessoa… ela passa a ter sua importância. Fantastic Force esteve na mesma caminhada de várias referências da metrô São Bento juntamente com as outras crews, Rappers, DJ’s e Grafiteiros. Criamos nosso grupo de rap, participamos de vários eventos juntos com Rappers consagrados como os Racionais (na época eram os B-Boys), Thaíde e DjHum, Mt Bronks, Jr Blaw, Doctors Mcs entre outros. Não tivemos os mesmos “holofotes” em relação às outras Crews… Acredito porque não tínhamos “contatos” para nos “alavancar em projetos”, por nós termos uma linha diferente nas rimas em relação a outros grupos de Rap, por não termos renovações da nossa própria Crew e por tentar uma caminhada diferente, por não sermos do centro. Não éramos uma Crew de batalhas, embora tenhamos feito algumas… nosso pensamento era tentar algo sólido em apresentações independentes… não conseguimos atingir o sucesso, mas temos a nossa história e importância, tanto que, em 2015, fomos um dos principais responsáveis do retorno da São Bento.
Fabiano Minu faz parte da Fantastic Force Crew, de Guarulhos, na Grande São Paulo.
BW: Quando começou a paixão pelo Graffiti e por fazer essa arte em jaquetas? É verdade que teve influências do filme “Beat Street”? Nos conte isso…
Minu: No início dos anos 80, surgiram muitos clipes musicais com esse tipo de expressão entre os muros e trens… e isso me chamava a atenção… mas quando foi lançado o filme “Beat Street”, em 1984, aqui em Guarulhos tive e certeza de que era isso que eu queria na minha vida, era como me tirar de uma “pequena bolha”, não somente eu, mas toda aquela geração da época que começamos a entender a grandeza do Hip-Hop e a partir desse filme minha vida não foi mais a mesma. Nesse mesmo ano, em 1984, conheci o Paulo Robô na Sundays Disco Club… foi o 1º grafiteiro que conheci, por ver a primeira jaqueta grafitada (antes só tinha visto no filme Beat Street). Anos à frente, conheci outro grafiteiro na São Bento, “Bad Break Mania”, com jaquetas grafitadas sensacionais, essas são minhas duas referências no Graffiti em jaquetas. Depois de eu ter pago para ter a minha primeira roupa (camisa) grafitada e não sair como eu queria (risos), tomei coragem para começar a grafitar em roupas na época.
BW: Durante sua dedicação ao Graffiti houve pessoas que verdadeiramente te inspiraram?
Minu: Era uma época difícil, onde quem aprendia dificilmente ensinava a outras pessoas. Como eu morava em Guarulhos, era mais complicado ainda e eu procurava imagens e arquivos em revistas e jornais (quando conseguia), isso dificultou muito o meu aprendizado, a falta de informação, dinheiro e incentivo foram meus grandes obstáculos. Minhas inspirações vinham de arquivos que eu conseguia e a evolução foi lenta. Teve uma vez que me emprestaram 2 livros que não conseguia encontrar para comprar, os livros são “Subway Art” e “Spray Can Art”, com isso acabei tirando xerox em preto e branco dos dois livros inteiros (risos), não era fácil conseguir algo, porém, eu sempre procurava praticar desenhos, algo que sempre gostei de fazer.
Inspirado por muitos, Fabiano Minu também faz murais e vive o Graffiti diariamente.
BW: Fale sobre seu trabalho nas jaquetas, a finalidade e o que procura passar para as pessoas?
Minu: A finalidade principal é tentar uma fonte de renda por meio da arte, o que é muito difícil, mas existem outras finalidades como: fazer o que eu gosto; aperfeiçoar mais meus trabalhos; explorar novas formas de expor essa arte; manter-se num ciclo de contatos de artistas de forma atuante. Eu procuro passar para as pessoas que isso é arte e que faz parte do Hip-Hop, tendo sua importância desde seu início dentro da cultura.
BW: Não são só jaquetas, mas boomboxes também, correto? Fale sobre isso…
Minu: Os boomboxes também têm a sua importância, pois é o parceiro dos B-Boys para dançarem nas ruas e todos aqueles que curtem um Beat, Funky Groove, Rap, etc. Não é à toa que existem vários colecionadores de boomboxes no intuito de manter essa ligação entre artistas e a música. Para quem é da velha escola, ter uma jaqueta e um boombox grafitado… É como representar as raízes do Hip-Hop em sua essência. Eu tenho um boombox que grafitei recentemente, quem sabe seja o primeiro de muitos que virão.
Jaquetas, murais, boomboxes… Muitas facetas da arte do versátil Minu.
BW: Qual a importância do Graffiti na sua vida?
Minu: Embora eu tenha ficado um bom tempo sem estar praticando de uma forma atuante, foi a arte do Graffiti que me recuperou para a vida. Claro que Deus está em primeiro lugar e acredito que foi Deus que recolocou o Graffiti na minha vida. Alguns anos atrás fiquei desempregado, com depressão e estava sem rumo na vida e foi por meio dessa arte que recuperei a minha autoestima como artista, pai e ser humano. A arte do Graffiti transforma, abre caminhos… Eu nunca poderia imaginar que depois de tanto tempo, décadas, um dia eu pudesse fazer uma exposição de jaquetas grafitadas minhas, ainda mais num lugar importante como no Memorial da América Latina. E é algo que preciso passar para as pessoas, pois a arte transforma vidas. Eu amo o Graffiti.
BW: Você participou da “2ª Amostra Paulista de Graffiti de São Paulo”, em 1993, com vários artistas: Os Gêmeos, Speto, Gugu, Vitché, Arhur Lara, entre outros. Como foi esse momento e como se sentiu?
Minu: Fiquei ansioso e apreensivo, pois se tratava de fazer Graffiti ao lado de referências e amigos. Embora já tivesse feito alguns Graffitis, eu estava ainda adquirindo essa caminhada de fazer em muros e na rua. Naquele dia percebi o quanto era vasto a criatividade de vários artistas em prol da arte de rua. Ali senti a responsabilidade de representar minha cidade e o que passar de mensagem por meio da arte em um local público e movimentado, como a estação de trem. Certamente me serviu como um momento especial na minha vida, que não vou esquecer.
A arte de Minu já pôde ser conferida em várias exposições.
BW: Fabiano, você já participou de inúmeras outras exposições com as jaquetas. Fale das principais em que esteve e sobre a reação do público?
Minu: Certamente as principais foram as exposições realizadas no Memorial da América Latina, não só por ser um lugar amplo para as exposições, mas porque o evento atraía a velha e nova escola num mesmo lugar e contava com presença de personalidades e importantes integrantes da Cultura Hip-Hop de São Paulo. Percebia que muitos adeptos da nova escola nem sabiam desse tipo de arte dentro da Cultura Hip-Hop. Foram várias reações das pessoas, que nunca tinham visto, era uma novidade para muitos. A aceitação foi imediata e positiva com muitos contatos e convites para trabalho. Até mesmo alguns artistas de rua ficaram surpresos com as exposições.
BW: É verdade que muitos brasileiros grafiteiros preferem a gringa ao Brasil, por ter seu trabalho mais valorizado? Já pensou alguma vez em trocar o Brasil por outro país?
Minu: É um assunto polêmico, sem querer generalizar, mas aqui no Brasil infelizmente tem muito disso e não é só na arte, mas também em várias áreas. Temos grafiteiros brasileiros reconhecidos no Brasil, mas só depois de terem reconhecimento fora. A arte de rua do Brasil é muito rica em nível mundial, com seu estilo próprio de se expressar. Artistas como Os Gêmeos, Eduardo Kobra, Binho Ribeiro, Edmundo, entre outros. Particularmente não sou uma pessoa que espera ou cobra por reconhecimento, faço porque gosto muito. Mas eu sinto essa diferença de reconhecimento em minhas redes sociais, em meus posts, os gringos são os que mais se interessam, entre admiradores dessa arte e até algumas personalidades da Cultura Hip-Hop internacional. Já aqui do Brasil, em sua maioria, praticamente são de pessoas que eu conheço ou que já tenho feito alguns trabalhos, mas não me preocupo com isso, procuro “fortalecer quem me fortalece”. Nunca pensei em trocar de país, mesmo porque tenho família e não teria condições atualmente de fazer isso.
“Procuro fortalecer quem me fortalece.” (Fabiano Minu)
BW: Pensando no Graffiti… Diga: qual a sua importância como elemento dentro da Cultura Hip-Hop? Existem muitos grafiteiros no Brasil que trabalham com jaquetas?
Minu: A partir que a pessoa se torna referência para outra pessoa, ela tem a sua importância e na cultura Hip-Hop “todos são importantes”, pois ninguém faz Hip-Hop sozinho. As exposições que eu faço são uma forma de manter as raízes da Cultura Hip-Hop e, de uma certa forma, incentivar as novas gerações para essa prática, não só pelo que ela representa, mas também como uma transformação de criatividade própria e autoestima. Conheço alguns artistas que fazem esse tipo de arte, mas o mais atuante que conheço e aprecio muito a sua arte chama-se Wagner Wags.
BW: O que tem feito nesse momento de pandemia? Tem criado alguma coisa? Já fez alguma jaqueta retratando o momento de pandemia que estamos vivendo?
Minu: Com o isolamento, ficou complicado conseguir jaquetas para grafitar, mas tenho me ocupado praticando novos desenhos, personalizando latas de spray e vinis com Graffiti, na ideia de expor junto com as jaquetas futuramente. Não fiz nenhuma arte relacionada a pandemia. Não que eu esteja ignorando esse momento difícil, mas procuro me expressar em algo que transmita positividade para as pessoas.
Isolado em tempos de pandemia, o artista também tem feito Graffiti em latinhas de spray.
BW: Como você vê a nova geração de grafiteiros que tem surgido? Gosta do trabalho da nova geração?
Minu: Eu vim do Hip-Hop e sei que nem todo grafiteiro ou artista de rua é do Hip Hop. Tem muitos grafiteiros em eventos de Hip-Hop que nem sequer conhece a história do Graffiti no Hip-Hop. Principalmente daqui do Brasil. Às vezes, conhecem histórias dos gringos famosos, mas daqui do Brasil não conhecem nada e muitos nem ligam pra isso… é lógico que não é por isso também que podemos dizer que não façam trabalhos qualificados. Gosto sim do trabalho da nova geração e já vi trabalhos incríveis e sensacionais, porém, eu me amarro em trabalhos que lembram muito a velha escola (risos). É a minha essência naquilo que faço.
BW: As pessoas que tiverem interesse pelo seu trabalho com jaquetas, como podem adquirir uma? Quanto custa em média uma jaqueta assinada por Fabiano Minu?
Minu: No momento, estou fazendo assim: a pessoa entra com a jaqueta e eu com as tintas e mão de obra (não compro jaqueta por pedido, pois pode correr o risco de não servir ou a pessoa não gostar do estilo da jaqueta… daí o tampo ficaria perdido). Valores, em média, no momento é de 250 a 350 reais, dependendo do desenho (lembrando que a pessoa tem que fornecer a jaqueta).Visitem meu site: https://fabianominu.wixsite.com/artenasjaquetas.
Quem quiser conhecer mais ou encomendar uma jaqueta pode acessar o site do artista.
BW: Explique a frase “A arte não reproduz o que vemos… Ela nos faz ver!”
Minu: Essa frase é antiga, de um artista francês Paul Klee e traduz a liberdade que toda pessoa possui de analisar toda e qualquer expressão de arte, sendo assim, a arte não faz reprodução do que vemos, ela nos faz ver além do que é exibido.
BW: Que mensagem deixaria para quem admira o seu trabalho e deseja aprender essa arte?
Minu: Primeiro agradecer às pessoas que admiram o que eu faço, é uma satisfação muito grande e isso só me incentiva cada vez mais a continuar… gratidão! Para quem quer aprender: procure praticar o que você gosta e saiba que nada cai do céu e toda caminhada tem seus obstáculos; praticar a arte em jaquetas requer interesse, dedicação, paciência e conhecimento; ninguém surge do nada, todos têm suas referências e influências; sua marca é seu estilo, seja criativo; se não conseguir viver da arte, viva com ela, pois é uma maneira de elevar a autoestima, nada é mais prazeroso do que fazer o que gosta. Obrigado… grande abraço!
Com a arte nas costas, olhando para o passado com respeito e pensando no futuro, o Hip-Hop continua transformando a vida de Fabiano Minu.
Fotos: Arquivo Pessoal/Cadu Barbosa
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Só quem teve uma lesão sabe o quão difícil é superá-la, eu presenciei de perto a dor que essa situação causa em meu amigo e antigo parceiro de Crew, o B-Boy Thiaguin, que teve uma lesão no joelho, menisco e ligamento cruzado.
No Brasil, para se realizar uma cirurgia, você demora anos na fila e ele esperou 3 anos, depois disso teve o período de recuperação, no total ele teve que esperar 4 anos para curar totalmente sua lesão. É muito tempo de espera, uma lesão pode acabar com a carreira e com a autoestima de alguém.
Por isso que é de extrema importância pesquisas igual essa que fiz, para que outras pessoas não sofram lesões.
As pesquisas são fonte de informação bastante importantes para o conhecimento e desenvolvimento da sociedade. Por meio de algumas perguntas elaboradas com objetivo específico, você pode ter informações-chave como, por exemplo, se a pesquisa é sobre lesão em dançarinos, você pode saber o número de lesões frequentes, tendo essa informação em mãos, se pode desenvolver tratamentos e prevenção neste sentido.
A pesquisa que comecei em 2017 e que continuo até hoje, se trata de diversos pontos. Tempos de treino, dificuldades, acesso, entre outros. Mas aqui neste artigo vamos falar de lesões e os números são de alarmar.
Os índices de lesões em dançarinos de Breaking no Brasil passam de 50%. Dentre as lesões mais frequentes no Brasil estão: Joelho, com 18%; Ombro, 14%; Pulso, 7,2%; Cotovelo, 2,7 %; Pescoço, 2,7%; Pernas, 2,8%; Tornozelos, 0,9%.
Isso significa que mais da metade dos dançarinos ouvidos na pesquisa sofreram lesões, ou seja, o drama que aconteceu com meu amigo, também aconteceu com muitas pessoas em todo o Brasil.
Diante dessa realidade, devemos tomar algumas precauções importantes para não vivenciarmos nenhuma lesão.
Para quem me acompanha no YouTube, sabe que sempre venho falando disso, mas vou deixar aqui alguns aspectos importantes.
Procure aquecer-se antes do treino
Quando você aquece o corpo, sua circulação sanguínea aumenta, levando mais oxigênio para seus músculos, tornando-os mais flexíveis. Uma rotina de 10 minutos de aquecimento é eficiente, se o tempo estiver mais frio deve-se aumentar o período.
Alongue com frequência
Quando eu digo alongar, não estou falando daqueles 5 minutinhos que a maioria faz antes do treino! Para alongar com eficiência você deve estar aquecido, existem aulas especificas de alongamento que duram 30 minutos ou mais, que ajudam a alongar todos os músculos do corpo, programe sessões de alongamento em diferentes períodos do treino.
Alimentação
Após o treino, você tem 30 minutos para repor os nutrientes do seu corpo, se você não se alimentar durante esse período seu organismo começa a tirar nutrientes do seu corpo, músculos e ossos, aumentando o risco de lesões. Este é o momento de formação e manutenção da massa muscular, por isso é importante consumir um alimento rico em proteína.
Repouso
Isso varia de acordo com o treino, se é moderado ou intenso. Se moderado, seu corpo leva 24h para se recuperar, se intenso, cerca de 48h.
Outros pontos também podem ajudar, como ter um acompanhamento de um profissional de Educação Física. No meu caso, eu tenho o acompanhamento do Nagai Duarte, que vem desenvolvendo um trabalho bacana nessa área, cabe ressaltar que prevenção nunca é demais e lesão é coisa séria, devemos prestar atenção nisso para que a história de diversos dançarinos que sofreram com isso não se repita conosco.
Fotos: Reprodução / Gráfico: Redação BW
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O Breaking virando modalidade Olímpica irá proporcionar boas oportunidades para a cena, que sempre foi vista como marginalizada no Brasil. Se não for trabalhado seriamente e por pessoas competentes, nada vai mudar e a tendência é se tornar como muitas modalidades olímpicas, na qual os atletas passam por muitas necessidades financeiras e acabam abandonando a carreira profissional. Ter uma equipe unida, experiente, igualdade de recursos para todas regiões, implantar um projeto de disseminação para todo o país nas periferias ou em escolas públicas, que se encontram grandes talentos e criar um centro de treinamento com profissionais capacitados: o Brasil poderá se tornar referência nessa modalidade.
Os organizadores do “Paris 2024” disseram que seu objetivo era incluir “modalidades que podem ser compartilhadas nas mídias sociais, que são um meio de se locomover, formas de expressão, estilos de vida por direito próprio, praticadas todos os dias, nas ruas e em outros lugares”.
Por que vai se tornar um esporte olímpico?
Breaking é uma arte e nunca vai deixar de ser, mas também não podemos negar que seus adeptos têm característica atlética, o desempenho físico é fundamental para se tornar uma B-Girl/B-Boy de alto nível, além das competições serem muito semelhantes com campeonatos esportivos oficiais. Sua dimensão criativa e artística torna essa dança alegre, original e atrativa para o público de todas as faixas etárias.
“Breaking nos Jogos Olímpicos” chegaria a mais pessoas, as crianças e jovens estariam mais interessados nos eventos a nível cultural e esportivo, consequentemente o apoio da família. Assim, o Breaking trará um impacto positivo cultural e esportivo, o que promoverá seu desenvolvimento e disseminação a nível global.
O Breaking tem seus valores que levaram a uma modalidade “sustentável e socialmente responsável”, que não exigem instalações permanentes; é culturalmente relevante para a França, que consta mais de 1 milhão de dançarinos, segundo os organizadores de Paris 2024.
É tradição. A cada edição dos Jogos Olímpicos, o país anfitrião incorpora novas modalidades ao Jogos. Paris 2024 incluíram Surfe, Escalada Esportiva, Skate e o Breaking. Essas modalidades foram uma grande estratégia do Comitê Organizador, em prol de rejuvenescer seu público e conectar-se com os esportes de sucesso em todo o mundo para trazer para os Jogos uma dimensão mais urbana, esporte natural, mais artística. O “OCOG” fez sua escolha entre uma lista de 37 esportes reconhecidos pelo COI, com a restrição de não exceder 10.500 atletas, o que limitaria as chances de esportes coletivos e não envolveria novas construções de equipamentos de longa duração, enquanto atrai as gerações mais jovens e contribuía com o meio ambiente.
O programa olímpico já está saturado de esportes inconvenientes, que não são massificados, que não vendem ingressos, que não têm uma legião de fãs. Mas que continuam lá por tradição. Vide Pentatlo Moderno, Nado Sincronizado e tantos outros. Só as modalidades “fixas” usam mais de 10 mil das 10.500 credenciais de atletas, teto por edição. Sobram 500 vagas, que o COI e os organizadores de Paris-2024 tentam otimizar. O Breaking terá 16 competidoras B-Girls e 16 competidores B-Boys a partir dos 16 anos de idade, não tendo idade máxima, porém todos os competidores precisarão estar federados e ranqueados, no total, 32 atletas, que é pouco mais que o tamanho de um único time de beisebol, formado por 24 atletas. A modalidade Breaking representa um investimento menor em comparação com outras modalidades.
Uma das obsessões das cidades que sediam os Jogos Olímpicos é a infraestrutura: muitas instalações e ginásios sendo abandonados depois dos jogos e as novas modalidades inclusas não terão esse imenso prejuízo para o cofre público e também irão chamar a atenção da mídia mundial, atraindo uma legião de fãs, seja com a venda de ingressos, seja pela televisão ou pelas redes sociais.
Por mais artístico e espetacular que seja, o Breaking atende a todos os critérios impostos pelo COI, cerca de quarenta. Para integrar a lista de esportes reconhecidos, precisa de regras bem explicadas, de uma federação presente em pelo menos quatro continentes.
Um teste já foi feito, muitíssimo bem sucedido. O Breaking foi disputado nas Olimpíadas da Juventude de Buenos Aires, no ano de 2018. A competição aconteceu em uma estrutura montada no Parque Madejos, um dos locais mais movimentados e de atmosfera jovem da capital Argentina. Lá foram disputadas também as modalidades de Escalada, Basquete 3×3 e BMX Freestyle: essas duas disciplinas vão estrear em Tóquio-2020/21. Paris, referência mundial em turismo, sabe cuidar do visitante como ninguém. A candidatura já foi desenhada para que as competições ocorram em locais já de intenso fluxo de pessoas, integrando as competições com a cidade e seu entorno. A Olimpíada de Paris tem tudo pra ser a mais legal da história dos jogos.
A competição de Breaking em Paris será organizada pela World Dance Sport Federation (WDSF), que é reconhecida pelo COI há mais de 20 anos como a entidade responsável pela dança esportiva mundial. Especialista principalmente na dança de salão, seja clássica ou em ritmos latinos, ela agora terá que se renovar para abraçar melhor o Breaking e não fazer mudanças bruscas, para não descaracterizar a dança e sua essência, acredito que não vai se descaracterizar e sim acrescentar novos formatos de competição, com boas estruturas e um olhar a mais para as B-Girls e B-Boys.
Esse é o desafio dos próximos quatros anos, dar um caráter esportivo, organizado, para o que historicamente é arte, é cultura. Da mesma forma, os atletas que quiserem competir em Paris, terão que se federarem. É um processo longo, no qual ambos ganham. Ganha o movimento olímpico, cada vez menos careta. Ganha o Breaking, com visibilidade e reconhecimento.
Há um único motivo para que o COI não avance com o Breaking para Paris2024. É a não organização de competições oficiais, não é à toa que a WDSF teve que organizar às pressas o primeiro mundial “oficial” no ano de 2019, contudo se a WDSF não se unir e apoiar os eventos já existentes, mostrará que a modalidade não estará preparada para se migrar aos Jogos Olímpicos. É preciso existir uma base sustentável. Eles esperam criar uma base que torne essa modalidade bem-sucedida a longo prazo.
O formato de “batalhas”, no qual os participantes eliminam seus oponentes para avançar a fase seguinte em uma competição, bem como a atmosfera festiva, vibe nas cyphers e durante as batalhas, contribui para a popularidade dos eventos de Breaking no cenário internacional e essas características são importantes para o COI
Critérios de julgamento
Baseado nos Jogos da Juventude (Buenos Aires 2018). Como foi um evento teste e bem sucedido, toda a competição foi um laboratório para que a entidade responsável, WDSF, pudesse apresentar o projeto para que o Comitê Organizador de Paris2024 aprovasse o Breaking como modalidade Olímpica, desde piso, formato das batalhas, quantidade de competidores (as), arbitragem (jurados) e o sistema de arbitragem foram à teste. A WDSF lançou seu manual de regras e regulamentos oficiais para os Jogos Olímpicos da Juventude de 2018, em Buenos Aires. Este manual inclui o sistema de julgamento que poderá ser usado em Paris 2024, é claro com reajustes.
Irei apresentar o formato que foi utilizado nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2018.
Niels “Storm” Robitzky e Kevin “Renegade” Gopie, duas figuras respeitadas na cena, no manual informa que eles foram os mentores na criação do sistema de julgamento. Ao ver imagens do sistema, ele ainda possui “falhas” perceptíveis que o tornam mais um trabalho em andamento do que um produto final, contudo ao passar do tempo será bem mais fácil de trabalhar com esse sistema.
Eles o chamam de “Trivium Value System”, um nome que sugere os três principais critérios do sistema: Corpo, Alma e Mente. Seguindo os critérios atuais, serão compostos da seguinte forma:
Corpo, Qualidade Física: composto por Técnica (20%), Variedade (13,33%);
Alma, Qualidade Interpretativa: composta por Performance (20%), Musicalidade (13,33%);
Mente, Qualidade Artística: composta por Criatividade (20%), Personalidade (13,33%).
Cada juiz move seis controles deslizantes em um tablet portátil para classificar os atletas (B-Girl/B-Boy) em cada um desses critérios. Também existem outros fatores, como escorregões ou falhas, que podem afetar as pontuações.
B-Girls/B-Boys são avaliados por entradas, sendo duas entradas mais um intervalo de 1min30seg e mais duas entradas. As pontuações são calculadas e exibidas por meio de um sistema digital desenvolvido por “and8”: vence uma batalha quem marcar mais pontos somadas as 4 entradas, veja a imagem abaixo da tela do dispositivo portátil de um juiz (jurado):
O que será avaliado: técnica, variedade de movimentos e ou passos, musicalidade, criatividade, execução, personalidade entre outros. Algumas faltas que poderão tirar pontos ou até mesmo eliminar da competição: “Bite” (risos), erros, contato intencional e desrespeitar ao oponente, nesses dois últimos terão 3 advertências para assim ser decretada a eliminação da competição.
Não existe um código preciso para os movimentos que o dançarino fará: ele é completamente livre. O Breaking tem uma grande parte artística, que é obviamente levada em consideração pelos jurados em cada um dos critérios avaliados mencionados acima.
A WDSF irá lançar um curso de arbitragem até final do ano de 2021, um grande avanço para o Breaking e assim acabar com a famosa “panela” que existe, seguindo o sistema das outras modalidades esportivas, os árbitros também poderão ser ranqueados.
Para conquistar uma vaga nos Jogos Olímpicos 2024
O Comitê Olímpico Internacional (COI) fornecerá à WDSF as diretrizes do sistema de qualificação em 2022 (as diretrizes são as mesmas para todos os esportes nas Olimpíadas e cada Federação internacional deve adaptar o sistema de qualificação de acordo com a especificidade de seu esporte), então, caberá ao WDSF propor o formato de qualificação para o Paris 2024, que deverá ser aprovado pelo COI antes de ser oficialmente publicado. Provavelmente haverá entre 4 a 6 eventos de Breaking renomados que serão parceiros para as qualificações, parecido como foi a qualificação para os Jogos Olímpicos da Juventude 2018. Então só teremos 100% de certeza de como e quais eventos irão dar vaga para o tão sonhado ouro olímpico após a divulgação oficial do COI que está prevista pós os jogos de Tóquio. Outro ponto que a WDSF irá fazer é um sistema de ranking, tendo como exemplo outras modalidades esportivas, as B-Girls/B-Boys não necessariamente precisarão ser campeões desses campeonatos, o importante é estar ranqueado entre os 16 “melhores” do mundo, conquistando pontos nos campeonatos, pegando colocações como primeiro, segundo, terceiro e quarto…
O Breaking brasileiro tem nível elevado, que são capazes de conquistarem as medalhas, o nosso principal obstáculo é a falta de estrutura, planejamento e financeiro. Muitos desses dançarinos(as) (atletas) têm outros trabalhos para se manterem, diferente de outros países como EUA, Rússia, Japão, Coréia e muitos países europeus, na qual os dançarinos (as) vivem do Breaking, têm boas estruturas, treinadores e patrocínios. Para concluir, gostaria de entrar em um assunto: muitos estão falando que ginastas iam se migrar para o Breaking… eles até podem, mas pouco provável que irão conseguir uma vaga olímpica, pois os ginastas treinam sistematicamente desde crianças e o Breaking é totalmente oposto, o Breaking em primeiro lugar é uma arte, é livre, cada dançarino (a) tem seu estilo, carisma, criatividade, flavor, com a vibe do público, interpretar seu sentimento conectado com as músicas e com o DJ, um ginasta não tem essas características, que são fundamentais para a formação de uma B-Girl/B-Boy, pois isso acaba sendo natural para quem é da cena, e serão avaliados por B-Boys e B-Girls experientes que conhecem a nossa dança como ninguém, então, não se preocupem com isso e trabalhem para que o Breaking do Brasil seja bem representado.
Durante um evento, uma voz feminina se faz ouvir… “Não precisa nos incluir, a gente sempre esteve aqui. Pois na verdade sempre estivemos na cena, às vezes não muito respeitadas, às vezes sem espaço, sem voz. Mas sempre estivemos presentes. Nos fortalecemos entre nós e onde pisa uma mulher, pisam várias outras juntas, os degraus mudaram e nós aprendemos a subir e a levar muitas com a gente. Acredito que quando pararmos de entender o Breaking como algo masculino, teremos uma evolução!”, essa declaração saiu da incrível fotógrafa Bruna Ferreira que é o rosto, o corpo e o coração do “Coolture Trip”. Sua fotografia inspira, emociona e apresenta a Cultura Hip-Hop de uma forma singular. Da máquina fotográfica, Bruna fez suas asas e voou bem longe… Confira a entrevista:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua história, onde nasceu, como foi sua infância e quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Bruna: Bem, eu sou do interior do Rio Grande do Sul, da cidade de São Borja, fronteira com a Argentina e com 11 anos vim morar em Bento Gonçalves, a 100 quilômetros da capital, Porto Alegre. Minha infância foi muito boa, graças a Deus e ao empenho dos meus pais nunca nos faltou nada, família sempre unida, valores, respeito e educação estiveram sempre presentes na nossa casa. Na fronteira as oportunidades, principalmente de trabalho, para os meus pais ficaram escassas e Bento sempre teve muito trabalho devido as indústrias instaladas aqui. Minha madrinha já morava na cidade e nos abriu as portas para essa nova vida, buscando uma melhor qualidade de vida, estudos e oportunidades para a família viemos então eu, meus pais e minha irmã no ano de 2009.
Na história da Bruna: o Breaking, Graffiti e a paixão pela fotografia.
BW: Que elementos da cultura no início te chamaram mais atenção
Bruna: Conhecer e me envolver em arte e cultura não era algo que eu almejava quando criança, não tinha referências na família e quando via algo “artístico” na TV, era legal mas algo que pra mim não era alcançável, ou pelo menos não tinha essa visão de querer/poder ser “artista”. E quando me mudei, logo que entrei na escola fiz parte de projetos sociais no contra turno escolar, o que me possibilitou ter acesso a música, dança, teatro… Na escola de ensino fundamental que eu frequentava, a arte era muito incentivada, principalmente a dança e todos os anos o grupo de Breaking “Elemente B Crew”, muito significativo na história do Breaking da cidade, fazia apresentações e trazia pessoas de fora pra dançar para o pessoal que assistia um espetáculo de dança feito pelos alunos, por causa desse espetáculo aonde as turmas tinham que montar coreografias e etc., a gente consumia dança o ano inteiro, isso nos incentivava a pesquisar e assistir vídeos, estudar, etc. E por meio dessas artes conheci o Hip-Hop, uma amiga frequentava um estúdio de dança da cidade onde estava instalada a Nest Panos e a maioria dos B-Boys da cidade treinava e se reunia, esses mesmos que se apresentavam na escola e frequentando o estúdio pude ver a estética do Graffiti, saber que dentro do Hip-Hop se subdividiam outras danças e outras formas de expressão que não só a dança.
BW: Pessoas te influenciaram a se envolver com a cena?
Bruna: Logo que eu conheci o Hip-Hop entrei pra um estúdio de dança, depois desenvolvi mais o Breaking, inclusive fazia aulas com o Pedrinho, também fazia Graffiti, mas depois que decidi ficar na fotografia abandonei os outros elementos (risos). Desde o início eu tive muita influência, da escola do ensino fundamental, das pessoas que eu conheci que tinham o gosto pela dança em comum, comecei a fazer aula e as amizades aumentaram. Então, no meio que eu estava, meus amigos todos tinham envolvimento com o estúdio, com a dança, com “função e furdunço” (risos) então, meio que era inevitável seguir esse caminho.
BW: Como sua família via o seu contato com a Cultura Hip-Hop? Eles apoiavam?
Bruna: Logo depois que saí do projeto social comecei a trabalhar com teatro, com 14 anos. Então meus pais viam a arte com outros olhos, eu apresentava espetáculos em grandes feiras, participei de festivais de teatro, escolas e trabalhei 4 anos como atriz profissional no passeio turístico bem conhecido aqui de Bento, que é a “Maria Fumaça”, um trem a vapor que oferece um passeio turístico apresentando em pequenos espetáculos de arte a história da região dentro dos vagões. Comecei no Hip-Hop na verdade dançando, dancei em companhias e depois fui para o Breaking em um curto período, fiz Graffiti, até me encontrar na fotografia. Eu comecei a trabalhar com 12 anos e nunca precisei ajudar meus pais financeiramente, além de admirarem o que eu fazia, esse foi também um suporte, muitas vezes eu tinha despesas com as viagens, figurinos etc. e conseguia pagar com meu dinheiro e sempre fui muito responsável, então, eles sempre permitiam minha participação em viagens e qualquer ação que envolvesse arte. Por ser menina, sempre há um maior cuidado, mas eles confiaram em mim e sabiam que eu confiaria neles para me auxiliar em qualquer problema, acho que esse foi o maior suporte deles que eu tive.
“O William me presenteou com a primeira câmera e chorei muito…”
BW: Quando surgiu o interesse e o amor pela fotografia?
Bruna: Na verdade, o interesse por fotografia veio porque um amigo meu, o Igui, que também frequentava a Vico (na época eu treinava na Vico também) comprou uma câmera, e às vezes levava pra cypher. Pra matar treino eu pedia emprestada (risos) e ficava tirando foto ao invés de treinar (mais risos). Olhava uns vídeos no YouTube de fotografia, mas por não ter referências de fotógrafos, eu não conhecia nenhum, achava tudo muito inacessível, equipamentos muito caros e só não levava adiante a ideia de seguir. Na época eu já me envolvia com a Nest e despertou o interesse de usar a fotografia, não só pra fazer fotos dos momentos de descontração, mas também pra loja, para colocar na internet a foto dos produtos e eu usava uma digital da minha mãe, aquelas tipo TekPix (risos), daí levava pra loja, acabava fazendo algumas fotos dos treinos e assim, em 2015, o William me presenteou com a primeira câmera, chorei muito por dois motivos: porque eu sempre choro e também porque não esperava mesmo, fiquei muito feliz. A maior surpresa foi que eu não sabia nem ligar a tal câmera (risos) porque era de uma marca diferente da do Igui e então no outro dia comecei a estudar e pensei: agora que eu tenho as ferramentas preciso aprender esse negócio.
BW: Onde e com quem aprendeu a fotografar?
Bruna: Fiz muitos workshops, aqui na minha região tem fotógrafos muito bons e bem famosos na verdade, que sempre abriam turmas para aulas e eu sempre que podia estava. Fazia cursos sobre fotografia de casamento e aplicava tudo em Breaking.
BW: Fotografar B-Boys e B-Girls, fazer fotografia urbana é diferente de fotografar outras coisas? Exige um conhecimento diferenciado para fotografar dançarinos?
Bruna: Os workshops que eu fiz, nenhum falava sobre dança nem nada parecido com a estética que temos no Hip-Hop, mas me ajudou muito em questão técnica, de edição das imagens, então, na minha cabeça eu aprendia tudo e convertia pra minha vivência. Com certeza é muito diferente e nosso meio carece de pessoas com competência aliada à vivência da parada, que ensine fotografia com técnica e com direção, com objetivo em Breaking, em Graffiti, em Hip-Hop. Pra não ter hoje que percorrer todo caminho que eu percorri. Sempre que possível a gente faz workshops aqui pra molecada e inclusive a Ramoni está dando uns passinhos agora na fotografia e tal, por causa dessas oportunidades. Workshop de fotografia não é barato e se a gente puder se fortalecer pra somar, melhor ainda.
Muitos foram os desafios e conquistas de Bruna no coletivo
BW: Me fale um pouco do seu trabalho junto ao Coletivo Nest Panos. Desde quando você caminha junto e o que faz dentro do coletivo?
Bruna: Eu entrei pra Nest ali por 2012 eu acho, sou péssima com datas, o cara que sabe todas as datas na Nest é o Pedrinho (risos). Eu comecei na loja, gravando DVD de evento tipo BOTY, vídeo aula do Focus, documentários tipo “The Freshest Kids”, que a Nest distribuía para a gurizada nos eventos e vendia a R$5,00 pra geral. Depois, fui evoluindo (risos), cuidava do stand nos eventos, fazia umas fotos dos produtos com a câmera digital da minha mãe mesmo, fui estudando, comecei a fazer fotos mais legais, então montamos o e-commerce no site, fazia as matérias, comecei a fazer parte da organização dos eventos e no mais aonde eu podia ajudar, eu estava envolvida. Hoje faço parte da manutenção do site, gerencio o sistema da loja, produzo todo o material de fotografia da marca, faço parte da produção dos eventos e dobro roupas muito bem. O meu cargo oficial é fazer o que precisa ser feito (risos).
BW: No seu perfil do Facebook está escrito “Projeto de Vida – Coolture Trip”. Fale sobre esse projeto.
Bruna: Coolture Trip é meu projeto de vida pois foi o que eu escolhi pra dar sentido a ela. Não está à venda, se eu tiver grana ou não, ele vai existir igual, é algo que eu faço do fundo do coração por uma cena que eu amo, que eu acredito e que por meio do projeto eu sinto que posso contribuir para que ela seja melhor e maior.
O destaque num meio predominantemente masculino foi conquistado com muita garra e determinação
BW: A Cultura Hip-Hop é dominada pelo sexo masculino, alguma vez se sentiu discriminada dentro da cena pelo fato de ser mulher?
Bruna: Sempre que debatemos sobre a mulher no Hip-Hop eu lembro de agradecer, pois fui acolhida num ambiente que jamais fui desrespeitada. Óbvio que meu espaço foi conquistado, nem sempre eu tinha voz, mas quando eu afirmo que tive sorte no coletivo, foi que tivemos conversas sobre o assunto e foi possível pouco a pouco muitas mudanças por meio de debates feministas, de questões muito importantes a serem levantadas e ouvidas. Acho que o principal pra mim foi ter representações femininas na cena, pois os homens ao meu redor me tratavam de igual pra igual, mas ainda eram vários homens, eu precisava de espelho, de ver outras minas pra poder me sentir parte, pra sentir que eu “poderia” ser parte e que qualquer outra mina também. Com a Coolture Trip, pelo fato do nome nem o logo ser o que a sociedade associa como “feminino”, todos os elogios são direcionados a um mano, já teve casos aonde pessoas vinham elogiar o trampo, fazer perguntas sobre ele e quando eu me apresentava Bruna, as pessoas não respondiam mais (risos). Nunca dei muita atenção a isso, me importo com o trampo tocar as pessoas e ser bom, mas com o tempo percebi que o fato das pessoas associarem o trampo automaticamente a um homem não era tão legal, eles precisavam saber que o trampo bom era de uma mulher e comecei a mostrar mais meu rosto.
BW: Vocês fizeram uma exposição no Sesc de Bento Gonçalves chamada “Rolê Coolture Trip” que não mostra apenas dança, mas toda a movimentação, todo o rolê que acontecia no meio de uma praça. Nos conte como foi a preparação do material dessa exposição até ela acontecer de fato. Nos conte essa experiência?
Bruna: O Rolê Coolture Trip foi uma das ações mais da hora que fizemos. O Pedrinho escreveu um projeto onde nos possibilitou um apoio em várias viagens, as telas foram feitas justamente pensando no transporte e durabilidade, inclusive na exposição de Esteio dois quadros ficaram expostos na área externa, como foram feitos de PVC, podem pegar chuva e sol e foi um diferencial bacana dessa expo. As fotos que compõem a expo foram as que mais tinham a ver com a ideia do rolê que é a cypher, pois quando a galera se reúne para dançar na Vico, não é só isso que acontece, a praça tem pessoas, têm crianças que geralmente interagem com a música, com a galera conversando e trocando ideia, que pega um adesivo pra levar pra casa ou que só fica olhando mesmo. São 10 obras de 1 metro quadrado mais ou menos, com a ambientação de folhas, plantas, para que trouxesse um pouco da praça para galeria. Fizemos horas e horas de viagem pra todas elas, pra São José do Rio Preto mais de 30h de carro, pro Uruguai são 12h, então rodamos alguns quilômetros para fazer a função (risos).
No Brasil ou no Uruguai, Bruna sempre leva na bagagem sua arte e seu olhar diferenciado
BW: Fale sobre o livro “Nossa Casa: Cypher Vico” lançado em 2018. O porquê desse nome e fale com detalhe dessa Cypher.
Bruna: O livro foi nossa maior realização. Depois que me interessei por fotografia, vi que fotografia e Hip-Hop não andavam tão separados assim e que inclusive tinham ótimas referências de fotógrafos e fotógrafas que foram da cena, na década de 70/80, com histórias ligadas diretamente ao Hip-Hop. Martha Cooper e Henry Chalfant com Subway Art, depois Hip-Hop Files, ajudaram a propagar o Hip-Hop para o mundo e também entender o que ele era na década de 70, logo na sequência veio Sue Kwon, Ricky Powell que faziam fotos das capas dos discos de grupos de Rap e que também foram responsáveis por nos dar dados e informações históricas quanto a vivência Hip-Hop desses ícones e enfim, a lista é grande e eu queria fazer parte dessa lista com a minha fotografia nos dias de hoje. A gente falava meio que brincando “Bah! Já pensou um livro!”, mas assim como ser fotógrafa para mim não era algo acessível, talvez eu não acreditasse muito na minha capacidade… E aí a galera do coletivo incentivou, me auxiliaram a montar um projeto e da primeira vez que enviamos ele não passou, 2017 reformulamos o projeto, a ideia amadureceu, deu tudo certo, por meio do Fundo de Cultura da minha cidade consegui a verba para a impressão do livro. 2018 executei ele entre captação e impressão no mesmo ano, e foi loucura. Eu fiz desde os textos até os vídeos (ele tem QR Codes espalhados aonde quando você escaneia com o celular tem acesso a vídeos exclusivos de quem tem o livro), a diagramação (inclusive eu aprendi a diagramar o livro 4 dias antes do prazo pra enviar ele pra editora, eu mal tomava banho, só fazia as coisas do livro), as entrevistas, as fotos… A capa e a arte do lançamento ficou por conta do Oneroc, tenho muito orgulho de quase tudo ter sido feito por mim, mas não vou repetir essa façanha (risos) foi insano o processo todo dentro de um prazo muito pequeno.
BW: Como foram as exposições? Como foi apresentar a cultura a pessoas que não conheciam a cena? De que forma foi feito isso?
Bruna: No Rolê Coolture Trip a gente passou não só por lugares familiares como a Casa do Hip-Hop de Esteio, como também pelo SESC, Dom Quixote Livraria e Casa de Criar, que são lugares que recebem artistas de diversas áreas, portanto têm um público diverso, nem sempre simpatizante de Hip-Hop. Então, a experiência mais da hora que tivemos foi apresentar cultura urbana pra pessoas que não faziam ideia de como ela é expressiva e nem de que estaríamos ocupando galerias de arte. Foi uma honra ser recebida nos lugares com carinho, apresentando a minha vida, a nossa vida. Senhorinhas compraram o livro, elogiaram muito o trabalho, assim como na Casa de Criar tivemos alunos de faculdade fazendo perguntas sobre o material das obras, também sobre técnicas de fotografia. Então foram experiências bem diversas mas ao mesmo tempo complementares: falávamos sobre o mesmo assunto sempre, mas em cada lugar ele era recebido e abordado de formas diferentes.
BW: Fale sobre o seu sentimento de levar o seu trabalho para outros estados como São Paulo e até outros países?
Bruna: Mostrar as fotografias da Vico, de Breaking para cada vez mais pessoas e cada vez mais longe é algo que me deixa realizada. Com a Nest já tive a oportunidade de rodar muitos lugares do Brasil, mas ir com a exposição da Coolture Trip é diferente, como se fosse a minha contribuição pessoal para a cena. Em outra oportunidade, já tínhamos feito dentro de um Battle in the Cypher o lançamento do livro, na Casa do Hip-Hop de Diadema, aonde eu com meus 22 anos apresentei o livro para inspirações como Rooney, o Jaspion, o Casper, em Minas Gerais tive a honra de conhecer e falar do livro pro P.MC e foi a maior responsa, nunca vou esquecer esses momentos, aonde eu com tão pouco tempo na cena pude realizar coisas significativas e apresentá-las para pessoas que eu conhecia só pelo YouTube, por documentários, tão importantes pra cena do Brasil.
Em meio a pandemia, adaptação e novos rumos para o futuro
BW: Vocês saíram do Brasil e foram para o Uruguai. Uau!!! Como foi levar essa exposição para outro país? Você e a B-Girl Ramoni, duas mulheres, uma ministrando workshop e outra à frente de todas as coisas. Como foi essa troca de mulheres brasileiras com mulheres uruguaias
Bruna: Meu primeiro contato com o Hip-Hop do Uruguai foi por meio da Viky, B-Girl, MC e escritora de Graffiti lá de Montevideo, que desde 2012 não falha um Battle in the Cypher aqui em Bento (risos), foi por meio dela que eu senti (e sinto até hoje) aquele orgulho de ser quem eu sou, aquela sensação de que: “eu sou porque nós somos”. Conhecer a Viky aqui, ver tudo que ela é e representa e depois ter a oportunidade de conhecer Montevideo e tantas mulheres “fodas” que tem lá, me fez ter uma ligação muito forte com a representatividade feminina na cena e fazer a exposição lá foi só uma consequência dessa ligação. As mulheres do Hip-Hop no Uruguai sempre me inspiraram desde que as conheci, e ir pra lá ou recebê-las aqui é sempre especial.
BW: Como você vê a presença das mulheres hoje dentro da Cultura Hip-Hop? O que é necessário alcançar? São vistas e respeitadas?
Bruna: Falei em uma oportunidade algo do tipo: não precisa nos incluir, a gente sempre esteve aqui. Pois na verdade sempre estivemos na cena, às vezes não muito respeitadas, às vezes sem espaço, sem voz. Mas essa ascensão feminina não é de hoje, aonde víamos uma mulher pode ter certeza que tinham várias, nem sempre com a mesma visibilidade, essa visibilidade aumentou porque nos fortalecemos, acho que como Hip-Hop aprendemos e seguimos aprendendo a olhar mais para as mulheres e por isso vemos mais. Nos fortalecemos entre nós, o que faz com que aonde uma mulher pisa, leva várias junto, os degraus mudaram e a gente aprendeu a subir e a levar outras com a gente. Acredito que quando pararmos de entender o Breaking como algo masculino, teremos uma evolução significativa na visão perante as mulheres e isso é mais difícil do que aceitá-las (risos), mas eu acredito nessa desconstrução e farei o que estiver ao meu alcance pra mudar essa percepção. Seja por meio da fotografia ou nesses lugares de fala.
BW: Quais são os planos para o futuro?
Bruna: O plano já traçado é o segundo livro (risos), nesse momento estamos montando um mini documentário que é uma releitura do Faces da Cypher de 2018 do livro, só que com todo esse “novo mundo” que a pandemia nos mostrou. Tínhamos viagens e o início das captações do segundo livro já programadas, o livro será sobre cypher também mas em escala nacional, fotografando essas cyphers independentes pelo Brasil. Mas tivemos que adiar por motivos óbvios. Já temos o primeiro roteiro programado e assim que for possível, começarão as captações, primeiro no Sul (Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina). Esse imagino ser possível com 5 anos de trabalho. Quero aproveitar bastante o processo e o tempo deverá ser estendido porque precisamos sempre captar recursos e fazer os corres de grana pra poder pagar as viagens, que deverão ser feitas para o projeto acontecer.
Fotos: Arquivo Pessoal
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Ela foi uma das primeiras vocais femininas no mundo do Hip-Hop Hardcore e se tornou uma das personalidades mais importantes da cena durante os anos 90.
Rubia Paula Fraga, sim, a letra “R” do inesquecível “Grupo RPW”.
Ela conversou com o Portal Breaking World e olha, o que não faltou foi assunto e muitas histórias para contar. Rubia em todo esse tempo sempre teve uma grande atuação dentro da Cultura Hip-Hop e também na luta do direito das mulheres e no combate ao machismo, sendo sem dúvida uma referência e inspiração para as gerações futuras.
Mulher, mãe, rapper, trancista, arte-educadora, cientista social e, acima de tudo, guerreira. Sim, a Rubia está na área! Vamos à entrevista:
BW: Gostaria que você falasse sobre a sua infância, onde nasceu e cresceu e quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? É verdade que o primeiro contato com a música negra você teve na vila em que morava e que na adolescência você frequentava os bailes da função? Fale sobre e nos conte como foi tudo isso.
Rubia: Nasci e vivi até a adolescência na Vila Gomes, Zona Oeste de São Paulo. Era “anos 70”, época dos bailes de quintal e eu pequena acompanhava minha mãe nessas festas ao som de Soul, Funk, Discoteque, Samba-Rock e Partido Alto. Ao fazer 14 anos, comecei a frequentar as domingueiras de Baile Black da época, como o Prata’s Club e o Asa Branca, ambos em Pinheiros. A energia do baile me contagiou, era a época que dançávamos todos juntos nos passinhos, as sessões de “balanço”. E, claro, o Samba-Rock e Melodia para aproximar os casais que se paqueravam…
As variadas influências musicais tornaram o Rap de Rubia único e inconfundível.
BW: Quando você realmente decidiu começar a rimar? Você teve apoio da família?
Rubia: O que eu curtia como “balanço” descobri mais tarde que era Rap, como a Rappers Delight que eu amava na hora que tocava na matinê. Essa música, inclusive, era chamada de “melô do tagarela” por conta das rimas. E num desses bailes, vi pela primeira vez um show de Rap com MC Jack e Thaíde e DJ Hum. O tal “melô do tagarela” fez todo o sentido pra mim quando vi que nesse ritmo, havia a possibilidade de se fazer poesia! Não era fácil uma mulher nos anos 80 subir nos palcos, num espaço predominantemente masculino e tinha uma filha pequena, inclusive, se não fosse o apoio de minha avó Martina, talvez eu nem estivesse hoje aqui. Daí em diante, a história conta por si…
BW: Como você era vista pela sociedade, “uma mulher que rimava”? Foi uma das primeiras vocais femininas no mundo do Hip-Hop Hardcore, sofreu algum preconceito com isso? Inclusive, você tem uma música chamada “Discriminadas”, fale sobre ela…
Rubia: Como disse, eu estava entrando em um espaço onde os homens eram (e ainda são) a maioria. Nessa época, o Rap era estigmatizado como “coisa de bandido” e não foram poucas as vezes em que sofri, junto com outros Hip-Hoppers, abordagem policial violenta. A primeira música que gravei, eu já a cantava antes de estar no RPW, que é a “Discriminadas” e eu já externava em letra o que eu sentia em ser mulher na nossa sociedade, sem nem mesmo saber o que era o feminismo na época.
BW: Como você vê, atualmente, a atuação das mulheres dentro da Cultura Hip-Hop? Ainda existe muita discriminação?
Rubia: Sobre ser mulher, ter resiliência e vontade de ser MC, me deu força pra passar por cima desses obstáculos e eu vejo a nova geração bastante ativa e combativa na frente antimachista. O machismo nunca acabou e nem sei se um dia acabará, mas a nova geração de mulheres no Hip-Hop está cada vez mais chegando forte para estar no espaço público rimando, grafitando, tocando ou dançando.
Rubia, W-Yo e DJ Paul
BW: Como aconteceu a união de Rubia, DJ Paul e W-Yo e quando surgiu o grupo RPW?
Rubia: Conheci primeiro o DJ Paul, em uma das apresentações que eu fazia nos bailes sozinha. O W-Yo conheci quando fui jurada do Concurso de Rap da Kaskatas, para as coletâneas “Vozes de Rua I e II”, ele fazia parte de um dos grupos concorrentes, como dançarino. Ele veio primeiro como dançarino para Rubia e DJ Paul e, posteriormente, nasce o RPW, em 1991.
BW: É verdade que o grupo RPW criou o estilo “Bate Cabeça” no Brasil?
Rubia: Graças as influências musicais que o W-Yo trouxe para o grupo (Hardcore, Punk, Thrash Metal), nossa identidade visual e musical se molda de forma espontânea, a ponto de ser criado o estilo “Bate Cabeça”.
BW: Como foi viver a época do deck de rolo. Montar um loop cortando a fita e colando no som do pedal, com durex. Você pegou essa dureza dos grupos antigos?
Rubia: Nessa época, o Paul tinha um deck de rolo e era dali que saíam os loopings para nossas produções, inclusiva da “Pule ou Empurre” (todos os elementos da música foram sampleados). Como disse, equipamentos para produção era privilégio de quem tinha muita grana pra investir e não era o nosso caso.
RPW marcou a história como um dos mais influentes grupos do Rap nacional.
BW: Quando e como foi a criação do primeiro Hit “Pule ou Empurre”? É verdade que cada um do grupo ia num orelhão diferente para pedir que a música tocasse na rádio?
Rubia: Quando a música começou a tocar no Projeto Rap Brasil, do Armando Martins, era prática comum todos irem para o orelhão, ligar pra rádio e pedir a música. Artistas, amigos, familiares, era uma prática que a grande maioria dos grupos da nossa geração tinha em mãos para poder promover as músicas, pois os programas de rádio, tanto oficiais como as comunitárias, eram nossos “streamings digitais” da época.
BW: Como era rimar nos anos 90? Era diferente do que vemos hoje? Na sua opinião, o que mudou para melhor e para pior nos Rappers e nas músicas de lá para cá?
Rubia: Não há muitas diferenças estruturais no processo de criação do ritmo e poesia. Vejo mudanças como momentos e gerações, influências de época, reflexos de sociedade, tudo isso influencia na escrita e sonoridade do Rap ao longo dos seus quase 50 anos. O que mudou pra melhor foi o acesso às tecnologias e o advento da internet, que facilitou demais a comunicação, trocas entre Hip-Hoppers do mundo todo e ampliou a possibilidade de se criar e produzir seu Rap em casa, com alguns equipamentos que antes eram muito caros e só acessíveis em estúdios de gravação. Não tenho visão de “pior”, apenas gerações com suas especificidades em momentos diferentes dentro contexto histórico do Rap.
BW: Rubia, fale sobre a discografia que existe do grupo. E sobre as músicas que fizeram mais sucesso.
Rúbia: Quanto aos discos: “RPW – 12” (1994); “RPW – Está na área” (1996); “RPW – Ao Vivo” (1997); “RPW – A Luta continua, o real Bate Cabeça” (2000); “RPW – Talento não morre, Recicla!” (2006); “RPW – 20 Anos DVD/CD” (2012). Algumas músicas mais conhecidas são: “Discriminadas”, “Pule ou Empurre”, “Peça Mais Som”, “Zé”, “Vergonha na Cara”, “Ser Honesto Pra Sofrer”, “BC/SP”, “Cada Um Com Seus Problemas”, “Sexo Cerveja Skate e Rap”, “Talento Não Morre, Recicla”.
BW: Vocês participaram de grandes eventos e receberam premiações nos conte sobre isso.
Rubia: Participamos de shows históricos, como com Planet Hemp na abertura do primeiro show do “Cypress Hill”, no Olympia, “Festival 300 Anos de Zumbi”, no Anhangabaú, recebemos prêmio da revista DJ Sound… foram muitos momentos, relembrar 25 anos de trajetória é um exercício gigante.
Rubia sempre foi uma gigante nos palcos e na vida.
BW: Em 2017, depois de 25 anos o grupo anunciou o seu fim. O que os levou a tomar essa decisão? Como o público reagiu? Vocês se encontram ainda?
Rubia: A decisão de encerrarmos as atividades do RPW foi acordada entre os três. Sei que os fãs do grupo ficaram surpresos, mas é isso, tudo em nossas vida são ciclos e o do RPW chegou ao fim, de forma gloriosa e nos deixando com muito orgulho do que construímos. E sim, somos irmãos, amigos, trocamos ideias, brigamos, choramos, rimos, sempre em contato. Nossa amizade se estende para além do trabalho musical que tivemos juntos.
BW: Fale um pouco da vida da Rúbia no salão da galeria e como mãe e mantenedora de um lar. Quais foram os maiores desafios e dificuldades?
Rubia: Trabalhei na galeria do Rock por 30 anos, como trancista e só tenho a agradecer os conhecimentos e amizades adquiridos nesse período. E sobre ser mãe e mantenedora do lar, nada diferente da maioria das mulheres periféricas…
BW: Verdade que cursar um curso superior foi um sonho que você conquistou? Nos fale desse período.
Rubia: Por ter sido mãe na adolescência, as prioridades mudaram e o estudo ficou em último plano. Aos 42 anos, prestei ENEM para concluir o ensino médio e fui parar dentro da UNIFESP pela alta pontuação. Me formei em 2019, como Cientista Social e a partir dessa formação acadêmica, mais minha vivência no Hip-Hop, me tornei arte-educadora no projeto “Arte na Casa” da Ação Educativa.
BW: Você também trabalha como arte-educadora no Projeto “Arte na Casa” na Fundação Casa, fazendo oficinas de Rap. Como é trabalhar com adolescentes e jovens nessa situação?
Rubia: Está sendo mais um grande aprendizado, as trocas e vivências com adolescentes cumprindo medida socioeducativa. Ao final, acredito que eu aprendo muito mais com eles que o contrário!
BW: Verdade que você está preparando um trabalho solo em parceria com o Kamau? Pode nos adiantar algo de como será?
Rubia: Sobre projetos após a aposentadoria do RPW, tenho a parceria com o Kamau, meu amigo desde longo tempo e que infelizmente por conta de demandas minhas pessoais e profissionais estão adiando a realização. Mas talvez, após o período que vivemos de distanciamento social, voltemos a trabalhar e logo, venham novidades.
Rose MC, Sharylaine e Rubia: “Classicas Hip-Hop” está na área!
BW: Nos conte agora sobre “Clássicas Hip-Hop”, como surgiu a ideia de fazer algo assim? E como você, Rose MC e Sharylaine se organizaram para isso?
Rubia: No início desse ano eu, Sharylaine e Rose MC tivemos uma reunião e conversando sobre várias questões, enquanto mulheres MCs da primeira geração no Brasil, chegamos à conclusão que a história do Hip-Hop é quase sempre contada pela voz e olhar dos homens. Partindo desse pressuposto, resolvemos nos juntar no projeto chamado “Clássicas Hip-Hop” e desde então, estamos usando a página oficial “Clássicas Hip-Hop” todas as sextas, às 15h para, ao vivo, trazer a história contada por nós e sempre debatendo atualidades que envolvem o universo feminino.
BW: O que significa o Hip-Hop na sua vida?
Rubia: Sempre digo que se hoje sou a Rubia RPW é graças ao Hip-Hop. Ele é minha filosofia de vida, norteador de minha arte, cultura e política.
BW: Para finalizar, que mensagem você deixaria para as mulheres da nova geração que estão começando no Hip-Hop?
Rubia: Nossa sociedade é um terreno hostil para as mulheres e o Hip-Hop está inserido nela. Então, as dificuldades serão maiores que para os manos, mas se você realmente deseja estar nesse espaço, saiba que pode contar com uma rede gigante de mulheres que se fortalecem, se movem e se visibilizam, como nos coletivos femininos que estão ramificados em quase todos os estados do Brasil. Se cuidem, se fortaleçam entre as iguais e sejam referência para a próxima geração de mulheres do Hip-Hop!
Fotos: Arquivo Pessoal / De Arruda / Cristina Sininho Sá
Rubia
Rubia e DJ Paul
Rubia
Rubia em sua formatura como Cientista Social
Rubia
Mesmo depois do fim do grupo musical, a amizade e irmandade continuam.
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