Neste sábado (28), a cidade de Salzbug, na Áustria, será palco da final do mais importante campeonato de Breaking do mundo, o Red Bull BC One. As maiores estrelas desse estilo (que está cotado para fazer parte dos Jogos Olímpicos Paris 2024) disputarão o troféu mundial em batalhas que serão transmitidas ao vivo pela Red Bull TV, a partir das 16h (horário de Brasília), pelo link www.redbull.com.br/bcone. Quem comanda a exibição em português é o rapper Thaíde, um dos ícones do movimento Hip-Hop no Brasil, com comentários de B-Boy Endrigo e B-Girl Miwa.
A final mundial do Red Bull BC One vai coroar dois vencedores, um B-Boy e uma B-Girl. Neste ano, oito dos melhores B-Boys e oito das melhores B-Girls do planeta foram convidados para testar habilidades de alto nível em emocionantes batalhas 1×1. As B-Girls são: Madmax (Bélgica), Sina (Áustria), Kastet (Rússia), Sunny (EUA), Jilou (Alemanha), Mess (Rússia), Kami (França) e Ayane (Japão). Os B-Boys que disputarão o título são: Killa Koya (Cazaquistão), Lil Zoo (Marrocos), Pac Pac (França), Vero (Coréia do Sul), Philip (EUA), Alkolil (Russia), Kid Karam (Reino Unido) e Shigekix (Japão).
Para vencer seus oponentes, cada dançarino tem que ter movimentos precisos e estar afiado, pontual e ritmicamente afinado com a música.
Conheça os convidados da transmissão em Português
Thaíde é um dos pioneiros do Hip-Hop no Brasil e há quase 40 anos ajuda a divulgar a cultura com suas músicas e apresentando programas como o “Yo! MTV Raps” (MTV), “Manos & Minas” (TV Cultura) e “Metro Black” (Rádio Metropolitana), além de ser um dos fundadores da Back Spin, um dos grupos mais antigos de Breaking do País.
B-Boy Endrigo foi um dos jovens diretamente influenciados por Thaide e ajuda a manter o Brasil no topo do Breaking mundial. Parte da Tsunami All-Stars, uma das principais crews do País, ele compete frequentemente em torneios internacionais e há quase duas décadas busca fomentar a educação por meio da dança.
B-Girl Miwa: foi uma das primeiras breakers brasileiras a ganhar reconhecimento no exterior. Campeã das competições “Sudaka 2007” (Chile), “El Rey del Seven 2 Smoke 2009” (Venezuela) e “KB Battle Original Flavor 2013” (Israel), Miwa também levou pra casa o terceiro lugar na “Eurobattle 2008″.
Sobre o Red Bull BC One
Desde que foi criado, em 2004, o Red Bull BC One se estabeleceu como uma das mais relevantes competições da cena de Breaking 1×1 do mundo, sendo palco para inúmeros dançarinos, caso dos brasileiros Pelezinho (que já disputou quatro edições do mundial) e Neguin, único latino-americano a conquistar o cinturão de campeão. Todos os anos, milhares de dançarinos disputam as finais nacionais por uma vaga no campeonato mundial, que já passou por diversos países, como Alemanha, Brasil, África do Sul, França, EUA, Japão e Rússia, entre outros.
Fotos: Divulgação
O rapper Thaíde vai comandar a transmissão em Português
B-Girl Madmax (Bélgica) foi campeã da Red Bull E-Battle e é uma das postulantes ao título de campeã mundial em 2020
B-Girl Miwa (que também é colunista da Breaking World) vai comentar o evento, junto com B-Boy Endrigo
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
O Portal Breaking World abriu um espaço especial totalmente dedicado a contar a história das Crews espalhadas pelo nosso país.
Se você deseja ver a história de sua Crew contada e eternizada pelo nosso portal, não perca tempo! Nos escreva contando a história da sua família na Cultura Hip-Hop.
Hoje damos o pontapé inicial com a Flow 021 Crew, do Rio de Janeiro.
Sim, o Rio de Janeiro é a terra do Samba, do Funk, do Carnaval, do Passinho, da Garota de Ipanema mas, também, tem o Breaking! E os B-Boys e B-Girls cariocas representam!
Tivemos o prazer dessa semana conversar com o Cleiton, mais conhecido como Tevez, um dos meninos da Flow 021. Confira a entrevista na íntegra:
BW: Queria que você falasse seu nome completo, sua idade, onde e como foi sua infância.
Tevez: Cleiton da Silva Gonçalves, tenho 31 anos. Eu sou nascido e criado em Santa Rita, bairro nobre da cidade de Nova Iguaçu, que é um município do estado do Rio de Janeiro, localizado na baixada fluminense. Foi lá que tive uma infância incrível, com tudo que tinha direito. Jogava bola, pião, bola de gude, soltava pipa, brincava de taco, ioiô e etc.
Cleiton “Tevez” nascido e criado em Nova Iguaçu é um dos fundadores da Flow 021 Crew.
BW: Onde teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop e com o elemento Breaking?
Tevez: Meu primeiro contato com a cultura foi através de um amigo na escola, ele fazia parte de um grupo de dança e me chamou pra conhecer o grupo e foi lá que tive meu primeiro contato com o Breaking porque tinha outras pessoas que dançavam Breaking, Popping e outros estilos.
BW: Quando começou a dançar? Com que idade? Alguém te ensinou?
Tevez: Comecei a dança Breaking em 2016, foi logo depois que saiu o primeiro DVD da Red Bull BC One, nessa época eu tinha 17 anos de idade. Tiveram duas pessoas que além de me ensinar me inspiraram muito a treinar e dar continuidade, o B-Boy Magno e o B-Boy Dblu.
BW: Na sua caminhada na dança, tiveram movimentos mais difíceis de aprender?
Tevez: O Breaking é insistência, é persistência, praticamente quase todos os movimentos tive bastante dificuldade, mas o que mais tenho dificuldade até hoje é o Air Flare (“Loko”).
A Crew foi criada com o objetivo de viajar representando o RJ em outros estados.
BW: No Rio de Janeiro, o Funk é algo muito forte e presente na cultura do carioca. Fale um pouco sobre o que existe ligado ao Breaking. Quais são os eventos mais conhecidos para B-Boys e B-Girls que moram no Rio?
Tevez: Sim! O Funk no Rio é forte demais e muito presente, principalmente agora que o “Passinho” entrou para as Danças Urbanas. Então, tem Funk, tem Passinho e por aí vai. Aqui no Rio temos poucos eventos, mas os que têm são muito importantes pra cena. Temos o Arena Híbrida, B-Boy Confronto, Resolve na Roda, Manifesto B-Girl e Rio H2K. Esses são os eventos de maiores consistências aqui no Rio.
BW: Existe rivalidade entre funkeiros e B-Boys ou o respeito prevalece?
Tevez: Ao meu conhecimento, nunca teve rivalidade não, muito ao contrário, a galera do Funk se amarra nos outros estilos e principalmente na galera do Breaking, porque temos movimentos que acrescentam na dança deles.
BW: Fale um pouco da Flow 021 Crew, quando foi formada.
Tevez: Flow 021 é uma Crew que existe desde 2010, foi criada por alguns integrantes de outras crews, o objetivo era pegar o melhor de cada Crew, nos juntar para viajar e pode representar o Rio de Janeiro em outros estados. Óbvio que na prática muitos não compraram a causa, mas os que ficaram fizeram acontecer, tanto que já rodamos alguns estados competindo com a Flow 021.
A Flow 021 Crew na Eurobattle.
BW: Como escolheram o nome?
Tevez: O motivo do nome ser Flow 021 é porque na junção dos integrantes, escolhemos o melhor de cada Crew e os que mais tinham um Flow carregado e o 021 é o DDD do Rio de Janeiro, por isso chegamos à conclusão de Flow 021.
BW: Fale sobre os B-Boys da Crew?
Tevez: B-Boy Stal, 31 anos, é o nosso representante de mais expressão e conhecimento, porque ele que fazia nossos projetos, ele que via os eventos que a gente podia competir fora do Rio, pedia carta convite aos organizadores, por isso é o nosso linha de frente na nossa comunicação; Diogo Monteiro, 28 anos, B-Boy Bambimo, nosso mais novo integrante com 5 anos de Crew, formado em direito, é o advogado da nossa Crew; Marlon Leonardo, 28 anos, B-Boy Sequela, seu maior forte é trick combo. Sequela atualmente está parado por conta de trabalho; Flávio Gonçalves, 37 anos, B-Boy Flávio é o nosso integrante mais cascudo, também já viajou muito o Brasil competindo pela Crew. Ele é militar, no entanto, treina quando pode; Gabriel Monteiro, 28 anos, B-Boy GB está se formando em museologia; Alex Ricardo, 31 anos, B-Boy Alex trabalha em salão, ele que cuida do penteado dos integrantes; Bob Vinicius, 36 anos, B-Boy Bob trabalha com animação de festa e é youtuber; Jean, 27 anos, B-Boy PL nos representa demais aí em São Paulo; Pedro Cortez, 24 anos, B-Boy Miojo, integrante novo, também anda atarefado com a faculdade; Rafael Lima, 30 anos, B-Boy Russo. Atualmente Russo também está buscando formação na faculdade de cinema pela Estácio de Sá e eu, Cleiton da Silva, 31 anos, atualmente trabalho como técnico de informática.
BW: Quais são as Crews mais conhecidas do Rio de Janeiro? Vocês costumam se encontrar em eventos aí no Rio?
Tevez: As Crews mais conhecidas aqui no Rio são a GBCR, Ativa Break, KND, Reflexo Urbano Rootz Funk e Style Monster. Todas essas Crews nos encontram com bastante frequência nos eventos e às vezes até em resenha.
B-Boy PL, da Flow 021 Crew, foi campeão da Batalha Final, em São Paulo no ano passado.
BW: Onde vocês treinam? Vocês têm o hábito de participar de eventos em outros estados?
Tevez: A Flow 021 foi criada justamente com intuito de competir em outros estados, mas tem outras Crews aqui no Rio que estão começando a sair para competir em outros estados também. Nosso local de treino é normalmente em local público, como a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) ou o MAM (Museu de Artes Modernas) são os locais de treino não só da Flow, mas como de todas as Crews do Rio.
BW: Existe algum lugar no Rio que seja local de encontro de B-Boys e B-Girls, tipo Casa do Hip-Hop ou rodas que sempre acontecem?
Tevez: Os locais de encontro de B-Boy e B-Girl normalmente é na UERJ e no MAM. Os encontros não são com bastante frequência, mas por exemplo, no domingo passado rolou um encontro muito bacana no MAM.
BW: O que acha sobre a possibilidade do Breaking virar um esporte olímpico?
Tevez: Acho incrível o Breaking virar um esporte olímpico, porque desperta o olhar global para a cultura, o Breaking nas olimpíadas acaba com o clichê de muitos falarem que nossa cultura é marginalizada, eleva a dança e a cultura para outro nível, um nível mais profissional.
Das quebradas para o mundo: o Breaking nas Olimpíadas é uma grande oportunidade, segundo Tevez.
BW: Como têm sido os treinos nesse momento de pandemia?
Tevez: Os treinos nesse período de pandemia têm sido muito difíceis, por conta do dialogante aos espaços públicos, a UERJ por exemplo não abriu, com isso só tínhamos o MAM pra treinar e o MAM é um pouco mais distante.
BW: O que significa o Breaking para você?
Tevez: Além de um estilo de vida, o Breaking, por diversos anos, foi minha profissão, eu trabalhei 7 anos numa companhia de dança, já dancei no trem, no metrô, era com o Breaking que tirava meu próprio sustento. Sem contar o exercício, a terapia que o Breaking nos oferece.
BW: A mensagem que você deixa para os B-Boys e B-Girls de todo o Brasil?
Tevez: Aproveitem o treino, valorizem o momento que vocês têm pra treinar, porque o tempo é cruel, se vocês não treinarem agora, vai chegar um momento em que vocês não vão mais conseguir fazer isso, aí você vai ter a sensação de que todo o treino, todo o esforço foi em vão. Ninguém vai ficar jovem para sempre, o tempo é cruel, então, aproveitem e treinem intensamente, evoluam muito, viagem para outros estados, façam amizades, valorizem seu network, isso é muito importante hoje em dia.
Fotos: Arquivo Pessoal / Sue Cardoso / Marko De Paula / Rodolfo Lo Bianco / Rio Sun
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“…minha preocupação mesmo é dançar bem, sempre fazendo o meu melhor.” (B-Boy Ferrugem)
Ele nasceu em Ceilândia, região administrativa de maior influência nordestina no Distrito Federal, considerada também um celeiro cultural e esportivo, por conta de sua riquíssima diversidade artística e atletas da cidade que despontam no cenário nacional e mundial.
Thiago, menino cheio de sardinhas no rosto e sonhos no coração, com uma força admirável, conhecido na cena como B-Boy Ferrugem é mais um exemplo que Ceilândia realmente pode ser uma mãe orgulhosa de seus muitos talentos!
A infância desse menino e dos seus irmãos não foi fácil, viveu dias tristes e bem difíceis dentro de um orfanato, mas podemos dizer que foi amado desde o início por Dona Josefa Araújo, sua mãe adotiva, mulher guerreira que tem 10 filhos, onde 8 são adotados e por seu irmão Sidney. Josefa lutou 5 anos para que tudo se regularizasse e pagou um alto preço por esse amor, que valeu a pena pela felicidade que sente hoje vendo a família unida.
Foi no orfanato, também, que Ferrugem teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop e com o elemento Breaking. Sempre teve o Project Sagaz, que é um projeto social de Cultura Hip-Hop, idealizado e realizado na cidade de Águas Lindas, de Goiás como família e o B-Boy Tsu como seu referencial na dança, ensinando tudo que o menino sabe.
Hoje, Ferrugem tem 15 anos e recentemente, em 2020, passou a fazer parte também da DF Zulu, que é a Crew mais antiga do Distrito Federal. Essa semana, o Portal Breaking World teve o privilégio de escutar e agora contar para vocês a história desse menino que, sem dúvida, é mais um grande nome da nova geração de B-Boys brasileiros que vão conquistar o mundo nos próximos anos, confira a entrevista:
BW: Nome completo, idade. Queria que você nos contasse: onde nasceu?
Ferrugem: Sou Thiago Araújo de Sousa, tenho 15 anos, sou conhecido como B-Boy Ferrugem, nasci em Ceilândia, no Distrito Federal.
Dançar bem dando sempre o seu melhor é um dos objetivos do B-Boy Ferrugem.
BW: Verdade que teve toda uma luta ligada a um processo de adoção? Nos conte sobre todos esses desafios, como isso afetou sua vida e sobre as vitórias que consegui nesse sentido?
Ferrugem: Esse processo de adoção levou cerca de 5 anos até a total regularização da minha situação, porquê no processo envolvia mais 2 irmãos meus, que também foram adotados pela minha mãe. No final deu tudo certo e hoje tudo que envolve documentação é resolvido de forma simples. Essa situação resolvida facilitou todas as questões de viagens e afins.
BW: Como você conheceu o Sidney e a sua nova família?
Ferrugem: Foi um momento muito triste da minha vida, não falo muito sobre essa época porque tem um processo correndo na Justiça. Eu e meus irmãos sofremos muito, mas minha mãe lutou muito por nós.
BW: Como é sua relação hoje com sua família, com o Sidney? Fale um pouco sobre todo esse amor…
Ferrugem: Mesmo tendo contato com minha família biológica, a minha referência é a minha mãe adotiva, que sempre pagou um alto preço pra me ver bem, o Sidney é um irmão de fato, me cobra dedicação, conversamos bastante, às vezes ele é chato, mas sei que é pro meu bem. Hoje somos 10 irmãos, 8 são adotados!
Dona Josefa Araújo é mãe adotiva de Ferrugem e que tem mais 7 filhos adotivos e dois biológicos: coração gigantesco de uma mulher guerreira!
BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? Onde e como foi?
Ferrugem: Foi ainda no orfanato, em uma apresentação de Breaking que vi.
BW: Com quantos anos começou a dançar Breaking? Alguém te ensinou? No princípio, quem foram suas referências?
Ferrugem: Comecei mais ou menos com 8 anos, na mesma época em que nasceu o Project Sagaz, o B-Boy Tsu da DF Zulu sempre foi meu referencial na dança, sempre me cobrou empenho e me ensinou praticamente tudo que sei.
BW: Em relação ao Breaking, teve algum movimento que foi mais difícil de aprender ou que ainda é?
Ferrugem: Acho que foi muito [difícil] o Top Rock e Footwork, que no princípio eu tive que me dedicar bastante pra aprender e entender.
BW: Você ao dançar passa uma força, uma seriedade e uma grande concentração. De onde vem tudo isso?
Ferrugem: Isso vem muito do que o Tsu e Project Sagaz passa pra mim e pros meninos que fazem aula.
Nas batalhas de Breaking, o menino chama a atenção pelo foco e concentração.
BW: Fale um pouco de suas rotinas de treinos. Quantas vezes na semana treina e como tem feito nesse tempo de pandemia?
Ferrugem: Não tenho treinado tanto nesse período, mas ocasionalmente eu vou nos treinos mais restritos que tem no projeto.
BW: Quem te deu o apelido Ferrugem? E de onde surgiu esse nome?
Ferrugem: Devido às minhas sardinhas no rosto, foi automático.
BW: Como se prepara para cada batalha? Você fica apreensivo ou é tranquilo?
Ferrugem: Geralmente, fico tranquilo, mas sei da importância.
BW: Fale um pouco sobre as principais vitórias em campeonatos. Quais foram os principais eventos onde você foi campeão?
Ferrugem: Um dos principais eventos que ganhei foi a batalha de 1 ano do Encontro de B-Boys de Águas Lindas, porque foi contra adultos, todo mundo podia se inscrever (2018), 2 vices campeonatos da Chelles Battle, foi importante pra mim. Campeão do Festival Quando As Ruas Chamam em 2018 e vice em 2019, 3º Colocado da batalha de Breaking do Festival Elemento Em Movimento, maior do Centro-Oeste, em 2018.
Além do Project Sagaz (na foto), B-Boy Ferrugem também faz parte da DF Zulu Crew.
BW: Como você trabalha o seu emocional na hora que ganha ou na hora em que perde? O que você sente quando está dançando?
Ferrugem: Na verdade, eu nem me preocupo muito com isso, minha preocupação mesmo é dançar bem, sempre tentando dar o meu melhor.
BW: Fale sobre sua Crew, sobre o Project Sagaz e como você se relaciona com essa grande família?
Ferrugem: O Project é um lugar muito especial, ali é bem mais que uma Crew, todo mundo se preocupa e apoia todo mundo, é realmente uma família!
BW: Verdade que esse ano você começou a fazer parte também de uma outra Crew?
Ferrugem: Verdade. Entrei para a DF Zulu que é a Crew mais antiga do Distrito Federal.
A dificuldade encontrada no processo de adoção atrapalhou os planos de dançar fora do Brasil.
BW: Você já competiu fora do país? Tem sonho de ir? Tem algum B-Boy estrangeiro ou brasileiro que você admira muito?
Ferrugem: Ainda não fui, mas já recebi vários convites, o fato do processo de adoção ter demorado regularizar a situação do meu nome atrapalhou um pouco nisso.
BW: Como você administra dança e os estudos? Em que série você está? As pessoas costumam na escola te pedir para dançar?
Ferrugem: Na verdade sempre puxam minha orelha por causa disso, estou na 8ª série, as pessoas sempre pedem pra eu dançar!
BW: Fora a dança o que você mais gosta de fazer?
Ferrugem: Jogar futebol, jogar Free Fire e jogar fliperama no projeto.
BW: O que significa o Breaking na sua vida?
Ferrugem: É algo que me deu aprendizado, uma nova visão de vida.
Assim como outros B-Boys e B-Girls Kids, Ferrugem sonha em disputar os Jogos Olímpicos.
BW: O que você acha da possibilidade do Breaking virar um esporte olímpico? Você gostaria de ir para uma Olimpíada?
Ferrugem: Acho que o Breaking merece visibilidade, eu gostaria muito de participar de uma Olimpíada e ter essa experiência.
BW: Quais são seus planos para o futuro? Onde você pretende chegar?
Ferrugem: Quero terminar meus estudos, me dedicar mais à dança, crescer junto com o Project Sagaz, ajudando as pessoas da nossa cidade, acho que é isso por enquanto.
BW: Mande uma mensagem para todos que estão lendo essa entrevista.
Ferrugem: Espero que esse tempo de pandemia acabe logo, para que possamos voltar com as coisas que gostamos de fazer, sem medo.
Fotos: Arquivo Pessoal/Shake It
Ferrugem (ao centro) e os B-Boys Marcin e Samukinha, da Dream Kids Brazil
Dona Josefa com Ferrugem e alguns irmãos
Ferrugem e os irmãos
Ferrugem e Sidney
Ferrugem e o irmão Sidney
Ferrugem e B-Boy Tsu
Ferrugem e B-Boy Tsu
Ferrugem
Ferrugem
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“A convivência com o Hip-Hop Educa me ensinou a crescer, a evoluir e a entender como a união faz a força. Sinto muita falta deles!”. (B-Girl Aninha)
Ela nasceu em Mauá, que é um município da região metropolitana de São Paulo. Sua infância foi bem humilde mas muito divertida.
Foi por meio do Ballet, numa coreografia que envolvia o Hip-Hop que descobriu, ao ser escalada para fazer o movimento principal, que o Breaking era algo mágico e que queria ser uma B-Girl.
Mas foi junto com a família do Hip-Hop Educa e com o B-Boy Suco que cresceu, evoluiu e aprendeu talvez uma das maiores lições de sua vida: “que a união faz a força”.
Estamos falando da B-Girl Aninha, hoje com 15 anos a menina começa a dar espaço para o nascimento de uma vigorosa jovem, atualmente ela mora com seus pais em Peruíbe, no litoral paulista. A mudança se deu pela busca da tranquilidade na vida praiana. Aninha conversou com o Portal Breaking World e falou sobre sua vida, suas vitórias, suas saudades, suas opiniões e sobre o futuro. Confira a entrevista:
BW: Queria que você falasse um pouco de você, sobre a sua infância e das lembrança que tem dessa época.
Aninha: Meu nome é Anna Carolyne de Sousa Diamantino, tenho 15 anos, tenho 4 irmãos por parte de pai e 2 irmãos por parte de mãe. Eu nasci na cidade de Mauá, em SP e morei em um lugar bem humilde. Minha infância foi incrível e divertida.
Aninha encontrou o Breaking em uma coreografia de Ballet.
BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? Onde e como foi isso? Quando começou a dançar Breaking?
Aninha: Por incrível que pareça, tive contato pela primeira vez em uma coreografia de Ballet. Minha professora montou uma coreografia que envolvia o Hip-Hop e eu fui escolhida para fazer o movimento principal da coreografia.
BW: Como sua família via seu interesse pela dança? Você teve apoio da família?
Aninha: A minha família notou esse interesse no momento da coreografia. Sim, tenho muito apoio deles, tanto do meu pai quanto da minha mãe e dos meus irmãos.
BW: Fale sobre como era o tempo que treinava com o B-Boy Suco e como era viver com a família Hip-Hop Educa? Você sente falta deles?
Aninha: Era sensacional! Ele é um professor muito dedicado, disciplinado para com seus alunos, sempre transmitia sua alegria para todos. A convivência com o Hip-Hop Educa me ensinou a crescer, a evoluir e a entender como a união faz a força. Sim, sinto muita falta deles!
Aninha sente falta dos companheiros de Crew.
BW: Tiveram movimentos mais difíceis de aprender do que outros ou foram todos tranquilos de aprender?
Aninha: Sim, tiveram movimentos difíceis que demorei mais para aprender.
BW: Você participou de vários eventos e ganhou alguns deles. Fale dos principais eventos e das grandes vitórias.
Aninha: Um dos principais eventos, que foi muito marcante, foi a segunda vez que fui para Diadema, no Beija-flor. E uma das grandes vitórias foi quando eu fui para Tattoo Week pela primeira vez e consegui levar a vitória para casa. Participei de muitos eventos e tive grandes vitórias, mas esses foram os principais que mais me marcaram.
BW: Já competiu fora do país? Alguma vez pensou em ir morar fora do Brasil?
Aninha: Não, mas já tive a chance. Sim
Aninha com B-Boy Suco e a mamãe Iris em evento de Breaking.
BW: Estudar e dançar: como você organiza isso? Em que série você está? Na escola é normal pedirem para você dançar?
Aninha: Em relação a isso é bem tranquilo, consigo me organizar muito bem. Estou na 1ª série do Ensino Médio. Na escola atual não, mas na anterior sempre pediam para eu dançar.
BW: Ano passado você mudou de São Paulo para Peruíbe, no litoral. O que a levou a trocar a vida agitada de São Paulo pela vida do litoral?
Aninha: Meus pais decidiram trocar essa vida agitada, pois queriam mais tranquilidade e menos agitação.
BW: Como você tem vivido esses dias de pandemia no litoral? O que tem feito?
Aninha: Tenho vivido muito bem. Estou estudando bastante, ajudando a minha mãe e treinando muito.
B-Girl Aninha e B-Boy Isaque na MF Battle.
BW: O que acha dos eventos on-line que estão acontecendo nesse momento e dessa nova forma de participar de eventos? Como acha que será o futuro para os B-Boys e as B-Girls pós pandemia?
Aninha: Estou achando bem legal. Na minha opinião, isso depende de cada um, muitos não tem lugares para treinar, mas sei que alguns estão tentando continuar nessa batalha e evoluir.
BW: Muito tem se falado do Breaking nas Olimpíadas. O que pensa sobre isso? Você gostaria de ir para as Olimpíadas?
Aninha: Achei muito interessante, isso será uma chance para todos nós de sermos reconhecidos
BW: O que hoje significa o Breaking na sua vida? Quais são seus planos para o futuro e seus sonhos?
Aninha: Pra mim significa tudo, o Breaking faz parte de mim, é uma dança que me faz sentir leve e contente. Ainda não me decidi o que eu realmente quero para o meu futuro, mas sei que o Breaking continuará sendo o meu hobby.
BW: Deixe uma mensagem para os leitores do Portal Breaking World que estão lendo essa entrevista…
Aninha: E aê galera? Continue se esforçando e dando o melhor de si pelo o que você gosta, desistir jamais, persistir sempre! Um abraço para todos!
Fotos: Arquivo Pessoal/The Sarará
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
No próximo mês, acontece no dia 8 de novembro de 2020, em Guarulhos, a 6ª edição do Troféu Arte em Movimento, organizado pelo artista plástico e ativista cultural Jose Pereira de Souza, conhecido na cena como Zep.
O artista plástico deu o nome ao Troféu de Arte em Movimento, porque representa uma linguagem universal, da arte que nunca para. O troféu, que hoje é dado aos melhores do país em todas as modalidades de arte, nasceu em Diadema, em 2014, com a iniciativa de premiar artistas locais e regionais, desde então, a premiação vem se destacando ano após ano e criando “asas”, tomando proporções nacionais e até internacionais.
José Pereira de Souza, o “Zep” é o idealizador da premiação, que este ano está na 6ª edição.
A premiação é considerada o maior prêmio independente do Brasil, tendo em suas últimas edições indicados do Brasil e de outros países. Este ano, será realizado em vários estados. No Rio de Janeiro, uma das comissões é a da Aline Melo, jornalista. Ela voluntariamente está nesta premiação há 3 anos consecutivos, indicando artistas nacionais e internacionais, como Thalia Melo.
Em São Paulo, outra comissão é de Mônica, do “Nós no Rolê”, que ajudou a escolher 32 minas da Cultura Urbana, decisão feita a dedos também por “Banca Somos Um Só” e “RNS Rap Original”. Ela fala: “Este ano (2020) a 6ª edição do Troféu Arte em Movimento contará com um prêmio especial dedicado às minas da Cultura Urbana, onde eu Mônica Senna (Nós no Rolê) juntamente com RNS e Banca Somos um Só, indicamos 32 minas que terão a honra de receber esta premiação exclusiva. O Troféu Arte em Movimento vem crescendo a cada edição e pra nós é um orgulho fazer estas indicações especiais, ressaltando a força e o poder da mulher dentro da cultura, várias minas de representatividade serão reconhecidas não só pelo seu trabalho artístico e sim pela sua força e resistência de estar neste meio, que ainda é muito discriminado e pouco reconhecido. E eu me sinto feliz e satisfeita, embora seja muito difícil escolher, espero que outras premiações sigam o exemplo do guerreiro Zep e prestigiem mais a nossa cultura e as nossa mulheres!”, conclui.
As comissões têm a função de identificar os artistas e todos os que estão associados à arte para receber o troféu, em uma verdadeira democracia cultural, onde o objetivo principal é a valorização e reconhecimento. Essa edição de 2020, por conta da Covid-19, será uma edição diferente, onde todos os cuidadoso estão sendo tomados, cumprindo todas as medidas e protocolos de segurança, conforme orientação e determinação das autoridades de saúde.
O Portal Breaking World, no mês passado, recebeu a notícia que sua editora, Luciana Mazza, foi indicada entre as 32 minas da Cultura Urbana, o que nos deixa muito agradecidos e honrados.
Este ano, a jornalista Luciana Mazza, editora do Portal Breaking World foi uma das 32 indicadas ao prêmio.
Luciana Mazza tem 45 anos, na Cultura Hip-Hop está desde 1989. Além de editora do Portal Breaking World é cineasta, escritora e diretora de comunicação da Casa de Cultura Urbana Street House, em São Paulo. Também é mãe de B-Boy e de B-Girl. São dela as palavras: “É uma honra, junto com essas 31 meninas super talentosas e empoderadas, receber o Troféu Arte em Movimento. Sou muito grata ao Zep, à Mônica e às comissões. É um reconhecimento muito especial! As mulheres sempre estiveram presentes, sempre existiram, persistiram e resistiram a todas as pressões, as tempestades, as violências, aos assédios, as lutas e todos os preconceitos do passado e do presente que, infelizmente, ainda existem. Sempre fizeram a diferença em suas diversas profissões e muitas mudaram o mundo com seus pensamentos e artes, que assim como sangue corre dentro das veias. Certa vez, na minha caminhada na minha arte, que é escrever, um MC meio inseguro falou que o meu trabalho e de outros de jornalistas que amavam a Cultura Hip-Hop não tinha relevância, que eram insignificantes para a cena e para o Breaking. Coitado, sinto pena de pessoas limitadas! Todos os dias fazemos matérias onde contamos histórias e trazemos informações que jamais devem ser esquecidas por aqueles que amam a Cultura Hip-Hop, mostramos e damos razões para quem já quase desistiu da vida voltar a acreditar nela. Valorizamos os nossos artistas de rua, a antiga e a nova geração, mostramos as periferias e os verdadeiros heróis que todos os dias salvam vidas, ao contrário dos oportunistas, que só aparecem para causar ou se forem ganhar dinheiro. Somos a memória, o registro, a informação e também a reflexão para todas as gerações. Obrigada, organizadores do Troféu Arte em Movimento, pela indicação e a todos que reconhecem a importância do nosso trabalho! E o tal cara? Esqueci dele, esse não vale nem aparecer na sessão de obituários!”, conclui a jornalista.
O Troféu Arte em Movimento acontece no Espaço Val Fest, em Guarulhos. A premiação será fechada ao público esse ano para evitar aglomerações, cumprindo todos os protocolos de saúde.
Fotos: Divulgação/Mônica Senna/Man
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“… Nada, absolutamente nada vai ser fácil e é por isso que poucos conseguem. Por isso, tenha em mente se é isso que realmente quer pra sua vida e corra atrás.” (B-Boy Leony)
Ele nasceu em Belém, capital do estado do Pará, que é uma cidade portuária e a porta de entrada para a região do Baixo Amazonas do Brasil.
Sempre morou no bairro do 40 Horas. Como todo menino, quando pequeno gostava de jogar bola e brincava na rua até altas horas da noite. Hiperativo, não parava nem um minuto sequer. O que nunca lhe faltou foi energia!
Sendo o mais velho dos filhos de Dona Elizete, foi criado com suas irmãs por sua mãe sozinha, mulher guerreira, como ele mesmo relata com orgulho.
Aos 12 anos de idade, por influência de um primo próximo, conheceu o Hip-Hop, se apaixonando no primeiro momento pelo movimento Head Spin [Giro de Cabeça], começando sua caminhada de sucesso no Breaking, passando a competir em 2012.
Mas foi em 2013 e 2016 que conquistou o título de Melhor B-Boy do país. E, em 2017, foi tricampeão do Red Bull BC One no Brasil. Segundo B-Boy Pelezinho, que foi um dos jurados do evento que deu o segundo título para Leony, ele começou a se destacar por sua autenticidade. Na época, Pelezinho declarou: “sabe muito bem combinar os movimentos. Sua habilidade é impressionante, por isso mereceu mais uma vez o título”.
O tempo passou muito rápido e foi generoso com o B-Boy, que gosta de saborear açaí com mortadela em Belém, o consagrando como um dos maiores nomes da sua geração no Breaking, mas também trouxe responsabilidades por ser um B-Boy mundialmente conhecido.
Agora, em 2020, Leony se considera mais “light”, treinando 3 vezes por semana e recentemente experimentou em sua vida a experiência da paternidade, com o nascimento do seu primeiro filho João Miguel.
Ele reconhece que com essa nova fase alguns planos mudaram, mas colocou um objetivo bem motivador, que é ser campeão mundial nos próximos 2 anos. Pretende também ingressar numa faculdade e abrir um negócio.
Gostou da história e quer saber mais? Então confira o papo que o Portal Breaking World teve com esse B-Boy que é um dos grandes nomes do Breaking da atualidade:
BW: Queria que você falasse onde nasceu e cresceu. E contasse um pouco sobre a sua infância e sobre sua vida em família.
Leony: Nasci em Belém do Pará e fui criado no bairro do 40 Horas, que até hoje resido. Minha infância foi muito feliz, como todo moleque gostava de jogar bola, brincava até altas horas da noite e era muito hiperativo, não parava nem um minuto. Sou o mais velho de duas irmãs e fui criado pela minha mãe Elizete, que é uma guerreira que criou os filhos sozinha.
Nascido em Belém, Leony foi criado com as irmãs pela mãe Elizete: “uma guerreira”, segundo o B-Boy.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Quando o Breaking passou a fazer sentido na sua vida?
Leony: Meu primeiro contato com o Hip-Hop aconteceu por meio do Breaking, meu primo, que foi criado comigo, certo dia chegou em casa e falou que um amigo dele estava fazendo “Hip-Hop” e ele queria aprender como fazia, eu me apaixonei quando vi esse tal amigo do meu primo fazendo giro de cabeça e a partir daí comecei a entrar no mundo do Hip-Hop. Difícil falar o momento exato que o Breaking passou a fazer sentido para mim, porém, quando eu vi os B-Boys e as B-Girls dançando, eu já me apaixonei de cara. Mas, se puder falar de um momento, seria que ele fez sentido pra mim quando eu comecei a ajudar as pessoas ao meu redor.
BW: Com que idade começou a dançar? Alguém te ensinou? Nessa época existiam pessoas que você se inspirava? Além de dançar o que gostava de fazer?
Leony: Comecei a dançar no final de 2008, com 12 anos e no início eu aprendia com os meninos da nossa turma, que começaram a dançar junto comigo, não existia uma pessoa ali pra ensinar. No ano de 2008, o maior nome que já era o destaque era o Amazon B-Boys e eles me inspiravam muito (todos queriam ser eles). Eu antes de dançar fui carateca, cheguei a ser faixa verde e até participei de alguns campeonatos.
BW: Você começou criança na dança e também entendeu cedo que deveria buscar os próprios movimentos e estilo, que foi algo que sempre chamou a atenção. Como foi isso? Verdade que você incluí elementos da cultura paraense como o Carimbó e o Tecnobrega na sua dança? Ser diferente era um objetivo?
Leony: Sim, eu sempre busquei minha identidade, eu olhava B-Boys como Menno, Lego, Abstract, Luigi e queria ter o meu “style”, assim como eles. E por muito tempo não sabia como fazer. Em 2011, eu fui à França e lá foi um divisor de águas pra isso, eu pude conversar e ver com meus próprios olhos o que deveria fazer, então, voltei e comecei a buscar isso. A primeira coisa que eu fiz foi olhar pra minha cultura regional e usar isso, usando movimentos e ideias do Carimbó, por exemplo. Ser diferente era a minha busca, pois acho que isso é o que faz o Breaking ser o que ele é.
Leony incorpora em seu estilo elementos de outras danças, como o Carimbó.
BW: Durante seu aprendizado houve movimentos mais difíceis de aprender? Quais? Como você superou as dificuldades?
Leony: Eu sempre tive dificuldade com Power Moves, até hoje não sei o Giro de Cabeça [Head Spin], que foi o movimento que eu me apaixonei (risos). Então, eu notei que tinha mais facilidade para movimentos que exigiam mais técnica a princípio do que força e assim fui aprendendo esses movimentos, como por exemplo, o Moinho de Vento [Wind Mills].
BW: Você teve apoio da sua família na dança? Como todos viam sua ligação com o Breaking?
Leony: A princípio minha mãe achava que era só um hobby, quando ela percebeu que era algo sério, ela apenas me aconselhava a sempre ter um plano B. O resto gostava também.
BW: Como você administra dança e estudo? Qual o seu grau de instrução? Pretende continuar estudando? Na sua opinião são importantes os estudos para quem dança?
Leony: Eu sempre estou estudando e acho que devemos e podemos conciliar os estudos com dança, eu tenho o ensino médio completo e pretendo fazer uma faculdade de publicidade em breve. Estudar é um complemento obrigatório em tudo.
O B-Boy reconhece a importância dos estudos para o sucesso.
BW: Quando começou de fato a competir? Quais foram os eventos que fizeram toda a diferença na sua vida?
Leony: Comecei a competir em 2008, mesmo logo depois de iniciar na dança. Eu tive dois eventos que me ensinaram muito, o primeiro foi o Boty Brasil 2011 (Battle of the Year), onde competi com minha Crew pela primeira vez em nível nacional. O segundo, foi a “Red Bull under my wing” organizado pelo Pelezinho e que me mostrou como o mundo do Breaking é maravilhoso.
BW: Em 2013 e 2016, com apenas 21 anos, conquistou o título de melhor do país. Com isso as cobranças e as responsabilidades aumentaram?
Leony: Sem dúvidas, principalmente depois de 2016 as coisas mudaram e com elas as responsabilidades com o nome “Leony”. Quando se é anônimo você pode errar, experimentar novos estilos, perder, mudar, porém, quando as coisas mudam e você tem um certo reconhecimento, isso fica mais difícil, as pessoas já criam uma imagem e uma expectativa em cima de você, você deve se preocupar com o que fala, veste e faz dentro e fora do mundo do Hip-Hop, tem seu lado bom, assim como seu lado ruim.
BW: Quando saiu a primeira vez do país para competir? Para onde foi? Dançar com os melhores B-Boys do mundo foi desafiador? O que sentiu?
Leony: Minha primeira vez foi em 2011, para a Battle of the Year, na França, foi simplesmente maravilhoso, eu lembro até hoje de cada detalhe dessa viagem, foi lá que eu olhei pra mim e falei “é isso que eu quero da vida”. Foi um desafio, eu me sentia como se não soubesse dançar nada.
Para Leony, o reconhecimento traz consigo grandes responsabilidades.
BW: Que diferenças existem entre o Breaking brasileiro e o que é feito no resto do mundo? Digo principalmente em relação ao preparo e à conduta desses B-Boys e B-Girls?
Leony: Organização sem dúvidas é a palavra que nos difere do resto do mundo. Apenas isso, devemos aprender a ser mais organizados em todos os sentidos aqui no Brasil.
BW: Como você foi recebido em outros países? Pensou alguma vez em ir morar fora do país?
Leony: Sempre fui muito bem recebido em todos os países que estive e muitos eu me surpreendi em saber que tinham admiradores da minha dança lá, eu nunca pensei em morar fora do Brasil, meu lugar é em Belém, tomando açaí com mortadela.
Gosto exótico: açaí com mortadela é um dos pratos favoritos de Leony.
BW: É possível viver da dança no Brasil? Conte sua experiência.
Leony: Sim, é possível. Mas como falei, a falta de organização aqui do Brasil dificulta isso para a maioria. Eu, no início, sofri demais com o lado financeiro (ainda passo aperreios, claro!) mas hoje tenho marcas que me apoiam e tenho também uma cabeça mais madura para tratar dos assuntos e de dinheiro. Eu sempre falo que pra que isso aconteça, para que você chegue a viver de dança, você precisa saber muito bem o que realmente quer da dança, existem diversos meios de viver de dança, saiba escolher um deles e planeje e organize seus passos em busca desse objetivo.
BW: Fale um pouco da sua Crew e do seu relacionamento com todos.
Leony: Minha Crew surge em janeiro de 2006, com o nome de Amazon B-Boys, hoje temos a segunda geração e mudamos o nome para Amazon Crew, pois antes não tínhamos mulher no grupo, mas agora temos e esse título de Crew não era confortável. Hoje sou o líder (só nome mesmo – risos) porque na Crew todos trabalham para o melhor de todos. Temos um convívio muito bom e, claro, sempre temos algumas discussões, que são normais, porém, sou muito grato a cada membro da minha Crew por compartilhar momentos únicos ao lado deles.
BW: Muitos almejam chegar onde você chegou mas desconhecem os sacrifícios. Que conselhos você daria para quem pretende ir longe no Breaking?
Leony: Se você realmente quer isso, entenda que é muito mais sacrifício do que felicidade, nada foi fácil pra mim, nunca! Eu treinava em um local de um Metrô, no concreto, todo dia para ficar bom. Em 2016, eu trabalhei de camelô metade de um ano inteiro para comprar minhas passagens para o Red Bull BC One daquele ano e ir para o Japão. Nada, absolutamente nada vai ser fácil e é por isso que poucos conseguem, por isso tenha mente se é isso que realmente quer pra sua vida e corra atrás, sem ter a menor dúvida de que é isso que você quer ser.
BW: Ganhar e perder faz parte da vida de um B-Boy e de uma B-Girl. Mas como você trabalha isso? Se considera competitivo? As pressões interferem na sua dança? Como trabalha o psicológico?
Leony: Eu sou muito competitivo, eu adoro batalhar, é isso que me mantém focado, claro que eu já perdi muito, porém, eu sempre usei isso para me ajudar a melhorar e evitar as derrotas futuras. Hoje eu me acostumei com a pressão dos eventos, mas no início isso me afetava, sem dúvidas. Não tenho uma fórmula para trabalhar o psicológico, eu acho que isso a gente resolve com experiência mesmo, ou seja, batalhe muito para se acostumar com a pressão.
Para se acostumar com a pressão psicológica não existe receita: tem que batalhar muito, segundo o B-Boy.
BW: Como é hoje em dia sua rotina de treinos. Quantas vezes você treina na semana? Como tem sido nessa época de pandemia?
Leony: Hoje eu sou mais “light” (risos), normalmente treino 3 vezes na semana, com cada treino desse específico para algo. Esse ano, claro, eu fui afetado e treinei bem pouco. A partir de julho desse ano foi que eu pude voltar a treinar, mas ainda estou bem longe da minha forma.
BW: O que você acha dos eventos on-line? Na sua opinião é uma tendência? Como você pensa que será a vida dos B-Boys depois da pandemia?
Leony: Eles se tornaram uma alternativa para esses momentos que vivemos, eu não sou fã desse formato, não gosto, acho “morto”, mas entendo que foi uma necessidade eles existirem. Não acho que é uma tendência os eventos, mas acho que podemos tirar coisas boas disso, como por exemplo, a quantidades de aulas e cursos intensivos de danças que foram criados esse ano. Acho que isso sim é algo que possa virar tendência e eu particularmente acho muito bom.
BW: Muito tem se falado do Breaking nas Olimpíadas. O que você pensa sobre isso?
Leony: Nossa melhor notícia nos últimos anos. Eu torço demais para que o Breaking entre para as Olimpíadas, pois sei que isso sem dúvida vai alavancar nossa arte.
BW: Quais são seus planos e desafios para o futuro?
Leony: Bom, agora eu sou pai e isso sem dúvida mudou meus planos, eu quero continuar dançando, claro e competindo, vou fazer uma faculdade e em breve abro um negócio pra mim. Tenho vários desafios, mas coloquei um bem motivador pra mim, que é de ser campeão mundial nos próximos 2 anos.
Ser campeão mundial, fazer faculdade e abrir o próprio negócio são algumas metas de Leony para os próximos anos.
Fotos: Arquivo Pessoal / D Halsin / Little Shao / Red Bull BC One / 22 Nhati / Quando as Ruas Chamam / Reprodução
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
“Se você não concorda do Breaking entrar nas Olimpíadas, então você é ignorante. Nós fomos discriminados pra caramba no passado e quando temos oportunidade, alguns ficam de palhaçada. Por onde esses B-Boys e B-Girls passarem vão escutar: “eles são breakers e fazem parte das Olimpíadas!”, o respeito será dobrado!” (B-Boy Chileno)
Foi em São Luís do Maranhão que, em 10 de outubro de 1958, nascia José Carlos Barroso, apelidado de Chileno em uma batalha de Breaking em São Paulo.
Cresceu na periferia da capital maranhense, onde plantava verduras para sustentar a mãe e a avó. Aos 15, deixou a vida interiorana para se aventurar pelo centro de São Luís, onde teve o primeiro contato com o Hip-Hop, por meio do Skate.
Ao redor de sua casa, o estádio Governador João Castelo, o Castelinho, era o point da garotada. Um dia, enquanto treinava, se surpreendeu com os movimentos de Breaking de um gringo. Foi mágico e se encantou por aquilo, deixando o Skate para aprender a dançar.
Sofreu preconceito em casa, o que o fez em 1980, mesmo com todas as orientações contrárias de seus familiares, partir para São Paulo. Na “terra da garoa” trabalhou duro e na hora do almoço treinava Breaking. Todo lugar que tinha espaço para treinar, ele treinava. No Anhangabaú, na República, na estação São Bento do Metrô. Mal imaginava que dançava num chão que depois seria sagrado para os B-Boys e B-Girls de todo o Brasil, a São Bento iria se tornar o templo do Hip-Hop mais tarde.
Anos passaram, colecionou vitórias, em 2018 ganhou o Prêmio Sabotage, mas a maior riqueza foram as histórias que guarda dentro do peito. Nunca envelheceu, ele garante e o bom Breaking permanece, enquanto o coração bater no beat.
Na semana de completar 62 anos, Chileno, que é uma verdadeira lenda do Breaking brasileiro conversou com o Portal Breaking World.
Obrigada pelo papo, mestre! Feliz Aniversário! Confira essa entrevista recém saída do forno:
BW: Queria que você falasse onde nasceu, um pouco da sua infância, da sua juventude. Onde foi e que boas lembranças tem dessa época?
Chileno: Eu sou de sou de São Luiz do Maranhão. Eu vivia com a minha vó que me criou, ia trabalhar na roça, colher verdura, fruta, fazia bolos, aprendi a fazer comida. Tudo ela me ensinava e ao mesmo tempo me dava muitos conselhos. Esses conselhos foram fundamentais para toda a minha vida.
De São Luiz do Maranhão ele veio para São Paulo e se tornou um ícone da Cultura Hip-Hop
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Como surgiu o amor por essa cultura?
Chileno: Eu conheci o Breaking entre uma pista de Skate e de atletismo, até porque eu era skatista, mas eu conheci o Breaking através de um campeonato que aconteceu em São Luiz do Maranhão e tinha um cara americano que foi participar do campeonato e ele fez um movimento que eu parei na hora de andar de Skate e depois fui perguntar para ele que dança era aquela. E ele respondeu que era Breaking e naquela época eu perguntei para ele em que estágio o Breaking ia chegar no mundo, ele falou a seguinte frase: “O Breaking vai chegar no mundo inteiro e muita gente vai se dar bem dentro do Breaking, dependendo da inteligência da pessoa. O Breaking terá um grande público”.
BW: Alguma vez você sofreu preconceito de alguma parte da sociedade ou da sua família?
Chileno: O preconceito que eu sofri foi dos meus familiares, o que me fez tomar a decisão de vir para São Paulo. Foi o pior preconceito da minha vida. Em São Paulo eu nunca sofri preconceito! Nunca tive problema em lugar nenhum porque eu buscava amizade só com gente bacana e eu me aproximava das pessoas de maneira honesta e sincera.
BW: Como foi quando você decidiu vir para São Paulo?
Chileno: Quando tomei a decisão de vir para São Paulo, eu tinha 28 anos, só que os meus familiares me chamaram para uma conversa. Eles falaram que se eu realmente decidisse vir para São Paulo, teria que me cuidar, pois era um lugar perigoso, violento e que teria que ter muito cuidado com a minha vida e com tudo. Eles me colocaram muito medo. Olha, eles foram na minha opinião idiotas! E aí, chegando em São Paulo, eu fui trabalhar em um supermercado na Amaral Gurgel, na Santa Cecília, próximo a República. Eu tinha duas horas de almoço. E nessas horas eu ia andar no centro e treinava Breaking, eu ia até a São Bento, mesmo que até os punk naquela época mandava lá, eu treinava bem distante deles. Quando surgiu o festival na São Bento, os treinos lá, eu me destacava, não queria fazer amizade com ninguém, ficava isolado porque tinha medo de violência. Eu demorei muito para fazer amizade com as pessoas, isso só foi acontecer nos anos 90.
Logo que se mudou para São Paulo, Chileno treinava na São Bento, no intervalo de almoço de seu trabalho em um supermercado.
BW: Quando surgiu seu nome Chileno?
Chileno: Foi em São Paulo. Voltando um pouco lá atrás, quando eu conheci o Breaking, quando eu comecei a treinar com um americano na minha região, ninguém me conhecia como dançarino. Quando surgiu o filme “Os embalos de Sábado à noite”, do John Travolta e o “Beat Street” e aí começou aparecer o Breaking no mundo inteiro. Aí teve um campeonato na televisão, da Difusora de São Luiz do Maranhão, de Breaking, aí eu fui e me inscrevi. Quando eu cheguei para fazer a inscrição ninguém me conhecia como B-Boy, nem como dançarino. E na mesma hora o locutor falou que nós tínhamos que descolar um nome artístico, eu coloquei na hora, eu coloquei John Boy Breaking, de São Luís do Maranhão. Eu disputei com o melhor dançarino de Breaking de São Luiz do Maranhão, o cara também era capoeirista, ginasta, dava mortal, voadora e eu fiquei em segundo lugar. Chegando em São Paulo, o meu primeiro contato foi o grupo Jabaquara Breakers e eu contei minha história, falando que era B-Boy de São Luiz do Maranhão e muitos nem sabiam que tinha Breaking lá. Então, ele pediu que eu me apresentasse, eu me apresentei, comecei a dançar e uma pessoa do público falou assim: “Nossa, esse chileno dança muito!”, então, me chamaram de Chileno e o nome pegou até hoje!
BW: Como foi sua caminhada aqui em São Paulo?
Chileno: Aqui eu conheci os melhores campeonatos e conheci as melhores pessoas, os gringos da época vinham muitos para o Brasil e eu conheci muitos deles que eram bacanas. Comecei a ganhar campeonatos em 2001, 2002 no Sesc Itaquera, no Sesc Pompeia e na Rio Branco, com o Rooneyoyo que fazia os campeonatos. Ganhei muitos prêmios, ganhei muito dinheiro, ganhei muitas roupas e ganhei muitas matérias na imprensa. Fui convidado pela Folha de São Paulo, Revista Raça Brasil, Revista SP B-Boy e comecei a me dar bem em São Paulo, eu sempre procurei me entrosar com as pessoas, sempre fui honesto e da maneira “brincalhão” que todos me conhecem até hoje.
BW: Em todos esses anos, Chinelo, você fez muitos amigos? Nos fale desse racha que sempre rola nos eventos quando você está presente e o B-Boy Jow?
Chileno: Eu sempre busquei ser uma pessoa boa para todos. Old School até crianças. A minha amizade com o Jow é muito sincera, não é uma brincadeira falsa, nós brincamos no racha, só brincadeira e diversão, nunca tivemos maldade um com o outro. Nunca discriminei. Temos muito respeito um pelo outro!
Os “rachas” entre Chileno e Jow já se tornaram uma tradição nos eventos paulistas de Breaking: amizade e respeito.
BW: Alguma vez você pensou em ir morar fora do país?
Chileno: Eu tive um convite para ir morar fora do Brasil, nos Estados Unidos. Mas eu não quis ir, porque a minha mãe que eu trouxe do Nordeste para São Paulo estava doente e eu tive que cuidar dela, eu não podia deixar a minha mãe doente e ir pensar em mim, indo para outros países e esquecer da minha mãe. Foi uma luta grande!
BW: Chileno, talvez você seja um dos mais antigos B-Boys na ativa. Nos conte como é isso?
Chileno: Olha, eu me dou bem com toda a juventude, eu me sinto bem entre eles, os fundamentos do Breaking sempre tiveram muito sentido em toda a minha vida. Eu sempre busquei conhecimento e agora nesse exato momento eu estou estudando, as regras, as danças base, me aprofundando no conhecimento, porque você ter conhecimento é algo muito importante. E a minha conversa com B-Boy Old School, ela não tem mais fundamento, é um diálogo “oi! tudo bem?”, mas não falo mais de dança. Hoje parece que eu tenho 15 ou 16 anos, porque eu ainda penso no progresso, no presente e no futuro, eu quero decolar muito mais. Pretendo disputar campeonato até o meu último dia de vida, quando Deus permitir que eu esteja aqui. Essa ideia de parar de dançar é ideia de pessoas inúteis. Pessoas que não pensam em crescer e evoluir. Jamais devemos parar o nosso sonho! Hoje sou muito querido em São Paulo e todos sabem disso. Eu ganho presentes de tudo quanto é lado. Sou querido por muitos! Na fase da crise muita gente me ajudou: a Márcia, o Rooneyoyo, o Ninja. Até B-Boys New School me ajudaram na condição financeira, aí agora sofri esse acidente, mesmo assim muitos me ajudaram. Até o meu vizinho que é evangélico, às vezes me dá janta ou almoço e cuida de mim. E eu pretendo continuar dançando o resto da minha vida. Eu amo a dança! Sou muito feliz com o que eu faço. A minha coragem me dá saúde! E a minha fé também!
BW: Recentemente, você sofreu um acidente sério. Nos conte o que aconteceu? E como está a sua recuperação?
Chileno: Eu sofri um acidente há um mês atrás, eu cai de peito, mas não quebrei nada! Foi uma queda de uma escada de 3 metros e meio. Se eu não quebrei nada foi porque Deus estava comigo no momento da queda, até hoje a todo o momento ele está comigo, me protegendo. Porque se não tivesse propósito na minha vida, eu teria me acidentado feio, teria ficado paraplégico e até poderia ter morrido, porque a condição que eu estava e as pessoas que me viram, eles achavam que eu morreria. Eu desmaiei, apaguei total. Quando eu acordei, no dia seguinte, eu estava no hospital. Acordei com tudo embaraçado, a minha vista, a minha cabeça, o meu ouvido, o nariz. A minha voz ficou distorcida, agora é que está melhorando, mas tem algumas palavras que ainda estou falando errado. A minha vista já melhorou, o ouvido melhorou, ainda sinto um pouco de dor, mas estou tomando remédios. Já tenho retorno marcado com o médico, ele vai passar fisioterapia para minha mão funcionar. Que é exatamente a mão que eu faço Freezes.
Chileno exibe a palma de prata do Prêmio Sabotage, conquistado por ele em 2018 na categoria Breaking.
BW: Que conselhos você daria para a nova geração do Breaking?
Chileno: Eu falo para a juventude em primeiro lugar, que seja honesto, sincero, que não queira passar a perna em ninguém, que não minta, dispute de igual para igual. Os jovens devem se alimentar bem, não devem comer porcaria, devem comer comida de verdade para conseguir um bom preparo físico. Eu não como porcaria de forma alguma! Os jovens devem ser humildes com todas as pessoas, com seus próprios pais e no meio da dança onde chegar também. Devem adquirir o próprio espaço para ser respeitado por todos. Hoje eu vejo grupo de WhatsApp de várias crews e vejo que existe um ego, uma soberba, uma ignorância, de querer aprender mais e evoluir na linguagem, na dança e em tudo eles acham que sabem tudo! E desconhecem o trabalho dos outros. Eu fico triste de ver tantos jovens no Breaking orgulhosos, metidos. Precisam ser comunicativos, adquirir o próprio espaço, a juventude precisa aprender a serem dignos do que desejam, senão não vão conseguir nada. Não adianta um B-Boy ou uma B-Girl novos serem ignorantes e boçais, tratar mal os outros, só querem viver no próprio mundinho, precisam aprender que o mundo do Hip-Hop é muito grande. Nós precisamos viver no coletivo, não ser individualista. Isso é uma doença de alguns dessa geração.
BW: Fale um pouco de sua experiência junto às crews?
Chileno: A minha primeira crew que eu entrei foi a Gueto Freak, que foi fundada em 1986, mas entrei apenas em 1999, era uma crew de muitos rachas e muitas disputas, ensinamentos, educação, disciplina, era muito top. Era só gente jovem na época. Eu tinha muita diferença comparado a eles, eles admiravam a minha velocidade e alguns movimentos que eu fazia que eles não faziam. Eu tenho movimentos que nenhum B-Boy de São Paulo faz. Aí depois, eu entrei no Jabaquara Breakers. Eu participei de muitos campeonatos e ganhei muita coisa com isso. Era eu e Catatau. Depois, percebemos que fomos roubados por algumas pessoas e saímos da crew pois sabíamos do valor que tínhamos.
Chileno e os meninos da Ready Style Crew
BW: O que você acha sobre o assunto Breaking nas Olimpíadas?
Chileno: O Breaking nas Olimpíadas é uma benção de Deus! Porque o Breaking sempre foi discriminado em todo o lugar, os B-Boys chegavam com as roupas e com o estilo e eram discriminados por toda a sociedade, chamado de maloqueiro, então, a partir do momento que o Breaking está nas Olimpíadas, ele se torna uma potência, o respeito será muito grande por toda a sociedade, todo o comércio, todos os empresários, os patrocínios, toda a sociedade, a essência só depende de cada um, ele vai competir nas Olimpíadas, certo? Mas ele não vai ficar para sempre nas Olimpíadas, ele tem os rolês dele, que são com os amigos da Cultura Hip-Hop. Agora, se a pessoa permitir que o orgulho suba à cabeça, aí sim ele perde a essência e para isso não precisa estar nas Olimpíadas, isso pode acontecer em qualquer momento. Então, o Breaking entrar nas Olimpíadas como esporte eu fico maravilhado de viver isso, ver o nível que o Breaking está chegando, ele está lá sendo visto por toda a sociedade e isso é muito bom. Por onde esses B-Boys e B-Girls passarem, vão escutar: “eles são breakers e fazem parte das Olimpíadas!”, o respeito será dobrado! O Breaking está muito acima de raças, o negro construiu, mas existe o espaço para todos! Se tem talento, mostre seu talento, não importa sua cor. Eu já falei isso até para algumas pessoas, se você não concorda do Breaking entrar nas Olimpíadas, é palhaçada. Nós fomos discriminados pra caramba e quando temos oportunidade, alguns ficam de palhaçada. Quem pensa assim são pessoas burras, ignorantes, que só querem benefícios para si mesmos. Tem que avançar, tem que se modernizar, as pessoas que não pensam assim, independente de suas idades são atrasadas, de mente pequena e que não funciona. Eu tenho 62 anos e não sou assim. Me sinto um jovem, esse negócio de idade está na cabeça das pessoas!
BW: Para finalizar: o que significa o Breaking na sua vida?
Chileno: Tudo! O Breaking faz parte da minha história. Em primeiro lugar na minha vida vem Deus e depois o Breaking.
Fotos: Arquivo Pessoal/Alex Boog/Cadu Barbosa
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!
Ele começou a dançar com 6 anos de idade, pequeno no tamanho mas gigante no talento, Marcos Pedro, da Dream Kids Brazil, mais conhecido como B-Boy Sonek, nascido na cidade Catalão, em Goiás, filho de um pedreiro e de uma costureira, encantou o mundo com seus movimentos de Power Move, que executa para os dois lados.
Em 2014, na Europa, foi campeão Kids da Eurobattle e vice-campeão da Power Move Battle, numa competição de altíssimo nível, com o Kid Colômbia.
O que o levou a participar também de programas de TV nacionais e internacionais, como o Super Kids na Alemanha e o Legendários, no Brasil.
Sonek foi notícia também em várias mídias brasileiras, como G1, Record, entre outras. O menino sempre participou de grandes eventos, dentro e fora do país, colocando o Brasil no topo e mostrando a força da nova geração brasileira no Breaking.
Hoje, com 16 anos, as feições de menino vão dando espaço para o surgimento de um jovem, extremamente talentoso na dança, disciplinado, focado, que tem movimentos firmes, elegantes e singulares, sendo sem dúvida um dos grandes nomes do Breaking brasileiro a ser ouvido nos próximos anos.
Confira a entrevista que o Portal Breaking World fez com o B-Boy Sonek:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua infância, onde nasceu e da sua vida em família? Tem irmãos?
Sonek: Nasci em uma cidade chamada Catalão, em Goiás, minha vida em família é bem humilde e amigável, sim, tenho 3 irmãos.
B-Boy Sonek foi Campeão Kids da Eurobattle com apenas 10 anos de idade.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop o que mais te chamou a atenção nessa cultura?
Sonek: Não me recordo exatamente, porque eu tinha 6 anos de idade, mas lembro que sempre viajava com meu pai para os eventos em Uberlândia e Goiânia.
BW: Com que idade começou a dançar Breaking? Quem te ensinou? E onde você treinava?
Sonek: Comecei com 6 anos de idade, meu pai me ensinou, treinava no meu quarto com meus primos e amigos. Meu pai sempre foi fundamental para meu aprendizado, tudo que sei hoje é devido a ele e minha evolução progrediu quando o Tio Dunda passou a ser o nosso mentor, mostrando caminhos certos de treinos e eventos certos para participar.
BW: Você sempre teve o apoio da sua família na dança?
Sonek: Sim, minha mãe e meu pai sempre me apoiaram, quando meu pai ia trabalhar, minha mãe que me acompanhava nos treinos.
O pai Thiago, que também é B-Boy e o coach “Tio” Dunda: fonte de inspiração para Sonek
BW: Seu pai também dançava, correto? Isso facilitou seu aprendizado?
Sonek: Sim, dei continuidade, sem ele não teria como ter aprendido e seguido em frente. Ele sabe ensinar super bem, com certeza facilitou muito a minha aprendizagem no Breaking.
BW: Tiveram movimentos que você teve mais dificuldade em aprender? Qual foi o mais difícil?
Sonek: O mais difícil foi o “1990” e as variações de movimentos.
BW: Na sua dança, os movimentos Power Moves estão bem presentes e alguns são para os dois lados, o que o torna quase único entre os dançarinos da sua idade aqui no Brasil. Com quem aprendeu tudo isso?
Sonek: Influências do meu pai, que é de uma geração de B-Boys que para ser bom teria que fazer alguns movimentos para os dois lados, segui essa tendência também.
O título do Breaking Combate foi a porta de entrada para o menino ganhar a Europa com seu Breaking
BW: Houve muito preparo físico para chegar no nível que chegou? Muitas horas de treino? Atualmente como é sua rotina de treino?
Sonek: Sim, no começo não tinha preparo físico porque meu pai não tinha esse conhecimento, com a chegada do Tio Dunda tudo mudou, focamos também nos exercícios físicos e isso causou um impacto enorme na minha evolução, juntamos tudo que o meu pai sabia com o conhecimento do Tio Dunda e o resultado foi outro.
BW: Em 2014, você foi campeão da Eurobattle, no Kids. Foi a primeira vez que você saiu do Brasil? Fale como foi essa experiência.
Sonek: Sim, foi a minha primeira viagem internacional, foi muito legal, tinha muitas pessoas que me conheciam só pelos vídeos e vinham tirar fotos comigo, fizemos “street show” também, as pessoas valorizam quem dança Breaking, evento bem organizado, com boa estrutura, mas antes tive uma grande e importante caminhada para chegar até a Europa. Saímos de Catalão até São Paulo, 12 horas de carro, para batalhar no Breaking Combate, que foi o evento que pagou as passagens e estadia para mim e meu pai em Portugal. Batalhei na final contra o Suel, um Power Move muito bom de Goiânia, para assim me consagrar campeão nacional e o prêmio foi a viagem e participação na Eurobattle.
BW: Com quem competiu na Eurobattle e o que sentiu quando ganhou o campeonato, colocando o Brasil em primeiro lugar?
Sonek: Tinham B-Boys e B-Girls de toda parte do mundo e o grande favorito era o Super Mario, da Bélgica. Enfrentei ele na final e me consagrei campeão por 3 votos a 0, era o meu dia, estava me divertindo, sem a pressão e obrigação de ser campeão, meu pai nervoso pelo filho dele estar em uma final mundial de um lado e o Tio Dunda, tranquilo, me ajudou muito com os conselhos e me deixou tranquilo também, lembro que ele disse: “Sonek, você não precisa provar nada pra ninguém, você já é o campeão nacional, faz o que você treina na sala do templo (meu quarto onde treinava) e se diverte”, fiz exatamente isso e minha dança fluiu.
Hoje com 16 anos, Sonek faz parte da Dream Kids Brazil e treina forte para alçar voôs maiores como dançarino
BW: Quais são as principais diferenças que você percebe entre os B-Boys de fora do país e os brasileiros, seja nos treinos e no geral?
Sonek: De fora eles tem mais estrutura e apoio, seja de família ou patrocínios. No Brasil, tudo é mais difícil, até para irmos para outro estado é caro, muitos não têm um chão bom para treinar.
BW: Você também foi vice-campeão de Power Move. Comente essa experiência…
Sonek: Tinha muitos caras bons, o nível era altíssimo, fui bem preparado, enfrentei o holandês Kid Colômbia na final, perdi de 3 votos a 0, mas muitos não acharam isso, respeitamos a decisão dos jurados, que estão lá para isso e se estão lá é porquê são capazes de terem avaliado o certo.
BW: Você se apresentou também em programa de televisão fora do país. Nos conte como foi essa experiência?
Sonek: Sim, no Super Kids da TV SAT1, foi um experiência incrível, o Tio Dunda foi quem fez todo o trâmite para que isso se concretizasse, sem ele não teríamos condições de ter avançado nessa experiência. Nunca tive medo de batalhar, mas momentos antes de me apresentar, minhas pernas tremiam, saí da minha zona de conforto das batalhas para um palco de TV na Alemanha, mas no geral eu gostei muito.
Dançar se divertindo e com calma foi o segredo para Sonek ganhar o mundo com seus Power Moves
BW: Na sua escola, as pessoas pedem para você dançar? Sua cidade te apoiou na sua dança?
Sonek: Sempre me pediram e ainda pedem, mas temos que nos controlar para não nos machucarmos, devido o corpo estar frio, teve alguns eventos que a Fundação Cultural de Catalão apoiou, sim.
BW: O que significa o Breaking na sua vida?
Sonek: Faz parte de mim, como se fosse um órgão, não posso ficar sem o Breaking, sei que o Breaking tem o poder de mudar minha vida.
BW: Que mensagem você deixaria para as crianças que pretendem começar no Breaking?
Sonek: Treinar, treinar e treinar. Muitas pessoas vão dizer que não vai dar em nada, mas segue o seu coração e não o que eles dizem. Se você quer ser bom, então, tome atitude de quem é bom, se dedique…
O chão vai estalar: está chegando a nova geração do Breaking.
Com cara de brava, com uma força que parece não caber dentro de uma garotinha de 10 anos, Chaya Gabor, mais conhecida no circuito de campeonatos de Breaking como B-Girl Angel do Brasil, sempre gostou de batalhas!
O que muitos não sabem é que a maior delas foi assim que chegou ao mundo e o prêmio foi a própria vida. Com um passado ligado a muitos fios, incubadora, balão de oxigênio e muitas orações, foram assim os primeiros meses da vida dessa B-Girl, marcada pela prematuridade extrema, Chaya nasceu com 850 gramas, ficando internada numa UTI Neo Natal por muitos dias, tendo sobrevivido a 2 paradas cardiorrespiratórias. Angel é um milagre vivo! Após sua alta médica, teve apneia da prematuridade, necessitando de monitoramento contínuo e utilização de oxímetro em seu primeiro ano de vida, ela esquecia-se de respirar mas não deixava de batalhar pela vida jamais.
Seu nome significa “Presente de Deus” e segundo sua família, sempre representou isso na vida de todos que a conhecem. Sua emocionante história virou até um livro chamado “Gerando Milagres”.
Passadas todas as tempestades e incertezas, Angel começou a dançar, no início por uma indicação médica, já que não gostava de nadar. Primeiro no Ballet, depois, acompanhando o irmão, B-Boy Eagle (13), já com quase 4 anos trocou o Ballet por algo bem radical, o Breaking, onde se encontrou.
Curada por Deus e abraçada pela Cultura Hip-Hop, a menina que é bem conhecida na cena, nas redes sociais e na imprensa, tem despontado como um grande nome da nova geração do Breaking. Só no Instagram tem mais de 2000 seguidores que acompanham seu dia a dia, os campeonatos que participa e suas vitórias. Recentemente, ganhou o primeiro lugar na qualificatória brasileira do Festival de Dança “All Dance”, o que garantiu uma vaga no mundial que acontece agora em Setembro. Com uma personalidade forte e marcante na hora da dança, é carinhosamente chamada por seu treinador Eder Devesa de “Senhorita Power Move”. Leia a entrevista:
BW: Fale um pouco sobre você, sobre sua história?
B-Girl Angel: Meu nome é Chaya Gabor, tenho 10 anos. Nasci bem antes do tempo que os médicos e minha mãe esperavam. Nasci com 850 gramas e quase morri. Isso me fez ficar no hospital muito tempo com minha mãe até eu ganhar peso e ficar boa dos meus problemas respiratórios. Mamãe diz que foram muitos dias, onde muitas pessoas oraram pela minha vida. Para alguns, sou um milagre, parei duas vezes de respirar. Lutei para viver, essa foi minha primeira batalha. E minha mãe até escreveu um livro contando a minha história.
Gerando Milagres: Uma história real da luta pela vida. A B-Girl nasceu com apenas 850g, ficou 110 dias internada na UTI e teve 2 paradas cardiorrespiratórias.
BW: Quando você começou a dançar Breaking e quem te ensinou?
B-Girl Angel: Acho que comecei a dançar Breaking dentro da barriga da minha mãe (risos). Nessa época, minha mãe trabalhava com alguns Rappers e quando eles começavam a rimar em shows, eu me mexia muito em sua barriga, às vezes ela não conseguia nem andar. Mas aprender dançar mesmo comecei aos 2 anos no Ballet, com a tia Luciana Amâncio, no litoral de São Paulo, meu irmão também dançava, fazíamos sapateado juntos. Até que um dia conhecemos o Zeca Break, foi ele quem nos ensinou os primeiros movimentos do Breaking e nos fez amar essa cultura. Tenho muito carinho pelo Zeca.
BW: Você tem referências no Breaking?
B-Girl Angel: Sim, algumas: B-Girl Mini Japa, B-Boy Ruddy, B-Girl Ayumi, B-Boy Lilou, B-Boy Menno, B-Boy Bruce, B-Boy Issei, B-Boy André Herculess, B-Boy Dynabeat, B-Boy Vapor, todos os meninos da minha Crew, meu coach B-Boy Dunda e meu irmão.
B-Boy Eagle, B-Boy Zeca Break e B-Girl Angel do Brasil: homenagem ao primeiro professor de Breaking.
BW: Quem te treina hoje?
B-Girl Angel: É o Eder do Breaking Combate, já estamos juntos há 2 anos. Gosto muito dele, já faz parte da minha família. Ele me chama de “Senhorita Power Move” (risos).
BW: Tiveram movimentos que foram mais difíceis de aprender, que levaram mais tempo?
B-Girl Angel: Sim, tiveram e têm até hoje! Mas Breaking é repetição. E de tanto repetir, aprendemos.
BW: Sua família sempre apoiou a sua dança? Como é sua vida em família?
B-Girl Angel: Sempre! Minha mãe e o meu pai sempre nos apoiaram demais! Os meus avós também! Todos são grandes incentivadores da nossa arte.
“Rival vs Rival” foi a primeira vez de B-Girl Angel em uma batalha de Breaking.
BW: Quando começou a ir para campeonatos? Qual foi o primeiro campeonato que você foi?
B-Girl Angel: Foi em 2017. O primeiro campeonato que eu participei foi o “Rival vs Rival”. Depois, o “Master Crews” e não parei mais de participar de campeonatos. Eu gosto muito de competir! É um momento que me sinto bem e tranquila, pois estou fazendo o que mais gosto.
BW: E qual foi o primeiro que você ganhou? Qual foi a sensação de levantar o primeiro troféu? Você guarda esse troféu até hoje?
B-Girl Angel: Acho que o primeiro que eu ganhei foi em Juquitiba. Foi muito bom ganhar o primeiro troféu e foi contra o meu irmão (risos). O troféu faz parte da minha coleção e está na estante até hoje!
BW: Me fale um pouco da sua rotina de treinos. Que horas e quantas vezes na semana você treina e com quem?
B-Girl Angel: Treino quase todos os dias, às vezes até final de semana e os meus treinos são divididos. Dura em média umas 3 horas.
B-Girl Angel treinando na Street House com o coach Eder Devesa (de boné), B-Boys Sonek e Eagle, da Dream Kids Brazil.
BW: É fácil ser B-Girl e uma boa aluna na escola? Os colegas e os professores pedem para você dançar para eles na escola?
B-Girl Angel: Não é fácil. Sim, sempre pediram, principalmente nos eventos da escola. Os colegas também, na hora do recreio. E até ensinava para alguns.
BW: Fale um pouco sobre a sua Crew?
B-Girl Angel: Eu faço parte da Dream Kids Brazil, que é uma Crew formada por crianças e juntos somos uma família. Somos treinados pelo B-Boy Dunda. Na Crew somos B-Boy Sonek, B-Boy Marcin, B-Boy Samukinha, B-Boy Eagle e eu.
BW: O que você sente quando você dança? O que se passa na sua cabeça?
B-Girl Angel: Liberdade e felicidade de poder sempre ser eu na minha dança. De ter a minha personalidade. Me sinto muito bem. Admiro muita gente, mas não quero ser os outros, eu quero ser eu. Lembro que no passado, por algum tempo, treinei com um professor que usava as crianças e não respeitava isso e transformava todos os alunos em seus bonecos de imitação. E até hoje é assim. É só olhar para eles, são os meninos e meninas do B-Boy fulano, que dançam igual a ele! Não quero ser conhecida desta forma. Eu não gosto disso! Eu sou a B-Girl Angel!
“Não quero ser os outros, quero ser eu!”, personalidade é a marca de B-Girl Angel nas batalhas e na vida.
BW: Uma das suas principais características é a cara de brava dentro das rodas? Você é brava?
B-Girl Angel: Nas batalhas e nas rodas sou concentrada. Mas não sou brava!
BW: Para você o que é o Breaking? O que ele representa na sua vida?
B-Girl Angel: Breaking é a minha vida! Depois de Deus, foi o Breaking que me curou dos meus problemas respiratórios.
BW: Você se acha competitiva? O que te deixa muito irritada durante uma batalha de Breaking?
B-Girl Angel: Sim, sou bastante! Pessoas que parecem presas, repetitivas e que têm movimentos sujos.
A B-Girl treina forte para estar sempre pronta nas competições, mas sem esquecer a essência do Hip-Hop, o valor da família e das verdadeiras amizades.
BW: Nos campeonatos que você compete contra adulto, você acha que já deixou de ganhar algum pelo fato de ser criança? Acha que as crianças são valorizadas nos eventos?
B-Girl Angel: Não me lembro, mas acho que aqui no Brasil, os eventos não valorizam as crianças como lá fora! Meu irmão foi para a Europa no ano passado e as crianças eram reconhecidas nos grandes eventos. Mesmo tendo adultos também! Se a criança for melhor que o adulto deve ganhar!
BW: O que você se sente quando você não ganha ou perde? Consegue lidar bem com isso?
B-Girl Angel: Me sinto normal, faz parte ganhar e perder. Quando eu não ganho porque errei, na hora fico aborrecida, sim. Mas, quando sei que fui bem e não ganhei porque houve panela acho feio para quem senta na cadeira de jurado. Se um dia for convidada para ser jurada, jamais quero participar de coisas assim.
BW: Além da dança, o que mais você gosta de fazer?
B-Girl Angel: Eu gosto de rimar, gosto de Batalhas de Rima! Gosto de ir na São Bento, gosto de desenhar, de ver vídeos de dança e de como construir as coisas.
Além de dançar Breaking, a menina gosta de rimar e desenhar.
BW: Quais são os seus maiores sonhos na dança? Onde quer chegar?
B-Girl Angel: Meu sonho é morar e dançar fora do país. É ser completa na dança, eu sou B-Girl e eu posso!
BW: Tiveram muitas crianças que começaram na mesma época que você e hoje já não dançam mais. Você alguma vez pensou em desistir de dançar?
B-Girl Angel: Não vou desistir da minha vida. O Breaking é a minha vida.
BW: O que você acha da possibilidade de poder participar de uma Olimpíada?
B-Girl Angel: Acho muito bom! Mais uma grande oportunidade para a minha geração.
Dançar e dançar e dançar. A beleza de ser uma eterna aprendiz!
BW: Fale sobre os eventos que já participou.
B-Girl Angel: Em 2019, fui a primeira criança a chegar na final do Prêmio Sabotage, 1º lugar na Batalha Final Kids e 3° lugar na Batalha Final de B-Girls. 1° lugar Batalha de Juquitiba, participei de Rival Vs Rival (SP), Breaking Combate (SP), 2° lugar no Peruíbe Dance Festival (SP), Master Crews (SP), BreakSP Battle, B-Boy World Classic (SP), Nike Battle Force na Streetopia (SP), 2º lugar São Matheus Break, 1º lugar Fábricas de Cultura (SP), Ar Dance (Peruíbe/SP), 2° lugar na Tattoo Week (SP), Festival Santos Café (Santos/SP), R16 (SP), Tropical Battle (RJ), Battle Kids Argentina, Quando as Ruas Chamam (DF), Red Bull BC One Camp Brazil, Campeã da Quebrada Viva Battle, 1° lugar no Arte Breaking, 2º lugar no São Vicente Festival, 1° lugar na modalidade Kids do All Dance Brazil 2020.
A paixão pela dança é o que move o coração da B-Girl Angel do Brasil.
BW: Como foi ganhar a vaga para o mundial no All Dance World?
B-Girl Angel: Foi bem especial! Treinamos durante meses a coreografia “Anjo do Breaking” e o resultado foi a resposta a um bom trabalho feito. Vou lutar pelo mundial também!
BW: Quem é a Angel?
B-Girl Angel: B-Girl Angel do Brasil sou eu! Fora das batalhas sou a Chaya!
BW: Que mensagem você deixaria para outras crianças que pensam em começar no Breaking?
B-Girl Angel: Venha logo dançar e conhecer essa cultura!
Conhecer o passado e respeitar quem o escreveu é um dever e uma sábia decisão de quem pretende viver o verdadeiro Hip-Hop ou falar em nome dele.
A História dessa cultura não é uma lista de nomes, datas e feitos de pessoas antigas, mas sim um registro de homens e mulheres desbravadores que abriram caminhos, criaram pontes onde não existiam, enfrentaram preconceitos, quebraram tabus, resistiram a tudo e a todos, erraram e acertaram para que hoje tudo fosse diferente.
Como certa vez disse Afrika Bambaataa: “O Hip-Hop é conhecimento, cultura, entendimento, autoconhecimento, conhecimento sobre os outros”.
O Portal Breaking World acredita na verdade dessas palavras e teve a honra de conversar essa semana com “O Guardião” da história do Hip-Hop brasileiro.
Queridos leitores, convidamos a todos para esse incrível bate-papo com Rooneyoyo, onde falamos do passado, do presente e do futuro.
Está pronto para essa conversa? Então senta que lá vem história…
BW: Rooney, queria que você falasse um pouco da sua infância, da adolescência e como era seu relacionamento com sua família. Quem era o Rooney nessa época, o que pensava e sonhava?
Rooneyoyo: Eu nasci debaixo da ponte, no Bixiga (risos), como brinca minha mãe até hoje, porque foi demolido e virou um elevado naquela região. Costumava sair cedo de casa e só voltava à noite, jogava bola, andava de Skate, bicicleta, patinete, pula-pula, corda, brincava com o que meus amigos emprestavam. Alguns brinquedos eram feitos por mim, tais como: carrinhos de rolimã, que eram construídos com restos de madeira que pedia nas oficinas e que achava em terrenos baldios; pipas, com papel de pão e vareta de bambu que encontrava na rua; taco, feito de madeira de construção; bolinhas de gude, feito à mão lixado de epóxi, além disso, fazia rolos e trocava por figurinhas para poder bater. Na adolescência, para levantar um dinheiro, fazia pulseirinhas artesanais com nomes personalizados de linha de tricô, pranchinhas de surfe como pingente de acrílico, que achava na rua, aprendi olhando os artesãos de rua. Mas, a minha paixão era jogar botão de mesa que fazia com tampa de relógio, fui campeão paulista quando tinha uns 14 anos. Nessa época, ia para o centro da cidade a pé, entrava nos condomínios comerciais perguntando se havia relojoaria para pedir vidro de relógio riscado e adesivo da empresa, que também colecionava, com o troco do pão juntava e comprava adesivo dos times e números à base de água e colava nestas tampas e pintava com tinta de guache escolar ou esmalte, escondido da minha mãe. Aos 16, conheci o Break e também o ioiô, numa promoção de refrigerante e treinava mesmo fora da temporada, quando chegou a promoção, em 1998, comecei a participar das competições de bairro e intimava os campeões da época, até que um deles me deu “uma lavada”. A partir daí, comecei a treinar mais e um colombiano me ensinou uns truques, fui convidado a participar de uma competição interna no fim da promoção e ganhei o título de “Internacional Champion Yo-Yo” da Russel Company, fui convidado a viajar com a Cia. de Yo-Yo, ou seja, minha infância dura até hoje (risos). Nesta época, recebi vários apelidos: Ninaco, Tanajura, Pé na Cova, Índio, Tijelinha, Tripa, Zé ou Zé Ricardo mesmo, cada lugar que frequentava tinha um apelido, pois não ficava em casa, vivia procurando algo para fazer e andava demais e a cada período eu tinha um ciclo de amizade para poder usufruir do que eles tinham para oferecer. Sobre pensamentos e sonhos ao decorrer da entrevista vocês vão conhecer.
Uma vida difícil e a inquietude curiosa o trouxeram naturalmente para a Cultura Hip-Hop.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Rooneyoyo: Em 1983, vieram uns promotores do SENAC na minha escola, oferecendo apostilas para vender e quem comprasse ganhava a inscrição do curso de datilografia gratuita, minha mãe meio que me obrigou a fazer o curso e eu tinha que ir a pé para o centro, na Rua 24 de Maio, fazer o tal curso depois da escola, entre agosto e dezembro, muitas vezes antes de começar o curso tinha umas rodas no centro. Era muito comum na época, com capoeiristas, puladores de círculo de facas, jogadores de bolinha da sorte. Em meados de outubro vi uma roda diferente, eram os dançarinos de “Breakdance”, vi um monte de meninos dançando ao som de um rádio gravador (boombox) pequeno, a mesma dança que assistia nos programas de TV e dos videoclipes, pois raramente passava algo interessante para mim, o encantamento foi imediato, fazia curso 2 vezes por semana, saía da escola e corria para o centro, para ver se encontrava esta roda de novo, para tentar aprender algo, enturmei-me e vi a Gênesis do que hoje chamamos de Hip-Hop se formar em São Paulo, de lá para cá tudo virou História e hoje profissão.
BW: Quem eram suas referências? Que elementos fizeram toda a diferença na sua vida? Com quem você aprendeu?
Rooneyoyo: Minhas referências eram os dançarinos da Rua 24 de Maio com a Rua Dom José de Barros, mas não sabia o nome de quase ninguém, até começar a ouvir quando um chamava o outro pelo apelido, eram alguns artistas dos videoclipes da época de 1983 e quando vieram os filmes em 1984, aí perdi a linha mesmo. Na época, não tínhamos conhecimento dos elementos artísticos que conhecemos. A “Febre Breakdance” tomou conta de mim, após a chegada dos filmes no Brasil, achava que tinha que fazer tudo para ser reconhecido dentro da Cultura, comecei dançando, depois fazia uns desenhos e pintava em roupas e vez ou outra um traço no muro devido a falta de grana para tintas, mais tarde, conheci o Rap, pouco antes de ir para a São Bento, em 1985 e, na sequência, tive a oportunidade de conhecer os equipamentos de DJ. Lembrando que estive presente na 24 de Maio, no aniversário de São Paulo na Praça da Sé, em 1984, no “Festival de Break”. Ver os caras que eram meus amigos indo para a novela “Partido Alto”, da TV Globo, assistir os filmes “Breakin” e “Beat Street” no cinema e, em seguida, frequentar o Boulevard da São Bento, isso foi uma “lobotomia” (risos). O aprender foi natural com todos que convivi, mas o principal era que tínhamos que ter uma Gangue, a minha era a AclimaçãoBreaker´s, com Hamilton, Eu (Ninaco), o Marcelo Gueta e seu irmão mais novo Guetinha, treinávamos no parque da Aclimação, no centro, me aproximei do Andrezinho (ALAM Beat), que era amigo do Mancão do Cambuci, treinávamos no meio da semana, durante a noite. Logo, nos encontramos enquanto irmãos e viramos da Família Street Warriors. Nesta época, conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário, além disso, com frequência o ALAM Beat me chamava para treinar na Pompéia, na casa de uns amigos que tinham uma garagem de azulejo, com Faustinho (Falecido) e Gula, a gente frequentava os bailes de matinê aos domingos, mas raramente entrava, pois não tínhamos grana para frequentar, às vezes entrava escondido, cerca de meia hora antes de fechar, assim conheci o Jack (MCJack) no clube A Ponta, no Tatuapé e revezava os treinos de domingo, quando ia ao Parque do Ibirapuera, lá treinava uma gangue de manhã em um período e no outro período vinham outras gangues diversas, ou seja, ficava de manhã até o fim da tarde, para aproveitar, sem comer e a pé (risos).
Amizade de longa data: “conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário”.
BW: Outra paixão foi o ioiô, que deu significado ao seu nome, Rooneyoyo. Fale um pouco dessa outra paixão.
Rooneyoyo: O nome “Rooneyoyo” tem vários significados, bora lá: Rooney foi o Heliobranco que me apelidou, na época das visitas à casa do DJ Ninja com a Rádio NWBass, para poder mixar num racha, simulávamos uma rádio fictícia e eu gostava muito de Gangsta Rap e meu apelido no disco Radicais do Peso ficou “Gang$taRooney”, o nome foi inspirado no Filme “Action Jackson” um Blacksploitation (filmes feitos por e para negros americanos) onde tinha um personagem tipo Robin Hood Urbano do Gueto, o porquê fica por conta da imaginação do leitor… (nada a declarar); Rooneyoyo foi a junção do nome porque alguns me chamavam de Yo-Yo também e outros me chamavam de Rooney Yo-Yo e juntei tudo para ser único nas buscas na internet. Então, tenho vários personagens e moldo conforme a necessidade.
BW: Onde tudo começou para os B-Boys e B-Girls de São Paulo? Fale sobre o Marco Zero e sobre a pedra que até hoje tem o seu nome.
Rooneyoyo: Em São Paulo, as coisas foram simultâneas em vários bairros, pois os clipes começavam a ser exibidos com cenas de “Breakdance” (a febre) de 1983 a 1985, os dançarinos eram oriundos de grupos de dança dos Bailes Blacks, mas a Rua 24 de Maio com a Dom José de Barros nos deu a explosão midiática que as pessoas conhecem da História da Gênesis do Hip-Hop de São Paulo e mesmo sem saber a nomenclatura correta, os programas de auditório passavam as disputas semanalmente e durante meses. Quando falamos de B-Boys e B-Girls o prisma muda, pois naquela época só vi uns três dançarinos irem para o chão, os movimentos eram simples. Depois do clipe do Break Machine e os filmes Breaking e Beat Street, a dança melhorou um pouco, em relação às mulheres não vi nenhuma, somente fui vê-las fazer uma entrada nos encontros da São Bento e creio que por volta de 1987, nós temos um grande vácuo na cena feminina. A participação delas foi intensificada após os encontros da B-Boys Battle Party, de 1998 em diante. O Breaking de hoje é diferente do que vimos no início, para entendê-lo, necessita-se compreender o contexto de cada época. Anos depois, no ano de 2014, Nelson Triunfo com apoio do ALAM Beat leva um projeto na Secretaria de Cultura e aprova um evento em homenagem aos tempos primórdios e eu fui carinhosamente homenageado pelo Mestre Nelson Triunfo, a quem sou muito grato pela sua contribuição pela arte e cultura.
Na época em que o Breaking era conhecido como “BreaK” ou “Breakdance”, Rooneyoyo já fazia seus moinhos de vento!
BW: Você é considerado um dos pioneiros do Hip-Hop no Brasil, são quantos anos envolvidos com o Hip-Hop? Nos conte como tudo começou aqui no Brasil e como era viver a Cultura Hip-Hop na década de 80?
Rooneyoyo: Eu datei minha participação quando frequentei a Rua 24 de Maio com Dom José de Barros em agosto de 1983 em diante, quando fazia um curso de datilografia ali no Senac. Como já destaquei, este período chamávamos de “Break” ou “Breakdance” o que conhecemos hoje de Cultura Hip-Hop. Nessa época, tudo era muito orgânico e presencial, não havia internet, telefone de fácil acesso, as informações eram disseminadas via TV, rádio, jornal, revista, vinil, k7. As Informações eram raríssimas, para se ter uma foto de dança, tinha que comprar a revista para ter acesso ao conteúdo. Quando me perguntam sobre a década, foram sete anos de evolução, pesquisa, visitas em lojas de disco para busca dos conteúdos, mas nem sempre comprávamos, olhávamos revistas em bancas de jornais para saber se tinha alguma informação nas revistas, ia em laboratórios médicos e entrava nos consultórios para ficar folheando página por página para ver se achava algo que interessava, ia em bibliotecas todos os dias para folhear os jornais do dia na seção de cultura, para saber se sairia algo naquele dia, isso era interminável. Nos encontrávamos no Boulevard da Estação de Metrô São Bento para ver o que cada um trazia de informação e ficávamos olhando por horas e discutindo teorias sobre matérias, fotos, roupas, etc. Faço isso até hoje (risos).
BW: Que boas lembranças você tem dessa época, como era a vibe de quem dançava?
Rooneyoyo: É interessante lembrar dessa época para resgatar as memórias, principalmente porque se não revivermos e contarmos nossa história, ninguém o fará, vivemos em um país que invisibiliza as nossas histórias, apreciá-las ou respeitá-las não é cultural, principalmente por ser uma cultura marginalizada. Esse período foi incrível, principalmente porque estávamos inventando o nosso jeito de fazer arte e a cultura com todas as suas camadas, que muda de lugar para lugar. Minha energia sempre foi de troca de informação, militância, de luta, de abertura de espaço, estávamos no pós-ditadura e a dança também era um aprendizado constante, todo dia aprendíamos coisas novas. A dança moldou meus pensamentos e por ela tenho feito reflexões e construído caminhos em prol de comunidade, como não tínhamos nada de referência, (re)criávamos, faço isso até hoje, se não tínhamos uma roupa a fazíamos, se não tínhamos um som, montávamos. Então, a vibe era se reinventar.
Para Rooney a dança molda pensamentos, traz reflexões e muda caminhos em prol do bem da sociedade.
BW: O Breaking da sua época era diferente da forma que é dançado hoje? Que diferenças você pode citar entre os B-Boys e B-Girls da sua época e os de hoje?
Rooneyoyo: É de fato diferente, já na nomenclatura, no conceito e na equidade de gênero, primeiro porque estávamos em uma bolha da moda e tudo era ditado pela TV, jornal e algumas revistas, a era “Breakdance” de 1983 a 1985. Depois temos a época dos que resistiram e suavizaram a inserção e o acesso à informação da nova geração, pois as informações foram chegando aos poucos, as descobertas e estudos sobre o que vivíamos, eram moldados à nossa realidade e foi se transformando no que todos vivenciam hoje, um exemplo disso é o termo B-Girl, que não existia, pois na época todos dançavam o “Breakdance” que hoje conhecemos como Popping, Waving, Tuttting, Robbot, alguns passos de Locking misturados com algo de Breaking. Sobre as B-Girls, só as vi depois de 1987 e elas estavam vinculadas por serem namoradas de algum Breaker que frequentava aquele espaço. Alguém precisa me rememorar, se alguma delas foi lá só para dançar o Breaking e algumas se tornaram MC em meados de 1987/1988. Havia também uma época que todos eram denominados de B-Boy, o B-Boy que tocava era o DJ, o B-Boy que grafitava, era o grafiteiro. Nossa dança, era coreografada ou muito improvisada e sempre fora do ritmo, outro detalhe que mudou muito também para melhor, claro e para corrigir isso, tivemos brigas homéricas de conceitos e provar, algo que demorava, pois os documentos e vídeos com informações não estavam ao alcance dos dedos como é hoje, mas dávamos mais valor a cada momento.
BW: Fale um pouco da Street Warriors, se não me engano foi fundada em 1983, correto? Como era o relacionamento com a sua Crew?
Rooneyoyo: Essa parte da História é linda, pois somos uma família até hoje e para entender isso tive que rever com nossos personagens da época, pois foi uma junção de várias gangues e grupos de dança. Em 1983, no Cambuci, formou-se o P.O.R.T.A.L., que era como chamamos hoje de guarda-chuva de tudo isso e podemos começar com a Star Break do ALAM Beat, Didi, Gula e Faustinho, que virou Zulu On A Time Bomb com ALAM Beat, Didi e Silvão que virou B-Boys City Breakers com a entrada do Raul (ex Funk & Cia), Deley (ex Os Cobras) e Paulinho. Gula e Faustinho (Falecido) montaram a Duck Rockers, a Fantastic Break do Cambuci com Edinho, Mancão, Fubá, Edu “O Bárbaro”, Bulldog, Luciano e Aninha; o Tico e Teco (Os Gêmeos) eram Cambuci Breakers, mas também eram B-Boys Due (nosso grupo de grafiteiros), eu, Tico e Teco e quando iam cantar Rap eram MC Due e, para finalizar a família, a minha Gangue Aclimação Breakers que eram, eu (Ninaco), Hamilton, Gueta e Guetinha, muitos grupos da época mudavam de nome para entrar em concursos. Isso tudo acontecia em 1 ano, ou seja, tem grupo que não durou 2 meses, até que o Mancão e o ALAM Beat com Silvão fundam a Street Warriors e DJ Carlão (Ninja) foi convidado para ser o DJ do grupo. A data é comemorada todo segundo fim de semana de dezembro junto com o P.O.R.T.A.L no Cambuci.
Street Warriors e Rooneyoyo: muito mais que uma gangue, uma família!
BW: Você foi um dos caras que fez os primeiros eventos de Breaking com público abrangendo todos os estados. Fale um pouco dessa vida como organizador de eventos em todos esses anos. O que foram as festas chamadas B-Boys Party, que aconteceram na Avenida Rio Branco?
Rooneyoyo: Eu virei organizador, como pode perceber nas falas anteriores, porque não tinha ninguém que fizesse a produção e também porque tenho sede de ver as coisas acontecerem. Via eventos competitivos acontecendo no exterior pelas revistas e VHS trazidas por amigos que viajavam para o exterior e pensei: “vou fazer isso igual”. Na época, eu tinha uma loja de roupas de Hip-Hop voltada para o nosso público e usava o lucro da loja para subsidiar e promover estas festas. Foi como tudo começou, mandando cartas pelo correio, colocava anúncios em revistas especializadas e quando respondiam, os convidava, fiz muita feira de moda fora de São Paulo, quando vinham ao meu balcão de vendas itinerante (estande) comprar alguma peça, já pegava contato e com certeza iriam receber um convite pelos Correios. A B-Boys Battle Party era uma festa mensal que promovíamos nos clubes do centro da cidade daquela época, entre 1998 até 2001, alugávamos o local e trazíamos os equipamentos. Tudo devido a julho de 1998, quando os encontros da Estação São Bento do Metrô foram proibidos, pois estavam mudando para um lado mais comercial com lojas e não queriam nosso povo lá, tentamos ir para a rua em outros pontos e não vingou, foi aí que decidimos fazer estes encontros, uma vez por ano fazia o B-Girls Battle Party, onde descobri uma mina, a DJ Nice, que competia no DMC (competição de DJs Nacional), ela gostava de Break Beat Europeu, uma parte da festa era comandada por elas; uma vez ao ano também fazíamos a Batalha Final, uma competição de coreografias e no final tinham batalhas de grupo. Os anos foram passando e fui mudando regras e categorias, hoje temos o foco voltado em competições de alto rendimento.
BW: A primeira “Batalha do Ano” que levou 3 mil pessoas aconteceu em qual ano? Como foi esse evento?
Rooneyoyo: Nosso primeiro evento da Batalha aconteceu em 1999, como fazíamos as festas mensais com batalhas individuais, de duplas, misto, de Old School vs New School (acima de 30 anos versus abaixo de 14 anos), B-Girls Battle, pensamos: vamos fazer a B-Boys Battle Party Annual Contest, com o nome Batalha do Ano que foi um desastre comercial em um negócio mal elaborado com o B.O.T.Y mundial, mas o público veio em massa. Tentamos mais um ano, mas para arrumar patrocínio era muito difícil, pois levar até quatorze pessoas para a Alemanha era oneroso e comercialmente inviável, mudamos o nome que segue até hoje, Batalha Final. Creio que este público de 3 mil seja em 2004, no Parque Dom Pedro, na antiga fábrica da Comgás, um espaço com 11 mil metros quadrados e dezenas de espaços, criamos uma sala onde só tocava Funk Style, creio ser a primeira deste gênero, um ambiente de 1.200 m², onde forramos com Madeirit branco para o Breaking, tivemos 17 DJs, em um pico totalmente abandonado, lembro que até os Guardas da Polícia Metropolitana ajudavam a segurar as escadas pros Pichadores e Grafiteiros fazerem seus trabalhos, ali nosso público dos 2 dias atingiu cerca de 8 mil pessoas, 3 mil no sábado e 5 mil no domingo. Foi assustador ver aquele mundaréu de gente em um pico sem nenhuma estrutura, mas era uma época Roots mesmo, fazíamos as coisas com muito amor, paixão, hoje somos mais comerciais, seguimos regras e leis, outros tempos.
Na foto como MC da DMC. Rooney foi pioneiro ao criar a primeira Batalha de Breaking profissional, trazendo grande público, Batalha Final, que ano passado comemorou seus 20 anos de existência.
BW: Fale sobre sua experiência como DJ e quando fez a escolha de parar de dançar e se dedicar a essa carreira? Estar nas pick-ups é melhor do que estar nas rodas?
Rooneyoyo: O ser DJ era uma época que achava que tínhamos que ser tudo para ser da cultura, adoro música e adorava ver como os DJ´s faziam para mixar, achava aquilo mágico, os toca discos eram um sonho de consumo distante. Então, comprava os discos, ouvia, lia, traduzia, copiava as roupas, ficava tentando entender porque das correntes, dos chapéus, das marcas, ficava horas decifrando fotos e encartes. Conheci o DJ Carlão no Cambuci, ele me mostrou um som, o Love Master Ace com a música Diseases e o refrão parecia que ele falava Ninja, foi aí que o batizei com seu apelido, DJ Ninja. Na casa dele aprendi a mixar, cortar, fazer back to back, alguns poucos scratchs, mas demorei muito para ter meu primeiro set de DJ e não escolhi parar de dançar, tenho problema na coluna, sinto dores e fui diminuindo minha ação como dançarino gradativamente, na real sempre quis dançar Popping, mas não tenho essa aptidão e fui parar no chão mesmo. E não tem comparação uma arte com outra, estar nos toca discos comandando um evento ou festa é diferente de estar nos palcos ou numa roda (Cypher) como dançarino. Gosto de tudo, então, pulo esta decisão.
BW: Você esteve fora do país algumas vezes, nos conte sobre suas experiências e sobre grandes amizades que fez pelo mundo.
Rooneyoyo: Todo ser humano tem que se oportunizar a sair de seu bairro, município, estado e país, trocar experiências ou vivenciar outras culturas, estudar para poder entender, respeitar para poder se posicionar, cultivar seres com propósitos parecidos, ser respeitado e ser verdadeiro com sua essência, olhando de fora parece algo surreal conhecer seus ídolos, mas criar seu conceito dentro de outra cultura traz verdade no seu eu, faz ser respeitado pelos criadores de uma arte que pode ser usada para o bem. Fazer amizades pelo mundo é algo que me faz bem, traz paz, faz o mundo ficar pequeno. Nada é impossível.
DJ Ninja e DJ A.G. Naja (Rooneyoyo): parceria de longa data na Cultura Hip-Hop.
BW: Tocar na São Bento tem algum significado especial para você? De onde saíram os nomes DJ Naja e O Guardião?
Rooneyoyo: Sim, tocar ali, onde eu aprendi a estudar, pesquisar, me moldou para ser o que sou hoje, é impagável. Me fez entender quem eu sou e porque estou na Cultura. A.G. Naja, A. G. era o Assistente Geral do DJ Ninja, da época do disco do Hip-Hop Cultura de Rua, da Dupla MC Jack e DJ Ninja. Eles tinham muitas colagens e intervenções durante o show, não dava tempo de fazer tudo sozinho, eu tinha que ser preciso, tinha que ser dinâmico, segurava os discos, fazíamos shows com vinil e eu era como um Roadie, um faz tudo do grupo. O apelido Naja foi para combinar foneticamente com o nome do Ninja. O Guardião veio após uma palestra sobre a evolução disso ou evolução daquilo sobre Hip-Hop, mas poucos defendiam a raiz da cultura, sabemos que um povo sem passado é um povo sem História. Fui para casa pensativo e irritado, então adotei este codinome como simbologia de ser um cara que respeita a raiz, como tenho muito material da “Febre Breakdance” é como se fosse um ancião, quando alguém precisa de uma informação, procuro as referências que tenho para contribuir.
BW: Em sua caminhada, você ajudou muitos B-Boys e B-Girls a encontrarem seu próprio caminho. Em recente evento a B-Girl Miwa falou justamente da gratidão que tinha a você! Na sua visão, quais são as maiores dificuldades hoje na vida de um B-Boy ou de uma B-Girl?
Rooneyoyo: Creio muito no ajudar sem olhar a quem, mas lógico, com o passar do tempo você aprende a ajudar a quem quer ser ajudado e hoje estou bem seletivo, pois muitas pessoas acabam se aproximando para tirar proveito da sua boa vontade e você vai perdendo a fé nas pessoas, justamente por causa dos mal-intencionados e muita gente deixa de ser beneficiada por isso, e todos perdem. É um assunto delicado e muito pessoal, a Miwa que você citou é uma mulher inteligente e dedicada, na época vi um potencial circunstancial diferente e foi uma troca mútua de trabalho e conhecimento, tinha minhas ideias e ela fome de fazer algo importante para ela e pra Cultura, tenho esse olhar de perceber o potencial em algumas pessoas, umas dão muito certo outras não, devido a fatores variados, os que dão certo ficam para a História, os que dão errado dá vontade de desistir de tudo, porque são pessoas que te traem e não entendem o quão profundo é ser leal e respeitar sua criação intelectual. Isso vem acontecendo com mais frequência, alguns querem ser você sem viver a sua experiência, os valores de hoje são fúteis e sem pudor, cada vez eu vejo menos pessoas criativas e sem propósitos longínquos, são imediatistas, isso não é bom para ninguém. Não há dificuldades se fizer um planejamento, mas para isso o dançarino precisa entender e respeitar vários níveis de ação global. Estamos falando de Brasil? Aqui estamos muito à frente dos nossos vizinhos, porém, sonhando errado. É fácil, falando de competições, derrotar o mundo todo com nossa aptidão corpórea, mas não respeitam as hierarquias e conhecimentos dos mais velhos e se baseiam em pessoas erradas, apoiam um desconhecido que nunca fez nada pela sua categoria em detrimento de achar que é seu concorrente. Muitos criam mecanismos abstratos e temporários, isso não funciona e vai dar errado. Se não unir a categoria, nunca dará certo e tem um monte de gente indo no caminho errado, porque é o mais curto, dificuldade haverá sempre, devido às escolhas egoístas.
Para Rooneyoyo “O Guardião” tocar na São Bento é uma experiência impagável e traz sensações inigualáveis.
BW: Das festas de B-Boys Party na Rio Branco diretamente para o futuro. Hoje falamos de Olimpíada e você é o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking. Você imaginava no passado que o Breaking chegaria a virar uma modalidade olímpica? O que acha sobre o fato do Breaking ter sido indicado como mais uma modalidade olímpica? É possível com toda essa evolução que se perca a essência desse elemento como muitos temem?
Rooneyoyo: Já tive esta conversa com Crazy Legs em 1999, quando o trouxemos, em um dos jantares parece que tivemos a mesma sensação e desejo de ver o Breaking competitivo nas Olimpíadas, porque falamos da abertura nas Olimpíadas de 1984 nos EUA, justo na febre do “Breakdance” e ficamos imaginando como seria, foram horas discutindo conceitos, pois eles são os criadores e nós consumidores, então, até ele entender a ótica de quem não vive nos Estados Unidos da América, que eles estão em um país corporativo e nós em um país assistencialista e isso não é fácil. Mas, não imaginava de fato que isso aconteceria. Hoje tenho um pensamento crítico muito profundo sobre este assunto, creio que é cedo para essa admissão da nossa modalidade, pois o mundo todo precisaria ter uma política pública voltada para o esporte e um apoio mais forte em todos os países, o que ninguém percebe é que temos uma disparidade cruel e injusta, enquanto Europa e Ásia gasta cerca de 6 milhões de reais para fazer um evento de um final de semana, nós aqui, por exemplo, não conseguimos captar recursos na casa dos 50 mil reais para um evento, muito menos nossos vizinhos Sul e Centro Americanos, Africanos e Oceania, para que estejamos entre os 64 países como consta na proposta para o COI. Politicamente é um evento para envaidecer o capitalista eurocêntrico. Para mudar a ótica da nossa categoria, agora falando dos brasileiros, precisam entender que temos um plano, mas sem adesão não vai funcionar. O que vejo é daqui uns anos, não termos brasileiros competindo pela falta de escolhas coerentes e assertivas neste momento, pois um erro pode frustrar toda uma geração e teremos um delay como estamos tendo no futebol. Conversamos com um dos colaboradores da elaboração das regras para as competições da modalidade, o Storm, apontei várias incongruências na competição, mas como disse, politicamente e esportivamente vai sim perder a essência como muitos temem. Creio que quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar. Daqui 20 anos teremos dois tipos de dança e como irei continuar fazendo as duas danças, a do Hip-Hop e a Olímpica, não tenho este problema. As pessoas vão ter que aprender a separar isso no conceito desde o início, hoje a confusão está estabelecida, Breakers formados em Educação Física criticam as competições de alto rendimento, mas aceitam ser produtores e jurados de competições de empresas que trabalham com o esporte de alto rendimento. Competidores atuais da modalidade, dançam, competem e julgam competições de alto rendimento e são contra as competições Olímpicas, o dinheiro compra as pessoas, mas não admitem que o fazem. Por isso, digo que não vai dar certo se não entrarem num consenso. O que eu vejo é medo de se assumirem publicamente, pois ser de uma Federação ou estar em uma Confederação dá trabalho, custa caro e é muita responsabilidade, as pessoas não sabem como funciona, não querem aprender e se dar o trabalho de criar algo que não existe. Repetindo, as pessoas não querem trabalhar para criar algo inexistente, querem o produto pronto para consumo, para poderem criticar em vez de aderir e ajudar a realizar.
Para o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar no alto rendimento.
BW: Com o advento das Olimpíadas o que muda na vida daqueles que pretendem de fato se tornarem atletas olímpicos? O que essa nova geração de B-Boys e B-Girls pode esperar?
Rooneyoyo: Sempre acreditei que tudo pode ser bom, vai mudar a vida de quem ingressar neste foco Olímpico, não só para o Atleta Dançarino, mas para todos que se envolverem, ainda vão abrir caminho para outros profissionais da categoria como comissão técnica, profissionais da saúde, entre outros, mas para que isto dê certo aqui no nosso país teremos que mudar nossa cultura do pensamento, cultura de postura, cultura do estudar, pesquisar, respeitar e nossa política tem que mudar para um campo diferente do que temos hoje, a política do assistencialismo, a política de dar migalhas popularmente falando. Isso nunca funcionou em nenhum país do mundo. O esporte pode mudar isso, melhorar a vida dos brasileiros, mas a política tem que mudar também, a mudança deve demorar uns 50 anos ou umas três gerações, ou seja, não veremos isso acontecer. Mas, vou dar um voto de esperança e fazer um apelo para quem ler esta entrevista, vamos nos unir pela causa juntos ou iremos sempre brigar entre nós e não vamos chegar a lugar algum.
BW: No último ano você realizou a Batalha Final em alguns lugares como no Shopping Tatuapé e no Centro Esportivo Tietê, na Virada Esportiva. Como foram esses eventos?
Rooneyoyo: Desde o início as Batalhas que fazemos são tematizadas, cada ano criamos um conceito e aplicamos nas peças publicitárias e tentamos envolver os participantes para este universo lúdico que nos possibilita viajar dentro da arte. Não fizemos nada novo, porém inédito em São Paulo, entrar em um Shopping e executar um evento com todas as exigências e prazos cumpridos, além de participar de uma Virada Esportiva, com a Secretaria Municipal de Esportes, só mostra o quanto nós amadurecemos profissionalmente e estamos preparados para assumir responsabilidades internacionais com todas as exigências Olímpicas. Executar eventos com apoio governamental é sempre uma roleta russa, exige um grau de flexibilidade de alto nível mental. Nunca é fácil depender e assumir a responsabilidade com as leis que temos, a burocracia não ajuda, os prazos são curtos para uma execução com excelência. Mas, concluímos e superamos a expectativa das metas impostas pelo grupo de trabalho. Com o orçamento que tínhamos foi planejado 4 eventos e executamos um total de 7, incluindo a contrapartida e com uma ação social de doação de reciclagem dos banners que sempre ficam inutilizados, ajudando uma comunidade de mulheres de vulnerabilidade social. Foi emocionante concluir e conseguir este feito dentro da realidade imposta.
Rooneyoyo faz parte do grupo de Rap R.D.P. (Radicais do Peso) e da coletânea SP Hip-Hop All Stars.
BW: Com a pandemia, muitos planos mudaram na vida das pessoas. Em muitos casos, foi necessário uma readaptação. O que você tem feito? É verdade que está trabalhando num novo modelo de evento? Pode falar sobre ele? Quando será e de que forma será?
Rooneyoyo: Essa pandemia nos atrasou 2 anos de planejamento, li e estudei muito e fiquei pensando como poderia mudar parte desta realidade atual. Tínhamos planejado um Brasileiro e um Sul-Americano para este ano, mas seguindo as normas e decretos da OMS (Organização Mundial de Saúde), tivemos que nos adaptar e voltar à realidade imposta. Então, vamos fazer um evento semipresencial, com a participação somente dos competidores, DJ, MC e produção reduzida, sem público, para isso criamos um programa de TV On-Line, com um conceito Cibernético e Eletrônico com o piso individual e com o distanciamento social necessário. Teremos um sistema de julgamento presencial com um aplicativo digital com desenvolvimento de inteligência artificial, muito parecido com o que vai ser usado se aprovado no futuro Olímpico, ou seja, quem participar desta competição já irá sentir a emoção de como será daqui alguns anos. A Batalha Final ocorrerá em breve. Sobre o que eu tenho feito desde março, estudando, consegui ler 19 livros e 8 dissertações de mestrado de amigos, escrevi um texto para um livro que será publicado em breve pelo Os Gêmeos, falando da parte do Rap brasileiro e a correção cronológica do mesmo. Já era para a exposição “Segredos” deles, que será exibida na Pinacoteca, em São Paulo, estar aberta ao público e deve abrir em outubro, tem obras minhas feitas na época que trocávamos desenhos pela janela, não posso dar spoiler mas quem for irá entender este universo do Hip-Hop da sua raiz até o lado mais comercial e aqui fica meu convite para a visita. Dica: comprem o livro e os brindes, vai virar item de colecionador. É isso, estou fazendo algo produtivo, sendo eu e aproveitando para pesquisar mais, pois tenho novidades para lançar em breve, muitos acontecimentos artísticos.
A pandemia mudou os rumos das produções de Breaking no mundo todo. A Batalha Final volta em novo formato na última semana de setembro.
BW: Na sua opinião, o que você acha dos eventos on-line que têm acontecido e como acredita que será a vida futura de B-Boys e B-Girls com esse fator de risco, o novo coronavírus? Que desafios terão que ser enfrentados ao seu ver?
Rooneyoyo: É fato que gostaríamos de ter público presente, mas a pandemia mudou nossas realidades, adaptar faz parte da continuidade. Estou acompanhando alguns eventos on-line e só me mostra o que não fazer, pois conceitualmente estão executando de maneira emotiva, tendenciosa, faz com que desmotivem alguns dançarinos e isso não é bom, por outro lado é importante ter alguns eventos neste conceito, faz com que motivem os dançarinos continuarem treinando, um paradoxo e vejo também muitos competidores com o propósito sem planejamento assertivo e isso é um erro que pode custar caro, procurar uma assessoria seria um bom caminho para melhoria de alguns produtores, uma agenda coletiva poderia ser algo construtivo. Essa doença (Covid-19) é implacável e invisível, os cuidados para com os participantes diretos e indiretos têm que ser levados à sério, temos que aprender a conviver remotamente e conviver conosco sozinhos, este é o maior desafio que enfrentaremos.
BW: Quem é hoje o Rooneyoyo? Qual o legado que pretende deixar para as gerações futuras? E o que significa o Hip-Hop na sua vida?
Rooneyoyo: O Guardião hoje é um cara mais tranquilo e focado em fazer algo que o deixe feliz e em paz. Vai continuar lutando e brigando pelo que acredita, causas que ache importantes, têm muitos sonhos a serem realizados, ideias para tirar do papel e realizar. Um ser pensante e pulsante. O legado é algo que depende de quem vai receber, pois o imediatismo faz parecer inútil o lapidar do tempo, quem dá valor a arte sabe que já cumpriu mais do que prometeu para si próprio, daqui para a frente as ideias estão implementadas e outras podem surgir. Hip-Hop é algo espiritual e orgânico, só vivendo pra sentir e entender.
Fotos: Cadu Barbosa, Willian Machado, 77Produz, DMC e Arquivo Pessoal.
O B-Boy
O Grafiteiro
O DJ
O MC
Rooneyoyo "O Guardião"
VAMOS COMPARTILHAR?
E aí, gostou da matéria? Confira mais de nossas notícias!