Neste sábado (28), a cidade de Salzbug, na Áustria, será palco da final do mais importante campeonato de Breaking do mundo, o Red Bull BC One. As maiores estrelas desse estilo (que está cotado para fazer parte dos Jogos Olímpicos Paris 2024) disputarão o troféu mundial em batalhas que serão transmitidas ao vivo pela Red Bull TV, a partir das 16h (horário de Brasília), pelo link www.redbull.com.br/bcone. Quem comanda a exibição em português é o rapper Thaíde, um dos ícones do movimento Hip-Hop no Brasil, com comentários de B-Boy Endrigo e B-Girl Miwa.
A final mundial do Red Bull BC One vai coroar dois vencedores, um B-Boy e uma B-Girl. Neste ano, oito dos melhores B-Boys e oito das melhores B-Girls do planeta foram convidados para testar habilidades de alto nível em emocionantes batalhas 1×1. As B-Girls são: Madmax (Bélgica), Sina (Áustria), Kastet (Rússia), Sunny (EUA), Jilou (Alemanha), Mess (Rússia), Kami (França) e Ayane (Japão). Os B-Boys que disputarão o título são: Killa Koya (Cazaquistão), Lil Zoo (Marrocos), Pac Pac (França), Vero (Coréia do Sul), Philip (EUA), Alkolil (Russia), Kid Karam (Reino Unido) e Shigekix (Japão).
Para vencer seus oponentes, cada dançarino tem que ter movimentos precisos e estar afiado, pontual e ritmicamente afinado com a música.
Conheça os convidados da transmissão em Português
Thaíde é um dos pioneiros do Hip-Hop no Brasil e há quase 40 anos ajuda a divulgar a cultura com suas músicas e apresentando programas como o “Yo! MTV Raps” (MTV), “Manos & Minas” (TV Cultura) e “Metro Black” (Rádio Metropolitana), além de ser um dos fundadores da Back Spin, um dos grupos mais antigos de Breaking do País.
B-Boy Endrigo foi um dos jovens diretamente influenciados por Thaide e ajuda a manter o Brasil no topo do Breaking mundial. Parte da Tsunami All-Stars, uma das principais crews do País, ele compete frequentemente em torneios internacionais e há quase duas décadas busca fomentar a educação por meio da dança.
B-Girl Miwa: foi uma das primeiras breakers brasileiras a ganhar reconhecimento no exterior. Campeã das competições “Sudaka 2007” (Chile), “El Rey del Seven 2 Smoke 2009” (Venezuela) e “KB Battle Original Flavor 2013” (Israel), Miwa também levou pra casa o terceiro lugar na “Eurobattle 2008″.
Sobre o Red Bull BC One
Desde que foi criado, em 2004, o Red Bull BC One se estabeleceu como uma das mais relevantes competições da cena de Breaking 1×1 do mundo, sendo palco para inúmeros dançarinos, caso dos brasileiros Pelezinho (que já disputou quatro edições do mundial) e Neguin, único latino-americano a conquistar o cinturão de campeão. Todos os anos, milhares de dançarinos disputam as finais nacionais por uma vaga no campeonato mundial, que já passou por diversos países, como Alemanha, Brasil, África do Sul, França, EUA, Japão e Rússia, entre outros.
Fotos: Divulgação
O rapper Thaíde vai comandar a transmissão em Português
B-Girl Madmax (Bélgica) foi campeã da Red Bull E-Battle e é uma das postulantes ao título de campeã mundial em 2020
B-Girl Miwa (que também é colunista da Breaking World) vai comentar o evento, junto com B-Boy Endrigo
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A pandemia chegou e virou o país (e o mundo!) de pernas para o ar… Pessoas morrendo diariamente, quarentena, crise global e, é claro, os B-Boys e B-Girls não poderiam deixar de serem atingidos por esta situação caótica. Muita coisa mudou em muito pouco tempo: os praticantes da dança Breaking se viram de uma hora para outra com seus planos adiados, muitos entraram em um estresse contínuo causado pelo isolamento social, crise financeira e um inevitável esgotamento físico e mental. A desigualdade social que já era grande, principalmente no cenário urbano, mostrou-se ainda maior nestes tempos ruins.
A autocobrança acaba refletindo no desempenho. Nas redes sociais vi muitos B-Boys e B-Girls reclamando que seu rendimento caiu, seja pela falta de local adequado para treinar, seja pelo excesso de stress gerado pelo tédio de ficar em casa, alguns engordaram, perderam a forma, outros estão sem motivação, sem alegria e sem energia, alguns, até, entrando em um início de estado depressivo. Tudo isso causado, principalmente, pela falta de convívio mais intenso com as pessoas. Sim! A tecnologia até nos permite aproximação e algum consolo diante de tanta notícia ruim, mas nunca vai substituir o contato físico, aquele bate-papo gostoso entre amigos num churrasco de final de semana!
Isso tudo nos trouxe um quadro generalizado de desequilíbrio emocional e social. Estamos todos com os nervos à flor da pele, pois descobrimos, enfim, que as conexões são muito mais importantes do que imaginávamos outrora. Nada será como antes!
E o “novo normal”, enfim, bateu à nossa porta. “Caramba! E agora? O que vai ser?”, esta é a pergunta que não sai da cabeça de todos nós que amamos a cultura urbana, a arte, a dança, a música… E o novo sempre assusta. Em alguns, dá até calafrios tentar entender e perceber o que pode estar por vir.
Mas, afinal, o que vem a ser o “novo normal”?
Bem, antes de me aprofundar no novo, acho importante voltarmos um pouco no tempo… Pensar em nosso conceito do que é normal e do que não é tão normal assim. Afinal de contas, como diz o velho ditado “de louco, todo mundo tem um pouco”!
Não dá para entender o que é “normal” sem entender antes o que significa “comum”. Sim, por mais semelhanças que estas duas palavrinhas possam ter, não são a mesma coisa. Comum é a junção de “como um”, é a resposta para a pergunta: “o que eu tenho do outro e que ele se identifica? E o que o outro tem de mim que eu me identifico?”.
O comum é quando há um padrão estabelecido como “um de todos”, que de alguma maneira garante proteção e sobrevivência que, para aqueles que fazem parte de determinada sociedade, se torna o conceito de normal. Ou seja, o padrão de comportamento leva a uma identificação, que por sua vez traz em si opiniões, hábitos e costumes. Se somarmos, então, o comum mais a sobrevivência, chegamos ao nosso “normal”. E o que é a sobrevivência senão o nosso instinto de proteção, segurança e continuidade?
Seguindo esta linha de raciocínio, chegamos, concluímos que quando a nossa sobrevivência e proteção estão ameaçadas “não é normal”! É comum vermos alguns B-Boys e B-Girls usarem bebidas alcóolicas em excesso ou substâncias ilícitas. Mas isso não é normal, pois estão ameaçando suas próprias vidas, fazendo mal ao próprio corpo que é a ferramenta e o instrumento que utilizam para externar a sua arte e sua dança.
O “novo normal” então, nada mais é que um novo padrão que a pandemia da Covid-19 trouxe para a sociedade, um novo padrão que visa garantir a nossa sobrevivência por meio de protocolos de proteção e acompanhamento.
No Breaking era normal, até então, os B-Boys e B-Girls chegarem nos eventos, se cumprimentarem com abraços, beijos, apertos e toques com as mãos… O contato físico é uma característica da Batalha de Breaking: o olhar nos olhos, passar a mão por cima, as pernas por baixo do oponente, provocar, ironizar, tudo isso faz parte da cultura desta dança e dessa arte das ruas… A roda! Sim, a roda é o maior símbolo desta gente que nas “cyphers” se encontra, se solta, tem sua liberdade e sua arte saindo pelos poros (e pela boca também, com suas milhares de gotículas e aerossóis sem fim!).
Como será o futuro, o que muda e o que esperar deste novo normal?
É fato que por mais que o Breaking una as pessoas (e vai continuar unindo) alguns cuidados terão que ser tomados nos campeonatos pós-pandemia para que se mantenha a segurança dos participantes: andar com máscaras, ser menos expansivo, mais contido, manter o distanciamento social, talvez dançar também com luvas, pois o contato com o chão é a marca registrada desta dança… Pois é: nada de abraços, nada de beijinhos no rosto, nada de selinhos, nada de apertos de mão… O mundo está mudado e é claro que o Breaking não seria exceção.
Os campeonatos, além das preocupações usuais, terão que se adaptar a uma nova realidade, pelo menos até que se encontre uma vacina e que seja novamente seguro enfiar o dedo na cara do seu oponente! As batalhas presenciais deverão retornar aos poucos, mas cumprindo os protocolos da OMS (Organização Mundial da Saúde). Batalhas sem público e com transmissão on-line, com limpeza do local no final de cada round, distribuição de máscaras e álcool gel para todos os participantes e trabalhadores, testagem da presença do vírus de competidores, jurados, DJs, MC’s, produtores e outros personagens que possibilitam acontecer um evento de qualidade é um caminho, pelo menos por ora, sem volta.
A própria produção e estrutura dos eventos devem passar por modificações para garantir a segurança de todos. A dinâmica das batalhas, sem dúvida, vai cair bastante com estas medidas, pois sem aglomeração e sem aproximação entre os oponentes, vamos ter uma maior frieza nos campeonatos. E isso porque temos ainda um longo caminho a percorrer até que as batalhas se tornem novamente seguras: as vacinas, na melhor das hipóteses deve sair até o final deste ano. Mas deve-se levar em consideração os estudos que apontam que o novo coronavírus pode passar por mutações genéticas que, a médio e longo prazo, podem tornar a vacina ineficaz. Isso sem falar que estudos recentes demonstram que algumas pessoas foram reinfectadas… Ufa!
Mesmo diante deste quadro, ainda podemos respirar fundo (com máscara, claro!), pensar naquela metáfora do copo com água pela metade (meio cheio ou meio vazio?) e tirar algumas vantagens: por exemplo, os eventos on-line têm menor custo de produção e maior alcance de público, as empresas e os produtores independentes podem economizar muito dinheiro com o sistema de “home-office”. Novas oportunidades, como a abertura de novos mercados para os dançarinos e dançarinas, como aulas on-line, oficinas, vivências e outras atividades não presenciais. E ainda: melhor qualidade de vida. Menos stress no trânsito, menos poluição; para ir aos eventos os B-Boys e B-Girls não precisam mais percorrer grandes distâncias ou enfrentar chuvas, gastar com alimentação, transporte, hospedagem.
Enfim, o “novo normal” pode ser uma oportunidade incrível para os breakers descobrirem uma nova forma de viver, ao descobrirmos o valor da nossa própria casa, aprendemos a ter a humildade e a consciência que já não temos mais tanto controle assim de nossas vidas como pensávamos! A possibilidade de fazer novos amigos e participar de eventos internacionais sem sair de casa acabou abrindo novas frentes para muitos que jamais teriam a oportunidade de “rachar com a gringa”!
A normalidade, meus caros leitores, é uma busca constante por segurança e proteção, então, jamais poderemos dizer que somos completamente normais. Vivemos uma dicotomia: estamos sempre entre a vida e a morte. As nossas escolhas nos levam a uma encruzilhada aonde de um lado estamos de frente com a morte, trazida por exemplo pelo hábito de beber e dirigir, uso de drogas, brigas e discussões, etc. e de outro a vida, trazida pela prudência, pela busca do saudável, de querer cuidar de seu próprio corpo, sua mente e das pessoas que ama.
O “novo normal” é traumático e assustador e pode trazer ansiedade e insegurança para muitos. Mas não se trata de um “bicho de sete cabeças”! A pandemia vai passar e mesmo que deixe algumas sequelas, a nossa vontade de sobreviver e de nos proteger vai trazer adaptação e ambientação com a nova realidade e os novos padrões.
Portanto, meu conselho para os B-Boys e B-Girls é: preparem-se para o “novo normal”! “Mas, como, mano?!?”, você pode estar se perguntando… Proteja-se, cuide do outro, crie novas expectativas para si, novas rotinas, explore todo o seu potencial… Aprenda a controlar as suas emoções e a sua mente: olhe para dentro de si, descubra o que há de melhor, aproveite o tempo para treinar mais, ver tutoriais, aprender novos passos e novos movimentos. Fale com quem você ama, mesmo que seja por videoconferência, diga para seus parentes e amigos o quanto você os ama, leia, regule suas emoções e encontre algum equilíbrio emocional e mental… Não é fácil! Tem que ter força de vontade e uma boa dose de determinação, mas vai ajudar-lhe a ser bem melhor como B-Boy ou B-Girl e, muito mais, como ser humano.
Fotos: Reprodução
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“Eu quero que minha história alcance o maior número de pessoas possíveis, para que possam refletir e valorizar a vida o máximo possível.” (B-Girl Branca)
Ela começou no Breaking cedo, mas foi apenas com 16 anos que passou a participar de competições, seu sonho era ir para fora do país e ter sua dança reconhecida mundialmente. Sempre foi competitiva, guerreira e gostava de desafios.
Estamos falando de Geisiane Aguilar, mais conhecida na cena como B-Girl Branca. Em 2015, ela participou da Batom Battle, sendo ganhadora do evento de B-Girls. Junto com suas crews Rock Niggaz e We Can Do It, teve várias conquistas. Esteve também na eliminatória no Brasil da Eurobattle, ficando em segundo lugar.
Tudo caminhava bem, mas foi durante o treino, numa noite em agosto de 2016, que Branca seria apresentada a maior de todas as batalhas da sua vida: seu nome era “Mielite Transversa Cervical” ou “DEVIC”, uma inflamação na coluna cervical que a deixaria tetraplégica. Segundo os médicos, Branca tinha apenas 7 meses de vida.
Ela encarou o diagnóstico como mais uma grande batalha que seria vencida! Foi forte, guerreira, pediu a Deus uma nova oportunidade e quando recebeu a agarrou com unhas e dentes, tendo grandes melhoras e avanços no seu quadro.
Branca é um milagre, um exemplo de superação! Uma verdadeira inspiração para todos que conhecem sua história!
Hoje B-Girl Branca luta para continuar seu tratamento de reabilitação, que não é barato! Se recuperar e voltar a dançar faz parte de seus sonhos futuros! Por isso, criou nas redes sociais uma “vakinha” para levantar dinheiro para custear o tratamento.
Foi nesse momento que o Portal Breaking World teve a oportunidade de conversar com esta B-Girl incrível que, sem dúvida, é uma Rainha do Breaking Brasileiro! Sim ela é forte! Ela é B-Girl! O Portal Breaking World convoca a todos, B-Boys, B-Girls, DJ’s. MC’s, promotores de eventos e amantes da Cultura Hip-Hop para a ajudar a B-Girl Branca! Confira a entrevista:
BW: Queria que você falasse um pouco sobre sua infância, sua adolescência e quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Branca: Olá, meu nome é Geisiane, conhecida no Brasil como B-Girl Branca. A minha infância foi maravilhosa, sempre fui uma menina saudável e que amava praticar esportes como futebol, basquete e alguns outros mais. Eu tive meu primeiro contato com o Hip-Hop por meio de um projeto que acontecia na minha cidade, chamado “Segundo Tempo” e lá tinham várias atividades físicas e tinham aulas de Hip-Hop, esse foi o meu primeiro contato e me encantei.
Voltar a dançar Breaking é um dos sonhos de B-Girl Branca.
BW: Quando nasceu o amor pelo Breaking? Com que idade começou a dançar? Alguém te ensinou?
Branca: Eu acho que eu já amava o Breaking, só que não conhecia. Eu me apaixono por algo que seja competitivo, coisas difíceis e desafiadoras. E foi quando eu conheci o Breaking e já tinha todas essas essências que eu gostava e acabei me identificando. Foi quando eu acabei me apaixonando. Quem me ensinou foi o César Rodrigues do grupo QDM. Ele estava à frente do projeto onde eu conheci o famoso Hip-Hop. Hoje somos amigos e irmãos, ele acredita que irei voltar mais forte.
BW: Você teve o apoio da sua família na prática do Breaking?
Branca: Nunca tive apoio da minha família, meus pais sempre questionavam, diziam que era coisa de louco, que era coisa para meninos. Eu tinha mais ou menos um pouco de apoio da minha mãe, mas da minha família nunca tive.
B-Girl Branca foi campeã da Batom Battle 2015
BW: Com que idade começou a competir? Fale um pouco dos principais eventos que participou e que também ganhou. Quais eram seus objetivos e sonhos nessa época?
Branca: Eu comecei a competir com 16 anos de idade, participei da Batom Battle, em 2015 e ganhei o campeonato de B-Girls. Era um evento para B-Girls e tinham várias de todos os estados e países. E também competia muito com a minha crew. Meu sonho era conhecer a gringa e ser reconhecida no mundo inteiro.
BW: Fale sobre sua vivência nas Crews Rock Niggaz e We Can Do It e o que conquistou ao lado delas. Você chegou também a participar de alguns eventos internacionais, como a Eurobattle? Nos fale sobre eles…
Branca: Eu sou do grupo da Rock Niggaz e da We Can Do It B-Girls, com a Rock Niggaz participei de um campeonato chamado Batalha na Vila e ficamos em segundo lugar e outros que participei com eles foi chegando em semifinais. Com a We Can Do It B-Girls, nós participamos da Master Crews e a gente foi a primeira crew de B-Girls a passar do filtro desse evento, onde tinham mais de 32 Crews e ficamos entre os 16. Eu participei da eliminatória aqui no Brasil da Eurobattle onde fiquei em segundo lugar. Era um evento com várias modalidades e eu participei da de B-Girls, onde quem ganhasse o campeonato iria ter uma vaga na OutBreak, na gringa.
Branca competiu com a Rock Niggaz e a Crew Feminina We Can Do It B-Girls
BW: Você disse que 2015 tinha sido o melhor ano da sua vida. Nos conte o que aconteceu nesse ano?
Branca: Em 2015, foi o ano que eu treinei mais para poder ganhar esse dois campeonatos: Batom Battle e Eurobattle. Foi o melhor ano porque eu consegui provar pra mim mesma que eu consigo sim ganhar as coisas e mostrar pra quem desacreditava do Breaking que não ia me levar a nada, foram o que mais me levou a conquistar as coisas e ser reconhecida no Brasil. E mostrar pra minha família que o Breaking sim, dá retorno!
BW: Passado um ano, o que aconteceu na noite de 16 de agosto de 2016, no Ginásio de Esportes, em Brasília? Foi durante o treino? Quando notou que tinha algo errado? Como tinha sido aquele seu dia?
Branca: Eu fui pro treino bem, tinha acabado de me recuperar de uma dengue que eu tinha pegado. Não tive o repouso, que é de 15 dias, só esperei melhorar e fui para o treino. Treinei muito naquele dia, mas estava me sentindo cansada, com o corpo doendo, ainda por conta da dengue. Foi quando eu fui fazer um movimento chamado “Coin Drop” (conhecido como “Giro de Moeda”), fui fazendo ele várias vezes no treino, a partir desse movimento eu me senti mal, sentei, coloquei a mão no pescoço e estava doendo muito. Foi aí que meus colegas de treino preferiram me pegar e me levar ao hospital. Aquele dia foi horrível para mim!
BW: Quais foram as primeiras medidas tomadas? Quem te socorreu? Para onde te levaram? Que procedimentos e exames foram feitos? Chegou a fazer alguma ressonância magnética no primeiro momento?
Branca: Meus colegas de treino me levaram até o hospital, logo após minha mãe chegou. Cheguei chorando e eles me atenderam o mais rápido possível, me deram “Dipirona” na veia e não passava a dor, me deram um relaxante muscular e foi quando eu não consegui sentir meu corpo. Isso foi no hospital da minha cidade, eu moro no entorno de Brasília. Minha cidade se chama Cidade Ocidental, no outro dia, eu fui pra Brasília, no Hospital de Base, fizeram um monte de exames e não descobriam o que era. Pediram uma ressonância e viram minha medula completamente inflamada.
BW: O que você sentia naquele momento e o que os médicos te falaram?
Branca: Os médicos não me passavam nada, só conversavam bastante com a minha família. Eu me senti muito mal de me ver toda cheia de aparelhos e estava no estado de intubação. E disseram pra minha família que meu estado era gravíssimo…
BW: Quando de fato o diagnóstico foi fechado? Os médicos falaram de “Mielite Transversa Cervical” ou “DEVIC”, consegue nos explicar o que é essa inflamação, qual a causa e quais são as consequências? Verdade que os médicos compararam a sua situação a uma pessoa que tivesse sofrido um acidente muito grave?
Branca: Os médicos não sabem o motivo da inflamação, eu perguntei se foi por conta da dança, eles disseram que não foi. A inflamação foi tão forte que foi como se eu tivesse sofrido um acidente de carro e tivesse batido minha cabeça várias vezes. Hoje eu tenho acompanhamento médico e eles estão definindo o que aconteceu para causar essa informação toda. Em outubro, eu vou ver o resultado do exame e eles vão dizer o que eu tenho realmente. Eles deram que é 100% DEVIC, mas eles dependem desse exame para sair o resultado que é o que eles querem saber, se é DEVIC mesmo para eles confirmarem e me passarem o resultado! As consequências eles não me passaram e nem me deram esperança, conheci uma moça com DEVIC e ela disse que ela não ia voltar a andar e ela ficou 3 anos na cadeira de rodas e voltou a andar e está normal hoje em dia.
BW: Você chegou a pensar que essa inflamação teria alguma ligação com a dança? Chegou a mostrar vídeos para os médicos, correto? O que eles falaram?
Branca: Eu cheguei a pensar que sim, porque eu não tinha uma alimentação tão saudável. Comigo era tudo corrido e deixava minha alimentação em segundo lugar e dava a prioridade à dança, ao trabalho, etc. Cheguei a mostrar o vídeo de dança e eles começaram a rir e disse que eu sou bem agitada e folgada. E que não tinha capacidade de ter causado essa informação tão alta e forte.
BW: O que você sentiu quando recebeu o diagnóstico? O que se passava na sua cabeça?
Branca: Diagnóstico eles fecharam como DEVIC, eu imaginei várias coisas, quase entrei em depressão por saber que eu iria demorar um pouco a voltar os movimentos do meu corpo. Mas eu sempre acreditei em Deus e ele sabe de todas as coisas e ele que vai dar o resultado final. Hoje, as minhas forças vêm de Deus.
B-Girl Branca teve forças para superar os desafios, mas não foi fácil pois ela ama a dança.
BW: Uma pessoa cheia de vida, que dançava, que tinha movimentos rápidos e precisos, de repente se vê tetraplégica. Como você viveu esse momento, o que te deu forças para passar por tudo isso?
Branca: Foi muito difícil pra mim saber que eu iria fica tetraplégica e ficar numa cadeira de rodas e estar dependendo de outro pessoa, aquilo me matava por dentro, porque sempre fui independente e nunca passou pela minha cabeça que eu iria ficar assim. Eu sempre fui mudando meus pensamentos ao passar dos tempos, ficava pensando que eu sempre fui uma menina positiva e que isso é só uma fase e que as coisas vão ficar bem e que também vão dar certo. Eu sou evangélica, minha força toda vem de Deus, minha segunda força vem da minha companheira, que é minha mãe. Eu falo que ela é minha psicóloga (risos). Ela fala pra mim umas coisas bonitas e positivas. Quando estou nos meus dias ruins, ela fala: “minha filha, você é forte, guerreira e está viva, graças a Deus. Logo, logo você vai estar bem, fé em Deus”, eu ouço, reflito bem aquilo que ela me diz e aí me dá mais ânimo de correr atrás pra me ver bem logo.
Mesmo passando por momentos difíceis, Branca nunca perdeu sua fé.
BW: Você fez cirurgia? Por que isso foi necessário? Como foi a recuperação?
Branca: Sim, eu fiz uma traqueostomia no pescoço, a recuperação foi ótima e rápida. Só senti muita dor quando eu acordei da cirurgia, parecia que tinha arranhado minha garganta, foi horrível. Mas quando tirei, foi um alívio, porque me incomodava demais.
BW: Por que os médicos falaram que você tinha apenas 7 meses de vida? No que se baseavam? O que você sentiu nesse momento? E como você reagiu a tudo isso?
Branca: Eu não sei o porquê eles falavam isso, médicos são muito desacreditados das coisas, eles passam uma carga negativa, sabe. Não te dão esperança. Os médicos diziam para ninguém me falar que eu só tinha 7 meses de vida. Mas eu via eles conversando baixo e sabia que não era uma boa notícia, mas eu nunca me desesperei. Eu também tinha pegado uma pneumonia na UTI e tudo estava dando alterado, os resultados de exames, etc. Eu dei a volta por cima e estou aí de volta, eu fui lá no hospital visitar o médico que falou pra minha família que eu tinha 7 meses de vida, o encontrei e disse a ele: “Os seus cálculos deram errado, hein, Doutor!”. E ele veio, me abraçou forte e se emocionou, falou que eu era um milagre, que era muito forte, que era para eu e minha família continuarmos tendo fé. Porque eu conseguiria ter uma boa recuperação.
BW: Como sua família reagiu a toda a situação?
Branca: Minha família ficou desesperada, não sabiam o que fazer, não tinham muitas notícias minhas porque eu era maior de idade, tinha 20 anos na época. E era só uma hora de visita e os médicos só falavam coisa ruim. E quando minha família disse que eu ia pra UTI e iria ficar usando traqueostomia, foi desesperador. Mas depois todos mantiveram uma calma e só vou dando certo e recebendo notícias boas pelo celular, que o hospital ligava.
BW: Após isso, como foi o tempo de fisioterapia e de recuperação? De onde você tirava força para prosseguir?
Branca: Após ter alta, eu fui para outro hospital de reabilitação em Brasília, chamado Hospital de Apoio, onde eu tive meus primeiros acessos às fisioterapias. Eu tirava as minhas forças vendo outras pessoas que estavam com a mesma dificuldade que a minha se recuperando um dia de cada vez. Aí eu pensei: eu vou fazer igual essa pessoa; só que ao invés de eu estar fazendo fisioterapia, eu vou imaginar que eu estou tentando pegar um movimento difícil que eu queria aprender e colocava toda minha força nas fisioterapias e nas reabilitação.
BW: Fale um pouco das amizades nesse período da sua vida, você disse que 100% dos amigos sumiram… Nos conte isso.
Branca: Sim, eu tinha amigos fora da dança, que a gente sempre se juntava pra curtir umas festas e, quando eu adoeci, todos sumiram! Restaram 2 ou 4 que me ajudam quando eu preciso. Mas eu não liguei muito, fiquei chateada na época, mas passou. Encontro alguns na rua e cumprimento todos normalmente. Eu acho que, tipo, ninguém quer ter responsabilidade ou alguns só estava comigo por estar, outros por outros motivos. Eu não sei muito bem explicar!
O professor César Rodrigues e a B-Girl Branca: amizade fortalecida em momentos de crise.
BW: Por outro lado, tiveram pessoas mais que especiais, como por exemplo, o professor de dança Cesar Rodrigues, alguns fisioterapeutas e amigos que foram mais chegados do que irmãos, não é verdade? Nos fale dessas pessoas e o que significam na sua vida.
Branca: Sim, eu conheci uma fisioterapeuta maravilhosa. Bem prestativa, sempre querendo o meu bem em todos os momentos. E aí a gente virou amiga depois que sai do hospital. Ela se chama Juliana Alves, continua me dando o maior apoio e força também, gosto bastante dela, é uma pessoa muito especial para mim. Tenho uma outra amiga, chamada Arianne, ela sempre me ajuda no que eu preciso. Me ajudou bastante na minha reabilitação, ficando comigo nos hospitais, ela é uma irmã pra mim. A amo e teve outras pessoas também, que me ajudaram bastante no meu processo em casa. O César Rodrigues eu já disse, é meu irmão também, sempre está comigo quando ele tem seu tempo vago, um cara super especial pra mim também. Amo todos que me ajudaram, de coração!
BW: Quando você voltou a recuperar alguns movimentos, conseguiu sentar e ficar depois de pé, nos conte o turbilhão de emoções que você sentiu?
Branca: Quando eu tive meu primeiro movimento, foi na UTI, eu mexi lentamente o meu dedo e mandei minha mãe conferir se estava mexendo mesmo. Ela disse que sim e chamou os médicos e fisioterapeutas, foi uma alegria esse dia. Eu me senti tipo uma “fênix renascendo das cinzas”, tipo feliz demais, chorei horrores (risos), aí eu imaginei, se o dedo mexeu, o resto vai mexer também. Aí eu tenho movimentação na perna direita, de encolher e esticar, tenho movimento nas mãos e nos dedos, de encolher e esticar. Mas não consigo ficar em pé e não consigo levantar os braços, não consigo comer só, banhar só, não consigo abraçar alguém, não consigo fazer cumprimentos levando os braços. E tenho equilíbrio de tronco.
BW: Você fala em um vídeo, que tudo tem um propósito e o seu tempo e demonstra gratidão a Deus por ter te dado uma nova chance. Você já descobriu qual foi o propósito disso tudo que você passou? O que mudou na sua vida após tanta luta?
Branca: O propósito que eu acho que Deus teve comigo foi mostrar que nós, seres humanos, não somos nada diante dele. E eu sou uma prova viva disso, para quem tinha 7 meses de vida vocês não acham que tem algum propósito aí?! Eu quero que minha história alcance o maior número de pessoas possível, para as pessoas refletirem e valorizarem a vida o máximo possível. E sempre agradecer, todos os dias! Esse é o recado que eu tenho para dar! Passar para todos! O que mudou na minha vida foram os valores, passei a valorizar as mínimas coisas que as pessoas desprezam. Hoje em dia, essa minha luta está me amadurecendo demais. E espero levar isso comigo pro resto da minha vida.
BW: Quais são seus desafios e sonhos para o futuro? O Breaking se encontra neles?
Branca: Sim, o Breaking se encontra neles. Quero volta a dançar, se Deus permitir. E desafios para o futuro é continuar alcançando os meus objetivos e sonhos que eu pretendo realizar em breve.
B-Girl Branca competiu em vários campeonatos com a Rock Niggaz
BW: Quem é a B-Girl Branca hoje?
Branca: A B-Girl Branca hoje continua sendo a mesma, gentil, marrenta, um amor de pessoa, agradável. E sempre com pensamentos positivos e querendo voltar o mais rápido possível. Estou com mais experiência na vida, penso demais antes de fazer alguma coisa errada ou falar algo que possa magoar o próximo. Hoje eu sinto uma paz que eu não sentia antes. E quero que as coisas só tenham progresso, na minha vida é isso.
BW: Nesse momento, segundo informações, você precisa de um trabalho de recuperação mais efetivo, fazendo uma terapia intensiva que não é barata e para isso foi lançada uma campanha nas redes sociais “Ajude B-Girl Branca”. Nos fale sobre essa campanha, quanto precisa levantar e como as pessoas podem ajudar?
Branca: Então, eu estou fazendo fisioterapias particulares, que custam R$ 120,00 a sessão. Hoje em dia, eu faço uma vez na semana. Porque lá eles fecham o pacote que é R$ 480,00 e pretendo fazer duas vezes na semana. Eu criei a “vakinha” para a galera ajudar a compartilhar e poder conseguir esse valor pedido na vaquinha virtual. Para que eu possa fechar um pacote indo pelo menos 2 vezes na semana. Fora o transporte, que eu tenho que pagar por fora, que é R$ 70,00. Na “vakinha” eu peço só a quantia da fisioterapia mesmo e no valor total de R$ 8.000,00. Toda quantia é bem-vinda no site da “vakinha”, a questão do transporte a gente tenta correr atrás!
BW: Que mensagem você deixaria para B-Boys, B-Girls ou dançarinos que estão lendo essa entrevista?
Branca: Quero que a minha história seja uma inspiração para todos os B-Boys e B-Girls. Acreditem sempre no potencial de vocês, nunca deixem nada desmotivar. Sempre curtam o momento, dancem mesmo e vivam as coisas mínimas com mais intensidade. Porque não sabemos o dia de amanhã! Um abraço da B-Girl Branca e me sigam nas minhas redes sociais, para motivar e inspirar vocês a cada dia.
Só quem teve uma lesão sabe o quão difícil é superá-la, eu presenciei de perto a dor que essa situação causa em meu amigo e antigo parceiro de Crew, o B-Boy Thiaguin, que teve uma lesão no joelho, menisco e ligamento cruzado.
No Brasil, para se realizar uma cirurgia, você demora anos na fila e ele esperou 3 anos, depois disso teve o período de recuperação, no total ele teve que esperar 4 anos para curar totalmente sua lesão. É muito tempo de espera, uma lesão pode acabar com a carreira e com a autoestima de alguém.
Por isso que é de extrema importância pesquisas igual essa que fiz, para que outras pessoas não sofram lesões.
As pesquisas são fonte de informação bastante importantes para o conhecimento e desenvolvimento da sociedade. Por meio de algumas perguntas elaboradas com objetivo específico, você pode ter informações-chave como, por exemplo, se a pesquisa é sobre lesão em dançarinos, você pode saber o número de lesões frequentes, tendo essa informação em mãos, se pode desenvolver tratamentos e prevenção neste sentido.
A pesquisa que comecei em 2017 e que continuo até hoje, se trata de diversos pontos. Tempos de treino, dificuldades, acesso, entre outros. Mas aqui neste artigo vamos falar de lesões e os números são de alarmar.
Os índices de lesões em dançarinos de Breaking no Brasil passam de 50%. Dentre as lesões mais frequentes no Brasil estão: Joelho, com 18%; Ombro, 14%; Pulso, 7,2%; Cotovelo, 2,7 %; Pescoço, 2,7%; Pernas, 2,8%; Tornozelos, 0,9%.
Isso significa que mais da metade dos dançarinos ouvidos na pesquisa sofreram lesões, ou seja, o drama que aconteceu com meu amigo, também aconteceu com muitas pessoas em todo o Brasil.
Diante dessa realidade, devemos tomar algumas precauções importantes para não vivenciarmos nenhuma lesão.
Para quem me acompanha no YouTube, sabe que sempre venho falando disso, mas vou deixar aqui alguns aspectos importantes.
Procure aquecer-se antes do treino
Quando você aquece o corpo, sua circulação sanguínea aumenta, levando mais oxigênio para seus músculos, tornando-os mais flexíveis. Uma rotina de 10 minutos de aquecimento é eficiente, se o tempo estiver mais frio deve-se aumentar o período.
Alongue com frequência
Quando eu digo alongar, não estou falando daqueles 5 minutinhos que a maioria faz antes do treino! Para alongar com eficiência você deve estar aquecido, existem aulas especificas de alongamento que duram 30 minutos ou mais, que ajudam a alongar todos os músculos do corpo, programe sessões de alongamento em diferentes períodos do treino.
Alimentação
Após o treino, você tem 30 minutos para repor os nutrientes do seu corpo, se você não se alimentar durante esse período seu organismo começa a tirar nutrientes do seu corpo, músculos e ossos, aumentando o risco de lesões. Este é o momento de formação e manutenção da massa muscular, por isso é importante consumir um alimento rico em proteína.
Repouso
Isso varia de acordo com o treino, se é moderado ou intenso. Se moderado, seu corpo leva 24h para se recuperar, se intenso, cerca de 48h.
Outros pontos também podem ajudar, como ter um acompanhamento de um profissional de Educação Física. No meu caso, eu tenho o acompanhamento do Nagai Duarte, que vem desenvolvendo um trabalho bacana nessa área, cabe ressaltar que prevenção nunca é demais e lesão é coisa séria, devemos prestar atenção nisso para que a história de diversos dançarinos que sofreram com isso não se repita conosco.
Fotos: Reprodução / Gráfico: Redação BW
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O Breaking virando modalidade Olímpica irá proporcionar boas oportunidades para a cena, que sempre foi vista como marginalizada no Brasil. Se não for trabalhado seriamente e por pessoas competentes, nada vai mudar e a tendência é se tornar como muitas modalidades olímpicas, na qual os atletas passam por muitas necessidades financeiras e acabam abandonando a carreira profissional. Ter uma equipe unida, experiente, igualdade de recursos para todas regiões, implantar um projeto de disseminação para todo o país nas periferias ou em escolas públicas, que se encontram grandes talentos e criar um centro de treinamento com profissionais capacitados: o Brasil poderá se tornar referência nessa modalidade.
Os organizadores do “Paris 2024” disseram que seu objetivo era incluir “modalidades que podem ser compartilhadas nas mídias sociais, que são um meio de se locomover, formas de expressão, estilos de vida por direito próprio, praticadas todos os dias, nas ruas e em outros lugares”.
Por que vai se tornar um esporte olímpico?
Breaking é uma arte e nunca vai deixar de ser, mas também não podemos negar que seus adeptos têm característica atlética, o desempenho físico é fundamental para se tornar uma B-Girl/B-Boy de alto nível, além das competições serem muito semelhantes com campeonatos esportivos oficiais. Sua dimensão criativa e artística torna essa dança alegre, original e atrativa para o público de todas as faixas etárias.
“Breaking nos Jogos Olímpicos” chegaria a mais pessoas, as crianças e jovens estariam mais interessados nos eventos a nível cultural e esportivo, consequentemente o apoio da família. Assim, o Breaking trará um impacto positivo cultural e esportivo, o que promoverá seu desenvolvimento e disseminação a nível global.
O Breaking tem seus valores que levaram a uma modalidade “sustentável e socialmente responsável”, que não exigem instalações permanentes; é culturalmente relevante para a França, que consta mais de 1 milhão de dançarinos, segundo os organizadores de Paris 2024.
É tradição. A cada edição dos Jogos Olímpicos, o país anfitrião incorpora novas modalidades ao Jogos. Paris 2024 incluíram Surfe, Escalada Esportiva, Skate e o Breaking. Essas modalidades foram uma grande estratégia do Comitê Organizador, em prol de rejuvenescer seu público e conectar-se com os esportes de sucesso em todo o mundo para trazer para os Jogos uma dimensão mais urbana, esporte natural, mais artística. O “OCOG” fez sua escolha entre uma lista de 37 esportes reconhecidos pelo COI, com a restrição de não exceder 10.500 atletas, o que limitaria as chances de esportes coletivos e não envolveria novas construções de equipamentos de longa duração, enquanto atrai as gerações mais jovens e contribuía com o meio ambiente.
O programa olímpico já está saturado de esportes inconvenientes, que não são massificados, que não vendem ingressos, que não têm uma legião de fãs. Mas que continuam lá por tradição. Vide Pentatlo Moderno, Nado Sincronizado e tantos outros. Só as modalidades “fixas” usam mais de 10 mil das 10.500 credenciais de atletas, teto por edição. Sobram 500 vagas, que o COI e os organizadores de Paris-2024 tentam otimizar. O Breaking terá 16 competidoras B-Girls e 16 competidores B-Boys a partir dos 16 anos de idade, não tendo idade máxima, porém todos os competidores precisarão estar federados e ranqueados, no total, 32 atletas, que é pouco mais que o tamanho de um único time de beisebol, formado por 24 atletas. A modalidade Breaking representa um investimento menor em comparação com outras modalidades.
Uma das obsessões das cidades que sediam os Jogos Olímpicos é a infraestrutura: muitas instalações e ginásios sendo abandonados depois dos jogos e as novas modalidades inclusas não terão esse imenso prejuízo para o cofre público e também irão chamar a atenção da mídia mundial, atraindo uma legião de fãs, seja com a venda de ingressos, seja pela televisão ou pelas redes sociais.
Por mais artístico e espetacular que seja, o Breaking atende a todos os critérios impostos pelo COI, cerca de quarenta. Para integrar a lista de esportes reconhecidos, precisa de regras bem explicadas, de uma federação presente em pelo menos quatro continentes.
Um teste já foi feito, muitíssimo bem sucedido. O Breaking foi disputado nas Olimpíadas da Juventude de Buenos Aires, no ano de 2018. A competição aconteceu em uma estrutura montada no Parque Madejos, um dos locais mais movimentados e de atmosfera jovem da capital Argentina. Lá foram disputadas também as modalidades de Escalada, Basquete 3×3 e BMX Freestyle: essas duas disciplinas vão estrear em Tóquio-2020/21. Paris, referência mundial em turismo, sabe cuidar do visitante como ninguém. A candidatura já foi desenhada para que as competições ocorram em locais já de intenso fluxo de pessoas, integrando as competições com a cidade e seu entorno. A Olimpíada de Paris tem tudo pra ser a mais legal da história dos jogos.
A competição de Breaking em Paris será organizada pela World Dance Sport Federation (WDSF), que é reconhecida pelo COI há mais de 20 anos como a entidade responsável pela dança esportiva mundial. Especialista principalmente na dança de salão, seja clássica ou em ritmos latinos, ela agora terá que se renovar para abraçar melhor o Breaking e não fazer mudanças bruscas, para não descaracterizar a dança e sua essência, acredito que não vai se descaracterizar e sim acrescentar novos formatos de competição, com boas estruturas e um olhar a mais para as B-Girls e B-Boys.
Esse é o desafio dos próximos quatros anos, dar um caráter esportivo, organizado, para o que historicamente é arte, é cultura. Da mesma forma, os atletas que quiserem competir em Paris, terão que se federarem. É um processo longo, no qual ambos ganham. Ganha o movimento olímpico, cada vez menos careta. Ganha o Breaking, com visibilidade e reconhecimento.
Há um único motivo para que o COI não avance com o Breaking para Paris2024. É a não organização de competições oficiais, não é à toa que a WDSF teve que organizar às pressas o primeiro mundial “oficial” no ano de 2019, contudo se a WDSF não se unir e apoiar os eventos já existentes, mostrará que a modalidade não estará preparada para se migrar aos Jogos Olímpicos. É preciso existir uma base sustentável. Eles esperam criar uma base que torne essa modalidade bem-sucedida a longo prazo.
O formato de “batalhas”, no qual os participantes eliminam seus oponentes para avançar a fase seguinte em uma competição, bem como a atmosfera festiva, vibe nas cyphers e durante as batalhas, contribui para a popularidade dos eventos de Breaking no cenário internacional e essas características são importantes para o COI
Critérios de julgamento
Baseado nos Jogos da Juventude (Buenos Aires 2018). Como foi um evento teste e bem sucedido, toda a competição foi um laboratório para que a entidade responsável, WDSF, pudesse apresentar o projeto para que o Comitê Organizador de Paris2024 aprovasse o Breaking como modalidade Olímpica, desde piso, formato das batalhas, quantidade de competidores (as), arbitragem (jurados) e o sistema de arbitragem foram à teste. A WDSF lançou seu manual de regras e regulamentos oficiais para os Jogos Olímpicos da Juventude de 2018, em Buenos Aires. Este manual inclui o sistema de julgamento que poderá ser usado em Paris 2024, é claro com reajustes.
Irei apresentar o formato que foi utilizado nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2018.
Niels “Storm” Robitzky e Kevin “Renegade” Gopie, duas figuras respeitadas na cena, no manual informa que eles foram os mentores na criação do sistema de julgamento. Ao ver imagens do sistema, ele ainda possui “falhas” perceptíveis que o tornam mais um trabalho em andamento do que um produto final, contudo ao passar do tempo será bem mais fácil de trabalhar com esse sistema.
Eles o chamam de “Trivium Value System”, um nome que sugere os três principais critérios do sistema: Corpo, Alma e Mente. Seguindo os critérios atuais, serão compostos da seguinte forma:
Corpo, Qualidade Física: composto por Técnica (20%), Variedade (13,33%);
Alma, Qualidade Interpretativa: composta por Performance (20%), Musicalidade (13,33%);
Mente, Qualidade Artística: composta por Criatividade (20%), Personalidade (13,33%).
Cada juiz move seis controles deslizantes em um tablet portátil para classificar os atletas (B-Girl/B-Boy) em cada um desses critérios. Também existem outros fatores, como escorregões ou falhas, que podem afetar as pontuações.
B-Girls/B-Boys são avaliados por entradas, sendo duas entradas mais um intervalo de 1min30seg e mais duas entradas. As pontuações são calculadas e exibidas por meio de um sistema digital desenvolvido por “and8”: vence uma batalha quem marcar mais pontos somadas as 4 entradas, veja a imagem abaixo da tela do dispositivo portátil de um juiz (jurado):
O que será avaliado: técnica, variedade de movimentos e ou passos, musicalidade, criatividade, execução, personalidade entre outros. Algumas faltas que poderão tirar pontos ou até mesmo eliminar da competição: “Bite” (risos), erros, contato intencional e desrespeitar ao oponente, nesses dois últimos terão 3 advertências para assim ser decretada a eliminação da competição.
Não existe um código preciso para os movimentos que o dançarino fará: ele é completamente livre. O Breaking tem uma grande parte artística, que é obviamente levada em consideração pelos jurados em cada um dos critérios avaliados mencionados acima.
A WDSF irá lançar um curso de arbitragem até final do ano de 2021, um grande avanço para o Breaking e assim acabar com a famosa “panela” que existe, seguindo o sistema das outras modalidades esportivas, os árbitros também poderão ser ranqueados.
Para conquistar uma vaga nos Jogos Olímpicos 2024
O Comitê Olímpico Internacional (COI) fornecerá à WDSF as diretrizes do sistema de qualificação em 2022 (as diretrizes são as mesmas para todos os esportes nas Olimpíadas e cada Federação internacional deve adaptar o sistema de qualificação de acordo com a especificidade de seu esporte), então, caberá ao WDSF propor o formato de qualificação para o Paris 2024, que deverá ser aprovado pelo COI antes de ser oficialmente publicado. Provavelmente haverá entre 4 a 6 eventos de Breaking renomados que serão parceiros para as qualificações, parecido como foi a qualificação para os Jogos Olímpicos da Juventude 2018. Então só teremos 100% de certeza de como e quais eventos irão dar vaga para o tão sonhado ouro olímpico após a divulgação oficial do COI que está prevista pós os jogos de Tóquio. Outro ponto que a WDSF irá fazer é um sistema de ranking, tendo como exemplo outras modalidades esportivas, as B-Girls/B-Boys não necessariamente precisarão ser campeões desses campeonatos, o importante é estar ranqueado entre os 16 “melhores” do mundo, conquistando pontos nos campeonatos, pegando colocações como primeiro, segundo, terceiro e quarto…
O Breaking brasileiro tem nível elevado, que são capazes de conquistarem as medalhas, o nosso principal obstáculo é a falta de estrutura, planejamento e financeiro. Muitos desses dançarinos(as) (atletas) têm outros trabalhos para se manterem, diferente de outros países como EUA, Rússia, Japão, Coréia e muitos países europeus, na qual os dançarinos (as) vivem do Breaking, têm boas estruturas, treinadores e patrocínios. Para concluir, gostaria de entrar em um assunto: muitos estão falando que ginastas iam se migrar para o Breaking… eles até podem, mas pouco provável que irão conseguir uma vaga olímpica, pois os ginastas treinam sistematicamente desde crianças e o Breaking é totalmente oposto, o Breaking em primeiro lugar é uma arte, é livre, cada dançarino (a) tem seu estilo, carisma, criatividade, flavor, com a vibe do público, interpretar seu sentimento conectado com as músicas e com o DJ, um ginasta não tem essas características, que são fundamentais para a formação de uma B-Girl/B-Boy, pois isso acaba sendo natural para quem é da cena, e serão avaliados por B-Boys e B-Girls experientes que conhecem a nossa dança como ninguém, então, não se preocupem com isso e trabalhem para que o Breaking do Brasil seja bem representado.
Durante um evento, uma voz feminina se faz ouvir… “Não precisa nos incluir, a gente sempre esteve aqui. Pois na verdade sempre estivemos na cena, às vezes não muito respeitadas, às vezes sem espaço, sem voz. Mas sempre estivemos presentes. Nos fortalecemos entre nós e onde pisa uma mulher, pisam várias outras juntas, os degraus mudaram e nós aprendemos a subir e a levar muitas com a gente. Acredito que quando pararmos de entender o Breaking como algo masculino, teremos uma evolução!”, essa declaração saiu da incrível fotógrafa Bruna Ferreira que é o rosto, o corpo e o coração do “Coolture Trip”. Sua fotografia inspira, emociona e apresenta a Cultura Hip-Hop de uma forma singular. Da máquina fotográfica, Bruna fez suas asas e voou bem longe… Confira a entrevista:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua história, onde nasceu, como foi sua infância e quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Bruna: Bem, eu sou do interior do Rio Grande do Sul, da cidade de São Borja, fronteira com a Argentina e com 11 anos vim morar em Bento Gonçalves, a 100 quilômetros da capital, Porto Alegre. Minha infância foi muito boa, graças a Deus e ao empenho dos meus pais nunca nos faltou nada, família sempre unida, valores, respeito e educação estiveram sempre presentes na nossa casa. Na fronteira as oportunidades, principalmente de trabalho, para os meus pais ficaram escassas e Bento sempre teve muito trabalho devido as indústrias instaladas aqui. Minha madrinha já morava na cidade e nos abriu as portas para essa nova vida, buscando uma melhor qualidade de vida, estudos e oportunidades para a família viemos então eu, meus pais e minha irmã no ano de 2009.
Na história da Bruna: o Breaking, Graffiti e a paixão pela fotografia.
BW: Que elementos da cultura no início te chamaram mais atenção
Bruna: Conhecer e me envolver em arte e cultura não era algo que eu almejava quando criança, não tinha referências na família e quando via algo “artístico” na TV, era legal mas algo que pra mim não era alcançável, ou pelo menos não tinha essa visão de querer/poder ser “artista”. E quando me mudei, logo que entrei na escola fiz parte de projetos sociais no contra turno escolar, o que me possibilitou ter acesso a música, dança, teatro… Na escola de ensino fundamental que eu frequentava, a arte era muito incentivada, principalmente a dança e todos os anos o grupo de Breaking “Elemente B Crew”, muito significativo na história do Breaking da cidade, fazia apresentações e trazia pessoas de fora pra dançar para o pessoal que assistia um espetáculo de dança feito pelos alunos, por causa desse espetáculo aonde as turmas tinham que montar coreografias e etc., a gente consumia dança o ano inteiro, isso nos incentivava a pesquisar e assistir vídeos, estudar, etc. E por meio dessas artes conheci o Hip-Hop, uma amiga frequentava um estúdio de dança da cidade onde estava instalada a Nest Panos e a maioria dos B-Boys da cidade treinava e se reunia, esses mesmos que se apresentavam na escola e frequentando o estúdio pude ver a estética do Graffiti, saber que dentro do Hip-Hop se subdividiam outras danças e outras formas de expressão que não só a dança.
BW: Pessoas te influenciaram a se envolver com a cena?
Bruna: Logo que eu conheci o Hip-Hop entrei pra um estúdio de dança, depois desenvolvi mais o Breaking, inclusive fazia aulas com o Pedrinho, também fazia Graffiti, mas depois que decidi ficar na fotografia abandonei os outros elementos (risos). Desde o início eu tive muita influência, da escola do ensino fundamental, das pessoas que eu conheci que tinham o gosto pela dança em comum, comecei a fazer aula e as amizades aumentaram. Então, no meio que eu estava, meus amigos todos tinham envolvimento com o estúdio, com a dança, com “função e furdunço” (risos) então, meio que era inevitável seguir esse caminho.
BW: Como sua família via o seu contato com a Cultura Hip-Hop? Eles apoiavam?
Bruna: Logo depois que saí do projeto social comecei a trabalhar com teatro, com 14 anos. Então meus pais viam a arte com outros olhos, eu apresentava espetáculos em grandes feiras, participei de festivais de teatro, escolas e trabalhei 4 anos como atriz profissional no passeio turístico bem conhecido aqui de Bento, que é a “Maria Fumaça”, um trem a vapor que oferece um passeio turístico apresentando em pequenos espetáculos de arte a história da região dentro dos vagões. Comecei no Hip-Hop na verdade dançando, dancei em companhias e depois fui para o Breaking em um curto período, fiz Graffiti, até me encontrar na fotografia. Eu comecei a trabalhar com 12 anos e nunca precisei ajudar meus pais financeiramente, além de admirarem o que eu fazia, esse foi também um suporte, muitas vezes eu tinha despesas com as viagens, figurinos etc. e conseguia pagar com meu dinheiro e sempre fui muito responsável, então, eles sempre permitiam minha participação em viagens e qualquer ação que envolvesse arte. Por ser menina, sempre há um maior cuidado, mas eles confiaram em mim e sabiam que eu confiaria neles para me auxiliar em qualquer problema, acho que esse foi o maior suporte deles que eu tive.
“O William me presenteou com a primeira câmera e chorei muito…”
BW: Quando surgiu o interesse e o amor pela fotografia?
Bruna: Na verdade, o interesse por fotografia veio porque um amigo meu, o Igui, que também frequentava a Vico (na época eu treinava na Vico também) comprou uma câmera, e às vezes levava pra cypher. Pra matar treino eu pedia emprestada (risos) e ficava tirando foto ao invés de treinar (mais risos). Olhava uns vídeos no YouTube de fotografia, mas por não ter referências de fotógrafos, eu não conhecia nenhum, achava tudo muito inacessível, equipamentos muito caros e só não levava adiante a ideia de seguir. Na época eu já me envolvia com a Nest e despertou o interesse de usar a fotografia, não só pra fazer fotos dos momentos de descontração, mas também pra loja, para colocar na internet a foto dos produtos e eu usava uma digital da minha mãe, aquelas tipo TekPix (risos), daí levava pra loja, acabava fazendo algumas fotos dos treinos e assim, em 2015, o William me presenteou com a primeira câmera, chorei muito por dois motivos: porque eu sempre choro e também porque não esperava mesmo, fiquei muito feliz. A maior surpresa foi que eu não sabia nem ligar a tal câmera (risos) porque era de uma marca diferente da do Igui e então no outro dia comecei a estudar e pensei: agora que eu tenho as ferramentas preciso aprender esse negócio.
BW: Onde e com quem aprendeu a fotografar?
Bruna: Fiz muitos workshops, aqui na minha região tem fotógrafos muito bons e bem famosos na verdade, que sempre abriam turmas para aulas e eu sempre que podia estava. Fazia cursos sobre fotografia de casamento e aplicava tudo em Breaking.
BW: Fotografar B-Boys e B-Girls, fazer fotografia urbana é diferente de fotografar outras coisas? Exige um conhecimento diferenciado para fotografar dançarinos?
Bruna: Os workshops que eu fiz, nenhum falava sobre dança nem nada parecido com a estética que temos no Hip-Hop, mas me ajudou muito em questão técnica, de edição das imagens, então, na minha cabeça eu aprendia tudo e convertia pra minha vivência. Com certeza é muito diferente e nosso meio carece de pessoas com competência aliada à vivência da parada, que ensine fotografia com técnica e com direção, com objetivo em Breaking, em Graffiti, em Hip-Hop. Pra não ter hoje que percorrer todo caminho que eu percorri. Sempre que possível a gente faz workshops aqui pra molecada e inclusive a Ramoni está dando uns passinhos agora na fotografia e tal, por causa dessas oportunidades. Workshop de fotografia não é barato e se a gente puder se fortalecer pra somar, melhor ainda.
Muitos foram os desafios e conquistas de Bruna no coletivo
BW: Me fale um pouco do seu trabalho junto ao Coletivo Nest Panos. Desde quando você caminha junto e o que faz dentro do coletivo?
Bruna: Eu entrei pra Nest ali por 2012 eu acho, sou péssima com datas, o cara que sabe todas as datas na Nest é o Pedrinho (risos). Eu comecei na loja, gravando DVD de evento tipo BOTY, vídeo aula do Focus, documentários tipo “The Freshest Kids”, que a Nest distribuía para a gurizada nos eventos e vendia a R$5,00 pra geral. Depois, fui evoluindo (risos), cuidava do stand nos eventos, fazia umas fotos dos produtos com a câmera digital da minha mãe mesmo, fui estudando, comecei a fazer fotos mais legais, então montamos o e-commerce no site, fazia as matérias, comecei a fazer parte da organização dos eventos e no mais aonde eu podia ajudar, eu estava envolvida. Hoje faço parte da manutenção do site, gerencio o sistema da loja, produzo todo o material de fotografia da marca, faço parte da produção dos eventos e dobro roupas muito bem. O meu cargo oficial é fazer o que precisa ser feito (risos).
BW: No seu perfil do Facebook está escrito “Projeto de Vida – Coolture Trip”. Fale sobre esse projeto.
Bruna: Coolture Trip é meu projeto de vida pois foi o que eu escolhi pra dar sentido a ela. Não está à venda, se eu tiver grana ou não, ele vai existir igual, é algo que eu faço do fundo do coração por uma cena que eu amo, que eu acredito e que por meio do projeto eu sinto que posso contribuir para que ela seja melhor e maior.
O destaque num meio predominantemente masculino foi conquistado com muita garra e determinação
BW: A Cultura Hip-Hop é dominada pelo sexo masculino, alguma vez se sentiu discriminada dentro da cena pelo fato de ser mulher?
Bruna: Sempre que debatemos sobre a mulher no Hip-Hop eu lembro de agradecer, pois fui acolhida num ambiente que jamais fui desrespeitada. Óbvio que meu espaço foi conquistado, nem sempre eu tinha voz, mas quando eu afirmo que tive sorte no coletivo, foi que tivemos conversas sobre o assunto e foi possível pouco a pouco muitas mudanças por meio de debates feministas, de questões muito importantes a serem levantadas e ouvidas. Acho que o principal pra mim foi ter representações femininas na cena, pois os homens ao meu redor me tratavam de igual pra igual, mas ainda eram vários homens, eu precisava de espelho, de ver outras minas pra poder me sentir parte, pra sentir que eu “poderia” ser parte e que qualquer outra mina também. Com a Coolture Trip, pelo fato do nome nem o logo ser o que a sociedade associa como “feminino”, todos os elogios são direcionados a um mano, já teve casos aonde pessoas vinham elogiar o trampo, fazer perguntas sobre ele e quando eu me apresentava Bruna, as pessoas não respondiam mais (risos). Nunca dei muita atenção a isso, me importo com o trampo tocar as pessoas e ser bom, mas com o tempo percebi que o fato das pessoas associarem o trampo automaticamente a um homem não era tão legal, eles precisavam saber que o trampo bom era de uma mulher e comecei a mostrar mais meu rosto.
BW: Vocês fizeram uma exposição no Sesc de Bento Gonçalves chamada “Rolê Coolture Trip” que não mostra apenas dança, mas toda a movimentação, todo o rolê que acontecia no meio de uma praça. Nos conte como foi a preparação do material dessa exposição até ela acontecer de fato. Nos conte essa experiência?
Bruna: O Rolê Coolture Trip foi uma das ações mais da hora que fizemos. O Pedrinho escreveu um projeto onde nos possibilitou um apoio em várias viagens, as telas foram feitas justamente pensando no transporte e durabilidade, inclusive na exposição de Esteio dois quadros ficaram expostos na área externa, como foram feitos de PVC, podem pegar chuva e sol e foi um diferencial bacana dessa expo. As fotos que compõem a expo foram as que mais tinham a ver com a ideia do rolê que é a cypher, pois quando a galera se reúne para dançar na Vico, não é só isso que acontece, a praça tem pessoas, têm crianças que geralmente interagem com a música, com a galera conversando e trocando ideia, que pega um adesivo pra levar pra casa ou que só fica olhando mesmo. São 10 obras de 1 metro quadrado mais ou menos, com a ambientação de folhas, plantas, para que trouxesse um pouco da praça para galeria. Fizemos horas e horas de viagem pra todas elas, pra São José do Rio Preto mais de 30h de carro, pro Uruguai são 12h, então rodamos alguns quilômetros para fazer a função (risos).
No Brasil ou no Uruguai, Bruna sempre leva na bagagem sua arte e seu olhar diferenciado
BW: Fale sobre o livro “Nossa Casa: Cypher Vico” lançado em 2018. O porquê desse nome e fale com detalhe dessa Cypher.
Bruna: O livro foi nossa maior realização. Depois que me interessei por fotografia, vi que fotografia e Hip-Hop não andavam tão separados assim e que inclusive tinham ótimas referências de fotógrafos e fotógrafas que foram da cena, na década de 70/80, com histórias ligadas diretamente ao Hip-Hop. Martha Cooper e Henry Chalfant com Subway Art, depois Hip-Hop Files, ajudaram a propagar o Hip-Hop para o mundo e também entender o que ele era na década de 70, logo na sequência veio Sue Kwon, Ricky Powell que faziam fotos das capas dos discos de grupos de Rap e que também foram responsáveis por nos dar dados e informações históricas quanto a vivência Hip-Hop desses ícones e enfim, a lista é grande e eu queria fazer parte dessa lista com a minha fotografia nos dias de hoje. A gente falava meio que brincando “Bah! Já pensou um livro!”, mas assim como ser fotógrafa para mim não era algo acessível, talvez eu não acreditasse muito na minha capacidade… E aí a galera do coletivo incentivou, me auxiliaram a montar um projeto e da primeira vez que enviamos ele não passou, 2017 reformulamos o projeto, a ideia amadureceu, deu tudo certo, por meio do Fundo de Cultura da minha cidade consegui a verba para a impressão do livro. 2018 executei ele entre captação e impressão no mesmo ano, e foi loucura. Eu fiz desde os textos até os vídeos (ele tem QR Codes espalhados aonde quando você escaneia com o celular tem acesso a vídeos exclusivos de quem tem o livro), a diagramação (inclusive eu aprendi a diagramar o livro 4 dias antes do prazo pra enviar ele pra editora, eu mal tomava banho, só fazia as coisas do livro), as entrevistas, as fotos… A capa e a arte do lançamento ficou por conta do Oneroc, tenho muito orgulho de quase tudo ter sido feito por mim, mas não vou repetir essa façanha (risos) foi insano o processo todo dentro de um prazo muito pequeno.
BW: Como foram as exposições? Como foi apresentar a cultura a pessoas que não conheciam a cena? De que forma foi feito isso?
Bruna: No Rolê Coolture Trip a gente passou não só por lugares familiares como a Casa do Hip-Hop de Esteio, como também pelo SESC, Dom Quixote Livraria e Casa de Criar, que são lugares que recebem artistas de diversas áreas, portanto têm um público diverso, nem sempre simpatizante de Hip-Hop. Então, a experiência mais da hora que tivemos foi apresentar cultura urbana pra pessoas que não faziam ideia de como ela é expressiva e nem de que estaríamos ocupando galerias de arte. Foi uma honra ser recebida nos lugares com carinho, apresentando a minha vida, a nossa vida. Senhorinhas compraram o livro, elogiaram muito o trabalho, assim como na Casa de Criar tivemos alunos de faculdade fazendo perguntas sobre o material das obras, também sobre técnicas de fotografia. Então foram experiências bem diversas mas ao mesmo tempo complementares: falávamos sobre o mesmo assunto sempre, mas em cada lugar ele era recebido e abordado de formas diferentes.
BW: Fale sobre o seu sentimento de levar o seu trabalho para outros estados como São Paulo e até outros países?
Bruna: Mostrar as fotografias da Vico, de Breaking para cada vez mais pessoas e cada vez mais longe é algo que me deixa realizada. Com a Nest já tive a oportunidade de rodar muitos lugares do Brasil, mas ir com a exposição da Coolture Trip é diferente, como se fosse a minha contribuição pessoal para a cena. Em outra oportunidade, já tínhamos feito dentro de um Battle in the Cypher o lançamento do livro, na Casa do Hip-Hop de Diadema, aonde eu com meus 22 anos apresentei o livro para inspirações como Rooney, o Jaspion, o Casper, em Minas Gerais tive a honra de conhecer e falar do livro pro P.MC e foi a maior responsa, nunca vou esquecer esses momentos, aonde eu com tão pouco tempo na cena pude realizar coisas significativas e apresentá-las para pessoas que eu conhecia só pelo YouTube, por documentários, tão importantes pra cena do Brasil.
Em meio a pandemia, adaptação e novos rumos para o futuro
BW: Vocês saíram do Brasil e foram para o Uruguai. Uau!!! Como foi levar essa exposição para outro país? Você e a B-Girl Ramoni, duas mulheres, uma ministrando workshop e outra à frente de todas as coisas. Como foi essa troca de mulheres brasileiras com mulheres uruguaias
Bruna: Meu primeiro contato com o Hip-Hop do Uruguai foi por meio da Viky, B-Girl, MC e escritora de Graffiti lá de Montevideo, que desde 2012 não falha um Battle in the Cypher aqui em Bento (risos), foi por meio dela que eu senti (e sinto até hoje) aquele orgulho de ser quem eu sou, aquela sensação de que: “eu sou porque nós somos”. Conhecer a Viky aqui, ver tudo que ela é e representa e depois ter a oportunidade de conhecer Montevideo e tantas mulheres “fodas” que tem lá, me fez ter uma ligação muito forte com a representatividade feminina na cena e fazer a exposição lá foi só uma consequência dessa ligação. As mulheres do Hip-Hop no Uruguai sempre me inspiraram desde que as conheci, e ir pra lá ou recebê-las aqui é sempre especial.
BW: Como você vê a presença das mulheres hoje dentro da Cultura Hip-Hop? O que é necessário alcançar? São vistas e respeitadas?
Bruna: Falei em uma oportunidade algo do tipo: não precisa nos incluir, a gente sempre esteve aqui. Pois na verdade sempre estivemos na cena, às vezes não muito respeitadas, às vezes sem espaço, sem voz. Mas essa ascensão feminina não é de hoje, aonde víamos uma mulher pode ter certeza que tinham várias, nem sempre com a mesma visibilidade, essa visibilidade aumentou porque nos fortalecemos, acho que como Hip-Hop aprendemos e seguimos aprendendo a olhar mais para as mulheres e por isso vemos mais. Nos fortalecemos entre nós, o que faz com que aonde uma mulher pisa, leva várias junto, os degraus mudaram e a gente aprendeu a subir e a levar outras com a gente. Acredito que quando pararmos de entender o Breaking como algo masculino, teremos uma evolução significativa na visão perante as mulheres e isso é mais difícil do que aceitá-las (risos), mas eu acredito nessa desconstrução e farei o que estiver ao meu alcance pra mudar essa percepção. Seja por meio da fotografia ou nesses lugares de fala.
BW: Quais são os planos para o futuro?
Bruna: O plano já traçado é o segundo livro (risos), nesse momento estamos montando um mini documentário que é uma releitura do Faces da Cypher de 2018 do livro, só que com todo esse “novo mundo” que a pandemia nos mostrou. Tínhamos viagens e o início das captações do segundo livro já programadas, o livro será sobre cypher também mas em escala nacional, fotografando essas cyphers independentes pelo Brasil. Mas tivemos que adiar por motivos óbvios. Já temos o primeiro roteiro programado e assim que for possível, começarão as captações, primeiro no Sul (Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina). Esse imagino ser possível com 5 anos de trabalho. Quero aproveitar bastante o processo e o tempo deverá ser estendido porque precisamos sempre captar recursos e fazer os corres de grana pra poder pagar as viagens, que deverão ser feitas para o projeto acontecer.
Fotos: Arquivo Pessoal
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“O sertanejo [nordestino] é, antes de tudo, um forte.” (Euclides da Cunha)
O nordeste, ao contrário do que muitos possam pensar, é um celeiro de talentos, rico na diversidade de sua cultura, história, terra de gente forte, com sangue nos olhos, que não tem medo de dias difíceis e desafios. Seus problemas e dilemas foram retratados em alguns textos e canções que foram eternizados, ganharam o mundo. Quem nunca escutou Asa Branca: “Quando olhei a terra ardendo; Qual fogueira de São João; Eu perguntei a Deus do céu; Ai, Por que tamanha judiação…”, música de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, ou, “Nordeste Independente”, composição de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova. “Já que existe no sul esse conceito, que o nordeste é ruim, seco e ingrato; Já que existe a separação de fato, é preciso torná-la de direito. Quando um dia qualquer isso for feito; Todos dois vão lucrar imensamente começando uma vida diferente de que a gente até hoje tem vivido; Imagina o Brasil ser dividido e o nordeste ficar independente; Dividindo a partir de Salvador o nordeste seria outro país; Vigoroso, leal, rico e feliz; Sem dever a ninguém no exterior…; Tem o pão repartido na metade; Tem o prato na mesa, a cama quente; Brasileiro será irmão da gente; Vai pra lá que será bem recebido; Imagina o Brasil ser dividido; E o nordeste ficar independente…”.
Composta pelos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, a região Nordeste “antes de tudo um forte”, assim foi descrita por Euclides da Cunha, se tornando um canalizador de movimentos culturais e talentos.
Nessa atmosfera, a Cultura Hip-Hop chegou para ficar e fazer a diferença na vida de muitos nordestinos, na década de 1980 quase tudo era visto por meio de revistas, filmes e vídeos que vinham de fora do país, nessa época não existia internet. Existia, sim, algumas festas que as pessoas frequentavam e dançavam, ali começava uma história, uma movimentação que nunca seria passageira, no final dos anos 80, 90 já era possível ver na cena vários breakers espalhados na região.
O tempo passou, hoje o nordeste continua sendo o berço de muitos talentos e tem motivos de sobra para se orgulhar disso, na Cultura Hip-Hop a história se repete e não deixa nada a dever a qualquer outra região. Se você é daqueles que torce o nariz quando encontra numa roda um B-Boy ou uma B-Girl do nordeste, talvez você precise rever seus conceitos e tomar cuidado para não levar um couro na cypher.
Bart (esquerda) e Till (direita): nordestinos, representaram o Brasil na última edição da “Red Bull BC One”, na Índia.
Nomes como o do cearense Mateus Melo, conhecido como Bart e Francisco Cleiton Verçosa, o B-Boy Till, estão entre os nomes dos melhores B-Boys brasileiros, destaques na cena nacional e mundial do Breaking. “Vem conhecer, saber o porquê que sempre vamos defender essa terra tão querida de brilhantes artistas e rico em culturas e festivais. Conhecer as deliciosas comidas típicas nordestinas. Tenho certeza que você pode mudar sua visão em relação a minha terra”, declara Till, atual campeão da Red Bull BC One Cypher Brasil. Nascido em Fortaleza (CE), começou a dançar Breaking aos 14 anos e também nessa idade já praticava a capoeira, o amor pela Cultura Hip-Hop surgiu a partir do momento que começou a entender o que era o real Hip-Hop, assistindo vídeos, conversas com os “Old School”.
B-Boy Till
Conta que teve grandes referências em Fortaleza, onde aprendeu a dançar. São dele as palavras: “A cultura é muito importante na minha vida e acredito que na vida de muitos periféricos que nem eu. A Capoeira e a Cultura Hip-Hop salvam vidas, sim! Eu sou a prova disso! Na minha vida já tiveram algumas pessoas com aquele desconforto de querer se sobressair sobre mim ou aquele preconceito de nos tratar como minoria. Mas tudo bem, é vácuo para essas pessoas ou papo reto quando tiver face a face. Gosto de dialogar e falar o quanto não me importo com o que o fulano acha de mim e do meu nordeste, que por sinal, venhamos e convenhamos é maravilhoso. Pessoas preconceituosas, racistas, marxistas, homofóbicos, esses tipinhos sabe?! Qual o problema de cuidar da própria vida? Seu preconceito não mudará nada do quão eu não me importo e sei que muitos nordestinos também não. Respeito hoje, respeito amanhã e respeito sempre”, conclui Till.
Para Ivis Love, que é paraibano, B-Boy e Arte-Educador desde 2012 e trabalha com uma metodologia própria de ensino, desenvolvendo material digital, como treinamentos e conteúdos digitais de Design como forma de informação sobre a Cultura Hip Hop, o foco é priorizar a vivência de cada criança, adolescente e adulto, tentando assim ampliar o universo do Breaking.
O Nordeste é a região mais rica culturalmente do Brasil e até do mundo. Ele relata: “Com variedades pouco conhecidas pelos B-Boys e B-Girls do nosso país, a realidade nunca foi enxergar a pobreza, até por que o povo não tinha e muitos ainda não têm outra perspectiva de mundo, só resta viver como dá. Toda cultura dá um sentido para a vida, em todos os sertões se tem culturas populares fortes, que são seguidas como religião. E são muito mais além do que se pode descrever. O Hip-Hop, de fato, sempre salvou vidas de inúmeras formas, temos consciência que a juventude é facilmente iludida pelo injusto sonho alimentado de ser atleta e no nordeste temos muitos nomes que se deram bem, e inúmeros com muito potencial que não conseguiram, graças ao gritante distanciamento social e divergência de classes que existe em nosso país. Posso dizer que o Hip-Hop veio como uma válvula de escape, uma oportunidade de ver o mundo de outra forma, um incentivo para buscar outros idiomas, outros povos, outros costumes, onde se educou como sermos melhores em casa, como poderíamos ser alguém diferente do que a sociedade impõe e ainda sim levar sustento para nossa casa. Creio que assim pudemos ter um diferencial e quebra de preconceitos”.
Ivis Love é B-Boy e Arte-Educador e reside em Campina Grande (PB)
O contato de Ivis com a cultura vem de muito tempo, ele conta que teve o real entendimento que o verdadeiro Hip-Hop se trata da cultura do povo, trabalhou com cultura popular nordestina desde os 15 anos, porém, com 18 anos teve de fato o que considera o primeiro contato com o Breaking, por meio do saudoso B-Boy Banks da “Back Spin Crew”.
Segundo Ivis foi amor instantâneo, quando o Banks falou palavras que o fizeram enxergar as coisas de forma diferente, pois havia sido expulso do local onde já havia Breaking em Campina Grande-PB. E foi quando Banks o convenceu que poderia sim ser B-Boy, falando que não era o que se fazia, era como fazia e pela causa que se fazia. E então, diante disso, se comprometeu a ser um B-Boy verdadeiro e levar essa mensagem pelo resto de sua vida. Ele declara: “Não tive professores de Breaking, aprendi sozinho, olhando e querendo fazer, referências para mim foram meu mestre de Frevo (Alexandre Felizardo) e Banks (primeiro a me falar sobre Breaking de verdade). Me orgulho por ter começado aqui, amo saber bem de cada cultura a que faço referência em minha dança, tem ciência da cultura local, me faz sentir-me muito mais pertencente e representante do local de onde sou, Nordeste, Brasil. Desafios são vários, posso citar alguns: distância e custo de viagens para o Sudeste, onde acontece, infelizmente, uma centralização de recursos e eventos de qualidade; outra dificuldade que eu vejo, é uma constante falta de união entre os estados nordestinos na atualidade, em relação a eventos e ações, a competitividade se tornou algo forte, quase nunca positiva por aqui. Eu tenho muitas amizades que nasceram dentro de competições, creio que uma outra dificuldade aqui é causada muitas vezes por “nós” mesmos, quando não se valoriza a história do local, quando não se busca conhecer e dar continuidade. Nordeste é forte e tem gente que não sabe disso, e quem sabe muitas vezes quer tirar vantagem em cima das demais pessoas. Eu vejo uniões por diversas coisas na rede social, mas que na prática nunca aconteceram, encontros de final de semana, não se transformam em ações diárias e essa é a dificuldade para nossa cultura no Nordeste. Fazer com que nos eduquemos, não para sermos mais do que outras pessoas, mas sim para nos unirmos mais com a comunidade, com o povo. Hip-Hop é povo e não evento! É importante entender que a força e o talento do Nordestino sempre estiveram presentes em competições e eventos pelo Brasil e mundo, pois bem lá atrás, o B-Boy Chimbade de Recife (PE) vivia na Europa, onde ensinava passos da dança frevo para europeus que valorizavam demais as danças nordestinas”, explana Ivis.
Ivis Love dá palestras para crianças
E continua: “Falando de competição, em 2007, a Nação Break de Recife (PE), mostrou com apenas 7 B-Boys, tendo dormido na rua um dia antes da competição, que tinham muito mais a oferecer, sendo classificados nos shows da BOTY Brazil do ano. Em 2009, o Nordeste teve 4 B-Girls nas finais da BOTY América do Sul, em Campinas (SP). Em diversos outros anos o Nordeste teve B-Boys campeões em competições diversas pelo Brasil e fora do país e B-Girls em destaque por todo o território nacional. O preconceito existe e a xenofobia também na cena brasileira. Piadas idiotas, costumes em ridicularizar as falas e erroneamente falarem sobre seca e dificuldades. Infelizmente, as pessoas em nossa cena costumam lutar por uma causa só, se não as afeta, deixam passar, mas no Hip-Hop não deveria existir isso. E, por isso, não compareço em diversos eventos do nosso pais que não sejam realizados por uma organização de respeito. Se eu pudesse falar algo para todos diria: Curem-se, estudem, se achar que já sabem muito, estudem mais, sejam mais humanos, e parem de ser idiotas… Gostaria de ver a cena no Nordeste se fortalecer, todos por todos, valorização dos diversos valores que têm aqui presentes, pessoas com conhecimento, com potencial, pessoas de diversas áreas, capazes de atribuir muito valor em diversos segmentos da cena. Gostaria de ver a cena nordestina não parando no tempo, não se tornando corruptiva, sendo cada vez mais Hip-Hop como referências que já tem. Gostaria muito que as coisas não se limitassem apenas a capitais, que as pessoas que difundem cultura pudessem fazer por mais pessoas e localidades e não guardassem apenas para interesses próprios. Gostaria de ver a região Nordeste unida, valorizando e sendo valorizada, não apenas por títulos, mas por tudo que temos de qualidade”, conclui.
B-Girl Llys
Do Maranhão, a B-Girl Elly faz coro com Ivis e acrescenta: “Eu gostaria que os meus irmãos B-Boys e irmãs B-Girls da cultura tivessem mais visibilidade e oportunidades para mostram todo o seu talento país afora. Aqueles que criticam nossa terra, que possam estar vindo conhecer de perto a maravilha que é o Nordeste. Somos humildes e acolhedores…”.
Elly, na cena, é conhecida como B-Girl Llys. Nascida em São Luis (MA), onde ficou até os 22 anos, depois se mudou para Brasília (DF). Llys conheceu o Hip-Hop quando tinha apenas 13 anos, por meio de filmes e pessoas que já dançavam e também dançava na igreja que frequentava. Fez parte de duas crews: “Resistência X” e “Plano B”. O amor pelo Breaking surgiu quando tinha 16 anos. O breaking marcou sua vida de uma forma especial. Conheceu por meio de um amigo B-Boy. Desde então, nunca mais abandonou o estilo que a desafia todos os dias. Uma grande referência para Llys é o próprio esposo, que também é B-Boy, além de outros B-Boys “Old School” e algumas B-Girls.
B-Girl Llys nasceu em São Luis, no Maranhão
São dela as palavras: No Maranhão e em todo o nordeste, há muitos locais que não têm uma boa acessibilidade, apoio e investimento. Então, os jovens ficam à mercê de duas coisas: do crime e das facções. O Hip-Hop em si trabalha nessa área, leva acolhimento e disciplina, paz e união, fazendo com que os jovens comecem a ver na dança um refúgio para seguir um caminho melhor. Temos bons B-Boys e boas B-Girls nos representando, o Till ter ganhado a Cypher Brasil foi um salto muito grande para a visibilidade do Nordeste na cena. Muito importante esse acontecimento. Assim como ele, há dançarinos muito talentosos que não têm tantas oportunidades de mostrar isso afora. Para nós, mulheres, além do preconceito na cena o nosso maior desafio tem sido com o machismo e também o assédio dentro do Breaking”, finaliza.
Para a baiana Michelle, o machismo no Breaking está fora dos trilhos, é preciso mudanças.
Michelle Arcanjo, B-Girl de Salvador, concorda e declara: “O machismo na nossa terra é muito forte! É uma luta diária! Precisamos nos impor e fazer o que temos que fazer, meter as caras, ficar atenta sobre a questão do assédio, existe muito pouca escuta dos B-Boys em relação a pautas femininas no Nordeste. Ser B-Girl no Nordeste não é fácil. No Nordeste é algo bem desafiador, porque primeiro não há muito reconhecimento, falo mais ainda da Bahia, que são menos conhecidas. Tem menos visibilidade. Pela dificuldade que temos de sair daqui e ir para outros estados para participar de eventos, até mesmo pela questão financeira, e aí acabamos não sendo vistas e nem conhecidas. Mas isso tem se modificado principalmente agora em tempo de pandemia, que as pessoas estão mais conectadas na internet, do surgimento da “Rede de B-Girls”, então, observamos que esse intercâmbio tem favorecido a comunicação e o conhecimento entre os estados. O maior desafio de ser nordestina é vencer essas questões da própria sobrevivência e estar ativa dentro do movimento”.
Michelle passou a maior parte da vida morando numa cidade que fica na região metropolitana chamada Simões Filho. Seu contato com a Cultura Hip-Hop começou na escola de dança da “Fundação Cultural do Estado da Bahia”. Começou a dançar por meio das danças acadêmicas, então, foi por meio do Ballet Clássico e da Dança Moderna, que costumava frequentar e fazer aula, que conheceu uma B-Girl que se chamava B-Girl Pink, ela a convidou para uma aula de Breaking. Michelle já tinha, na época, 19 anos e aí esse foi o primeiro contato com esse elemento. Também teve contato com o Hip-Hop por meio de filmes, na mesma época de 2008, 2009, assistia muito filmes de dança, então, via muita coisa de Hip-Hop nesses filmes, mas levar o Breaking a sério foi mesmo em 2010.
O que a baiana tem? Tem Breaking e muita alegria.
O amor pela Cultura Hip-Hop surgiu nas aulas de Breaking que frequentava no Pelourinho. Começou aprendendo com a B-Girl Pink, mas seu mentor foi o B-Boy Índio Medeiros, que hoje não está mais ativo na cena. Michelle se inspirava muito neles, atualmente suas referências são FabGirl, B-Girl Pekena, B-Girl Jaque, B-Boy Sabota, B-Boy Insano, B-Boy Jessé, de Alagoas e B-Boy Fabrício, de Belo Horizonte. Sobre os desafios da região, são da B-Girl Michelle, que faz parte da “Soul´ta Crew”, as palavras: “Em Salvador, nós temos uma condição de extrema pobreza nas comunidades e é inevitável falar como a Cultura Hip-Hop tem um papel importante na conscientização de quem somos e onde estamos nessa pirâmide social, trazendo possibilidade de crescimento para que a pessoa possa sobreviver não apenas de suas áreas, mas de outras também, que permeiam os movimentos culturais, como a produção cultural e tudo o mais. Mas a maior contribuição da Cultura Hip-Hop é tirar as pessoas de condições de violência, de criminalidade e realmente tem salvo vidas neste sentido. Outro problema é a xenofobia muito presente, eu percebo isso, até porque B-Boys e B-Girls de outros estados subestimam muito o B-Girling Nordestino e falo de algo que tenho propriedade para falar, porém, eu vejo muito mais isso na Bahia do que em outros estados do Nordeste. Eu já escutei piadinha, sim, por ser da Bahia, quando viajei no Centro-Oeste eu escutei muitas coisas, de ser preguiçosa, enfim, estereótipos que atribuem a baianos e que são mentirosos e também piadinhas machistas em relação à mulher nordestina. Eu nunca me senti diminuída, porque eu sempre fui muito de dar a cara à tapa. Mas eu já fui constrangida dentro de cyphers em relação a fazer alguns movimentos para validar a minha dança, de ter que validar o que eu faço tendo referência de B-Girls de outros estados e isso foi bem chato. Mas seguimos firme nas nossas metas, as mulheres brasileiras no Breaking são muito batalhadoras e cada vez mais organizadas e isso tem sido um diferencial na cena. Para quem discrimina o Nordeste eu digo: venham ver o que nós temos, a nossa criatividade, é uma grande besteira a discriminação. Toda discriminação é algo muito burro! Perdemos força com isso, quando poderíamos estar ganhando força e o que mais gostaria de ver na cena em relação ao Nordeste é um verdadeiro intercâmbio onde um pudesse aprender com os outros!”, conclui a B-Girl.
B-Girl Lora tem se destacado na cena e mostra a força da mulher nordestina.
Para o casal David Anderson e Vanessa, bem presentes na cena do Breaking nacional, mais conhecidos como B-Boy Suicibreak e B-Girl Lora, os nordestinos, mesmo com toda dificuldade, vêm derrubando barreiras e conquistando seus espaços. Eles garantem que ser B-Boy e B-Girl no Nordeste é muito bom, contam que a população incentiva sempre, passando positividade, as vivências que acontecem com o Breaking sempre são muito boas, mas lamentam sobre as dificuldades com patrocínios e apoio de órgãos públicos e privados para representar o estado em outras regiões.
Declararam: “O Nordeste, principalmente o Ceará, está crescendo muito na cena Breaking. Ano passado tivemos vários representantes na “Cypher Red Bull” e dois B-Boys cearenses na Índia, na “Last Chance”: B-Boy Till e B-Boy Bart. Aos poucos, tudo começa a mudar com os espaços conquistados por nordestinos, o preconceito existe, já escutamos algumas coisas, têm muitos Raps feitos por nordestinos que falam sobre esse preconceito. Essa situação, de certa forma, não nos atinge, pois aqui aprendemos a dar a volta por cima”.
Suicibreak é nascido em Fortaleza (CE), seu primeiro contato com o Hip-Hop foi na infância, escutava Rap nacional. Na escola, a professora de artes fez um estudo sobre o Hip-Hop, onde então conheceu um pouco sobre o assunto, depois, viu um treino de Breaking no bairro e achou “muito massa”, na feira encontrou um DVD de uma competição de breaking, “Red Bull BC One 2005”, então, no ano 2008, procurou alguns B-Boys da cidade e começou a aprender o máximo com eles e até hoje vem vivendo essa cultura.
Lora também nasceu em Fortaleza (CE), seu primeiro contato com a cultura Hip-Hop foi na escola, tinha 14 anos. Atualmente, representando o Nordeste, vem fazendo várias viagens. Sua presença dentro dos eventos vem sendo destaque, com algumas conquistas de vários títulos dentro da cultura, tanto no Nordeste como no resto do país. Foi Campeã na categoria B-Girl no evento “True Floor”, no ano de 2018, em Goiânia (GO); 1º Lugar na categoria B-Girl no evento “Fendafor”, no ano de 2018 em Fortaleza (CE); 2º Lugar na categoria B-Girl, na “Batalha do Cerrado”, no ano de 2018, em Jataí (GO). Seus corres para estar em outros eventos, em outros estados, foi difícil. Enfrentou diferentes climas, teve que se adaptar para os treinos, já viajou para São Paulo (SP), Uberlândia (MG), Goiânia (GO), Rio Grande do Sul e Brasília (DF).
Atualmente, eles contam o que andam fazendo: “Estamos treinando, aprendendo novos conteúdos para futuras competições, estamos fazendo “Street Shows” na cidade, participando de eventos on-line, organizando o nosso grupo “É Nois Crew” e esperando a pandemia passar para retomarmos as atividades por completo”, concluem.
B-Girl Lora e B-Boy Suicibreak têm viajado de Norte a Sul do país. Companheiros no Breaking e na vida.
O nordeste resiste e persiste, possui quase 50 milhões de habitantes e é a região geográfica do Brasil com o maior número de estados. Suas festas populares, danças, folguedos, crenças, mitos, comida, artesanatos e principalmente seus talentos, mostram que o nordeste é rico! E pobre é o preconceito! Como diz Rapadura Xique-Chico na música “Nordeste me veste”, que começou na cena dançando Breaking e depois foi rimar: “O nordeste é poesia; Deus quando fez o mundo fez tudo com primazia; formando o céu e a terra cobertos com fantasia”. Ele, em uma das estrofes, manda o recado: “… Minhas irmãs, meus irmãos; Se assumam como realmente são; Não deixem que suas matrizes, que suas raízes morram por falta de irrigação. Ser nortista e nordestino meus conterrâneos; Num é ser seco nem litorâneo. É ter em nossas mãos um destino, nunca clandestino para os desfechos metropolitanos…”.
Fotos: Arquivo Pessoal
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Girl Llys
B-Girl Llys
B-Boy Ivis Love
B-Boy Ivis Love
B-Boy Suicibreak e B-Girl Lora nas comemorações de 25 anos da Casa do Hip Hop em Diadema (SP)
B-Girl Lora (esquerda) e B-Boy Pelezinho (direita)
B-Girl Lora, B-Boy Suicibreak e a "É Nois Crew"
B-Girl Lora
B-Girl Michelle
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Não era coisa de uma moça de família vestir agasalho da Adidas, tênis com cadarços grossos e coloridos e andar acompanhada de uns 20 homens em plena luz do dia na década de 80. Por um outro lado, para ser respeitada na cena, já dizia Dina Di em algumas entrevistas, era importante passar uma imagem masculina para ter respeito, ter que seguir um tipo de vestimenta e postura, pois só dessa forma seria verdadeiramente vista e levada a sério, coisa que jamais aconteceria se a mina tivesse uma postura mais doce e usasse vestidos.
Enfrentar o preconceito, esconder tudo da família, escolher as calças ao invés dos vestidos: era resistir a tudo e a todos! Encarar olhares críticos da sociedade, os machistas que falavam o tempo todo muitas vezes sem dizer uma única palavra, não era para qualquer uma! Não, não era! Mas sim para as guerreiras, verdadeiras “Divas do Hip-Hop”!
No elemento Breaking elas também escreveram história e mesmo não sendo a maioria até hoje, sempre deixaram a cena mais bonita, viva e completa!
O Portal Breaking World apresenta uma entrevista exclusiva com a B-Girl Kika Maida, também conhecida como a primeira B-Girl do Brasil. Vale conferir:
BW – Fale onde nasceu. E quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Kika Maida – Nasci em São Paulo, Brasil e meus pais são bolivianos, minha mãe, dona de casa e meu pai, era ourives e cantor de bolero. Minha infância foi muito tranquila, na época eu era muito tímida. Na adolescência, eu dançava Funk de James Brown, meu primeiro contato com a Cultura Hip-Hop se iniciou em meados do anos 1980, quando conheci um grupo de dançarinos na Estação Tiradentes do Metrô. Eu os vi dançando e fiz amizade com eles. Nesse mesmo dia, os “urubus” pediram para nós sairmos do Metrô Tiradentes. Foi aí que o João Break teve a ideia de irmos para a São Bento. Quando conheci a São Bento, meu coração dizia: “É aqui que temos que ficar”. Foi dessa forma que surgiu a São Bento e tudo que conhecemos hoje!
Kika Maida na São Bento. Ao fundo, DJ Gato Magro e DJ Ninja
BW – Com quem aprendeu a dançar Breaking? E quantos anos tinha? Quem eram suas referências na dança naquela época?
Kika Maida – Com 14 anos, eu aprendi a dançar Breaking vendo os meninos dançarem. Os B-Boys eram o João Break, Luizinho, Wilson, Hélio, Paulo Cabeção e o Deilton. Eu não tinha nenhuma referência na dança, com o tempo apareceu o filme “Beat Street” no cinema e aí conheci a Baby Love.
BW – Uma mulher que estava no meio de tantos homens dançando Breaking. Como sua família via isso naquela época?
Kika Maida – Minha família nunca soube que eu andava com 20 meninos.
BW – Você sofreu algum tipo de discriminação fora e no meio do Breaking por ser B-Girl?
Kika Maida – Na sociedade eu era, sim, discriminada, por dançar o Breaking, por andar de agasalho com vinte homens. A maioria dos B-Boys me tratavam como uma irmã, cuidavam de mim. Já outros B-Boys ficavam na deles, só observando!
BW – Como era sentida a presença de uma mulher, de um B-Girl no meio da roda de Breaking?
Kika Maida – Alguns B-Boys me admiravam, outros me ignoravam. Mas a maioria gostava muito da minha presença e admirava a minha coragem, num tempo bem diferente do que vivemos hoje.
Kika Maida hoje é rapper e dá palestras
BW – Alguma vez você sofreu algum tipo de assédio? Esse problema é antigo entre B-Boys e B-Girls?
Kika Maida – Nunca sofri assédio pelos seguintes motivos: eu tive uma educação e foi muito rígida. Eu era bem séria e ficava rodeada de homens que me respeitavam.
BW – Muitas mulheres do Breaking reclamam de serem conhecidas como a mulher do B-Boy “X” ou a mulher do B-Boy “Y”, mas quase nunca pela própria história. Isso aconteceu com você?
Kika Maida – Sim, no passado. Antigamente, sim, eu era conhecida por ser a mina do Thaíde. Hoje não. Eu sou a Kika Maida.
“Back Spin Crew”
BW – Fale da sua Crew. Quantas pessoas tinha? E como eram aqueles dias da efervescência do Breaking da década de 80?
Kika Maida – Minha Crew era a “Back Spin”, éramos 9 dançarinos. A década de 80 foi o auge do Breaking, então, todos queriam dançar achando que seria uma modinha. Houve momentos emocionantes, como rachas entre Crews, mas também houve muitas brigas. Um momento que marcou muito para mim foi o “racha” da “Back Spin” contra “Nação Zulu” na São Bento, eu fiquei nervosa, pois a Crew “Nação Zulu” dançava muito. Os rachas sempre eram emocionantes!
BW – Como eram os encontros na São Bento, como era a vibe? E como a sociedade reagia a tudo isso?
Kika Maida – Os encontros da São Bento eram emocionantes. Eu não via a hora de chegar sábado para me encontrar com os meninos. Com o passar do tempo, a vibe foi ficando cada vez melhor, pois havia mais B-Boys frequentando a São Bento e, dessa forma, tínhamos mais informações, mais conhecimento, novos movimentos de dança, mais amizades. A sociedade nos olhava de forma crítica, pois nós usávamos agasalho e, nessa mesma época, os malandros que hoje são chamados de “noias” também usavam agasalho. Mas éramos dançarinos de fim de semana e durante a semana nós éramos trabalhadores. Nos anos 80 você não via B-Boy fumando ou bebendo. Éramos “geração saúde”.
Rose MC e Kika Maida no encontro da São Bento
BW – Que outras mulheres faziam parte da cena naquela época? Pode citar algumas que fizeram história aqui em São Paulo?
Kika Maida – No ano de 1980, não havia mulheres dançando Breaking no Brasil. Em 1987, entraram duas B-Girls na “Back Spin”, que se chamavam Celina e Renata. Nesta mesma época, conheci a Baby da “Fantastic Force” e a Bety também, que dançavam muito bem.
BW – Muitos B-Boys do passado sofreram agressões da polícia. As mulheres também passavam por isso?
Kika Maida – Nunca tive problema com a polícia. Quando eu voltava com os meninos das baladas, os policiais nunca me tocaram.
Kika Maida recebe homenagem na São Bento
BW – Me fale um pouco sobre o modismo da época e como as B-Girls se vestiam para dançar naqueles dias?
Kika Maida – Na década de 80, nosso modismo era um agasalho da Adidas, além de um tênis da Adidas com cadarço colorido e grosso.
BW – Você chegou a se relacionar com alguém da cena? A namorar?
Kika Maida – Namorei com o rapper Thaíde, eu era muito guerreira e eu o ajudei a chegar onde chegou, também fui casada com uma pessoa que não era do Breaking.
BW – Você teve filhos? Como foi essa parada para ser mãe? E depois, como retornou ao Breaking?
Kika Maida – Tenho uma filha chamada Stella, não foi fácil cuidar dela, pois chorava o dia inteiro, mas ser mãe é deixar algumas coisas de lado e viver plenamente para os filhos. Foi isso que fiz e essa é a experiência que tenho. Me separei do pai da minha filha e veio na minha mente a ideia de voltar a rever os amigos, ouvir as músicas que tanto amava. Um belo dia, andando no centro da cidade, vi três crianças pedindo dinheiro ou comida e eu somente olhei e não contribuí com nada… Decidi, então, mudar de profissão para ganhar mais e ajudar o próximo. Decidi ser rapper. Dessa forma voltei para a cena.
BW – Passado os anos, como você vê as B-Girls e os B-Boys atuais da nova geração? Muita coisa mudou?
Kika Maida – Vejo os dançarinos como se fossem meus filhos, com muito orgulho… Mudou tudo! A forma de dançar, as roupas, antes era racha hoje é competição, antes era intuição hoje é conhecimento, antes era papelão hoje é decorflex. Antes era rua agora é academia e eventos. Enfim tudo mudou!
BW – Que lembranças guarda de dias que não voltam mais?
Kika Maida – Em 1987, eu e minha Crew “Back Spin” e a “Nação Zulu” participamos de um seriado no canal dois, chamado “Luci Puma: a gata da pesada”. Em comemoração a esse seriado, os cariocas pagaram para as duas Crews passagem e hotel para ficarmos dois dias no Rio de Janeiro, pois haveria uma grande festa. Chegando na festa éramos 35 mais ou menos, havia inúmeros B-Boys cariocas, como uns 90. Abriram a roda e nos chamaram para um racha, São Paulo x Rio de Janeiro. Quando estávamos perdendo me jogaram na roda… E aí o que aconteceu? Dancei em cima e depois fui para o chão, todos me aplaudiram. Ficaram impressionados comigo! São Paulo venceu e naqueles dias da década de 80, eu fiz a diferença como B-Girl. Toda vez que eu me lembro desse acontecimento me emociono muito.
BW – O que significa o Breaking na sua vida?
Kika Maida – O Breaking para mim é tudo, envolve muito amor, paz e respeito.
Fotos: Arquivo Pessoal
Kika Maida fez história no Breaking brasileiro
Kika Maida fez história no Breaking brasileiro
Kika Maida fez história no Breaking brasileiro
Kika Maida fez história no Breaking brasileiro
Kika Maida fez história no Breaking brasileiro
Kika Maida fez história no Breaking brasileiro
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“A dieta do pobre é não morrer de fome. A fome foi muito presente na minha vida por muitos anos.” (B-Boy Till)
Ele é de Quintino Cunha, bairro que fica em Fortaleza, no estado do Ceará. De uma família humilde, teve uma vida difícil, o que não o impediu de correr atrás dos próprios sonhos.
Foi com a mãe que também foi pai que aprendeu a ler por meio de uma cartilha, sendo o único da família a terminar o ensino médio. Sua paixão sempre foi a capoeira, mas foi por intermédio do Breaking que criou asas e voou de encontro aos próprios sonhos, ganhando a etapa nordestina do “Red Bull BC One” e, depois, a “Cypher Brasil”, numa disputa emocionante que pegou fogo em uma das noites mais frias paulistanas em 2019, o que o levou em seguida para a Índia, junto com mais dois brasileiros, B-Boy Bart e B-Girl Itsa, representando o Brasil.
Sem dúvida, ele escreveu o nome na história e está entre os melhores B-Boys brasileiros! Estamos falando de Francisco Cleiton Verçosa, da Perfect Style Crew ou, somente, Till. O Portal Breaking World teve a satisfação de conversar com ele e abordar vários assuntos sobre a vida e a dança do atual campeão da “Red Bull Cypher Brasil”.
Veja a entrevista na íntegra:
BW – Fale sobre a sua infância, onde nasceu e foi criado, sobre a sua família. Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Till – Eu sou de uma família humilde, que sempre lutou pela sobrevivência do cotidiano. Nascido em Fortaleza-CE, no bairro Quintino Cunha. Na minha infância, no período de 1 a 4 anos, lembro que nunca ficávamos no mesmo lugar, minha mãe, sendo pai e mãe para nós (4 filhos – 3 homens e 1 mulher). Nunca consegui estudar direito. Já morei em vários lugares de Fortaleza, chegando a morar até em um interior próximo à cidade. Itaitinga para ser exato. Esse foi um lugar onde passei muitos anos de necessidade, mesmo com casa própria. Até voltar para Fortaleza e, desde então, sempre morar de aluguel. Desde quando morávamos juntos, meus irmãos, minha mãe, minha tia e eu e várias outras pessoas, incluindo uma prima minha, sempre foi uma luta cansativa e sempre via o resultado da mãe no final do dia antes de irmos dormir. Aprendi a ler em casa com a minha mãe, com uma cartilha do ABC. Depois mudamos para Antônio Bezerra-CE, que é onde vivi o restante da “infância” e quase toda a minha vida até hoje. Estudei, único da família a terminar o ensino médio e sempre buscando algo melhor por meio da arte para minha mãe e tia, que moram comigo. Meus irmãos estão cada um em suas casas, com seus parceiros. Atualmente, tenho 25 anos e em 4 dias faço 26.
Atual campeão da “Red Bull BC One Cypher Brasil”, B-Boy Till
BW – É verdade que sua paixão pelo Breaking começou quando assistiu a uma apresentação na escola onde seu sobrinho estudava? Conte como foi isso.
Till – Um certo dia levei meu sobrinho para a escola, para praticar o Hip-Hop e, quando vi, me apaixonei. Na época, tinha 14 anos e já praticava capoeira, que também amo.
BW – Com que idade começou a dançar Breaking? Alguém te ensinou? Quem eram suas referências?
Till – Comecei com 14 anos. No Breaking era muito difícil ter uma didática de como compartilhar o Breaking/Hip-Hop para os demais aqui na minha cidade, sinto que no meu começo muitas pessoas não me passavam bases, steps, movimentos, porque viam uma capacidade, uma força de vontade tão grande de querer entender/aprender aquilo que estava vendo, que isso causou inveja em algumas pessoas próximas. E isso me atrapalhou muito. Tive muitos incentivadores, mas hoje vejo que eram aproveitadores do meu talento. Mas, apesar disso, sou muito grato a todos que já passaram pela minha trajetória de vida. E deixo bem claro do quão sou grato. Há uns 9 anos, achava que só existiam competições, cyphers, outros treinos, só no exterior. Se a galera fosse menos egoístas na época, talvez, meu Breaking seria mais aproveitado, como faço hoje em dia e, quem sabe, minhas condições estariam até melhores. Mas Deus sabe o que faz.
Mesmo passando por muitas dificuldades, B-Boy Till conquistou seu lugar na cena
BW – Li que antes do Breaking outra paixão era a capoeira. Acredita que o fato de você ser capoeirista o ajudou no Breaking?
Till – A capoeira te ensina muita coisa, sem ela, não teria a disciplina mental e corporal que tenho hoje. Sem falar da flexibilidade que adquiri, praticando-a.
BW – Fale sobre o seu gosto por desafios e todo o preparo físico necessário para se alcançar um bom rendimento.
Till – Sempre gostei de desafios para aprender algo novo. E por isso, exploro todo meu corpo, além de exercita-lo, para deixá-lo inteligente, possível para fazer o que eu penso ou vejo de novo.
BW – Nos conte como são seus treinos, quantas horas e quantos dias da semana dedica a isso?
Till – A meta é treinar todos os dias, mas, agora, estou na fase adulta e tenho prioridades, como, por exemplo, ganhar dinheiro para pagar as contas do fim do mês, então, não tem como me empenhar todos os dias só no meu Breaking, apesar de também ser meu trabalho. Mas amo treinar e gosto de dar o meu máximo todas as vezes que treino.
BW – Procura manter alguma alimentação especial?
Till – Costumo falar que a dieta do pobre é não morrer de fome. Porque a fome foi muito presente na minha vida por muitos anos. Eu deixei de comer algumas coisas por falta de condições e porque também faziam mal à minha saúde, tipo, refrigerantes, salgados, pizza, guloseimas, e etc. Só não deixei completamente, porque como disse, como tudo, mas amo treinar muito.
BW – Você trabalha com dança e dá aula na sua cidade? Fale desse trabalho.
Till – Atualmente trabalho na empresa “Beach Park” com a função de animador/bailarino e com o meu Breaking, passando workshops e julgando eventos. Gosto de ser digital influencer no Instagram, que é onde consigo me comunicar com todo mundo.
B-Boy Till em seu trabalho como animador no Beach Park
BW – O que passou pela sua cabeça quando decidiu concorrer na “Red Bull”? Achou que chegaria onde chegou?
Till – Quando participei da “Red Bull” pela primeira vez, achei que os jurados sempre me dariam uma chance de mostrar o meu potencial. Fui treinando. Sem pretensão nenhuma de passar ou ser melhor que ninguém, apenas mostrar algo massa e movimentações originais minhas para a galera e, no final, tudo deu certo. Fui para o mundial!
BW – Como foi no dia da “Cypher Brasil”? Deu nervosismo ou aquele frio no estômago? Ou você se sentiu confiante?
Till – Estava chateado porque cheguei durante o evento. Cheguei 20h no sábado, o evento sempre começa na sexta e vai até o domingo. Bateu o nervosismo, o lugar era horrível de respirar, passei mal na semifinal, contra o participante Onnurb, ele também. Então, foram turbilhões de coisas ruins, mas aguentei e firme em Deus. No final, tudo deu certo!
BW – Na sua opinião, o que o levou a ser o campeão da “Cypher Brasil”? Na final, você e o Ruddy, dois grandes B-Boys brasileiros, como foi esse momento?
Till – Eu estava apostando na minha originalidade e o Ruddy na dele, então, eu acho que essa confiança de si próprio é que nos faz acreditar que podemos, sim, chegar lá e representar. O Ruddy já é veterano, muita experiência e viagens para o exterior. A minha ali ia ser a primeira. Mas deu certo, acho que só em eu ter chegado na final estava ótimo.
B-Boy Till foi um dos representantes do Brasil na Red Bull BC One, em Mumbai, na Índia
BW – Teve muita comemoração no Nordeste quando saiu o resultado? Qual foi a reação da família e de amigos?
Till – A reação é sempre não acreditar no que tá acontecendo. Mas esse era meu objetivo e consegui concluí-lo. E fiquei tranquilo, mas por dentro muito feliz. Pelo que eu vi de algumas pessoas, feliz e outras confesso que não entendi muito bem. Não sei, talvez, pensavam que eu teria novas atitudes por ter vencido esse evento. Mas estranhei a forma de me tratar, positiva e negativa. Eu estou tranquilo, o que mudou foi eu ficar mais conhecido para mais pessoas, alcançar mais pessoas e ganhar mais seguidores do Instagram. Só isso, e muito grato só por isso!
BW – Conte como foi na Índia, como foi competir com alguns dos melhores B-Boys do mundo?
Till – A Índia é um país forte em personalidades e culturas. Pessoas muitos gentis, comidas muito apimentadas, sem carne, sem o meu costume de arroz e feijão todo dia. Estranhei um pouco a alimentação, o clima, mas gostei. Eu estava sem grana nenhuma, então, não pude aproveitar muita coisa.
BW – É verdade que os estrangeiros, quando pensam em brasileiros dançando Breaking, esperam ver movimentos como o mortal, entre outros de Power Move, por causa da imagem que o Neguin fez lá fora?
Till – Acredito que o B-Boy Neguin acreditou no que ele tinha e mostrou, mas já é do brasileiro lançar nas battles movimentação como backflip (mortal para trás) e outros que lembram a capoeira, mas tem outros tipos de B-Boys no Brasil. Então, acho que os gringos devem pensar bem antes de deduzir que tal B-Boy faça tal coisa, porque existe vários outros “flava” no Brasil. Não só na técnica, mas no style também. Eu amo treinar os dois !
Além de B-Boy e animador, Till também é digital influencer.
BW – O que mudou na sua vida depois dessa experiência? Quais são seus planos para o futuro?
Till – O que mudou foi que eu tive minha primeira viagem para o exterior e foi para Mumbai, na Índia e mais seguidores no Instagram. Tirando isso, nada. Mas, também, acreditaria que haveria algum tipo de apoio ou patrocínio, mas nada.
BW – O que você diria para B-Boys e B-Girls da nova geração que sonham em chegar onde você chegou?
Till – Digo-lhes a vocês que querem chegar onde cheguei, que treinem bastante sem se importar com a opinião do outro, seja a disciplina e estude bastante, independente de sua classe social. Cuide do seu corpo e objetive as suas conquistas.
Fotos: Arquivo Pessoal
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till com amigos e familiares
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