O Comitê Olímpico Internacional (COI) confirmou nesta segunda-feira (7) a entrada do Breaking, do Skateboard, da Escalada e do Surfe como esportes olímpicos em 2024, nas Olimpíadas de Paris.
O Breaking será a primeira disciplina de “Dance Sport” a aparecer em Jogos Olímpicos, após sua estreia bem-sucedida nos Jogos Olímpicos da Juventude (YOG) em Buenos Aires, Argentina, em 2018. “Hoje é uma ocasião histórica não apenas para B-Boys e B-Girls, mas para todos os dançarinos ao redor do mundo”, disse o presidente da World Dance Sport Federation – WDSF, Shawn Tay. “O WDSF não poderia estar mais orgulhoso de ter o Breaking incluído em Paris 2024 e agradecemos a todos que ajudaram a tornar isso possível: o Conselho Executivo do COI, os organizadores de Paris 2024, a equipe do WDSF e, o mais importante, a própria comunidade do Breaking. Foi um verdadeiro esforço de equipe chegar a este momento e vamos redobrar nossos esforços na preparação para os Jogos Olímpicos, para garantir que a competição de Breaking em Paris 2024 seja inesquecível.”
A decisão de incluir o Breaking em Paris 2024 foi feita hoje pelo Conselho Executivo do COI em sua reunião final de 2020. A competição em Paris 2024 contará com 16 B-Boys e 16 B-Girls competindo em batalhas 1vs1. O Conselho Executivo também aprovou Skateboarding, Escalada Esportiva e Surf para o programa de esportes da XXXIII Olimpíada, que está programada para acontecer na capital francesa de 26 de julho a 11 de agosto de 2024.
Os organizadores de Paris 2024 propuseram os quatro esportes em resposta a um novo nível de flexibilidade concedido às cidades-sede dos Jogos Olímpicos, para incentivar a inovação no programa olímpico. As cidades-sede, começando com Tóquio 2020, têm a opção de sugerir novos esportes e eventos para inclusão em sua edição dos Jogos que não vinculem os futuros anfitriões dos Jogos. “É com imensa alegria e um toque de alívio que recebemos este evento e esta decisão”, disse Mounir Biba, um B-Boy francês e embaixador do Breaking, que foi juiz do YOG de Buenos Aires. “É um grande passo e um momento histórico. Começando do nada há 50 anos, o Breaking foi construído por conta própria, mas agora encontrou uma família. Resta-nos cumprir a honra que nos foi concedida, mas estou totalmente confiante de que o faremos. Existem muitas pessoas apaixonadas em todo o mundo, fazendo um trabalho incrível todos os dias para nutrir e preservar a cultura. O percurso desportivo em que vivemos só vai reforçar a posição que sempre defendi, ou seja, de que somos atletas! Elogio à disposição dos organizadores de Paris 2024, o trabalho do WDSF e a escolha do COI de incluir nosso esporte nos Jogos Olímpicos de Paris. Nos vemos em 2024 para um grande show”, conclui.
A decisão de hoje do COI reconhece o apelo mundial e o crescimento do Breaking, exemplificado pelo sucesso dos três eventos de Breaking nos Jogos Olímpicos da Juventude 2018 na Argentina, onde mais de 30.000 pessoas compareceram cada dia para ver a competição. Desde então, a jornada olímpica de Breaking mudou cada vez mais. O WDSF World Breaking Championship 2019, realizado em Nanjing, China, foi saudado como um grande sucesso. Mais de 150 B-Boys e B-Girls de 66 países, incluindo alguns dos maiores nomes do Breaking, competiram no evento. A edição de 2020 do campeonato, também marcada para Nanjing, foi adiada para 2021 como resultado da pandemia. O Breaking chamou a atenção na primeira edição dos Jogos Urbanos Mundiais (WUG) em setembro de 2019, em Budapeste, Hungria, e está programado para deixar sua marca na próxima edição dos Jogos Mundiais também, programados para julho de 2022 em Birmingham, Alabama, EUA. Em dezembro de 2019, o COI confirmou que o Breaking retornaria para os próximos Jogos Olímpicos da Juventude de Verão em Dakar, Senegal. Originalmente programado para 2022, o Dakar YOG foi adiado no início deste ano para 2026, devido a pandemia pelo novo coronavírus.
A notícia foi comentada por alguns B-Boys e B-Girls espalhados pelo mundo:
B-Boy Lil Zoo (MAR): “Fazer parte dos Jogos é algo lindo. Isso agrega mais valor à dança para pessoas que não a conhecem. Isso traz muitas oportunidades e patrocinadores. Estou muito feliz e mal posso esperar.”
B-Girl Kastet (RUS): “Acho que o fato do Breaking se tornar parte dos Jogos Olímpicos é uma boa oportunidade de crescer. Minha dica para vencer é ter a mente aberta, estar aberto à cena e estar ciente de suas fraquezas. Apenas seja verdadeiro com quem você é.”
B-Girl Mess (NED): “Quando eu comecei o Breaking, ninguém acreditava que era algo sério. Se você assistir hoje em dia, pode ver o nível de Breaking – o quão alto ele se desenvolveu por meio de movimentos incríveis e uma abordagem muito artística. Tornou-se uma arte, tornou-se um esporte e uma cultura global. Tudo é possível e você pode se desenvolver como um artista incrível, um atleta incrível.”
B-Boy Kid Karam (GBR): “Se eu fosse representar meu país nos Jogos, seria muito impressionante. Representar um lugar como aquele onde tem uma grande identidade e o público em geral, poder se envolver e ver o que fazemos – seria uma coisa incrível. Ficaria honrado com isso e adoraria fazer isso.”
B-Boy Shigekix (JPN): “É uma coisa tão incrível que Breaking vai ser um dos esportes nos Jogos olímpicos. Se eu for capaz de representar meu país, gostaria de dar o meu melhor e mostrar tudo o que puder. ”
B-Girl Madmax (BEL): “Eu estou dançando Breaking desde os 14 anos e nunca esperei que um dia pudesse representar a Bélgica nos Jogos. Se eu tiver sorte e me sair bem nos próximos anos, talvez um dia eu tenha a chance. Vamos!”
O assunto também foi comentado em Portugal e no Brasil:
Max Oliveira (POR): “Será importante existir uma estrutura nacional forte e organizada. Podes ser o melhor B-Boy do planeta, mas se o teu país não tiver uma boa estrutura e organização, dificilmente irás ter acesso às Olimpíadas em pé de igualdade com outras potências mundiais, sabemos que existem países que já têm o seu lugar reservado nos Jogos Olímpicos, independentemente do nível dos praticantes.”
Rooneyoyo (BRA) Presidente da Confederação Brasileira de Breaking – CBRB: “Aguardamos por 4 anos este anúncio e por fim chegou em um momento delicado politicamente, devemos acreditar firmemente no objetivo e avançarmos nas negociações propositivas e de políticas públicas para o esporte da nossa categoria, não faltarão esforços para isso da confederação. Agora é hora de trabalhar sério e mostrar do que o brasileiro é capaz.”
B-Boy Leony (BRA): “Agora só depende de nós, brasileiros, se organizar para representar o Brasil lá.”
A nova geração de B-Boys e B-Girls também opinam:
B-Girl Angel do Brasil: “É muito bom receber essa notícia! Esse ano tive boas oportunidades no E-Fise Montpellier Honor, na França e em eventos internacionais. Estou me preparando todos os dias para grandes eventos. Com determinação, dedicação, é possível chegar lá.”
B-Boy Maguila (BRA): “Eu acho uma ideia boa, por que o Breaking vai ser mais reconhecido e também praticado. Eu gostaria muito de participar.”
B-Boy Richard (BRA): “Eu acho muito bom. Eu gostaria de participar, a esperança é a última que morre.”
B-Boy Eagle (BRA): “O Breaking agora faz parte dos Jogos Olímpicos e isso é muito bom. Gosto da cultura, da essência, mas também gosto da modernidade e da possibilidade de representar o meu pais durante as Olimpíadas.”
B-Girl Aninha (BRA): “Achei muito interessante, isso será uma chance para todos nós de sermos reconhecidos.”
O Portal Breaking World se alegra em poder dar essa notícia e cobrir todas as notícias sobre os Jogos Olímpicos, além de ouvir os B-Boys e B-Girls. Também torcemos para que haja mais entendimento e uma melhor organização. E, claro, muitos brasileiros preparados para subir no pódio!
Fotos: Arquivo Pessoal / Divulgação
B-Boy Bart
B-Boy Leony
B-Girl Angel do Brasil e FabGirl
B-Boy Maguila
B-Boy Eagle
B-Boy Richard
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“… Nada, absolutamente nada vai ser fácil e é por isso que poucos conseguem. Por isso, tenha em mente se é isso que realmente quer pra sua vida e corra atrás.” (B-Boy Leony)
Ele nasceu em Belém, capital do estado do Pará, que é uma cidade portuária e a porta de entrada para a região do Baixo Amazonas do Brasil.
Sempre morou no bairro do 40 Horas. Como todo menino, quando pequeno gostava de jogar bola e brincava na rua até altas horas da noite. Hiperativo, não parava nem um minuto sequer. O que nunca lhe faltou foi energia!
Sendo o mais velho dos filhos de Dona Elizete, foi criado com suas irmãs por sua mãe sozinha, mulher guerreira, como ele mesmo relata com orgulho.
Aos 12 anos de idade, por influência de um primo próximo, conheceu o Hip-Hop, se apaixonando no primeiro momento pelo movimento Head Spin [Giro de Cabeça], começando sua caminhada de sucesso no Breaking, passando a competir em 2012.
Mas foi em 2013 e 2016 que conquistou o título de Melhor B-Boy do país. E, em 2017, foi tricampeão do Red Bull BC One no Brasil. Segundo B-Boy Pelezinho, que foi um dos jurados do evento que deu o segundo título para Leony, ele começou a se destacar por sua autenticidade. Na época, Pelezinho declarou: “sabe muito bem combinar os movimentos. Sua habilidade é impressionante, por isso mereceu mais uma vez o título”.
O tempo passou muito rápido e foi generoso com o B-Boy, que gosta de saborear açaí com mortadela em Belém, o consagrando como um dos maiores nomes da sua geração no Breaking, mas também trouxe responsabilidades por ser um B-Boy mundialmente conhecido.
Agora, em 2020, Leony se considera mais “light”, treinando 3 vezes por semana e recentemente experimentou em sua vida a experiência da paternidade, com o nascimento do seu primeiro filho João Miguel.
Ele reconhece que com essa nova fase alguns planos mudaram, mas colocou um objetivo bem motivador, que é ser campeão mundial nos próximos 2 anos. Pretende também ingressar numa faculdade e abrir um negócio.
Gostou da história e quer saber mais? Então confira o papo que o Portal Breaking World teve com esse B-Boy que é um dos grandes nomes do Breaking da atualidade:
BW: Queria que você falasse onde nasceu e cresceu. E contasse um pouco sobre a sua infância e sobre sua vida em família.
Leony: Nasci em Belém do Pará e fui criado no bairro do 40 Horas, que até hoje resido. Minha infância foi muito feliz, como todo moleque gostava de jogar bola, brincava até altas horas da noite e era muito hiperativo, não parava nem um minuto. Sou o mais velho de duas irmãs e fui criado pela minha mãe Elizete, que é uma guerreira que criou os filhos sozinha.
Nascido em Belém, Leony foi criado com as irmãs pela mãe Elizete: “uma guerreira”, segundo o B-Boy.
BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Quando o Breaking passou a fazer sentido na sua vida?
Leony: Meu primeiro contato com o Hip-Hop aconteceu por meio do Breaking, meu primo, que foi criado comigo, certo dia chegou em casa e falou que um amigo dele estava fazendo “Hip-Hop” e ele queria aprender como fazia, eu me apaixonei quando vi esse tal amigo do meu primo fazendo giro de cabeça e a partir daí comecei a entrar no mundo do Hip-Hop. Difícil falar o momento exato que o Breaking passou a fazer sentido para mim, porém, quando eu vi os B-Boys e as B-Girls dançando, eu já me apaixonei de cara. Mas, se puder falar de um momento, seria que ele fez sentido pra mim quando eu comecei a ajudar as pessoas ao meu redor.
BW: Com que idade começou a dançar? Alguém te ensinou? Nessa época existiam pessoas que você se inspirava? Além de dançar o que gostava de fazer?
Leony: Comecei a dançar no final de 2008, com 12 anos e no início eu aprendia com os meninos da nossa turma, que começaram a dançar junto comigo, não existia uma pessoa ali pra ensinar. No ano de 2008, o maior nome que já era o destaque era o Amazon B-Boys e eles me inspiravam muito (todos queriam ser eles). Eu antes de dançar fui carateca, cheguei a ser faixa verde e até participei de alguns campeonatos.
BW: Você começou criança na dança e também entendeu cedo que deveria buscar os próprios movimentos e estilo, que foi algo que sempre chamou a atenção. Como foi isso? Verdade que você incluí elementos da cultura paraense como o Carimbó e o Tecnobrega na sua dança? Ser diferente era um objetivo?
Leony: Sim, eu sempre busquei minha identidade, eu olhava B-Boys como Menno, Lego, Abstract, Luigi e queria ter o meu “style”, assim como eles. E por muito tempo não sabia como fazer. Em 2011, eu fui à França e lá foi um divisor de águas pra isso, eu pude conversar e ver com meus próprios olhos o que deveria fazer, então, voltei e comecei a buscar isso. A primeira coisa que eu fiz foi olhar pra minha cultura regional e usar isso, usando movimentos e ideias do Carimbó, por exemplo. Ser diferente era a minha busca, pois acho que isso é o que faz o Breaking ser o que ele é.
Leony incorpora em seu estilo elementos de outras danças, como o Carimbó.
BW: Durante seu aprendizado houve movimentos mais difíceis de aprender? Quais? Como você superou as dificuldades?
Leony: Eu sempre tive dificuldade com Power Moves, até hoje não sei o Giro de Cabeça [Head Spin], que foi o movimento que eu me apaixonei (risos). Então, eu notei que tinha mais facilidade para movimentos que exigiam mais técnica a princípio do que força e assim fui aprendendo esses movimentos, como por exemplo, o Moinho de Vento [Wind Mills].
BW: Você teve apoio da sua família na dança? Como todos viam sua ligação com o Breaking?
Leony: A princípio minha mãe achava que era só um hobby, quando ela percebeu que era algo sério, ela apenas me aconselhava a sempre ter um plano B. O resto gostava também.
BW: Como você administra dança e estudo? Qual o seu grau de instrução? Pretende continuar estudando? Na sua opinião são importantes os estudos para quem dança?
Leony: Eu sempre estou estudando e acho que devemos e podemos conciliar os estudos com dança, eu tenho o ensino médio completo e pretendo fazer uma faculdade de publicidade em breve. Estudar é um complemento obrigatório em tudo.
O B-Boy reconhece a importância dos estudos para o sucesso.
BW: Quando começou de fato a competir? Quais foram os eventos que fizeram toda a diferença na sua vida?
Leony: Comecei a competir em 2008, mesmo logo depois de iniciar na dança. Eu tive dois eventos que me ensinaram muito, o primeiro foi o Boty Brasil 2011 (Battle of the Year), onde competi com minha Crew pela primeira vez em nível nacional. O segundo, foi a “Red Bull under my wing” organizado pelo Pelezinho e que me mostrou como o mundo do Breaking é maravilhoso.
BW: Em 2013 e 2016, com apenas 21 anos, conquistou o título de melhor do país. Com isso as cobranças e as responsabilidades aumentaram?
Leony: Sem dúvidas, principalmente depois de 2016 as coisas mudaram e com elas as responsabilidades com o nome “Leony”. Quando se é anônimo você pode errar, experimentar novos estilos, perder, mudar, porém, quando as coisas mudam e você tem um certo reconhecimento, isso fica mais difícil, as pessoas já criam uma imagem e uma expectativa em cima de você, você deve se preocupar com o que fala, veste e faz dentro e fora do mundo do Hip-Hop, tem seu lado bom, assim como seu lado ruim.
BW: Quando saiu a primeira vez do país para competir? Para onde foi? Dançar com os melhores B-Boys do mundo foi desafiador? O que sentiu?
Leony: Minha primeira vez foi em 2011, para a Battle of the Year, na França, foi simplesmente maravilhoso, eu lembro até hoje de cada detalhe dessa viagem, foi lá que eu olhei pra mim e falei “é isso que eu quero da vida”. Foi um desafio, eu me sentia como se não soubesse dançar nada.
Para Leony, o reconhecimento traz consigo grandes responsabilidades.
BW: Que diferenças existem entre o Breaking brasileiro e o que é feito no resto do mundo? Digo principalmente em relação ao preparo e à conduta desses B-Boys e B-Girls?
Leony: Organização sem dúvidas é a palavra que nos difere do resto do mundo. Apenas isso, devemos aprender a ser mais organizados em todos os sentidos aqui no Brasil.
BW: Como você foi recebido em outros países? Pensou alguma vez em ir morar fora do país?
Leony: Sempre fui muito bem recebido em todos os países que estive e muitos eu me surpreendi em saber que tinham admiradores da minha dança lá, eu nunca pensei em morar fora do Brasil, meu lugar é em Belém, tomando açaí com mortadela.
Gosto exótico: açaí com mortadela é um dos pratos favoritos de Leony.
BW: É possível viver da dança no Brasil? Conte sua experiência.
Leony: Sim, é possível. Mas como falei, a falta de organização aqui do Brasil dificulta isso para a maioria. Eu, no início, sofri demais com o lado financeiro (ainda passo aperreios, claro!) mas hoje tenho marcas que me apoiam e tenho também uma cabeça mais madura para tratar dos assuntos e de dinheiro. Eu sempre falo que pra que isso aconteça, para que você chegue a viver de dança, você precisa saber muito bem o que realmente quer da dança, existem diversos meios de viver de dança, saiba escolher um deles e planeje e organize seus passos em busca desse objetivo.
BW: Fale um pouco da sua Crew e do seu relacionamento com todos.
Leony: Minha Crew surge em janeiro de 2006, com o nome de Amazon B-Boys, hoje temos a segunda geração e mudamos o nome para Amazon Crew, pois antes não tínhamos mulher no grupo, mas agora temos e esse título de Crew não era confortável. Hoje sou o líder (só nome mesmo – risos) porque na Crew todos trabalham para o melhor de todos. Temos um convívio muito bom e, claro, sempre temos algumas discussões, que são normais, porém, sou muito grato a cada membro da minha Crew por compartilhar momentos únicos ao lado deles.
BW: Muitos almejam chegar onde você chegou mas desconhecem os sacrifícios. Que conselhos você daria para quem pretende ir longe no Breaking?
Leony: Se você realmente quer isso, entenda que é muito mais sacrifício do que felicidade, nada foi fácil pra mim, nunca! Eu treinava em um local de um Metrô, no concreto, todo dia para ficar bom. Em 2016, eu trabalhei de camelô metade de um ano inteiro para comprar minhas passagens para o Red Bull BC One daquele ano e ir para o Japão. Nada, absolutamente nada vai ser fácil e é por isso que poucos conseguem, por isso tenha mente se é isso que realmente quer pra sua vida e corra atrás, sem ter a menor dúvida de que é isso que você quer ser.
BW: Ganhar e perder faz parte da vida de um B-Boy e de uma B-Girl. Mas como você trabalha isso? Se considera competitivo? As pressões interferem na sua dança? Como trabalha o psicológico?
Leony: Eu sou muito competitivo, eu adoro batalhar, é isso que me mantém focado, claro que eu já perdi muito, porém, eu sempre usei isso para me ajudar a melhorar e evitar as derrotas futuras. Hoje eu me acostumei com a pressão dos eventos, mas no início isso me afetava, sem dúvidas. Não tenho uma fórmula para trabalhar o psicológico, eu acho que isso a gente resolve com experiência mesmo, ou seja, batalhe muito para se acostumar com a pressão.
Para se acostumar com a pressão psicológica não existe receita: tem que batalhar muito, segundo o B-Boy.
BW: Como é hoje em dia sua rotina de treinos. Quantas vezes você treina na semana? Como tem sido nessa época de pandemia?
Leony: Hoje eu sou mais “light” (risos), normalmente treino 3 vezes na semana, com cada treino desse específico para algo. Esse ano, claro, eu fui afetado e treinei bem pouco. A partir de julho desse ano foi que eu pude voltar a treinar, mas ainda estou bem longe da minha forma.
BW: O que você acha dos eventos on-line? Na sua opinião é uma tendência? Como você pensa que será a vida dos B-Boys depois da pandemia?
Leony: Eles se tornaram uma alternativa para esses momentos que vivemos, eu não sou fã desse formato, não gosto, acho “morto”, mas entendo que foi uma necessidade eles existirem. Não acho que é uma tendência os eventos, mas acho que podemos tirar coisas boas disso, como por exemplo, a quantidades de aulas e cursos intensivos de danças que foram criados esse ano. Acho que isso sim é algo que possa virar tendência e eu particularmente acho muito bom.
BW: Muito tem se falado do Breaking nas Olimpíadas. O que você pensa sobre isso?
Leony: Nossa melhor notícia nos últimos anos. Eu torço demais para que o Breaking entre para as Olimpíadas, pois sei que isso sem dúvida vai alavancar nossa arte.
BW: Quais são seus planos e desafios para o futuro?
Leony: Bom, agora eu sou pai e isso sem dúvida mudou meus planos, eu quero continuar dançando, claro e competindo, vou fazer uma faculdade e em breve abro um negócio pra mim. Tenho vários desafios, mas coloquei um bem motivador pra mim, que é de ser campeão mundial nos próximos 2 anos.
Ser campeão mundial, fazer faculdade e abrir o próprio negócio são algumas metas de Leony para os próximos anos.
Fotos: Arquivo Pessoal / D Halsin / Little Shao / Red Bull BC One / 22 Nhati / Quando as Ruas Chamam / Reprodução
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O Breaking virando modalidade Olímpica irá proporcionar boas oportunidades para a cena, que sempre foi vista como marginalizada no Brasil. Se não for trabalhado seriamente e por pessoas competentes, nada vai mudar e a tendência é se tornar como muitas modalidades olímpicas, na qual os atletas passam por muitas necessidades financeiras e acabam abandonando a carreira profissional. Ter uma equipe unida, experiente, igualdade de recursos para todas regiões, implantar um projeto de disseminação para todo o país nas periferias ou em escolas públicas, que se encontram grandes talentos e criar um centro de treinamento com profissionais capacitados: o Brasil poderá se tornar referência nessa modalidade.
Os organizadores do “Paris 2024” disseram que seu objetivo era incluir “modalidades que podem ser compartilhadas nas mídias sociais, que são um meio de se locomover, formas de expressão, estilos de vida por direito próprio, praticadas todos os dias, nas ruas e em outros lugares”.
Por que vai se tornar um esporte olímpico?
Breaking é uma arte e nunca vai deixar de ser, mas também não podemos negar que seus adeptos têm característica atlética, o desempenho físico é fundamental para se tornar uma B-Girl/B-Boy de alto nível, além das competições serem muito semelhantes com campeonatos esportivos oficiais. Sua dimensão criativa e artística torna essa dança alegre, original e atrativa para o público de todas as faixas etárias.
“Breaking nos Jogos Olímpicos” chegaria a mais pessoas, as crianças e jovens estariam mais interessados nos eventos a nível cultural e esportivo, consequentemente o apoio da família. Assim, o Breaking trará um impacto positivo cultural e esportivo, o que promoverá seu desenvolvimento e disseminação a nível global.
O Breaking tem seus valores que levaram a uma modalidade “sustentável e socialmente responsável”, que não exigem instalações permanentes; é culturalmente relevante para a França, que consta mais de 1 milhão de dançarinos, segundo os organizadores de Paris 2024.
É tradição. A cada edição dos Jogos Olímpicos, o país anfitrião incorpora novas modalidades ao Jogos. Paris 2024 incluíram Surfe, Escalada Esportiva, Skate e o Breaking. Essas modalidades foram uma grande estratégia do Comitê Organizador, em prol de rejuvenescer seu público e conectar-se com os esportes de sucesso em todo o mundo para trazer para os Jogos uma dimensão mais urbana, esporte natural, mais artística. O “OCOG” fez sua escolha entre uma lista de 37 esportes reconhecidos pelo COI, com a restrição de não exceder 10.500 atletas, o que limitaria as chances de esportes coletivos e não envolveria novas construções de equipamentos de longa duração, enquanto atrai as gerações mais jovens e contribuía com o meio ambiente.
O programa olímpico já está saturado de esportes inconvenientes, que não são massificados, que não vendem ingressos, que não têm uma legião de fãs. Mas que continuam lá por tradição. Vide Pentatlo Moderno, Nado Sincronizado e tantos outros. Só as modalidades “fixas” usam mais de 10 mil das 10.500 credenciais de atletas, teto por edição. Sobram 500 vagas, que o COI e os organizadores de Paris-2024 tentam otimizar. O Breaking terá 16 competidoras B-Girls e 16 competidores B-Boys a partir dos 16 anos de idade, não tendo idade máxima, porém todos os competidores precisarão estar federados e ranqueados, no total, 32 atletas, que é pouco mais que o tamanho de um único time de beisebol, formado por 24 atletas. A modalidade Breaking representa um investimento menor em comparação com outras modalidades.
Uma das obsessões das cidades que sediam os Jogos Olímpicos é a infraestrutura: muitas instalações e ginásios sendo abandonados depois dos jogos e as novas modalidades inclusas não terão esse imenso prejuízo para o cofre público e também irão chamar a atenção da mídia mundial, atraindo uma legião de fãs, seja com a venda de ingressos, seja pela televisão ou pelas redes sociais.
Por mais artístico e espetacular que seja, o Breaking atende a todos os critérios impostos pelo COI, cerca de quarenta. Para integrar a lista de esportes reconhecidos, precisa de regras bem explicadas, de uma federação presente em pelo menos quatro continentes.
Um teste já foi feito, muitíssimo bem sucedido. O Breaking foi disputado nas Olimpíadas da Juventude de Buenos Aires, no ano de 2018. A competição aconteceu em uma estrutura montada no Parque Madejos, um dos locais mais movimentados e de atmosfera jovem da capital Argentina. Lá foram disputadas também as modalidades de Escalada, Basquete 3×3 e BMX Freestyle: essas duas disciplinas vão estrear em Tóquio-2020/21. Paris, referência mundial em turismo, sabe cuidar do visitante como ninguém. A candidatura já foi desenhada para que as competições ocorram em locais já de intenso fluxo de pessoas, integrando as competições com a cidade e seu entorno. A Olimpíada de Paris tem tudo pra ser a mais legal da história dos jogos.
A competição de Breaking em Paris será organizada pela World Dance Sport Federation (WDSF), que é reconhecida pelo COI há mais de 20 anos como a entidade responsável pela dança esportiva mundial. Especialista principalmente na dança de salão, seja clássica ou em ritmos latinos, ela agora terá que se renovar para abraçar melhor o Breaking e não fazer mudanças bruscas, para não descaracterizar a dança e sua essência, acredito que não vai se descaracterizar e sim acrescentar novos formatos de competição, com boas estruturas e um olhar a mais para as B-Girls e B-Boys.
Esse é o desafio dos próximos quatros anos, dar um caráter esportivo, organizado, para o que historicamente é arte, é cultura. Da mesma forma, os atletas que quiserem competir em Paris, terão que se federarem. É um processo longo, no qual ambos ganham. Ganha o movimento olímpico, cada vez menos careta. Ganha o Breaking, com visibilidade e reconhecimento.
Há um único motivo para que o COI não avance com o Breaking para Paris2024. É a não organização de competições oficiais, não é à toa que a WDSF teve que organizar às pressas o primeiro mundial “oficial” no ano de 2019, contudo se a WDSF não se unir e apoiar os eventos já existentes, mostrará que a modalidade não estará preparada para se migrar aos Jogos Olímpicos. É preciso existir uma base sustentável. Eles esperam criar uma base que torne essa modalidade bem-sucedida a longo prazo.
O formato de “batalhas”, no qual os participantes eliminam seus oponentes para avançar a fase seguinte em uma competição, bem como a atmosfera festiva, vibe nas cyphers e durante as batalhas, contribui para a popularidade dos eventos de Breaking no cenário internacional e essas características são importantes para o COI
Critérios de julgamento
Baseado nos Jogos da Juventude (Buenos Aires 2018). Como foi um evento teste e bem sucedido, toda a competição foi um laboratório para que a entidade responsável, WDSF, pudesse apresentar o projeto para que o Comitê Organizador de Paris2024 aprovasse o Breaking como modalidade Olímpica, desde piso, formato das batalhas, quantidade de competidores (as), arbitragem (jurados) e o sistema de arbitragem foram à teste. A WDSF lançou seu manual de regras e regulamentos oficiais para os Jogos Olímpicos da Juventude de 2018, em Buenos Aires. Este manual inclui o sistema de julgamento que poderá ser usado em Paris 2024, é claro com reajustes.
Irei apresentar o formato que foi utilizado nos Jogos Olímpicos da Juventude em 2018.
Niels “Storm” Robitzky e Kevin “Renegade” Gopie, duas figuras respeitadas na cena, no manual informa que eles foram os mentores na criação do sistema de julgamento. Ao ver imagens do sistema, ele ainda possui “falhas” perceptíveis que o tornam mais um trabalho em andamento do que um produto final, contudo ao passar do tempo será bem mais fácil de trabalhar com esse sistema.
Eles o chamam de “Trivium Value System”, um nome que sugere os três principais critérios do sistema: Corpo, Alma e Mente. Seguindo os critérios atuais, serão compostos da seguinte forma:
Corpo, Qualidade Física: composto por Técnica (20%), Variedade (13,33%);
Alma, Qualidade Interpretativa: composta por Performance (20%), Musicalidade (13,33%);
Mente, Qualidade Artística: composta por Criatividade (20%), Personalidade (13,33%).
Cada juiz move seis controles deslizantes em um tablet portátil para classificar os atletas (B-Girl/B-Boy) em cada um desses critérios. Também existem outros fatores, como escorregões ou falhas, que podem afetar as pontuações.
B-Girls/B-Boys são avaliados por entradas, sendo duas entradas mais um intervalo de 1min30seg e mais duas entradas. As pontuações são calculadas e exibidas por meio de um sistema digital desenvolvido por “and8”: vence uma batalha quem marcar mais pontos somadas as 4 entradas, veja a imagem abaixo da tela do dispositivo portátil de um juiz (jurado):
O que será avaliado: técnica, variedade de movimentos e ou passos, musicalidade, criatividade, execução, personalidade entre outros. Algumas faltas que poderão tirar pontos ou até mesmo eliminar da competição: “Bite” (risos), erros, contato intencional e desrespeitar ao oponente, nesses dois últimos terão 3 advertências para assim ser decretada a eliminação da competição.
Não existe um código preciso para os movimentos que o dançarino fará: ele é completamente livre. O Breaking tem uma grande parte artística, que é obviamente levada em consideração pelos jurados em cada um dos critérios avaliados mencionados acima.
A WDSF irá lançar um curso de arbitragem até final do ano de 2021, um grande avanço para o Breaking e assim acabar com a famosa “panela” que existe, seguindo o sistema das outras modalidades esportivas, os árbitros também poderão ser ranqueados.
Para conquistar uma vaga nos Jogos Olímpicos 2024
O Comitê Olímpico Internacional (COI) fornecerá à WDSF as diretrizes do sistema de qualificação em 2022 (as diretrizes são as mesmas para todos os esportes nas Olimpíadas e cada Federação internacional deve adaptar o sistema de qualificação de acordo com a especificidade de seu esporte), então, caberá ao WDSF propor o formato de qualificação para o Paris 2024, que deverá ser aprovado pelo COI antes de ser oficialmente publicado. Provavelmente haverá entre 4 a 6 eventos de Breaking renomados que serão parceiros para as qualificações, parecido como foi a qualificação para os Jogos Olímpicos da Juventude 2018. Então só teremos 100% de certeza de como e quais eventos irão dar vaga para o tão sonhado ouro olímpico após a divulgação oficial do COI que está prevista pós os jogos de Tóquio. Outro ponto que a WDSF irá fazer é um sistema de ranking, tendo como exemplo outras modalidades esportivas, as B-Girls/B-Boys não necessariamente precisarão ser campeões desses campeonatos, o importante é estar ranqueado entre os 16 “melhores” do mundo, conquistando pontos nos campeonatos, pegando colocações como primeiro, segundo, terceiro e quarto…
O Breaking brasileiro tem nível elevado, que são capazes de conquistarem as medalhas, o nosso principal obstáculo é a falta de estrutura, planejamento e financeiro. Muitos desses dançarinos(as) (atletas) têm outros trabalhos para se manterem, diferente de outros países como EUA, Rússia, Japão, Coréia e muitos países europeus, na qual os dançarinos (as) vivem do Breaking, têm boas estruturas, treinadores e patrocínios. Para concluir, gostaria de entrar em um assunto: muitos estão falando que ginastas iam se migrar para o Breaking… eles até podem, mas pouco provável que irão conseguir uma vaga olímpica, pois os ginastas treinam sistematicamente desde crianças e o Breaking é totalmente oposto, o Breaking em primeiro lugar é uma arte, é livre, cada dançarino (a) tem seu estilo, carisma, criatividade, flavor, com a vibe do público, interpretar seu sentimento conectado com as músicas e com o DJ, um ginasta não tem essas características, que são fundamentais para a formação de uma B-Girl/B-Boy, pois isso acaba sendo natural para quem é da cena, e serão avaliados por B-Boys e B-Girls experientes que conhecem a nossa dança como ninguém, então, não se preocupem com isso e trabalhem para que o Breaking do Brasil seja bem representado.
“O preconceito começou dentro de casa com meu pai, depois na escola, na rua e até dentro do Hip-Hop, onde muitos B-Boys me diziam para parar, que eu não chegaria a lugar nenhum” (B-Boy Perninha)
Ele nasceu em Mangabeira, um dos bairros mais populosos de João Pessoa, que fica na Zona Sul da cidade. Antes e depois de nascer sofreu rejeição e preconceito do próprio pai, que negava a sua paternidade, situação que foi potencializada com a descoberta da deficiência que ele tinha na perna. Uma malformação congênita, ou seja, um encurtamento no fêmur esquerdo. Chamado de bastardo pelo próprio pai, ele foi várias vezes colocado para fora de casa! Mas o carinho e o amor da mãe andaram sempre juntos, ela o motivava a enfrentar as dificuldades e jamais abaixar a cabeça para os problemas, sendo um pilar muito importante para que ele não tivesse rancor pelo pai ou fosse uma criança com problemas emocionais ou psicológicos por conta disso. O conselho era sempre pagar o mal com o bem!
O menino crescia, conheceu a Cultura Hip-Hop no ano de 2008, depois que alguns amigos mostraram o DVD do Red Bull BC One 2005, naquela época tinha 13 anos de idade. No início foi difícil, mas aos poucos foi encontrando a própria personalidade e com o conselho de amigos resolveu fazer os movimentos sem a prótese da perna, desenvolvendo movimentações originais que o caracterizam até hoje. Em 2019, foi para o The Legits Blast Festival, na Eslováquia, onde recebeu o prêmio de “B-Boy Float Most Valuable Breaker OutBreak 2019” como o destaque das cyphers e do evento no qual se encontravam mais de 1.000 B-Boys e B-Girls de todo o mundo e faz parte da Killa Rockers.
Estamos falando de Lucas Ferreira Machado, o “Perninha”, ele conversou com o Portal Breaking World e compartilhou sua história de luta e superação, vale conferir:
BW: Queria que você falasse seu nome, idade, onde e como foi sua infância? Que lembranças você tem dessa época? Fale um pouco da sua família e da sua criação?
Perninha: Lucas Ferreira Machado, 26 anos. Nascido e criado em João Pessoa/PB, no bairro de Mangabeira, minha infância foi um pouco conturbada, pois desde antes de vir ao mundo meu pai já havia dito que eu não era filho dele, após o meu nascimento ele “confirmou” mais ainda esse sentimento em seu coração, ao ver que eu tinha uma deficiência física em minha perna esquerda. E isso fez com que a minha relação com ele fosse muito distante e vazia, mesmo meus pais sendo casados durante minha infância. Minha mãe, por outro lado sempre me motivou a enfrentar as dificuldades e jamais abaixar a cabeça para os problemas, ela foi um pilar muito importante para que eu não tivesse rancor pelo meu pai ou fosse uma criança com problemas emocionais ou psicológicos por conta disso. Ela sempre me dizia “ele é seu pai meu filho, você deve amá-lo, pois o sentimento ruim só fará mal a você, sempre pague o mal com o bem”. Meus pais foram casados até pouco tempo antes de eu começar a dançar, até essa época, eu e meu pai éramos muito distantes, ele sempre teve problemas com bebida e sempre que chegava em casa bêbado ameaçava minha mãe, me chamava de bastardo, depois da separação, quando eu e minhas irmãs íamos passar o fim de semana com ele, ele sempre chegava alterado e me colocava pra fora de casa, repetindo sempre as mesmas coisas: “vá para a casa da sua mãe, aquela rapariga, seu bastardo!”. Na escola sempre sofri bullying por conta da minha deficiência, mas nunca levei pro coração e pelo que minha mãe havia me ensinado também “jamais abaixe a cabeça pra ninguém”. Passado o tempo, hoje eu e meu pai somos bons amigos e, quando eu tinha 18 anos, depois de várias coisas eu e ele falamos pela primeira vez “eu te amo” um pro outro e isso foi um divisor de águas na nossa vida.
BW: Do Nordeste para o Sudeste, escolheu morar no Rio de Janeiro, como aconteceu isso?
Perninha: Minha mudança para o Rio de Janeiro foi devido a dois fatores: o primeiro, por conta que minha esposa é de lá, então, foi uma forma de ficar mais próximo dela e o segundo, que anda lado a lado com o primeiro, foi o mercado do Rio, que comparando com a Paraíba é bem mais lucrativo, eu já tive oportunidade de morar no Ceará, Minas Gerais, Brasília e São Paulo e de todos esses lugares, o Rio foi o lugar onde encontrei bastante trabalho, mas também um lazer de pegar uma praia com a família, coisa que em São Paulo, por exemplo, é quase impossível.
BW: Quando teve contato pela primeira vez com a Cultura Hip-Hop? Como começou no Breaking? Alguém te ensinou?
Perninha: Conheci a Cultura Hip-Hop no ano de 2008, depois que alguns amigos me mostraram o DVD do Red Bull BC One 2005, eles diziam “vamos lá ver, tem um cara que é igual a você”, falavam do B-Boy Junior, da França, depois de assistir aquele DVD, eu que na época fazia vários tipos de esportes, como futebol, parkour, handball, BMX, basquete, futsal, etc., com o objetivo de tentar me provar e também de provar para a sociedade que me olhava como se eu fosse um ET, que eu poderia fazer qualquer coisa igual ou até melhor do que qualquer um. Vi naqueles B-Boys algo surreal, diferente de qualquer outra atividade que eu já havia feito, na época eu tinha 13 anos de idade, daquele dia em diante eu comecei a tentar fazer aqueles movimentos que vi no DVD, em casa, até que um dia um amigo chamado César me levou para um projeto social que havia na igreja que ele frequentava e lá foi onde comecei.
BW: Com que idade começou a dançar? Como foi o tempo de aprendizado? E quando começou efetivamente a competir?
Perninha: Comecei aos 13 anos de idade e no início foi tudo bem dificil, pois eu tentei começar dançando com minha prótese, então, isso me limitava bastante, tanto pela minha deficiência como pela questão de que a prótese não possui articulação, mas um dia, em um treino no Centro de Juventude do bairro, um amigo chamado Nuily me viu tentando fazer alguns Footworks e Top Rocks com a prótese e viu a minha dificuldade, então, ele chegou próximo e disse “Ei, Perninha, porquê você nao tenta dançar sem esse negócio ai? Eu acho que, além de você ficar bem mais livre, você vai poder criar muita coisa original”, e nesse dia eu fiz meus primeiros Footworks, desde esse dia em diante, coloquei a prótese apenas para andar no dia a dia. Minha primeira competição foi no mesmo ano que comecei, em um evento de 2vs2 Kids, ao qual eu e meu irmão de criação, Fidel, participamos juntos, foi nessa mesma época que fundamos a Infect Break, uma crew que até hoje segue ativa na cidade, perdemos na semifinal, mas foi uma grande experiência.
BW: Perninha, queria que falasse um pouco da questão da sua perna, foi algo de nascença? Como superou essa situação que poderia ter sido uma limitação ou um motivo para desistir, mas você dança muito bem Breaking até hoje, nos conte isso…
Perninha: Eu nasci com uma malformação congênita ou mais precisamente, um encurtamento no fêmur esquerdo. Os médicos até hoje não sabem porque eu vim ao mundo com essa condição, pois minha mãe não teve nada que pudesse prejudicar a gestação. Como falei mais acima, os ensinamentos da minha mãe de “nunca desistir” ou “jamais se entregar” foram fundamentais para o meu crescimento e aceitação, juntamente com a Cultura Hip-Hop, que me abraçou e me mostrou que eu poderia ser eu mesmo, pois dentro de uma cypher ninguém olharia para o “perninha deficiente” e sim para o Perninha B-Boy. Sou grato também aos Old School da minha cidade, Kazzuza e o Vant Vaz, que foram pessoas que sempre me motivaram e me deram conselhos para adaptar os passos ou me fazer entender que meu caminho era diferente dos demais B-Boys e B-Girls. E foi graças a essas pessoas e mais algumas, que pude entender como eu poderia explorar minha dança e ser quem eu sou, tanto dentro como fora das batalhas.
BW: Recentemente, na sua rede social, você fez uma rifa para continuar a fisioterapia e a medicação no tratamento de uma lesão, uma protusão em 6 discos (2 na cervical e 4 na coluna). Como isso apareceu? Qual o prognóstico? E como estão essas ações que tem feito? Quem desejar ajudar, como pode participar?
Perninha: Sobre as lesões, eu já havia tido 2 protusões no ano de 2018, fiz fisioterapia e tomei medicação. Depois disso, fiquei “bom”, voltei aos treinos normalmente e nâo senti mais nada. Com a chegada da pandemia, fiquei alguns meses parado e isso provocou um choque no meu corpo. Quando decidi voltar a treinar e competir, por conta dos meses que fiquei parado devido ao início da pandemia, voltei a competir e até então tudo normal. Então, esse ano, quando eu estava treinando, senti uma fisgada no meu pescoço, fui ao médico e todos me falavam a mesma coisa, que era apenas um torcicolo, passei um mês assim e nada desse “torcicolo” melhorar, um dia, eu acordei e parecia que todo o meu corpo estava paralisado, eu não conseguia me mexer sem sentir dor, minha esposa estava tendo que me ajudar até para tomar banho, então, decidi ir novamente ao médico, onde o mesmo passou uma bateria de exames e após ver os resultados da ressonância, me falou que eu estava com 6 protusões, que não era caso de cirurgia, mas que eu deveria tratar o quanto antes para que não se transformasse em uma hérnia de disco e após o tratamento e as dores sumirem, eu deveria seguir um protocolo de fortalecimento para o resto da minha vida, com trabalhos de musculação e fortalecimento. A previsão dada pelos médicos e fisioterapeutas é de 1 a 2 meses para que eu possa voltar a treinar de leve com acompanhamento. A rifa foi uma ideia do Ratin da Killa Rockers, meu companheiro de crew, através da rifa conseguimos levantar o suficiente para custear as primeiras sessões de fisioterapia. Após o sorteio da rifa, eu deixei apenas o meu Pix para quem puder e quiser ajudar com algo, pois ainda estou tendo muitos gastos com medicação e terei que continuar a fisioterapia após as sessões pagas acabarem, pra quem quiser ajudar de alguma forma, é só falar comigo pelo Instagram que eu envio o meu Pix.
BW: Alguma vez você se sentiu discriminado, desanimado ou diferente dos outros? O que usou como ferramenta de superação?
Perninha: Minha vida inteira (risos), mas como falei anteriormente, por conta do que aprendi com minha mãe, sempre usei tudo que jogavam em mim como energia ou combustível para continuar e seguir em frente, o preconceito começou dentro de casa com meu pai, depois na escola, na rua e até dentro do Hip-Hop, onde muitos B-Boys me diziam para parar, que eu não chegaria a lugar nenhum. Mas essas coisas nunca me fizeram parar, aprendi a amar meu pai independentemente do que ele fez e aprendi que pessoas vazias jamais conseguiram ver aquilo que pessoas determinadas veem.
BW: Como você vê a questão dos B-Boys e B-Girls brasileiros que têm alguma limitação? Existem trabalhos e ações no Breaking efetivas para trabalhar esses dançarinos? Ou faltam iniciativas?
Perninha: O Brasil hoje, por incrível que pareça, é um dos países no mundo com o maior número de B-Boys com deficiência e que tem um alto nível, infelizmente, por conta das políticas públicas e da nossa própria cultura, muitas vezes lutamos por coisas que não são tão urgentes quanto outras, diferente do trabalho que fazem fora do Brasil, que mesmo sem ter tantos B-Boys e B-Girls com deficiência, os mesmos têm um amparo muito grande do Estado e das empresas privadas. No Brasil existem trabalhos e iniciativas, mas na maioria das vezes sem investimento. Acredito que falte uma atenção tanto da população como do Estado para a pauta das pessoas com deficiência no geral, pois muitas vezes falamos de diversas lutas, mas esquecemos de uma que dependendo da condição física ou mental, precisa de ajuda para ir ao banheiro, para ler, para comer. Então, que possamos ter essa sensibilidade de lutar pelas urgências.
BW: Nos conte um pouco sobre os seus trabalhos nos Artistas de Rua , na ILL Abilities e no Coletivo Gang Gangrena?
Perninha: Então, eu sempre fui artista de rua, desde que comecei a dançar e foi algo que me ajudou muito a falar em público e interagir com as pessoas, o Coletivo Gang Gangrena foi a crew que cresceu comigo, a maioria amigos da mesma cidade e que hoje desenvolve um trabalho por todo o mundo, em batalhas, shows etc… o Killa Rockers eu entrei em 2014, a convite dos B-Boys Rock Lee e Ratin, desde então seguimos produzindo conteúdos, batalhando e promovendo a cultura no geral, tanto no Brasil como no exterior. O Ill-Abilities é um grupo de Breaking composto apenas por pessoas com deficiência, que tem o objetivo de levar ao mundo a mensagem “Sem Desculpas e Sem Limites”, promovendo shows, batalhas, palestras, workshops e sendo agente de transformação para pessoas em situação de vulnerabilidade social por todo o mundo.
BW: Você faz parte da Killa Rockers Crew correto? Como começou seu relacionamento com a crew e nos fale dessa convivência com o pessoal.
Perninha: Sim, então, eu conheci o pessoal no ano de 2012, mas já acompanhava por vídeos, na época que morei em Minas e em São Paulo, fiquei muito próximo praticamente de todos os integrantes, treinamos juntos e convivemos bastante. Até que, em 2014, o pessoal decidiu participar da batalha da Amizade na cidade de Rio Claro-SP, o B-Boy Rock Lee estava na minha casa na Paraíba e me perguntou se eu não gostaria de participar com eles e o que eu achava de fazer parte da crew. Pra mim foi algo natural, pois eu já convivia com o pessoal que para mim era como se fosse minha própria família. Desde então, faço parte do Killa Rockers.
BW: Em termos de competições, que eventos mais te marcaram? Que vitórias foram inesqueciveis? Você já competiu fora do Brasil? Fale da sua caminhada na dança e dos momentos memoráveis.
Perninha: Falando de vitórias em competições e momentos marcantes, houve 3 em minha vida que eu considero como momentos que mudaram o rumo da minha carreira: o primeiro, foi quando ganhei junto do meu brother Deinho, o Vivadança 2013 2vs2, onde a premiação era exatamente 1000 reais para cada, eu peguei todo o dinheiro daquela premiação e me mudei para o Sudeste sem pensar duas vezes e isso me abriu muitas portas, foi uma decisão difícil ficar longe da família, mas vendo hoje eu sei que foi algo necessário, então, guardo na memória até hoje, tanto a vitória nesse evento como o que fiz ao receber a premiação; o segundo momento foi a vitória no Batalha na Vila Latino America 2013, o meu companheiro de crew, o B-Boy Douglas, havia vencido a etapa do Rio de Janeiro e deveria ir para competir nesse evento em São Paulo, mas infelizmente ele não conseguiu ir, então, ele entrou em contato com a produção do evento para que deixassem a vaga para mim, que era da Gang Gangrena assim como ele, os organizadores infelizmente não me deixavam competir, até que no último segundo, depois de tanto eu insistir e falar que não havia nada errado em entrar no lugar dele, os mesmos me colocaram para competir, olhando pra mim com uma cara de tipo “vai deixa ele ir, é provável que perca de primeira” e foi muito incrível, porque eu fui passando fase a fase, na semifinal cheguei a tirar os jurados das cadeiras de tanta energia que foram minhas entradas e, por fim, venci o evento, então, os organizadores tiveram que vir me dar a premiação e me parabenizar mesmo, não acreditando que aquele deficiente “chato” tinha ganho o evento deles, que inclusive foi o último que eles fizeram, evento esse que tinham grandes nomes presentes no 1×1 como Luka, Kapu, Aranha, Canito, Kley, Rock Lee, dentre outros e um deficiente desconhecido lá da Paraiba ganhou; e o terceiro momento foi no ano de 2019, no The Legits Blast Festival na Eslováquia, onde recebi o prêmio de “B-Boy Float Most Valuable Breaker OutBreak 2019”, como o destaque das cyphers e do evento, no qual se encontravam mais de 1000 B-Boys e B-Girls de todo o mundo, mais uma vez um paraibano no meio desse povo todo foi visto por alguém. Esses três momentos para mim foram os mais marcantes na minha carreira até hoje, pois em cada um teve seu significado para que eu pudesse conquistar ou ser quem eu sou, tanto como profissional, mas também como pessoa.
BW: Você é um cara atuante, principalmente nos debates dentro da Cultura e no meio do Breaking. Você se acha polêmico em algumas circunstâncias? Já teve problemas em expor algumas opiniões?
Perninha: Não me acho polêmico, eu não me acho nada na verdade (risos), o que eu acho é que há muita coisa que precisa ser conversada e muitas vezes apenas A ou B fala, enquanto muitos seguem calados ou com medo de se expressar e serem julgados, entende? Eu, como fui julgado minha vida inteira até dentro de casa, não ligo muito pra isso, sou uma pessoa sincera, se eu gosto, eu gosto, se eu não gosto, não gosto. O problema são os outros que criam, porque eu mesmo sigo trabalhando e fazendo meus projetos, dançando e sendo diferença na vida de quem precisa e quem quer “problematizar” o que eu falo ou faço, pra mim tá só perdendo tempo, onde o mesmo poderia estar ajudando e incentivando alguém. Por isso, eu sigo nos meus objetivos, as pessoas falando ou não de mim. Isso não muda nada na minha vida (risos).
BW: Como você analisa os B-Boys e as B-Girls brasileiras? Na sua opinião, temos condições de competir de igual para igual lá fora? Principalmente em eventos como as Olimpíadas?
Perninha: Então, sendo bem direto, todos nós sabemos da diferença em estrutura e incentivo que temos no nosso país, se comparado com Estados Unidos, Europa e Ásia, mas mesmo em condições precárias de treinamento ou de sobrevivência, muitos de nós batem de frente, se destacando muitas vezes e até ganhando eventos de grande porte, na minha opinião, temos sim condições de competir com qualquer Breaker pelo mundo, mas sendo crítico e sabendo entender que estamos saindo alguns passos atrás e que precisamos correr alguns passos a mais para diminuir essa diferença que existe, as Olimpíadas podem ser uma plataforma que irá gerar mais investimento e visibilidade para que possamos ter mais apoio e condições de encurtar essa diferença que citei, comparando com os países de primeiro mundo. É apenas uma especulação, mas eu estou bem confiante sobre as Olimpíadas, pois sei que temos sim um potencial de crescimento ainda maior, é só ver nos últimos 5 anos o número de brasileiros que têm se destacado no cenário internacional.
BW: Normalmente, como funciona sua rotina de treinos?
Perninha: No momento, eu estou parado a cerca de 3 meses, devido a lesão, mas normalmente eu treino entre 4 a 5 vezes por semana, em média 3 a 6 horas por dia, costumo dividir meu treino entre criação (novidades), aperfeiçoamento (de coisas que já sei), preparo de competição (treino várias entradas e todas as possibilidades possíveis e em músicas diferentes).
BW: O que tem feito nesse tempo de pandemia?
Perninha: No início da pandemia, como falei eu estava parado devido às medidas de proteção, mas depois, voltei a treinar e competir, ano passado fui destaque na primeira edição on-line do Break Free, no primeiro semestre de 2020, fui finalista da segunda edição e vencedor da terceira edição, ambas em 2020, no final do ano, fui indicado ao prêmio de destaque internacional do ano ao qual estava concorrendo com mais 4 grandes nomes, Hong 10, Shigekix, Amir e Gravity. No início do ano de 2021, fui campeão do Campeonato Nacional Fluxo, que teve sua edição em formato on-line e fui destaque do evento na primeira edição de 2021 do Break Free. após isso, eu me lesionei e desde então sigo sem treinar, ajudando o pessoal do meu estado com a Federação Paraibana de Breaking e também trabalhando no projeto The Big Players, juntamente com alguns outros nomes da cena nacional.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
Perninha: Trabalhar muito! Pense numa coisa que eu gosto, é de treinar e trabalhar, ainda quero tirar minha mãe do aluguel e ter condição de olhar pra ela e falar “pode parar de trabalhar, deixa comigo”, há muitos países ainda que tenho pra conhecer e alguns projetos que quero concretizar para ajudar mais pessoas.