Cultura Hip-Hop
Curta-Metragem Baobá, que será exibido essa semana, conta história sobre ancestralidade, resistência e brasilidade por meio da arte e tem objetivo de beneficiar comunidades carentes
BAOBÁ é um curta-metragem sobre ancestralidade, raiz e espiritualidade. Produzido no Distrito Federal, será exibido em uma única sessão no YouTube.
O curta nasceu com intuito de unir artistas periféricos para contar histórias sobre ancestralidade, resistência e brasilidade por meio da arte e suas mais diversas manifestações artísticas (dança, teatro, música, literatura e performance). Também temos, como um dos objetivos principais, beneficiar comunidades carentes por meio da conversão de parte da receita em cestas básicas, que serão distribuídas a instituições selecionadas.
Instagram: @curtabaoba
INFORMAÇÕES GERAIS
Data da exibição: 03/10/2020 (sessão única)
Horário: 20h
Plataforma: YouTube (link enviado por e-mail no dia 3/10)
INFORMAÇÕES SOBRE INGRESSOS
Baobá – R$20 + taxa do Sympla – acesso ao link para assistir o curta;
Baobá solidário 5 – R$25 + taxa do Sympla – acesso ao link para assistir o curta e doação R$5,00 para instituições selecionadas;
Baobá solidário 10 – R$30 + taxa do Sympla – acesso ao link para assistir o curta e doação R$10,00 para instituições selecionadas;
Baobá solidário 30 – R$50 + taxa do Sympla – acesso ao link para assistir o curta e doação R$30,00 para instituições selecionadas.
Link do Sympla: https://www.sympla.
Foto: Divulgação
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Sai lista dos Top 16 da E-Battle da Red Bull e tem B-Girl Brasileira em destaque
Já saiu a lista da E-Battle da Red Bull BC One, ficaram 16 B-Boys e 16 B-Girls.
Entre as meninas, uma única B-Girl brasileira, Nathana (29).
Para ela, é uma grande responsabilidade e honra representar o País.
Nathana, da We Can Do It B-Girls, Rock Niggaz e Gangsta Squad, pega na próxima batalha a B-Girl AYU, do Japão, da Good Foot Crew.
Confira as chaves abaixo! Vai Brasil!

Fotos: Reprodução/Arquivo Pessoal
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De Pé de Barro a Rei do Windmill
“…Os caras nos discriminavam. Às vezes, nós chegávamos nas rodas que eles estavam, eles desligavam o Boombox, o gravador e diziam que Pé de Barro tinha que dançar sem música.” (B-Boy Danzinho)
Ele nasceu em Pernambuco, participava do Boi Maracatu, dança folclórica de sua cidade, filho de nordestino, seu pai cantava embolada. Com 8 anos, chegou em São Paulo. A vida não era fácil na terra da garoa, sua mãe saía para trabalhar ainda não tinha amanhecido, era de madrugada. Ele esperava clarear e ia para a rua, muitas vezes cabulava aula. Foi na rua que aprendeu algumas das mais duras lições da vida. Mas também foi nela que começou na capoeira, com o Mestre Guerreiro e, depois, conheceu o Breaking, que foi amor por toda vida e mudaria para sempre a sua história.
Discriminado dentro de casa, na quebrada onde morava, na sociedade e até na cultura, por alguns que o chamavam de “Pé de Barro” por sua condição social, foi à margem desses comentários nada inspiradores e do lado de fora do preconceito que ele tirou forças, encontrou seu espaço e ali executou movimentos incríveis, que escreveram seu nome junto com outros grandes nomes do Power Move no Brasil e no mundo.
De Pé de Barro a Rei do Windmill, B-Boy Danzinho da conhecida Detroit Break, conquistou o seu espaço, além do respeito e da admiração de todos que conhecem a sua história e a sua importância dentro do Hip-Hop no Brasil.
Numa conversa bem franca com o Portal Breaking World, ele abre o coração e deixa sua mensagem para quem está chegando.
BW: Ubiratan Teodoro da Silva, nome artístico, “B-Boy Danzinho”, queria que você falasse como e onde foi a sua infância e a sua juventude.
Danzinho: Minha infância foi na cidade em que eu nasci, Limoeiro, em Pernambuco, local em que eu morei até os 7 anos. Sou pernambucano, minha família toda é pernambucana. Participei do Boi Maracatu, que é uma dança folclórica e isso foi dos 5 aos 7 anos de idade. Meu pai, de tradição nordestina, cantava embolada, dançava a dança do coco e isso foi até os meus 7 anos. Aí eu vim para São Paulo, com 8 anos de idade, o resto da minha infância foi na Vila Elida, divisa com Diadema. Eu comecei a fazer Kung Fu dos 8 anos aos 12. Aí passou um tempo, eu mudei para a zona leste, no Itaim Paulista e aí eu conheci o Mestre Guerreiro, que era um capoeirista que pegava os meninos que ficavam na rua sem opção de lazer, de bobeira e aí ele começou a ajudar essas crianças, a dar aula de capoeira e, nesse tempo, eu ficava na rua, minha mãe saía para trabalhar as 4h30 da manhã, eu esperava amanhecer e aí ao invés de eu ir para a escola, eu cabulava as aulas e ia para vários lugares, ia para a cidade, ia para o Parque Ecológico com um bando de amigos, na verdade, eram moleques de rua que era o Coroinha, que se chama Andrezinho, tinha o Nego, que é o Davi, o Kojack, o Alex Huguinho, essa era a nossa banca. Na verdade, nós tínhamos uma gangue de rua. Nós brigávamos com outros moleques que eram de outras quebradas, nós saímos na mão com outros moleques que tinham melhor condição, ficávamos andando de bobeira pelas quebradas. Brigávamos e tomávamos os tênis do outro moleque. Aí, com o passar do tempo, nós conhecemos o Mestre Guerreiro, que me convidou para ir ao barracão que ficava no Jardim Helena, para fazer capoeira. Mas eu falava que não tinha dinheiro. Mas ele dizia que não tinha problema e que tinha percebido que eu era um moleque ligeiro, dava uns mortais.

BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? Alguém te ensinou o breaking?
Danzinho: Eu sempre gostei de dar mortal! Aí eu fiquei na Capoeira bastante tempo, mais ou menos uns 7 anos, peguei até o cordão azul, só que nesse intervalo estava passando no Calçadão do Itaim, tinha um DJ chamado Zoinho, da antiga, que tinha uma loja de discos, vendia vinil e fazia uns eventos. Aí ele fez um evento de rua no Calçadão do Itaim e isso foi em 1990, foi então que eu conheci o Hip-Hop, eu vi o cara cantando em cima de um caminhão e eu vi o Nelsão [Nelson Triunfo] também, eu vi uma cara com um cabelão, uma jaqueta escrito colors e achei muito louco o estilo do cara, aí eu conheci um cara chamado Buldoguinho, que era próximo da minha quebrada e ele dançava Breaking em cima do caminhão, aí ele desceu e começou a girar no chão e isso me encantou, me interessou… Só que como aprender se não tinha ninguém para dar um toque? Naquela época, ninguém ensinava ninguém! Passou um tempo e eu fui num bailinho de escola e eu vi os caras dançando, eu vi um cabeludo dançando que o apelido dele era Maverick, aí eu entrei todo doido na roda, não sabia nem o que era Breaking. Cheguei, dei mortal, estrelinha, mortal para cá e mortal para lá e os caras falaram: “é capoeira isso e o cara é ligeiro, imagina se ele aprender uns baratos no chão!”. Aí eu conheci o Maverick, ele se interessou em me ensinar, mas só que o que me encantou foi aquele giro no chão. Aprender naquela época era cruel, pois ninguém ensinava nada, aí passou um tempo, teve outro baile na Escola Nilton Reis, nessa escola teve um baile de molecada, tinha um DJ Rege que dava som e chegou os caras do Jardim Campos, que era a banca do Buldoguinho e junto estava o Maverick, que falou que eu era ligeiro e ele me convidou para dar uns mortais na roda, eu entrei dei uns mortais na roda, isso foi em 1992. Aí ele se interessou em me ensinar. No quintal da minha casa, tinha uma casa abandonada e o chão era de taco, mas aí ele marcou um outro lugar e eu fui até ele, fiz uma caminhada longa, que era no Jardim Campos, tinha que pegar maior subida, aí eu fui na casa dele, não o encontrei, ele tinha saído. Mas a avó dele disse que ele não iria demorar, aí fiquei um tempão esperando. Aí eu desisti e fui embora. No outro dia, fui novamente, aí ele também não estava, fui embora novamente. Passou mais umas duas semanas, eu voltei e o encontrei, ele apareceu mexendo no cabelão e disse: “entra aí, capoeira! Espera um pouco que eu vou tomar um banho”… eu fiquei esperando, porque ele era todo vaidoso. Aí ele chegou e perguntei como fazia aquele barota no chão, depois eu fiquei sabendo que o nome era moinho de vento. Aí ele passou para mim a base do moinho, só que ele falou: “tem que treinar dessa forma, coloca o encaixe aqui, aí você começa a entrar com o ombro”… ele fez todo o procedimento que era para eu fazer o moinho…
BW: Com isso, você aprendeu o moinho? É verdade que houve alguns imprevistos nesse tempo?
Danzinho: Sim. Depois de um certo tempo, eu e uns moleques estávamos brincando, aí eu inventei de dar uma voadora numa madeira no meu quintal, só que essa madeira era de peroba e ficava alta, quase dois metros, eu dei uma voadora e cai para trás. Quebrei o meu braço. Pensei: como vou fazer para pegar o moinho? Nesse intervalo, passou o Dan doido e aí, no quintal da minha casa, eu pedi uns toques, mas falei a ele que tinha quebrado o meu braço. Aí ele disse: “agora vai ser impossível, pois você precisa treinar o chute, pegando o moinho de encaixe”. Aí eu comecei a jogar o moinho do alto e ao invés de ser de encaixe, eu jogava o ombro com o braço engessado. Aí eu passei uma volta e fiquei muito feliz. Aí o Dan falou que era só eu treinar, eu comecei treinar dias e noites. Aí passou um tempo, fui inventar de fazer umas manobras de bicicleta, quebrei o outro braço, caí numa descida, fiquei desacordado uns 10 minutos, aí fui para casa, mas tinha que operar o braço, colocar platina, colocar pinos, aí fiquei com medo de colocar e falei para o médico colocar gesso, mas ele disse que não ia ficar bom, não iria colocar o osso no lugar. Então eu comecei a pegar os moinhos do alto, fiquei bom nos moinhos, peguei várias variações, fiquei muito bom! Tinha cara que vinha de fora, de outras quebradas, para ver eu fazendo moinho. Os caras falavam: “tem um baixinho que faz os moinhos muito louco, com abertura legal, levinho”, aí os caras iam no Itaim e na danceteria SkyWalker e o ponto de encontro era no São Miguel, aí muitos ficaram bons também no moinho, só que os meus eram diferenciados, eu fazia tudo rápido e perfeito.

BW: Em que ano você entrou para o Detroit Break? Fale um pouco da caminhada da sua crew? Dos treinos e das conquistas?
Danzinho: No finalzinho de 93 para 94, nós fizemos uma banca que era a Los Angeles Leste. Era eu, o Alemão, o Tinho Gordinho e o Coroinha, que fazia uns flares para os dois lados, era muito bonito o flare dele. Só que essa banca ficou pouco tempo: o Andrezinho foi para o crime, foi preso, ficou bastante tempo na cadeia, 15 anos preso; o Zé Alemão casou, formou uma família, o Tinho também parou e ficou só eu. Só que eu conheci o Xuxuca, que nós treinamos na Caixa d’Água, isso foi em 1994, aí começamos a treinar com o Alemão, o Tinho dos mortais, o Pepeu, que hoje é Mestre de Capoeira na Rússia, ele mora lá. Era uma banca que tinha na Caixa d’Água no Itaim, perto da delegacia, foi aí que eu vi que estava evoluindo muito no Power Move. Quando foi em 95, eu já conhecia o Dedé antes, o Dedé foi a primeira formação da Detroit, nós fizemos a Detroit no comecinho de 1995, mas antes era outro nome, a primeira geração era o Kokada, o Dedé, o Léo, o Fatal, o Xuxa, o Buiu, o Areia, o Léo do Pop, tinha também o Neném Louco, era uma banca 1000 graus… Aí eu cheguei junto para completar a Detroit, eu Xuxuca, a B-Girl Beth, formamos a Detroit Break oficial mesmo, foi em 1995. Aí convidamos o Careca, ele foi o último a entrar na Detroit, isso foi em 1996. A nova geração foi formada por B-Boy Shino, B-Boy Macha, B-Boy Brasília, B-Girl Dedessa e B-Girl Shinaide.
BW: Verdade que vocês tiveram uma boa visibilidade em alguns programas de TV e na imprensa da época?
Danzinho: Nós fizemos o Programa Raul Gil, através da lista telefônica, na época era a TV Manchete. Antes, nós fomos como Sinistros do Breaking, porque não tinha um nome definido por causa dos Sinistros do Rap. Depois, tivemos muita visibilidade na época do Funk e Cia.

BW: Verdade que durante uma competição de Breaking em Goiânia aconteceu uma treta bem pesada?
Danzinho: Em 1996, eu conhecia o ALAMBeat, o DJ do Sampa Crew, ele fez um convite para irmos à Goiânia, porque lá tinha uns caras que estiveram na São Bento, em 1993 e que zoaram São Paulo. O Andrezinho Sampa Crew fez o convite para nós buscarmos o Breaking em Goiânia, era para ir a banca toda, mas fui eu, o Kokada, o Dedé e o Alemão, que está fora do país. Então, nós fomos lá para buscar o Breaking, porque os caras de Goiânia eram bons, eram os melhores do Brasil, faziam os movimentos para os dois lados e quando chegamos em Goiânia, rachamos com eles e ganhamos. Aí aconteceu um imprevisto lá de alguns caras, que não ganharam no Breaking e juntou com mais uns 40 caras e queriam bater em nós. Inclusive eu tomei um chute nas costas que ficou até roxo. Aí quem estava lá fora jogou uma barra de ferro na alta tensão do poste, apagou toda a luz do local, para invadir e pegar nós de São Paulo. Eles não conseguiram pegar nós no Breaking e aí quiseram pegar na porrada… Parecia até filme de briga de gangue. Escutamos até tiro em cima de nós. Eu correndo, o Kokada também, o Dedé, o Alemão… Aí a polícia chegou, aquela loucura na rua: “Pega São Paulo, pega São Paulo!”. Entramos numa viatura, um olhando para o outro, para ver se tinha alguém baleado e tudo pelo Power Move. E quando nós chegamos em São Paulo, acabamos ganhando mais respeito pelo pessoal de Brasília.
BW: Em São Paulo, também houve dificuldades? Nos conte isso?
Danzinho: Sim! Veio a Batalha Final, do Rooneyoyo, que foi em 1998 ou 99, mas antes disso nós começamos a frequentar a São Bento direto e lá tinha uns caras que eram de uma banca, que tinham condições de comprar um agasalho, uns tênis da Adidas e nós chegamos lá com a bermudinha cortada, tudo derrubada, umas regatas e aí nós começamos a sentir uma discriminação, porque não tínhamos um visual de roupa, mas no Power Move, no Breaking, nós éramos muito bons. Fazíamos os movimentos todos esticados de ponta de pé. Eu acredito que os caras tinham discriminação conosco porque nós chamávamos atenção e eles tinham tudo decorado, fantasiado, no estilo Ruddy MC e falavam que nós não dançávamos e aí nós fomos batizados de Pé de Barro, nós da Detroit, com o pessoal da DRR, que colavam conosco, tivemos essa discriminação na São Bento e por isso ficamos um bom tempo sem voltar lá, de 1 ano a 2 anos. Chegou uma época que nós treinamos só para catar alguns b-boyzinhos, era assim que nós os chamávamos, da São Bento. Só que nós fazíamos os movimentos potentes de Power Move, as acrobacias bem executados e eles não conseguiam executar como nós. Nós treinamos muito as manobras, que eram os Power Moves. Não fazíamos nem muita questão de fazer o Top Rock, nem Footwork, porque nós éramos pirracentos. Então, pensávamos: “eles façam os Power e aí fazemos os Top Rocks e Footworks”. Eu acho o Power Move mais difícil de aprender do que o Top Rock e o Footwork.

BW: Você falou que você e sua crew sofreram discriminação na São Bento por alguns? Mas com o Nelson Triunfo foi diferente. Nos conte isso?
Danzinho: Então, os caras nos discriminavam. Às vezes, nós chegávamos nas rodas que eles estavam, eles desligavam o Boombox, o gravador e diziam que Pé de Barro tinha que dançar sem música, era uma discriminação enorme e alguns começaram a fazer besteira, porque nós não tínhamos o visual. Aí eu vim morar em Diadema, próximo ao Centro Cultural Taboão, eu frequentava lá com uns parceiros que treinavam comigo, o Cores, que era também grafiteiro, o Ninja Zulu e lá eu encontrei fazendo uns trabalhos o Nelson Triunfo, só que o Nelson nos conhecia pela fama que nós tínhamos de ter ido para Goiânia. Aí o Nelsão me convidou para ajudá-lo na oficina dele. Eu ajudava os meninos no Power Move, ele ajudava os meninos no Soul Dance, era assim que ele falava. E foi aí que o Nelsão começou a ter respeito pela minha pessoa, que ele já tinha uma admiração, porque eu vinha da Detroit e ele me convidou em 1997 para ir para Barueri fazer um trabalho com ele no Centro Cultural, com o pessoal que trabalhava na cultura e eu dava aula de Breaking. Foi aí que eu comecei a me profissionalizar, eu tinha muitos alunos. Trabalhava em dois turnos, passava pela minha mão no total umas 90 crianças e jovens. Chegando a criar problema para o Centro Cultural, por não ter espaço para tanta gente. Tinha o Jhow também, do Matéria Rima, que dava aula de rima e o DJ Davi dava aula de DJ e tinha o Grande, que era um bom grafiteiro, enfim, depois o Nelson me fez um convite para fazer um trabalho também no Funk e Cia, isso foi em 1998, aí comecei a fazer bastante show no Funk e Cia e dar aulas.
BW: Como sua família via seu envolvimento com o Breaking? Verdade que você sofreu discriminação também dentro de casa e na sua quebrada?
Danzinho: Foi nessa época aí que veio o respeito dentro de casa, porque na verdade eu só tive o apoio do meu pai. Certa vez, eu escutei ele falar: “É melhor ele estar nesse negócio de Breaking do que estar fazendo besteira”. Aí veio o meu primeiro trabalho, que era do governo, chamava Parceiro do Futuro, o Nelsão me colocou lá para dar aula e eu dei minhas primeiras aulas, foi maravilhoso! Aí eu cheguei em casa com um cartão salário da Caixa Econômica Federal, eu falei para a minha mãe “vamos lá no mercado”, ela falou, “fazer o quê?”, aí eu respondi, “fazer umas compras”. Ela falou, “você não tem dinheiro, não trabalha, você não é nem formado”… Aí eu falei que trabalhava, fomos ao mercado e eu passei o cartão de conta salário, aí nós compramos bastante coisa, enchemos o carrinho e foi aí que eu ganhei respeito dentro de casa. A discriminação acabou porque eles começaram a enxergar que o Breaking também dava futuro. Falavam que eu só sabia rodar no chão, mas quando passei a informação do que eu fazia, comecei a ser respeitado dentro de casa. Mas essa fase foi bem difícil, porque minha mãe só queria o melhor para mim, eu tinha que me formar, tinha que ser um doutor, um advogado ou um professor de Educação Física. Tinha que ter faculdade, mas graças a Deus, quando passou o tempo, eu comecei a me formar, tirei o DRT e isso me ajudou muito na minha carreira no Breaking. Entrei em vários projetos de educação, pelo esporte, também trabalhei na Fundação Casa por 4 anos, trabalhei em Pirapora do Bom Jesus, no projeto criado por um delegado, que ele fez para eu dar aulas de Breaking e de Graffiti. Dei aulas também para estagiários da Uniban. Dei aulas na PROERD, que é da Polícia Militar. Trabalhei em Santo Amaro, dei aulas no CEU bastante tempo, também. Tinha uma época que na quebrada também éramos discriminados, o pessoal nos chamava de “limpa chão”, falavam que nós só ficamos rodando no chão e não ganhávamos nada. Ninguém enxergava que o Breaking era uma cultura. Que era algo saudável, que resgatava muitos jovens, muitos jovens se identificavam com essa arte e com essa cultura, ninguém tinha informação e o pessoal julgava mesmo. Nós também não sabíamos detalhes, nós não treinávamos o Breaking para ganhar dinheiro e ganhar campeonato. Nós treinávamos o Breaking para sair da rua, sair de pensamentos ruins e o Breaking caiu como uma luva para nos tirar de uma vida caótica, só de maldade, só de violência, então nós dedicávamos muito ao treino, tínhamos uma disciplina muito grande e as próprias pessoas da quebrada nos xingavam e falavam que não fazíamos nada da vida. Na verdade, ali estava a nossa salvação e eles nem sabiam, porque se nós não fizéssemos isso a maioria estariam até mortos.

BW: Como a sociedade via os B-Boys e as B-Girls naquela época? E na sua opinião, o que mudou de lá para cá?
Danzinho: Na verdade, a sociedade em geral tinha motivos para discriminar, pois não tinham informação. Hoje, o Breaking é bastante visível, porque na minha visão o Breaking virou moda. O Breaking deixou de ser algo de amor e de prazer, é moda! Hoje a galera treina pra caramba para ganhar dinheiro ou para ganhar campeonato, não treina para preservar a saúde, para colocar coisas boas na mente, são poucos os que treinam por amor! Não posso criticar todos, têm muitos que treinam por amor mesmo. Têm muitos pais de família que seguem seus filhos, isso para mim é uma honra! Um pai ou uma mãe levar um filho para treinar, imagina há 20 anos atrás se os pais fossem assim, como a juventude seria mais salva. Ter os pais seguindo os treinos, apoiando. Quando a informação chega, o preconceito desaba! Muitos devem se profissionalizar no que fazem para quebrar todo o preconceito.
BW: Você esteve muito tempo no Funk e Cia, fale sobre essa experiência e o que significou para você?
Danzinho: O Funk e Cia foi um leque na minha vida, nós já tínhamos um conhecimento na mídia, tínhamos participado do Domingo Legal, em 1994, no Raul Gil, em 1995, 1996, nós fomos várias vezes, fizemos bastante programa de televisão. Só que o Funk e Cia foi um leque, porque o Nelsão é um cara da pesada na história, na cena do Hip-Hop, porque ele veio do Soul ao Hip-Hop, então, é um cara muito da resistência e ele teve muito respeito com a minha pessoa, quando ele me colocou no Funk e Cia eu peguei muita confiança, vários B-Boys passaram pelo Funk e Cia e eu falo com orgulho e com respeito e ele sabe disso. Eu fui o B-Boy que ficou mais tempo no Funk e Cia, mais de 15 anos. Eu peguei uns caras que eram ainda da primeira formação, foi o Billy, o Ratula, Pierre, eu peguei esses caras. Depois, veio a nova geração, que era eu, o Jhow, o B-Boy Guinho, o Davi. Mas foi através do Funk e Cia que eu consegui muita coisa, muito trabalho, ganhei bastante nome como B-Boy Danzinho do Detroit Break, fiz vários programas de televisão com o Nelsão, saí em várias revistas. Saí no livro do Nelsão! Fui no Rio de Janeiro, na Diversidade Cultural com o Funk e Cia, foi muito louco essa experiência, fomos para o Nordeste também, em Pernambuco. Enfim, Funk e Cia foi um grande marketing na minha vida e até hoje temos um respeito muito grande um pelo outro.
BW: Conte um pouco sobre sua experiência na Casa do Hip-Hop?
Danzinho: Falando um pouco do meu trabalho na Casa do Hip-Hop, cheguei lá nem era Casa do Hip-Hop, era um Centro Cultural e eu tive uma contribuição bem grande na Casa do Hip-Hop, porque foi mais uma discriminação quando nós chegamos com essa história de Pé de Barro, minou muito a nossa presença em alguns lugares. Muitos caras que eram da antiga começaram a ditar regras que para ser B-Boy tinha que andar no visual e na Casa do Hip-Hop eu também enfrentei preconceito. Só que eu também ocupei o meu espaço. Lá dentro, só treinavam os B-Boys com espelho e com som. E do lado de fora, os Pés de Barro, que eram nós e mal sabiam eles que lá fora foi um grande incentivo para vários meninos, que nos viam treinar e aprenderam bastante Power Move, principalmente o Guinho, que hoje mora na Finlândia, que hoje é empresário, o Amendoim, grande parceiro, o Alemão e foram os meninos que aprenderam comigo lá fora… Depois de um tempo, eu fui convidado a dar aulas na Casa do Hip-Hop, fiz um trabalho maravilhoso, com bastante crianças no horário da manhã e da tarde e a Casa do Hip-Hop foi um grande marco na minha vida. Eu faço parte dessa história da Casa do Hip-Hop e me considero um dos iniciadores da parte de Power Move lá dentro.

BW: Como é o Danzinho hoje na intimidade? Quem é o Danzinho?
Danzinho: O Danzinho é muito família, eu do portão para fora eu sou o Danzinho, do portão para dentro, eu sou um pai de família, me dedico muito a minha família, com meus filhos, minha mulher. Faço de tudo para entender os meus filhos, sou um marido presente na atividade de casa também, gosto de fazer comida, cuido dos meus filhos. Porque o homem tem que cuidar da mulher e a mulher do homem, é assim que eu aprendi a zelar por quem amamos, porque a família é algo abençoado por Deus. Tudo que faço é pensando nos meus filhos e na minha mulher, que me ajuda muito, porque se não fosse uma grande mulher não existiria um grande homem.
BW: Como você vê os B-Boys e as B-Girls da atualidade?
Danzinho: Na verdade devemos filtrar o que a velha escola fez de bom e trazer para dentro do Breaking, para a nova geração. Nós somos Power Move Old School, que fazíamos todos os movimentos para os dois lados perfeitos, com as pernas esticadas e revolucionamos alguns movimentos. Se a nova geração respeitar mais a velha escola, eles só têm a crescer, porque a evolução é trabalhar os dois lados da mente. Porque para ficarmos bons numa sequência de Power Move tínhamos que ficar bons para os dois lados, então, automaticamente você está treinando os dois lados da mente e isso é a evolução do Power Move. A nova geração tinha que trazer para dentro deles isso aí.

BW: Nesse tempo de pandemia, o que você tem feito? E como acha que será o futuro pós pandemia?
Danzinho: Eu nunca parei com o Hip-Hop, porque eu respiro Hip-Hop, atualmente estou me precavendo por causa dessa pandemia, não é brincadeira essa doença, que acredito eu foi cria do ser humano. Eu tenho que sair para comprar comida, eu tenho que sair para sustentar a minha família, mas eu evito aglomeração. Mas eu nunca parei. Estou envolvido num projeto maravilhoso chamado Becos e Vielas, fazendo o projeto da Detroit. Nessa epidemia eu tenho trabalhado e cuidado da minha família. Com a pandemia, os B-Boys e B-Girls que estão em casa vão ganhar 20 kg a mais se não praticar o Breaking. E quando voltar vão ter que recuperar esse tempo parado.
BW: Atualmente, um assunto que vem sendo bem discutido no meio da cultura é a entrada do Breaking nos Jogos Olímpicos. O que você pensa sobre isso?
Danzinho: Na minha opinião, o Breaking nunca tinha que ter virado uma modalidade olímpica, porque o Breaking faz parte de uma cultura chamada Hip-Hop. O Breaking ir para as Olimpíadas, é claro que vai reforçar a cultura, mas eu espero que quem esteja à frente disso não tire o Breaking como esporte, mas como cultura. E respeite os caras que começaram a cultura Hip-Hop, os Old School. É uma cultura que está mostrando para o mundo sua contribuição e que está fazendo sua parte. O Breaking não vale uma medalha olímpica, ele vale muito mais que isso. Quantas vidas o Breaking salvou? Resgatou? Vale reforçar o Breaking? Sim! Vai ter marketing? Sim. E vai ajudar muito? Vai. Só que eu espero que eles nunca coloquem como uma modalidade olímpica, mas sim uma modalidade cultural, que tem que ser respeitada como cultura. Eu não troco a minha cultura, o meu Breaking que eu aprendi, por uma medalha olímpica. Mas tudo bem, é melhor os jovens estarem na Olimpíada do que estarem numa cadeia se desviando do caminho certo. Então, é viável! É legal, sim, mas como uma modalidade cultural! Não como esporte!
BW: Que mensagem você deixaria para a nova geração de B-Boys e B-Girls?
Danzinho: A mensagem para a nova geração é o seguinte: B-Boy, B-Girl do Brasil e até do mundo, não existe B-Boy ou B-Girl ruim, existe B-Boy mal treinado, vocês que são arte-educadores, professores de dança de rua, principalmente de Breaking, prestem atenção no que vocês estão passando para a nova geração. Principalmente como fazer alongamento, eles devem ser preparados para treinar o Breaking e o Power Move. Vamos nos profissionalizar, vamos estudar, vamos tirar o DRT e amar a dança sem deixar de respeitar o pai, a mãe, isso é o principal para você ser um bom B-Boy ou B-Girl. Sempre respeite o próximo! O respeito vem em primeiro lugar! Aqui é uma mensagem do B-Boy Danzinho, família Detroit Breaker Power Move Brasil, para toda a rapaziada do Brasil e do mundo. É nós! A minha história dentro do Breaking não foi fácil como não é fácil para muitos que estão aí na periferia. Paz!
Fotos: Arquivo Pessoal/Cadu Barbosa/William Machado/Fabiano Minu
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INTERNACIONAL: Organizador da Porto World Battle coordena programa que ensina Breaking para crianças menos favorecidas em Portugal
“Fazer um projeto desta dimensão na cidade do Porto é uma das etapas mais importantes da minha vida.” (Max Oliveira)
Ele desde cedo sempre admirou a dança e todo tipo de movimento, como muitas crianças da sua geração, foi influenciado por Michael Jackson e Bruce Lee, mas foi somente com 18 anos, em Madri, que viu pela primeira vez B-Boys dançando e aquilo foi mágico o suficiente para mudar para sempre a sua vida.
Aprendeu os primeiros movimentos com B-Boys na Espanha. Em 2003, durante um treino com Mix e conversando com Kujo, entendeu como aplicaria a Momentum à Dança. Daí nascia o primeiro grupo profissional de Danças Urbanas em Portugal e que teria alguns dos melhores B-Boys do mundo.
A Momentum Crew foi formada por ele, Mix, Deeogo, Lagaet, Bruce, XXL, Makumba, Roberto, Mad Dog, Hercules, Nastya, Ivo, Magik e Mirre. A dança, profissionalmente, veio em 2005.
Estamos falando de Max Oliveira, fundador da Momentum Crew e organizador da Porto World Battle. Max também é professor de escola profissional de dança, dá workshops, é jurado, coreógrafo de espetáculos e produz eventos em várias partes do mundo e agora também coordena o Programa Municipal chamado “Desporto no Bairro”, que tem o objetivo de aproximar jovens em oito bairros da Cidade de Porto passando a paixão que une esse grupo e os faz dançar, com um método natural, estando na gênese do Hip-Hop, que é a rua e transmitindo bons valores aos jovens menos favorecidos os afastando do Crime.
Max conversou com o Portal Breaking World, contou um pouco da sua história de vida, falou sobre dançar na Europa, sobre programas sociais, sobre Breaking nos Jogos Olímpicos, sobre pandemia e, no final, mandou uma mensagem especial para as B-Girls e os B-Boys brasileiros.
Confira a entrevista:
BW: Queria que você falasse um pouco sobre você. Como foi sua infância e sua história com o Breaking?
Max: Eu cresci admirando a Dança e todo o tipo de movimento, desde muito cedo fui influenciado pelo Michael Jackson e mais tarde Bruce Lee, tinha uns 5 anos de idade.

BW: Quando começou o amor por esse elemento da Cultura Hip-Hop?
Max: Começou por volta dos meus 18 anos, em Madrid, quando vi pela primeira vez B-Boys dançando.
BW: Alguém te ensinou ou você aprendeu sozinho?
Max: Os primeiros movimentos aprendi junto de alguns B-Boys da Espanha, nessa altura eu vivia em Madrid. Mais tarde (por volta dos meus 20 anos) regressei de novo a Portugal e aprendi muito com o Mix da Momentum Crew, devo a minha dança essencialmente ao meu grupo.
BW: Houve dificuldades e desafios?
Max: Sim… Imensos desafios e dificuldades nunca deixaram de existir, acho que ser B-Boy é saber lidar com as dificuldades e desafios, bem como com a palavra frustração. Ainda hoje em dia, permanecem os desafios e creio que nunca irão terminar…

BW: Como sua família via essa sua relação com a dança? Você tinha apoio dos familiares?
Max: Felizmente, sempre tive muito apoio por parte da minha família. Creio que eles nunca acreditaram na viabilidade econômica da dança e que eu pudesse vencer na vida como profissional. Nesse aspecto, sempre fui muito feliz e sortudo, tenho vivências (especialmente com o meu Pai) incríveis no Universo do Breaking. Nunca tivemos dinheiro, mas tive sempre muito amor familiar.
BW: Quando começou a dançar profissionalmente? Como é viver da dança em Portugal?
Max: Profissionalmente apenas posso considerar a partir de 2005/2006. Penso que é como em todo o mundo, é extremamente difícil, duro e pouco valorizado. A Dança não é devidamente reconhecida e provoca um desgaste ultrarrápido, dificilmente conseguimos que seja verdadeiramente compensador. Na Europa, a grande luta é o custo de vida e impostos inerentes ao que conseguimos faturar com os trabalhos relacionados com a Dança.
BW: Que características profissionais um dançarino tem que ter para ser bem aceito no mundo da dança na Europa?
Max: Empenho, dedicação, profissionalismo, treino, imagem, simpatia, humildade, sentido de gestão de carreira… Fazer bons contatos, comunicar-se bem e ser capaz de manter as boas relações profissionais. Aconselho que percebam as leis locais e como tratar de pagamento de impostos, contratos e legalização de tudo o que for necessário para um futuro sólido. Não é suficiente dançar bem.

BW: Me fale um pouco da história da Momentum Crew e como é ser o fundador de uma Crew tão respeitada e conhecida?
Max: A Momentum Crew surge de treinos entre Max e Mix. Um dia treinamos com o Kujo e ele nos explicou o conceito de Momentum aplicado à Dança. Começou em Outubro de 2003 e dura até agora, e durante o percurso destes 17 anos tem como membros os B-Boys Max, Mix, Deeogo, Lagaet, Bruce, XXL, Makumba, Roberto, Mad Dog, Hercules, Nastya, Ivo, Magik, Mirre. Quanto a ser líder de uma Crew como a Momentum Crew é sentir a responsabilidade e vontade de continuar a manter o legado vivo e ser um exemplo na criação de novos líderes. Além disso, é ver os membros da Crew a tomarem um rumo, o êxito nas suas vidas próprias e a voarem.
BW: Nos conte um pouco sobre sua vida, sua formação (o que estudou). E fale sobre o seu trabalho.
Max: Estudei muitas coisas desde o ensino secundário obrigatório, passei por várias universidades no Reino Unido, Espanha e Portugal, em cursos tão diversos como Biotecnologia, Administração de Empresas, Economia e Relações Internacionais. Após ter o terceiro ano de RI e Economia, decidi fazer formações em Fitness e algumas em Dança. Fiz tudo isto até cerca dos meus 28 anos, pois não acreditava num futuro profissional com estabilidade econômica relacionado com a Dança.
BW: Você é o CEO na empresa Max Momentum Artists & Productions, participa de espetáculos, organiza eventos como a World Battle. E agora, junto com a Momentum, vão dirigir um novo programa municipal chamado “Desporto no Bairro”, como arruma tempo para tudo isso?
Max: E isso é apenas uma parte: ainda dou aulas, sou professor de escola profissional de dança, leciono workshops, sou jurado, coreógrafo de espetáculos e produtor de eventos em várias partes do mundo (risos). Como muitos grandes nomes que admiro ligados à dança, tenho que fazer tudo o que posso e bem para crescer como profissional. Neste momento, estou numa fase que já começo a selecionar o que faço e o meu desejo é cada vez fazer menos e melhor.

BW: Sobra tempo para a vida em família?
Max: Pouco, realmente muito pouco.
BW: Max, você vai coordenar esse programa, queria que você falasse sobre o “Desporto no Bairro” que vai ensinar jovens menos favorecidos a dançar Breaking em várias zonas da cidade. Qual o objetivo desse programa?
Max: O objetivo é despertar o amor pela Dança (Breaking) de forma que possa ser um caminho alternativo de vida para quem não vê a luz no fim do túnel.
BW: Como vai funcionar?
Max: Vamos estar ativamente e de forma orgânica em Jam Sessions regulares, nos diversos bairros problemáticos da cidade do Porto. Desse modo, vamos nos aproximar dos jovens e tentar passar a paixão que nos une e nos faz dançar. Com este método natural, pretendemos estar na gênese do Hip-Hop, que é a rua e transmitir bons valores, proporcionando aos jovens um caminho saudável e afastado do crime. Além disso, vamos promover um evento de Battle de arranque e no final, em dezembro, iremos fazer um espetáculo com a crew internacional Ill Abilities, os dançarinos formadores do projeto e os jovens, todos em conjunto, num espaço público do Grande Porto.

BW: Quem são os dançarinos da Momentum Crew que vão trabalhar ativamente e de que forma vão trabalhar?
Max: Temos 5 Crews trabalhando neste projeto, o que também é pioneiro em Portugal, com 10 Formadores e eu sou o Curador. Os dançarinos são XXL, Makumba, Roberto, Hércules, Mirre da Momentum Crew, Aiam da Gaiolin Roots, Found Kid da Zoo Gang, Gil da Execellence, Titas da FlyBboys e B-Girl Queen. Tal como disse, vamos trabalhar de forma muito natural e orgânica em formato de Jam Sessions de Linóleo e Boombox, sem imposição de aula, 6 horas semanais nos centros dos Bairros e depois juntar as restantes ações do projeto, tais como o evento e o espetáculo.
BW: É um programa gratuito para esses jovens? Vocês visam prepará-los para as Olimpíadas, já que o Breaking vai virar uma modalidade olímpica?
Max: Sim, é gratuito. Estes jovens não irão estar realmente prontos para as Olimpíadas, mas podem estar prontos para serem grandes B-Boys e B-Girls no futuro. Contudo, temos em mente criar “Clubs” de Breaking nos diferentes bairros e zonas do Grande Porto. Esperemos que venha a ser uma realidade próxima.
BW: Qual a sua opinião sobre o Breaking nas Olimpíadas? Muitas discussões no mundo inteiro sobre o assunto e alguns acham que é possível se perder a essência… Qual a sua opinião?
Max: Acho ótimo existirem diversas plataformas, assim existem mais opções. Eu nunca vou perder a minha essência, vou sempre defender os valores da Cultura do Breaking. Acho que apenas precisamos garantir ter comida no prato, fazendo o que mais gostamos e para isso precisamos de mais opções de vida e de plataformas válidas e os Olímpicos são uma. Mas são “apenas” uma plataforma, não podemos esquecer todas as restantes e continuar a apoiar e participar dos eventos culturais e a viver o Breaking de forma correta, que será sempre a original.

BW: Fale como você imagina que serão os B-Boys, as B-Girls e o Breaking do futuro. Com que deverão de fato se preocupar na hora se preparar?
Max: Acho que haverão B-Boys e B-Girls que apenas vão participar de eventos de caráter desportivo, outros que vão apenas participar de eventos de caráter cultural e outros que vão tentar vivenciar e aproveitar tudo o que lhes for possível. Por isso, acho que no futuro vai existir mais diversidade. O receio é que muitos dos B-Boys e B-Girls da nova geração esqueçam de estudar a Cultura e ter reconhecimento e respeito por quem aqui passou e construiu.
BW: Quem terá chance de ir para uma Olimpíada e quem não terá?
Max: Terá quem tiver uma estrutura nacional forte e organizada. Podes ser o melhor B-Boy do planeta, mas se o teu país não tiver uma boa estrutura e organização, dificilmente irás ter acesso às Olimpíadas em pé de igualdade com outras potências mundiais, sabemos que existem países que já têm o seu lugar reservado nos Jogos Olímpicos, independentemente do nível dos praticantes.

BW: Verdade que o lançamento do programa “Desporto no Bairro” foi adiado devido a pandemia e só foi lançado essa semana no dia 10? Como está a situação da Covid-19 aí?
Max: Infelizmente, verdade. Ninguém sabe, qualquer opinião é pura especulação. É viver o dia a dia e esperar o melhor, estando preparado para o pior.
BW: Que cuidados serão tomados para garantir a segurança de todas essas crianças e jovens que vão participar do programa?
Max: Uso de máscaras por parte dos formadores e jovens, álcool gel e respeito pelas distâncias de segurança.
BW: Houve uma experiência anterior com um acampamento de férias municipais, onde participaram mais de 700 crianças aí em Portugal. Quais foram os resultados?
Max: Ótimos, a nossa cidade está fazendo um trabalho social espetacular, temos a sorte de ter um Presidente que apoia e investe nos cidadãos da Cidade. O Porto é um motor exemplar de iniciativas de valor e queremos agradecer muito à Ágora Porto e à Câmara Municipal do Porto por estarem sempre na vanguarda de projetos de valor. Esperemos que inspirem outros países e autarquias a fazer o mesmo.
Max e os companheiros da Momentum Crew em momento de descontração no Rock In Rio Lisboa.
BW: Agora com o Breaking a ideia é usar esse elemento como uma poderosa ferramenta de inclusão, educação e realização pessoal? Nos fale sobre isso.
Max: É isso mesmo, o Breaking nasceu assim mesmo, é inclusivo, não reconhece barreiras nem fronteiras e permite quebrar os preconceitos sociais. Por estes motivos, vamos utilizar o Breaking como instrumento poderoso de valorização da nossa juventude, com fundamentos que se adaptam aos gostos de uma sociedade contemporânea.
BW: Max, fale sobre os efeitos positivos do Breaking sobre esses jovens e como pode mudar vidas?
Max: Em nível físico vai melhorar toda a condição deles: coordenativa, flexibilidade, controle motor, destreza, criatividade, artística, etc… em nível mental, proporciona capacidade de foco, controle de emoção, sensibilidade e promove a união, paz social e interior. Na perspectiva social, foi tudo o que descrevi na pergunta anterior, além de ainda acrescentar amor à vivência do dia a dia, nesse caso, fundamenta-se no código dos valores do Hip-Hop: Peace, Love, Unity and Having Fun [Paz, Amor, Unidade e Diversão].
BW: Como você se sente de coordenar um programa desses na sua cidade? Qual o sentimento que você tem?
Max: Muito bem mesmo, finalmente. Sentimento de felicidade, pois adoro contribuir para a minha cidade, berço que tanto adoro. Já fiz muitos projetos sociais nos Estados Unidos, Polônia, Sibéria, Cazaquistão, mas para mim o mais importante e que mais me realiza é aqui no Porto e em Portugal. Amo contribuir para Portugal e para a cidade do Porto.
BW: Como foi a reação do público, das crianças, dos jovens, quando a Momentum Crew se apresentou no Parque da Pasteleira?
Max: Incrível, estamos sendo muito bem recebidos, estão todos se divertindo imensamente e está tendo adesão e atenção dos jovens e dos moradores dos diversos bairros, que é o mais importante.
BW: O programa vai até dezembro. Existem planos de continuar no próximo ano?
Max: Pelo menos existe a intenção, esperemos que sim, seria bom para todos.
BW: Deixe uma mensagem para os B-Boys e B-Girls brasileiros que acompanham sua carreira e seu trabalho.
Max: Tenho saudades vossas (de voltar ao Brasil), vocês têm uma energia especial e que admiro muito. Felizmente, temos vários B-Boys do Brasil no momento em Portugal e na Europa, e cada vez mais são uma fonte de inspiração, pois me revejo nas dificuldades que passei outrora, quando emigrei. Tenho muitos B-Boys e B-Girls amigos e que respeito muito no Brasil. A maior mensagem é ESPALHEM AMOR PELO BREAKING e ajudem os jovens a curtir positivamente com esta Cultura.
Fotos: Arquivo Pessoal
- Max é fundador da Momentum Crew, Eurobattle e World Battle.
- Bruce foi finalista da Red Bull BC-One.
- Momentum Crew.
- Momentum Crew.
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Sou B-Girl e eu posso!
O chão vai estalar: está chegando a nova geração do Breaking.
Com cara de brava, com uma força que parece não caber dentro de uma garotinha de 10 anos, Chaya Gabor, mais conhecida no circuito de campeonatos de Breaking como B-Girl Angel do Brasil, sempre gostou de batalhas!
O que muitos não sabem é que a maior delas foi assim que chegou ao mundo e o prêmio foi a própria vida. Com um passado ligado a muitos fios, incubadora, balão de oxigênio e muitas orações, foram assim os primeiros meses da vida dessa B-Girl, marcada pela prematuridade extrema, Chaya nasceu com 850 gramas, ficando internada numa UTI Neo Natal por muitos dias, tendo sobrevivido a 2 paradas cardiorrespiratórias. Angel é um milagre vivo! Após sua alta médica, teve apneia da prematuridade, necessitando de monitoramento contínuo e utilização de oxímetro em seu primeiro ano de vida, ela esquecia-se de respirar mas não deixava de batalhar pela vida jamais.
Seu nome significa “Presente de Deus” e segundo sua família, sempre representou isso na vida de todos que a conhecem. Sua emocionante história virou até um livro chamado “Gerando Milagres”.
Passadas todas as tempestades e incertezas, Angel começou a dançar, no início por uma indicação médica, já que não gostava de nadar. Primeiro no Ballet, depois, acompanhando o irmão, B-Boy Eagle (13), já com quase 4 anos trocou o Ballet por algo bem radical, o Breaking, onde se encontrou.
Curada por Deus e abraçada pela Cultura Hip-Hop, a menina que é bem conhecida na cena, nas redes sociais e na imprensa, tem despontado como um grande nome da nova geração do Breaking. Só no Instagram tem mais de 2000 seguidores que acompanham seu dia a dia, os campeonatos que participa e suas vitórias. Recentemente, ganhou o primeiro lugar na qualificatória brasileira do Festival de Dança “All Dance”, o que garantiu uma vaga no mundial que acontece agora em Setembro. Com uma personalidade forte e marcante na hora da dança, é carinhosamente chamada por seu treinador Eder Devesa de “Senhorita Power Move”. Leia a entrevista:
BW: Fale um pouco sobre você, sobre sua história?
B-Girl Angel: Meu nome é Chaya Gabor, tenho 10 anos. Nasci bem antes do tempo que os médicos e minha mãe esperavam. Nasci com 850 gramas e quase morri. Isso me fez ficar no hospital muito tempo com minha mãe até eu ganhar peso e ficar boa dos meus problemas respiratórios. Mamãe diz que foram muitos dias, onde muitas pessoas oraram pela minha vida. Para alguns, sou um milagre, parei duas vezes de respirar. Lutei para viver, essa foi minha primeira batalha. E minha mãe até escreveu um livro contando a minha história.

BW: Quando você começou a dançar Breaking e quem te ensinou?
B-Girl Angel: Acho que comecei a dançar Breaking dentro da barriga da minha mãe (risos). Nessa época, minha mãe trabalhava com alguns Rappers e quando eles começavam a rimar em shows, eu me mexia muito em sua barriga, às vezes ela não conseguia nem andar. Mas aprender dançar mesmo comecei aos 2 anos no Ballet, com a tia Luciana Amâncio, no litoral de São Paulo, meu irmão também dançava, fazíamos sapateado juntos. Até que um dia conhecemos o Zeca Break, foi ele quem nos ensinou os primeiros movimentos do Breaking e nos fez amar essa cultura. Tenho muito carinho pelo Zeca.
BW: Você tem referências no Breaking?
B-Girl Angel: Sim, algumas: B-Girl Mini Japa, B-Boy Ruddy, B-Girl Ayumi, B-Boy Lilou, B-Boy Menno, B-Boy Bruce, B-Boy Issei, B-Boy André Herculess, B-Boy Dynabeat, B-Boy Vapor, todos os meninos da minha Crew, meu coach B-Boy Dunda e meu irmão.

BW: Quem te treina hoje?
B-Girl Angel: É o Eder do Breaking Combate, já estamos juntos há 2 anos. Gosto muito dele, já faz parte da minha família. Ele me chama de “Senhorita Power Move” (risos).
BW: Tiveram movimentos que foram mais difíceis de aprender, que levaram mais tempo?
B-Girl Angel: Sim, tiveram e têm até hoje! Mas Breaking é repetição. E de tanto repetir, aprendemos.
BW: Sua família sempre apoiou a sua dança? Como é sua vida em família?
B-Girl Angel: Sempre! Minha mãe e o meu pai sempre nos apoiaram demais! Os meus avós também! Todos são grandes incentivadores da nossa arte.

BW: Quando começou a ir para campeonatos? Qual foi o primeiro campeonato que você foi?
B-Girl Angel: Foi em 2017. O primeiro campeonato que eu participei foi o “Rival vs Rival”. Depois, o “Master Crews” e não parei mais de participar de campeonatos. Eu gosto muito de competir! É um momento que me sinto bem e tranquila, pois estou fazendo o que mais gosto.
BW: E qual foi o primeiro que você ganhou? Qual foi a sensação de levantar o primeiro troféu? Você guarda esse troféu até hoje?
B-Girl Angel: Acho que o primeiro que eu ganhei foi em Juquitiba. Foi muito bom ganhar o primeiro troféu e foi contra o meu irmão (risos). O troféu faz parte da minha coleção e está na estante até hoje!
BW: Me fale um pouco da sua rotina de treinos. Que horas e quantas vezes na semana você treina e com quem?
B-Girl Angel: Treino quase todos os dias, às vezes até final de semana e os meus treinos são divididos. Dura em média umas 3 horas.

BW: É fácil ser B-Girl e uma boa aluna na escola? Os colegas e os professores pedem para você dançar para eles na escola?
B-Girl Angel: Não é fácil. Sim, sempre pediram, principalmente nos eventos da escola. Os colegas também, na hora do recreio. E até ensinava para alguns.
BW: Fale um pouco sobre a sua Crew?
B-Girl Angel: Eu faço parte da Dream Kids Brazil, que é uma Crew formada por crianças e juntos somos uma família. Somos treinados pelo B-Boy Dunda. Na Crew somos B-Boy Sonek, B-Boy Marcin, B-Boy Samukinha, B-Boy Eagle e eu.
BW: O que você sente quando você dança? O que se passa na sua cabeça?
B-Girl Angel: Liberdade e felicidade de poder sempre ser eu na minha dança. De ter a minha personalidade. Me sinto muito bem. Admiro muita gente, mas não quero ser os outros, eu quero ser eu. Lembro que no passado, por algum tempo, treinei com um professor que usava as crianças e não respeitava isso e transformava todos os alunos em seus bonecos de imitação. E até hoje é assim. É só olhar para eles, são os meninos e meninas do B-Boy fulano, que dançam igual a ele! Não quero ser conhecida desta forma. Eu não gosto disso! Eu sou a B-Girl Angel!

BW: Uma das suas principais características é a cara de brava dentro das rodas? Você é brava?
B-Girl Angel: Nas batalhas e nas rodas sou concentrada. Mas não sou brava!
BW: Para você o que é o Breaking? O que ele representa na sua vida?
B-Girl Angel: Breaking é a minha vida! Depois de Deus, foi o Breaking que me curou dos meus problemas respiratórios.
BW: Você se acha competitiva? O que te deixa muito irritada durante uma batalha de Breaking?
B-Girl Angel: Sim, sou bastante! Pessoas que parecem presas, repetitivas e que têm movimentos sujos.

BW: Nos campeonatos que você compete contra adulto, você acha que já deixou de ganhar algum pelo fato de ser criança? Acha que as crianças são valorizadas nos eventos?
B-Girl Angel: Não me lembro, mas acho que aqui no Brasil, os eventos não valorizam as crianças como lá fora! Meu irmão foi para a Europa no ano passado e as crianças eram reconhecidas nos grandes eventos. Mesmo tendo adultos também! Se a criança for melhor que o adulto deve ganhar!
BW: O que você se sente quando você não ganha ou perde? Consegue lidar bem com isso?
B-Girl Angel: Me sinto normal, faz parte ganhar e perder. Quando eu não ganho porque errei, na hora fico aborrecida, sim. Mas, quando sei que fui bem e não ganhei porque houve panela acho feio para quem senta na cadeira de jurado. Se um dia for convidada para ser jurada, jamais quero participar de coisas assim.
BW: Além da dança, o que mais você gosta de fazer?
B-Girl Angel: Eu gosto de rimar, gosto de Batalhas de Rima! Gosto de ir na São Bento, gosto de desenhar, de ver vídeos de dança e de como construir as coisas.

BW: Quais são os seus maiores sonhos na dança? Onde quer chegar?
B-Girl Angel: Meu sonho é morar e dançar fora do país. É ser completa na dança, eu sou B-Girl e eu posso!
BW: Tiveram muitas crianças que começaram na mesma época que você e hoje já não dançam mais. Você alguma vez pensou em desistir de dançar?
B-Girl Angel: Não vou desistir da minha vida. O Breaking é a minha vida.
BW: O que você acha da possibilidade de poder participar de uma Olimpíada?
B-Girl Angel: Acho muito bom! Mais uma grande oportunidade para a minha geração.

BW: Fale sobre os eventos que já participou.
B-Girl Angel: Em 2019, fui a primeira criança a chegar na final do Prêmio Sabotage, 1º lugar na Batalha Final Kids e 3° lugar na Batalha Final de B-Girls. 1° lugar Batalha de Juquitiba, participei de Rival Vs Rival (SP), Breaking Combate (SP), 2° lugar no Peruíbe Dance Festival (SP), Master Crews (SP), BreakSP Battle, B-Boy World Classic (SP), Nike Battle Force na Streetopia (SP), 2º lugar São Matheus Break, 1º lugar Fábricas de Cultura (SP), Ar Dance (Peruíbe/SP), 2° lugar na Tattoo Week (SP), Festival Santos Café (Santos/SP), R16 (SP), Tropical Battle (RJ), Battle Kids Argentina, Quando as Ruas Chamam (DF), Red Bull BC One Camp Brazil, Campeã da Quebrada Viva Battle, 1° lugar no Arte Breaking, 2º lugar no São Vicente Festival, 1° lugar na modalidade Kids do All Dance Brazil 2020.

BW: Como foi ganhar a vaga para o mundial no All Dance World?
B-Girl Angel: Foi bem especial! Treinamos durante meses a coreografia “Anjo do Breaking” e o resultado foi a resposta a um bom trabalho feito. Vou lutar pelo mundial também!
BW: Quem é a Angel?
B-Girl Angel: B-Girl Angel do Brasil sou eu! Fora das batalhas sou a Chaya!
BW: Que mensagem você deixaria para outras crianças que pensam em começar no Breaking?
B-Girl Angel: Venha logo dançar e conhecer essa cultura!
Fotos: Arquivo Pessoal/The Sarará/Willian Machado/Man/Fernando Ferreira
- Em 2019, B-Girl Angel foi a primeira criança a ser indicada para o Prêmio Sabotage
- Este ano 1º Lugar no All Dance Brasil, garantindo vaga para o mundial
- "Anjo do Breaking" vai representar o Brasil no All Dance World 2020, solo de Danças Urbanas
- B-Girl Angel do Brasil
- B-Girl Angel do Brasil
- B-Girl Angel do Brasil
- B-Girl Angel do Brasil no "Rival vs Rival"
- B-Girl Angel do Brasil na "Tropical Battle"
- B-Girl Angel do Brasil na "World B-Boy Classic"
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Ele é o guardião da história do Hip-Hop brasileiro
Conhecer o passado e respeitar quem o escreveu é um dever e uma sábia decisão de quem pretende viver o verdadeiro Hip-Hop ou falar em nome dele.
A História dessa cultura não é uma lista de nomes, datas e feitos de pessoas antigas, mas sim um registro de homens e mulheres desbravadores que abriram caminhos, criaram pontes onde não existiam, enfrentaram preconceitos, quebraram tabus, resistiram a tudo e a todos, erraram e acertaram para que hoje tudo fosse diferente.
Como certa vez disse Afrika Bambaataa: “O Hip-Hop é conhecimento, cultura, entendimento, autoconhecimento, conhecimento sobre os outros”.
O Portal Breaking World acredita na verdade dessas palavras e teve a honra de conversar essa semana com “O Guardião” da história do Hip-Hop brasileiro.
Queridos leitores, convidamos a todos para esse incrível bate-papo com Rooneyoyo, onde falamos do passado, do presente e do futuro.
Está pronto para essa conversa? Então senta que lá vem história…
BW: Rooney, queria que você falasse um pouco da sua infância, da adolescência e como era seu relacionamento com sua família. Quem era o Rooney nessa época, o que pensava e sonhava?
Rooneyoyo: Eu nasci debaixo da ponte, no Bixiga (risos), como brinca minha mãe até hoje, porque foi demolido e virou um elevado naquela região. Costumava sair cedo de casa e só voltava à noite, jogava bola, andava de Skate, bicicleta, patinete, pula-pula, corda, brincava com o que meus amigos emprestavam. Alguns brinquedos eram feitos por mim, tais como: carrinhos de rolimã, que eram construídos com restos de madeira que pedia nas oficinas e que achava em terrenos baldios; pipas, com papel de pão e vareta de bambu que encontrava na rua; taco, feito de madeira de construção; bolinhas de gude, feito à mão lixado de epóxi, além disso, fazia rolos e trocava por figurinhas para poder bater. Na adolescência, para levantar um dinheiro, fazia pulseirinhas artesanais com nomes personalizados de linha de tricô, pranchinhas de surfe como pingente de acrílico, que achava na rua, aprendi olhando os artesãos de rua. Mas, a minha paixão era jogar botão de mesa que fazia com tampa de relógio, fui campeão paulista quando tinha uns 14 anos. Nessa época, ia para o centro da cidade a pé, entrava nos condomínios comerciais perguntando se havia relojoaria para pedir vidro de relógio riscado e adesivo da empresa, que também colecionava, com o troco do pão juntava e comprava adesivo dos times e números à base de água e colava nestas tampas e pintava com tinta de guache escolar ou esmalte, escondido da minha mãe. Aos 16, conheci o Break e também o ioiô, numa promoção de refrigerante e treinava mesmo fora da temporada, quando chegou a promoção, em 1998, comecei a participar das competições de bairro e intimava os campeões da época, até que um deles me deu “uma lavada”. A partir daí, comecei a treinar mais e um colombiano me ensinou uns truques, fui convidado a participar de uma competição interna no fim da promoção e ganhei o título de “Internacional Champion Yo-Yo” da Russel Company, fui convidado a viajar com a Cia. de Yo-Yo, ou seja, minha infância dura até hoje (risos). Nesta época, recebi vários apelidos: Ninaco, Tanajura, Pé na Cova, Índio, Tijelinha, Tripa, Zé ou Zé Ricardo mesmo, cada lugar que frequentava tinha um apelido, pois não ficava em casa, vivia procurando algo para fazer e andava demais e a cada período eu tinha um ciclo de amizade para poder usufruir do que eles tinham para oferecer. Sobre pensamentos e sonhos ao decorrer da entrevista vocês vão conhecer.

BW: Quando teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Rooneyoyo: Em 1983, vieram uns promotores do SENAC na minha escola, oferecendo apostilas para vender e quem comprasse ganhava a inscrição do curso de datilografia gratuita, minha mãe meio que me obrigou a fazer o curso e eu tinha que ir a pé para o centro, na Rua 24 de Maio, fazer o tal curso depois da escola, entre agosto e dezembro, muitas vezes antes de começar o curso tinha umas rodas no centro. Era muito comum na época, com capoeiristas, puladores de círculo de facas, jogadores de bolinha da sorte. Em meados de outubro vi uma roda diferente, eram os dançarinos de “Breakdance”, vi um monte de meninos dançando ao som de um rádio gravador (boombox) pequeno, a mesma dança que assistia nos programas de TV e dos videoclipes, pois raramente passava algo interessante para mim, o encantamento foi imediato, fazia curso 2 vezes por semana, saía da escola e corria para o centro, para ver se encontrava esta roda de novo, para tentar aprender algo, enturmei-me e vi a Gênesis do que hoje chamamos de Hip-Hop se formar em São Paulo, de lá para cá tudo virou História e hoje profissão.
BW: Quem eram suas referências? Que elementos fizeram toda a diferença na sua vida? Com quem você aprendeu?
Rooneyoyo: Minhas referências eram os dançarinos da Rua 24 de Maio com a Rua Dom José de Barros, mas não sabia o nome de quase ninguém, até começar a ouvir quando um chamava o outro pelo apelido, eram alguns artistas dos videoclipes da época de 1983 e quando vieram os filmes em 1984, aí perdi a linha mesmo. Na época, não tínhamos conhecimento dos elementos artísticos que conhecemos. A “Febre Breakdance” tomou conta de mim, após a chegada dos filmes no Brasil, achava que tinha que fazer tudo para ser reconhecido dentro da Cultura, comecei dançando, depois fazia uns desenhos e pintava em roupas e vez ou outra um traço no muro devido a falta de grana para tintas, mais tarde, conheci o Rap, pouco antes de ir para a São Bento, em 1985 e, na sequência, tive a oportunidade de conhecer os equipamentos de DJ. Lembrando que estive presente na 24 de Maio, no aniversário de São Paulo na Praça da Sé, em 1984, no “Festival de Break”. Ver os caras que eram meus amigos indo para a novela “Partido Alto”, da TV Globo, assistir os filmes “Breakin” e “Beat Street” no cinema e, em seguida, frequentar o Boulevard da São Bento, isso foi uma “lobotomia” (risos). O aprender foi natural com todos que convivi, mas o principal era que tínhamos que ter uma Gangue, a minha era a AclimaçãoBreaker´s, com Hamilton, Eu (Ninaco), o Marcelo Gueta e seu irmão mais novo Guetinha, treinávamos no parque da Aclimação, no centro, me aproximei do Andrezinho (ALAM Beat), que era amigo do Mancão do Cambuci, treinávamos no meio da semana, durante a noite. Logo, nos encontramos enquanto irmãos e viramos da Família Street Warriors. Nesta época, conheci Tico e Teco (OsGemeos), nós trocávamos desenho pela janela, pois a mãe deles não deixava eles dançarem conosco naquele horário, além disso, com frequência o ALAM Beat me chamava para treinar na Pompéia, na casa de uns amigos que tinham uma garagem de azulejo, com Faustinho (Falecido) e Gula, a gente frequentava os bailes de matinê aos domingos, mas raramente entrava, pois não tínhamos grana para frequentar, às vezes entrava escondido, cerca de meia hora antes de fechar, assim conheci o Jack (MCJack) no clube A Ponta, no Tatuapé e revezava os treinos de domingo, quando ia ao Parque do Ibirapuera, lá treinava uma gangue de manhã em um período e no outro período vinham outras gangues diversas, ou seja, ficava de manhã até o fim da tarde, para aproveitar, sem comer e a pé (risos).

BW: Outra paixão foi o ioiô, que deu significado ao seu nome, Rooneyoyo. Fale um pouco dessa outra paixão.
Rooneyoyo: O nome “Rooneyoyo” tem vários significados, bora lá: Rooney foi o Heliobranco que me apelidou, na época das visitas à casa do DJ Ninja com a Rádio NWBass, para poder mixar num racha, simulávamos uma rádio fictícia e eu gostava muito de Gangsta Rap e meu apelido no disco Radicais do Peso ficou “Gang$taRooney”, o nome foi inspirado no Filme “Action Jackson” um Blacksploitation (filmes feitos por e para negros americanos) onde tinha um personagem tipo Robin Hood Urbano do Gueto, o porquê fica por conta da imaginação do leitor… (nada a declarar); Rooneyoyo foi a junção do nome porque alguns me chamavam de Yo-Yo também e outros me chamavam de Rooney Yo-Yo e juntei tudo para ser único nas buscas na internet. Então, tenho vários personagens e moldo conforme a necessidade.
BW: Onde tudo começou para os B-Boys e B-Girls de São Paulo? Fale sobre o Marco Zero e sobre a pedra que até hoje tem o seu nome.
Rooneyoyo: Em São Paulo, as coisas foram simultâneas em vários bairros, pois os clipes começavam a ser exibidos com cenas de “Breakdance” (a febre) de 1983 a 1985, os dançarinos eram oriundos de grupos de dança dos Bailes Blacks, mas a Rua 24 de Maio com a Dom José de Barros nos deu a explosão midiática que as pessoas conhecem da História da Gênesis do Hip-Hop de São Paulo e mesmo sem saber a nomenclatura correta, os programas de auditório passavam as disputas semanalmente e durante meses. Quando falamos de B-Boys e B-Girls o prisma muda, pois naquela época só vi uns três dançarinos irem para o chão, os movimentos eram simples. Depois do clipe do Break Machine e os filmes Breaking e Beat Street, a dança melhorou um pouco, em relação às mulheres não vi nenhuma, somente fui vê-las fazer uma entrada nos encontros da São Bento e creio que por volta de 1987, nós temos um grande vácuo na cena feminina. A participação delas foi intensificada após os encontros da B-Boys Battle Party, de 1998 em diante. O Breaking de hoje é diferente do que vimos no início, para entendê-lo, necessita-se compreender o contexto de cada época. Anos depois, no ano de 2014, Nelson Triunfo com apoio do ALAM Beat leva um projeto na Secretaria de Cultura e aprova um evento em homenagem aos tempos primórdios e eu fui carinhosamente homenageado pelo Mestre Nelson Triunfo, a quem sou muito grato pela sua contribuição pela arte e cultura.

BW: Você é considerado um dos pioneiros do Hip-Hop no Brasil, são quantos anos envolvidos com o Hip-Hop? Nos conte como tudo começou aqui no Brasil e como era viver a Cultura Hip-Hop na década de 80?
Rooneyoyo: Eu datei minha participação quando frequentei a Rua 24 de Maio com Dom José de Barros em agosto de 1983 em diante, quando fazia um curso de datilografia ali no Senac. Como já destaquei, este período chamávamos de “Break” ou “Breakdance” o que conhecemos hoje de Cultura Hip-Hop. Nessa época, tudo era muito orgânico e presencial, não havia internet, telefone de fácil acesso, as informações eram disseminadas via TV, rádio, jornal, revista, vinil, k7. As Informações eram raríssimas, para se ter uma foto de dança, tinha que comprar a revista para ter acesso ao conteúdo. Quando me perguntam sobre a década, foram sete anos de evolução, pesquisa, visitas em lojas de disco para busca dos conteúdos, mas nem sempre comprávamos, olhávamos revistas em bancas de jornais para saber se tinha alguma informação nas revistas, ia em laboratórios médicos e entrava nos consultórios para ficar folheando página por página para ver se achava algo que interessava, ia em bibliotecas todos os dias para folhear os jornais do dia na seção de cultura, para saber se sairia algo naquele dia, isso era interminável. Nos encontrávamos no Boulevard da Estação de Metrô São Bento para ver o que cada um trazia de informação e ficávamos olhando por horas e discutindo teorias sobre matérias, fotos, roupas, etc. Faço isso até hoje (risos).
BW: Que boas lembranças você tem dessa época, como era a vibe de quem dançava?
Rooneyoyo: É interessante lembrar dessa época para resgatar as memórias, principalmente porque se não revivermos e contarmos nossa história, ninguém o fará, vivemos em um país que invisibiliza as nossas histórias, apreciá-las ou respeitá-las não é cultural, principalmente por ser uma cultura marginalizada. Esse período foi incrível, principalmente porque estávamos inventando o nosso jeito de fazer arte e a cultura com todas as suas camadas, que muda de lugar para lugar. Minha energia sempre foi de troca de informação, militância, de luta, de abertura de espaço, estávamos no pós-ditadura e a dança também era um aprendizado constante, todo dia aprendíamos coisas novas. A dança moldou meus pensamentos e por ela tenho feito reflexões e construído caminhos em prol de comunidade, como não tínhamos nada de referência, (re)criávamos, faço isso até hoje, se não tínhamos uma roupa a fazíamos, se não tínhamos um som, montávamos. Então, a vibe era se reinventar.

BW: O Breaking da sua época era diferente da forma que é dançado hoje? Que diferenças você pode citar entre os B-Boys e B-Girls da sua época e os de hoje?
Rooneyoyo: É de fato diferente, já na nomenclatura, no conceito e na equidade de gênero, primeiro porque estávamos em uma bolha da moda e tudo era ditado pela TV, jornal e algumas revistas, a era “Breakdance” de 1983 a 1985. Depois temos a época dos que resistiram e suavizaram a inserção e o acesso à informação da nova geração, pois as informações foram chegando aos poucos, as descobertas e estudos sobre o que vivíamos, eram moldados à nossa realidade e foi se transformando no que todos vivenciam hoje, um exemplo disso é o termo B-Girl, que não existia, pois na época todos dançavam o “Breakdance” que hoje conhecemos como Popping, Waving, Tuttting, Robbot, alguns passos de Locking misturados com algo de Breaking. Sobre as B-Girls, só as vi depois de 1987 e elas estavam vinculadas por serem namoradas de algum Breaker que frequentava aquele espaço. Alguém precisa me rememorar, se alguma delas foi lá só para dançar o Breaking e algumas se tornaram MC em meados de 1987/1988. Havia também uma época que todos eram denominados de B-Boy, o B-Boy que tocava era o DJ, o B-Boy que grafitava, era o grafiteiro. Nossa dança, era coreografada ou muito improvisada e sempre fora do ritmo, outro detalhe que mudou muito também para melhor, claro e para corrigir isso, tivemos brigas homéricas de conceitos e provar, algo que demorava, pois os documentos e vídeos com informações não estavam ao alcance dos dedos como é hoje, mas dávamos mais valor a cada momento.
BW: Fale um pouco da Street Warriors, se não me engano foi fundada em 1983, correto? Como era o relacionamento com a sua Crew?
Rooneyoyo: Essa parte da História é linda, pois somos uma família até hoje e para entender isso tive que rever com nossos personagens da época, pois foi uma junção de várias gangues e grupos de dança. Em 1983, no Cambuci, formou-se o P.O.R.T.A.L., que era como chamamos hoje de guarda-chuva de tudo isso e podemos começar com a Star Break do ALAM Beat, Didi, Gula e Faustinho, que virou Zulu On A Time Bomb com ALAM Beat, Didi e Silvão que virou B-Boys City Breakers com a entrada do Raul (ex Funk & Cia), Deley (ex Os Cobras) e Paulinho. Gula e Faustinho (Falecido) montaram a Duck Rockers, a Fantastic Break do Cambuci com Edinho, Mancão, Fubá, Edu “O Bárbaro”, Bulldog, Luciano e Aninha; o Tico e Teco (Os Gêmeos) eram Cambuci Breakers, mas também eram B-Boys Due (nosso grupo de grafiteiros), eu, Tico e Teco e quando iam cantar Rap eram MC Due e, para finalizar a família, a minha Gangue Aclimação Breakers que eram, eu (Ninaco), Hamilton, Gueta e Guetinha, muitos grupos da época mudavam de nome para entrar em concursos. Isso tudo acontecia em 1 ano, ou seja, tem grupo que não durou 2 meses, até que o Mancão e o ALAM Beat com Silvão fundam a Street Warriors e DJ Carlão (Ninja) foi convidado para ser o DJ do grupo. A data é comemorada todo segundo fim de semana de dezembro junto com o P.O.R.T.A.L no Cambuci.

BW: Você foi um dos caras que fez os primeiros eventos de Breaking com público abrangendo todos os estados. Fale um pouco dessa vida como organizador de eventos em todos esses anos. O que foram as festas chamadas B-Boys Party, que aconteceram na Avenida Rio Branco?
Rooneyoyo: Eu virei organizador, como pode perceber nas falas anteriores, porque não tinha ninguém que fizesse a produção e também porque tenho sede de ver as coisas acontecerem. Via eventos competitivos acontecendo no exterior pelas revistas e VHS trazidas por amigos que viajavam para o exterior e pensei: “vou fazer isso igual”. Na época, eu tinha uma loja de roupas de Hip-Hop voltada para o nosso público e usava o lucro da loja para subsidiar e promover estas festas. Foi como tudo começou, mandando cartas pelo correio, colocava anúncios em revistas especializadas e quando respondiam, os convidava, fiz muita feira de moda fora de São Paulo, quando vinham ao meu balcão de vendas itinerante (estande) comprar alguma peça, já pegava contato e com certeza iriam receber um convite pelos Correios. A B-Boys Battle Party era uma festa mensal que promovíamos nos clubes do centro da cidade daquela época, entre 1998 até 2001, alugávamos o local e trazíamos os equipamentos. Tudo devido a julho de 1998, quando os encontros da Estação São Bento do Metrô foram proibidos, pois estavam mudando para um lado mais comercial com lojas e não queriam nosso povo lá, tentamos ir para a rua em outros pontos e não vingou, foi aí que decidimos fazer estes encontros, uma vez por ano fazia o B-Girls Battle Party, onde descobri uma mina, a DJ Nice, que competia no DMC (competição de DJs Nacional), ela gostava de Break Beat Europeu, uma parte da festa era comandada por elas; uma vez ao ano também fazíamos a Batalha Final, uma competição de coreografias e no final tinham batalhas de grupo. Os anos foram passando e fui mudando regras e categorias, hoje temos o foco voltado em competições de alto rendimento.
BW: A primeira “Batalha do Ano” que levou 3 mil pessoas aconteceu em qual ano? Como foi esse evento?
Rooneyoyo: Nosso primeiro evento da Batalha aconteceu em 1999, como fazíamos as festas mensais com batalhas individuais, de duplas, misto, de Old School vs New School (acima de 30 anos versus abaixo de 14 anos), B-Girls Battle, pensamos: vamos fazer a B-Boys Battle Party Annual Contest, com o nome Batalha do Ano que foi um desastre comercial em um negócio mal elaborado com o B.O.T.Y mundial, mas o público veio em massa. Tentamos mais um ano, mas para arrumar patrocínio era muito difícil, pois levar até quatorze pessoas para a Alemanha era oneroso e comercialmente inviável, mudamos o nome que segue até hoje, Batalha Final. Creio que este público de 3 mil seja em 2004, no Parque Dom Pedro, na antiga fábrica da Comgás, um espaço com 11 mil metros quadrados e dezenas de espaços, criamos uma sala onde só tocava Funk Style, creio ser a primeira deste gênero, um ambiente de 1.200 m², onde forramos com Madeirit branco para o Breaking, tivemos 17 DJs, em um pico totalmente abandonado, lembro que até os Guardas da Polícia Metropolitana ajudavam a segurar as escadas pros Pichadores e Grafiteiros fazerem seus trabalhos, ali nosso público dos 2 dias atingiu cerca de 8 mil pessoas, 3 mil no sábado e 5 mil no domingo. Foi assustador ver aquele mundaréu de gente em um pico sem nenhuma estrutura, mas era uma época Roots mesmo, fazíamos as coisas com muito amor, paixão, hoje somos mais comerciais, seguimos regras e leis, outros tempos.

BW: Fale sobre sua experiência como DJ e quando fez a escolha de parar de dançar e se dedicar a essa carreira? Estar nas pick-ups é melhor do que estar nas rodas?
Rooneyoyo: O ser DJ era uma época que achava que tínhamos que ser tudo para ser da cultura, adoro música e adorava ver como os DJ´s faziam para mixar, achava aquilo mágico, os toca discos eram um sonho de consumo distante. Então, comprava os discos, ouvia, lia, traduzia, copiava as roupas, ficava tentando entender porque das correntes, dos chapéus, das marcas, ficava horas decifrando fotos e encartes. Conheci o DJ Carlão no Cambuci, ele me mostrou um som, o Love Master Ace com a música Diseases e o refrão parecia que ele falava Ninja, foi aí que o batizei com seu apelido, DJ Ninja. Na casa dele aprendi a mixar, cortar, fazer back to back, alguns poucos scratchs, mas demorei muito para ter meu primeiro set de DJ e não escolhi parar de dançar, tenho problema na coluna, sinto dores e fui diminuindo minha ação como dançarino gradativamente, na real sempre quis dançar Popping, mas não tenho essa aptidão e fui parar no chão mesmo. E não tem comparação uma arte com outra, estar nos toca discos comandando um evento ou festa é diferente de estar nos palcos ou numa roda (Cypher) como dançarino. Gosto de tudo, então, pulo esta decisão.
BW: Você esteve fora do país algumas vezes, nos conte sobre suas experiências e sobre grandes amizades que fez pelo mundo.
Rooneyoyo: Todo ser humano tem que se oportunizar a sair de seu bairro, município, estado e país, trocar experiências ou vivenciar outras culturas, estudar para poder entender, respeitar para poder se posicionar, cultivar seres com propósitos parecidos, ser respeitado e ser verdadeiro com sua essência, olhando de fora parece algo surreal conhecer seus ídolos, mas criar seu conceito dentro de outra cultura traz verdade no seu eu, faz ser respeitado pelos criadores de uma arte que pode ser usada para o bem. Fazer amizades pelo mundo é algo que me faz bem, traz paz, faz o mundo ficar pequeno. Nada é impossível.

BW: Tocar na São Bento tem algum significado especial para você? De onde saíram os nomes DJ Naja e O Guardião?
Rooneyoyo: Sim, tocar ali, onde eu aprendi a estudar, pesquisar, me moldou para ser o que sou hoje, é impagável. Me fez entender quem eu sou e porque estou na Cultura. A.G. Naja, A. G. era o Assistente Geral do DJ Ninja, da época do disco do Hip-Hop Cultura de Rua, da Dupla MC Jack e DJ Ninja. Eles tinham muitas colagens e intervenções durante o show, não dava tempo de fazer tudo sozinho, eu tinha que ser preciso, tinha que ser dinâmico, segurava os discos, fazíamos shows com vinil e eu era como um Roadie, um faz tudo do grupo. O apelido Naja foi para combinar foneticamente com o nome do Ninja. O Guardião veio após uma palestra sobre a evolução disso ou evolução daquilo sobre Hip-Hop, mas poucos defendiam a raiz da cultura, sabemos que um povo sem passado é um povo sem História. Fui para casa pensativo e irritado, então adotei este codinome como simbologia de ser um cara que respeita a raiz, como tenho muito material da “Febre Breakdance” é como se fosse um ancião, quando alguém precisa de uma informação, procuro as referências que tenho para contribuir.
BW: Em sua caminhada, você ajudou muitos B-Boys e B-Girls a encontrarem seu próprio caminho. Em recente evento a B-Girl Miwa falou justamente da gratidão que tinha a você! Na sua visão, quais são as maiores dificuldades hoje na vida de um B-Boy ou de uma B-Girl?
Rooneyoyo: Creio muito no ajudar sem olhar a quem, mas lógico, com o passar do tempo você aprende a ajudar a quem quer ser ajudado e hoje estou bem seletivo, pois muitas pessoas acabam se aproximando para tirar proveito da sua boa vontade e você vai perdendo a fé nas pessoas, justamente por causa dos mal-intencionados e muita gente deixa de ser beneficiada por isso, e todos perdem. É um assunto delicado e muito pessoal, a Miwa que você citou é uma mulher inteligente e dedicada, na época vi um potencial circunstancial diferente e foi uma troca mútua de trabalho e conhecimento, tinha minhas ideias e ela fome de fazer algo importante para ela e pra Cultura, tenho esse olhar de perceber o potencial em algumas pessoas, umas dão muito certo outras não, devido a fatores variados, os que dão certo ficam para a História, os que dão errado dá vontade de desistir de tudo, porque são pessoas que te traem e não entendem o quão profundo é ser leal e respeitar sua criação intelectual. Isso vem acontecendo com mais frequência, alguns querem ser você sem viver a sua experiência, os valores de hoje são fúteis e sem pudor, cada vez eu vejo menos pessoas criativas e sem propósitos longínquos, são imediatistas, isso não é bom para ninguém. Não há dificuldades se fizer um planejamento, mas para isso o dançarino precisa entender e respeitar vários níveis de ação global. Estamos falando de Brasil? Aqui estamos muito à frente dos nossos vizinhos, porém, sonhando errado. É fácil, falando de competições, derrotar o mundo todo com nossa aptidão corpórea, mas não respeitam as hierarquias e conhecimentos dos mais velhos e se baseiam em pessoas erradas, apoiam um desconhecido que nunca fez nada pela sua categoria em detrimento de achar que é seu concorrente. Muitos criam mecanismos abstratos e temporários, isso não funciona e vai dar errado. Se não unir a categoria, nunca dará certo e tem um monte de gente indo no caminho errado, porque é o mais curto, dificuldade haverá sempre, devido às escolhas egoístas.

BW: Das festas de B-Boys Party na Rio Branco diretamente para o futuro. Hoje falamos de Olimpíada e você é o Vice-Presidente da Federação Paulista de Breaking e Presidente da Confederação Brasileira de Breaking. Você imaginava no passado que o Breaking chegaria a virar uma modalidade olímpica? O que acha sobre o fato do Breaking ter sido indicado como mais uma modalidade olímpica? É possível com toda essa evolução que se perca a essência desse elemento como muitos temem?
Rooneyoyo: Já tive esta conversa com Crazy Legs em 1999, quando o trouxemos, em um dos jantares parece que tivemos a mesma sensação e desejo de ver o Breaking competitivo nas Olimpíadas, porque falamos da abertura nas Olimpíadas de 1984 nos EUA, justo na febre do “Breakdance” e ficamos imaginando como seria, foram horas discutindo conceitos, pois eles são os criadores e nós consumidores, então, até ele entender a ótica de quem não vive nos Estados Unidos da América, que eles estão em um país corporativo e nós em um país assistencialista e isso não é fácil. Mas, não imaginava de fato que isso aconteceria. Hoje tenho um pensamento crítico muito profundo sobre este assunto, creio que é cedo para essa admissão da nossa modalidade, pois o mundo todo precisaria ter uma política pública voltada para o esporte e um apoio mais forte em todos os países, o que ninguém percebe é que temos uma disparidade cruel e injusta, enquanto Europa e Ásia gasta cerca de 6 milhões de reais para fazer um evento de um final de semana, nós aqui, por exemplo, não conseguimos captar recursos na casa dos 50 mil reais para um evento, muito menos nossos vizinhos Sul e Centro Americanos, Africanos e Oceania, para que estejamos entre os 64 países como consta na proposta para o COI. Politicamente é um evento para envaidecer o capitalista eurocêntrico. Para mudar a ótica da nossa categoria, agora falando dos brasileiros, precisam entender que temos um plano, mas sem adesão não vai funcionar. O que vejo é daqui uns anos, não termos brasileiros competindo pela falta de escolhas coerentes e assertivas neste momento, pois um erro pode frustrar toda uma geração e teremos um delay como estamos tendo no futebol. Conversamos com um dos colaboradores da elaboração das regras para as competições da modalidade, o Storm, apontei várias incongruências na competição, mas como disse, politicamente e esportivamente vai sim perder a essência como muitos temem. Creio que quem gosta da arte como cultura deve continuar fazendo como sempre fizeram e quem tem o foco Olímpico deve procurar focar. Daqui 20 anos teremos dois tipos de dança e como irei continuar fazendo as duas danças, a do Hip-Hop e a Olímpica, não tenho este problema. As pessoas vão ter que aprender a separar isso no conceito desde o início, hoje a confusão está estabelecida, Breakers formados em Educação Física criticam as competições de alto rendimento, mas aceitam ser produtores e jurados de competições de empresas que trabalham com o esporte de alto rendimento. Competidores atuais da modalidade, dançam, competem e julgam competições de alto rendimento e são contra as competições Olímpicas, o dinheiro compra as pessoas, mas não admitem que o fazem. Por isso, digo que não vai dar certo se não entrarem num consenso. O que eu vejo é medo de se assumirem publicamente, pois ser de uma Federação ou estar em uma Confederação dá trabalho, custa caro e é muita responsabilidade, as pessoas não sabem como funciona, não querem aprender e se dar o trabalho de criar algo que não existe. Repetindo, as pessoas não querem trabalhar para criar algo inexistente, querem o produto pronto para consumo, para poderem criticar em vez de aderir e ajudar a realizar.

BW: Com o advento das Olimpíadas o que muda na vida daqueles que pretendem de fato se tornarem atletas olímpicos? O que essa nova geração de B-Boys e B-Girls pode esperar?
Rooneyoyo: Sempre acreditei que tudo pode ser bom, vai mudar a vida de quem ingressar neste foco Olímpico, não só para o Atleta Dançarino, mas para todos que se envolverem, ainda vão abrir caminho para outros profissionais da categoria como comissão técnica, profissionais da saúde, entre outros, mas para que isto dê certo aqui no nosso país teremos que mudar nossa cultura do pensamento, cultura de postura, cultura do estudar, pesquisar, respeitar e nossa política tem que mudar para um campo diferente do que temos hoje, a política do assistencialismo, a política de dar migalhas popularmente falando. Isso nunca funcionou em nenhum país do mundo. O esporte pode mudar isso, melhorar a vida dos brasileiros, mas a política tem que mudar também, a mudança deve demorar uns 50 anos ou umas três gerações, ou seja, não veremos isso acontecer. Mas, vou dar um voto de esperança e fazer um apelo para quem ler esta entrevista, vamos nos unir pela causa juntos ou iremos sempre brigar entre nós e não vamos chegar a lugar algum.
BW: No último ano você realizou a Batalha Final em alguns lugares como no Shopping Tatuapé e no Centro Esportivo Tietê, na Virada Esportiva. Como foram esses eventos?
Rooneyoyo: Desde o início as Batalhas que fazemos são tematizadas, cada ano criamos um conceito e aplicamos nas peças publicitárias e tentamos envolver os participantes para este universo lúdico que nos possibilita viajar dentro da arte. Não fizemos nada novo, porém inédito em São Paulo, entrar em um Shopping e executar um evento com todas as exigências e prazos cumpridos, além de participar de uma Virada Esportiva, com a Secretaria Municipal de Esportes, só mostra o quanto nós amadurecemos profissionalmente e estamos preparados para assumir responsabilidades internacionais com todas as exigências Olímpicas. Executar eventos com apoio governamental é sempre uma roleta russa, exige um grau de flexibilidade de alto nível mental. Nunca é fácil depender e assumir a responsabilidade com as leis que temos, a burocracia não ajuda, os prazos são curtos para uma execução com excelência. Mas, concluímos e superamos a expectativa das metas impostas pelo grupo de trabalho. Com o orçamento que tínhamos foi planejado 4 eventos e executamos um total de 7, incluindo a contrapartida e com uma ação social de doação de reciclagem dos banners que sempre ficam inutilizados, ajudando uma comunidade de mulheres de vulnerabilidade social. Foi emocionante concluir e conseguir este feito dentro da realidade imposta.

BW: Com a pandemia, muitos planos mudaram na vida das pessoas. Em muitos casos, foi necessário uma readaptação. O que você tem feito? É verdade que está trabalhando num novo modelo de evento? Pode falar sobre ele? Quando será e de que forma será?
Rooneyoyo: Essa pandemia nos atrasou 2 anos de planejamento, li e estudei muito e fiquei pensando como poderia mudar parte desta realidade atual. Tínhamos planejado um Brasileiro e um Sul-Americano para este ano, mas seguindo as normas e decretos da OMS (Organização Mundial de Saúde), tivemos que nos adaptar e voltar à realidade imposta. Então, vamos fazer um evento semipresencial, com a participação somente dos competidores, DJ, MC e produção reduzida, sem público, para isso criamos um programa de TV On-Line, com um conceito Cibernético e Eletrônico com o piso individual e com o distanciamento social necessário. Teremos um sistema de julgamento presencial com um aplicativo digital com desenvolvimento de inteligência artificial, muito parecido com o que vai ser usado se aprovado no futuro Olímpico, ou seja, quem participar desta competição já irá sentir a emoção de como será daqui alguns anos. A Batalha Final ocorrerá em breve. Sobre o que eu tenho feito desde março, estudando, consegui ler 19 livros e 8 dissertações de mestrado de amigos, escrevi um texto para um livro que será publicado em breve pelo Os Gêmeos, falando da parte do Rap brasileiro e a correção cronológica do mesmo. Já era para a exposição “Segredos” deles, que será exibida na Pinacoteca, em São Paulo, estar aberta ao público e deve abrir em outubro, tem obras minhas feitas na época que trocávamos desenhos pela janela, não posso dar spoiler mas quem for irá entender este universo do Hip-Hop da sua raiz até o lado mais comercial e aqui fica meu convite para a visita. Dica: comprem o livro e os brindes, vai virar item de colecionador. É isso, estou fazendo algo produtivo, sendo eu e aproveitando para pesquisar mais, pois tenho novidades para lançar em breve, muitos acontecimentos artísticos.

BW: Na sua opinião, o que você acha dos eventos on-line que têm acontecido e como acredita que será a vida futura de B-Boys e B-Girls com esse fator de risco, o novo coronavírus? Que desafios terão que ser enfrentados ao seu ver?
Rooneyoyo: É fato que gostaríamos de ter público presente, mas a pandemia mudou nossas realidades, adaptar faz parte da continuidade. Estou acompanhando alguns eventos on-line e só me mostra o que não fazer, pois conceitualmente estão executando de maneira emotiva, tendenciosa, faz com que desmotivem alguns dançarinos e isso não é bom, por outro lado é importante ter alguns eventos neste conceito, faz com que motivem os dançarinos continuarem treinando, um paradoxo e vejo também muitos competidores com o propósito sem planejamento assertivo e isso é um erro que pode custar caro, procurar uma assessoria seria um bom caminho para melhoria de alguns produtores, uma agenda coletiva poderia ser algo construtivo. Essa doença (Covid-19) é implacável e invisível, os cuidados para com os participantes diretos e indiretos têm que ser levados à sério, temos que aprender a conviver remotamente e conviver conosco sozinhos, este é o maior desafio que enfrentaremos.
BW: Quem é hoje o Rooneyoyo? Qual o legado que pretende deixar para as gerações futuras? E o que significa o Hip-Hop na sua vida?
Rooneyoyo: O Guardião hoje é um cara mais tranquilo e focado em fazer algo que o deixe feliz e em paz. Vai continuar lutando e brigando pelo que acredita, causas que ache importantes, têm muitos sonhos a serem realizados, ideias para tirar do papel e realizar. Um ser pensante e pulsante. O legado é algo que depende de quem vai receber, pois o imediatismo faz parecer inútil o lapidar do tempo, quem dá valor a arte sabe que já cumpriu mais do que prometeu para si próprio, daqui para a frente as ideias estão implementadas e outras podem surgir. Hip-Hop é algo espiritual e orgânico, só vivendo pra sentir e entender.
Fotos: Cadu Barbosa, Willian Machado, 77Produz, DMC e Arquivo Pessoal.
O B-Boy
O Grafiteiro
O DJ
O MC
Rooneyoyo "O Guardião"
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Sai lista dos Top 64 da Red Bull BC One E-Battle
Sai a lista dos Top 64 da Red Bull BC One E-Battle.
O evento é a maior competição de Breaking do mundo.
Pela primeira vez na história dessa competição os ganhadores da E-Battle vão ter uma vaga garantida na final mundial 2021.
Quem se inscreveu e mandou vídeo de qualquer parte do país teve a oportunidade de disputar essa vaga.
Parabenizamos os B-Boys e B-Girls Brasileiros que estão entre os 64. Confira os nomes abaixo:
- Top 64 B-Girls
- Top 64 B-Boys
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“Wakanda Forever”: Grafiteiro de Goiânia eterniza Chadwick Boseman, ator de Pantera Negra, no Brasil
Em Goiânia, quem passar pela Avenida Marginal Botafogo, próximo a região 44, pode conferir mais um incrível mural do artista Decy Graffiti. Decy, que tem mais de 10 anos de carreira e suas artes estampadas em diversos murais pela cidade, costuma retratar olhares e rostos de afrodescendentes e indígenas. Um dos painéis mais conhecidos é a pintura de Martin Luther King, líder do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos nos anos 1950.
Dessa vez, ele resolveu entrar no mundo dos heróis da Marvel e grafitar o Pantera Negra, personagem interpretado pelo ator Chadwick Boseman, falecido no último dia 28 de agosto, aos 43 anos de idade, vítima de câncer. Chadwick foi diagnosticado em 2016 e lutou contra a doença nos últimos quatro anos, enquanto progredia para o estágio IV. Sem dúvida, essa foi mais uma forma de eternizar o tão repetido na última semana “Wakanda Forever”, uma expressão utilizada no filme, se referindo a cidade onde o personagem era rei local fictício na África. São de Decy as palavras: “Na hora eu já comentei com minha esposa que gostaria de fazer essa pintura em homenagem a ele. Foram quase cinco horas de trabalho, mas que valeram a pena. Em Pantera Negra, ele fez um trabalho que representou muito para a comunidade afro. Ele era uma pessoa muito querida. Fiquei feliz com o resultado do mural e com a repercussão, parece que as pessoas gostaram”, conclui o grafiteiro.
Fotos: Divulgação
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Arte no que se veste e também no que se escuta
“Para quem é da velha escola, ter uma jaqueta e um boombox grafitado é como representar as raízes do Hip-Hop em sua essência.” (Fabiano Minu)
Ele nasceu na Vila Maria, bairro da capital de São Paulo. A paixão pela arte do Graffiti e pelas cores em jaquetas aconteceu com a chegada do filme “Beat Street” (A loucura do ritmo), em 1984. Fez parte da 1ª geração de B-Boys de Guarulhos, em 1984 e também da 1ª geração de B-Boys da São Bento, no início de 1985.
Integrante do lendário grupo de B-Boys Fantastic Force (Guarulhos), teve como referências no Graffiti em jaquetas, os grafiteiros Paulo “Robô” e Bad “Break Mania”. Participou da 2ª Amostra Paulista de Graffiti de São Paulo, em 1993, com vários artistas na época, como Os Gêmeos, Speto, Gugu, Vitché, Arhur Lara, entre outros.
Estamos falando de Fabiano Minu e de todo o seu talento, reconhecido dentro da Cultura Hip-Hop. O grafiteiro conversou com o Portal Breaking World e deu importantes dicas para quem pretende aprender mais dessa arte. Leia:
BW: Queria que você falasse um pouco da sua vida, quando começou sua relação com a Cultura Hip-Hop?
Minu: Bom… eu nasci em São Paulo, no bairro da Vila Maria… porém, cresci e moro até hoje na cidade de Guarulhos, atualmente no bairro do Jardim Bela Vista. Na minha adolescência, curtia muito o Original Funk, tanto na dança, como nas músicas. Aos meus 14 e 15 anos frequentei um salão em Guarulhos, que se chamava “Bancários Disco Clube”, onde predominava esse estilo musical na época, no início dos anos 1980. Meu início no Hip-Hop se deu por conta da chegada do “Break Dance” [nome comercial dado pela imprensa dos anos 80/90 para o elemento Breaking da Cultura Hip-Hop – nota da redação] colocado pela mídia no Brasil por volta de 1983. Mas foi em 1984, com o lançamento do filme “Beat Street” que eu e vários dançarinos de “Break Dance” começamos a entender que não era só uma moda de dança passageira e sim que se tratava de uma cultura de rua, que se chamava Hip-Hop, cultura essa que ao passar dos anos vimos toda a sua importância revolucionária em termos de expressão na arte, dança e música.

BW: Verdade que fez parte da primeira geração de B-Boys de Guarulhos e também da São Bento? Nos conte como era ser B-Boy na década de 80?
Minu: Sim… nesse mesmo ano de 1984 em que lançou o filme “Beat Street” eu participava de um grupo de “Breakers” (na época nem se falava B-Boys) e começamos a frequentar um salão no centro de Guarulhos que se chamava “Sundays Disco Club”. Esse salão de dança lembrava muita a “Roxy” do filme “Beat Street”, tocava muitas músicas apropriadas para esse estilo de dança e isso foi o ingrediente para se tornar um dos principais “points” de Hip-Hop antes do início da São Bento, em1985. Em 1984, naquele salão deu-se início a primeira geração de B-Boys de Guarulhos, pois era ponto de encontro para vários “Rachas de Dança” (na época nem se falava que eram “Batalhas”) com grupos de outras cidades, como São Paulo e cidades do interior. Empolgados e impulsionados pelo filme “Beat Street”, começamos a dançar nas ruas e metrôs na cidade de São Paulo. Ainda no ano de 1984, tinha um grupo de “break” do bairro Parque Novo Mundo (próximo de Guarulhos) que participava de um concurso de dança numa emissora de TV em São Paulo, a TV Record, no programa Barros de Alencar. Esse grupo usava o nome de “Break Dance” (Paulinho, Amauri, Adeildo e Paulo Robô) para participar do concurso e passava pelo Metrô São Bento para praticar um pouco da dança antes de se apresentarem no programa e era um grupo que frequentava a Sundays Disco Club, sendo nosso principal rival nos “rachas de dança”. Com o passar do tempo, acabamos sendo convidados por eles a frequentar o Metrô São Bento, junto com outros B-Boys do Bom Retiro… nascia aí os Encontros de B-Boys na São Bento, em 1985. Com Paulinho, Adeildo, Amauri, Paulo Robô, Tadão, Minu, Zé Neguinho, Falcon, Wilson, Cebolão e mais uns 2 a qual não se lembram os nomes.
BW: Fale da sua crew “Fantastic Force”. Como foi criada, sua importância e as principais crews rivais na dança.
Minu: Com a amizade fortalecida do nosso grupo, junto com os B-Boys do Parque Novo Mundo criamos essa união… Mas somente em 1987 com outros integrantes batizamos o nome de Fantastic Force pelo Tchello Rock …porém dá-se essa identidade “Fantastic Force” no início da São Bento por ser os mesmos B-Boys a qual estiveram no início dos encontros. Toda Crew tem sua importância e soma dentro do hip hop, acredito que a partir que uma pessoa se torna uma referência para outra pessoa… ela passa a ter sua importância. Fantastic Force esteve na mesma caminhada de várias referências da metrô São Bento juntamente com as outras crews, Rappers, DJ’s e Grafiteiros. Criamos nosso grupo de rap, participamos de vários eventos juntos com Rappers consagrados como os Racionais (na época eram os B-Boys), Thaíde e DjHum, Mt Bronks, Jr Blaw, Doctors Mcs entre outros. Não tivemos os mesmos “holofotes” em relação às outras Crews… Acredito porque não tínhamos “contatos” para nos “alavancar em projetos”, por nós termos uma linha diferente nas rimas em relação a outros grupos de Rap, por não termos renovações da nossa própria Crew e por tentar uma caminhada diferente, por não sermos do centro. Não éramos uma Crew de batalhas, embora tenhamos feito algumas… nosso pensamento era tentar algo sólido em apresentações independentes… não conseguimos atingir o sucesso, mas temos a nossa história e importância, tanto que, em 2015, fomos um dos principais responsáveis do retorno da São Bento.

BW: Quando começou a paixão pelo Graffiti e por fazer essa arte em jaquetas? É verdade que teve influências do filme “Beat Street”? Nos conte isso…
Minu: No início dos anos 80, surgiram muitos clipes musicais com esse tipo de expressão entre os muros e trens… e isso me chamava a atenção… mas quando foi lançado o filme “Beat Street”, em 1984, aqui em Guarulhos tive e certeza de que era isso que eu queria na minha vida, era como me tirar de uma “pequena bolha”, não somente eu, mas toda aquela geração da época que começamos a entender a grandeza do Hip-Hop e a partir desse filme minha vida não foi mais a mesma. Nesse mesmo ano, em 1984, conheci o Paulo Robô na Sundays Disco Club… foi o 1º grafiteiro que conheci, por ver a primeira jaqueta grafitada (antes só tinha visto no filme Beat Street). Anos à frente, conheci outro grafiteiro na São Bento, “Bad Break Mania”, com jaquetas grafitadas sensacionais, essas são minhas duas referências no Graffiti em jaquetas. Depois de eu ter pago para ter a minha primeira roupa (camisa) grafitada e não sair como eu queria (risos), tomei coragem para começar a grafitar em roupas na época.
BW: Durante sua dedicação ao Graffiti houve pessoas que verdadeiramente te inspiraram?
Minu: Era uma época difícil, onde quem aprendia dificilmente ensinava a outras pessoas. Como eu morava em Guarulhos, era mais complicado ainda e eu procurava imagens e arquivos em revistas e jornais (quando conseguia), isso dificultou muito o meu aprendizado, a falta de informação, dinheiro e incentivo foram meus grandes obstáculos. Minhas inspirações vinham de arquivos que eu conseguia e a evolução foi lenta. Teve uma vez que me emprestaram 2 livros que não conseguia encontrar para comprar, os livros são “Subway Art” e “Spray Can Art”, com isso acabei tirando xerox em preto e branco dos dois livros inteiros (risos), não era fácil conseguir algo, porém, eu sempre procurava praticar desenhos, algo que sempre gostei de fazer.

BW: Fale sobre seu trabalho nas jaquetas, a finalidade e o que procura passar para as pessoas?
Minu: A finalidade principal é tentar uma fonte de renda por meio da arte, o que é muito difícil, mas existem outras finalidades como: fazer o que eu gosto; aperfeiçoar mais meus trabalhos; explorar novas formas de expor essa arte; manter-se num ciclo de contatos de artistas de forma atuante. Eu procuro passar para as pessoas que isso é arte e que faz parte do Hip-Hop, tendo sua importância desde seu início dentro da cultura.
BW: Não são só jaquetas, mas boomboxes também, correto? Fale sobre isso…
Minu: Os boomboxes também têm a sua importância, pois é o parceiro dos B-Boys para dançarem nas ruas e todos aqueles que curtem um Beat, Funky Groove, Rap, etc. Não é à toa que existem vários colecionadores de boomboxes no intuito de manter essa ligação entre artistas e a música. Para quem é da velha escola, ter uma jaqueta e um boombox grafitado… É como representar as raízes do Hip-Hop em sua essência. Eu tenho um boombox que grafitei recentemente, quem sabe seja o primeiro de muitos que virão.

BW: Qual a importância do Graffiti na sua vida?
Minu: Embora eu tenha ficado um bom tempo sem estar praticando de uma forma atuante, foi a arte do Graffiti que me recuperou para a vida. Claro que Deus está em primeiro lugar e acredito que foi Deus que recolocou o Graffiti na minha vida. Alguns anos atrás fiquei desempregado, com depressão e estava sem rumo na vida e foi por meio dessa arte que recuperei a minha autoestima como artista, pai e ser humano. A arte do Graffiti transforma, abre caminhos… Eu nunca poderia imaginar que depois de tanto tempo, décadas, um dia eu pudesse fazer uma exposição de jaquetas grafitadas minhas, ainda mais num lugar importante como no Memorial da América Latina. E é algo que preciso passar para as pessoas, pois a arte transforma vidas. Eu amo o Graffiti.
BW: Você participou da “2ª Amostra Paulista de Graffiti de São Paulo”, em 1993, com vários artistas: Os Gêmeos, Speto, Gugu, Vitché, Arhur Lara, entre outros. Como foi esse momento e como se sentiu?
Minu: Fiquei ansioso e apreensivo, pois se tratava de fazer Graffiti ao lado de referências e amigos. Embora já tivesse feito alguns Graffitis, eu estava ainda adquirindo essa caminhada de fazer em muros e na rua. Naquele dia percebi o quanto era vasto a criatividade de vários artistas em prol da arte de rua. Ali senti a responsabilidade de representar minha cidade e o que passar de mensagem por meio da arte em um local público e movimentado, como a estação de trem. Certamente me serviu como um momento especial na minha vida, que não vou esquecer.

BW: Fabiano, você já participou de inúmeras outras exposições com as jaquetas. Fale das principais em que esteve e sobre a reação do público?
Minu: Certamente as principais foram as exposições realizadas no Memorial da América Latina, não só por ser um lugar amplo para as exposições, mas porque o evento atraía a velha e nova escola num mesmo lugar e contava com presença de personalidades e importantes integrantes da Cultura Hip-Hop de São Paulo. Percebia que muitos adeptos da nova escola nem sabiam desse tipo de arte dentro da Cultura Hip-Hop. Foram várias reações das pessoas, que nunca tinham visto, era uma novidade para muitos. A aceitação foi imediata e positiva com muitos contatos e convites para trabalho. Até mesmo alguns artistas de rua ficaram surpresos com as exposições.
BW: É verdade que muitos brasileiros grafiteiros preferem a gringa ao Brasil, por ter seu trabalho mais valorizado? Já pensou alguma vez em trocar o Brasil por outro país?
Minu: É um assunto polêmico, sem querer generalizar, mas aqui no Brasil infelizmente tem muito disso e não é só na arte, mas também em várias áreas. Temos grafiteiros brasileiros reconhecidos no Brasil, mas só depois de terem reconhecimento fora. A arte de rua do Brasil é muito rica em nível mundial, com seu estilo próprio de se expressar. Artistas como Os Gêmeos, Eduardo Kobra, Binho Ribeiro, Edmundo, entre outros. Particularmente não sou uma pessoa que espera ou cobra por reconhecimento, faço porque gosto muito. Mas eu sinto essa diferença de reconhecimento em minhas redes sociais, em meus posts, os gringos são os que mais se interessam, entre admiradores dessa arte e até algumas personalidades da Cultura Hip-Hop internacional. Já aqui do Brasil, em sua maioria, praticamente são de pessoas que eu conheço ou que já tenho feito alguns trabalhos, mas não me preocupo com isso, procuro “fortalecer quem me fortalece”. Nunca pensei em trocar de país, mesmo porque tenho família e não teria condições atualmente de fazer isso.

BW: Pensando no Graffiti… Diga: qual a sua importância como elemento dentro da Cultura Hip-Hop? Existem muitos grafiteiros no Brasil que trabalham com jaquetas?
Minu: A partir que a pessoa se torna referência para outra pessoa, ela tem a sua importância e na cultura Hip-Hop “todos são importantes”, pois ninguém faz Hip-Hop sozinho. As exposições que eu faço são uma forma de manter as raízes da Cultura Hip-Hop e, de uma certa forma, incentivar as novas gerações para essa prática, não só pelo que ela representa, mas também como uma transformação de criatividade própria e autoestima. Conheço alguns artistas que fazem esse tipo de arte, mas o mais atuante que conheço e aprecio muito a sua arte chama-se Wagner Wags.
BW: O que tem feito nesse momento de pandemia? Tem criado alguma coisa? Já fez alguma jaqueta retratando o momento de pandemia que estamos vivendo?
Minu: Com o isolamento, ficou complicado conseguir jaquetas para grafitar, mas tenho me ocupado praticando novos desenhos, personalizando latas de spray e vinis com Graffiti, na ideia de expor junto com as jaquetas futuramente. Não fiz nenhuma arte relacionada a pandemia. Não que eu esteja ignorando esse momento difícil, mas procuro me expressar em algo que transmita positividade para as pessoas.

BW: Como você vê a nova geração de grafiteiros que tem surgido? Gosta do trabalho da nova geração?
Minu: Eu vim do Hip-Hop e sei que nem todo grafiteiro ou artista de rua é do Hip Hop. Tem muitos grafiteiros em eventos de Hip-Hop que nem sequer conhece a história do Graffiti no Hip-Hop. Principalmente daqui do Brasil. Às vezes, conhecem histórias dos gringos famosos, mas daqui do Brasil não conhecem nada e muitos nem ligam pra isso… é lógico que não é por isso também que podemos dizer que não façam trabalhos qualificados. Gosto sim do trabalho da nova geração e já vi trabalhos incríveis e sensacionais, porém, eu me amarro em trabalhos que lembram muito a velha escola (risos). É a minha essência naquilo que faço.
BW: As pessoas que tiverem interesse pelo seu trabalho com jaquetas, como podem adquirir uma? Quanto custa em média uma jaqueta assinada por Fabiano Minu?
Minu: No momento, estou fazendo assim: a pessoa entra com a jaqueta e eu com as tintas e mão de obra (não compro jaqueta por pedido, pois pode correr o risco de não servir ou a pessoa não gostar do estilo da jaqueta… daí o tampo ficaria perdido). Valores, em média, no momento é de 250 a 350 reais, dependendo do desenho (lembrando que a pessoa tem que fornecer a jaqueta).Visitem meu site: https://fabianominu.wixsite.com/artenasjaquetas.

BW: Explique a frase “A arte não reproduz o que vemos… Ela nos faz ver!”
Minu: Essa frase é antiga, de um artista francês Paul Klee e traduz a liberdade que toda pessoa possui de analisar toda e qualquer expressão de arte, sendo assim, a arte não faz reprodução do que vemos, ela nos faz ver além do que é exibido.
BW: Que mensagem deixaria para quem admira o seu trabalho e deseja aprender essa arte?
Minu: Primeiro agradecer às pessoas que admiram o que eu faço, é uma satisfação muito grande e isso só me incentiva cada vez mais a continuar… gratidão! Para quem quer aprender: procure praticar o que você gosta e saiba que nada cai do céu e toda caminhada tem seus obstáculos; praticar a arte em jaquetas requer interesse, dedicação, paciência e conhecimento; ninguém surge do nada, todos têm suas referências e influências; sua marca é seu estilo, seja criativo; se não conseguir viver da arte, viva com ela, pois é uma maneira de elevar a autoestima, nada é mais prazeroso do que fazer o que gosta. Obrigado… grande abraço!

Fotos: Arquivo Pessoal/Cadu Barbosa




























































































