De Pé de Barro a Rei do Windmill
“…Os caras nos discriminavam. Às vezes, nós chegávamos nas rodas que eles estavam, eles desligavam o Boombox, o gravador e diziam que Pé de Barro tinha que dançar sem música.” (B-Boy Danzinho)
Ele nasceu em Pernambuco, participava do Boi Maracatu, dança folclórica de sua cidade, filho de nordestino, seu pai cantava embolada. Com 8 anos, chegou em São Paulo. A vida não era fácil na terra da garoa, sua mãe saía para trabalhar ainda não tinha amanhecido, era de madrugada. Ele esperava clarear e ia para a rua, muitas vezes cabulava aula. Foi na rua que aprendeu algumas das mais duras lições da vida. Mas também foi nela que começou na capoeira, com o Mestre Guerreiro e, depois, conheceu o Breaking, que foi amor por toda vida e mudaria para sempre a sua história.
Discriminado dentro de casa, na quebrada onde morava, na sociedade e até na cultura, por alguns que o chamavam de “Pé de Barro” por sua condição social, foi à margem desses comentários nada inspiradores e do lado de fora do preconceito que ele tirou forças, encontrou seu espaço e ali executou movimentos incríveis, que escreveram seu nome junto com outros grandes nomes do Power Move no Brasil e no mundo.
De Pé de Barro a Rei do Windmill, B-Boy Danzinho da conhecida Detroit Break, conquistou o seu espaço, além do respeito e da admiração de todos que conhecem a sua história e a sua importância dentro do Hip-Hop no Brasil.
Numa conversa bem franca com o Portal Breaking World, ele abre o coração e deixa sua mensagem para quem está chegando.
BW: Ubiratan Teodoro da Silva, nome artístico, “B-Boy Danzinho”, queria que você falasse como e onde foi a sua infância e a sua juventude.
Danzinho: Minha infância foi na cidade em que eu nasci, Limoeiro, em Pernambuco, local em que eu morei até os 7 anos. Sou pernambucano, minha família toda é pernambucana. Participei do Boi Maracatu, que é uma dança folclórica e isso foi dos 5 aos 7 anos de idade. Meu pai, de tradição nordestina, cantava embolada, dançava a dança do coco e isso foi até os meus 7 anos. Aí eu vim para São Paulo, com 8 anos de idade, o resto da minha infância foi na Vila Elida, divisa com Diadema. Eu comecei a fazer Kung Fu dos 8 anos aos 12. Aí passou um tempo, eu mudei para a zona leste, no Itaim Paulista e aí eu conheci o Mestre Guerreiro, que era um capoeirista que pegava os meninos que ficavam na rua sem opção de lazer, de bobeira e aí ele começou a ajudar essas crianças, a dar aula de capoeira e, nesse tempo, eu ficava na rua, minha mãe saía para trabalhar as 4h30 da manhã, eu esperava amanhecer e aí ao invés de eu ir para a escola, eu cabulava as aulas e ia para vários lugares, ia para a cidade, ia para o Parque Ecológico com um bando de amigos, na verdade, eram moleques de rua que era o Coroinha, que se chama Andrezinho, tinha o Nego, que é o Davi, o Kojack, o Alex Huguinho, essa era a nossa banca. Na verdade, nós tínhamos uma gangue de rua. Nós brigávamos com outros moleques que eram de outras quebradas, nós saímos na mão com outros moleques que tinham melhor condição, ficávamos andando de bobeira pelas quebradas. Brigávamos e tomávamos os tênis do outro moleque. Aí, com o passar do tempo, nós conhecemos o Mestre Guerreiro, que me convidou para ir ao barracão que ficava no Jardim Helena, para fazer capoeira. Mas eu falava que não tinha dinheiro. Mas ele dizia que não tinha problema e que tinha percebido que eu era um moleque ligeiro, dava uns mortais.

BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Alguém te ensinou o breaking?
Danzinho: Eu sempre gostei de dar mortal! Aí eu fiquei na Capoeira bastante tempo, mais ou menos uns 7 anos, peguei até o cordão azul, só que nesse intervalo estava passando no Calçadão do Itaim, tinha um DJ chamado Zoinho, da antiga, que tinha uma loja de discos, vendia vinil e fazia uns eventos. Aí ele fez um evento de rua no Calçadão do Itaim e isso foi em 1990, foi então que eu conheci o Hip-Hop, eu vi o cara cantando em cima de um caminhão e eu vi o Nelsão [Nelson Triunfo] também, eu vi uma cara com um cabelão, uma jaqueta escrito colors e achei muito louco o estilo do cara, aí eu conheci um cara chamado Buldoguinho, que era próximo da minha quebrada e ele dançava Breaking em cima do caminhão, aí ele desceu e começou a girar no chão e isso me encantou, me interessou… Só que como aprender se não tinha ninguém para dar um toque? Naquela época, ninguém ensinava ninguém! Passou um tempo e eu fui num bailinho de escola e eu vi os caras dançando, eu vi um cabeludo dançando que o apelido dele era Maverick, aí eu entrei todo doido na roda, não sabia nem o que era Breaking. Cheguei, dei mortal, estrelinha, mortal para cá e mortal para lá e os caras falaram: “é capoeira isso e o cara é ligeiro, imagina se ele aprender uns baratos no chão!”. Aí eu conheci o Maverick, ele se interessou em me ensinar, mas só que o que me encantou foi aquele giro no chão. Aprender naquela época era cruel, pois ninguém ensinava nada, aí passou um tempo, teve outro baile na Escola Nilton Reis, nessa escola teve um baile de molecada, tinha um DJ Rege que dava som e chegou os caras do Jardim Campos, que era a banca do Buldoguinho e junto estava o Maverick, que falou que eu era ligeiro e ele me convidou para dar uns mortais na roda, eu entrei dei uns mortais na roda, isso foi em 1992. Aí ele se interessou em me ensinar. No quintal da minha casa, tinha uma casa abandonada e o chão era de taco, mas aí ele marcou um outro lugar e eu fui até ele, fiz uma caminhada longa, que era no Jardim Campos, tinha que pegar maior subida, aí eu fui na casa dele, não o encontrei, ele tinha saído. Mas a avó dele disse que ele não iria demorar, aí fiquei um tempão esperando. Aí eu desisti e fui embora. No outro dia, fui novamente, aí ele também não estava, fui embora novamente. Passou mais umas duas semanas, eu voltei e o encontrei, ele apareceu mexendo no cabelão e disse: “entra aí, capoeira! Espera um pouco que eu vou tomar um banho”… eu fiquei esperando, porque ele era todo vaidoso. Aí ele chegou e perguntei como fazia aquele barota no chão, depois eu fiquei sabendo que o nome era moinho de vento. Aí ele passou para mim a base do moinho, só que ele falou: “tem que treinar dessa forma, coloca o encaixe aqui, aí você começa a entrar com o ombro”… ele fez todo o procedimento que era para eu fazer o moinho…
BW: Com isso, você aprendeu o moinho? É verdade que houve alguns imprevistos nesse tempo?
Danzinho: Sim. Depois de um certo tempo, eu e uns moleques estávamos brincando, aí eu inventei de dar uma voadora numa madeira no meu quintal, só que essa madeira era de peroba e ficava alta, quase dois metros, eu dei uma voadora e cai para trás. Quebrei o meu braço. Pensei: como vou fazer para pegar o moinho? Nesse intervalo, passou o Dan doido e aí, no quintal da minha casa, eu pedi uns toques, mas falei a ele que tinha quebrado o meu braço. Aí ele disse: “agora vai ser impossível, pois você precisa treinar o chute, pegando o moinho de encaixe”. Aí eu comecei a jogar o moinho do alto e ao invés de ser de encaixe, eu jogava o ombro com o braço engessado. Aí eu passei uma volta e fiquei muito feliz. Aí o Dan falou que era só eu treinar, eu comecei treinar dias e noites. Aí passou um tempo, fui inventar de fazer umas manobras de bicicleta, quebrei o outro braço, caí numa descida, fiquei desacordado uns 10 minutos, aí fui para casa, mas tinha que operar o braço, colocar platina, colocar pinos, aí fiquei com medo de colocar e falei para o médico colocar gesso, mas ele disse que não ia ficar bom, não iria colocar o osso no lugar. Então eu comecei a pegar os moinhos do alto, fiquei bom nos moinhos, peguei várias variações, fiquei muito bom! Tinha cara que vinha de fora, de outras quebradas, para ver eu fazendo moinho. Os caras falavam: “tem um baixinho que faz os moinhos muito louco, com abertura legal, levinho”, aí os caras iam no Itaim e na danceteria SkyWalker e o ponto de encontro era no São Miguel, aí muitos ficaram bons também no moinho, só que os meus eram diferenciados, eu fazia tudo rápido e perfeito.

BW: Em que ano você entrou para o Detroit Break? Fale um pouco da caminhada da sua crew? Dos treinos e das conquistas?
Danzinho: No finalzinho de 93 para 94, nós fizemos uma banca que era a Los Angeles Leste. Era eu, o Alemão, o Tinho Gordinho e o Coroinha, que fazia uns flares para os dois lados, era muito bonito o flare dele. Só que essa banca ficou pouco tempo: o Andrezinho foi para o crime, foi preso, ficou bastante tempo na cadeia, 15 anos preso; o Zé Alemão casou, formou uma família, o Tinho também parou e ficou só eu. Só que eu conheci o Xuxuca, que nós treinamos na Caixa d’Água, isso foi em 1994, aí começamos a treinar com o Alemão, o Tinho dos mortais, o Pepeu, que hoje é Mestre de Capoeira na Rússia, ele mora lá. Era uma banca que tinha na Caixa d’Água no Itaim, perto da delegacia, foi aí que eu vi que estava evoluindo muito no Power Move. Quando foi em 95, eu já conhecia o Dedé antes, o Dedé foi a primeira formação da Detroit, nós fizemos a Detroit no comecinho de 1995, mas antes era outro nome, a primeira geração era o Kokada, o Dedé, o Léo, o Fatal, o Xuxa, o Buiu, o Areia, o Léo do Pop, tinha também o Neném Louco, era uma banca 1000 graus… Aí eu cheguei junto para completar a Detroit, eu Xuxuca, a B-Girl Beth, formamos a Detroit Break oficial mesmo, foi em 1995. Aí convidamos o Careca, ele foi o último a entrar na Detroit, isso foi em 1996. A nova geração foi formada por B-Boy Shino, B-Boy Macha, B-Boy Brasília, B-Girl Dedessa e B-Girl Shinaide.
BW: Verdade que vocês tiveram uma boa visibilidade em alguns programas de TV e na imprensa da época?
Danzinho: Nós fizemos o Programa Raul Gil, através da lista telefônica, na época era a TV Manchete. Antes, nós fomos como Sinistros do Breaking, porque não tinha um nome definido por causa dos Sinistros do Rap. Depois, tivemos muita visibilidade na época do Funk e Cia.

BW: Verdade que durante uma competição de Breaking em Goiânia aconteceu uma treta bem pesada?
Danzinho: Em 1996, eu conhecia o ALAMBeat, o DJ do Sampa Crew, ele fez um convite para irmos à Goiânia, porque lá tinha uns caras que estiveram na São Bento, em 1993 e que zoaram São Paulo. O Andrezinho Sampa Crew fez o convite para nós buscarmos o Breaking em Goiânia, era para ir a banca toda, mas fui eu, o Kokada, o Dedé e o Alemão, que está fora do país. Então, nós fomos lá para buscar o Breaking, porque os caras de Goiânia eram bons, eram os melhores do Brasil, faziam os movimentos para os dois lados e quando chegamos em Goiânia, rachamos com eles e ganhamos. Aí aconteceu um imprevisto lá de alguns caras, que não ganharam no Breaking e juntou com mais uns 40 caras e queriam bater em nós. Inclusive eu tomei um chute nas costas que ficou até roxo. Aí quem estava lá fora jogou uma barra de ferro na alta tensão do poste, apagou toda a luz do local, para invadir e pegar nós de São Paulo. Eles não conseguiram pegar nós no Breaking e aí quiseram pegar na porrada… Parecia até filme de briga de gangue. Escutamos até tiro em cima de nós. Eu correndo, o Kokada também, o Dedé, o Alemão… Aí a polícia chegou, aquela loucura na rua: “Pega São Paulo, pega São Paulo!”. Entramos numa viatura, um olhando para o outro, para ver se tinha alguém baleado e tudo pelo Power Move. E quando nós chegamos em São Paulo, acabamos ganhando mais respeito pelo pessoal de Brasília.
BW: Em São Paulo, também houve dificuldades? Nos conte isso?
Danzinho: Sim! Veio a Batalha Final, do Rooneyoyo, que foi em 1998 ou 99, mas antes disso nós começamos a frequentar a São Bento direto e lá tinha uns caras que eram de uma banca, que tinham condições de comprar um agasalho, uns tênis da Adidas e nós chegamos lá com a bermudinha cortada, tudo derrubada, umas regatas e aí nós começamos a sentir uma discriminação, porque não tínhamos um visual de roupa, mas no Power Move, no Breaking, nós éramos muito bons. Fazíamos os movimentos todos esticados de ponta de pé. Eu acredito que os caras tinham discriminação conosco porque nós chamávamos atenção e eles tinham tudo decorado, fantasiado, no estilo Ruddy MC e falavam que nós não dançávamos e aí nós fomos batizados de Pé de Barro, nós da Detroit, com o pessoal da DRR, que colavam conosco, tivemos essa discriminação na São Bento e por isso ficamos um bom tempo sem voltar lá, de 1 ano a 2 anos. Chegou uma época que nós treinamos só para catar alguns b-boyzinhos, era assim que nós os chamávamos, da São Bento. Só que nós fazíamos os movimentos potentes de Power Move, as acrobacias bem executados e eles não conseguiam executar como nós. Nós treinamos muito as manobras, que eram os Power Moves. Não fazíamos nem muita questão de fazer o Top Rock, nem Footwork, porque nós éramos pirracentos. Então, pensávamos: “eles façam os Power e aí fazemos os Top Rocks e Footworks”. Eu acho o Power Move mais difícil de aprender do que o Top Rock e o Footwork.

BW: Você falou que você e sua crew sofreram discriminação na São Bento por alguns? Mas com o Nelson Triunfo foi diferente. Nos conte isso?
Danzinho: Então, os caras nos discriminavam. Às vezes, nós chegávamos nas rodas que eles estavam, eles desligavam o Boombox, o gravador e diziam que Pé de Barro tinha que dançar sem música, era uma discriminação enorme e alguns começaram a fazer besteira, porque nós não tínhamos o visual. Aí eu vim morar em Diadema, próximo ao Centro Cultural Taboão, eu frequentava lá com uns parceiros que treinavam comigo, o Cores, que era também grafiteiro, o Ninja Zulu e lá eu encontrei fazendo uns trabalhos o Nelson Triunfo, só que o Nelson nos conhecia pela fama que nós tínhamos de ter ido para Goiânia. Aí o Nelsão me convidou para ajudá-lo na oficina dele. Eu ajudava os meninos no Power Move, ele ajudava os meninos no Soul Dance, era assim que ele falava. E foi aí que o Nelsão começou a ter respeito pela minha pessoa, que ele já tinha uma admiração, porque eu vinha da Detroit e ele me convidou em 1997 para ir para Barueri fazer um trabalho com ele no Centro Cultural, com o pessoal que trabalhava na cultura e eu dava aula de Breaking. Foi aí que eu comecei a me profissionalizar, eu tinha muitos alunos. Trabalhava em dois turnos, passava pela minha mão no total umas 90 crianças e jovens. Chegando a criar problema para o Centro Cultural, por não ter espaço para tanta gente. Tinha o Jhow também, do Matéria Rima, que dava aula de rima e o DJ Davi dava aula de DJ e tinha o Grande, que era um bom grafiteiro, enfim, depois o Nelson me fez um convite para fazer um trabalho também no Funk e Cia, isso foi em 1998, aí comecei a fazer bastante show no Funk e Cia e dar aulas.
BW: Como sua família via seu envolvimento com o Breaking? Verdade que você sofreu discriminação também dentro de casa e na sua quebrada?
Danzinho: Foi nessa época aí que veio o respeito dentro de casa, porque na verdade eu só tive o apoio do meu pai. Certa vez, eu escutei ele falar: “É melhor ele estar nesse negócio de Breaking do que estar fazendo besteira”. Aí veio o meu primeiro trabalho, que era do governo, chamava Parceiro do Futuro, o Nelsão me colocou lá para dar aula e eu dei minhas primeiras aulas, foi maravilhoso! Aí eu cheguei em casa com um cartão salário da Caixa Econômica Federal, eu falei para a minha mãe “vamos lá no mercado”, ela falou, “fazer o quê?”, aí eu respondi, “fazer umas compras”. Ela falou, “você não tem dinheiro, não trabalha, você não é nem formado”… Aí eu falei que trabalhava, fomos ao mercado e eu passei o cartão de conta salário, aí nós compramos bastante coisa, enchemos o carrinho e foi aí que eu ganhei respeito dentro de casa. A discriminação acabou porque eles começaram a enxergar que o Breaking também dava futuro. Falavam que eu só sabia rodar no chão, mas quando passei a informação do que eu fazia, comecei a ser respeitado dentro de casa. Mas essa fase foi bem difícil, porque minha mãe só queria o melhor para mim, eu tinha que me formar, tinha que ser um doutor, um advogado ou um professor de Educação Física. Tinha que ter faculdade, mas graças a Deus, quando passou o tempo, eu comecei a me formar, tirei o DRT e isso me ajudou muito na minha carreira no Breaking. Entrei em vários projetos de educação, pelo esporte, também trabalhei na Fundação Casa por 4 anos, trabalhei em Pirapora do Bom Jesus, no projeto criado por um delegado, que ele fez para eu dar aulas de Breaking e de Graffiti. Dei aulas também para estagiários da Uniban. Dei aulas na PROERD, que é da Polícia Militar. Trabalhei em Santo Amaro, dei aulas no CEU bastante tempo, também. Tinha uma época que na quebrada também éramos discriminados, o pessoal nos chamava de “limpa chão”, falavam que nós só ficamos rodando no chão e não ganhávamos nada. Ninguém enxergava que o Breaking era uma cultura. Que era algo saudável, que resgatava muitos jovens, muitos jovens se identificavam com essa arte e com essa cultura, ninguém tinha informação e o pessoal julgava mesmo. Nós também não sabíamos detalhes, nós não treinávamos o Breaking para ganhar dinheiro e ganhar campeonato. Nós treinávamos o Breaking para sair da rua, sair de pensamentos ruins e o Breaking caiu como uma luva para nos tirar de uma vida caótica, só de maldade, só de violência, então nós dedicávamos muito ao treino, tínhamos uma disciplina muito grande e as próprias pessoas da quebrada nos xingavam e falavam que não fazíamos nada da vida. Na verdade, ali estava a nossa salvação e eles nem sabiam, porque se nós não fizéssemos isso a maioria estariam até mortos.

BW: Como a sociedade via os B-Boys e as B-Girls naquela época? E na sua opinião, o que mudou de lá para cá?
Danzinho: Na verdade, a sociedade em geral tinha motivos para discriminar, pois não tinham informação. Hoje, o Breaking é bastante visível, porque na minha visão o Breaking virou moda. O Breaking deixou de ser algo de amor e de prazer, é moda! Hoje a galera treina pra caramba para ganhar dinheiro ou para ganhar campeonato, não treina para preservar a saúde, para colocar coisas boas na mente, são poucos os que treinam por amor! Não posso criticar todos, têm muitos que treinam por amor mesmo. Têm muitos pais de família que seguem seus filhos, isso para mim é uma honra! Um pai ou uma mãe levar um filho para treinar, imagina há 20 anos atrás se os pais fossem assim, como a juventude seria mais salva. Ter os pais seguindo os treinos, apoiando. Quando a informação chega, o preconceito desaba! Muitos devem se profissionalizar no que fazem para quebrar todo o preconceito.
BW: Você esteve muito tempo no Funk e Cia, fale sobre essa experiência e o que significou para você?
Danzinho: O Funk e Cia foi um leque na minha vida, nós já tínhamos um conhecimento na mídia, tínhamos participado do Domingo Legal, em 1994, no Raul Gil, em 1995, 1996, nós fomos várias vezes, fizemos bastante programa de televisão. Só que o Funk e Cia foi um leque, porque o Nelsão é um cara da pesada na história, na cena do Hip-Hop, porque ele veio do Soul ao Hip-Hop, então, é um cara muito da resistência e ele teve muito respeito com a minha pessoa, quando ele me colocou no Funk e Cia eu peguei muita confiança, vários B-Boys passaram pelo Funk e Cia e eu falo com orgulho e com respeito e ele sabe disso. Eu fui o B-Boy que ficou mais tempo no Funk e Cia, mais de 15 anos. Eu peguei uns caras que eram ainda da primeira formação, foi o Billy, o Ratula, Pierre, eu peguei esses caras. Depois, veio a nova geração, que era eu, o Jhow, o B-Boy Guinho, o Davi. Mas foi através do Funk e Cia que eu consegui muita coisa, muito trabalho, ganhei bastante nome como B-Boy Danzinho do Detroit Break, fiz vários programas de televisão com o Nelsão, saí em várias revistas. Saí no livro do Nelsão! Fui no Rio de Janeiro, na Diversidade Cultural com o Funk e Cia, foi muito louco essa experiência, fomos para o Nordeste também, em Pernambuco. Enfim, Funk e Cia foi um grande marketing na minha vida e até hoje temos um respeito muito grande um pelo outro.
BW: Conte um pouco sobre sua experiência na Casa do Hip-Hop?
Danzinho: Falando um pouco do meu trabalho na Casa do Hip-Hop, cheguei lá nem era Casa do Hip-Hop, era um Centro Cultural e eu tive uma contribuição bem grande na Casa do Hip-Hop, porque foi mais uma discriminação quando nós chegamos com essa história de Pé de Barro, minou muito a nossa presença em alguns lugares. Muitos caras que eram da antiga começaram a ditar regras que para ser B-Boy tinha que andar no visual e na Casa do Hip-Hop eu também enfrentei preconceito. Só que eu também ocupei o meu espaço. Lá dentro, só treinavam os B-Boys com espelho e com som. E do lado de fora, os Pés de Barro, que eram nós e mal sabiam eles que lá fora foi um grande incentivo para vários meninos, que nos viam treinar e aprenderam bastante Power Move, principalmente o Guinho, que hoje mora na Finlândia, que hoje é empresário, o Amendoim, grande parceiro, o Alemão e foram os meninos que aprenderam comigo lá fora… Depois de um tempo, eu fui convidado a dar aulas na Casa do Hip-Hop, fiz um trabalho maravilhoso, com bastante crianças no horário da manhã e da tarde e a Casa do Hip-Hop foi um grande marco na minha vida. Eu faço parte dessa história da Casa do Hip-Hop e me considero um dos iniciadores da parte de Power Move lá dentro.

BW: Como é o Danzinho hoje na intimidade? Quem é o Danzinho?
Danzinho: O Danzinho é muito família, eu do portão para fora eu sou o Danzinho, do portão para dentro, eu sou um pai de família, me dedico muito a minha família, com meus filhos, minha mulher. Faço de tudo para entender os meus filhos, sou um marido presente na atividade de casa também, gosto de fazer comida, cuido dos meus filhos. Porque o homem tem que cuidar da mulher e a mulher do homem, é assim que eu aprendi a zelar por quem amamos, porque a família é algo abençoado por Deus. Tudo que faço é pensando nos meus filhos e na minha mulher, que me ajuda muito, porque se não fosse uma grande mulher não existiria um grande homem.
BW: Como você vê os B-Boys e as B-Girls da atualidade?
Danzinho: Na verdade devemos filtrar o que a velha escola fez de bom e trazer para dentro do Breaking, para a nova geração. Nós somos Power Move Old School, que fazíamos todos os movimentos para os dois lados perfeitos, com as pernas esticadas e revolucionamos alguns movimentos. Se a nova geração respeitar mais a velha escola, eles só têm a crescer, porque a evolução é trabalhar os dois lados da mente. Porque para ficarmos bons numa sequência de Power Move tínhamos que ficar bons para os dois lados, então, automaticamente você está treinando os dois lados da mente e isso é a evolução do Power Move. A nova geração tinha que trazer para dentro deles isso aí.

BW: Nesse tempo de pandemia, o que você tem feito? E como acha que será o futuro pós pandemia?
Danzinho: Eu nunca parei com o Hip-Hop, porque eu respiro Hip-Hop, atualmente estou me precavendo por causa dessa pandemia, não é brincadeira essa doença, que acredito eu foi cria do ser humano. Eu tenho que sair para comprar comida, eu tenho que sair para sustentar a minha família, mas eu evito aglomeração. Mas eu nunca parei. Estou envolvido num projeto maravilhoso chamado Becos e Vielas, fazendo o projeto da Detroit. Nessa epidemia eu tenho trabalhado e cuidado da minha família. Com a pandemia, os B-Boys e B-Girls que estão em casa vão ganhar 20 kg a mais se não praticar o Breaking. E quando voltar vão ter que recuperar esse tempo parado.
BW: Atualmente, um assunto que vem sendo bem discutido no meio da cultura é a entrada do Breaking nos Jogos Olímpicos. O que você pensa sobre isso?
Danzinho: Na minha opinião, o Breaking nunca tinha que ter virado uma modalidade olímpica, porque o Breaking faz parte de uma cultura chamada Hip-Hop. O Breaking ir para as Olimpíadas, é claro que vai reforçar a cultura, mas eu espero que quem esteja à frente disso não tire o Breaking como esporte, mas como cultura. E respeite os caras que começaram a cultura Hip-Hop, os Old School. É uma cultura que está mostrando para o mundo sua contribuição e que está fazendo sua parte. O Breaking não vale uma medalha olímpica, ele vale muito mais que isso. Quantas vidas o Breaking salvou? Resgatou? Vale reforçar o Breaking? Sim! Vai ter marketing? Sim. E vai ajudar muito? Vai. Só que eu espero que eles nunca coloquem como uma modalidade olímpica, mas sim uma modalidade cultural, que tem que ser respeitada como cultura. Eu não troco a minha cultura, o meu Breaking que eu aprendi, por uma medalha olímpica. Mas tudo bem, é melhor os jovens estarem na Olimpíada do que estarem numa cadeia se desviando do caminho certo. Então, é viável! É legal, sim, mas como uma modalidade cultural! Não como esporte!
BW: Que mensagem você deixaria para a nova geração de B-Boys e B-Girls?
Danzinho: A mensagem para a nova geração é o seguinte: B-Boy, B-Girl do Brasil e até do mundo, não existe B-Boy ou B-Girl ruim, existe B-Boy mal treinado, vocês que são arte-educadores, professores de dança de rua, principalmente de Breaking, prestem atenção no que vocês estão passando para a nova geração. Principalmente como fazer alongamento, eles devem ser preparados para treinar o Breaking e o Power Move. Vamos nos profissionalizar, vamos estudar, vamos tirar o DRT e amar a dança sem deixar de respeitar o pai, a mãe, isso é o principal para você ser um bom B-Boy ou B-Girl. Sempre respeite o próximo! O respeito vem em primeiro lugar! Aqui é uma mensagem do B-Boy Danzinho, família Detroit Breaker Power Move Brasil, para toda a rapaziada do Brasil e do mundo. É nós! A minha história dentro do Breaking não foi fácil como não é fácil para muitos que estão aí na periferia. Paz!
Fotos: Arquivo Pessoal/Cadu Barbosa/William Machado/Fabiano Minu
























