Sim! Você, eu, todos nós. Somos e devemos ser donos no sentido de cuidar, sendo responsáveis por manter a cultura viva, defender e lutar pelo que é nosso.
Felizmente, a grande maioria utiliza o Breaking como meio de transformação social, como ferramenta educacional para levar arte e cultura, trazendo luz e esperança para vidas de milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Porém, muitas pessoas se apropriam do Breaking com outros propósitos, exclusivamente visando o benefício próprio, almejando lucros de formas inimagináveis e muitas vezes ilegais.
Pessoas gananciosas e oportunistas; quem não conheceu alguma em sua trajetória? Querendo se “apropriar” do Breaking sozinha e levar essa mensagem àqueles que não conhecem, como as grandes marcas, entidades públicas e outros. Não os culpo, afinal, uma dança tão rica, com tantos adeptos e com uma infinidade de oportunidades é realmente tentadora para estes.
Nós, como “donos do Breaking”, então, precisamos cuidar da nossa dança e nos proteger contra esses parasitas que estão sempre por aí, zanzando e nos circulando atrás de dados, informações, clonando projetos, se passando por quem não são, representando entidades que não existem, vendendo ideias que não vão sair do papel, etc.
Em todo o país é possível encontrar entidades sérias, que realizam trabalhos importantíssimos e fundamentais para a manutenção e crescimento do Breaking no Brasil. Se filie, faça parcerias, procure conhecer entidades que têm propósitos similares aos seus. Sabemos que grande parte delas não são constituídas legalmente como empresas, mas dê preferência para as ONGs (Organizações Não Governamentais) que já têm um viés sem finalidade de lucro, ou procure conhecer as entidades, projetos e seus dirigentes antes de se filiar.
É imprescindível se precaver e super necessário denunciar sempre que identificá-los. A denúncia ajuda a disseminar essa informação e permite que outras pessoas se protejam e estejam alertas.
Não compartilhe dados pessoais sem ter a certeza para qual finalidade estão sendo requeridas e principalmente, por quem. É importantíssimo ter claro para onde os seus dados estão sendo direcionados.
E por fim, não menos importante, procure apoiar projetos, eventos e pessoas que estejam comprometidas com ações em prol do Breaking, pois de nada vale ser B-Boy/B-Girl, dançar, ser da cena, se não apoia quem faz acontecer por todos e para todos.
Fotomontagem: BW
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Esta semana comemoramos o “Dia do Rap Nacional”, graças à Lei 13.201/2008, o Portal Breaking World, comemora esse dia apresentando uma entrevista lendária feita por nossa editora com o MC e letrista W-Yo, do grupo “RPW”, em 2009.
Sem dúvida, o Rap brasileiro é um divisor de águas, seja pelas inovações musicais ou pela capacidade de dar voz às pessoas, mostrando sua visão de mundo sobre a realidade e se fazendo visível e atuante numa sociedade que insiste em negá-la e renegá-la ao silêncio.
O grupo “RPW” cumpriu sua missão e deixou um legado para a nova geração. Obrigada Rubia, DJ Paul e W-Yo pelo trabalho de vocês. Vamos em frente, viva o Rap Nacional!
Leia a matéria:
BW – O grupo “RPW” foi criado em 1991, correto? O que faziam antes da união? Já eram amigos? Conte um pouco da história de vocês. E quando tiveram o primeiro contato com a música?
W-Yo – Nascido e criado em “Sampa” mesmo, aos 13 anos já tocava bateria em uma banda de Thrash Metal, aliás, conheci a Black Music pelo Rock (B.B. King, Louis Armstrong, Chuck Berry e outros). Aos 15 anos, na extinta casa “Toco” (Zona Leste de São Paulo), um dia, ouvi e vi o vídeo clipe traduzido do “Public Enemy – Fight the Power”, foi o que precisava. Voltei pra vila lembrando o nome do grupo, depois, conheci “Racionais MC’s” (Holocausto Urbano) e disse: É isso que quero fazer! Já tinha o dom da rima e comecei a aprimorá-la enquanto saía para pichar, de 1987 a 1992, com meus amigos, fazia Raps com os nomes dos pichadores da época. Montei meu primeiro grupo, “Crime Perfeito” e comecei a me apresentar aqui no lado oeste, aí o produtor Fabio Macari me apresentou para a Rubia e comecei a dançar para ela, logo depois, como escrevia também, ela me deixou fazer alguns backings, até adquirir independência no grupo.
Rúbia, DJ Paul e W-Yo: “RPW” está na área!
BW – De quem foi a ideia de formar um grupo de Rap? Como era rimar nos anos 90? Tinha alguma diferença do que é feito hoje?
W-Yo – Sem dúvidas, o nosso primeiro hit (“Pule ou Empurre”), montamos junto com o Fabio Macari no meio da sala da minha mãe, deck de rolo, loops emendados com esmalte, quando com muita conversa o DJ Armando Martins (“Projeto Rap Brasil – Metrô FM”), começou a tocá-la. Lembro que íamos todos, cada um de um orelhão (de ficha… risos) ligar pra pedir a música, inventávamos nomes e bairros diferentes para que o som rolasse com frequência (risos e um gole na cerveja).
BW – Houve influências no trabalho de vocês? De quem ou de que grupos? O que vocês escutavam?
W-Yo – (Um gole) Sem dúvidas, RPW é original e criou o estilo “Bate-Cabeça” no Brasil pela diversidade de influências, cada um dos três veio e curtia uma época, então somamos tudo, minha contribuição veio com o Rock, Hardcore, Rap e Crossover. Como vivi a época Skate Punk no final dos anos 80, trouxe e incluí muitas influências de sons que curti e curto até hoje.
BW – No seu caso é verdade que foi pichador no passado? Que lembranças tem dessa época? Porque escolheu a sigla M.O.R.T. na época e como foi a mudança para W-Yo?
W-Yo – Legal! (risos) Então, na verdade comecei com esse vandalismo em meados de 1985/86, com canetão nos bancos de ônibus trabalhando como office-boy, depois, “evoluí” quando um amigo do colegial me levou para o “point”, na época era o Mc Donald’s do Borba Gato, lá comecei a sair para pichar com spray e me “profissionalizei” (risos). A sigla era uma música da minha banda “Madness Of Riot Testy” (cantávamos em inglês), tenho mais lembranças boas do que ruins, amigos até hoje, já com filhos e filhas como eu, na rua e madrugada aprendi muito as regras do jogo e a nota triste foi ir pra “Febem” e minha mãe me ver naqueles trajes, foi foda, jamais esquecerei. Daí, quando o W-Yo surgiu, comecei a conciliar as duas “pessoas”, sempre agradeci os pichadores, que são uma fatia grande do nosso público até hoje e tem muito pichador que me conhece mas não sabe que eu sou o W e muito rapper que pica e não sabe que eu era o M.O.R.T. (risos).
O grupo “RPW” sempre teve um grande público de praticantes do Skate
BW – O grupo teve importantes participações em grandes shows. Pode falar dessa época, dos principais eventos e baladas?
W-Yo – Poxa… (um gole)… Graças a Deus foram vários eventos e grandes shows, lembro de alguns: ser o primeiro grupo de Rap paulista a cantar no extinto “Olympia”, na abertura para o “Cypress Hill” na primeira vez que eles vieram para o Brasil, junto com o “Planet Hemp”. Ganhar o prêmio “DJ Sound Award’s 95” na categoria de melhor grupo de Rap nacional, onde uma atriz global (não lembro o nome… risos…) nos entregou o prêmio e nos divertimos muito nessa noite no “Tom Brasil”. O festival no campo de marte, “300 anos de Zumbi” com vários outros grupos. O clássico evento no extinto palco do Vale do Anhangabaú, onde caiu “mó chuva” quase no final. Participar da primeira edição do “GAS Festival” no palco Skate junto com a banda “Strike”. Cantar no “Mundial Brasileiro de Skate” no Ginásio do Ibirapuera, e assim vai…
BW – Vocês criaram o “Estilo Bate-Cabeça” no Rap Nacional, como foi isso? Explique esse estilo para quem não conhece. Receberam muitas críticas na época?
W-Yo – Sim, nós o criamos aqui no Brasil, isso foi devido a influência do grupo americano “Onyx”. Como já vim do Thrash Metal, acostumado com o fluxo entre público e artista, quando no Rap vi que na maioria das vezes, o que o MC falava, o público só confirmava, mas sem muito entusiasmo, daí pensei: Porque não fazer isso no Rap também?!? Aí quando vi o clipe da música “Slam” (“Onyx”), falei: é isso aí! Escrevi a letra de “Pule ou Empurre” no ônibus e cheguei no ensaio com base e tudo… risos… Apresentei pra Rubia e o Paul, no começo eles torceram o nariz, mas aí foram vendo que era o começo de uma nova tendência, aí começamos a fazê-la nos shows e a receptividade começou a fluir como eu queria, isso antes de gravá-la, em cima de base gringa mesmo. Demos o nome de “Bate-Cabeça” (todos pulando e se batendo no bom sentindo, mais com consciência, sem fazer disso uma briga) e a principal ideia é justamente fazer esse “funnyfluxo” divertido entre artista e público, dando chance a todos de curtirem o show, como se sentir bem. No começo houve várias críticas de resistência como: “Isso não faz parte do Hip-Hop”, “isso é só modinha, vai passar”, “o Rap não é brincadeira” e assim foi. Precisamos em uma época fazer um show com Thaíde e GOG no antigo “Santana Samba”, para apaziguar os bate-cabeças e os breakers, pois quando abria a roda, uns queriam moinho de vento e outros pular (risos). Na maioria dos shows também, tínhamos que pedir para quem fosse curtir, tomar cuidado com quem queria ficar de boa nos cantos para não dar briga, parecia manual de instrução (risos).
BW – Fale sobre a discografia do grupo, das músicas de trabalho e das participações especiais. Qual a música do “RPW” que foi mais conhecida e difundida nas rádios?
W-Yo – Orra! (dois goles grandes) Essa foi pesada heim!? (risos). “Coletânea Mov. Hip-Hop” (1992), “Pule Ou Empurre 12” (1993), “RPW… Está Na Área” (1996), “RPW Ao Vivo” (1996), “A Luta Continua, O Real Bate Cabeça” (2000) e “Talento Não Morre, Recicla” (2006). Essa é a discografia original, fora inúmeras outras coletâneas, muitos hits cravados desses álbuns e participações nas produções, como nas músicas, somam nomes de peso como: “Branco”, “Ugly C.I.”, banda “Ambulância”, banda “Calibre 12”, “DJ KLJay”, “Nill”, banda “Maguerbs”, “Thunder (ex P9)”, “DJ Cia”, “CCO” e algumas outras.
Reprodução da capa do CD “RPW… Está na Área!”, um clássico do Rap Nacional
BW – Como ficou a formação do grupo depois da saída do DJ Paul? Como foi a adaptação e aceitação do público?
W-Yo – Certo, na verdade eu e a Rubia optamos por duas formações do “RPW”, a primeira forma mecânica clássica, somando nós dois e um DJ contratado. Outra é com banda nos lugares e festivais que deem estrutura para isso, achamos interessante porque o “RPW” sempre tocou em festivais e campeonatos de Skate com outras bandas e as vezes a potência do som mecânico não chegava igual acústica e agora é de igual pra igual, essa formação de peso é: Oscar Cake na bateria (banda “Calibre 12”), Ricardo Q-Pam e Tobéx, respectivamente, guitarra e baixo (banda “DeCore”). Quanto ao público, num show de estreia dessa formação na casa Hangar 110 em São Paulo, curtiram e aprovaram, pois, sempre fizemos crossovers com bandas e usamos samples sujos com guitarras.
BW – Em uma entrevista, você falou sobre “A perda do respeito da hierarquia da história pelos jovens que estão começando”. Declarou: “Isso pode prejudicá-los no futuro e pôr em vão toda a correria que foi feita por nós lá atrás. Quem está chegando agora precisa de referências, o que não está acontecendo”. Acha que esse problema ainda ocorre? Como vê o Rap que é feito hoje? O que considera bom e ruim?
W-Yo – Sem dúvidas (gole), isso ainda ocorre, pois com a facilidade que a tecnologia moderna dá às pessoas que querem fazer Rap, a maioria faz um trabalho mal elaborado e sem qualidade, na ansiedade de ter “algo gravado” e também faz o jogo da gravadora monopolizadora (105FM) a “Telefônica do Rap”, vendendo às vezes até carro ou algo assim para tocar por um mês e nisso sem perceber, cai nos braços dos mercenários, não se importando com a base sólida da história, hoje o Rap está definhado, perdido. O que era o termômetro hoje não é mais nada, os interiores paulistas e outros estados um dia debochados por muitos, crescem (como nunca pararam) e mostra à nave mãe como se pode trabalhar de uma forma humilde e sem demagogia. Bom? A internet hoje conecta Rappers do mundo todo para fazer música e eu sou prova disso, com parcerias com China, Hungria, República Dominicana, Espanha e Alemanha. Ruim? A nova rapaziada chegar agora, sem referência nacional como nós dos anos 90 temos e com isso não conseguiram dar sequência na corrida, o bastão foi passado mas caiu no chão, tocar na rádio não é ser artista (lembro do Facção: “Artistas de um mundo que não existe…”). Enfim, o Rap em São Paulo está um lixo!
BW – No passado, “Urbania” era um lugar para fazer música e rever os amigos? Comente.
W-Yo – Nossa! (outro bom gole) “Muiiiiiiiiiiiito bom” sempre falar do “Urbania”, uma casa diferenciada dos anos 90 em SP, destinada a molecada Skatista, que curtiam um bom som alternativo e queriam extravasar no fim de tarde de domingo. Foi lá que nos apresentamos a primeira vez para Skatistas de verdade, antes de gravar a “Pule Ou Empurre”, lá criamos nossa personalidade musical e nosso público direto, o alternativo. E gravando o primeiro disco (“Pule Ou Empurre”), não pensamos duas vezes no local de lançamento, a Alva Footwear e a Dekton Skates, que nos patrocinavam na época, garantiram os cem primeiros fãs a entrar de graça no pico e podendo ainda fazer uma sessão no mini ramp ao lado do palco, foi uma tarde frenética e hoje temos contato direto com esse mesmo público nos campeonatos de Skate de todos segmentos, festas de marcas, lançamentos de DVD’s, revistas do gênero e inaugurações de pistas de skate.
Entre um gole e outro, W-Yo falou sobre o cenário do Rap na época do “RPW”
BW – Como você vê o movimento Hip-Hop? Acha que no caso do Rap ainda existe muito a se conquistar?
W-Yo – No caso do Brasil, sempre teremos muito a conquistar, estamos avançados até, mas o ego e o orgulho nos impede e muito de sermos muito mais fortes, nem temos noção disso.
BW – Fale sobre os clipes do grupo. Onde foram feitos e transmitidos.
W-Yo – O primeiro clipe oficial do grupo é a música “Pule Ou Empurre”, de 93, aí saíram também o “RPW Está na área”, para um programa esportivo de canal fechado e muitos outros independentes disponíveis no canal YouTube.
BW – Sobre um dos trabalhos de vocês, o que quiseram dizer com “Talento não morre, recicla”?
W-Yo – O título surgiu de uma conversa entre o grupo, e falávamos sobre a necessidade de se reciclar e renovar. Daí surgiu a frase e casou perfeitamente com o que queríamos transmitir ao nosso público. Que o talento é eterno e se renova. As participações foram do “Branco”, que somos fãs de carteirinha, na música “Estilo de Vida” e as produções dos DJ’s Cia e KLJay. Foi muito divertido e legal a gravação desse último álbum, pois tivemos experiências com produtores que nunca tínhamos trabalhado antes, estilos diferentes e amigos de longa data.
BW – Em todos esses anos, o que gostariam de esquecer para sempre?
W-Yo – Esquecer… hummm… Acredito que o estresse interno do grupo que tivemos no show de lançamento do disco “Sobrevivendo No Inferno” do “Racionais”, no “Ginásio do Corinthians”, onde o cronograma foi alterado de última hora e deixando o penúltimo bloco que eram “RPW”, “Doctor MC’s”, “Consciência Humana” e “GOG”, se não me engano, para último bloco após os shows de “Thaíde” e “Racionais”. Isso foi foda, tocar para umas 100 fiéis pessoas das 5.000 que estavam no local, com luz acesa e rapaziada desligando os cabos, afetou nosso psicológico e quase acabamos o grupo. Mas ainda bem que fomos fortes.
BW – Deixe um salve para os nossos leitores!
W-Yo – Quero agradecer ao nosso público fiel que sempre nos acompanhou, minha eterna gratidão! E pedir pras guerreiras e guerreiros do Hip-Hop que não abandonem a causa e nem deixem a cultura se perder. O futuro está nas mãos de vocês, eu em breve me aposento! Abraços! A toda equipe do portal pelo convite e atenção, importante esse trabalho continuar com personalidades da velha escola, assim os novos conseguem saber um pouco mais da história que foi feita e quem levou tapa na cara por eles, não peço amém, mais sim um pouco de respeito! A todos Skatistas, Pichadores, Grafiteiros, Tatuadores, Punks, Heavys, Darks, Surfistas, enfim, todos que direta ou indiretamente apoiam “RPW”. Aos fãs que a internet nos apresentou no mundo, como na Alemanha, Japão, China, Espanha, Hungria, Argentina, Austrália e Portugal… Qualquer dia estaremos por esses lados, U.B.C. até o fim… Abraços, beijos, muito sexo, cerveja, Skate, Rap e Hardcore, sempre!
Em 2017, depois de 25 anos de trabalho, o lendário grupo de “Bate-Cabeça” anunciou em sua “fanpage” o fim dos trabalhos, escreveram: “RPW é esse ciclo, que hoje se encerra, após 25 anos de trabalho em conjunto, companheirismo e muita vontade de mudar a vida das pessoas através da música. Se alcançamos o objetivo, não sabemos, mas com certeza a vida de Rubia, DJ Paul e W-Yo se transformaram graças a esse intenso e belo ciclo chamado RPW. E cada um levará a bagagem adquirida para seus projetos individuais daqui pra frente, sempre com muito respeito aos fãs e principalmente ao Hip-Hop, essa grande mãe que salvou e salva vidas pela arte e militância”.
Na semana do “Dia do Rap”, no ano de 2020, é uma honra para o Portal Breaking World republicar essa matéria feita por nossa editora, que na época era só uma repórter! Salve W-Yo e “RPW” pela oportunidade e vida longa ao Rap Nacional!
Fotos: Cristina Sininho Sá/Reprodução
"RPW" viajou por todo o país
W-Yo
W-Yo e Rubia
Rubia, W-Yo e DJ Paul
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A mais famosa e esperada competição de Breaking 1×1 do mundo, abre inscrições nos próximos dias para B-Boys e B-Girls se inscreverem gratuitamente na “E- Battle” que para quem não sabe é uma competição de batalhas on-line. A partir de 7 de agosto, os participantes podem acessar o site www.redbullbcone.com e enviar seus vídeos dançando para entrar na competição.
Este ano, o prêmio para os ganhadores é inédito: uma vaga na final mundial, que será realizada em 2021, em local ainda a ser definido pela Red Bull. As inscrições vão até o dia 31 de agosto. E, para participar, o B-Boy ou a B-Girl deve entrar na página do “Red Bull BC One E-Battle”, dentro do portal, criar um perfil de competidor com seus dados, escolher uma música da biblioteca para usar na gravação e fazer o upload do arquivo do vídeo, com duração de até um minuto. O material deve ter boa qualidade e ser recente, para atestar a forma física do dançarino.
No dia 28 de setembro de 2020, serão anunciados os 16 melhores dançarinos de Breaking do mundo e o público poderá conferir os duelos entre eles pela “Red Bull TV” e pelos canais sociais do “Red Bull BC One” nos dias 10, 17 e 24 de outubro, dias em que ocorre a grande final.
O time de jurados é formado por um trio pesado: o B-Boy russo Aslan, a B-Girl finlandesa AT e o B-Boy francês Lilou. Eles julgarão os movimentos dos dançarinos de acordo com critérios como musicalidade, originalidade e performance. Foi em 2018, o primeiro ano em que ocorreram as batalhas online, o campeão mundial foi o B-Boy Luan San, que participou de várias disputas virtuais com dançarinos de diversos cantos do globo até chegar à final sendo o campeão.
Calendário completo “Red Bull BC One E-Battle”
7/8 a 31/8 – Inscrições abertas para dançarinos de todo o mundo
28/9 – Divulgação do TOP 16
10/10 – LIVE#1: Primeira live com os 16 melhores B-Boys e B-Girls do mundo
17/10 – LIVE#2: Quartas de final com os 8 melhores B-Boys e B-Girls do mundo
24/10 – LIVE#3: Semifinais e final mundial, com os 4 melhores B-Boys e B-Girls do mundo
Fotos: Divulgação
B-Boy Lilou
B-Girl AT
B-Boy Aslan
B-Boy LilZoo
B-Boy LilZoo
"Red Bull BC One" é considerado um dos maiores eventos de Breaking do mundo
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“Precisamos aceitar a nova geração, ensinar tudo o que aprendemos e também ouvi-los e aprender com eles. Essa geração tem acesso a coisas que não tínhamos. Teremos ótimos resultados com grandes chances de sair trabalhos magníficos por meio também da tecnologia.” (Xall)
Graffiti vem da palavra italiana “graffito”, que significa literalmente “escrita feita com carvão”. O grafitismo é considerado uma arte de rua elaborada a partir de uma técnica mais complexa. Ele representa um ramo das artes visuais.
No Brasil, essa arte teve visibilidade no final da década de 1970, especialmente no Estado de São Paulo, influenciada pela cultura norte-americana. Na época, vivíamos um período marcado pela censura provocada pela ditadura militar, por isso, os grafiteiros foram extremamente corajosos e transgressores.
De São Paulo a arte foi se espalhando, aos poucos, para outras cidades e estados do país. Norman Mailler, um consagrado escritor norte-americano, definiu o Graffiti como: “uma rebelião tribal contra a opressora civilização industrial”. A verdadeira resistência junto com os outros elementos do Hip-Hop.
Pensando na importância do Graffiti para a cena, o Portal Breaking World pretende trazer vários olhares e experiências sobre esse elemento tão importante na Cultura, mostrando quem são esses artistas.
Hoje conversamos com o grafiteiro Xall, do litoral de São Paulo, da cidade de Peruíbe. Confira nosso bate-papo com esse artista caiçara:
BW – Queria que você falasse um pouco da sua história, da sua infância e como foi seu primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Xall – Minha infância e juventude foi em Ana Dias, distrito de Itariri, descalço de cachoeira em cachoeira e pedalando até a praia de Peruíbe. Conheci o Rap por meio de fita cassete com alguns amigos, no rádio da minha mãe colocávamos “509-E”, “Racionais MC’s” e “MC Barriga”. Nessa mesma época, eu já era conhecido na diretoria por “rabiscar” as mesas da classe e fui expulso diversas vezes, passeando por todas as escolas da região.
Xall começou fazendo “rabiscos” nas mesas da escola
BW – Com que idade você começou a grafitar? Alguém te ensinou essa arte? Tem referências no Graffiti, nomes que você admire? Pode citar? Xall – Eu já pichava desde os 14 anos. Sempre me interessei por arte de rua e os poucos desenhos que tinham nos muros de Peruíbe me atraiam. Sempre fui ligado em desenhos, e apesar de levar muitas broncas pelos rabiscos, também me destacava na escola nos trabalhos. Em 2007, eu estava no meu último ano e causando problemas pichando a escola, o diretor na época me deu a oportunidade que eu não tive em outros colégios. Pude fazer meus primeiros Graffiti na escola, durante o programa Viva Japão, mas sem nenhuma orientação de alguém da cena. Fui aprendendo sozinho.
BW – Fez algum tipo de curso para aperfeiçoar suas técnicas? Xall – Me distanciei do Graffiti por alguns anos, devido as adversidades da vida. Aos 24 anos eu estava de passagem por Campinas, quando vi alguns trampos do Dime e do Moai nas ruas. Os desenhos me despertaram a vontade de pintar novamente. Ao procurar material na cidade, conheci a “Graffiti Shop New Family Crew” e conheci os caras por trás dos rolês que eu tinha curtido. Voltei para Peruíbe à milhão, soltando vários bombs. Um ano e meio depois, soube que os caras da “NFC” fariam um workshop. Decidi participar e valeu a pena todo o conhecimento e técnicas que os caras me passaram.
Xall tem deixado sua arte em painéis espalhados por todo o litoral de São Paulo
BW – Como você define o Graffiti que você faz e seu estilo? Xall – Gosto de pintar letras, sempre com muitas cores e inserindo elementos. Minhas letras estão em constante mudança e evolução, pois busco sempre acrescentar novas técnicas e personalidade. Meu estilo é a mescla de wild style, bomb e piece.
BW – Alguma vez você teve apoio de alguém da prefeitura da sua cidade ou de outras cidades do litoral? Xall – Em Peruíbe, temos pouco incentivo à Cultura Urbana, as atividades relacionadas ao Hip-Hop são em grande maioria iniciativas independentes, sem o apoio da prefeitura. Estive na organização da “Batalha do Boca” (batalha de rimas) durante 2 anos e organizo o “MGS Convida” (evento livre e independente de Graffiti), ambos em Peruíbe, sem esperar por apoio da Prefeitura. Hoje atuo como conselheiro na “Casa de Cultura de Itariri” e a expectativa é apoiar para que artistas já consagrados venham pintar na nossa região e que inspire novos desenhistas.
BW – Que oportunidades têm para quem grafita no litoral de São Paulo? Xall – Ainda não há consumo de arte de rua na minha região, as oportunidades são poucas por aqui. Atuando na “Casa da Cultura” eu pretendo mudar esse cenário. Faço parte da “OGS CREW” (Organização Graffiti Santos) que me abriu as portas para diversas oportunidades, entre elas pintar por várias vezes em eventos com estrutura, organização e público muito receptivo à arte.
Seja em Peruíbe, Itariri ou em outros locais o Graffiti de Xall sempre chama a atenção
BW – Fale um pouco do que anda fazendo atualmente e do seu trabalho. Xall – Estou focado em aprimorar as minhas letras, enquanto busco movimentar a cena na minha quebrada, trazendo grafiteiros para colorir as ruas e becos de Itariri. Quero despertar nos jovens da minha quebrada o interesse pela arte, acredito que ao ensinar, sempre aprendo muito. Com a “OGS” estamos desenvolvendo diversos painéis temáticos onde a crew interage letras e personas, cada um com o seu estilo.
BW – Em que partes da cidade, das ruas, tem Graffiti seu? Xall – Em Peruíbe tenho painéis em todos os lugares, nas quebradas, centro e principais pontos como o bairro da Estação e orla da praia. Gosto de fazer bombs em portas de aço. Um dos meus trampos mais recentes foi as costelas de baleia, na popular Praça Redonda. Tenho arte dentro de diversas escolas da minha região e outras cidades da baixada [santista].
Uma das metas de Xall é despertar o talento dos jovens das quebradas
BW: No seu Graffiti, você costuma abordar que temas? Xall – O tema das minhas artes variam de acordo com o meu humor, a região que estou pintando e os acontecimentos recentes. Pintei o ponto de ônibus da minha quebrada em Ana Dias, fiz uma flor com tons vibrantes e alegres, pois conheço a rotina do trabalhador que depende do transporte público em nossa periferia rural. Da mesma forma que busco causar o impacto positivo, também procuro incomodar a gestão da cidade, quando alguns acontecimentos indignam, em frente à prefeitura de Peruíbe pintei e deixei mensagens contra a gestão atual, que em uma atitude infeliz tinham retirado os carrinhos de reciclagem das ruas, apenas por que atrapalhavam a estética que os “ricos” gostam. Parece que deu certo, pois tenho visto muitos carrinheiros por toda a cidade.
BW – Já fez algum tipo de exposição do seu trabalho? Xall – Já tive alguns convites, mas não cheguei a expor. Estamos alinhando com a “Casa da Cultura de Itariri” para fazermos uma exposição na cidade.
A “Batalha do Boca” é um dos eventos organizados por Xall reunindo os 4 elementos do Hip-Hop
BW – Você já esteve na “gringa”? Pensa em levar seu trabalho para fora do Brasil? Xall – Ainda não tive a oportunidade de ir para outros países, mas tenho sim uma vontade de pintar lá “fora”. Conheço alguns artistas do Chile e Uruguai, e sim, acredito que em breve virão novidades nesse sentido.
BW – Fale da importância do Graffiti como elemento dentro da Cultura Hip-Hop? Xall – O Graffiti assim como todos os outros elementos é fundamental para o Hip-Hop, acredito que um evento completo tem que ter todos os elementos. Assim como fizemos com a “Batalha do Boca”, que começou com 5 pessoas e partir da 6ª edição conseguimos incluir as Batalhas de Breaking, Graffiti e DJ’s. Foi algo tão verdadeiro que pudemos contar com as presenças dos ilustres King Nino Brown e Nelson Triunfo. Para resumir, não existe Hip-Hop sem o Graffiti, sem Breaking, Rap e DJ. Somos uma potência juntos desde os anos 70.
BW – O que significa o Graffiti para você? Xall – O Graffiti, para mim, tem uma importância enorme, pois foi por meio das tintas que eu consegui aos poucos encontrar um objetivo para a minha vida. Antes do Graffiti, eu tive problemas com a justiça e com o abuso de drogas. Por isso, continuo mesmo sem muito apoio, lutando para levar essa cultura adiante. Quantos iguais a mim, que gostam de desenhar, dançar, compor ou produzir e têm apenas as influências que deram errado na vida? Acredito que se eu tivesse conhecido outros artistas quando eu era mais novo, teria evitado muitas coisas ruins que me aconteceram. Antes de concluir, gostaria de destacar a necessidade de aceitarmos a nova geração, ensinar tudo o que aprendemos e também ouvi-los e aprender com eles. Essa geração tem acesso a coisas que não tínhamos. Teremos ótimos resultados com grandes chances de sair trabalhos magníficos por meio também da tecnologia. O Hip-Hop está evoluindo e como em toda evolução sai algumas coisas ruins, porém, tem muito mais coisas boas, vamos continuar acreditando nas crianças e nos adolescentes, que muitas vezes são esquecidos por já terem uma certa maturidade. Enfim, continuaremos a lutar por nossos direitos e manter nossas conquistas.
Aceitar, ensinar e aprender com a nova geração
Fotos: Arquivo pessoal e Fotógrafo Duh Oliveira
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O que sobra para as crianças da periferia? Os bares, as igrejas, as lajes para empinar pipas, os parques, as feiras, são os únicos locais socioculturais da quebrada, nessa realidade é um desafio não perder os jovens para o crime e tráfico.
Mano Brown, do grupo “Racionais MC´s”, já citava no Rap “Fim de Semana no Parque”: “O investimento no lazer é muito escasso e o Centro Comunitário é um fracasso, mas aí, se quiser se destruir está no lugar certo; tem bebida e cocaína sempre por perto, a cada 100, 200 metros nem sempre é bom ser esperto”.
A música de Brown retrata o perigo sempre presente nas periferias e o descaso do governo diante de tudo. Mas a terra sofrida, regada muitas vezes por sangue de culpados e inocentes, também é uma terra fértil em talentos. Exemplo é o projeto “Família UniVersos”, que começou no quintal da casa de Robertinho Filho do Céu, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, quando ele ensaiava seus próprios Raps, que compõe desde 2004.
Certa vez seus sobrinhos e amigos começaram a cantar suas músicas e tudo começou ali. Cansado de ver tantas crianças se perderem e morrerem cedo, naquele momento Robertinho descobriu qual seria sua missão junto aquela comunidade onde morava e até hoje não parou mais.
O Portal Breaking World conheceu Robertinho e as brilhantes crianças da “Família UniVersos” na São Bento, se encantou pelos pequenos artistas e agora resolveu contar a história desses grandes talentos. Leia a matéria abaixo:
BW – Robertinho, queria que você falasse primeiro de você e de sua caminhada na Cultura Hip-Hop. Quando se envolveu com a cultura?
Robertinho – Eu sou natural de São José do Rio Preto, sou educador social no “Céu das Artes”. Mas nas ruas sou conhecido como Robertinho Filho do Céu. Eu me envolvi com a Cultura Hip-Hop ainda criança, por intermédio de um padrasto de um amigo que me mostrou na época a música “Fim de Semana” dos Racionais MC’s. Nos dias de feira eu sempre pedia a minha mãe para comprar Fita K7 de Rap. Na escola, tinham amigos que também curtiam Rap, foi quando escutei a música do Thaíde e do DJ Hum “Nada pode me parar”. Naquela época, fui influenciado pelo Programa da MTV “Yo Raps”. Lá passavam vários clipes e comecei a conhecer outros grupos. Tive o primeiro contato com o Hip-Hop em projeto social no bairro Santo Antônio, lá comecei meu primeiro contato com o Breaking, Graffiti e em seguida o Rap. Iniciando em 2004 uma trajetória musical.
Robertinho Filho do Céu (de vermelho, sentado no Boombox) e a “Família UniVersos”
BW – Quem foram suas referências na Cultura Hip-Hop?
Robertinho – Minhas primeiras referências foram Mano Brown e Thaíde. E aqui em São José do Rio Preto foram o DJ Basim, Ana Paula e o Mano Di.
BW – Quando e como começou essa oficina de Rap junto com as crianças? Como foi o início desse trabalho? De quem foi a ideia?
Robertinho – Em agosto de 2016, fundamos o grupo musical “Família UniVersos”. Começou assim: já estávamos cansados de ver crianças e adolescentes envolvidos com o mundo do crime. Esses jovens iam presos, outros morriam muito cedo, então pensei em criar ações mais efetivas no bairro, ensaiando no quintal da minha casa. Certa vez, recebi meus sobrinhos e alguns amigos, foi nesse dia que percebi que por meio do Rap poderia iniciar um projeto social, trabalhando valores de vida e a conscientização para se ter uma vida cidadã!
BW – Como é trabalhar com crianças num projeto social independente? Fale dos principais desafios?
Robertinho – É gratificante demais doar nossas vidas por uma causa como essa. Eu falo de projeto social porque além de fazer Rap, eu trago sempre informações para esses jovens, capacitações de pessoas voluntárias, pessoas de teatro, de oratória, pessoas de outros elementos da Cultura Hip-Hop, do Breaking, do Graffiti, do DJ, então, o que eu posso agregar de conhecimento na vida deles eu faço. Hoje, nós pagamos do próprio bolso cursos de computação para alguns meninos. Então, tudo que é possível eu faço em nós por nós. É gratificante demais semear coisas boas! Na esperança que virão muitos frutos para que eles cresçam e multipliquem tudo que estão aprendendo. A maior dificuldade é a falta de apoio financeiro, porque para gravar música, para produzir beat, para gravar clipe e para ir nos eventos para cantar fora, tudo precisa de dinheiro. E às vezes não temos condição, não temos uma van. Então, o principal desafio é a falta de apoio financeiro e de ter uma estrutura melhor, ter uma aparelhagem de som e eu preciso ter um trabalho para sobreviver e ainda arrumo tempo para poder estar com os meninos. Eu gostaria de poder trabalhar integralmente com eles, mas por enquanto não tem condições.
“Família UniVersos” nasceu na periferia de São José do Rio Preto, interior de SP
BW – Quantas crianças estão envolvidas nesse projeto, qual a faixa etária e como funcionam as oficinas? O que você ensina exatamente nelas?
Robertinho – Hoje, o projeto conta com 15 meninos e mais 3 que já são jovens adultos, então, ao todo, são 18 e uma menina que já conhece o nosso trabalho. E a mãe dela falou que ela queria participar, então, ela vai começar a vir, porém, depois que passar a pandemia. A faixa etária é de 8 a 20 anos. Eu compartilho a minha experiência desde 2004, compartilho com eles de como eu crio as músicas, de como criar as rimas, de como cantar no ritmo certo, no compasso, na métrica e no flow e também estudar a cultura de que eles fazem parte. Então, dentro do grupo “UniVersos” nasceu a oficina e funciona no quintal de casa e quem desejar chegar é só colar, logo depois que passar o problema do coronavírus. Além de eu ensinar Rap, eu ensino os valores da vida. Acreditar em Deus, valorizar a família, estudar, trabalhar, ser luz por onde passar. O mundo precisa de pessoas que enxerguem a vida de uma forma diferente. Por isso a frase que é o lema do nosso grupo “Que a nossa vida, seja vida, na vida de outras pessoas”.
BW – Parque Cidadania, local onde há violência e tráfico de drogas, foi o local onde você começou esse trabalho. Que estratégia você desenvolveu para manter as crianças longe da vida do crime?
Robertinho – Sim, realmente Parque Cidadania é onde eu moro e onde eles moram e o índice de criminalidade é grande. Muitos chegam sem limites dentro da família deles, da educação que eles não tiveram, então, precisamos ensinar limites e regras. Não é fácil mas, graças a Deus, tem dado certo. Temos várias lutas mas fazemos a nossa parte. E a estratégia que todo educador deve ter é olhar essas crianças e esses jovens de uma forma que eles nunca foram olhados. É enxergar dentro deles e descobrir o talento, o dom o que cada um tem de melhor, qual a aptidão de cada aluno, extraindo de dentro deles o que têm de melhor. Olhar de uma forma especial para que eles se sintam especiais. E sempre mostro as consequências das escolhas. Mostrando o porquê é bom escolher, trabalhar, estudar e respeitar o próximo e não escolher o crime. E acima de tudo, de dar amor e os fazendo se sentir importantes.
BW – Explique como chegou no nome “UniVersos”? A ideia foi sua?
Robertinho – Eu não tinha nenhum nome, eu ia cantar com os meninos. Então, era Robertinho e os meninos do Rap. Pensando muito, estudando sobre nomes, orando, aí eu estava no carro curtindo o som e me veio esse nome de unir versos, unir rimas e o mundo, em todo o mundo. Então eu falei: que legal, tem duplo sentido essa palavra. E chegamos no nome “UniVersos” e o que significa é unir versos, unir rimas e cada ser humano é um universo dentro de si, vários sonhos, várias lutas, várias tristezas e várias alegrias, várias vontades. É um universo dentro de nós! Então somos a “Família UniVersos”!
BW – No ano passado, os meninos ganharam o prêmio “Nelson Seixas”, projeto que investiu cerca de R$ 1 milhão em todas as categorias premiadas de artistas residentes em Rio Preto e dava direito a gravação de um CD. Mas você conseguiu, além do CD, gravar um clipe. Nos conte: como foi tudo isso?
Robertinho – Sim, no ano passado e retrasado nós ganhamos o prêmio “Nelson Seixas”. Em 2018, nós ganhamos a gravação do CD e 2019 foi o lançamento do CD, o show de lançamento, a circulação do CD. A gravação do clipe foi o seguinte: na verdade, a premiação foi a minha história, quem ganhou foi o Robertinho e na minha história eu falo que eu fundei um grupo e coloquei os meninos todos para gravar, eu ganhei R$ 15.000,00 e investi no clipe.
Robertinho investiu todo o dinheiro do prêmio na gravação do vídeo clipe com as crianças
BW – A música vencedora do prêmio foi “Eu Acredito”. De quem é a autoria e como foi feita? Como foi dirigir todas as vozes dessas crianças?
Robertinho – A música “Eu acredito”, eu coloquei o título do projeto, que é eu acredito que dias melhores virão, porque dentro da minha história entra o “Família UniVersos” e nessa primeira música dos meninos, que se chama “Eu acredito”, nós elaboramos juntos na oficina. Eu estimulo eles a pensar, peço para eles anotem no caderno o que têm de melhorar, as palavras foram extraídas de dentro deles, eles foram anotando e fomos colocando as palavras uma rimando com a outra e então a música nasceu em conjunto. Por ser a primeira música, teve muita opinião minha, mas hoje já temos meninos que criam sozinhos, mas eu sempre procuro caminhar com eles e dirigir todas as vozes é trabalhoso, mas graças a Deus, pelo talento dos meninos, fluiu bem, mas eu fui bem exigente com eles.
BW – Verdade que o clipe chegou a ter mais de 1 milhão de visualizações e, ainda, foi compartilhado pelo Edi Rock dos “Racionais MC’s”? Como você e as crianças se sentiram com tudo isso?
Robertinho – Sim, a música ultrapassou esse número! Mas no Facebook, várias páginas foram postando, aí o Edi Rock postou também e repercutiu bastante. A página “Raplandia” postou. Só nessa página, eu tenho os prints, nessa página foram 945 mil, depois do Edi Rock 195 mil, a página Rap Nacional, Realidade Cruel, tudo 200 mil, então, no Facebook repercutiu muito e quando o Edi Rock postou foi muito importante, todos sabem a importância dos “Racionais” na cena. Então, ter esse apoio e o olhar do Edi Rock voltado para a nossa música foi algo muito importante para nós! Isso nos incentiva e aumenta cada vez mais o nosso compromisso. Ficamos muito felizes.
A realização de um sonho: cantar na São Bento, berço do Hip-Hop no Brasil
BW – Ano passado vocês estiveram se apresentando na São Bento, que é o templo do Hip-Hop em São Paulo. Como foi essa experiência?
Robertinho – Foi um sonho realizado! Eu sempre falava para os meninos sobre a São Bento, falava da importância de conhecer a história do Hip-Hop, sabendo que o Rap é um elemento da Cultura Hip-Hop, então, temos que conhecer todos os elementos, passei documentários para eles falando da 24 de Maio e da São Bento, o marco zero do Hip-Hop, depois, eu passei vários vídeos, nós já sabíamos da importância e da responsabilidade de cantar naquele lugar e então tivemos o convite e a oportunidade. Alguns amigos viabilizaram as vans e fomos bem abraçados e pisar nesse território sagrado do Hip-Hop foi um sonho realizado. Lá foi onde tudo começou no Brasil.
BW – Em abril, vocês lançaram o vídeo clipe de seu primeiro single de 2020, “Foi Assim”, com produção do DJ e produtor musical paulistano Caíque, que já realizou trabalho com MV Bill, Rashid, Haikass e Projota. Como aconteceu esse encontro entre vocês? E como foi a gravação?
Robertinho – A primeira música de 2020 foi com o DJ Caíque, ele viu nosso vídeo clipe na internet e aí mandou mensagem parabenizando e pediu para saber mais do projeto e ele me explicou a forma que trabalhava, que ele só gravava o que gostava e onde via alguma coisa e aí ele decidiu gravar com os meninos, mandou os beats, eu escolhi, nós gravamos as vozes aqui e mandamos para ele. No estúdio, ele mixou e masterizou, finalizou a música em São Paulo. E aí ele decidiu gravar um clipe, porque a música era muito boa. Ele arcou com as despesas do clipe e nós fomos para São Paulo, eu corri para conseguir ajuda e consegui uma van para ir para São Paulo. Chegamos em São Paulo, gravamos o clipe e lançou no canal dele. E para mim o Caíque é dos maiores produtores de Rap do Brasil foi uma grande conquista para nós.
Capa do CD “Periferia é Terra Fértil”
BW – Fale sobre o disco já lançado, que se chama “Periferia é Terra Fértil” e sobre a experiência com as plataformas de streaming de músicas?
Robertinho – Esse disco é um sonho! Era um sonho ter um CD gravado, original! Eu estendi esse sonho para os meninos, mesmo que as pessoas hoje em dia não use mais o CD físico, foi uma forma de presentear os amigos e os familiares. Tendo um CD em mãos também para vender e para divulgar mais o trabalho e a experiência foi sensacional, de poder lembrar de toda a caminhada, de todas as músicas construídas e concretizar tudo foi um sonho. E o nome “Periferia é Terra Fértil” foi porque as pessoas falam muito mal da periferia, mas tem muito mais coisas boas do que ruins. Coisas ruins tem em todos os lugares! E nós citamos na música que os maiores cantores, os maiores jogadores de futebol, nasceram na periferia. A periferia tem muitos nomes valiosos! Então, terra fértil, porque se saber semear vai dar muitos bons frutos, é necessário dar oportunidade para a periferia, existe todo um sistema que nos oprime, que nos joga só os restos, mas quando temos boas oportunidades a coisa vira e dá muitos frutos! Estou aprendendo a mexer nas plataformas, então, a experiência é muito nova ainda, mas a música tem que chegar nas pessoas, isso é que é importante.
BW – Parece que esse ano tem mais músicas para serem lançadas ainda, correto? Fale delas e também do novo single “Covid-19”?
Robertinho – Sim, tem algumas músicas prontas para serem lançadas, infelizmente, ainda não temos condições de pagar o estúdio, então, eu estou vendendo camisetas para levantar dinheiro. Temos umas 4 músicas para lançar. A situação complicou um pouco por causa da pandemia. Sobre a música “Covid-19” foi assim: uma ideia em cima da hora, cada um escreveu na sua casa e depois todos nos encontramos de máscaras e construímos juntos a música e foi importante lançar essa música da Covid, porque tem crianças e adolescentes falando sobre esse assunto e consequentemente nós fizemos a nossa parte, saiu pelo “Trilha Sonora do Gueto”, lá no canal e todos gostaram da música. Foi sensacional conseguir a tempo lançar uma música sobre esse assunto.
“Família UniVersos” gravou o single “Covid-19” durante a pandemia do novo coronavírus
BW – Neste período de pandemia, como você tem trabalhado e orientado as crianças?
Robertinho – Neste momento de pandemia está bem complicado, estamos evitando reunir com os meninos, mas tem horas que não tem como. Nós temos um grupo de WhatsApp e eu sempre troco ideia por lá, sempre os estimulando a continuarem criando, estudando, pensando e quando nos encontramos trocamos ideia, mas temos evitado o contato. Tudo faço pelo WhatsApp. Nos encontramos uma vez a cada duas semanas presencialmente.
BW – O Rap salva? O que você diria para crianças que estão neste momento no mundo do crime?
Robertinho – O Rap salva, com certeza! Deus deu um dom para cada pessoa, um dom que pode ser desenvolvido, então, tem meninos que já estão mais desenvolvidos para fazer Rap, outros ainda não então trabalhando, se descobre, como é maravilhosa essa cultura e desta forma o Rap vai salvando. Deus usa esse instrumento, cada mensagem que construímos, ela faz sentido primeiro dentro de nós, depois cantamos, as pessoas se identificam, esse alguém manifesta que a música fez bem a vida dela, então, nos sentimos úteis. Ou seja, temos uma missão! E cada vez mais seguimos esse caminho, o que nos afasta do crime e para todos os meninos que se encontram no crime, nas drogas eu digo: Eu já passei por isso! Eu consegui acordar a tempo, é gostoso você se envolver no crime, nas drogas, mas chega uma hora que as consequências vão aparecer e tudo nessa vida tem consequências, boas ou ruins. Se você escolhe drogas, crime e as fitas loucas, as consequências ruins chegam, as tristezas na família, o caixão e a polícia. Então eu pergunto: Até quando vai valer a pena? O fruto vai ser de paz ou de medo e dor? Então, não compensa! A vida é valiosa demais para se perder dessa forma! Então eu falo o agora ou o eterno? Quer ficar sofrendo ou viver uma vida com paz interior? O crime não compensa!
BW – Quais são os planos da “Família UniVersos” para o futuro?
Robertinho – Os planos são concluir essas participações, eu quero conseguir estruturar o nosso projeto de uma forma que tenhamos patrocínio para conseguir praticar mais. O sonho é ter um “Instituto UniVersos” para conseguir realmente conviver com os meninos, formá-los e eles cuidarem de outras crianças que ainda vão surgir, ter vários outros cursos, atividades. Um lugar onde vamos poder todos os dias trabalhar e se reunir. Condições de gravar nossas músicas e fazer nossas apresentações e viver dos shows para impactar mais vidas.
“Família Universos” diante da fachada da lendária Estação São Bento do Metrô, ao fundo o Mosteiro de São Bento
Fotos: Arquivo Pessoal
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Ele é de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, já participou e ganhou diversos eventos nacionais de Breaking e também representou o Brasil em muitos campeonatos internacionais.
É B-Boy, produtor cultural, youtuber, professor e faz parte da “Natural Effects”, que é uma crew da Dinamarca. Estamos falando de Matheus Barbosa Lopes, na cena conhecido como B-Boy Kid Guma.
Estava com saudade dele? Nós também! Atualmente morando em Paris, na França, junto com a família, Kid conversou com o Portal Breaking World e contou um pouco da sua história, das suas ideias, experiências e o motivo que o levou a sair do país.
Veja a entrevista:
BW – Queria que você falasse um pouco da sua infância… Onde nasceu e quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Kid Guma – Nasci na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, cerca de cinco horas da capital. Meu primeiro contato com o Hip-Hop foi em 2003, com o B-Boy Ailton, legendário B-Boy da cidade. Ailton também era grafiteiro e por meio dele, da “Notoy Crew”, tive um contato real com a Cultura Hip-Hop.
Há mais de 15 anos dançando Breaking, B-Boy Kid Guma foi destaque em eventos nacionais e internacionais
BW – Com que idade começou a dançar e com quem aprendeu Breaking? E em que condições? Nessa época, você tinha algumas referências na dança?
Kid Guma – Ailton Silva era um dos B-Boys mais respeitados do interior paulista, além de ter uma alta qualidade de dança, ver ele dançando sempre me impressionava. Eu ia sempre no seu estúdio de tatuagem e ali aprendi os passos básicos da dança. Nesta época eu tinha 18 anos, minha referência era a turma de amigos.
BW – Dentro de casa você teve apoio da sua família?
Kid Guma – Não, nunca tive, a maioria das minhas escolhas não eram respeitadas.
BW – O que significa o Breaking na sua vida?
Kid Guma – Difícil dizer, são tantas coisas, o Breaking me tornou o que sou hoje, me deu condições de viver uma vida melhor, me deu liberdade e possibilidades, como temos um governo que não dá a mínima para pessoas de baixa renda, não investe no futuro das crianças, o Breaking me deu uma via alternativa a tudo isso.
BW – Em que ano começou a participar de Campeonatos de Breaking? Qual foi o primeiro que participou?
Kid Guma – Quando comecei em 2003/2004, tinham muitos B-Boys e B-Girls na minha cidade e eles sempre organizavam “cyphers” e campeonatos dentro das escolas, não era nada como nós vemos hoje em dia, era uma caixa de som, às vezes um microfone e pau na tábua e em um desses eu tive minha primeira experiência.
Kid Guma é B-Boy, produtor cultural, youtuber e professor.
BW – Fale um pouco da sua caminhada como B-Boy aqui no Brasil e do trabalho que realizava aqui?
Kid Guma – Como B-Boy eu participei de centenas de campeonatos pelo Brasil, tornando uma referência profissional da dança (B-Boying). Fui convidado a ensinar Breaking e julgar competições em todo o Brasil, ajudei a desenvolver eventos de Breaking em festivais famosos no Brasil, como “João Rock 2019”, “Forró da Lua Cheia” e dou suporte para pessoas que necessitam de ajuda profissional relacionados a Cultura Hip-Hop, desenvolvo um trabalho de educação com a dança, no qual compartilho informações de forma gratuita por meio da rede. Desenvolvi uma pesquisa sobre as principais lesões dentro do Breaking, que fornece dados importantes na prevenção, cabe ressaltar que fui o primeiro a realizar uma pesquisa assim no Brasil.
BW – Quais foram os principais eventos que participou e ganhou no Brasil e fora? Na sua visão, quais são os maiores desafios dos B-Boys e das B-Girls brasileiras?
Kid Guma – Me destaquei entre dançarinos dentro e fora do Brasil, sendo o primeiro brasileiro a ganhar a “Batalha do Month”, tradicional evento de Breaking em Copenhage (Dinamarca) e tomar o segundo lugar no evento do mundial “Floor Wars”, no mesmo país. Outras aparências minhas foram notáveis fora do país, como: “Hustlen Freeze”, na cidade de Shenzhen (China), “Break The Floor”, em Cannes (França), “Hotmilk”, em Angers (França), “Groove Move”, em Genebra (Suíça). Já no Brasil, me destaquei na “Batalha Final 2009”, “Circle Prinz 2006”, “Urbanos Beat e Boty 2008”.
BW – Falando sobre o grande desafio dos B-Boys e B-Girls, o Brasil é um país que não dá suporte e acesso para nossos artistas, temos que entender isso.
Kid Guma – Você abre a porta da sua casa, tem traficantes, lixo, esgoto a céu aberto, ônibus lotado, talvez a pessoa que está lendo acha isso tudo normal, mas não se dá conta de como o meio influencia. Após entender isso, você tem que abordar toda essa questão de uma perspectiva positiva de melhora, ou melhor, de superação, como posso superar tudo isso e continuar dançando? Ou melhor, vivendo? Você terá que lidar com as dificuldades políticas e de acesso à cultura, superar toda a pressão que o país carrega e focar na sua carreira como dançarino. É possível? Se você acreditar, é possível. Tentar encontrar um meio de sair dessa negatividade e focar em fazer coisas positivas, pensar diferente das pessoas que só reclamam e não fazem nada para melhorar. Conhecimento é a chave para sair de tudo isso.
BW – É possível viver da dança aqui no Brasil?
Kid Guma – Sim, é possível, porém muito difícil, a pessoa que quer viver da dança tem que pensar diferente, ser profissional, entender a parte burocrática, projetos e linguagens que as instituições que trabalham com a cultura usam, não é só ser um bom Breaker, você deve entender isso, eu sei que tem muito B-Boy e B-Girl melhor do que eu, mas que não cresce na dança com eu cresci, porque não entendeu isso ainda.
Kid Guma sente falta das batalhas nas “cyphers” no Brasil.
BW – O que acha dos eventos brasileiros de Breaking e de seus organizadores? Já se sentiu injustiçado alguma vez? O que poderia melhorar?
Kid Guma – Eu gostava muito dos eventos brasileiros na época de 2006 até 2013, eles eram mais reais, o foco não era sempre ganhar um campeonato, mas sim uma batalha na “cypher” que, às vezes, durava o evento todo. Isso sim que eu gosto, talvez ficar em primeiro lugar te dá um orgulho sim, mas isso não é tudo, não pode ser tudo na vida do Breaking, você tem que saber o valor da dança fora da competição. Creio que um grande passo para melhorar os eventos de Breaking são os workshops, uma grande forma de você sair ganhando do campeonato sem competir com ninguém e podendo usar esse conhecimento ao longo da sua carreira. Outra coisa é pensar no público que assiste, incluir o público na vibe do evento, como que a pessoa vai apreciar a dança se ela não consegue ver? Precisamos pensar nisso também. Sobre ser injustiçado, já me senti sim, porque existem alguns pessoas que não sabem dividir as coisas e muitos jurados despreparados, que votam somente em seus amigos, isso causa um enorme problema dentro dos campeonatos, pois as pessoas perdem o gosto de ir em eventos, mas independente disso sei meu valor como dançarino.
BW – No “YouTube” você tem um canal, fale sobre ele e tudo que apresenta lá.
Kid Guma – Sim, eu uso meu canal no YouTube para compartilhar informações com a galera do Hip-Hop, foi a maneira que eu encontrei para ajudar as pessoas se profissionalizarem e evoluir na dança. Lá eu ensino sobre currículo artístico, sobre conceito na dança, como ganhar dinheiro para viajar, alimentação e recuperação, são pontos importantes para o crescimento de cada dançarino.
BW – O que o levou a sair do Brasil? E porque escolheu a França? O que é ser B-Boy na França? Pretende voltar algum dia?
Kid Guma – Eu gostaria de dar um futuro melhor para meu filho e minha esposa, não quero que ele passe por tudo que passei no Brasil. Eu até tinha uma vida estabilizada aí, com casa, amigos e trabalhos com a arte, mas eu percebi que por mais que me esforçava não era o suficiente, então, decidi mudar e ver como funcionava aqui. Escolhi a França porque tenho alguns amigos aqui que poderiam me ajudar, essa é minha terceira vez aqui e então pensei que seria um bom começo.
BW – A sua chegada na França foi meio tumultuada? Você chegou a postar uns vídeos falando de alguns problemas. O que aconteceu de fato?
Kid Guma – Na verdade, a França enfrenta vários problemas de racismo com imigrantes e pessoas de baixa renda, especialmente se você não fala francês e um casal conhecido meu veio para cá e tiveram sua bolsa com passaporte roubados, fomos a estação de polícia e a polícia foi extremamente racista, não deixaram a gente entrar e ainda pediram nossa identidade. Esse foi um caso. O problema também são pessoas oportunistas que se aproximam da gente com interesse, acham que vai chegar aqui a primeira vez e vão ficar ricos, famosos e conseguir tudo fácil. Acabam por voltar para o Brasil, frustrados.
B-Boy Kid Guma e família moram em Paris, na França.
BW – Como os brasileiros são vistos e tratados aí? Existem muitos B-Boys e B-Girls irregulares na França?
Kid Guma – De modo geral, todos gostam muito dos brasileiros, mas isso depende muito se você fala o idioma e se tem condições financeiras. A França é uma grande potência na cena Breaking, pois o governo investe pesado na cultura aqui, mas comparado a antes o número de dançarinos vem diminuindo, a cena é bem forte, mas reduziu um pouco.
BW – Como está a sua situação atualmente? No que está trabalhando e como está desenvolvendo a sua vida no Breaking?
Kid Guma – No momento, estou trabalhando com “freelancer” no Breaking, estou em um projeto com a “Associação VNR” onde ministro aulas, também realizo aulas particulares, participações em clipes de cantores famosos e street show.
BW – Como foi e está sendo esse momento de adaptação e pandemia na França para você e sua família? Nos conte os detalhes. Do que você sente falta do Brasil e do que você não sente falta?
Kid Guma – A França é um país muito lindo, muitos pontos históricos conhecidos por todo mundo, especialmente aqui aonde eu vivo, em Paris, porém, os franceses são muito frios, não sorriem, sempre estão muito ocupados, não conversam muito, não querem se envolver em nada, não recebem bem pessoas de fora. Isso que eu sinto falta do Brasil, não existe povo mais carismático que o brasileiro, feliz, alegre, com sorriso no rosto, não dá para entender porque os franceses são assim, o governo dá tudo que eles precisam e ainda sim são sempre mal humorados. Agora já me adaptei legal, conheço bem Paris, estou aprendendo um pouco do francês, as coisas estão caminhando. A questão da pandemia foi uma surpresa para todos, nunca vivemos um confinamento, quando o Presidente Macron decretou a quarentena, vimos que o negócio era sério. Eles foram bem adiantados comparado ao Brasil, ao ver que o número de infectados estava crescendo, pararam imediatamente o país, fechando escolas, universidades, reduziram o número de trem e metrôs, colocaram álcool em gel nas ruas, todos os lugares e lojas só era permitida a entrada com máscara, as únicas coisas que abriam eram os supermercados, eles também criaram um certificado, que você deveria preencher toda vez que fosse para a rua, sem ele você era multado em até 300 euros. Mas o meu confinamento, foi um dos melhores eu acho, pois uma associação me convidou a morar em sua sede bem no começo e a sede era bem na frente do Louvre, no centro de Paris, na janela do meu quarto eu via o museu mais famoso do mundo, para mim isso foi incrível, jamais pensei que moraria em um lugar assim. O que eu não sinto falta do Brasil são dos políticos e da política brasileira e da falta de incentivo e exploração do trabalhador, do preço da comida.
BW – Vi que você preparou alguns cursos on-line, nos conte um pouco sobre isso?
Kid Guma – Sim, aí no Brasil fui pioneiro em produzir cursos on-line de Breaking. São 3 cursos, o abordagem mental, power footwork e Breaking workshop, que são mais para iniciantes. São cursos fundamentais para a evolução mental e física dos dançarinos, ali compartilho vários conhecimentos que obtive em batalhas, viagem e vivência com diversos B-Boys e B-Girls de renome mundial e pelo preço que coloquei lá é um presente que as pessoas não deveriam deixar passar.
Kid Guma conta um pouco de sua realidade em outro país durante a pandemia
BW – Com a pandemia, entramos numa realidade de eventos on-line, battles on-line. O que você acha sobre isso? É uma tendência?
Kid Guma – Os eventos on-line já existiam antes da pandemia, por exemplo, eu estou em parceria com o pessoal da “Formelles”, que foram os primeiros a criar batalha on-line no Instagram, creio que foi a maneira de manter a cultura viva, produzindo essas batalhas on-line, mas se você leva isso para o contexto de inclusão, não são todas as pessoas que têm internet ou uma boa conexão e as pessoas que não têm não podem participar, mas de modo geral eu não curto muito, mas entendo que foi uma solução, espero que seja só nesse período, que os eventos reais voltem a acontecer.
BW – Na sua opinião, como será o futuro para o Breaking? Que novas realidades B-Boys e B-Girls terão que se adaptar?
Kid Guma – Eu vou te dizer uma coisa, apesar de estarmos no século XXI, com todas essas coisas, internet e eventos mega grandes, o Breaking está reduzindo, as pessoas estão parando de dançar, se você comparar com a época de 2006 a 2010, os eventos eram bem mais cheios, agora com essas coisas de “superstar” e todo essa porcaria, todo jovem que começa quer ser um “superstar do Breaking”, não conseguindo, se frustra e os responsáveis de tudo isso são os organizadores de eventos e os B-Boys e B-Girls que estão envolvidos somente pelo dinheiro, com essas instituições que estão matando o Breaking aos poucos, podemos viver um grande retrocesso na cultura.
BW – O Breaking foi indicado como mais uma modalidade Olímpica. O que acha sobre essa realidade tão polêmica e discutida? É algo positivo ou não?
Kid Guma – Sim, é positivo, mas depende de quem está lá e segundo denúncias da B-Girl Hurricane, que abandonou seu cargo na “Federação Francesa de Breaking”, já existem casos de corrupção, então, vamos manter o pé no chão e ver: para quem vai ser bom isso? Creio que em modo de visibilidade, reconhecimento, melhore um pouco, algumas empresas também vão querer investir, teremos mais professores, médicos, etc., isso pode levar o Breaking a outro nível.
BW – Como esse assunto é visto pelos B-Boys aí na França?
Kid Guma – As pessoas que conversei sobre isso têm uma visão positiva, veem uma possibilidade de crescimento, porém existem pessoas que não concordam com a ideia.
Kid Guma sente falta do carisma e do swing brasileiro.
BW – Que diferenças você observa entre o Breaking que é feito aqui e o Breaking que é feito aí? Diferenças nos treinos, na disciplina, no foco? Fale sobre isso.
Kid Guma – Bom, nos treinos vejo que os breakers aqui levam mais a sério, eles estudam, fazem workshop, pagam professores particulares e treinam bastante, já no Brasil as pessoas não fazem questão de escutar uma opinião diferente, querem treinar do jeito deles para sempre e isso causa um certo bloqueio na evolução, claro que existem pessoas dedicadas e que têm compromisso, mas a grande maioria não leva muito a sério. Se queremos evoluir seriedade é a chave! Porém, os brasileiros têm mais o swing, o ritmo e a simpatia, os europeus são bastante técnicos, executam muito bem, mas para mim, às vezes, parecem robôs (risos).
BW – Que mensagem você gostaria de deixar para todos aqui do Brasil e para quem deseja uma carreira como B-Boy ou B-Girl no exterior?
Kid Guma – “Se tudo que você faz é visto com diferença, você não deve desanimar, pois o nascer do sol é um espetáculo tremendo e a maioria das pessoas estão apenas dormindo!”. Quero dizer que acreditem no que fazem, estudem, leiam livros, não percam seu tempo, busquem crescer, planejem suas carreiras e as coisas vão se sair bem. Eu tinha tudo para desistir, perdi meus pais cedo quando era adolescente, aos 15 anos fui morar com minha tia, me envolvi com o Hip-Hop com meus 18 anos e hoje estou morando na França. Eu sei que é difícil, especialmente com as condições políticas do Brasil, mas é preciso superar tudo isso para alcançar o sucesso. Somente quando os homens enfrentam o verdadeiro perigo, aprendem transformar vitória em derrota. A dança sempre será um diferencial na sua vida.
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“Top Rock, ao contrário do que muitos falam, não é um cartão de visita, pois nossa arte não é venda!” B-Boy Jotta
Para refletirmos sobre “fundamentos da dança Breaking”, torna-se necessário analisarmos suas relações com a cultura local de cada lugar, buscaremos perceber aqui as novas técnicas que surgem ao longo desse processo histórico, ao invés de tentarmos definir um único fundamento válido para todos, buscaremos compreender como são incorporados os novos elementos de sua linguagem, pois entendemos que discutir fundamentos, a sua aquisição do conhecimento e informação demostram a capacidade do ser humano de constituir e ampliar conceitos.
Ao olharmos para a história dessa arte, que nos revela inicialmente o seu contexto de origem nos Estados Unidos, onde pela interação de corpos em movimentos que dançavam no bairro do Bronx, em meados dos anos 70 e 80, se iniciou a construção do primeiro conjunto de movimentos dando a base dessa linguagem Breaking chamado de Top Rock, e em um dado momento foi ampliada com outro conjunto de movimentos chamado de Footwork, sendo posteriormente atualizado por um terceiro conjunto de movimentos que chamamos de Freeze, percebemos então que a cada momento as práticas corporais são expostas às novas dinâmicas e reinterpretadas em cada contexto histórico em um processo de construção dessa linguagem.
A construção desse texto parte dessa visão dinâmica do conhecimento e das práticas artísticas de sua condição contextualizada, pois cada nova realidade é incorporada às características da comunidade que recebem esses fundamentos vindos de fora, pois ao saírem de suas fronteiras de origem a linguagem humana tem um movimento próprio de estar sendo. Saindo dos EUA, o Breaking ao chegar a outros lugares, passa por uma nova fase de aprendizagem, os sujeitos na ação de aprender a nova linguagem, não se contentam em apenas copiar e reproduzir aquilo que vem de fora, e em segundo momento da prática, passam a ampliar os fundamentos que foram recebidos, é o ato de “inserção”, de inserir ou incluir uma coisa na outra, suas características locais do novo contexto, e isso acontece em um processo constante na construção da linguagem que chamamos de “Práxis da dança”, é a transformação diante da diversidade que acontece a cada nova região, município, estado ou país por onde essa linguagem se movimenta. Então, por ser uma linguagem e uma cultura, está inserida dentro de um processo de transformação dialético histórico-social de seus fundamentos.
A tomada da consciência da transformação pela diversidade da linguagem permite convocar outra questão: Quais seriam os “fundamentos-essências” aqui no Brasil? Podemos responder que, atualmente, temos em torno 5 (cinco) conjuntos de movimentação fundamental característico típico da criatividade do B-Boy e da B-Girl brasileiros, elementos que vão se dando à consciência e identidade dos fundamentos do Breaking Brasileiro na sua própria experiência, que testemunham sua história reconhecendo-se como autor. Então temos: o Salto Mortal, o Power Move como novos elementos que organizam os fundamentos dessa linguagem aqui no Brasil.
A ancestralidade cultural das nossas raízes africanas e indígenas trazem elementos que contribuem para a transgressão dos limites da linguagem. A dança brasileira diante dessa nova linguagem busca manter suas características ancestrais dentro da dança Breaking, pois a capoeira se mostra como conteúdo ancestral da Cultura Africana e suas incorporações com saltos mortais e a ginga de um bom capoeirista, permitem dialogar e romper as definições e limites iniciais dessa linguagem, abrindo novamente a ampliação da técnica dos fundamentos da linguagem da dança Breaking, adquirindo o tempero brasileiro, como soube muito bem expressar em sua ação prática o nosso Campeão Mundial 2010 B-Boy Neguin, em Tóquio, no Japão.
Muitos dizem que o Top Rock é o cartão de vista e o início da dança, porém, iremos ampliar essa compreensão para definirmos um campo comum da linguagem do Breaking brasileiro. O Top Rock é a parte do Breaking que mais simboliza a luta e o combate nessa dança, pois nesse momento o artista possui espaço para lançar sua expressividade corporal por meio de gestos de luta, como socos, golpes, armas, provocações, expressões faciais e trocas de olhares intimidadores, tudo para que o seu oponente perca a concentração, é o momento da presença e ocupação do corpo simbólico no espaço da batalha, toda essa movimentação somada ao gingado brasileiro que passa pelo samba, forró e danças populares, como o bumba-meu-boi da região norte e nordeste do Brasil, entre outras que podem ser fundidas ao Flow (fluidez), Feeling (emoção) e Flavor (interação com o público), todos esses elementos dão as características e identidade do corpo do B-Boy e B-Girl brasileiros durante suas expressões nessa linguagem.
O Top Rock é um conjunto de diversos movimentos que são executados e praticados na posição de pé ou movimentos bípedes. Então, para concluir essa primeira análise sem a pretensão de esgotar o debate sobre os fundamentos da dança Breaking, iremos listar aqui nomes de alguns passos que configuram o conjunto do Top Rock:
Indian Step – Back Step – Two Step – Side Step – Boyoing – Power Step – Power Hop – Latin Rock
Top Rock é um dos “Fundamentos do Breaking”
Do ponto de vista orgânico, os órgãos do corpo humano são responsáveis por qualquer movimentação e ação da expressão de vida, o que ao mesmo tempo nos limita e nos define também, nos possibilita a viver, a sonhar, a pensar e a construir o novo e a novos costumes. Então, fora do nosso corpo existe uma realidade que temos que encarar para viver, são os desafios e obstáculos do nosso cotidiano, e isso nos levam para uma outra direção, que é a superação.
Os fundamentos são as bases, ou sementes que originam e definem a cultura e tradição histórica humana, não podemos negar nossas raízes indígenas e africanas, que já celebravam a dança bem antes da chegada do europeu, impôs um processo de invasão de nossa linguagem e destruição de nossa cultura, que se dá até os dias de hoje, superar o preconceito e exclusão na periferia dos grandes centros urbanos ainda é uma grande luta e desafio, assim os fundamentos dessa arte nascem nesse contexto de exclusão, que obrigou os jovens periféricos dos anos 70, 80 e 90 a entrarem em um processo de luta e batalhas pela sua libertação, por meio das gangues, acabaram rivalizando entre si mesmo por já não mais conseguirem identificar qual era o inimigo invasor. Podemos dizer que, com certeza, os fundamentos do Breaking também têm raízes nas lutas, depois na união desses povos, pois por meio dessa arte reivindicam espaço de existência e valorização de sua imagem e autoestima, assim, o início da superação começou quando, ao invés de lutarem entre si, abriram espaço para o diálogo e união, então, nasce a linguagem da dança Breaking (Quebrar), uma nas periferias e guetos dos EUA e nas Favelas e quebradas do nosso Brasil.
Os Novos Fundamentos da Dança estão organizados dentro dessa linguagem em 3 partes que são:
Top Rock: é executado em pé, na posição “Bípede”. Tem um significado cultural de introdutória e ao contrário do que muitos falam, não é um cartão de visita, pois nossa arte não é venda, é o ataque inicial para olhar nos olhos do seu oponente e intimidá-lo, o Breaking é uma dança de batalha contra algo, esse algo é a realidade injusta que muitos jovens de periferia são colocados, por isso “Top Rock significa atitude frente a uma batalha diária e histórica”, é a parte da dança onde o B-Boy e a B-Girl não baixam a cabeça e olham nos olhos e buscam superar seus medos e desafios que os limitam a agir e tomar uma decisão para a superação e libertação de sua subjetividade oprimida, podendo ser complementado por gestos e outros movimentos que o corpo, carregado de emoção, guiaram a razão do B-Boy ou B-Girl.
Footwork e Freeze também fazem parte da essência dessa dança.
Assim, a técnica da dança Breaking, como qualquer técnica-corporal inventada pelo homem, é um processo em permanente construção.
A dialética entre o novo (criação) e o velho (tradição)!
Foto: Reprodução
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“Uma sensação de ter calado muitas pessoas que duvidaram de mim” (Itsa)
Emocionante! Não tem outra palavra que define a vibe daquela noite de julho de 2019, durante a “Rede Bull BC One Cypher Brasil” quando, diante de todos da cena, duas B-Girls fortes e inspiradoras disputaram a vaga para ir à competição mundial em Mumbai, na Índia. De um lado, Karyn, do outro, a mineira Itsa, que foi a campeã da noite. “Foi tudo bastante inesperado”, conta Itsa.
No dia das seletivas em Belo Horizonte, acordou tarde, estava prestes a perder as inscrições. Com uma ajuda de uma amiga, chegou a tempo de participar e ganhou em Belo Horizonte, depois, em outra atividade, teve um acidente no palco e machucou o pé direito. Sua participação e vitória no “Camp Brazil” foi com o pé enfaixado. Mas foi com esse mesmo pé que venceu e entrou num avião rumo a Mumbai, na Índia.
Superação sempre foi combustível para aqueles que sabem que o céu é o limite! A vida de Itsa nunca foi fácil, nasceu em Belo Horizonte, crescendo na divisa do bairro Tirol com a favela do Itaipu, a infância foi cheia de discriminação e precisou ser forte e ter foco para seguir em frente.
Em 2017, fez uma audição, o que garantiu uma vaga cinco meses depois no “Cirque du Soleil”. Atualmente, Itsa tem uma vida cheia de viagens e 10 shows na semana, garante que a situação tem suas vantagens e desvantagens. Falou: “Aprendi a cuidar da saúde e ter disciplina para manter o nível técnico”.
Foi entre um compromisso e outro que Itsa aceitou conversar com o Portal Breaking World.
Observem que todas as palavras desta entrevista terminadas com “e” são de apropriação não-binária, sendo essa identidade de gênero que Itsa representa. Em respeito à nossa entrevistada e a pluralidade de gênero, pois não compactuamos com nenhum tipo de discriminação ou preconceito, publicamos as respostas na íntegra, exatamente como foram escritas.
Confira abaixo:
BW – Queria que você falasse um pouco sobre onde nasceu, sua infância e sua vida em família.
B-Girl Itsa – Nasci em Belo Horizonte (MG), cresci na divisa do bairro Tirol com a favela do Itaipu, na região do Barreiro. Minha infância foi cheia de discriminação, por causa do meu estereótipo corporal, por meu comportamento não 100% feminino e nem 100% masculino. Eu era uma criança muito agitada, sempre gostei muito de jogar bola, brincar.
B-Girl Itsa é mineira e atual campeã da “Red Bull BC One Cypher Brasil”
BW – Parece que sua relação com a dança começou cedo. Nos conte um pouco sobre isso. Você teve apoio da sua família?
B-Girl Itsa – A minha primeira referência na dança foi meu primo William, ele se mudou para o lado da minha casa, e comecei a vê-lo (escondido pelo muro) treinando no quintal de casa. Depois, consegui convencê-lo a me levar para os treinos. Minha família não acreditava que iria tão longe, e tinham medo dos lugares e horários que aconteciam os treinos e eventos. Quando perceberam que eu não iria desistir da dança, começaram a me apoiar.
BW – Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-hop? E quando surgiu o amor pelo Breaking?
B-Girl Itsa – Com meu primo William, acredito que o amor foi à primeira vista. Ver aqueles movimentos sendo executados com tanta rapidez e musicalidade mexeu comigo.
BW – Alguém te ensinou a dançar Breaking? Você teve referências? Quem foram?
B-Girl Itsa – Ge Santiago (B-Boy Ge) e Lorran Daglas (B-Boy Sarda), co-fundadores da Crew “Skeleton Breakers”, foram duas das primeiras pessoas a me ensinar o Breaking, voltado para batalha. B-Girl Chellz e B-Girl Ruthchelly também me ensinaram muito, minhas primeiras referências além delas… B-Girl Nathana de Uberlândia, B-Girl Sarah Bee, da França.
BW – Em 2018 você passou a integrar o balé do “Circo du Soleil”. Como foi isso da seleção até o resultado? Como é o dia a dia de quem dança e trabalha em circo?
B-Girl ou ‘dançarine’ do “Cirque Du Soleil”? Itsa mostra que com determinação não existem limites.
B-Girl Itsa –Em maio de 2017, minha ex-professora de Ballet Danielle Pavam, fez um post no Facebook, se tratava das Audições que o Cirque faria para dançarinos de todas as modalidades. Me inscrevi e fui fazer a audição, em agosto do mesmo ano. Felizmente, eu passei, mas ainda sim, tive de esperar 5 meses para ser chamade. Ter uma vida de viagens e 10 shows na semana tem suas vantagens e desvantagens. Aprendi a cuidar da saúde e ter disciplina para manter o nível técnico.
BW – Fale sobre sua experiência de ser B-Girl no Brasil e nos conte os principais desafios enfrentados hoje pelas mulheres?
B-Girl Itsa – Estou vivendo um dilema no momento, que é de não ser reconhecide como “Não-Binário” na cultura e, além de tudo, também estar enfrentando esses desafios junto às mulheres no Breaking (afinal de contas, foram elas que me acolheram). Devemos nos atentar ao fato de que, assim como boa parte da comunidade Trans foi excluída do movimento LGBTQIA+, hoje a Cultura Hip-Hop está excluindo as mulheres (cis e trans) da cultura, não só elas, como outras minorias.
BW – Machismo, assédio e preconceito dentro da cena existe? Você já foi vítima disso? O que pensa sobre os assuntos?
B-Girl Itsa – Existe, é um absurdo, e tem que acabar! Não só eu, mas, milhares de mulheres, homens cis e trans foram discriminades. Várias pessoas desistiram do Breaking por situações de assédio, homofobia, humilhação ou até mesmo segregação da dança. A “Rede Bgirls do Brasil” se uniu e criou um guia antiassédio para conscientizar os B-Boys e B-Girls da cena. Eu acredito que isso seja apenas o começo, as mulheres irão resgatar a verdadeira essência do Hip-Hop, educando os homens que quiserem participar de seus eventos!
B-Girl Itsa em ação na final da “Red Bull BC One Camp Brasil”
BW – Ser B-Girl, trabalhar em circo, como você consegue se dedicar às duas coisas?
B-Girl Itsa – Eu precisei ficar bastante doente mentalmente para entender que era impossível ter 100% de mim para os dois. Depois de ter me recuperado, comecei a entender que descansar o corpo e a mente também é preciso para melhorar minha dança. Comecei a fazer planejamentos das minhas semanas de shows, sempre que eu tinha 1 show por dia (o que era raro no “Cirque”), era meu dia de treino, muitas vezes pedi para tirarem sofás e mesas do meu quarto de hotel e treinava ali mesmo, depois do show, de madrugada. Treinar virou um hábito, uma coisa que me faz bem, e não algo que me deixa pressionade para o próximo campeonato.
BW – Quando surgiu a ideia de participar da “Red Bull BC One Cypher Brasil”? Você imaginava chegar na final e ganhar?
B-Girl Itsa – Foi tudo bastante inesperado. No dia das seletivas, em Belo Horizonte, acordei tarde, estava prestes a perder as inscrições. Por uma ajuda da minha amiga cheguei a tempo e ganhei em BH, depois, fazendo turnê, tive um acidente no palco e machuquei o pé direito. Ganhei o “Camp Brazil” com o pé enfaixado.
BW – Como você se preparou para esse evento? Naquele tempo que esteve competindo bateu um frio na barriga ou foi tranquilo?
B-Girl Itsa – Não tinha me preparado para o evento no geral, estava me recuperando do meu acidente. Estava feliz de ter visto amiges do Breaking e Hip-Hop depois de tanto tempo só viajando e trabalhando com o “Cirque”, era a primeira vez depois de muito tempo que eu não dançava algo diferente das coreografias do show.
BW – Porque você acha que os jurados decidiram por você? O que fez a diferença na final?
B-Girl Itsa – Acredito que as batalhas foram bastante acirradas, mas eu estava me sentindo com bastante energia, acho que naquele dia consegui me conectar com minhas adversárias, jurades, DJ e plateia. Devemos considerar que muitas mulheres que estavam nas finais, também participaram da seletiva da “Cypher São Paulo” de manhã. Muitas acordaram cedo para chegar a tempo de fazer as inscrições, isso foi bastante estressante e desgastante para muitas competidoras. Por que não fizeram as seletivas e finais com os B-Boys no mesmo dia também? Porque o limite de inscrições entre B-Boys e B-Girls foi tão desigual?
O pé enfaixado não impediu que Itsa fosse a selecionada para representar o Brasil na Índia.
BW – Que sentimento você teve quando recebeu a notícia que era a ganhadora da “Cypher Brasil”? Como foi o retorno para a sua cidade, teve muita festa e comemoração?
B-Girl Itsa – Um sentimento de surpresa, euforia, ao mesmo uma sensação de ter calado muitas pessoas que duvidaram de mim. Minha família não estava lá em SP, mas acompanharam tudo pela live. Meus amiges do “Cirque” e de BH, todes me parabenizaram. Teve churrasco!
BW – De que crew você faz parte? Fale um pouco de sua relação com a sua crew?
B-Girl Itsa – Eu já fiz parte da crew “Skeleton Breakers”, desde 2012 até 2019. Foi assim que aprendi a ter atitude nas batalhas.
BW – Nos conte como foi a sua viagem para a Índia. O que achou do local, das pessoas e dos costumes? Como foi recebida?
B-Girl Itsa – A Índia é um lugar de pessoas muito fortes espiritualmente, apesar da pobreza e poluição extrema, fui muito bem acolhide, os B-Boys Bart, Till, Pelezinho e Neguin estavam comigo e aproveitamos bastante o evento treinando, participando da “Continental Battle”.
BW – No torneio em Mumbai você teve sua primeira batalha com três B-Girls. Como foram essas batalhas?
B-Girl Itsa – Muita energia, muita expectativa e bom empenho de todes.
B-Girl Itsa: “machismo, assédio e discriminação têm que acabar no Breaking e no Hip-Hop”.
BW – O resultado naquele momento não foi positivo para o Brasil. O que você achou de tudo e como se sentiu? Pretende competir nos próximos anos?
B-Girl Itsa – Me senti como iniciante, alguém que tinha acabado de renascer no mundo do Breaking e que tem muito a melhorar enquanto dançarine.
BW – Sobre o Brasil, como você vê o preparo e o nível de dança das B-Girls brasileiras? Estamos preparados para competir e ganhar de outras B-Girls do resto do mundo?
B-Girl Itsa – Acredito que as B-Girls do Brasil sempre tiveram nível para competir com outras lá fora, mas acho que houve uma rejeição e até mesmo uma insegurança dos B-Boys, de perderem o lugar de protagonismo para as mulheres. Hoje, as mulheres e outras minorias estão se unindo para fazer um Breaking independente de homens misóginos e preconceituosos. Uma nova cena do Breaking no Brasil está nascendo.
BW – O que você pensa sobre a união das B-Girls na “Rede Bgirls do Brasil”? Fale da importância disso.
B-Girl Itsa – Essa ação tem tudo a ver com representatividade. O que seria da B-Girl Terra se não assistisse outras mulheres dançando?! A “Rede Bgirls do Brasil” está aí para mostrar e encorajar outras mulheres a serem o que quiserem. E também está mostrando para os B-Boys que não precisam deles para evoluir na dança e/ou produzir eventos, bem como denunciar homens machistas na cena.
BW – O que você acha sobre os espaço destinados às mulheres dentro dos eventos de Breaking brasileiros?
B-Girl Itsa – Acho que ainda é muito desconfortável para as mulheres, principalmente mulheres com seus filhes, em muitos eventos não há espaço para amamentação, fraldário, espaço para as crianças. A mulher ainda se sente desconfortável para vestir o que bem quiser em um evento, ela fica entre se masculinizar e ser vista como “lésbica”, “macho demais para ser mulher” ou colocar algo mais feminino e ser sexualizada, assediada por causa disso. É muito triste que o sexismo tenha atingindo lugares de inclusão como eventos de Hip-Hop.
BW – Se pudesse deixar um recado para as B-Girls da nova geração o que diria?
B-Girl Itsa – Não tenha medo, nem vergonha de dançar o que você é, de expressar o que você quer ser. Em qualquer competição… Vence aquele (a) que aprende!
Fotos: Arquivo Pessoal
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Não se pode afirmar que talento é algo hereditário, mas no caso de Samuel Locatelli, conhecido na cena como B-Boy Samukinha, o amor pela Cultura Hip-Hop veio de berço e corre junto com o sangue nas veias.
Filho do B-Boy Sandro e da B-Girl Sátila, ambos de Goiânia, ele desde cedo desenvolveu o gosto e o amor pelo Breaking e tem se destacado nos últimos anos como um dos grandes nomes da nova geração.
Samukinha começou a dançar com apenas 4 anos e não parou mais. Seus movimentos cheios de personalidade e acrobáticos o fazem se destacar nos eventos por onde passa, ano passado foi um dos ganhadores do “Quando as Ruas Chamam”, em Brasília.
Ele faz parte da “Bairro Feliz Crew” e da “Dream Kids Brazil”. Fora das batalhas é um menino doce, cheio de vida, que gosta de brincar, apegado à família, onde o pai é sua referência e seu herói, pessoa em que Samuka se inspira.
Ele também tem sonhos, um deles realizou quando esteve em São Paulo, que foi dançar Breaking dentro do Metrô paulista, outro sonho é competir fora do país.
O Portal Breaking World teve um grande papo com esse menino que quebra tudo nas rodas. Confira:
BW – No seu caso, o breaking é algo de família. Sandro é B-Boy e Sátila é B-Girl, como surgiu o amor pelo Breaking e pela Cultura Hip-Hop?
Samukinha – Sim, meus pais se conheceram por meio do Breaking e desde pequeno meu pai sempre me ensinou, então, nunca mais parei de dançar. Isso é minha base.
B-Boy Samukinha começou cedo no Breaking, inspirado nos pais.
BW – Com quantos anos você começou a dançar Breaking? Quem são suas referências?
Samukinha – Comecei a dançar desde bem pequeno, por volta dos 3 e 4 anos, meu pai sempre foi minha inspiração e minha referência.
BW – No início surgiu de você a vontade de dançar?
Samukinha – Sim, desde o início sempre tive vontade de aprender a dançar.
BW – Quantas horas e dias por semana você treina? Como são os treinos aí em Goiânia?
Samukinha – Treino 3 vezes por semana, 3 horas por treino, temos um grupo de dança e sempre estamos juntos. É bem legal!
BW – Com quantos anos você começou a competir?
Samukinha – Minha primeira batalha foi aos 5 anos.
B-Boy Samukinha faz parte da “BF Crew” e da “Dream Kids Brazil”
BW – No Breaking tiveram movimentos mais difíceis de aprender do que outros? Quais foram?
Samukinha – Sim, sempre tem movimentos mais complexos, por exemplo, o flare, tive mais dificuldades neste movimento.
BW – Fale sobre os eventos aí em Goiânia e no resto do país que já competiu e sobre aqueles que você ganhou?
Samukinha – Goiânia tem bastante eventos grandes, já participei de vários e também já tive várias vitórias, não só em Goiânia, como também em outras cidades, competindo nas categorias infantil e adulto, sempre que aparecem eventos eu procuro participar para ter experiência para poder competir fora do país.
BW – Como você divide seu tempo entre estudo e dança? Na escola as pessoas pedem para você dançar?
Samukinha – Estudo em tempo integral e sempre treino no horário noturno. Consigo conciliar bem e sempre que tem eventos na escola participo com minha dança, não só na minha escola, como também em outras.
Além do Breaking, Samukinha participa de eventos em escolas e propagandas na TV.
BW – É verdade que você já participou de propagandas na TV? Fale sobre isso?
Samukinha – Sim, já fiz comerciais e participei de shows de talentos de programa de TV. E foi uma experiência ótima para meu desenvolvimento e crescimento no Breaking.
BW – Você fica nervoso quando vai competir? Como você se sente?
Samukinha – Fico nervoso, mas, porém, fico focado, procuro não me distrair e quando termino de batalhar procuro ficar mais tranquilo.
BW – Fale um pouco da sua crew aí em Goiânia e da sua outra crew que reúne crianças de vários estados do Brasil, a “Dream Kids Brazil”?
Samukinha – Tenho uma crew em Goiânia chamada “BF Crew” que significa “Bairro Feliz Crew”, sempre estamos juntos nas batalhas, nos eventos e nas apresentações, nos tornamos uma família que um apoia o outro, e também participo de outra crew a “Dream Kids Brazil”, que tenho a oportunidade de representar o Brasil lá fora e também estamos nos tornando uma família.
BW – É verdade que a “Dream Kids Brazil” estava planejando competir fora do país esse ano quando estourou a pandemia? Como você se sentiu em relação a isso?
Samukinha – Sim, nossa crew, a “Dream Kids Brazil”, estava planejando sair para competições internacionais, porém, teve um imprevisto com essa pandemia, mas não fiquei triste, pois tudo tem seu tempo.
BW – Normalmente em Goiânia, em vários eventos, você já rachou várias vezes com o Ferrugem, que é um outro grande B-Boy da nova geração. Também já rolou uns desafios! Fale sobre isso!
Samukinha – Fui desafiado pelo B-Boy Ferrugem e isso é bom, pois faz parte de ser B-Boy e ser desafiado por alguém que dança muito é um privilégio.
BW – Agora, no momento de pandemia, você chegou a participar de eventos on-line, correto? Nos conte sua experiência e o que pensa desse novo modelo de campeonatos?
Samukinha – Sim, participei de eventos on-line, não cheguei a ganhar o evento, mas foi uma experiência bacana, porém, não tem a mesma emoção de um campeonato presencial, mas foi boa a experiência.
BW – O que significa o Breaking para você?
Samukinha – O Breaking é a essência da minha vida, faz parte de mim, da minha família e do que eu sou.
B-Boy Samukinha faz parte de uma geração nova mas que sempre lembra da essência do Hip-Hop.
BW – Como você vê a participação da nova geração do Breaking nos grandes campeonatos?
Samukinha – Vejo a nova geração nos campeonatos como um início de um sonho, novos B-Boys irão continuar essa cultura, que não pode parar, sempre me sinto apoiado por todos.
BW – Ano passado, você esteve em São Paulo e visitou a São Bento, que é o templo da Cultura Hip-Hop, como foi essa experiência?
Samukinha – Me senti honrado por ter conhecido a São Bento, pois lá foi o berço do Breaking, onde tudo começou e tive a oportunidade de dançar com vários B-Boys “Old School”.
BW – Quais são seus sonhos para o futuro?
Samukinha – Meu sonho para o futuro é me tornar um homem de bem, quero me especializar em dança, me tornar um grande profissional da dança e também competir fora do país, representar o meu Brasil.
Fotos: Arquivo Pessoal
Samukinha no racha de Breaking
Samukinha e família
Samukinha e família.
B-Boy Samukinha se inspirou no pai e na mãe.
B-Boy Samukinha
B-Boy Samukinha: tem talento na arena de Breaking.
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“O sertanejo [nordestino] é, antes de tudo, um forte.” (Euclides da Cunha)
O nordeste, ao contrário do que muitos possam pensar, é um celeiro de talentos, rico na diversidade de sua cultura, história, terra de gente forte, com sangue nos olhos, que não tem medo de dias difíceis e desafios. Seus problemas e dilemas foram retratados em alguns textos e canções que foram eternizados, ganharam o mundo. Quem nunca escutou Asa Branca: “Quando olhei a terra ardendo; Qual fogueira de São João; Eu perguntei a Deus do céu; Ai, Por que tamanha judiação…”, música de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, ou, “Nordeste Independente”, composição de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova. “Já que existe no sul esse conceito, que o nordeste é ruim, seco e ingrato; Já que existe a separação de fato, é preciso torná-la de direito. Quando um dia qualquer isso for feito; Todos dois vão lucrar imensamente começando uma vida diferente de que a gente até hoje tem vivido; Imagina o Brasil ser dividido e o nordeste ficar independente; Dividindo a partir de Salvador o nordeste seria outro país; Vigoroso, leal, rico e feliz; Sem dever a ninguém no exterior…; Tem o pão repartido na metade; Tem o prato na mesa, a cama quente; Brasileiro será irmão da gente; Vai pra lá que será bem recebido; Imagina o Brasil ser dividido; E o nordeste ficar independente…”.
Composta pelos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, a região Nordeste “antes de tudo um forte”, assim foi descrita por Euclides da Cunha, se tornando um canalizador de movimentos culturais e talentos.
Nessa atmosfera, a Cultura Hip-Hop chegou para ficar e fazer a diferença na vida de muitos nordestinos, na década de 1980 quase tudo era visto por meio de revistas, filmes e vídeos que vinham de fora do país, nessa época não existia internet. Existia, sim, algumas festas que as pessoas frequentavam e dançavam, ali começava uma história, uma movimentação que nunca seria passageira, no final dos anos 80, 90 já era possível ver na cena vários breakers espalhados na região.
O tempo passou, hoje o nordeste continua sendo o berço de muitos talentos e tem motivos de sobra para se orgulhar disso, na Cultura Hip-Hop a história se repete e não deixa nada a dever a qualquer outra região. Se você é daqueles que torce o nariz quando encontra numa roda um B-Boy ou uma B-Girl do nordeste, talvez você precise rever seus conceitos e tomar cuidado para não levar um couro na cypher.
Bart (esquerda) e Till (direita): nordestinos, representaram o Brasil na última edição da “Red Bull BC One”, na Índia.
Nomes como o do cearense Mateus Melo, conhecido como Bart e Francisco Cleiton Verçosa, o B-Boy Till, estão entre os nomes dos melhores B-Boys brasileiros, destaques na cena nacional e mundial do Breaking. “Vem conhecer, saber o porquê que sempre vamos defender essa terra tão querida de brilhantes artistas e rico em culturas e festivais. Conhecer as deliciosas comidas típicas nordestinas. Tenho certeza que você pode mudar sua visão em relação a minha terra”, declara Till, atual campeão da Red Bull BC One Cypher Brasil. Nascido em Fortaleza (CE), começou a dançar Breaking aos 14 anos e também nessa idade já praticava a capoeira, o amor pela Cultura Hip-Hop surgiu a partir do momento que começou a entender o que era o real Hip-Hop, assistindo vídeos, conversas com os “Old School”.
B-Boy Till
Conta que teve grandes referências em Fortaleza, onde aprendeu a dançar. São dele as palavras: “A cultura é muito importante na minha vida e acredito que na vida de muitos periféricos que nem eu. A Capoeira e a Cultura Hip-Hop salvam vidas, sim! Eu sou a prova disso! Na minha vida já tiveram algumas pessoas com aquele desconforto de querer se sobressair sobre mim ou aquele preconceito de nos tratar como minoria. Mas tudo bem, é vácuo para essas pessoas ou papo reto quando tiver face a face. Gosto de dialogar e falar o quanto não me importo com o que o fulano acha de mim e do meu nordeste, que por sinal, venhamos e convenhamos é maravilhoso. Pessoas preconceituosas, racistas, marxistas, homofóbicos, esses tipinhos sabe?! Qual o problema de cuidar da própria vida? Seu preconceito não mudará nada do quão eu não me importo e sei que muitos nordestinos também não. Respeito hoje, respeito amanhã e respeito sempre”, conclui Till.
Para Ivis Love, que é paraibano, B-Boy e Arte-Educador desde 2012 e trabalha com uma metodologia própria de ensino, desenvolvendo material digital, como treinamentos e conteúdos digitais de Design como forma de informação sobre a Cultura Hip Hop, o foco é priorizar a vivência de cada criança, adolescente e adulto, tentando assim ampliar o universo do Breaking.
O Nordeste é a região mais rica culturalmente do Brasil e até do mundo. Ele relata: “Com variedades pouco conhecidas pelos B-Boys e B-Girls do nosso país, a realidade nunca foi enxergar a pobreza, até por que o povo não tinha e muitos ainda não têm outra perspectiva de mundo, só resta viver como dá. Toda cultura dá um sentido para a vida, em todos os sertões se tem culturas populares fortes, que são seguidas como religião. E são muito mais além do que se pode descrever. O Hip-Hop, de fato, sempre salvou vidas de inúmeras formas, temos consciência que a juventude é facilmente iludida pelo injusto sonho alimentado de ser atleta e no nordeste temos muitos nomes que se deram bem, e inúmeros com muito potencial que não conseguiram, graças ao gritante distanciamento social e divergência de classes que existe em nosso país. Posso dizer que o Hip-Hop veio como uma válvula de escape, uma oportunidade de ver o mundo de outra forma, um incentivo para buscar outros idiomas, outros povos, outros costumes, onde se educou como sermos melhores em casa, como poderíamos ser alguém diferente do que a sociedade impõe e ainda sim levar sustento para nossa casa. Creio que assim pudemos ter um diferencial e quebra de preconceitos”.
Ivis Love é B-Boy e Arte-Educador e reside em Campina Grande (PB)
O contato de Ivis com a cultura vem de muito tempo, ele conta que teve o real entendimento que o verdadeiro Hip-Hop se trata da cultura do povo, trabalhou com cultura popular nordestina desde os 15 anos, porém, com 18 anos teve de fato o que considera o primeiro contato com o Breaking, por meio do saudoso B-Boy Banks da “Back Spin Crew”.
Segundo Ivis foi amor instantâneo, quando o Banks falou palavras que o fizeram enxergar as coisas de forma diferente, pois havia sido expulso do local onde já havia Breaking em Campina Grande-PB. E foi quando Banks o convenceu que poderia sim ser B-Boy, falando que não era o que se fazia, era como fazia e pela causa que se fazia. E então, diante disso, se comprometeu a ser um B-Boy verdadeiro e levar essa mensagem pelo resto de sua vida. Ele declara: “Não tive professores de Breaking, aprendi sozinho, olhando e querendo fazer, referências para mim foram meu mestre de Frevo (Alexandre Felizardo) e Banks (primeiro a me falar sobre Breaking de verdade). Me orgulho por ter começado aqui, amo saber bem de cada cultura a que faço referência em minha dança, tem ciência da cultura local, me faz sentir-me muito mais pertencente e representante do local de onde sou, Nordeste, Brasil. Desafios são vários, posso citar alguns: distância e custo de viagens para o Sudeste, onde acontece, infelizmente, uma centralização de recursos e eventos de qualidade; outra dificuldade que eu vejo, é uma constante falta de união entre os estados nordestinos na atualidade, em relação a eventos e ações, a competitividade se tornou algo forte, quase nunca positiva por aqui. Eu tenho muitas amizades que nasceram dentro de competições, creio que uma outra dificuldade aqui é causada muitas vezes por “nós” mesmos, quando não se valoriza a história do local, quando não se busca conhecer e dar continuidade. Nordeste é forte e tem gente que não sabe disso, e quem sabe muitas vezes quer tirar vantagem em cima das demais pessoas. Eu vejo uniões por diversas coisas na rede social, mas que na prática nunca aconteceram, encontros de final de semana, não se transformam em ações diárias e essa é a dificuldade para nossa cultura no Nordeste. Fazer com que nos eduquemos, não para sermos mais do que outras pessoas, mas sim para nos unirmos mais com a comunidade, com o povo. Hip-Hop é povo e não evento! É importante entender que a força e o talento do Nordestino sempre estiveram presentes em competições e eventos pelo Brasil e mundo, pois bem lá atrás, o B-Boy Chimbade de Recife (PE) vivia na Europa, onde ensinava passos da dança frevo para europeus que valorizavam demais as danças nordestinas”, explana Ivis.
Ivis Love dá palestras para crianças
E continua: “Falando de competição, em 2007, a Nação Break de Recife (PE), mostrou com apenas 7 B-Boys, tendo dormido na rua um dia antes da competição, que tinham muito mais a oferecer, sendo classificados nos shows da BOTY Brazil do ano. Em 2009, o Nordeste teve 4 B-Girls nas finais da BOTY América do Sul, em Campinas (SP). Em diversos outros anos o Nordeste teve B-Boys campeões em competições diversas pelo Brasil e fora do país e B-Girls em destaque por todo o território nacional. O preconceito existe e a xenofobia também na cena brasileira. Piadas idiotas, costumes em ridicularizar as falas e erroneamente falarem sobre seca e dificuldades. Infelizmente, as pessoas em nossa cena costumam lutar por uma causa só, se não as afeta, deixam passar, mas no Hip-Hop não deveria existir isso. E, por isso, não compareço em diversos eventos do nosso pais que não sejam realizados por uma organização de respeito. Se eu pudesse falar algo para todos diria: Curem-se, estudem, se achar que já sabem muito, estudem mais, sejam mais humanos, e parem de ser idiotas… Gostaria de ver a cena no Nordeste se fortalecer, todos por todos, valorização dos diversos valores que têm aqui presentes, pessoas com conhecimento, com potencial, pessoas de diversas áreas, capazes de atribuir muito valor em diversos segmentos da cena. Gostaria de ver a cena nordestina não parando no tempo, não se tornando corruptiva, sendo cada vez mais Hip-Hop como referências que já tem. Gostaria muito que as coisas não se limitassem apenas a capitais, que as pessoas que difundem cultura pudessem fazer por mais pessoas e localidades e não guardassem apenas para interesses próprios. Gostaria de ver a região Nordeste unida, valorizando e sendo valorizada, não apenas por títulos, mas por tudo que temos de qualidade”, conclui.
B-Girl Llys
Do Maranhão, a B-Girl Elly faz coro com Ivis e acrescenta: “Eu gostaria que os meus irmãos B-Boys e irmãs B-Girls da cultura tivessem mais visibilidade e oportunidades para mostram todo o seu talento país afora. Aqueles que criticam nossa terra, que possam estar vindo conhecer de perto a maravilha que é o Nordeste. Somos humildes e acolhedores…”.
Elly, na cena, é conhecida como B-Girl Llys. Nascida em São Luis (MA), onde ficou até os 22 anos, depois se mudou para Brasília (DF). Llys conheceu o Hip-Hop quando tinha apenas 13 anos, por meio de filmes e pessoas que já dançavam e também dançava na igreja que frequentava. Fez parte de duas crews: “Resistência X” e “Plano B”. O amor pelo Breaking surgiu quando tinha 16 anos. O breaking marcou sua vida de uma forma especial. Conheceu por meio de um amigo B-Boy. Desde então, nunca mais abandonou o estilo que a desafia todos os dias. Uma grande referência para Llys é o próprio esposo, que também é B-Boy, além de outros B-Boys “Old School” e algumas B-Girls.
B-Girl Llys nasceu em São Luis, no Maranhão
São dela as palavras: No Maranhão e em todo o nordeste, há muitos locais que não têm uma boa acessibilidade, apoio e investimento. Então, os jovens ficam à mercê de duas coisas: do crime e das facções. O Hip-Hop em si trabalha nessa área, leva acolhimento e disciplina, paz e união, fazendo com que os jovens comecem a ver na dança um refúgio para seguir um caminho melhor. Temos bons B-Boys e boas B-Girls nos representando, o Till ter ganhado a Cypher Brasil foi um salto muito grande para a visibilidade do Nordeste na cena. Muito importante esse acontecimento. Assim como ele, há dançarinos muito talentosos que não têm tantas oportunidades de mostrar isso afora. Para nós, mulheres, além do preconceito na cena o nosso maior desafio tem sido com o machismo e também o assédio dentro do Breaking”, finaliza.
Para a baiana Michelle, o machismo no Breaking está fora dos trilhos, é preciso mudanças.
Michelle Arcanjo, B-Girl de Salvador, concorda e declara: “O machismo na nossa terra é muito forte! É uma luta diária! Precisamos nos impor e fazer o que temos que fazer, meter as caras, ficar atenta sobre a questão do assédio, existe muito pouca escuta dos B-Boys em relação a pautas femininas no Nordeste. Ser B-Girl no Nordeste não é fácil. No Nordeste é algo bem desafiador, porque primeiro não há muito reconhecimento, falo mais ainda da Bahia, que são menos conhecidas. Tem menos visibilidade. Pela dificuldade que temos de sair daqui e ir para outros estados para participar de eventos, até mesmo pela questão financeira, e aí acabamos não sendo vistas e nem conhecidas. Mas isso tem se modificado principalmente agora em tempo de pandemia, que as pessoas estão mais conectadas na internet, do surgimento da “Rede de B-Girls”, então, observamos que esse intercâmbio tem favorecido a comunicação e o conhecimento entre os estados. O maior desafio de ser nordestina é vencer essas questões da própria sobrevivência e estar ativa dentro do movimento”.
Michelle passou a maior parte da vida morando numa cidade que fica na região metropolitana chamada Simões Filho. Seu contato com a Cultura Hip-Hop começou na escola de dança da “Fundação Cultural do Estado da Bahia”. Começou a dançar por meio das danças acadêmicas, então, foi por meio do Ballet Clássico e da Dança Moderna, que costumava frequentar e fazer aula, que conheceu uma B-Girl que se chamava B-Girl Pink, ela a convidou para uma aula de Breaking. Michelle já tinha, na época, 19 anos e aí esse foi o primeiro contato com esse elemento. Também teve contato com o Hip-Hop por meio de filmes, na mesma época de 2008, 2009, assistia muito filmes de dança, então, via muita coisa de Hip-Hop nesses filmes, mas levar o Breaking a sério foi mesmo em 2010.
O que a baiana tem? Tem Breaking e muita alegria.
O amor pela Cultura Hip-Hop surgiu nas aulas de Breaking que frequentava no Pelourinho. Começou aprendendo com a B-Girl Pink, mas seu mentor foi o B-Boy Índio Medeiros, que hoje não está mais ativo na cena. Michelle se inspirava muito neles, atualmente suas referências são FabGirl, B-Girl Pekena, B-Girl Jaque, B-Boy Sabota, B-Boy Insano, B-Boy Jessé, de Alagoas e B-Boy Fabrício, de Belo Horizonte. Sobre os desafios da região, são da B-Girl Michelle, que faz parte da “Soul´ta Crew”, as palavras: “Em Salvador, nós temos uma condição de extrema pobreza nas comunidades e é inevitável falar como a Cultura Hip-Hop tem um papel importante na conscientização de quem somos e onde estamos nessa pirâmide social, trazendo possibilidade de crescimento para que a pessoa possa sobreviver não apenas de suas áreas, mas de outras também, que permeiam os movimentos culturais, como a produção cultural e tudo o mais. Mas a maior contribuição da Cultura Hip-Hop é tirar as pessoas de condições de violência, de criminalidade e realmente tem salvo vidas neste sentido. Outro problema é a xenofobia muito presente, eu percebo isso, até porque B-Boys e B-Girls de outros estados subestimam muito o B-Girling Nordestino e falo de algo que tenho propriedade para falar, porém, eu vejo muito mais isso na Bahia do que em outros estados do Nordeste. Eu já escutei piadinha, sim, por ser da Bahia, quando viajei no Centro-Oeste eu escutei muitas coisas, de ser preguiçosa, enfim, estereótipos que atribuem a baianos e que são mentirosos e também piadinhas machistas em relação à mulher nordestina. Eu nunca me senti diminuída, porque eu sempre fui muito de dar a cara à tapa. Mas eu já fui constrangida dentro de cyphers em relação a fazer alguns movimentos para validar a minha dança, de ter que validar o que eu faço tendo referência de B-Girls de outros estados e isso foi bem chato. Mas seguimos firme nas nossas metas, as mulheres brasileiras no Breaking são muito batalhadoras e cada vez mais organizadas e isso tem sido um diferencial na cena. Para quem discrimina o Nordeste eu digo: venham ver o que nós temos, a nossa criatividade, é uma grande besteira a discriminação. Toda discriminação é algo muito burro! Perdemos força com isso, quando poderíamos estar ganhando força e o que mais gostaria de ver na cena em relação ao Nordeste é um verdadeiro intercâmbio onde um pudesse aprender com os outros!”, conclui a B-Girl.
B-Girl Lora tem se destacado na cena e mostra a força da mulher nordestina.
Para o casal David Anderson e Vanessa, bem presentes na cena do Breaking nacional, mais conhecidos como B-Boy Suicibreak e B-Girl Lora, os nordestinos, mesmo com toda dificuldade, vêm derrubando barreiras e conquistando seus espaços. Eles garantem que ser B-Boy e B-Girl no Nordeste é muito bom, contam que a população incentiva sempre, passando positividade, as vivências que acontecem com o Breaking sempre são muito boas, mas lamentam sobre as dificuldades com patrocínios e apoio de órgãos públicos e privados para representar o estado em outras regiões.
Declararam: “O Nordeste, principalmente o Ceará, está crescendo muito na cena Breaking. Ano passado tivemos vários representantes na “Cypher Red Bull” e dois B-Boys cearenses na Índia, na “Last Chance”: B-Boy Till e B-Boy Bart. Aos poucos, tudo começa a mudar com os espaços conquistados por nordestinos, o preconceito existe, já escutamos algumas coisas, têm muitos Raps feitos por nordestinos que falam sobre esse preconceito. Essa situação, de certa forma, não nos atinge, pois aqui aprendemos a dar a volta por cima”.
Suicibreak é nascido em Fortaleza (CE), seu primeiro contato com o Hip-Hop foi na infância, escutava Rap nacional. Na escola, a professora de artes fez um estudo sobre o Hip-Hop, onde então conheceu um pouco sobre o assunto, depois, viu um treino de Breaking no bairro e achou “muito massa”, na feira encontrou um DVD de uma competição de breaking, “Red Bull BC One 2005”, então, no ano 2008, procurou alguns B-Boys da cidade e começou a aprender o máximo com eles e até hoje vem vivendo essa cultura.
Lora também nasceu em Fortaleza (CE), seu primeiro contato com a cultura Hip-Hop foi na escola, tinha 14 anos. Atualmente, representando o Nordeste, vem fazendo várias viagens. Sua presença dentro dos eventos vem sendo destaque, com algumas conquistas de vários títulos dentro da cultura, tanto no Nordeste como no resto do país. Foi Campeã na categoria B-Girl no evento “True Floor”, no ano de 2018, em Goiânia (GO); 1º Lugar na categoria B-Girl no evento “Fendafor”, no ano de 2018 em Fortaleza (CE); 2º Lugar na categoria B-Girl, na “Batalha do Cerrado”, no ano de 2018, em Jataí (GO). Seus corres para estar em outros eventos, em outros estados, foi difícil. Enfrentou diferentes climas, teve que se adaptar para os treinos, já viajou para São Paulo (SP), Uberlândia (MG), Goiânia (GO), Rio Grande do Sul e Brasília (DF).
Atualmente, eles contam o que andam fazendo: “Estamos treinando, aprendendo novos conteúdos para futuras competições, estamos fazendo “Street Shows” na cidade, participando de eventos on-line, organizando o nosso grupo “É Nois Crew” e esperando a pandemia passar para retomarmos as atividades por completo”, concluem.
B-Girl Lora e B-Boy Suicibreak têm viajado de Norte a Sul do país. Companheiros no Breaking e na vida.
O nordeste resiste e persiste, possui quase 50 milhões de habitantes e é a região geográfica do Brasil com o maior número de estados. Suas festas populares, danças, folguedos, crenças, mitos, comida, artesanatos e principalmente seus talentos, mostram que o nordeste é rico! E pobre é o preconceito! Como diz Rapadura Xique-Chico na música “Nordeste me veste”, que começou na cena dançando Breaking e depois foi rimar: “O nordeste é poesia; Deus quando fez o mundo fez tudo com primazia; formando o céu e a terra cobertos com fantasia”. Ele, em uma das estrofes, manda o recado: “… Minhas irmãs, meus irmãos; Se assumam como realmente são; Não deixem que suas matrizes, que suas raízes morram por falta de irrigação. Ser nortista e nordestino meus conterrâneos; Num é ser seco nem litorâneo. É ter em nossas mãos um destino, nunca clandestino para os desfechos metropolitanos…”.
Fotos: Arquivo Pessoal
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Boy Till
B-Girl Llys
B-Girl Llys
B-Boy Ivis Love
B-Boy Ivis Love
B-Boy Suicibreak e B-Girl Lora nas comemorações de 25 anos da Casa do Hip Hop em Diadema (SP)
B-Girl Lora (esquerda) e B-Boy Pelezinho (direita)
B-Girl Lora, B-Boy Suicibreak e a "É Nois Crew"
B-Girl Lora
B-Girl Michelle
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