No último final de semana (5), aconteceu em São Paulo, num calor de quase 40 graus, no Parque da Juventude, num espaço conhecido como “O Mundo do Circo”, a Red Bull BC One Cypher Brasil, reunindo B-Boys e B-Girls de todos os cantos do país e até do mundo, misturando também várias gerações e personalidades desse elemento da Cultura Hip-Hop. As filas, que pareciam não ter fim para acessar o local onde seriam as competições, confirmavam que o que não faltava era disposição ao público presente, formado na sua grande maioria também por dançarinos, artistas e esportistas, para assistir algumas das batalhas mais eletrizantes e insanas de 2025, no maior campeonato 1 vs 1 de Breaking do mundo. Esse ano a entrada para o público foi gratuita e reuniu também muitas famílias.
Algumas das grandes surpresas desse ano foram os nomes escolhidos para ganhar os “Wild Cards” (que são os convites diretos da direção do evento para o Top 16 da Final Nacional, sem precisar passar nas qualificatórias e sem ter se classificado pelos critérios normais) e também quem acompanha o evento pode notar uma transição entre gerações, que começou ano passado, em 2024, quando na Cypher Rio de Janeiro, num lugar também conhecido como Circo Voador, foi possível ver a paulistana B-Girl Angel do Brasil, de apenas 14 anos, passar com sangue nos olhos no filtro e batalhando depois com a B-Girl Rá no Top 16 das B-Girls adultas, fazendo história como a mais nova B-Girl a se classificar numa qualificatória da Red Bull BC One no país. Na ocasião, o evento foi julgado pelo B-Boy Lilou, pela jurada FabGirl e pelo jurado B-Boy Migaz. E, logo em seguida, no mesmo ano, na Cypher São Paulo, o B-Boy Jheff do litoral de São Paulo, ganhou o Wild Card para ingressar na nacional, perdendo para o B-Boy Sisan.
B-Boy Samukinha versus B-Boy Onnurb
Esse ano, mais novidades! Tivemos a B-Girl Mary-D, que ficou no Top 8 da Cypher São Paulo, B-Boy Samukinha, que também conquistou na arena seu espaço na Cypher Brasil, ficando entre os 4 primeiros colocados na Cypher Brasília e a B-Girl Keké da mesma crew do B-Boy Jheff, que também ganhou seu Wild Card, perdendo no início da vice-campeã Mini Japa. Vale dizer que todos esses jovens são destaques da nova geração de breakers e fazem parte da Seleção Brasileira Youth. São o futuro do Breaking brasileiro.
B-Boy Taz conquistou o público com seu carisma e energia.
Mas a competição também reuniu nomes bastante conhecidos na cena e consagrados, pela arena passaram: B-Boy Taz e B-Boy Luan, que tocaram fogo no circo! Taz trouxe uma energia contagiante, agitando toda a arquibancada, sendo aplaudido por todos, mesmo os jurados escolhendo o B-Boy Luan como vencedor daquele racha. Em seguida, B-Boy Samuka fez algumas das melhores batalhas da noite, primeiro contra o B-Boy Baby, em seguida Samuka passou e batalhou com o B-Boy Perninha, de quem é muito amigo, os dois deram um grande show, depois contra o B-Boy Onnurb, onde após a battle, antes da decisão dos jurados, foi ovacionado por todo público, que gritavam o nome de Samuka! E, por último, passando para a final, batalhou contra o grande Bicampeão da noite, B-Boy Kley. Ainda passaram por ali o B-Boy Rato EVN que é um grande nome do Breaking brasileiro, B-Boy Iguin, entre outros.
B-Boy Samuka e B-Boy Perninha: Breaking sem limites e amizade que contagia.
Entre as B-Girls veteranas estiveram presentes a B-Girl Maia, que foi a ganhadora da Cypher Brasil de 2024, B-Girl Nathana, B-Girl Ana, B-Girl Bebeia, entre outras. Mas a competição mais esperada da noite ficou entre as B-Girls Mini Japa e Toquinha, que algumas semanas anteriores, já tinham se confrontado em outro evento em Brasília, numa batalha bem pesada e que deu o que falar no meio da cena. E que voltaram a se encontrar na Red Bull Bc One na final, onde B-Girl Toquinha foi a campeã da noite.
Um dos momentos mais esperados da noite: B-Girl Toquinha e Mini Japa batalham pelo troféu das B-Girls.
Uma Homenagem a uma lenda que fez história e abriu caminhos…
B-Boy Pelezinho emocionou-se em homenagem.
Além das disputas da Brasil, o evento marcou também os 20 anos da histórica batalha do B-Boy Pelezinho na Final Mundial de 2005, em Berlim, na Alemanha, um marco na história do Breaking brasileiro. Como jurado que integrou o painel no dia anterior, Pelezinho também celebrou três décadas de trajetória e reforçou o legado do Red Bull BC One para as próximas gerações de dançarinos.
B-Boy Kley e B-Girl Toquinha carimbaram o passaporte para Tóquio.
E agora? Bom, para os campeões o foco está no próximo desafio, em novembro vão representar o Brasil nas etapas internacionais. O novo roteiro agora é Tóquio, Japão, na Final Mundial, onde os brasileiros terão a chance de lutar pelo cinturão da Red Bull BC One Mundial, levantado há 15 anos, também em Tóquio, pelo nosso B-Boy Neguin, que sem dúvida é uma outra verdadeira lenda do Breaking brasileiro.
O Portal Breaking World agradece a Red Bull BC One por toda a atenção, respeito e parceria de sempre. Até 2026!
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“A dieta do pobre é não morrer de fome. A fome foi muito presente na minha vida por muitos anos.” (B-Boy Till)
Ele é de Quintino Cunha, bairro que fica em Fortaleza, no estado do Ceará. De uma família humilde, teve uma vida difícil, o que não o impediu de correr atrás dos próprios sonhos.
Foi com a mãe que também foi pai que aprendeu a ler por meio de uma cartilha, sendo o único da família a terminar o ensino médio. Sua paixão sempre foi a capoeira, mas foi por intermédio do Breaking que criou asas e voou de encontro aos próprios sonhos, ganhando a etapa nordestina do “Red Bull BC One” e, depois, a “Cypher Brasil”, numa disputa emocionante que pegou fogo em uma das noites mais frias paulistanas em 2019, o que o levou em seguida para a Índia, junto com mais dois brasileiros, B-Boy Bart e B-Girl Itsa, representando o Brasil.
Sem dúvida, ele escreveu o nome na história e está entre os melhores B-Boys brasileiros! Estamos falando de Francisco Cleiton Verçosa, da Perfect Style Crew ou, somente, Till. O Portal Breaking World teve a satisfação de conversar com ele e abordar vários assuntos sobre a vida e a dança do atual campeão da “Red Bull Cypher Brasil”.
Veja a entrevista na íntegra:
BW – Fale sobre a sua infância, onde nasceu e foi criado, sobre a sua família. Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Till – Eu sou de uma família humilde, que sempre lutou pela sobrevivência do cotidiano. Nascido em Fortaleza-CE, no bairro Quintino Cunha. Na minha infância, no período de 1 a 4 anos, lembro que nunca ficávamos no mesmo lugar, minha mãe, sendo pai e mãe para nós (4 filhos – 3 homens e 1 mulher). Nunca consegui estudar direito. Já morei em vários lugares de Fortaleza, chegando a morar até em um interior próximo à cidade. Itaitinga para ser exato. Esse foi um lugar onde passei muitos anos de necessidade, mesmo com casa própria. Até voltar para Fortaleza e, desde então, sempre morar de aluguel. Desde quando morávamos juntos, meus irmãos, minha mãe, minha tia e eu e várias outras pessoas, incluindo uma prima minha, sempre foi uma luta cansativa e sempre via o resultado da mãe no final do dia antes de irmos dormir. Aprendi a ler em casa com a minha mãe, com uma cartilha do ABC. Depois mudamos para Antônio Bezerra-CE, que é onde vivi o restante da “infância” e quase toda a minha vida até hoje. Estudei, único da família a terminar o ensino médio e sempre buscando algo melhor por meio da arte para minha mãe e tia, que moram comigo. Meus irmãos estão cada um em suas casas, com seus parceiros. Atualmente, tenho 25 anos e em 4 dias faço 26.
Atual campeão da “Red Bull BC One Cypher Brasil”, B-Boy Till
BW – É verdade que sua paixão pelo Breaking começou quando assistiu a uma apresentação na escola onde seu sobrinho estudava? Conte como foi isso.
Till – Um certo dia levei meu sobrinho para a escola, para praticar o Hip-Hop e, quando vi, me apaixonei. Na época, tinha 14 anos e já praticava capoeira, que também amo.
BW – Com que idade começou a dançar Breaking? Alguém te ensinou? Quem eram suas referências?
Till – Comecei com 14 anos. No Breaking era muito difícil ter uma didática de como compartilhar o Breaking/Hip-Hop para os demais aqui na minha cidade, sinto que no meu começo muitas pessoas não me passavam bases, steps, movimentos, porque viam uma capacidade, uma força de vontade tão grande de querer entender/aprender aquilo que estava vendo, que isso causou inveja em algumas pessoas próximas. E isso me atrapalhou muito. Tive muitos incentivadores, mas hoje vejo que eram aproveitadores do meu talento. Mas, apesar disso, sou muito grato a todos que já passaram pela minha trajetória de vida. E deixo bem claro do quão sou grato. Há uns 9 anos, achava que só existiam competições, cyphers, outros treinos, só no exterior. Se a galera fosse menos egoístas na época, talvez, meu Breaking seria mais aproveitado, como faço hoje em dia e, quem sabe, minhas condições estariam até melhores. Mas Deus sabe o que faz.
Mesmo passando por muitas dificuldades, B-Boy Till conquistou seu lugar na cena
BW – Li que antes do Breaking outra paixão era a capoeira. Acredita que o fato de você ser capoeirista o ajudou no Breaking?
Till – A capoeira te ensina muita coisa, sem ela, não teria a disciplina mental e corporal que tenho hoje. Sem falar da flexibilidade que adquiri, praticando-a.
BW – Fale sobre o seu gosto por desafios e todo o preparo físico necessário para se alcançar um bom rendimento.
Till – Sempre gostei de desafios para aprender algo novo. E por isso, exploro todo meu corpo, além de exercita-lo, para deixá-lo inteligente, possível para fazer o que eu penso ou vejo de novo.
BW – Nos conte como são seus treinos, quantas horas e quantos dias da semana dedica a isso?
Till – A meta é treinar todos os dias, mas, agora, estou na fase adulta e tenho prioridades, como, por exemplo, ganhar dinheiro para pagar as contas do fim do mês, então, não tem como me empenhar todos os dias só no meu Breaking, apesar de também ser meu trabalho. Mas amo treinar e gosto de dar o meu máximo todas as vezes que treino.
BW – Procura manter alguma alimentação especial?
Till – Costumo falar que a dieta do pobre é não morrer de fome. Porque a fome foi muito presente na minha vida por muitos anos. Eu deixei de comer algumas coisas por falta de condições e porque também faziam mal à minha saúde, tipo, refrigerantes, salgados, pizza, guloseimas, e etc. Só não deixei completamente, porque como disse, como tudo, mas amo treinar muito.
BW – Você trabalha com dança e dá aula na sua cidade? Fale desse trabalho.
Till – Atualmente trabalho na empresa “Beach Park” com a função de animador/bailarino e com o meu Breaking, passando workshops e julgando eventos. Gosto de ser digital influencer no Instagram, que é onde consigo me comunicar com todo mundo.
B-Boy Till em seu trabalho como animador no Beach Park
BW – O que passou pela sua cabeça quando decidiu concorrer na “Red Bull”? Achou que chegaria onde chegou?
Till – Quando participei da “Red Bull” pela primeira vez, achei que os jurados sempre me dariam uma chance de mostrar o meu potencial. Fui treinando. Sem pretensão nenhuma de passar ou ser melhor que ninguém, apenas mostrar algo massa e movimentações originais minhas para a galera e, no final, tudo deu certo. Fui para o mundial!
BW – Como foi no dia da “Cypher Brasil”? Deu nervosismo ou aquele frio no estômago? Ou você se sentiu confiante?
Till – Estava chateado porque cheguei durante o evento. Cheguei 20h no sábado, o evento sempre começa na sexta e vai até o domingo. Bateu o nervosismo, o lugar era horrível de respirar, passei mal na semifinal, contra o participante Onnurb, ele também. Então, foram turbilhões de coisas ruins, mas aguentei e firme em Deus. No final, tudo deu certo!
BW – Na sua opinião, o que o levou a ser o campeão da “Cypher Brasil”? Na final, você e o Ruddy, dois grandes B-Boys brasileiros, como foi esse momento?
Till – Eu estava apostando na minha originalidade e o Ruddy na dele, então, eu acho que essa confiança de si próprio é que nos faz acreditar que podemos, sim, chegar lá e representar. O Ruddy já é veterano, muita experiência e viagens para o exterior. A minha ali ia ser a primeira. Mas deu certo, acho que só em eu ter chegado na final estava ótimo.
B-Boy Till foi um dos representantes do Brasil na Red Bull BC One, em Mumbai, na Índia
BW – Teve muita comemoração no Nordeste quando saiu o resultado? Qual foi a reação da família e de amigos?
Till – A reação é sempre não acreditar no que tá acontecendo. Mas esse era meu objetivo e consegui concluí-lo. E fiquei tranquilo, mas por dentro muito feliz. Pelo que eu vi de algumas pessoas, feliz e outras confesso que não entendi muito bem. Não sei, talvez, pensavam que eu teria novas atitudes por ter vencido esse evento. Mas estranhei a forma de me tratar, positiva e negativa. Eu estou tranquilo, o que mudou foi eu ficar mais conhecido para mais pessoas, alcançar mais pessoas e ganhar mais seguidores do Instagram. Só isso, e muito grato só por isso!
BW – Conte como foi na Índia, como foi competir com alguns dos melhores B-Boys do mundo?
Till – A Índia é um país forte em personalidades e culturas. Pessoas muitos gentis, comidas muito apimentadas, sem carne, sem o meu costume de arroz e feijão todo dia. Estranhei um pouco a alimentação, o clima, mas gostei. Eu estava sem grana nenhuma, então, não pude aproveitar muita coisa.
BW – É verdade que os estrangeiros, quando pensam em brasileiros dançando Breaking, esperam ver movimentos como o mortal, entre outros de Power Move, por causa da imagem que o Neguin fez lá fora?
Till – Acredito que o B-Boy Neguin acreditou no que ele tinha e mostrou, mas já é do brasileiro lançar nas battles movimentação como backflip (mortal para trás) e outros que lembram a capoeira, mas tem outros tipos de B-Boys no Brasil. Então, acho que os gringos devem pensar bem antes de deduzir que tal B-Boy faça tal coisa, porque existe vários outros “flava” no Brasil. Não só na técnica, mas no style também. Eu amo treinar os dois !
Além de B-Boy e animador, Till também é digital influencer.
BW – O que mudou na sua vida depois dessa experiência? Quais são seus planos para o futuro?
Till – O que mudou foi que eu tive minha primeira viagem para o exterior e foi para Mumbai, na Índia e mais seguidores no Instagram. Tirando isso, nada. Mas, também, acreditaria que haveria algum tipo de apoio ou patrocínio, mas nada.
BW – O que você diria para B-Boys e B-Girls da nova geração que sonham em chegar onde você chegou?
Till – Digo-lhes a vocês que querem chegar onde cheguei, que treinem bastante sem se importar com a opinião do outro, seja a disciplina e estude bastante, independente de sua classe social. Cuide do seu corpo e objetive as suas conquistas.
Fotos: Arquivo Pessoal
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till com amigos e familiares
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