O menino é “zika”!

“…minha preocupação mesmo é dançar bem, sempre fazendo o meu melhor.” (B-Boy Ferrugem)


Ele nasceu em Ceilândia, região administrativa de maior influência nordestina no Distrito Federal, considerada também um celeiro cultural e esportivo, por conta de sua riquíssima diversidade artística e atletas da cidade que despontam no cenário nacional e mundial.

Thiago, menino cheio de sardinhas no rosto e sonhos no coração, com uma força admirável, conhecido na cena como B-Boy Ferrugem é mais um exemplo que Ceilândia realmente pode ser uma mãe orgulhosa de seus muitos talentos!

A infância desse menino e dos seus irmãos não foi fácil, viveu dias tristes e bem difíceis dentro de um orfanato, mas podemos dizer que foi amado desde o início por Dona Josefa Araújo, sua mãe adotiva, mulher guerreira que tem 10 filhos, onde 8 são adotados e por seu irmão Sidney. Josefa lutou 5 anos para que tudo se regularizasse e pagou um alto preço por esse amor, que valeu a pena pela felicidade que sente hoje vendo a família unida.

Foi no orfanato, também, que Ferrugem teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop e com o elemento Breaking. Sempre teve o Project Sagaz, que é um projeto social de Cultura Hip-Hop, idealizado e realizado na cidade de Águas Lindas, de Goiás como família e o B-Boy Tsu como seu referencial na dança, ensinando tudo que o menino sabe.

Hoje, Ferrugem tem 15 anos e recentemente, em 2020, passou a fazer parte também da DF Zulu, que é a Crew mais antiga do Distrito Federal. Essa semana, o Portal Breaking World teve o privilégio de escutar e agora contar para vocês a história desse menino que, sem dúvida, é mais um grande nome da nova geração de B-Boys brasileiros que vão conquistar o mundo nos próximos anos, confira a entrevista:

 

BW: Nome completo, idade. Queria que você nos contasse: onde nasceu?

Ferrugem: Sou Thiago Araújo de Sousa, tenho 15 anos, sou conhecido como B-Boy Ferrugem, nasci em Ceilândia, no Distrito Federal.




Dançar bem dando sempre o seu melhor é um dos objetivos do B-Boy Ferrugem.



 

BW: Verdade que teve toda uma luta ligada a um processo de adoção? Nos conte sobre todos esses desafios, como isso afetou sua vida e sobre as vitórias que consegui nesse sentido?

Ferrugem: Esse processo de adoção levou cerca de 5 anos até a total regularização da minha situação, porquê no processo envolvia mais 2 irmãos meus, que também foram adotados pela minha mãe. No final deu tudo certo e hoje tudo que envolve documentação é resolvido de forma simples. Essa situação resolvida facilitou todas as questões de viagens e afins.

 

BW: Como você conheceu o Sidney e a sua nova família?

Ferrugem: Foi um momento muito triste da minha vida, não falo muito sobre essa época porque tem um processo correndo na Justiça. Eu e meus irmãos sofremos muito, mas minha mãe lutou muito por nós.

 

BW: Como é sua relação hoje com sua família, com o Sidney? Fale um pouco sobre todo esse amor…

Ferrugem: Mesmo tendo contato com minha família biológica, a minha referência é a minha mãe adotiva, que sempre pagou um alto preço pra me ver bem, o Sidney é um irmão de fato, me cobra dedicação, conversamos bastante, às vezes ele é chato, mas sei que é pro meu bem. Hoje somos 10 irmãos, 8 são adotados!

 

 

 

Dona Josefa Araújo é mãe adotiva de Ferrugem e que tem mais 7 filhos adotivos e dois biológicos: coração gigantesco de uma mulher guerreira!



 

BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? Onde e como foi?

Ferrugem: Foi ainda no orfanato, em uma apresentação de Breaking que vi.

 

BW: Com quantos anos começou a dançar Breaking? Alguém te ensinou? No princípio, quem foram suas referências?

Ferrugem: Comecei mais ou menos com 8 anos, na mesma época em que nasceu o Project Sagaz, o B-Boy Tsu da DF Zulu sempre foi meu referencial na dança, sempre me cobrou empenho e me ensinou praticamente tudo que sei.

 

BW: Em relação ao Breaking, teve algum movimento que foi mais difícil de aprender ou que ainda é?

Ferrugem: Acho que foi muito [difícil] o Top Rock e Footwork, que no princípio eu tive que me dedicar bastante pra aprender e entender.

 

BW: Você ao dançar passa uma força, uma seriedade e uma grande concentração. De onde vem tudo isso?

Ferrugem: Isso vem muito do que o Tsu e Project Sagaz passa pra mim e pros meninos que fazem aula.

 

 

Nas batalhas de Breaking, o menino chama a atenção pelo foco e concentração.



 

BW: Fale um pouco de suas rotinas de treinos. Quantas vezes na semana treina e como tem feito nesse tempo de pandemia?

Ferrugem: Não tenho treinado tanto nesse período, mas ocasionalmente eu vou nos treinos mais restritos que tem no projeto.

 

BW: Quem te deu o apelido Ferrugem? E de onde surgiu esse nome?

Ferrugem: Devido às minhas sardinhas no rosto, foi automático.

 

BW: Como se prepara para cada batalha? Você fica apreensivo ou é tranquilo?

Ferrugem: Geralmente, fico tranquilo, mas sei da importância.

 

BW: Fale um pouco sobre as principais vitórias em campeonatos. Quais foram os principais eventos onde você foi campeão?

Ferrugem: Um dos principais eventos que ganhei foi a batalha de 1 ano do Encontro de B-Boys de Águas Lindas, porque foi contra adultos, todo mundo podia se inscrever (2018), 2 vices campeonatos da Chelles Battle, foi importante pra mim. Campeão do Festival Quando As Ruas Chamam em 2018 e vice em 2019, 3º Colocado da batalha de Breaking do Festival Elemento Em Movimento, maior do Centro-Oeste, em 2018.




Além do Project Sagaz (na foto), B-Boy Ferrugem também faz parte da DF Zulu Crew.



 

BW: Como você trabalha o seu emocional na hora que ganha ou na hora em que perde? O que você sente quando está dançando?

Ferrugem: Na verdade, eu nem me preocupo muito com isso, minha preocupação mesmo é dançar bem, sempre tentando dar o meu melhor.

 

BW: Fale sobre sua Crew, sobre o Project Sagaz e como você se relaciona com essa grande família?

Ferrugem: O Project é um lugar muito especial, ali é bem mais que uma Crew, todo mundo se preocupa e apoia todo mundo, é realmente uma família!

 

BW: Verdade que esse ano você começou a fazer parte também de uma outra Crew?

Ferrugem: Verdade. Entrei para a DF Zulu que é a Crew mais antiga do Distrito Federal.

 




A dificuldade encontrada no processo de adoção atrapalhou os planos de dançar fora do Brasil.

 

BW: Você já competiu fora do país? Tem sonho de ir? Tem algum B-Boy estrangeiro ou brasileiro que você admira muito?

Ferrugem: Ainda não fui, mas já recebi vários convites, o fato do processo de adoção ter demorado regularizar a situação do meu nome atrapalhou um pouco nisso.

 

BW: Como você administra dança e os estudos? Em que série você está? As pessoas costumam na escola te pedir para dançar?

Ferrugem: Na verdade sempre puxam minha orelha por causa disso, estou na 8ª série, as pessoas sempre pedem pra eu dançar!

 

BW: Fora a dança o que você mais gosta de fazer?

Ferrugem: Jogar futebol, jogar Free Fire e jogar fliperama no projeto.

 

BW: O que significa o Breaking na sua vida?

Ferrugem: É algo que me deu aprendizado, uma nova visão de vida.

 

 

Assim como outros B-Boys e B-Girls Kids, Ferrugem sonha em disputar os Jogos Olímpicos.



 

BW: O que você acha da possibilidade do Breaking virar um esporte olímpico? Você gostaria de ir para uma Olimpíada?

Ferrugem: Acho que o Breaking merece visibilidade, eu gostaria muito de participar de uma Olimpíada e ter essa experiência.

 

BW: Quais são seus planos para o futuro? Onde você pretende chegar?

Ferrugem: Quero terminar meus estudos, me dedicar mais à dança, crescer junto com o Project Sagaz, ajudando as pessoas da nossa cidade, acho que é isso por enquanto.

 

BW: Mande uma mensagem para todos que estão lendo essa entrevista.

Ferrugem: Espero que esse tempo de pandemia acabe logo, para que possamos voltar com as coisas que gostamos de fazer, sem medo.

 


Fotos: Arquivo Pessoal/Shake It

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