Ele cresceu brincando nas ruas, desafios e problemas familiares existiram e não foram poucos, filho de pais separados, Maguila desde cedo teve que aprender a superar os dias nublados da vida e fazer seus “corres” para ajudar a mãe.
Seu primeiro contato com a Cultura Hip-Hop foi na escola por meio de uma Oficina de Breaking. Na época, de baixa estatura e um pouco acima do peso, se envolvia de vez em quando em algumas brigas, por isso seu apelido “Maguila”, referência ao conhecido lutador de boxe brasileiro dos pesos pesados. Mas o Maguila que estamos falando não tem nada a ver com o também carismático pugilista sergipano do passado.
Foi junto com a família Street Son que o B-Boy Maguila também cresceu e aprendeu talvez algumas das mais valiosas lições da vida! O menino é mais um grande nome da nova geração de B-Boys e B-Girls que vem se destacando no nosso país!
O Portal Breaking World teve a honra de conversar com ele, confira a entrevista:
BW: Queria que você me falasse seu nome, idade e contasse onde e como foi a sua infância? Que lembranças você tem dessa época? Como é sua vida em família?
B-Boy Maguila: Meu nome é Erich, tenho 17 anos, minha infância eu curti bastante! Tinha muitos amigos na rua onde eu morava. Todo dia era alguma brincadeira (risos), briguei muito (risos), acontece né? E minha família, a gente já passou por muitos problemas no passado, minha mãe e meu pai eram separados. Eu e meus irmãos vivíamos soltos na rua (risos). Agora eles tão junto de novo, todo mundo cresceu e faço meus corres para ajudar minha mãe.
O Breaking também trouxe fé e esperança de dias melhores para Maguila.
BW: Quando e onde teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop?
B-Boy Maguila: Primeira vez que tive contato com o Hip-Hop foi na escola onde eu frequentava, a escola fez um projeto de oficinas, onde nela tinha a Oficina de Breaking e foi lá o meu primeiro contato.
BW: Em que ano começou a dançar Breaking? Alguém te ensinou? Quem foram suas referências na dança?
B-Boy Maguila: Comecei a dançar no ano de 2015, os professores eram o B-Boy Feijão e o João, que é baterista. Minha referência foi meu irmão e meus amigos.
BW: O que sua família acha sobre sua dança? Eles apoiam? Como surgiu o nome B-Boy Maguila?
B-Boy Maguila: Acham que eu tenho muito talento para isso, apoiam muito o meu desejo de seguir essa trajetória. O nome Maguila veio do lutador de boxe que se aposentou, o meu apelido começou na escola por conta que brigava (risos) era baixinho, gordinho e falavam que parecia com o Maguila e quando comecei a dançar falavam: “Nossa! O Maguila tá dançando agora!” (risos).
Talentoso e de sorriso fácil, Maguila deixou seu lado brigão para dedicar-se ao Breaking
BW: Houve movimentos mais difíceis de aprender? Quais?
B-Boy Maguila: Sim, o movimento mais difícil, que demorei pra aprender e mais faço é o “flare”, que é considerado um movimento olímpico.
BW: Como são seus treinos? E quantas vezes por semana treina?
B-Boy Maguila: Antes da pandemia, eu treinava 4 vezes na semana, na escola do CEU, em Perus.
BW: Fale um pouco de sua vida como B-Boy, em quais eventos esteve presente e fale daqueles que ganhou?
B-Boy Maguila: Eu acho que se não fosse o Breaking minha vida, seria diferente, hoje poderia estar no caminho errado, mas graças a Deus, não! Quando não trabalhava, eu e meus amigos íamos dançar no trem pra ganhar dinheiro e muitas vezes não tínhamos o dinheiro da passagem, então, a gente pulava a estação e ia fazer o dinheiro para participar de eventos e ainda ganhava (risos). Estive nos eventos: Arena Caieiras, que ganhei o primeiro lugar na modalidade Kids, em 2017; ganhei em um evento aqui onde eu moro, com meu parceiro de Crew, B-Boy Cabelo, quando estava começando a dançar, “Batalha da Pista”; ganhei em segundo lugar no evento em Mauá, em 2018; participei da Batalha Final, na categoria juvenil em 2019, onde ganhei o segundo lugar, “Prata”; e mais um em Mauá, no Reality Show B-Boys, em segundo lugar.
Hoje mais experiente, Maguila conta que suas mãos tremiam ao receber o primeiro troféu
BW: Qual foi o sentimento de ganhar o seu primeiro troféu? Você guarda até hoje? Você se lembra em que evento foi?
B-Boy Maguila: O primeiro evento que ganhei, fiquei muito emocionado, minhas mãos até tremiam quando peguei no troféu, foi o melhor dia da minha vida! Guardo até hoje em casa e o evento que foi conquistado era o Arena Caieiras.
BW: Como você vê a participação das crianças nos eventos de Breaking brasileiros? Acha que é dado o mesmo valor às crianças que é dado aos adultos?
B-Boy Maguila: Para mim é muito gratificante ver as criança mostrando o talento delas, só de ver ela fazendo um movimento difícil já e algo surreal. Mas por muitas vezes não acho justo, quando ela faz melhor do que um adulto e ainda perde. Devemos valorizar mais a dança dos pequenos.
BW: Você tem vontade de competir fora do Brasil? O que acha do Breaking que é feito aqui comparado ao Breaking que é feito lá fora?
B-Boy Maguila: Sim, eu tenho muita vontade de competir fora do Brasil, é uma outra vibe e o Breaking do Brasil é muito diferente do lá de fora. O do Brasil não é tão organizado, principalmente em questão de eventos.
Maguila faz parte da Street Son Crew, um dos grupos de Breaking mais tradicionais de São Paulo
BW: Você tem referências de B-Boys ou B-Girls lá fora?
B-Boy Maguila: Sim, B-Boy Lilou.
BW: O que significa o Breaking na sua vida? Fale sobre a sua Crew?
B-Boy Maguila: O Breaking significa família! Família daquelas que te entende, entende o sentimento da dança, a forma de se expressar, a união. Trocamos muita energia uns com os outros, é muito bom! Faço parte do grupo Street Son Crew, que foi fundada em 1992, está sendo passada de geração em geração, é uma Crew respeitada e tem muita história pra contar. Daria um livro!
BW: Como tem feito para treinar em época de pandemia?
B-Boy Maguila: Como estamos em época de pandemia, estou treinando as vezes em casa, é em uma quadra que tem perto aqui onde eu moro.
BW: O que acha do Breaking virar um esporte olímpico? Você gostaria de participar de uma Olimpíada?
B-Boy Maguila: Eu acho uma ideia boa, por que o Breaking vai ser mais reconhecido e também mais praticado. E gostaria muito de participar, já que fui chamado…
BW: Você foi chamado? Quem o chamou? Como foi isso?
B-Boy Maguila: Ano passado, o produtor de eventos Bob King, disse que estava fazendo uma Seleção Brasileira de Breaking. Um menino do meu grupo mandou meu contato para ele, aí o Bob falou que eu fui escolhido, que eu fui um dos selecionados para a Seleção Brasileira de Breaking. Eu fui conversar com ele, falou que eu ia viajar para a Europa, que era para eu fazer o meu passaporte, que eu precisava batalhar, ele falou que ia me dar uns kits, mas tudo era conversa, eu vi que tudo era enrolação, o pessoal do meu grupo me orientou à respeito dessas ideias e tudo o que ele falou e prometeu, passou o tempo e nunca aconteceu. Ele ficou enrolando para nada.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
B-Boy Maguila: Meus plano pro futuro, fazer uma faculdade de educação física e virar um professor, mas estão aparecendo outras oportunidades para mim. Estou indeciso ainda…
BW: Mande um recado aqui para quem curte o Breaking e está lendo sua entrevista?
B-Boy Maguila: Satisfação em compartilhar minha história com vocês, ainda vai ter muito mais. É apenas o começo da vida de um grande B-Boy!
“Nos ajudamos na vida pessoal, nos treinos, visando o crescimento. A união é tanta que nossas esposas se tornaram amigas e confidentes, sem ao menos fazer parte do Hip-Hop.” (B-Boy Luciano)
Eles estão na estrada desde 1992, surgiram da junção das Crews Beat Crazy com alguns integrantes da Demo Boys e da Red Crazy Crew. São uma das Crews mais antigas do litoral de São Paulo ainda em atividade, sendo referência na região.
Colecionam títulos de alguns eventos que ganharam em Itanhaém, Guarujá, São Sebastião, Praia Grande, Santos, em São Paulo e também em outros estados. Esse ano, completam 28 anos e o Portal Breaking World não poderia deixar de registrar isso.
Num bate papo bem descontraído com o B-Boy Dog e com alguns membros da Dynamic Breakers, contamos a história dessa Crew que tem quase 3 décadas de muito Breaking e união! Leiam, aprendam e se inspirem:
B-Boy Binga no baile do Beira Mar (anos 90)
BW: Queria que falassem em que ano, como e em que local surgiu a Crew? Quem foi o fundador da Dynamic Breakers?
Dynamic Breakers: Foi no final de 1992 que surgiu a Dynamic, após a junção das crews “Beat Crazy” com alguns integrantes de outras Crews denominadas “Demo Boys” e “Red Crazy Crew”, após a aparição dos mesmos em um baile na Zona Noroeste, em Santos. Não digo que houve um fundador, mas sim, uma união entre as três Crews já existentes.
BW: Falem um pouco dos B-Boys que participaram da primeira formação e dos que participam até hoje. Verdade que tem B-Boys de Santos, São Vicente, Praia Grande e Guarujá? Como aconteceu essa união para formar a Crew?
Dynamic Breakers: Bom, muitos passaram pela Dynamic porque ficaram encantados com a dança que trazíamos, a uniformidade (pois todos eram identificados por agasalhos e cores específicos) e a união do grupo. No princípio, eram executados os primeiros movimentos, digo, os “tradicionais” do Breaking, que ao passar dos anos foram sendo aprimorados, evoluídos, até chegar aos tempos atuais. Antigamente, não existia nem celular, as informações eram precárias e aprendemos “na raça”, muitos traziam a flexibilidade no corpo de outras artes, como por exemplo, a capoeira. Sobre a formação antiga, a concentração de B-Boys eram de Santos (Beat Crazy) e São Vicente (que eram da antiga Red Crazy) mas, hoje em dia, com a difusão da internet e a divulgação através dos projetos sociais realizados pela Dynamic, a Crew passou a ser um ícone do Hip-Hop na Baixada, passando a ter integrantes de outras cidades. Quando a Dynamic surgiu, no começo dos anos 90, começa uma nova fase do Breaking do litoral, era uma rapaziada muito boa que já estavam à frente do seu tempo, com estilo e movimentos avançados e isso foi passado de geração à geração nestes 28 anos de (re) existência. B-Boys da primeira classe: Raul, Laerte, Toninho, Vai Vai, Fábio, Tibo, Gilson Preá, Bundinha, Almir, Koke, Cabelinho, Lúcio, Alex, Laércio, Bigu, Simon, Buiu, Zulu, Zoio do Jabaquara, Binga, Tiziu, Marcelo, Valtinho, Tera, Biá, Rodrigo, Zoio Branco.
B-Boy Cachorrão: Infelizmente, não pude conviver com os B-Boys da primeira geração. Porém, pude treinar e fazer parte da segunda geração e absorver conhecimento, aprendendo junto com eles os novos conceitos, podendo passar algo para as próximas gerações.Temos B-Boys de várias cidades, por ser uma Crew acolhedora, que dá oportunidade para quem quer crescer na área do Hip-Hop.
BW: Como surgiu o nome Dynamic Breakers? De quem foi a ideia?
Dynamic Breakers: O nome da Crew foi criada por uma ideia que o Japonês teve através de uma Revista de Breaking (a única encontrada na época), que havia uma matéria falando sobre a Dynamic Rockers dos Estados Unidos, mas estava com o nome errado, sendo impresso como “Dynamic Breaks” achei o máximo e logo levei a ideia para aprovação dos demais e assim permaneceu até hoje.
Marcelo, Binga, Valtinho, Japonês, Tiziu, Tera e Rodrigo
BW: A Crew tem B-Girls? Se a resposta for positiva, quem são? Caso não, foi uma escolha não ter B-Girls? Por quê?
Dynamic Breakers: A Dynamic nunca teve uma figura feminina, infelizmente, mas deixamos claro que abolimos qualquer tipo de discriminação, sendo que o projeto desde sempre até os dias de hoje é voltado a ensinar crianças, mulheres ou qualquer tipo de gênero ou raça, incentivando participarem e conhecerem o universo da dança.
BW: Nos contem sobre a caminhada da Dynamic Breakers no litoral. Falem também dos principais eventos que participaram e ganharam em todos esses anos no litoral e fora do litoral.
Dynamic Breakers: Na formação atual, ganhamos muitos títulos nas cidades do litoral: Itanhaém, Guarujá, São Sebastião, Praia Grande e Santos. Também, muitos títulos importantes em São Paulo e outros estados, a Crew sempre se destacou nos eventos, quando estamos reunidos, treinando para participar das batalhas, a energia de todos é incrível e triplica na hora do confronto, mesmo muitos trabalhando, estudando e tendo seus deveres com a família, conseguimos evoluir e manter um nível muito bom, tanto pessoal como de Crew. Na nossa história são mais de 100 prêmios em eventos, os que marcaram em uma visão geral: Batalha Final, Master Crews, Finais Red Bull BC One, Breaking Combate, Battle Of The Year Brazil, Festidança, Top 8 Freestyle Session America Latina, Arena Caieiras, Battle Café, Old School Battle, Aniversário Casa do Hip-Hop Diadema, Inter Itu, Rival vs Rival, Racha na Arena, Rio H2K Festival Internacional de Dança, Festival de Dança de Joinville, Se Vira Nos 30, Just Debout, Meeting, Passo de Arte e muitos outros não menos importantes.
BW: Como são os treinos de vocês? Quantas vezes por semana treinam? Como estão se organizando e que cuidados estão tendo nos treinos em tempo de pandemia?
Dynamic Breakers: Os treinos, na maioria das vezes, são bem concentrados e ao mesmo tempo divertidos, cada um tem um foco quando se trata de seus treinos individuais, mas quando se trata de treino de coreografias para apresentações e competições, mudamos completamente e focamos no conjunto, para criar novas coreografias mas sem perder o intuito da diversão, que é o importante, pois temos trabalhos e compromissos pessoais, não vivemos da dança, então, o treino acaba sendo uma válvula de escape para nos encontrar, treinar e descontrair. Nestes tempos de pandemia, cada um estava treinando na sua casa e no seu espaço, nosso local de treino foi liberado há pouco tempo e estamos retomando o ritmo com todas as precauções.
B-Boys Luciano, Bruno Ayres, Jadiel, Mauricio, Teddy, Cachorrão, Tony e Zoio
BW: Esse ano vocês completam 28 anos de Crew. Mudou muita coisa de 1992 para 2020 no Breaking? Vocês são os mais antigos do litoral de São Paulo ainda atuantes?
Dynamic Breakers: Muita coisa mudou em se falando da Dynamic de 1992 para 2020, forma de treinar, posturas, exemplos a dar dentro da Cultura. Antes éramos mais jovens com amor e diversão, hoje temos uma visão mais forte dentro da Crew e precisamos ser mais atenciosos para formar mais gerações e deixar um bom legado. Já o Breaking, vai estar sempre em evoluções, hoje a cena é priorizada nas batalhas, fazendo que as Crews treinem muito para ter o menor erro, além da busca de cuidar do corpo para ter melhor desempenho, hoje o individualismo conta muito. Sobre ser os mais antigos, sim eu considero a Crew uma das mais antigas e em grande atividade dentro das batalhas Brasil afora.
BW: Existem alguns projetos da Dynamic Breakers como a “Jam de Danças Urbanas”? Nos conte sobre isso…
Dynamic Breakers: Existe o carro-chefe, que é o “Projeto Dynamic”, fizemos grandes ações no litoral, atuando com aulas na Escola da Família, Oficinas Culturais PAGU e Oficinas Culturais Armazém 7, onde conseguimos criar mais adeptos da dança Breaking em Santos e região. Hoje, além do trabalho social, conseguimos propor entretenimento para os dançarinos de todas as vertentes, agregando e fortalecendo as Danças Urbanas com as Jams, Batalhas, Workshops e Cyphers de Rua, assim movimentamos e criamos o máximo de opções para a dança na cidade, além de ajudar os eventos locais de alguma forma com pisos, equipamento de DJ e qualquer tipo de assessoria.
BW: Como é a relação entre os participantes da Crew? É uma relação de família?
Dynamic Breakers: Sim, é uma relação de família, de cuidado um com o outro. Tentando ao máximo estar próximos, independente de treinos, campeonatos, etc. Nos ajudamos em vida pessoal, nos treinos, visando o crescimento pessoal e como B-Boy. A união é tanta que nossas esposas se tornaram amigas e confidentes, sem ao menos fazer parte do ramo do Hip-Hop. A relação é como uma família, existem sim pequenas divergências, o que é normal, porém, fazemos de tudo para nos alinharmos e estarmos juntos, sempre lutaremos para não perder um membro sequer da Crew.
Ao longo do tempo a Crew se tornou uma família, uns cuidando dos outros
BW: É verdade que já existiu ou existe uma rixa entre os B-Boys de São Paulo e do litoral? Por que acham que isso rola?
Dynamic Breakers: Rixa talvez no passado, por ainda estarmos presos nessas coisas de territórios, coisas de gangues, mas com o passar dos anos o Hip-Hop ajudou a mudar, mas não era uma coisa pesada, pois sempre prevaleceu a união dos B-Boys, isso é fato.
BW: Já se sentiram discriminados por serem do litoral?
Dynamic Breakers: Nunca nos sentimos discriminados no litoral ou em qualquer outra região, a Dynamic sempre foi bem recepcionada e somos bem receptivos, nesse tempo fizemos grandes amizades em todo canto do país.
BW: O que aprenderam em todos esses anos? Estão prontos para mais 28 anos?
Dynamic Breakers: Aprendemos que os nossos esforços até aqui valeram a pena e sim, estamos prontos para mais 28 anos no mínimo, contaremos com a nossa experiência para ajudar os jovens e a energia deles para nos manter ativos.
Dynamic Breakers na Freestyle Session America Latina
BW: O que significa o Breaking na vida de vocês?
Dynamic Breakers: Breaking nos faz nos sentir completo, tudo que treinamos, que buscamos se realiza, não é um sonho de vida e sim uma realidade na nossa vida, nos sentimos felizes e queremos que todos tenham o mesmo sentimento. O Breaking faz parte da vida dos integrantes da Crew, salvou muitos de caminhos sem volta, ajudou na formação pessoal e profissional, mesmo trabalhando em outras áreas o Breaking é nosso estilo de vida!
BW: 28 anos de Crew… É verdade que houve uma comemoração presencial, mesmo nesse tempo de pandemia? Como foi?
Dynamic Breakers: Fizemos um encontro de 28 anos, com as gerações que fizeram parte da história e poucos convidados, o lugar era espaçoso e conseguimos manter o mínimo de distanciamento e uso de máscaras, sendo tiradas para dançar e, graças a Deus, nestes tempos de pandemia não tivemos casos de Covid-19 dentro da Crew.
BW: Que mensagem deixariam para aqueles que estão lendo essa entrevista?
Dynamic Breakers: Que a nossa trajetória sirva de inspiração a todas gerações de B-Boys e a nossa arte de dançar leve felicidade a todos!
B-Boy Cachorrão, também conhecido como DJ Dog é um dos membros mais ativos da Crew
Conheça as formações da Crew:
1ª Geração: Raul, Laerte, Bim, Toninho, Vai Vai, Fábio, Tibo, Gilson Preá, Bundinha, Almir, Koke, Cabelinho, Lúcio, Alex, Laércio, Bigu, Simon, Buiu, Zulu, Zoio do Jabaquara, Binga, Tiziu, Marcelo, Valtinho, Tera, Biá, Rodrigo e Zoio Branco.
2ª Geração: Doguinho, Cleyton, Zoinho, Eudoxo, Alex, Ley, Paulinho, Mauricio, Jhon, Xand, Frágil e Diego.
“… Nada, absolutamente nada vai ser fácil e é por isso que poucos conseguem. Por isso, tenha em mente se é isso que realmente quer pra sua vida e corra atrás.” (B-Boy Leony)
Ele nasceu em Belém, capital do estado do Pará, que é uma cidade portuária e a porta de entrada para a região do Baixo Amazonas do Brasil.
Sempre morou no bairro do 40 Horas. Como todo menino, quando pequeno gostava de jogar bola e brincava na rua até altas horas da noite. Hiperativo, não parava nem um minuto sequer. O que nunca lhe faltou foi energia!
Sendo o mais velho dos filhos de Dona Elizete, foi criado com suas irmãs por sua mãe sozinha, mulher guerreira, como ele mesmo relata com orgulho.
Aos 12 anos de idade, por influência de um primo próximo, conheceu o Hip-Hop, se apaixonando no primeiro momento pelo movimento Head Spin [Giro de Cabeça], começando sua caminhada de sucesso no Breaking, passando a competir em 2012.
Mas foi em 2013 e 2016 que conquistou o título de Melhor B-Boy do país. E, em 2017, foi tricampeão do Red Bull BC One no Brasil. Segundo B-Boy Pelezinho, que foi um dos jurados do evento que deu o segundo título para Leony, ele começou a se destacar por sua autenticidade. Na época, Pelezinho declarou: “sabe muito bem combinar os movimentos. Sua habilidade é impressionante, por isso mereceu mais uma vez o título”.
O tempo passou muito rápido e foi generoso com o B-Boy, que gosta de saborear açaí com mortadela em Belém, o consagrando como um dos maiores nomes da sua geração no Breaking, mas também trouxe responsabilidades por ser um B-Boy mundialmente conhecido.
Agora, em 2020, Leony se considera mais “light”, treinando 3 vezes por semana e recentemente experimentou em sua vida a experiência da paternidade, com o nascimento do seu primeiro filho João Miguel.
Ele reconhece que com essa nova fase alguns planos mudaram, mas colocou um objetivo bem motivador, que é ser campeão mundial nos próximos 2 anos. Pretende também ingressar numa faculdade e abrir um negócio.
Gostou da história e quer saber mais? Então confira o papo que o Portal Breaking World teve com esse B-Boy que é um dos grandes nomes do Breaking da atualidade:
BW: Queria que você falasse onde nasceu e cresceu. E contasse um pouco sobre a sua infância e sobre sua vida em família.
Leony: Nasci em Belém do Pará e fui criado no bairro do 40 Horas, que até hoje resido. Minha infância foi muito feliz, como todo moleque gostava de jogar bola, brincava até altas horas da noite e era muito hiperativo, não parava nem um minuto. Sou o mais velho de duas irmãs e fui criado pela minha mãe Elizete, que é uma guerreira que criou os filhos sozinha.
Nascido em Belém, Leony foi criado com as irmãs pela mãe Elizete: “uma guerreira”, segundo o B-Boy.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Quando o Breaking passou a fazer sentido na sua vida?
Leony: Meu primeiro contato com o Hip-Hop aconteceu por meio do Breaking, meu primo, que foi criado comigo, certo dia chegou em casa e falou que um amigo dele estava fazendo “Hip-Hop” e ele queria aprender como fazia, eu me apaixonei quando vi esse tal amigo do meu primo fazendo giro de cabeça e a partir daí comecei a entrar no mundo do Hip-Hop. Difícil falar o momento exato que o Breaking passou a fazer sentido para mim, porém, quando eu vi os B-Boys e as B-Girls dançando, eu já me apaixonei de cara. Mas, se puder falar de um momento, seria que ele fez sentido pra mim quando eu comecei a ajudar as pessoas ao meu redor.
BW: Com que idade começou a dançar? Alguém te ensinou? Nessa época existiam pessoas que você se inspirava? Além de dançar o que gostava de fazer?
Leony: Comecei a dançar no final de 2008, com 12 anos e no início eu aprendia com os meninos da nossa turma, que começaram a dançar junto comigo, não existia uma pessoa ali pra ensinar. No ano de 2008, o maior nome que já era o destaque era o Amazon B-Boys e eles me inspiravam muito (todos queriam ser eles). Eu antes de dançar fui carateca, cheguei a ser faixa verde e até participei de alguns campeonatos.
BW: Você começou criança na dança e também entendeu cedo que deveria buscar os próprios movimentos e estilo, que foi algo que sempre chamou a atenção. Como foi isso? Verdade que você incluí elementos da cultura paraense como o Carimbó e o Tecnobrega na sua dança? Ser diferente era um objetivo?
Leony: Sim, eu sempre busquei minha identidade, eu olhava B-Boys como Menno, Lego, Abstract, Luigi e queria ter o meu “style”, assim como eles. E por muito tempo não sabia como fazer. Em 2011, eu fui à França e lá foi um divisor de águas pra isso, eu pude conversar e ver com meus próprios olhos o que deveria fazer, então, voltei e comecei a buscar isso. A primeira coisa que eu fiz foi olhar pra minha cultura regional e usar isso, usando movimentos e ideias do Carimbó, por exemplo. Ser diferente era a minha busca, pois acho que isso é o que faz o Breaking ser o que ele é.
Leony incorpora em seu estilo elementos de outras danças, como o Carimbó.
BW: Durante seu aprendizado houve movimentos mais difíceis de aprender? Quais? Como você superou as dificuldades?
Leony: Eu sempre tive dificuldade com Power Moves, até hoje não sei o Giro de Cabeça [Head Spin], que foi o movimento que eu me apaixonei (risos). Então, eu notei que tinha mais facilidade para movimentos que exigiam mais técnica a princípio do que força e assim fui aprendendo esses movimentos, como por exemplo, o Moinho de Vento [Wind Mills].
BW: Você teve apoio da sua família na dança? Como todos viam sua ligação com o Breaking?
Leony: A princípio minha mãe achava que era só um hobby, quando ela percebeu que era algo sério, ela apenas me aconselhava a sempre ter um plano B. O resto gostava também.
BW: Como você administra dança e estudo? Qual o seu grau de instrução? Pretende continuar estudando? Na sua opinião são importantes os estudos para quem dança?
Leony: Eu sempre estou estudando e acho que devemos e podemos conciliar os estudos com dança, eu tenho o ensino médio completo e pretendo fazer uma faculdade de publicidade em breve. Estudar é um complemento obrigatório em tudo.
O B-Boy reconhece a importância dos estudos para o sucesso.
BW: Quando começou de fato a competir? Quais foram os eventos que fizeram toda a diferença na sua vida?
Leony: Comecei a competir em 2008, mesmo logo depois de iniciar na dança. Eu tive dois eventos que me ensinaram muito, o primeiro foi o Boty Brasil 2011 (Battle of the Year), onde competi com minha Crew pela primeira vez em nível nacional. O segundo, foi a “Red Bull under my wing” organizado pelo Pelezinho e que me mostrou como o mundo do Breaking é maravilhoso.
BW: Em 2013 e 2016, com apenas 21 anos, conquistou o título de melhor do país. Com isso as cobranças e as responsabilidades aumentaram?
Leony: Sem dúvidas, principalmente depois de 2016 as coisas mudaram e com elas as responsabilidades com o nome “Leony”. Quando se é anônimo você pode errar, experimentar novos estilos, perder, mudar, porém, quando as coisas mudam e você tem um certo reconhecimento, isso fica mais difícil, as pessoas já criam uma imagem e uma expectativa em cima de você, você deve se preocupar com o que fala, veste e faz dentro e fora do mundo do Hip-Hop, tem seu lado bom, assim como seu lado ruim.
BW: Quando saiu a primeira vez do país para competir? Para onde foi? Dançar com os melhores B-Boys do mundo foi desafiador? O que sentiu?
Leony: Minha primeira vez foi em 2011, para a Battle of the Year, na França, foi simplesmente maravilhoso, eu lembro até hoje de cada detalhe dessa viagem, foi lá que eu olhei pra mim e falei “é isso que eu quero da vida”. Foi um desafio, eu me sentia como se não soubesse dançar nada.
Para Leony, o reconhecimento traz consigo grandes responsabilidades.
BW: Que diferenças existem entre o Breaking brasileiro e o que é feito no resto do mundo? Digo principalmente em relação ao preparo e à conduta desses B-Boys e B-Girls?
Leony: Organização sem dúvidas é a palavra que nos difere do resto do mundo. Apenas isso, devemos aprender a ser mais organizados em todos os sentidos aqui no Brasil.
BW: Como você foi recebido em outros países? Pensou alguma vez em ir morar fora do país?
Leony: Sempre fui muito bem recebido em todos os países que estive e muitos eu me surpreendi em saber que tinham admiradores da minha dança lá, eu nunca pensei em morar fora do Brasil, meu lugar é em Belém, tomando açaí com mortadela.
Gosto exótico: açaí com mortadela é um dos pratos favoritos de Leony.
BW: É possível viver da dança no Brasil? Conte sua experiência.
Leony: Sim, é possível. Mas como falei, a falta de organização aqui do Brasil dificulta isso para a maioria. Eu, no início, sofri demais com o lado financeiro (ainda passo aperreios, claro!) mas hoje tenho marcas que me apoiam e tenho também uma cabeça mais madura para tratar dos assuntos e de dinheiro. Eu sempre falo que pra que isso aconteça, para que você chegue a viver de dança, você precisa saber muito bem o que realmente quer da dança, existem diversos meios de viver de dança, saiba escolher um deles e planeje e organize seus passos em busca desse objetivo.
BW: Fale um pouco da sua Crew e do seu relacionamento com todos.
Leony: Minha Crew surge em janeiro de 2006, com o nome de Amazon B-Boys, hoje temos a segunda geração e mudamos o nome para Amazon Crew, pois antes não tínhamos mulher no grupo, mas agora temos e esse título de Crew não era confortável. Hoje sou o líder (só nome mesmo – risos) porque na Crew todos trabalham para o melhor de todos. Temos um convívio muito bom e, claro, sempre temos algumas discussões, que são normais, porém, sou muito grato a cada membro da minha Crew por compartilhar momentos únicos ao lado deles.
BW: Muitos almejam chegar onde você chegou mas desconhecem os sacrifícios. Que conselhos você daria para quem pretende ir longe no Breaking?
Leony: Se você realmente quer isso, entenda que é muito mais sacrifício do que felicidade, nada foi fácil pra mim, nunca! Eu treinava em um local de um Metrô, no concreto, todo dia para ficar bom. Em 2016, eu trabalhei de camelô metade de um ano inteiro para comprar minhas passagens para o Red Bull BC One daquele ano e ir para o Japão. Nada, absolutamente nada vai ser fácil e é por isso que poucos conseguem, por isso tenha mente se é isso que realmente quer pra sua vida e corra atrás, sem ter a menor dúvida de que é isso que você quer ser.
BW: Ganhar e perder faz parte da vida de um B-Boy e de uma B-Girl. Mas como você trabalha isso? Se considera competitivo? As pressões interferem na sua dança? Como trabalha o psicológico?
Leony: Eu sou muito competitivo, eu adoro batalhar, é isso que me mantém focado, claro que eu já perdi muito, porém, eu sempre usei isso para me ajudar a melhorar e evitar as derrotas futuras. Hoje eu me acostumei com a pressão dos eventos, mas no início isso me afetava, sem dúvidas. Não tenho uma fórmula para trabalhar o psicológico, eu acho que isso a gente resolve com experiência mesmo, ou seja, batalhe muito para se acostumar com a pressão.
Para se acostumar com a pressão psicológica não existe receita: tem que batalhar muito, segundo o B-Boy.
BW: Como é hoje em dia sua rotina de treinos. Quantas vezes você treina na semana? Como tem sido nessa época de pandemia?
Leony: Hoje eu sou mais “light” (risos), normalmente treino 3 vezes na semana, com cada treino desse específico para algo. Esse ano, claro, eu fui afetado e treinei bem pouco. A partir de julho desse ano foi que eu pude voltar a treinar, mas ainda estou bem longe da minha forma.
BW: O que você acha dos eventos on-line? Na sua opinião é uma tendência? Como você pensa que será a vida dos B-Boys depois da pandemia?
Leony: Eles se tornaram uma alternativa para esses momentos que vivemos, eu não sou fã desse formato, não gosto, acho “morto”, mas entendo que foi uma necessidade eles existirem. Não acho que é uma tendência os eventos, mas acho que podemos tirar coisas boas disso, como por exemplo, a quantidades de aulas e cursos intensivos de danças que foram criados esse ano. Acho que isso sim é algo que possa virar tendência e eu particularmente acho muito bom.
BW: Muito tem se falado do Breaking nas Olimpíadas. O que você pensa sobre isso?
Leony: Nossa melhor notícia nos últimos anos. Eu torço demais para que o Breaking entre para as Olimpíadas, pois sei que isso sem dúvida vai alavancar nossa arte.
BW: Quais são seus planos e desafios para o futuro?
Leony: Bom, agora eu sou pai e isso sem dúvida mudou meus planos, eu quero continuar dançando, claro e competindo, vou fazer uma faculdade e em breve abro um negócio pra mim. Tenho vários desafios, mas coloquei um bem motivador pra mim, que é de ser campeão mundial nos próximos 2 anos.
Ser campeão mundial, fazer faculdade e abrir o próprio negócio são algumas metas de Leony para os próximos anos.
Fotos: Arquivo Pessoal / D Halsin / Little Shao / Red Bull BC One / 22 Nhati / Quando as Ruas Chamam / Reprodução
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“Se você não concorda do Breaking entrar nas Olimpíadas, então você é ignorante. Nós fomos discriminados pra caramba no passado e quando temos oportunidade, alguns ficam de palhaçada. Por onde esses B-Boys e B-Girls passarem vão escutar: “eles são breakers e fazem parte das Olimpíadas!”, o respeito será dobrado!” (B-Boy Chileno)
Foi em São Luís do Maranhão que, em 10 de outubro de 1958, nascia José Carlos Barroso, apelidado de Chileno em uma batalha de Breaking em São Paulo.
Cresceu na periferia da capital maranhense, onde plantava verduras para sustentar a mãe e a avó. Aos 15, deixou a vida interiorana para se aventurar pelo centro de São Luís, onde teve o primeiro contato com o Hip-Hop, por meio do Skate.
Ao redor de sua casa, o estádio Governador João Castelo, o Castelinho, era o point da garotada. Um dia, enquanto treinava, se surpreendeu com os movimentos de Breaking de um gringo. Foi mágico e se encantou por aquilo, deixando o Skate para aprender a dançar.
Sofreu preconceito em casa, o que o fez em 1980, mesmo com todas as orientações contrárias de seus familiares, partir para São Paulo. Na “terra da garoa” trabalhou duro e na hora do almoço treinava Breaking. Todo lugar que tinha espaço para treinar, ele treinava. No Anhangabaú, na República, na estação São Bento do Metrô. Mal imaginava que dançava num chão que depois seria sagrado para os B-Boys e B-Girls de todo o Brasil, a São Bento iria se tornar o templo do Hip-Hop mais tarde.
Anos passaram, colecionou vitórias, em 2018 ganhou o Prêmio Sabotage, mas a maior riqueza foram as histórias que guarda dentro do peito. Nunca envelheceu, ele garante e o bom Breaking permanece, enquanto o coração bater no beat.
Na semana de completar 62 anos, Chileno, que é uma verdadeira lenda do Breaking brasileiro conversou com o Portal Breaking World.
Obrigada pelo papo, mestre! Feliz Aniversário! Confira essa entrevista recém saída do forno:
BW: Queria que você falasse onde nasceu, um pouco da sua infância, da sua juventude. Onde foi e que boas lembranças tem dessa época?
Chileno: Eu sou de sou de São Luiz do Maranhão. Eu vivia com a minha vó que me criou, ia trabalhar na roça, colher verdura, fruta, fazia bolos, aprendi a fazer comida. Tudo ela me ensinava e ao mesmo tempo me dava muitos conselhos. Esses conselhos foram fundamentais para toda a minha vida.
De São Luiz do Maranhão ele veio para São Paulo e se tornou um ícone da Cultura Hip-Hop
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Como surgiu o amor por essa cultura?
Chileno: Eu conheci o Breaking entre uma pista de Skate e de atletismo, até porque eu era skatista, mas eu conheci o Breaking através de um campeonato que aconteceu em São Luiz do Maranhão e tinha um cara americano que foi participar do campeonato e ele fez um movimento que eu parei na hora de andar de Skate e depois fui perguntar para ele que dança era aquela. E ele respondeu que era Breaking e naquela época eu perguntei para ele em que estágio o Breaking ia chegar no mundo, ele falou a seguinte frase: “O Breaking vai chegar no mundo inteiro e muita gente vai se dar bem dentro do Breaking, dependendo da inteligência da pessoa. O Breaking terá um grande público”.
BW: Alguma vez você sofreu preconceito de alguma parte da sociedade ou da sua família?
Chileno: O preconceito que eu sofri foi dos meus familiares, o que me fez tomar a decisão de vir para São Paulo. Foi o pior preconceito da minha vida. Em São Paulo eu nunca sofri preconceito! Nunca tive problema em lugar nenhum porque eu buscava amizade só com gente bacana e eu me aproximava das pessoas de maneira honesta e sincera.
BW: Como foi quando você decidiu vir para São Paulo?
Chileno: Quando tomei a decisão de vir para São Paulo, eu tinha 28 anos, só que os meus familiares me chamaram para uma conversa. Eles falaram que se eu realmente decidisse vir para São Paulo, teria que me cuidar, pois era um lugar perigoso, violento e que teria que ter muito cuidado com a minha vida e com tudo. Eles me colocaram muito medo. Olha, eles foram na minha opinião idiotas! E aí, chegando em São Paulo, eu fui trabalhar em um supermercado na Amaral Gurgel, na Santa Cecília, próximo a República. Eu tinha duas horas de almoço. E nessas horas eu ia andar no centro e treinava Breaking, eu ia até a São Bento, mesmo que até os punk naquela época mandava lá, eu treinava bem distante deles. Quando surgiu o festival na São Bento, os treinos lá, eu me destacava, não queria fazer amizade com ninguém, ficava isolado porque tinha medo de violência. Eu demorei muito para fazer amizade com as pessoas, isso só foi acontecer nos anos 90.
Logo que se mudou para São Paulo, Chileno treinava na São Bento, no intervalo de almoço de seu trabalho em um supermercado.
BW: Quando surgiu seu nome Chileno?
Chileno: Foi em São Paulo. Voltando um pouco lá atrás, quando eu conheci o Breaking, quando eu comecei a treinar com um americano na minha região, ninguém me conhecia como dançarino. Quando surgiu o filme “Os embalos de Sábado à noite”, do John Travolta e o “Beat Street” e aí começou aparecer o Breaking no mundo inteiro. Aí teve um campeonato na televisão, da Difusora de São Luiz do Maranhão, de Breaking, aí eu fui e me inscrevi. Quando eu cheguei para fazer a inscrição ninguém me conhecia como B-Boy, nem como dançarino. E na mesma hora o locutor falou que nós tínhamos que descolar um nome artístico, eu coloquei na hora, eu coloquei John Boy Breaking, de São Luís do Maranhão. Eu disputei com o melhor dançarino de Breaking de São Luiz do Maranhão, o cara também era capoeirista, ginasta, dava mortal, voadora e eu fiquei em segundo lugar. Chegando em São Paulo, o meu primeiro contato foi o grupo Jabaquara Breakers e eu contei minha história, falando que era B-Boy de São Luiz do Maranhão e muitos nem sabiam que tinha Breaking lá. Então, ele pediu que eu me apresentasse, eu me apresentei, comecei a dançar e uma pessoa do público falou assim: “Nossa, esse chileno dança muito!”, então, me chamaram de Chileno e o nome pegou até hoje!
BW: Como foi sua caminhada aqui em São Paulo?
Chileno: Aqui eu conheci os melhores campeonatos e conheci as melhores pessoas, os gringos da época vinham muitos para o Brasil e eu conheci muitos deles que eram bacanas. Comecei a ganhar campeonatos em 2001, 2002 no Sesc Itaquera, no Sesc Pompeia e na Rio Branco, com o Rooneyoyo que fazia os campeonatos. Ganhei muitos prêmios, ganhei muito dinheiro, ganhei muitas roupas e ganhei muitas matérias na imprensa. Fui convidado pela Folha de São Paulo, Revista Raça Brasil, Revista SP B-Boy e comecei a me dar bem em São Paulo, eu sempre procurei me entrosar com as pessoas, sempre fui honesto e da maneira “brincalhão” que todos me conhecem até hoje.
BW: Em todos esses anos, Chinelo, você fez muitos amigos? Nos fale desse racha que sempre rola nos eventos quando você está presente e o B-Boy Jow?
Chileno: Eu sempre busquei ser uma pessoa boa para todos. Old School até crianças. A minha amizade com o Jow é muito sincera, não é uma brincadeira falsa, nós brincamos no racha, só brincadeira e diversão, nunca tivemos maldade um com o outro. Nunca discriminei. Temos muito respeito um pelo outro!
Os “rachas” entre Chileno e Jow já se tornaram uma tradição nos eventos paulistas de Breaking: amizade e respeito.
BW: Alguma vez você pensou em ir morar fora do país?
Chileno: Eu tive um convite para ir morar fora do Brasil, nos Estados Unidos. Mas eu não quis ir, porque a minha mãe que eu trouxe do Nordeste para São Paulo estava doente e eu tive que cuidar dela, eu não podia deixar a minha mãe doente e ir pensar em mim, indo para outros países e esquecer da minha mãe. Foi uma luta grande!
BW: Chileno, talvez você seja um dos mais antigos B-Boys na ativa. Nos conte como é isso?
Chileno: Olha, eu me dou bem com toda a juventude, eu me sinto bem entre eles, os fundamentos do Breaking sempre tiveram muito sentido em toda a minha vida. Eu sempre busquei conhecimento e agora nesse exato momento eu estou estudando, as regras, as danças base, me aprofundando no conhecimento, porque você ter conhecimento é algo muito importante. E a minha conversa com B-Boy Old School, ela não tem mais fundamento, é um diálogo “oi! tudo bem?”, mas não falo mais de dança. Hoje parece que eu tenho 15 ou 16 anos, porque eu ainda penso no progresso, no presente e no futuro, eu quero decolar muito mais. Pretendo disputar campeonato até o meu último dia de vida, quando Deus permitir que eu esteja aqui. Essa ideia de parar de dançar é ideia de pessoas inúteis. Pessoas que não pensam em crescer e evoluir. Jamais devemos parar o nosso sonho! Hoje sou muito querido em São Paulo e todos sabem disso. Eu ganho presentes de tudo quanto é lado. Sou querido por muitos! Na fase da crise muita gente me ajudou: a Márcia, o Rooneyoyo, o Ninja. Até B-Boys New School me ajudaram na condição financeira, aí agora sofri esse acidente, mesmo assim muitos me ajudaram. Até o meu vizinho que é evangélico, às vezes me dá janta ou almoço e cuida de mim. E eu pretendo continuar dançando o resto da minha vida. Eu amo a dança! Sou muito feliz com o que eu faço. A minha coragem me dá saúde! E a minha fé também!
BW: Recentemente, você sofreu um acidente sério. Nos conte o que aconteceu? E como está a sua recuperação?
Chileno: Eu sofri um acidente há um mês atrás, eu cai de peito, mas não quebrei nada! Foi uma queda de uma escada de 3 metros e meio. Se eu não quebrei nada foi porque Deus estava comigo no momento da queda, até hoje a todo o momento ele está comigo, me protegendo. Porque se não tivesse propósito na minha vida, eu teria me acidentado feio, teria ficado paraplégico e até poderia ter morrido, porque a condição que eu estava e as pessoas que me viram, eles achavam que eu morreria. Eu desmaiei, apaguei total. Quando eu acordei, no dia seguinte, eu estava no hospital. Acordei com tudo embaraçado, a minha vista, a minha cabeça, o meu ouvido, o nariz. A minha voz ficou distorcida, agora é que está melhorando, mas tem algumas palavras que ainda estou falando errado. A minha vista já melhorou, o ouvido melhorou, ainda sinto um pouco de dor, mas estou tomando remédios. Já tenho retorno marcado com o médico, ele vai passar fisioterapia para minha mão funcionar. Que é exatamente a mão que eu faço Freezes.
Chileno exibe a palma de prata do Prêmio Sabotage, conquistado por ele em 2018 na categoria Breaking.
BW: Que conselhos você daria para a nova geração do Breaking?
Chileno: Eu falo para a juventude em primeiro lugar, que seja honesto, sincero, que não queira passar a perna em ninguém, que não minta, dispute de igual para igual. Os jovens devem se alimentar bem, não devem comer porcaria, devem comer comida de verdade para conseguir um bom preparo físico. Eu não como porcaria de forma alguma! Os jovens devem ser humildes com todas as pessoas, com seus próprios pais e no meio da dança onde chegar também. Devem adquirir o próprio espaço para ser respeitado por todos. Hoje eu vejo grupo de WhatsApp de várias crews e vejo que existe um ego, uma soberba, uma ignorância, de querer aprender mais e evoluir na linguagem, na dança e em tudo eles acham que sabem tudo! E desconhecem o trabalho dos outros. Eu fico triste de ver tantos jovens no Breaking orgulhosos, metidos. Precisam ser comunicativos, adquirir o próprio espaço, a juventude precisa aprender a serem dignos do que desejam, senão não vão conseguir nada. Não adianta um B-Boy ou uma B-Girl novos serem ignorantes e boçais, tratar mal os outros, só querem viver no próprio mundinho, precisam aprender que o mundo do Hip-Hop é muito grande. Nós precisamos viver no coletivo, não ser individualista. Isso é uma doença de alguns dessa geração.
BW: Fale um pouco de sua experiência junto às crews?
Chileno: A minha primeira crew que eu entrei foi a Gueto Freak, que foi fundada em 1986, mas entrei apenas em 1999, era uma crew de muitos rachas e muitas disputas, ensinamentos, educação, disciplina, era muito top. Era só gente jovem na época. Eu tinha muita diferença comparado a eles, eles admiravam a minha velocidade e alguns movimentos que eu fazia que eles não faziam. Eu tenho movimentos que nenhum B-Boy de São Paulo faz. Aí depois, eu entrei no Jabaquara Breakers. Eu participei de muitos campeonatos e ganhei muita coisa com isso. Era eu e Catatau. Depois, percebemos que fomos roubados por algumas pessoas e saímos da crew pois sabíamos do valor que tínhamos.
Chileno e os meninos da Ready Style Crew
BW: O que você acha sobre o assunto Breaking nas Olimpíadas?
Chileno: O Breaking nas Olimpíadas é uma benção de Deus! Porque o Breaking sempre foi discriminado em todo o lugar, os B-Boys chegavam com as roupas e com o estilo e eram discriminados por toda a sociedade, chamado de maloqueiro, então, a partir do momento que o Breaking está nas Olimpíadas, ele se torna uma potência, o respeito será muito grande por toda a sociedade, todo o comércio, todos os empresários, os patrocínios, toda a sociedade, a essência só depende de cada um, ele vai competir nas Olimpíadas, certo? Mas ele não vai ficar para sempre nas Olimpíadas, ele tem os rolês dele, que são com os amigos da Cultura Hip-Hop. Agora, se a pessoa permitir que o orgulho suba à cabeça, aí sim ele perde a essência e para isso não precisa estar nas Olimpíadas, isso pode acontecer em qualquer momento. Então, o Breaking entrar nas Olimpíadas como esporte eu fico maravilhado de viver isso, ver o nível que o Breaking está chegando, ele está lá sendo visto por toda a sociedade e isso é muito bom. Por onde esses B-Boys e B-Girls passarem, vão escutar: “eles são breakers e fazem parte das Olimpíadas!”, o respeito será dobrado! O Breaking está muito acima de raças, o negro construiu, mas existe o espaço para todos! Se tem talento, mostre seu talento, não importa sua cor. Eu já falei isso até para algumas pessoas, se você não concorda do Breaking entrar nas Olimpíadas, é palhaçada. Nós fomos discriminados pra caramba e quando temos oportunidade, alguns ficam de palhaçada. Quem pensa assim são pessoas burras, ignorantes, que só querem benefícios para si mesmos. Tem que avançar, tem que se modernizar, as pessoas que não pensam assim, independente de suas idades são atrasadas, de mente pequena e que não funciona. Eu tenho 62 anos e não sou assim. Me sinto um jovem, esse negócio de idade está na cabeça das pessoas!
BW: Para finalizar: o que significa o Breaking na sua vida?
Chileno: Tudo! O Breaking faz parte da minha história. Em primeiro lugar na minha vida vem Deus e depois o Breaking.
Fotos: Arquivo Pessoal/Alex Boog/Cadu Barbosa
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Ele começou a dançar com 6 anos de idade, pequeno no tamanho mas gigante no talento, Marcos Pedro, da Dream Kids Brazil, mais conhecido como B-Boy Sonek, nascido na cidade Catalão, em Goiás, filho de um pedreiro e de uma costureira, encantou o mundo com seus movimentos de Power Move, que executa para os dois lados.
Em 2014, na Europa, foi campeão Kids da Eurobattle e vice-campeão da Power Move Battle, numa competição de altíssimo nível, com o Kid Colômbia.
O que o levou a participar também de programas de TV nacionais e internacionais, como o Super Kids na Alemanha e o Legendários, no Brasil.
Sonek foi notícia também em várias mídias brasileiras, como G1, Record, entre outras. O menino sempre participou de grandes eventos, dentro e fora do país, colocando o Brasil no topo e mostrando a força da nova geração brasileira no Breaking.
Hoje, com 16 anos, as feições de menino vão dando espaço para o surgimento de um jovem, extremamente talentoso na dança, disciplinado, focado, que tem movimentos firmes, elegantes e singulares, sendo sem dúvida um dos grandes nomes do Breaking brasileiro a ser ouvido nos próximos anos.
Confira a entrevista que o Portal Breaking World fez com o B-Boy Sonek:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua infância, onde nasceu e da sua vida em família? Tem irmãos?
Sonek: Nasci em uma cidade chamada Catalão, em Goiás, minha vida em família é bem humilde e amigável, sim, tenho 3 irmãos.
B-Boy Sonek foi Campeão Kids da Eurobattle com apenas 10 anos de idade.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop o que mais te chamou a atenção nessa cultura?
Sonek: Não me recordo exatamente, porque eu tinha 6 anos de idade, mas lembro que sempre viajava com meu pai para os eventos em Uberlândia e Goiânia.
BW: Com que idade começou a dançar Breaking? Quem te ensinou? E onde você treinava?
Sonek: Comecei com 6 anos de idade, meu pai me ensinou, treinava no meu quarto com meus primos e amigos. Meu pai sempre foi fundamental para meu aprendizado, tudo que sei hoje é devido a ele e minha evolução progrediu quando o Tio Dunda passou a ser o nosso mentor, mostrando caminhos certos de treinos e eventos certos para participar.
BW: Você sempre teve o apoio da sua família na dança?
Sonek: Sim, minha mãe e meu pai sempre me apoiaram, quando meu pai ia trabalhar, minha mãe que me acompanhava nos treinos.
O pai Thiago, que também é B-Boy e o coach “Tio” Dunda: fonte de inspiração para Sonek
BW: Seu pai também dançava, correto? Isso facilitou seu aprendizado?
Sonek: Sim, dei continuidade, sem ele não teria como ter aprendido e seguido em frente. Ele sabe ensinar super bem, com certeza facilitou muito a minha aprendizagem no Breaking.
BW: Tiveram movimentos que você teve mais dificuldade em aprender? Qual foi o mais difícil?
Sonek: O mais difícil foi o “1990” e as variações de movimentos.
BW: Na sua dança, os movimentos Power Moves estão bem presentes e alguns são para os dois lados, o que o torna quase único entre os dançarinos da sua idade aqui no Brasil. Com quem aprendeu tudo isso?
Sonek: Influências do meu pai, que é de uma geração de B-Boys que para ser bom teria que fazer alguns movimentos para os dois lados, segui essa tendência também.
O título do Breaking Combate foi a porta de entrada para o menino ganhar a Europa com seu Breaking
BW: Houve muito preparo físico para chegar no nível que chegou? Muitas horas de treino? Atualmente como é sua rotina de treino?
Sonek: Sim, no começo não tinha preparo físico porque meu pai não tinha esse conhecimento, com a chegada do Tio Dunda tudo mudou, focamos também nos exercícios físicos e isso causou um impacto enorme na minha evolução, juntamos tudo que o meu pai sabia com o conhecimento do Tio Dunda e o resultado foi outro.
BW: Em 2014, você foi campeão da Eurobattle, no Kids. Foi a primeira vez que você saiu do Brasil? Fale como foi essa experiência.
Sonek: Sim, foi a minha primeira viagem internacional, foi muito legal, tinha muitas pessoas que me conheciam só pelos vídeos e vinham tirar fotos comigo, fizemos “street show” também, as pessoas valorizam quem dança Breaking, evento bem organizado, com boa estrutura, mas antes tive uma grande e importante caminhada para chegar até a Europa. Saímos de Catalão até São Paulo, 12 horas de carro, para batalhar no Breaking Combate, que foi o evento que pagou as passagens e estadia para mim e meu pai em Portugal. Batalhei na final contra o Suel, um Power Move muito bom de Goiânia, para assim me consagrar campeão nacional e o prêmio foi a viagem e participação na Eurobattle.
BW: Com quem competiu na Eurobattle e o que sentiu quando ganhou o campeonato, colocando o Brasil em primeiro lugar?
Sonek: Tinham B-Boys e B-Girls de toda parte do mundo e o grande favorito era o Super Mario, da Bélgica. Enfrentei ele na final e me consagrei campeão por 3 votos a 0, era o meu dia, estava me divertindo, sem a pressão e obrigação de ser campeão, meu pai nervoso pelo filho dele estar em uma final mundial de um lado e o Tio Dunda, tranquilo, me ajudou muito com os conselhos e me deixou tranquilo também, lembro que ele disse: “Sonek, você não precisa provar nada pra ninguém, você já é o campeão nacional, faz o que você treina na sala do templo (meu quarto onde treinava) e se diverte”, fiz exatamente isso e minha dança fluiu.
Hoje com 16 anos, Sonek faz parte da Dream Kids Brazil e treina forte para alçar voôs maiores como dançarino
BW: Quais são as principais diferenças que você percebe entre os B-Boys de fora do país e os brasileiros, seja nos treinos e no geral?
Sonek: De fora eles tem mais estrutura e apoio, seja de família ou patrocínios. No Brasil, tudo é mais difícil, até para irmos para outro estado é caro, muitos não têm um chão bom para treinar.
BW: Você também foi vice-campeão de Power Move. Comente essa experiência…
Sonek: Tinha muitos caras bons, o nível era altíssimo, fui bem preparado, enfrentei o holandês Kid Colômbia na final, perdi de 3 votos a 0, mas muitos não acharam isso, respeitamos a decisão dos jurados, que estão lá para isso e se estão lá é porquê são capazes de terem avaliado o certo.
BW: Você se apresentou também em programa de televisão fora do país. Nos conte como foi essa experiência?
Sonek: Sim, no Super Kids da TV SAT1, foi um experiência incrível, o Tio Dunda foi quem fez todo o trâmite para que isso se concretizasse, sem ele não teríamos condições de ter avançado nessa experiência. Nunca tive medo de batalhar, mas momentos antes de me apresentar, minhas pernas tremiam, saí da minha zona de conforto das batalhas para um palco de TV na Alemanha, mas no geral eu gostei muito.
Dançar se divertindo e com calma foi o segredo para Sonek ganhar o mundo com seus Power Moves
BW: Na sua escola, as pessoas pedem para você dançar? Sua cidade te apoiou na sua dança?
Sonek: Sempre me pediram e ainda pedem, mas temos que nos controlar para não nos machucarmos, devido o corpo estar frio, teve alguns eventos que a Fundação Cultural de Catalão apoiou, sim.
BW: O que significa o Breaking na sua vida?
Sonek: Faz parte de mim, como se fosse um órgão, não posso ficar sem o Breaking, sei que o Breaking tem o poder de mudar minha vida.
BW: Que mensagem você deixaria para as crianças que pretendem começar no Breaking?
Sonek: Treinar, treinar e treinar. Muitas pessoas vão dizer que não vai dar em nada, mas segue o seu coração e não o que eles dizem. Se você quer ser bom, então, tome atitude de quem é bom, se dedique…
“… teve uma pessoa que me fez chorar muitas vezes, dizendo que minha dança era desengonçada e que eu não chegaria a lugar algum, mas eu tomei isso de raiva e passei a treinar para pegar e rachar com essa pessoa, mas nunca rachamos e essa pessoa hoje já parou de dançar e eu continuo.” (B-Girl Nathana)
Ela nasceu em Uberlândia, perdeu o pai com 5 anos em um acidente, mas sempre teve o amor e o carinho da mãe. Começou a dançar com 16 anos e não parou mais, na sua caminhada, enfrentou preconceitos pelo fato de ser mulher e até escutou comentários que fariam muitas pessoas desistirem da própria dança. Mas ela não!
Nathana Vieira Venancio ou B-Girl Nathana, como é conhecida na cena, sempre foi forte e usou o comentário negativo para crescer e evoluir na própria dança. Sendo uma verdadeira inspiração para quem pretende ir longe no Breaking. Atualmente, ela acaba de receber a notícia que está nos Top 16 da E-Battle da Red Bull BC One. No evento se inscreveram e mandaram vídeos B-Boys e B-Girls do mundo inteiro, então, sem dúvida essa menina de Uberlândia só tem motivos para se alegrar.
O Portal Breaking World conseguiu uma exclusiva com ela. Estamos na torcida, Nathana! Leia a entrevista:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua infância, onde nasceu e cresceu.
Nathana: Eu nasci e fui criada em Uberlândia, Minas Gerais, perdi meu pai com 5 anos em um acidente, então sempre tive minha mãe como pai e mãe, sempre fui muito apegada a ela, acho que por isso, uma menina muito estudiosa e desde pequena gostava da área de artes, com 12 anos comecei a fazer aulas de teclado e bateria e somente depois, com 16 anos, que conheci a dança.
Nathana sempre gostou de arte, música e dança.
BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? E quando o Breaking começou a fazer parte da sua vida?
Nathana: Eu tive o contato com 16 anos por meio de um professor de Street Dance, ele era B-Boy e foi ele quem me apresentou e me ensinou durante um tempo da minha vida, o Breaking começou a fazer parte da minha vida totalmente em 2013, quando decidi viver profissionalmente com a dança.
BW: Você aprendeu o Breaking com alguém? Quem eram suas referências na dança?
Nathana: No começo eu aprendi com esse professor de Street Dance, ele se chama Fagundes, mas depois ele teve que se mudar de cidade, então, continuei a caminhada sozinha, minhas maiores referências quando comecei foi a Flow Mo Crew, B-Girl Taya, B-Boy Keebz, Top 9 e B-Girls do Brasil como Fabgirl, Bibi, Miwa e dentre outras pessoas.
BW: Em que ano começou a dançar? Como sua família e todos que estavam à sua volta viam isso? Você teve apoio de alguém?
Nathana: Comecei em 2007, minha família não gostava pelo fato de ter poucas mulheres, eu era menor de idade e sempre chegava tarde em casa, no começo não tive o apoio porque eles não viam isso como profissão, para a minha mãe era como passatempo ou hobby.
Às vezes subestimada ou desacreditada, mas sempre superando os obstáculos.
BW: Ser mulher e dançar Breaking, alguma vez se sentiu hostilizada por isso? Sofreu algum tipo de preconceito dentro ou fora da cultura?
Nathana: Sim, no começo sofri muito quando comecei, muitas pessoas desacreditavam só pelo fato de ser mulher, enfim, me subestimaram muitas vezes também, hoje que melhorou muito.
BW: Verdade que na sua vida existiram pessoas que tentaram te desestimular? Conte isso e nos mostre como superou.
Nathana: Sim, me recordo que teve uma pessoa que me fez chorar muitas vezes, dizendo que minha dança era desengonçada e que eu não chegaria a lugar algum, mas eu tomei isso de raiva e passei a treinar para pegar e rachar com essa pessoa, mas nunca rachamos e essa pessoa hoje já parou e eu estou na ativa ainda, eu peguei uma coisa negativa e fiz isso como motivação para treinar e evoluir.
BW: Nathana, certa vez você falou que para as mulheres têm movimentos que são mais difíceis. No entanto, lá fora, existem grandes exemplos de mulheres que são B-Girls completas e que fazem todos os fundamentos, dominando inclusive os Power Moves. O que dificulta no Brasil atingir essa realidade?
Nathana: Acho que talvez hoje, com a tecnologia e toda facilidade que temos, se pegarmos um tutorial de como fazer da maneira certa e com a técnica certa, iremos aprender. Isso vai depender do foco e esforço de cada uma, porque quando eu comecei não havia professores e essa tecnologia que temos hoje, então, muitas coisas que sei fazer hoje aprendi sozinha, na raça, treinei muito tempo errado, aprendia de forma errada, se eu tivesse essa consciência e todas as ferramentas que tenho hoje, eu estaria além de tudo que sei fazer hoje. Eu acho na minha humilde opinião e ponto de vista, então, acho que falta isso, essa determinação de estudar o movimento e querer aprender e dedicar seu tempo a isso.
Nathana além de competir em eventos nacionais e internacionais é também jurada.
BW: Que movimentos do Breaking foram mais difíceis para você?
Nathana: O que tem me custado a aprender ainda é o flare e o hallo.
BW: Fale um pouco sobre sua relação com a sua Crew?
Nathana: Hoje eu faço parte de 3 Crews que são We Can Do It B-Girls, do qual eu sou uma das fundadoras e também Rock Niggaz e Gangsta Squad, as pessoas da minha crew são as minhas inspirações, elas sempre me motivam e falam daquilo que preciso melhorar, críticas construtivas, a importância de ter pessoas lado a lado com você é grande, ter essa ajuda e companheirismo é muito válido, as meninas sempre estão a me passar energias positivas, enfim, sou muito grata a todos da Crew.
BW: Fale dos eventos de destaque que participou no Brasil e no exterior? Como é para você competir fora do país?
Nathana: Tive bastante experiência em eventos fora, ganhei eventos no México, como Funk Paradise, Freestyle Session, Eurobattle em Portugal e dentre outros, para mim competir em outro país cada vez que vou é uma forma diferente que me sinto, porquê cada evento tem uma sensação diferente, mas me sinto honrada e com uma responsabilidade sempre de dar o meu melhor e poder representar meu país e as minhas Crews.
BW: Agora você chegou no Top 16 da E-battle da Red Bull. Nos fale dessa conquista e como você se sente.
Nathana: Eu me sinto honrada e muito motivada, porque só de estar no Top 16 da Red Bull já é uma conquista gigante, porque sei que pessoas do mundo inteiro enviaram os seus vídeos, então, quero poder agarrar essa oportunidade e fazer valer a pena.
BW: Nos conte um pouco sobre sua rotina de treinos e como tem se preparado para essa competição que ainda vai acontecer.
Nathana: Tenho montado estratégias porque não posso deixar dúvidas, tenho estudado as oponentes que estou pegando em cada fase, acredito que isso tem me ajudado, porque cada um tem um jeito diferente de dançar, então tenho que ter essa estratégia, porque quero pegar cada uma em seu ponto fraco. Desde o começo desse ano e da pandemia, resolvi me dedicar mais ainda aos treinos e a minha evolução, porque quero poder ser melhor que eu mesma, então, estou nessa disciplina de treinos constantes, sem faltar a treinos mesmo cansada, mesmo com problemas, quando fiquei sabendo que estava no Top 16 já tenho me preparado psicologicamente porque isso é importantíssimo e estou treinando essa semana todas as entradas que tenho que soltar para a Red Bull, nada de treinar coisas novas para não correr o risco de me machucar, então, tenho repassado tudo e me concentrado naquilo que preciso fazer e 2 dias antes da batalha só irei descansar, relaxar e manter o foco.
BW: O fato de você representar o Brasil contra o Japão, que tem um histórico de ter grandes B-Girls te cria alguma ansiedade? Como você tem trabalhado o seu psicológico?
Nathana: Não procuro pensar nisso, até porque no Top 32 eu batalhei contra uma B-Girl do Japão e nem cheguei a pensar nisso, penso que vou estar ali defendendo o meu estilo e quero poder representar bem o país, penso em dar o meu melhor, sem deixar dúvidas.
BW: Como têm sido seus dias nessa época de pandemia?
Nathana: Tenho trabalhado, estudado e treinado bastante, me cuidando, enfim, ficando em casa.
BW: Fale um pouco dessa nova realidade dos eventos on-line. E como tem sido isso para você?
Nathana: Essa realidade não sei quanto tempo vai durar, mas tem servido de motivação e também é uma forma de oportunidade para quem não pode viajar para fora e aparecer na cena mundial, está aí uma boa oportunidade que não podemos perder.
BW: Você também é jurada de alguns eventos, correto? Julgar a dança de uma outra pessoa é algo difícil? Que critérios você utiliza na hora do julgamento?
Nathana: Sim, sou jurada de muitos eventos, acredito que é difícil porque sempre falo que cada um tem sua arte e seu jeito de dançar, ali vai vencer o melhor naquele momento, não que a pessoa seja a melhor, eu julgo Limpeza, Originalidade, Musicalidade, Fundamentos, Personalidade.
Nathana já ganhou eventos no México, Portugal e em vários estados do Brasil.
BW: O que significa hoje o Breaking na sua vida?
Nathana: O Breaking é a minha vida, faz parte de mim.
BW: Quem hoje é a Nathana?
Nathana: Hoje eu sou a B-Girl Nathana, que acorda e dorme como B-Girl, que pensa em construir uma história e ser referência na vida das pessoas, que ajuda o próximo, que pensa em crescer e ir além e deixar um legado.
BW: Deixe uma mensagem para os leitores do Portal Breaking World?
Nathana: Gente: obrigado por lerem essa matéria, Deus abençoe a vida de vocês, continuem, não desanimem! Estejam bem e fiquem em casa, se cuidem.
Fotos: Arquivo Pessoal/BreakSP/Multiforme
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As batalhas de rima sempre foram nas ruas, estações e praças, locais típicos de encontros de equipes e crews. Mas, com esse momento de quarentena, elas foram para um local totalmente diferente: a internet.
Aliás, diferente em partes, elas já estavam na internet. Canais como Batalha da Aldeia (SP), Batalha do Tanque (RJ) e outras com nomes conhecidos nacionalmente, já batiam números absurdos no YouTube e outras plataformas de vídeo, chegando diversas vezes na guia em alta, tornando as batalhas cada vez mais famosas.
Com o coronavírus e a proibição de eventos com aglomeração, as batalhas foram obrigadas a ficar somente no meio on-line, o que tirou aquele visual de roda na praça que todos estavam acostumados a ver. Apesar disso, batalhas com um pouco mais de estrutura logo se organizaram e começaram as edições on-line, que nesse momento, inclusive, abriram algumas opções que talvez não foram pensadas antes por que não havia necessidade.
Agora podemos fazer uma batalha on-line entre pessoas de estados diferentes sem que necessitem se deslocar por terra ou ar, assim tendo maior disponibilidade de horário. A organização também será completamente diferente quanto a sorteio e votação – não tínhamos experiências em votações on-line, todas as batalhas que partiram para uma versão on-line tiveram que se esforçar para aprender e, com isso, também vieram alguns pontos negativos, que é o motivo de um número muito baixo se arriscarem nessas edições: a estrutura.
As organizações não têm um orçamento para se bancarem; podemos chutar que menos de 5% das batalhas têm uma renda que pague as contas e possa ser investida em um escritório ou QG e isso dificulta muito com um país com péssima internet, planos às vezes com valores altos e locais que você só pode optar por uma operadora.
Esse problema de estrutura, também é somado ao problema de que boa parte dos MCs também não possuem uma internet rápida ou boa para acompanhar a live. O atraso e falhas entre beat e rima dificultam e atrapalham o MC, deixando a batalha às vezes desinteressante e difícil de acompanhar.
No entanto, isso não está fazendo com que as batalhas diminuam, e sim aumentem, porque se tem uma coisa que as organizações e MCs estão com saudade é da vibração da plateia numa Punch ou Fatality daqueles.
OPINIÃO MC
Afro Max: “tudo sempre tem prós e contras. O MC sente falta das batalhas, isso faz parte da vida dele, não é mais um hobby, mesmo com toda dificuldade de itinerário, locomoção, acesso, muitos querem a volta das batalhas. Em contrapartida, por questões de saúde e segurança, o retorno presencial nos locais destinados não é uma opção. As batalhas on-line têm sido a forma mais segura de darmos continuidade aos trabalhos.
Claro que a energia não é a mesma, a adrenalina não é a mesma, mas cada um luta com a arma que tem, cada um rima com a batida que tem.
Então, ainda assim, a internet tem sido o meio mais seguro e mais viável a ser usado”.
OPINIÃO ORGANIZAÇÃO
Aqui vai uma dica de estrutura e organização para quem ainda não desenvolveu a sua batalha on-line:
Primeiramente, faça! Mesmo com pouca estrutura, porque essas coisas vão se ajustando com o tempo, vocês vão se acostumando e melhorando a cada edição.
Tenha um notebook.
Faça ligações para os MCs por Google Meet (gratuito e sem limitação de tempo).
Deixe somente os áudios dos MCs ativos, para que fique mais leve a transmissão e mantenha apenas equipe e MCs na sala de bate papo – sempre lembrando de só deixar ativo o microfone de quem está rimando.
Muitos estão utilizando YouTube ou Twitch como plataforma de transmissão, mas ambas têm maneiras complicadas de fazer a votação, muitas precisando de aplicativos ou softwares externos, já o Facebook dá opção de fazer enquetes durante a transmissão, direto no chat ou mesmo em cima da imagem da transmissão.
Foto: Fotomontagem BW
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“…Os caras nos discriminavam. Às vezes, nós chegávamos nas rodas que eles estavam, eles desligavam o Boombox, o gravador e diziam que Pé de Barro tinha que dançar sem música.” (B-Boy Danzinho)
Ele nasceu em Pernambuco, participava do Boi Maracatu, dança folclórica de sua cidade, filho de nordestino, seu pai cantava embolada. Com 8 anos, chegou em São Paulo. A vida não era fácil na terra da garoa, sua mãe saía para trabalhar ainda não tinha amanhecido, era de madrugada. Ele esperava clarear e ia para a rua, muitas vezes cabulava aula. Foi na rua que aprendeu algumas das mais duras lições da vida. Mas também foi nela que começou na capoeira, com o Mestre Guerreiro e, depois, conheceu o Breaking, que foi amor por toda vida e mudaria para sempre a sua história.
Discriminado dentro de casa, na quebrada onde morava, na sociedade e até na cultura, por alguns que o chamavam de “Pé de Barro” por sua condição social, foi à margem desses comentários nada inspiradores e do lado de fora do preconceito que ele tirou forças, encontrou seu espaço e ali executou movimentos incríveis, que escreveram seu nome junto com outros grandes nomes do Power Move no Brasil e no mundo.
De Pé de Barro a Rei do Windmill, B-Boy Danzinho da conhecida Detroit Break, conquistou o seu espaço, além do respeito e da admiração de todos que conhecem a sua história e a sua importância dentro do Hip-Hop no Brasil.
Numa conversa bem franca com o Portal Breaking World, ele abre o coração e deixa sua mensagem para quem está chegando.
BW: Ubiratan Teodoro da Silva, nome artístico, “B-Boy Danzinho”, queria que você falasse como e onde foi a sua infância e a sua juventude.
Danzinho: Minha infância foi na cidade em que eu nasci, Limoeiro, em Pernambuco, local em que eu morei até os 7 anos. Sou pernambucano, minha família toda é pernambucana. Participei do Boi Maracatu, que é uma dança folclórica e isso foi dos 5 aos 7 anos de idade. Meu pai, de tradição nordestina, cantava embolada, dançava a dança do coco e isso foi até os meus 7 anos. Aí eu vim para São Paulo, com 8 anos de idade, o resto da minha infância foi na Vila Elida, divisa com Diadema. Eu comecei a fazer Kung Fu dos 8 anos aos 12. Aí passou um tempo, eu mudei para a zona leste, no Itaim Paulista e aí eu conheci o Mestre Guerreiro, que era um capoeirista que pegava os meninos que ficavam na rua sem opção de lazer, de bobeira e aí ele começou a ajudar essas crianças, a dar aula de capoeira e, nesse tempo, eu ficava na rua, minha mãe saía para trabalhar as 4h30 da manhã, eu esperava amanhecer e aí ao invés de eu ir para a escola, eu cabulava as aulas e ia para vários lugares, ia para a cidade, ia para o Parque Ecológico com um bando de amigos, na verdade, eram moleques de rua que era o Coroinha, que se chama Andrezinho, tinha o Nego, que é o Davi, o Kojack, o Alex Huguinho, essa era a nossa banca. Na verdade, nós tínhamos uma gangue de rua. Nós brigávamos com outros moleques que eram de outras quebradas, nós saímos na mão com outros moleques que tinham melhor condição, ficávamos andando de bobeira pelas quebradas. Brigávamos e tomávamos os tênis do outro moleque. Aí, com o passar do tempo, nós conhecemos o Mestre Guerreiro, que me convidou para ir ao barracão que ficava no Jardim Helena, para fazer capoeira. Mas eu falava que não tinha dinheiro. Mas ele dizia que não tinha problema e que tinha percebido que eu era um moleque ligeiro, dava uns mortais.
De origem humilde, Danzinho conquistou com muito esforço seu espaço e se tornou um ícone da Cultura Hip-Hop.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Alguém te ensinou o breaking?
Danzinho: Eu sempre gostei de dar mortal! Aí eu fiquei na Capoeira bastante tempo, mais ou menos uns 7 anos, peguei até o cordão azul, só que nesse intervalo estava passando no Calçadão do Itaim, tinha um DJ chamado Zoinho, da antiga, que tinha uma loja de discos, vendia vinil e fazia uns eventos. Aí ele fez um evento de rua no Calçadão do Itaim e isso foi em 1990, foi então que eu conheci o Hip-Hop, eu vi o cara cantando em cima de um caminhão e eu vi o Nelsão [Nelson Triunfo] também, eu vi uma cara com um cabelão, uma jaqueta escrito colors e achei muito louco o estilo do cara, aí eu conheci um cara chamado Buldoguinho, que era próximo da minha quebrada e ele dançava Breaking em cima do caminhão, aí ele desceu e começou a girar no chão e isso me encantou, me interessou… Só que como aprender se não tinha ninguém para dar um toque? Naquela época, ninguém ensinava ninguém! Passou um tempo e eu fui num bailinho de escola e eu vi os caras dançando, eu vi um cabeludo dançando que o apelido dele era Maverick, aí eu entrei todo doido na roda, não sabia nem o que era Breaking. Cheguei, dei mortal, estrelinha, mortal para cá e mortal para lá e os caras falaram: “é capoeira isso e o cara é ligeiro, imagina se ele aprender uns baratos no chão!”. Aí eu conheci o Maverick, ele se interessou em me ensinar, mas só que o que me encantou foi aquele giro no chão. Aprender naquela época era cruel, pois ninguém ensinava nada, aí passou um tempo, teve outro baile na Escola Nilton Reis, nessa escola teve um baile de molecada, tinha um DJ Rege que dava som e chegou os caras do Jardim Campos, que era a banca do Buldoguinho e junto estava o Maverick, que falou que eu era ligeiro e ele me convidou para dar uns mortais na roda, eu entrei dei uns mortais na roda, isso foi em 1992. Aí ele se interessou em me ensinar. No quintal da minha casa, tinha uma casa abandonada e o chão era de taco, mas aí ele marcou um outro lugar e eu fui até ele, fiz uma caminhada longa, que era no Jardim Campos, tinha que pegar maior subida, aí eu fui na casa dele, não o encontrei, ele tinha saído. Mas a avó dele disse que ele não iria demorar, aí fiquei um tempão esperando. Aí eu desisti e fui embora. No outro dia, fui novamente, aí ele também não estava, fui embora novamente. Passou mais umas duas semanas, eu voltei e o encontrei, ele apareceu mexendo no cabelão e disse: “entra aí, capoeira! Espera um pouco que eu vou tomar um banho”… eu fiquei esperando, porque ele era todo vaidoso. Aí ele chegou e perguntei como fazia aquele barota no chão, depois eu fiquei sabendo que o nome era moinho de vento. Aí ele passou para mim a base do moinho, só que ele falou: “tem que treinar dessa forma, coloca o encaixe aqui, aí você começa a entrar com o ombro”… ele fez todo o procedimento que era para eu fazer o moinho…
BW: Com isso, você aprendeu o moinho? É verdade que houve alguns imprevistos nesse tempo?
Danzinho: Sim. Depois de um certo tempo, eu e uns moleques estávamos brincando, aí eu inventei de dar uma voadora numa madeira no meu quintal, só que essa madeira era de peroba e ficava alta, quase dois metros, eu dei uma voadora e cai para trás. Quebrei o meu braço. Pensei: como vou fazer para pegar o moinho? Nesse intervalo, passou o Dan doido e aí, no quintal da minha casa, eu pedi uns toques, mas falei a ele que tinha quebrado o meu braço. Aí ele disse: “agora vai ser impossível, pois você precisa treinar o chute, pegando o moinho de encaixe”. Aí eu comecei a jogar o moinho do alto e ao invés de ser de encaixe, eu jogava o ombro com o braço engessado. Aí eu passei uma volta e fiquei muito feliz. Aí o Dan falou que era só eu treinar, eu comecei treinar dias e noites. Aí passou um tempo, fui inventar de fazer umas manobras de bicicleta, quebrei o outro braço, caí numa descida, fiquei desacordado uns 10 minutos, aí fui para casa, mas tinha que operar o braço, colocar platina, colocar pinos, aí fiquei com medo de colocar e falei para o médico colocar gesso, mas ele disse que não ia ficar bom, não iria colocar o osso no lugar. Então eu comecei a pegar os moinhos do alto, fiquei bom nos moinhos, peguei várias variações, fiquei muito bom! Tinha cara que vinha de fora, de outras quebradas, para ver eu fazendo moinho. Os caras falavam: “tem um baixinho que faz os moinhos muito louco, com abertura legal, levinho”, aí os caras iam no Itaim e na danceteria SkyWalker e o ponto de encontro era no São Miguel, aí muitos ficaram bons também no moinho, só que os meus eram diferenciados, eu fazia tudo rápido e perfeito.
Uma das marcas do B-Boy Danzinho são os mortais, que ele trouxe da Capoeira e incorporou ao Breaking.
BW: Em que ano você entrou para o Detroit Break? Fale um pouco da caminhada da sua crew? Dos treinos e das conquistas?
Danzinho: No finalzinho de 93 para 94, nós fizemos uma banca que era a Los Angeles Leste. Era eu, o Alemão, o Tinho Gordinho e o Coroinha, que fazia uns flares para os dois lados, era muito bonito o flare dele. Só que essa banca ficou pouco tempo: o Andrezinho foi para o crime, foi preso, ficou bastante tempo na cadeia, 15 anos preso; o Zé Alemão casou, formou uma família, o Tinho também parou e ficou só eu. Só que eu conheci o Xuxuca, que nós treinamos na Caixa d’Água, isso foi em 1994, aí começamos a treinar com o Alemão, o Tinho dos mortais, o Pepeu, que hoje é Mestre de Capoeira na Rússia, ele mora lá. Era uma banca que tinha na Caixa d’Água no Itaim, perto da delegacia, foi aí que eu vi que estava evoluindo muito no Power Move. Quando foi em 95, eu já conhecia o Dedé antes, o Dedé foi a primeira formação da Detroit, nós fizemos a Detroit no comecinho de 1995, mas antes era outro nome, a primeira geração era o Kokada, o Dedé, o Léo, o Fatal, o Xuxa, o Buiu, o Areia, o Léo do Pop, tinha também o Neném Louco, era uma banca 1000 graus… Aí eu cheguei junto para completar a Detroit, eu Xuxuca, a B-Girl Beth, formamos a Detroit Break oficial mesmo, foi em 1995. Aí convidamos o Careca, ele foi o último a entrar na Detroit, isso foi em 1996. A nova geração foi formada por B-Boy Shino, B-Boy Macha, B-Boy Brasília, B-Girl Dedessa e B-Girl Shinaide.
BW: Verdade que vocês tiveram uma boa visibilidade em alguns programas de TV e na imprensa da época?
Danzinho: Nós fizemos o Programa Raul Gil, através da lista telefônica, na época era a TV Manchete. Antes, nós fomos como Sinistros do Breaking, porque não tinha um nome definido por causa dos Sinistros do Rap. Depois, tivemos muita visibilidade na época do Funk e Cia.
Danzinho e a Detroit Break são presenças constantes nos Encontros da São Bento.
BW: Verdade que durante uma competição de Breaking em Goiânia aconteceu uma treta bem pesada?
Danzinho: Em 1996, eu conhecia o ALAMBeat, o DJ do Sampa Crew, ele fez um convite para irmos à Goiânia, porque lá tinha uns caras que estiveram na São Bento, em 1993 e que zoaram São Paulo. O Andrezinho Sampa Crew fez o convite para nós buscarmos o Breaking em Goiânia, era para ir a banca toda, mas fui eu, o Kokada, o Dedé e o Alemão, que está fora do país. Então, nós fomos lá para buscar o Breaking, porque os caras de Goiânia eram bons, eram os melhores do Brasil, faziam os movimentos para os dois lados e quando chegamos em Goiânia, rachamos com eles e ganhamos. Aí aconteceu um imprevisto lá de alguns caras, que não ganharam no Breaking e juntou com mais uns 40 caras e queriam bater em nós. Inclusive eu tomei um chute nas costas que ficou até roxo. Aí quem estava lá fora jogou uma barra de ferro na alta tensão do poste, apagou toda a luz do local, para invadir e pegar nós de São Paulo. Eles não conseguiram pegar nós no Breaking e aí quiseram pegar na porrada… Parecia até filme de briga de gangue. Escutamos até tiro em cima de nós. Eu correndo, o Kokada também, o Dedé, o Alemão… Aí a polícia chegou, aquela loucura na rua: “Pega São Paulo, pega São Paulo!”. Entramos numa viatura, um olhando para o outro, para ver se tinha alguém baleado e tudo pelo Power Move. E quando nós chegamos em São Paulo, acabamos ganhando mais respeito pelo pessoal de Brasília.
BW: Em São Paulo, também houve dificuldades? Nos conte isso?
Danzinho: Sim! Veio a Batalha Final, do Rooneyoyo, que foi em 1998 ou 99, mas antes disso nós começamos a frequentar a São Bento direto e lá tinha uns caras que eram de uma banca, que tinham condições de comprar um agasalho, uns tênis da Adidas e nós chegamos lá com a bermudinha cortada, tudo derrubada, umas regatas e aí nós começamos a sentir uma discriminação, porque não tínhamos um visual de roupa, mas no Power Move, no Breaking, nós éramos muito bons. Fazíamos os movimentos todos esticados de ponta de pé. Eu acredito que os caras tinham discriminação conosco porque nós chamávamos atenção e eles tinham tudo decorado, fantasiado, no estilo Ruddy MC e falavam que nós não dançávamos e aí nós fomos batizados de Pé de Barro, nós da Detroit, com o pessoal da DRR, que colavam conosco, tivemos essa discriminação na São Bento e por isso ficamos um bom tempo sem voltar lá, de 1 ano a 2 anos. Chegou uma época que nós treinamos só para catar alguns b-boyzinhos, era assim que nós os chamávamos, da São Bento. Só que nós fazíamos os movimentos potentes de Power Move, as acrobacias bem executados e eles não conseguiam executar como nós. Nós treinamos muito as manobras, que eram os Power Moves. Não fazíamos nem muita questão de fazer o Top Rock, nem Footwork, porque nós éramos pirracentos. Então, pensávamos: “eles façam os Power e aí fazemos os Top Rocks e Footworks”. Eu acho o Power Move mais difícil de aprender do que o Top Rock e o Footwork.
Danzinho e a Detroit Break Crew demonstrando seus Power Moves na Galeria Olido, em São Paulo (2017).
BW: Você falou que você e sua crew sofreram discriminação na São Bento por alguns? Mas com o Nelson Triunfo foi diferente. Nos conte isso?
Danzinho: Então, os caras nos discriminavam. Às vezes, nós chegávamos nas rodas que eles estavam, eles desligavam o Boombox, o gravador e diziam que Pé de Barro tinha que dançar sem música, era uma discriminação enorme e alguns começaram a fazer besteira, porque nós não tínhamos o visual. Aí eu vim morar em Diadema, próximo ao Centro Cultural Taboão, eu frequentava lá com uns parceiros que treinavam comigo, o Cores, que era também grafiteiro, o Ninja Zulu e lá eu encontrei fazendo uns trabalhos o Nelson Triunfo, só que o Nelson nos conhecia pela fama que nós tínhamos de ter ido para Goiânia. Aí o Nelsão me convidou para ajudá-lo na oficina dele. Eu ajudava os meninos no Power Move, ele ajudava os meninos no Soul Dance, era assim que ele falava. E foi aí que o Nelsão começou a ter respeito pela minha pessoa, que ele já tinha uma admiração, porque eu vinha da Detroit e ele me convidou em 1997 para ir para Barueri fazer um trabalho com ele no Centro Cultural, com o pessoal que trabalhava na cultura e eu dava aula de Breaking. Foi aí que eu comecei a me profissionalizar, eu tinha muitos alunos. Trabalhava em dois turnos, passava pela minha mão no total umas 90 crianças e jovens. Chegando a criar problema para o Centro Cultural, por não ter espaço para tanta gente. Tinha o Jhow também, do Matéria Rima, que dava aula de rima e o DJ Davi dava aula de DJ e tinha o Grande, que era um bom grafiteiro, enfim, depois o Nelson me fez um convite para fazer um trabalho também no Funk e Cia, isso foi em 1998, aí comecei a fazer bastante show no Funk e Cia e dar aulas.
BW: Como sua família via seu envolvimento com o Breaking? Verdade que você sofreu discriminação também dentro de casa e na sua quebrada?
Danzinho: Foi nessa época aí que veio o respeito dentro de casa, porque na verdade eu só tive o apoio do meu pai. Certa vez, eu escutei ele falar: “É melhor ele estar nesse negócio de Breaking do que estar fazendo besteira”. Aí veio o meu primeiro trabalho, que era do governo, chamava Parceiro do Futuro, o Nelsão me colocou lá para dar aula e eu dei minhas primeiras aulas, foi maravilhoso! Aí eu cheguei em casa com um cartão salário da Caixa Econômica Federal, eu falei para a minha mãe “vamos lá no mercado”, ela falou, “fazer o quê?”, aí eu respondi, “fazer umas compras”. Ela falou, “você não tem dinheiro, não trabalha, você não é nem formado”… Aí eu falei que trabalhava, fomos ao mercado e eu passei o cartão de conta salário, aí nós compramos bastante coisa, enchemos o carrinho e foi aí que eu ganhei respeito dentro de casa. A discriminação acabou porque eles começaram a enxergar que o Breaking também dava futuro. Falavam que eu só sabia rodar no chão, mas quando passei a informação do que eu fazia, comecei a ser respeitado dentro de casa. Mas essa fase foi bem difícil, porque minha mãe só queria o melhor para mim, eu tinha que me formar, tinha que ser um doutor, um advogado ou um professor de Educação Física. Tinha que ter faculdade, mas graças a Deus, quando passou o tempo, eu comecei a me formar, tirei o DRT e isso me ajudou muito na minha carreira no Breaking. Entrei em vários projetos de educação, pelo esporte, também trabalhei na Fundação Casa por 4 anos, trabalhei em Pirapora do Bom Jesus, no projeto criado por um delegado, que ele fez para eu dar aulas de Breaking e de Graffiti. Dei aulas também para estagiários da Uniban. Dei aulas na PROERD, que é da Polícia Militar. Trabalhei em Santo Amaro, dei aulas no CEU bastante tempo, também. Tinha uma época que na quebrada também éramos discriminados, o pessoal nos chamava de “limpa chão”, falavam que nós só ficamos rodando no chão e não ganhávamos nada. Ninguém enxergava que o Breaking era uma cultura. Que era algo saudável, que resgatava muitos jovens, muitos jovens se identificavam com essa arte e com essa cultura, ninguém tinha informação e o pessoal julgava mesmo. Nós também não sabíamos detalhes, nós não treinávamos o Breaking para ganhar dinheiro e ganhar campeonato. Nós treinávamos o Breaking para sair da rua, sair de pensamentos ruins e o Breaking caiu como uma luva para nos tirar de uma vida caótica, só de maldade, só de violência, então nós dedicávamos muito ao treino, tínhamos uma disciplina muito grande e as próprias pessoas da quebrada nos xingavam e falavam que não fazíamos nada da vida. Na verdade, ali estava a nossa salvação e eles nem sabiam, porque se nós não fizéssemos isso a maioria estariam até mortos.
Além do Breaking, Danzinho também é grafiteiro.
BW: Como a sociedade via os B-Boys e as B-Girls naquela época? E na sua opinião, o que mudou de lá para cá?
Danzinho: Na verdade, a sociedade em geral tinha motivos para discriminar, pois não tinham informação. Hoje, o Breaking é bastante visível, porque na minha visão o Breaking virou moda. O Breaking deixou de ser algo de amor e de prazer, é moda! Hoje a galera treina pra caramba para ganhar dinheiro ou para ganhar campeonato, não treina para preservar a saúde, para colocar coisas boas na mente, são poucos os que treinam por amor! Não posso criticar todos, têm muitos que treinam por amor mesmo. Têm muitos pais de família que seguem seus filhos, isso para mim é uma honra! Um pai ou uma mãe levar um filho para treinar, imagina há 20 anos atrás se os pais fossem assim, como a juventude seria mais salva. Ter os pais seguindo os treinos, apoiando. Quando a informação chega, o preconceito desaba! Muitos devem se profissionalizar no que fazem para quebrar todo o preconceito.
BW: Você esteve muito tempo no Funk e Cia, fale sobre essa experiência e o que significou para você?
Danzinho: O Funk e Cia foi um leque na minha vida, nós já tínhamos um conhecimento na mídia, tínhamos participado do Domingo Legal, em 1994, no Raul Gil, em 1995, 1996, nós fomos várias vezes, fizemos bastante programa de televisão. Só que o Funk e Cia foi um leque, porque o Nelsão é um cara da pesada na história, na cena do Hip-Hop, porque ele veio do Soul ao Hip-Hop, então, é um cara muito da resistência e ele teve muito respeito com a minha pessoa, quando ele me colocou no Funk e Cia eu peguei muita confiança, vários B-Boys passaram pelo Funk e Cia e eu falo com orgulho e com respeito e ele sabe disso. Eu fui o B-Boy que ficou mais tempo no Funk e Cia, mais de 15 anos. Eu peguei uns caras que eram ainda da primeira formação, foi o Billy, o Ratula, Pierre, eu peguei esses caras. Depois, veio a nova geração, que era eu, o Jhow, o B-Boy Guinho, o Davi. Mas foi através do Funk e Cia que eu consegui muita coisa, muito trabalho, ganhei bastante nome como B-Boy Danzinho do Detroit Break, fiz vários programas de televisão com o Nelsão, saí em várias revistas. Saí no livro do Nelsão! Fui no Rio de Janeiro, na Diversidade Cultural com o Funk e Cia, foi muito louco essa experiência, fomos para o Nordeste também, em Pernambuco. Enfim, Funk e Cia foi um grande marketing na minha vida e até hoje temos um respeito muito grande um pelo outro.
BW: Conte um pouco sobre sua experiência na Casa do Hip-Hop?
Danzinho: Falando um pouco do meu trabalho na Casa do Hip-Hop, cheguei lá nem era Casa do Hip-Hop, era um Centro Cultural e eu tive uma contribuição bem grande na Casa do Hip-Hop, porque foi mais uma discriminação quando nós chegamos com essa história de Pé de Barro, minou muito a nossa presença em alguns lugares. Muitos caras que eram da antiga começaram a ditar regras que para ser B-Boy tinha que andar no visual e na Casa do Hip-Hop eu também enfrentei preconceito. Só que eu também ocupei o meu espaço. Lá dentro, só treinavam os B-Boys com espelho e com som. E do lado de fora, os Pés de Barro, que eram nós e mal sabiam eles que lá fora foi um grande incentivo para vários meninos, que nos viam treinar e aprenderam bastante Power Move, principalmente o Guinho, que hoje mora na Finlândia, que hoje é empresário, o Amendoim, grande parceiro, o Alemão e foram os meninos que aprenderam comigo lá fora… Depois de um tempo, eu fui convidado a dar aulas na Casa do Hip-Hop, fiz um trabalho maravilhoso, com bastante crianças no horário da manhã e da tarde e a Casa do Hip-Hop foi um grande marco na minha vida. Eu faço parte dessa história da Casa do Hip-Hop e me considero um dos iniciadores da parte de Power Move lá dentro.
Danzinho utiliza o Breaking como ferramenta de transformação social em projetos para crianças e jovens, incentivando a nova geração.
BW: Como é o Danzinho hoje na intimidade? Quem é o Danzinho?
Danzinho: O Danzinho é muito família, eu do portão para fora eu sou o Danzinho, do portão para dentro, eu sou um pai de família, me dedico muito a minha família, com meus filhos, minha mulher. Faço de tudo para entender os meus filhos, sou um marido presente na atividade de casa também, gosto de fazer comida, cuido dos meus filhos. Porque o homem tem que cuidar da mulher e a mulher do homem, é assim que eu aprendi a zelar por quem amamos, porque a família é algo abençoado por Deus. Tudo que faço é pensando nos meus filhos e na minha mulher, que me ajuda muito, porque se não fosse uma grande mulher não existiria um grande homem.
BW: Como você vê os B-Boys e as B-Girls da atualidade?
Danzinho: Na verdade devemos filtrar o que a velha escola fez de bom e trazer para dentro do Breaking, para a nova geração. Nós somos Power Move Old School, que fazíamos todos os movimentos para os dois lados perfeitos, com as pernas esticadas e revolucionamos alguns movimentos. Se a nova geração respeitar mais a velha escola, eles só têm a crescer, porque a evolução é trabalhar os dois lados da mente. Porque para ficarmos bons numa sequência de Power Move tínhamos que ficar bons para os dois lados, então, automaticamente você está treinando os dois lados da mente e isso é a evolução do Power Move. A nova geração tinha que trazer para dentro deles isso aí.
E a Cultura Hip-Hop vai passando de pai para filho e ultrapassando gerações. Na foto: Lelê e Danzinho.
BW: Nesse tempo de pandemia, o que você tem feito? E como acha que será o futuro pós pandemia?
Danzinho: Eu nunca parei com o Hip-Hop, porque eu respiro Hip-Hop, atualmente estou me precavendo por causa dessa pandemia, não é brincadeira essa doença, que acredito eu foi cria do ser humano. Eu tenho que sair para comprar comida, eu tenho que sair para sustentar a minha família, mas eu evito aglomeração. Mas eu nunca parei. Estou envolvido num projeto maravilhoso chamado Becos e Vielas, fazendo o projeto da Detroit. Nessa epidemia eu tenho trabalhado e cuidado da minha família. Com a pandemia, os B-Boys e B-Girls que estão em casa vão ganhar 20 kg a mais se não praticar o Breaking. E quando voltar vão ter que recuperar esse tempo parado.
BW: Atualmente, um assunto que vem sendo bem discutido no meio da cultura é a entrada do Breaking nos Jogos Olímpicos. O que você pensa sobre isso?
Danzinho: Na minha opinião, o Breaking nunca tinha que ter virado uma modalidade olímpica, porque o Breaking faz parte de uma cultura chamada Hip-Hop. O Breaking ir para as Olimpíadas, é claro que vai reforçar a cultura, mas eu espero que quem esteja à frente disso não tire o Breaking como esporte, mas como cultura. E respeite os caras que começaram a cultura Hip-Hop, os Old School. É uma cultura que está mostrando para o mundo sua contribuição e que está fazendo sua parte. O Breaking não vale uma medalha olímpica, ele vale muito mais que isso. Quantas vidas o Breaking salvou? Resgatou? Vale reforçar o Breaking? Sim! Vai ter marketing? Sim. E vai ajudar muito? Vai. Só que eu espero que eles nunca coloquem como uma modalidade olímpica, mas sim uma modalidade cultural, que tem que ser respeitada como cultura. Eu não troco a minha cultura, o meu Breaking que eu aprendi, por uma medalha olímpica. Mas tudo bem, é melhor os jovens estarem na Olimpíada do que estarem numa cadeia se desviando do caminho certo. Então, é viável! É legal, sim, mas como uma modalidade cultural! Não como esporte!
BW: Que mensagem você deixaria para a nova geração de B-Boys e B-Girls?
Danzinho: A mensagem para a nova geração é o seguinte: B-Boy, B-Girl do Brasil e até do mundo, não existe B-Boy ou B-Girl ruim, existe B-Boy mal treinado, vocês que são arte-educadores, professores de dança de rua, principalmente de Breaking, prestem atenção no que vocês estão passando para a nova geração. Principalmente como fazer alongamento, eles devem ser preparados para treinar o Breaking e o Power Move. Vamos nos profissionalizar, vamos estudar, vamos tirar o DRT e amar a dança sem deixar de respeitar o pai, a mãe, isso é o principal para você ser um bom B-Boy ou B-Girl. Sempre respeite o próximo! O respeito vem em primeiro lugar! Aqui é uma mensagem do B-Boy Danzinho, família Detroit Breaker Power Move Brasil, para toda a rapaziada do Brasil e do mundo. É nós! A minha história dentro do Breaking não foi fácil como não é fácil para muitos que estão aí na periferia. Paz!
Fotos: Arquivo Pessoal/Cadu Barbosa/William Machado/Fabiano Minu
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O Breaking ao longo de seu percurso, desde sua reminiscência no Bronx, Nova Iorque, Estados Unidos, por volta da década de 1970, criado por afro-americanos e latinos, até os dias atuais, perpassa por diversas transformações em suas dimensões culturais, políticas e artísticas.
Por exemplo, podemos citar algumas dessas variações com o advento das batalhas; as mudanças nas bases estruturais de organização popular do Breaking com a institucionalização das Danças de Rua/Danças Urbanas (implicando na passagem do Breaking manifesto nos espaços públicos para locais administrados por setores privados ou em parcerias com projetos estatais); as inovações nos processos de ensino e aprendizagem na reflexão sobre a técnica da dança, entre outros aspectos significativos que representam alterações nas construções estéticas e dos fundamentos do Breaking que, por sua vez, caminham concomitantemente com as dinâmicas históricas instauradas pelo movimento Hip-Hop.
Todavia, neste momento, buscaremos abordar por meio do presente texto a discussão apenas das ressignificações do Footwork, ou seja, um estilo que partiu no início dos anos 1970, no Bairro do Bronx.
O Footwork consiste em um conjunto de movimentos com os pés, de acordo com o ritmo da música, realizando giros, chutes, golpes, rastejamento, uso dos joelhos, voltas, cruzamentos, ações concentradas em ponto fixo, múltiplas dimensões por meio dos quatro apoios (braços e pernas), em que o chão é a referência principal para o corpo dançar.
Comparado em uma citação de “A história de Chicago House e Detroit Techno” (2011) a algo como “adolescentes se enfrentam e improvisam batalhas de dança com os pés. Seus pés voam em velocidades insanas, algo como uma mistura de House Dance, Sapateados e Break Dance Footwork. Parece uma dança de outra dimensão. A música que eles dançam está relacionada ao juke, mas é muito mais espaçosa, com mais complexidade rítmica”.
Ao tornar-se uma das expressões fundamentais do Breaking, o Footwork executado pelos B-Boys e B-Girls adotam uma postura de moverem os pés, fazendo-o com habilidade, não seguindo padrões rítmicos previsíveis, mas buscando confundir seus rivais nas competições e cada vez aperfeiçoar suas criações, trazendo para cada Footwork o traço artístico daqueles e daquelas que simbolicamente modificam, agregam e exploram a vasta experiência de (re)construção da técnica da Dança.
O Footwork é um dos fundamentos do Breaking que mais exige esforço físico do B-Boy ou da B-Girl.
Por exemplo, Crews e B-Boys/B-Girls que contribuíram para inovações no Footwork: Crews Rock Steady Crew, os B-Boys Ken Swift, Wicket, Flo Master, Crazy Legs, Sammy Davi Jr, Mr Wiggles, Steve (LV), Icey Ice, Baby Love, Pow Wow, entre outros e outras.
O Footwork ou Floor-Rock surge da disputa entre duas danças que o antecedem: o Top Rock (pertencente ao Bronx) e o Up Rocking (pertencente ao Brooklyn). Essas danças praticadas por gangues representavam o território de cada região da cidade de Nova Iorque. Os que praticavam o Top Rock perceberam que poderiam explorar melhor a relação do corpo com o chão, diferenciando suas manobras e inventando uma nova forma de movimentação, descobrindo que a posição baixa do corpo poderia ser ampliada para o agachamento, redefinindo, a partir disso, forma e conteúdo do dicionário da linguagem técnica do Breaking.
Pode ser considerada uma etapa cansativa o Footwork, pois exige do e da praticante pouparem seu fôlego e energia para as próximas fases da dança. Então, o B-Boy e a B-Girl possuem um desafio, que é passar pelo Footwork e prosseguir com cadência a sequência de ações que estarão por vir, compondo o todo da apresentação.
Atualmente, há disponibilidade acessível de tutoriais e vídeo-aulas sobre Footwork. O DVD do B-Boy alemão Storm é uma interessante referência de material de apoio, visto que sistematizou a técnica, desenvolvendo e explicando detalhadamente inúmeras variações para essa etapa da dança.
O festival internacional de dança Hip-Hop e Urbana, que ocorre desde 2001, o “Notorious IBE”, em sua 19° edição, no ano passado, ocorrido na Holanda, contou com uma modalidade específica do Footwork com o Foot Work Battles, contemplando e prestigiando os apreciadores dessa modalidade específica.
Outra plataforma de consulta que contém os nomes que podemos ilustrar é o blog Mundo da Dança, do idealizador Roger de Souza, que elabora um “Índice de Movimentos do Break Dance”, descrevendo uma lista básica dos movimentos do Footwork e Floor-Rocks: 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10 e 12 Step, Zulu Spins, Kick-outs, Spindle, Swapping Shuffles, Coffe Grinder, Scissors, Belly Swim, Body Glide, Side Slide, Figure 4, CC Long, Elbo Rock, Knee Rock, 3 Step Baby Swipe, Double Leg Kicks, Spyder Style, Cork Spin, Sweep Swipes, Criss Cross Shuffle, Front Sweet Back Sweep, Back Rock, Traveling Footwork e Spyderman Footwork.
Foto: Reprodução.
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“Fazer um projeto desta dimensão na cidade do Porto é uma das etapas mais importantes da minha vida.” (Max Oliveira)
Ele desde cedo sempre admirou a dança e todo tipo de movimento, como muitas crianças da sua geração, foi influenciado por Michael Jackson e Bruce Lee, mas foi somente com 18 anos, em Madri, que viu pela primeira vez B-Boys dançando e aquilo foi mágico o suficiente para mudar para sempre a sua vida.
Aprendeu os primeiros movimentos com B-Boys na Espanha. Em 2003, durante um treino com Mix e conversando com Kujo, entendeu como aplicaria a Momentum à Dança. Daí nascia o primeiro grupo profissional de Danças Urbanas em Portugal e que teria alguns dos melhores B-Boys do mundo.
A Momentum Crew foi formada por ele, Mix, Deeogo, Lagaet, Bruce, XXL, Makumba, Roberto, Mad Dog, Hercules, Nastya, Ivo, Magik e Mirre. A dança, profissionalmente, veio em 2005.
Estamos falando de Max Oliveira, fundador da Momentum Crew e organizador da Porto World Battle. Max também é professor de escola profissional de dança, dá workshops, é jurado, coreógrafo de espetáculos e produz eventos em várias partes do mundo e agora também coordena o Programa Municipal chamado “Desporto no Bairro”, que tem o objetivo de aproximar jovens em oito bairros da Cidade de Porto passando a paixão que une esse grupo e os faz dançar, com um método natural, estando na gênese do Hip-Hop, que é a rua e transmitindo bons valores aos jovens menos favorecidos os afastando do Crime.
Max conversou com o Portal Breaking World, contou um pouco da sua história de vida, falou sobre dançar na Europa, sobre programas sociais, sobre Breaking nos Jogos Olímpicos, sobre pandemia e, no final, mandou uma mensagem especial para as B-Girls e os B-Boys brasileiros.
Confira a entrevista:
BW: Queria que você falasse um pouco sobre você. Como foi sua infância e sua história com o Breaking?
Max: Eu cresci admirando a Dança e todo o tipo de movimento, desde muito cedo fui influenciado pelo Michael Jackson e mais tarde Bruce Lee, tinha uns 5 anos de idade.
A admiração pela dança veio cedo. Michael Jackson foi uma das inspirações.
BW: Quando começou o amor por esse elemento da Cultura Hip-Hop?
Max: Começou por volta dos meus 18 anos, em Madrid, quando vi pela primeira vez B-Boys dançando.
BW: Alguém te ensinou ou você aprendeu sozinho?
Max: Os primeiros movimentos aprendi junto de alguns B-Boys da Espanha, nessa altura eu vivia em Madrid. Mais tarde (por volta dos meus 20 anos) regressei de novo a Portugal e aprendi muito com o Mix da Momentum Crew, devo a minha dança essencialmente ao meu grupo.
BW: Houve dificuldades e desafios?
Max: Sim… Imensos desafios e dificuldades nunca deixaram de existir, acho que ser B-Boy é saber lidar com as dificuldades e desafios, bem como com a palavra frustração. Ainda hoje em dia, permanecem os desafios e creio que nunca irão terminar…
Encarar os desafios de frente é um dos segredos para o sucesso, segundo Max.
BW: Como sua família via essa sua relação com a dança? Você tinha apoio dos familiares?
Max: Felizmente, sempre tive muito apoio por parte da minha família. Creio que eles nunca acreditaram na viabilidade econômica da dança e que eu pudesse vencer na vida como profissional. Nesse aspecto, sempre fui muito feliz e sortudo, tenho vivências (especialmente com o meu Pai) incríveis no Universo do Breaking. Nunca tivemos dinheiro, mas tive sempre muito amor familiar.
BW: Quando começou a dançar profissionalmente? Como é viver da dança em Portugal?
Max: Profissionalmente apenas posso considerar a partir de 2005/2006. Penso que é como em todo o mundo, é extremamente difícil, duro e pouco valorizado. A Dança não é devidamente reconhecida e provoca um desgaste ultrarrápido, dificilmente conseguimos que seja verdadeiramente compensador. Na Europa, a grande luta é o custo de vida e impostos inerentes ao que conseguimos faturar com os trabalhos relacionados com a Dança.
BW: Que características profissionais um dançarino tem que ter para ser bem aceito no mundo da dança na Europa?
Max: Empenho, dedicação, profissionalismo, treino, imagem, simpatia, humildade, sentido de gestão de carreira… Fazer bons contatos, comunicar-se bem e ser capaz de manter as boas relações profissionais. Aconselho que percebam as leis locais e como tratar de pagamento de impostos, contratos e legalização de tudo o que for necessário para um futuro sólido. Não é suficiente dançar bem.
A Momentum Crew é reconhecida mundialmente pela qualidade de seus dançarinos. Resultado de muito foco e trabalho duro.
BW: Me fale um pouco da história da Momentum Crew e como é ser o fundador de uma Crew tão respeitada e conhecida?
Max: A Momentum Crew surge de treinos entre Max e Mix. Um dia treinamos com o Kujo e ele nos explicou o conceito de Momentum aplicado à Dança. Começou em Outubro de 2003 e dura até agora, e durante o percurso destes 17 anos tem como membros os B-Boys Max, Mix, Deeogo, Lagaet, Bruce, XXL, Makumba, Roberto, Mad Dog, Hercules, Nastya, Ivo, Magik, Mirre. Quanto a ser líder de uma Crew como a Momentum Crew é sentir a responsabilidade e vontade de continuar a manter o legado vivo e ser um exemplo na criação de novos líderes. Além disso, é ver os membros da Crew a tomarem um rumo, o êxito nas suas vidas próprias e a voarem.
BW: Nos conte um pouco sobre sua vida, sua formação (o que estudou). E fale sobre o seu trabalho.
Max: Estudei muitas coisas desde o ensino secundário obrigatório, passei por várias universidades no Reino Unido, Espanha e Portugal, em cursos tão diversos como Biotecnologia, Administração de Empresas, Economia e Relações Internacionais. Após ter o terceiro ano de RI e Economia, decidi fazer formações em Fitness e algumas em Dança. Fiz tudo isto até cerca dos meus 28 anos, pois não acreditava num futuro profissional com estabilidade econômica relacionado com a Dança.
BW: Você é o CEO na empresa Max Momentum Artists & Productions, participa de espetáculos, organiza eventos como a World Battle. E agora, junto com a Momentum, vão dirigir um novo programa municipal chamado “Desporto no Bairro”, como arruma tempo para tudo isso?
Max: E isso é apenas uma parte: ainda dou aulas, sou professor de escola profissional de dança, leciono workshops, sou jurado, coreógrafo de espetáculos e produtor de eventos em várias partes do mundo (risos). Como muitos grandes nomes que admiro ligados à dança, tenho que fazer tudo o que posso e bem para crescer como profissional. Neste momento, estou numa fase que já começo a selecionar o que faço e o meu desejo é cada vez fazer menos e melhor.
Além de B-Boy, Max é empresário, professor, produtor de espetáculos e palestrante, entre outras atividades relacionadas à Dança.
BW: Sobra tempo para a vida em família?
Max: Pouco, realmente muito pouco.
BW: Max, você vai coordenar esse programa, queria que você falasse sobre o “Desporto no Bairro” que vai ensinar jovens menos favorecidos a dançar Breaking em várias zonas da cidade. Qual o objetivo desse programa?
Max: O objetivo é despertar o amor pela Dança (Breaking) de forma que possa ser um caminho alternativo de vida para quem não vê a luz no fim do túnel.
BW: Como vai funcionar?
Max: Vamos estar ativamente e de forma orgânica em Jam Sessions regulares, nos diversos bairros problemáticos da cidade do Porto. Desse modo, vamos nos aproximar dos jovens e tentar passar a paixão que nos une e nos faz dançar. Com este método natural, pretendemos estar na gênese do Hip-Hop, que é a rua e transmitir bons valores, proporcionando aos jovens um caminho saudável e afastado do crime. Além disso, vamos promover um evento de Battle de arranque e no final, em dezembro, iremos fazer um espetáculo com a crew internacional Ill Abilities, os dançarinos formadores do projeto e os jovens, todos em conjunto, num espaço público do Grande Porto.
O projeto “Desporto no Bairro” une formadores de 5 Crews e é inédito em Portugal.
BW: Quem são os dançarinos da Momentum Crew que vão trabalhar ativamente e de que forma vão trabalhar?
Max: Temos 5 Crews trabalhando neste projeto, o que também é pioneiro em Portugal, com 10 Formadores e eu sou o Curador. Os dançarinos são XXL, Makumba, Roberto, Hércules, Mirre da Momentum Crew, Aiam da Gaiolin Roots, Found Kid da Zoo Gang, Gil da Execellence, Titas da FlyBboys e B-Girl Queen. Tal como disse, vamos trabalhar de forma muito natural e orgânica em formato de Jam Sessions de Linóleo e Boombox, sem imposição de aula, 6 horas semanais nos centros dos Bairros e depois juntar as restantes ações do projeto, tais como o evento e o espetáculo.
BW: É um programa gratuito para esses jovens? Vocês visam prepará-los para as Olimpíadas, já que o Breaking vai virar uma modalidade olímpica?
Max: Sim, é gratuito. Estes jovens não irão estar realmente prontos para as Olimpíadas, mas podem estar prontos para serem grandes B-Boys e B-Girls no futuro. Contudo, temos em mente criar “Clubs” de Breaking nos diferentes bairros e zonas do Grande Porto. Esperemos que venha a ser uma realidade próxima.
BW: Qual a sua opinião sobre o Breaking nas Olimpíadas? Muitas discussões no mundo inteiro sobre o assunto e alguns acham que é possível se perder a essência… Qual a sua opinião?
Max: Acho ótimo existirem diversas plataformas, assim existem mais opções. Eu nunca vou perder a minha essência, vou sempre defender os valores da Cultura do Breaking. Acho que apenas precisamos garantir ter comida no prato, fazendo o que mais gostamos e para isso precisamos de mais opções de vida e de plataformas válidas e os Olímpicos são uma. Mas são “apenas” uma plataforma, não podemos esquecer todas as restantes e continuar a apoiar e participar dos eventos culturais e a viver o Breaking de forma correta, que será sempre a original.
Jamais perder a essência e sempre disseminar a Cultura Hip-Hop por meio do elemento Breaking é um dos objetivos de vida de Max.
BW: Fale como você imagina que serão os B-Boys, as B-Girls e o Breaking do futuro. Com que deverão de fato se preocupar na hora se preparar?
Max: Acho que haverão B-Boys e B-Girls que apenas vão participar de eventos de caráter desportivo, outros que vão apenas participar de eventos de caráter cultural e outros que vão tentar vivenciar e aproveitar tudo o que lhes for possível. Por isso, acho que no futuro vai existir mais diversidade. O receio é que muitos dos B-Boys e B-Girls da nova geração esqueçam de estudar a Cultura e ter reconhecimento e respeito por quem aqui passou e construiu.
BW: Quem terá chance de ir para uma Olimpíada e quem não terá?
Max: Terá quem tiver uma estrutura nacional forte e organizada. Podes ser o melhor B-Boy do planeta, mas se o teu país não tiver uma boa estrutura e organização, dificilmente irás ter acesso às Olimpíadas em pé de igualdade com outras potências mundiais, sabemos que existem países que já têm o seu lugar reservado nos Jogos Olímpicos, independentemente do nível dos praticantes.
Para voar é preciso estar aberto a novas oportunidades, mas sem esquecer as origens.
BW: Verdade que o lançamento do programa “Desporto no Bairro” foi adiado devido a pandemia e só foi lançado essa semana no dia 10? Como está a situação da Covid-19 aí?
Max: Infelizmente, verdade. Ninguém sabe, qualquer opinião é pura especulação. É viver o dia a dia e esperar o melhor, estando preparado para o pior.
BW: Que cuidados serão tomados para garantir a segurança de todas essas crianças e jovens que vão participar do programa?
Max: Uso de máscaras por parte dos formadores e jovens, álcool gel e respeito pelas distâncias de segurança.
BW: Houve uma experiência anterior com um acampamento de férias municipais, onde participaram mais de 700 crianças aí em Portugal. Quais foram os resultados?
Max: Ótimos, a nossa cidade está fazendo um trabalho social espetacular, temos a sorte de ter um Presidente que apoia e investe nos cidadãos da Cidade. O Porto é um motor exemplar de iniciativas de valor e queremos agradecer muito à Ágora Porto e à Câmara Municipal do Porto por estarem sempre na vanguarda de projetos de valor. Esperemos que inspirem outros países e autarquias a fazer o mesmo.
Max e os companheiros da Momentum Crew em momento de descontração no Rock In Rio Lisboa.
BW: Agora com o Breaking a ideia é usar esse elemento como uma poderosa ferramenta de inclusão, educação e realização pessoal? Nos fale sobre isso.
Max: É isso mesmo, o Breaking nasceu assim mesmo, é inclusivo, não reconhece barreiras nem fronteiras e permite quebrar os preconceitos sociais. Por estes motivos, vamos utilizar o Breaking como instrumento poderoso de valorização da nossa juventude, com fundamentos que se adaptam aos gostos de uma sociedade contemporânea.
BW: Max, fale sobre os efeitos positivos do Breaking sobre esses jovens e como pode mudar vidas?
Max: Em nível físico vai melhorar toda a condição deles: coordenativa, flexibilidade, controle motor, destreza, criatividade, artística, etc… em nível mental, proporciona capacidade de foco, controle de emoção, sensibilidade e promove a união, paz social e interior. Na perspectiva social, foi tudo o que descrevi na pergunta anterior, além de ainda acrescentar amor à vivência do dia a dia, nesse caso, fundamenta-se no código dos valores do Hip-Hop: Peace, Love, Unity and Having Fun [Paz, Amor, Unidade e Diversão].
BW: Como você se sente de coordenar um programa desses na sua cidade? Qual o sentimento que você tem?
Max: Muito bem mesmo, finalmente. Sentimento de felicidade, pois adoro contribuir para a minha cidade, berço que tanto adoro. Já fiz muitos projetos sociais nos Estados Unidos, Polônia, Sibéria, Cazaquistão, mas para mim o mais importante e que mais me realiza é aqui no Porto e em Portugal. Amo contribuir para Portugal e para a cidade do Porto.
BW: Como foi a reação do público, das crianças, dos jovens, quando a Momentum Crew se apresentou no Parque da Pasteleira?
Max: Incrível, estamos sendo muito bem recebidos, estão todos se divertindo imensamente e está tendo adesão e atenção dos jovens e dos moradores dos diversos bairros, que é o mais importante.
BW: O programa vai até dezembro. Existem planos de continuar no próximo ano?
Max: Pelo menos existe a intenção, esperemos que sim, seria bom para todos.
BW: Deixe uma mensagem para os B-Boys e B-Girls brasileiros que acompanham sua carreira e seu trabalho.
Max: Tenho saudades vossas (de voltar ao Brasil), vocês têm uma energia especial e que admiro muito. Felizmente, temos vários B-Boys do Brasil no momento em Portugal e na Europa, e cada vez mais são uma fonte de inspiração, pois me revejo nas dificuldades que passei outrora, quando emigrei. Tenho muitos B-Boys e B-Girls amigos e que respeito muito no Brasil. A maior mensagem é ESPALHEM AMOR PELO BREAKING e ajudem os jovens a curtir positivamente com esta Cultura.
Fotos: Arquivo Pessoal
Max é fundador da Momentum Crew, Eurobattle e World Battle.
Bruce foi finalista da Red Bull BC-One.
Momentum Crew.
Momentum Crew.
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