Um carro estacionado, segundo a polícia, de forma irregular, foi o estopim para uma confusão que terminou com a prisão do cantor MC Salvador da Rima, na tarde deste sábado (27) na zona leste de São Paulo.
Em vídeos que estão circulando pela internet, o artista e um amigo aparecem sendo rendidos por PMs e depois agredidos com mata-leão e chutes.
Tudo começou porque um dos policiais multou o carro que estava estacionado em frente à casa de Salvador.
Ao questionar o motivo da multa, o artista teria discutido com um policial, que deu voz de prisão por desobediência.
Testemunhas contaram, ainda, que a esposa do cantor também foi agredida.
O vídeo, publicado no Instagram do MC Jeh da 6, amigo de Salvador, mostra o MC retirado da própria residência por PMs, já com a camisa rasgada.
Durante a detenção, ele é chutado, imobilizado e enforcado.
A prisão aconteceu por volta das 12h, mas, Salvador só chegou à 67º DP por volta das 13h40, com escoriações no corpo.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) disse que já está apurando o caso.
O rapper Salvador da Rima é autor de hits como “Vergonha Pra Mídia” e “Outfit Valioso”, que contam com mais de 200 milhões de visualizações no YouTube.
Foto: Reprodução
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A MTV divulgou a lista de participantes da segunda temporada do De Férias com o Ex Brasil – Celebs, nesta sexta-feira, 26.
O programa protagonizará muitos beijos e muita treta na TV. Ainda sem data definida, as gravações aconteceram em uma mansão na paradisíaca, em janeiro deste ano, em Ilha Bela, litoral norte de São Paulo.
No elenco, além do B-Boy Neguin, participam nomes como Mariana Godoy, vencedora do The Circle Brasile a sobrinha de Zezé di Camargo, a cantora sertaneja Day Camargo.
O ator Tarso Brandt, que está atualmente no ar na reprise da novela A Força do Querer, será o primeiro homem trans a participar do programa.
Fotos: Divulgação
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Ele nasceu no bairro do Tatuapé, mas sua infância foi na Vila Curuçá, em São Miguel Paulista. Seu sonho, como a maioria dos meninos brasileiros, era ser jogador de futebol, sempre incentivado pela família. Começou a jogar com apenas 4 anos. Depois, conheceu a capoeira, onde no primeiro dia se identificou, sentindo-se em casa e livre. Durante anos, jogava futebol e fazia capoeira. Mas foi em 2006, com apenas 12 anos, que mergulhou de corpo e alma no Breaking. Sua evolução foi rápida! Foi o futebol e a capoeira que lhe deram a base para tudo, confessa que sem eles não teria a dedicação e foco que tem hoje. Foram nessas artes que aprendeu a ser persistente, paciente e dedicado. Os primeiros passos de Breaking deu na própria sala da casa onde morava, vendo um DVD da Red Bull BC One, onde tentava copiar os movimentos, o pai também tinha coleção de discos em casa, cresceu escutando alguns clássicos do Hip-Hop, a música sempre foi presente em sua vida. O menino ganhou idade, conquistou seu espaço, aprendeu a dançar no meio da pressão e sobreviver às críticas, resolveu viver sua própria vida, da sua forma e aprendeu que o segredo sempre foi focar no presente, no agora, plantar as sementes para colher no futuro com muita paciência e dedicação. Recebeu influência de grandes nomes do Breaking e caminhou alguns anos lado a lado com o inesquecível B-Boy Kokada, esse foi um amigo que se tornou irmão. Sim, estamos falando do B-Boy Lukas Galante, o Portal Breaking World teve o prazer de conseguir conversar com ele, entre um compromisso e outro, nuns horários bem doidos e conhecer boa parte da sua história de vida, que apresentamos com exclusividade para vocês. Confira a entrevista!
BW: Luka, nos fale onde e quando nasceu, nos conte um pouco sobre sua infância, adolescência e família. O que gostava de fazer? E que lembranças memoráveis você tem dessa época? Foi uma infância tranquila e feliz ou houve dificuldades?
Luka: Nasci em São Paulo, no bairro do Tatuapé, no dia 21 de fevereiro de 1994. Cresci na Vila Curuçá, em São Miguel Paulista. Eu sempre tive o apoio dos meus pais, desde pequeno meu sonho era ser jogador de futebol. Foi onde comecei a praticar em uma escolinha do bairro, por volta dos 4 anos de idade. Nessa mesma época, meu pai queria que eu praticasse Ginástica Olímpica, acredito que a ideia dele era proporcionar opções para eu poder praticar e me identificar com alguma arte. Lembro que ele foi atrás, mas não tinha nenhum espaço ou ginásio que ensinasse na região em que morava. Foi aí que surgiu a ideia da Capoeira. Morávamos a um minuto de uma academia e lá eles tinham aulas. Meus pais tiveram interesse e me levaram para fazer uma aula e ver como eu me sentia. Eu me senti livre e me identifiquei demais com a Capoeira, desde a primeira aula. Capoeira duas vezes na semana e futebol todos os sábados. Com o tempo, passei a treinar futebol quase todas as manhãs. Fiquei anos praticando e conciliando as duas atividades. Eu tive uma infância feliz, nunca faltou nada pra mim.
Luka e Neguin (campeão mundial da Red Bull BC One). Em comum: a Capoeira
BW: Futebol no Curuçá Society pela manhã e Capoeira à tarde: quando surgiu tudo isso e até onde você foi? Fale da sua relação especificamente com a Capoeira e de todo o benefício que isso trouxe à sua vida e à sua dança?
Luka: Pratiquei as duas atividades por um bom tempo. No futebol eu fiquei firme até uns 14 anos de idade, tentei virar profissional. Eu comecei a praticar Breaking no final de 2006, eu tinha 12 anos de idade. Na época, eu mergulhei no Breaking, minha evolução foi rápida pelo fato de saber alguns movimentos parecidos da Capoeira. Eu me inspirei tanto no Breaking, que a energia que eu sentia na aula ou na roda de Capoeira fazia eu tentar uns movimentos a mais no meu estilo de jogo. Meu corpo se interessava mais pelos floreios, mortais, pulos de mão. Foi quando meu instrutor Marcelo Lampanche conversou com meus pais e depois comigo. Ele sabia que eu estava aprendendo e super inspirado no Breaking, mas estava tirando um pouco o meu foco da Capoeira. Ele conversou e deu a ideia de eu seguir firme somente no Breaking. Sem a formação de vida que eu aprendi não só na Capoeira mas no futebol também, eu não teria a dedicação e foco que eu tenho hoje. Foram nessas artes que eu aprendi a ser persistente, paciente e dedicado. Me ensinou que nada cai do céu, você tem que ir atrás, treinar e se dedicar se quiser atingir um nível bom. Fora os valores que você leva para a vida, como história, música, respeito e valor em fazer aquilo que você ama.
BW: Quando você teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? E com o Breaking? Teve algum mentor ou pessoas que te inspiraram na dança?
Luka: Desde criança, meu pai tinha coleção de discos em casa, eu cresci escutando alguns clássicos do Hip-Hop, a música sempre foi presente. Antes do Breaking eu já tirava algumas batalhas de saltos mortais na escola, tinham sempre uns moleques que gostavam de rachar para ver quem fazia melhor. Depois, eu tive influências que me levaram a praticar o Breaking. No final de 2006, eu vi uma reportagem de TV sobre a Red Bull BC One mundial, em São Paulo. Quando eu vi o nome da competição, procurei saber mais. Lembro que achei o DVD da BC ONE 2005 na Galeria do Rock, em São Paulo. Pedi para o meu pai e ele comprou. Assistia o DVD todos os dias e tentava copiar os movimentos na sala de casa. Tinha o DVD acústico do Marcelo D2 também, onde me inspirei muito no Pelézinho e o Chaveirinho. O Pelé foi uma grande referência pra mim, me marcou porque o vi na BC One e na performance para o D2. A partir disso, acabei conhecendo uma galera que praticava no Centro Cultural do Itaim Paulista, bem próximo da minha casa. Foi onde comecei a receber ajuda e conheci algumas lendas da zona leste de São Paulo: Cidinho, Júnior Favela, Careca, Dan… Esses foram os primeiros caras que me ajudaram a desenvolver a minha dança e acabaram sendo grandes mentores e influências para mim.
BW: Onde você deu os primeiros passos e fez os primeiros movimentos de Breaking? Quando você decidiu realmente que era o Breaking que você queria para a sua vida?
Luka: Na sala de casa! Consegui aprender com facilidade, alguns movimentos que já fazia desde criança foram base para aprender depois no Breaking. A minha evolução começou na época do Centro Cultural. Não teve momento de decidir se o Breaking era algo que deveria seguir… tudo aconteceu naturalmente, acredito que foi fruto de toda a dedicação e persistência. Eu fui plantando sementes dia após dia e esse processo sempre foi presente na minha vida, não só no Breaking. Tudo o que eu visualizo e quero, eu aplico as sementes e atitudes necessárias para a colheita no futuro. O segredo é focar no presente, no agora. O futuro ainda não chegou. Você só pode atuar no agora. O futuro é consequência do presente. Quando você ama o que faz, já está decidido e tudo trabalha para você naturalmente.
Treinar na sala vendo o DVD da Red Bull BC One: o início de uma grande jornada como B-Boy
BW: Normalmente, a maioria dos B-Boys e B-Girls não têm o apoio da família na dança. No seu caso, como isso aconteceu? Seu pai e sua mãe parecem muito presentes e incentivadores da sua dança. Nos conte como foi essa relação Breaking e família?
Luka: Sempre presente. Não só no Breaking, em todas as atividades que participei. Esse apoio é fundamental, imagine quantos talentos e sonhos seriam realizados se as crianças tivessem o apoio de suas famílias. O problema é que os pais fazem pelos filhos aquilo que eles acham que seria o melhor caminho da vida… A profissão ideal, algo que vai te proporcionar conforto e dinheiro. Mas não reparam na energia e amor, naquilo que a criança ou jovem quer seguir como carreira. Eu acredito que muitos jovens são reprimidos nessa questão, de seguir a sua vontade e intuição e acabam desistindo de seus sonhos por não ter aquele apoio e conexão com aqueles que estão do seu lado todos os dias. Por isso a importância de ter a família lado a lado, te apoiando em cada passo. O investimento no apoio, sendo assim os pais se aproximam e passam a entender a vontade do jovem. No meu caso, foi isso que aconteceu. Eu tive fases, Capoeira, Futebol, Basquete… sempre fui apoiado, mas segui a natureza do meu talento na dança. Na escola, sempre fui um bom aluno, mas nada me cativava e eu me questionava… O que vou ser quando crescer? Eu gostava de me movimentar, não importava a atividade. E na dança eu percebi bem novo que era uma arte vista como sem futuro, na opinião de muitas pessoas próximas de mim. Mas, graças ao meu próprio apoio, da minha família e das pessoas que acreditavam em mim, eu segui meu coração e vivo do Breaking.
BW: No aprendizado do Breaking houve movimentos mais difíceis para aprender? Ou tudo foi bem tranquilo para você?
Luka: Eu sempre tive facilidade para aprender qualquer movimento. Acho que isso faz parte do meu estilo diversificado. Principalmente atualmente, eu sinto que tudo é possível. Eu consegui perceber certa facilidade bem cedo no Breaking. Como eu tinha facilidade, eu tive inspiração para aprender tudo. Cada um do meu círculo de treino tinha algo especial e eu fui extraindo as técnicas de cada um. Kokada, Careca… lendas do Power Move, estavam lado a lado comigo. O Cidinho e outros caras nos saltos mortais. Jack, Allan e os outros meninos me ajudaram nos tricks e transições, na minha época da Biohazard Crew. B-Boy Fatal na influência de dinâmica, velocidade, Top Rock, Footwork e espírito de batalha. Eu fui aplicando as minhas idéias e trabalhei todos os fundamentos. Lógico que eu tenho minhas dificuldades, todos nós temos… mas como eu sempre estou ativo e treinando, o processo de aprendizagem acaba sendo mais rápido. Eu tenho muito o que aprender e melhorar e sempre será assim, no Breaking e na vida. Influências diferentes, gostos e ideias… que continue fluindo e criando.
BW: Em que ano você começou a competir e participar de eventos? Imagino que foram muitos eventos até hoje que você participou, mas teve algum que te marcou de uma forma diferente? Nos conte?
Luka: Em 2007 foi o ano do meu primeiro evento. Lembro que foi um evento em Mauá, SP. Depois desse evento, comecei a competir com frequência com a minha Crew, Biohazard, na época. Foi aí que comecei a minha história. A Biohazard foi a primeira Crew criada por mim e os outros meninos da época. Dois eventos marcaram bastante, a BOTY (Battle Of The Year) Brasil, em 2010, onde ganhamos a vaga para a BOTY Internacional, sonho que eu tinha, de viajar com meus parceiros e ver o nível mundial de perto. E o segundo evento, a minha participação na BC One Camp 2007, em Amsterdam. O Camp me marcou muito, faziam 3 anos que não competia, já estava morando aqui nos Estados Unidos. Comprei o vôo para a BC One na Holanda e fui com a ideia de curtir com minha Crew (Tsunami) e competir no 3 versus 3, no Camp. Me marcou porque não sabia o que esperar da minha performance e da energia da batalha depois de alguns anos.
Bio All Stars e Luka
BW: E quando você começou de fato a viver da dança? Como foi isso? E que mudanças foram necessárias ocorrer na sua vida, na sua rotina para que isso fosse possível?
Luka: A minha rotina sempre foi treino, me preparar ao máximo para as oportunidades e também o jeito que eu transmitia a minha energia em cada sessão e trabalho que participava. Acho que essa rotina de treinos intensos e acreditar na minha dança ajudaram na minha formação e oportunidades de trabalho. No Brasil eu já vivia da dança, mas não tinha um retorno necessário para poder caminhar com as minhas próprias pernas. Eu dava aulas, participava de shows, TV e os eventos de Breaking. Mas minha vida mudou quando recebi a proposta do Cirque Du Soleil, em 2014. Foi a base para eu poder viver só da minha dança. A mudança necessária não foi fácil, sair da casa dos meus pais e morar fora do país. Mas foi onde mudou e marcou de fato a minha carreira. Na época eu tinha 20 anos, estava viajando e competindo, mas percebi que não estava gerando nenhum retorno financeiro, mesmo dando workshops, viajando pelo Brasil e fazendo shows… eu não tinha nada fixo e nenhum apoio. Tudo mudou quando vim para os EUA.
BW: Quando você foi a primeira vez para fora do país? O que sentiu? Quais as diferenças que sentiu entre o Breaking que aprendeu aqui e o que era feito lá fora?
Luka: Em 2010, BOTY Internacional. Eu Tinha 16 anos. O sentimento era incrível. Tinha todo o lance da cultura de um país diferente, a curiosidade de um lugar diferente, a comida, o visual. Sempre acompanhava a cena internacional pelos vídeos, foi a minha inspiração diária. Estar presente pela primeira vez e ver B-Boys e B-Girls que assistia através dos videos pessoalmente foi especial. Me mostrou oportunidade futura, porque consegui ver meu próprio potencial se eu trabalhasse e confiasse no meu Breaking. A diferença pra mim foi a dinâmica e criatividade, principalmente nas Cyphers e backstage. Mesmo eu sendo novo na época, lembro que consegui entender uma diferença. A energia que nós Brasileiros transmitimos, tem muita história. Não precisamos de movimentos complicados e dinâmicos, a nossa energia já era dinâmica, sendo assim, movimentos que talvez para a cena internacional seriam básicos e visto várias vezes… Nós do Brasil tínhamos um jeito único de dançar e apresentar esses movimentos, com uma dinâmica diferenciada. Um sentimento diferente e história de vida.
BW: Quando participou a primeira vez da Red Bull BC One? E quais foram suas impressões e sentimentos naquele momento?
Luka: Em 2018, final mundial em Zurich, na Suíça. Significou demais! Um sonho desde quando comecei a minha jornada no Breaking e aos 12 anos de idade. Principalmente pelo fato de ser convidado direto e por tudo o que passei para chegar até lá. Cheguei a me questionar se chegaria a pisar um dia no palco da BC One, pela mudança de vida que tive e por deixar a competição de lado por alguns anos. Mas tudo acontece no tempo certo e talvez do jeito que você nem imaginou. O momento marcante pra mim de toda a história foi comprar a passagem de vôo para o meu pai me encontrar lá na Suíça, logo depois que recebi o convite. Foi a primeira intuição que tive, quando acabei de ler o convite. O sentimento era retribuir e ele poder ver eu subindo no palco do evento que me fez começar a dançar e que ele acompanhava. Eu perdi a batalha, mas ganhei no meu objetivo interno, meu pai assistiu ao vivo. Minha missão foi cumprida naquela noite. Queria poder levar todo mundo que me apoiou, se pudesse, como forma de gratidão. A minha impressão foi diferente daquilo que tinha em mente. No sentimento passa um filme, antes de chamar o seu nome passam várias cenas em 5 segundos na mente, de toda a sua trajetória, mas rapidamente você volta para o foco antes da batalha e se sente presente. É realmente incrível! Uma energia totalmente diferente de qualquer outro evento.
A realização do sonho que começou com 12 anos de idade: participar da Red Bull BC One
BW: Em que ano você passou a fazer parte da Tsunami All Stars? Como era conviver com a Crew?
Luka: Em 2017, foi quando oficializou. Mesmo convivendo com o Kokada na época, entre 2009 e 2012, eu era bem novo ainda, ele me convidava para treinar de vez em quando com a Tsunami, foi onde comecei a conhecer todos da Crew. Mesmo com o calendário de cada um do grupo e por alguns morarem em outras cidades, quando tinha algum evento ou show eu lembro que eles faziam o máximo para estarem juntos e poder trabalhar ideias e criar. Eu acompanhava de vez em quando o processo. Na época, eu tinha meu grupo Biohazard e quando o Kokada estava junto a BioAllstars. Em 2011, dois dias antes da Tsunami viajar para um campeonato na Polônia (Warsaw Challenge), o Pelé teve um problema de visto e não pôde viajar com o grupo, foi quando eu recebi o convite para cobrir a vaga dele e batalhar internacionalmente pela primeira vez com a Tsunami. Naquela época nada foi oficializado, mesmo eu estando envolvido em alguns projetos e eventos. Em 2017 foi quando oficializamos.
BW: Você teve uma grande amizade com o B-Boy Kokada, comente sobre esse tempo… Que lembranças você tem dele?
Luka: O que marca são os momentos fora do Breaking. Eu digo isso porque o “ego” que criamos na cena, na verdade, não é a sua verdadeira essência como pessoa. O Kokada me fez perceber isso. Ele não era o cara que todos achavam que ele era. A nossa relação era de irmãos, consegui entender quem ele era fora da imagem de ranço e lenda do Power Move que ele tinha. Foi um tempo de grande aprendizado e visão. Ele me mostrou visão para o futuro e que a chave para conquistar qualquer objetivo seria somente através de paciência e dedicação. Época também de aprender a lidar com a pressão, ou você gostava do Kokada ou você o odiava. Eu tive essa influência através dele. Já chegamos a dançar com todo mundo vaiando, a música virou vaia e xingamento. Todo mundo contra. Foi onde comecei a evoluir. Essa era a imagem criada por ele, onde todos nós, eu e os outros meninos do grupo, abraçamos e seguimos juntos. Tudo isso marcou a nossa história e também a nossa amizade. Eu aprendi com ele que independente do que acham, continue sempre fazendo o seu. Continue acreditando e lutando, ninguém faz por você. Ele acreditou em uma nova geração e hoje eu ainda continuo aqui, vivendo a vida da minha maneira, dentro e fora da cena. Foi esse o aprendizado na nossa relação, viva a sua história à sua maneira, seja único.
BW: Quando surgiu o Cirque du Soleil na sua vida? Nos fale sobre a experiência e a vida de quem atua num circo? Alguma vez teve que escolher entre o circo e os eventos de Breaking?
Luka: Em 2014, foi quando assinei o contrato e vim para o Cirque. O mais gratificante é você poder viver e respirar aquilo que ama. No Cirque eu tive essa oportunidade, de poder acordar todos os dias e fazer o que mais amo. Treinar, dançar e inspirar as pessoas. No show, todos nós artistas, através da sua especialidade, inspiramos o público a viver a vida com amor e que tudo vai melhorar. O show é dos Beatles, se chama LOVE. Tem uma história e uma mensagem em cada música e ato. Na verdade, no Cirque você tem muita liberdade, tudo no começo é rotina de treino e ensaios, mas com o tempo tudo se torna natural, o volume de ensaios diminui por você repetir os atos várias vezes. Sendo assim, mais tempo livre para treinar meu Breaking e meu físico. Como profissional, eu acredito que eu tenho que estar pronto, meu corpo é o meu investimento, por isso sempre estou treinando e aprimorando minhas técnicas e espírito. O Cirque me deu essa estrutura, tratamento físico, preparação e performance. A escolha na época foi o Cirque, mas isso não tirou a minha vontade de competir e aparecer nos eventos. O ritmo de batalha você acaba perdendo um pouco e isso é natural. Mas mesmo participando poucas vezes em eventos nos últimos 6 anos, eu me mantenho criativo e em forma. Cada experiência me traz um aprendizado. Eu volto para o meu treino com ideias e absorvo a energia que tenho que trazer de volta para melhorar no próximo evento. Sempre que tiver a oportunidade de aparecer e se eu estiver livre, eu irei e expressarei minha dança.
B-Boy Kokada e Luka: uma relação entre irmãos com a lenda do Power Move
BW: Vamos falar do ano de 2018 e daquela batalha com o B-Boy Issei na Red Bull BC One. Quanto tempo antes você se preparou para aquele evento? O que de fato aconteceu? Como você se sentiu quando inesperadamente o seu sapato saiu? Aquilo te atrapalhou? Houve muitas cobranças após aquela situação? Na época, você chegou a escrever tipo um desabafo no seu Facebook, dizendo que voltaria! Olhando toda essa situação 3 anos depois, o que você aprendeu com tudo isso? E o que diria às pessoas que foram rápidas nas críticas e nas cobranças?
Luka: O que aconteceu foi o que todos viram. O melhor que pôde acontecer pra mim naquele dia. O meu lance é que eu sinto o que aconteceu no momento, como competidor e ser humano. Mas eu não me importo com o que aconteceu. Sendo assim, não carreguei frustração. Isso é algo profundo e poderoso se você souber aceitar. Não precisa de entendimento. Você absorve e usa aquilo como uma grande experiência e aprendizado para seguir evoluindo na sua dança e sua vida. Quando você se frustra e luta contra algo que já passou e aconteceu, você cria uma negatividade. Por que o resultado desejado não veio, porque você achou que merecia ter ganhado por tudo aquilo que você se dedicou e treinou para chegar ali. Foram 6 meses de preparação. Claro que na hora eu senti o peso, quando aconteceu, eu sabia que no primeiro round eu me sai muito bem e que tinha um arsenal forte para sair bem nos últimos dois. Foi quando o tênis saiu e eu não pude pensar com rapidez e usar aquilo ao meu favor. Eu tinha o terceiro round que poderia decidir a batalha. Mas não foi o que eu pensei no momento presente. Eu me deixei abalar. A única cobrança, se teve, foi comigo mesmo, o barulho externo não é barulho no meu interno. Cobrança externa não importa, você é o seu templo. Disse que voltaria porque a vida continua, outras oportunidades surgem. E eu sabia que continuaria minha jornada que pode me levar de volta se eu tiver que voltar. Eu aprendi a deixar fluir, sem expectativa criada pela mente, focar em mim e na minha positividade, que vai ser expressada através da minha dança, resultado é resultado. Alguns ajustes na minha maneira de treinar e preparar também. No final do dia, a mensagem que fica é que eu fiz o melhor que pude com todo o meu poder do momento. E a história continua… sou grato a tudo e a todos.
BW: Luka, nos conte um pouco sobre suas atuais rotinas de treinos de Breaking. Como divide o seu tempo? O que tem feito nesse período de pandemia? Em que país você está? Como é viver longe da família e do seu país? Como você trabalha o seu emocional?
Luka: Treino 5 vezes na semana e descanso dois. Nesses dois dias de descanso, eu relaxo com alongamento, para recuperar meu corpo e estar bem para a rotina nos próximos 5 dias. Treino fisico na manhã duas vezes na semana, com o meu preparador e Breaking à tarde, todos os dias. Essa é minha rotina diária. Ultimamente, tenho tocado e venho estudando o DeeJay também. Nesse período de pandemia, tenho focado mais em mim e nas coisas que amo fazer. Eu estou em casa, nos Estados Unidos. Bate muita saudade de casa e da minha família no Brasil, mas tento focar minha atenção no que venho vivendo atualmente e isso me ajuda a manter o pé no chão, mas não é fácil ficar longe. É assim que trabalho o emocional, foco no agora. Atenção totalmente no presente, em qualquer atividade ou situação que eu estiver faço o melhor que posso. Esse modo de pensar me traz confiança, se eu estiver completamente presente no agora, tudo o que vier no futuro será próspero. Projetos, planos e objetivos são criados aqui no agora e o que tiver de ser será. Eu sou o criador da minha realidade.
No Cirque Du Soleil, com Paul McCartney, no show LOVE em homenagem aos Beatles
BW: Recentemente, o Breaking entrou para os Jogos Olímpicos. O que acha sobre isso? Como você vê o Brasil e seus B-Boys e B-Girls nessa realidade? Estamos preparados para disputar medalhas olímpicas? Como anda esse assunto no país que você está?
Luka: Grande conquista para a arte do Breaking, grandes oportunidades para aqueles que estiverem preparados. A realidade é que o Brasil tem um potencial enorme, muitos talentos no país. Agora, vai depender de como tudo será planejado e organizado. Talento e vontade eu sei que não vão faltar, eu acredito e visualizo a medalha para o país. Eu vejo o assunto bastante nas redes sociais, aqui nos EUA até pela questão da pandemia eu não escuto falar muito pessoalmente. É hora de começar a se estruturar, passo a passo, construir e se dedicar para colher bons frutos. O tempo passa rápido e eu espero que aqueles que estiverem envolvidos tenham boas intenções e planos para apoiar a cena e os dançarinos.
BW: Luka, quais são seus planos para o futuro? O que significa o Breaking na sua vida? Se pudesse voltar no tempo, mudaria alguma coisa?
Luka: Continuar experienciando o que a vida me oferecer, as oportunidades irão surgir como sempre surgiram, abraçar e viver. Eu vou estar preparado e vou fazer o melhor com o meu espirito e consciência. Ultimamente não venho planejando muito, o que eu faço é manter minha energia e espírito em paz. Isso me traz inspiração e harmonia no meu treino e dia-a-dia.
Treinar para estar pronto e aproveitar as oportunidades que a vida traz
BW: Que conselhos você daria para a nova geração do Breaking? Como devem se preparar? O que devem buscar? E o que não devem fazer?
Luka: Não preparem somente o corpo e movimento, trabalhem a mente e procurem construir uma base. Hoje as oportunidades estão aí. O Breaking vem fazendo parte de empresas e eventos grandes, procurem se valorizar e entender o business por trás dos eventos e trabalhos. Como se comportar, aprender a falar outras línguas, principalmente o inglês. Se hoje o B-Boy brasileiro tem uma oportunidade, tem que saber conversar e negociar. Muitos da nova geração têm o sonho de viver de eventos e batalha, mas não podem esquecer que temos outros caminhos e oportunidades para viver e se expressar através da dança. Cada dia mais estamos evoluindo, o mundo está em constante crescimento, novos talentos e oportunidades. Precisamos acompanhar esse processo de mudança. Quem acompanhar essa evolução não só do movimento mas da cultura em si, são aqueles que irão colher bons frutos. A nossa ação precisa ser aplicada no nosso momento presente, no agora. Não adianta querer ser um bom B-Boy ou B-Girl, ser campeão, fazer parte de grandes eventos e projetos, se não estiver preparando e vivendo o dia-a-dia. Não vamos esquecer o poder de cura e mudança de vida que a nossa dança pode trazer na vida das pessoas, como inspiração. Quando dançar, mostre o seu espírito em sua maneira única. Não coloque rótulos na sua dança, pois dançar é infinito e cada movimento é uma nota na música. Repare que quando você dança de mente livre, você entra na zona e em uma dimensão diferente. Essa é sua essência e verdade. Busquem isso e sigam a sua jornada, sem olhar pra trás. O que passou, passou. Continuem evoluindo, estudando e vivendo.
BW: Você parece ser um cara que reflete muito sobre as coisas, sobre a vida. Quem é o Luka hoje? O que aprendeu em todos esses anos de dança, qual foi a maior das lições?
Luka: Eu aprendi que tudo passa. Eu não sei quem eu sou. Só sei que sou uma consciência vivendo experiências e aprendendo com elas. O Lucas de hoje não é o Lucas amanhã. Tudo é uma constante evolução, precisamos entender que o mundo pede uma versão diferente de nós em diferentes situações e capítulos da vida. A dança é isso, se adaptar. Quando a música toca, nada mais importa. Somente aquele momento, nada mais existe. Eu acho que venho entendendo isso, focar minha atenção na música que toca no momento e na minha vida. A maior das lições não existe, todos os dias pra mim é a minha maior lição e eu agradeço por todas elas. Eu larguei mão daquilo que eu acho que eu deveria ser ou fazer na cena, pois eu acredito que eu já sou, a dança já me completa. Eu não preciso que algo aconteça ou que eu ganhe algum evento para me sentir completo e feliz. Eu comecei a dançar anos atrás, feliz, sem querer nada em troca. Tudo já está em mim. Eu vou continuar minha jornada, vou continuar participando dos eventos, a minha maior competição é comigo mesmo, todos os outros B-Boys que competem, são parceiros que ajudam na minha evolução. Ganhar ou perder, não existe. Todos nós ganhamos e por isso eu continuo motivado a continuar. A cultura, em primeiro lugar, surgiu através da alegria que conectou e reuniu. Por isso o amor pelas Cyphers, não tem julgamento. Somente alegria e uma grande festa.
Fotos: Arquivo Pessoal
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O Portal Breaking World foi parceiro de mídia do evento Let ‘s Battle, feito pela Kapella Produções, que aconteceu agora em fevereiro. E, claro, não podíamos deixar de bater um papo bem rápido com o campeão do evento, o B-Boy Kley, que é de Belém do Pará. Para quem não conhece, o mano é dançarino, professor, capoeirista e coreógrafo, hoje com 27 anos, representa a Sheknah Crew, Kley dança não é de hoje, já tem uma caminhada pesada dentro e fora do país. Em 2010, participou da Battle of the Year Brasil, entre outros muitos eventos. Em 2016, foi escolhido pela bailarina e coreógrafa Deborah Colker para trabalhar nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos no Rio de Janeiro, vale conferir esse bate-papo:
BW: Queria que você falasse um pouco sobre você, sobre a sua história?
Kley: Sou o Cleidson Seabra de Almeida, mas conhecido como B-Boy Kley, tenho 27 anos, faço parte da Sheknah Crew, de Belém do Pará, onde fui nascido e criado.
BW: Quando e como teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop?
Kley: Comecei a dançar Breaking tinha 12 anos de idade, era um adolescente que estava buscando se encontrar no mundo artístico. Naquela época, não sabia se eu ia ser um jogador de futebol ou alguma profissão ligada a arte ou ao esporte. E o Hip-Hop, o Breaking me abraçou e me acolheu.
BW: Fale um pouco do seu currículo artístico e um pouco da sua caminhada na dança?
Kley: Aprendi a dançar Breaking na Escola Frei Daniel, que fica no Guamá, bairro de Belém do Pará, depois passei a fazer parte da Sheknah Crew. Após alguns anos dedicados ao Breaking fui me destacando em alguns eventos. Em 2010, participei daBattle of the Year Brasil e no mesmo ano fui campeão do evento Hip-Hop no Meio do Mundo, realizado no Amapá. Em 2012, depois de uma audição, passei a fazer parte do Grupo de Rua de Niterói, com eles viajei para vários países, a companhia de dança fazia apresentações pela Europa e pelo Continente Asiático. Em 2016, fui selecionado pela coreógrafa Deborah Colker para trabalhar na abertura dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos no Rio de Janeiro.
Kley sagrou-se campeão da Let’s Battle On-Line 2021
BW: Com toda essa pandemia, como foi participar do Let´s Battle de uma forma on-line?
Kley: Sou um artista, continuo na luta, pra mim foi muito importante ter participado da Let´s Battle, era um momento propício, com batalhas on-line, não foi fácil, foi dificil é uma nova forma de se apresentar, de mostrar a arte que normalmente estávamos acostumados, em apresentar em público, então, tudo foi muito novo e diferente. Dessa vez, foi através de uma plataforma virtual, mas foi maravilhoso e me sinto muito agraciado por ter sido o campeão.
BW: Quais são seus planos para o futuro?
Kley: Eu pretendo treinar muito para no futuro representar a minha Crew num mundial como a Red Bull BC One e até mesmo a Olimpíada, entramos num patamar olímpico e isso vai ser muito legal, representar o meu bairro, a minha cidade e o meu país, além de todos aqueles que acreditam na minha dança!
BW: Deixe uma mensagem para quem está lendo essa entrevista:
Kley: Eu só agradeço por lerem a minha história, agradeço ao portal por essa troca de ideias, agradeço ao Let´s Battle pela oportunidade! Muito obrigado!
Fotos: Arquivo Pessoal
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“Nós que somos diferentes, somos carimbados como loucos. Eu gosto de ser visto dessa forma, pois foram os loucos e malucos que melhoraram o mundo! Talvez se eu fosse diferente eu não gostaria de mim!” (Nelson Triunfo)
Ele nasceu no nordeste do Brasil, numa cidade localizada na parte setentrional do Vale do Pajeú, local de um povo hospitaleiro rodeado de serras e vegetação. O nome da cidade, Triunfo, originou-se de uma luta ocorrida entre uma poderosa família dos Campos Velhos, da cidade de Flores e os habitantes da povoação da Baixa Verde. No turismo, o município tem o privilégio de reunir tantos atrativos, a começar pelo clima, que contradiz a aridez do sertão nordestino, com temperaturas oscilantes entre 8ºC no inverno e 28ºC no verão. Está a 400 km de Recife e a uma altitude de 1.004m, tem vegetação diferente da que predomina na região e uma variedade de lugares a se visitar sem similar em todo Sertão nordestino. Com tudo isso, passou a ser conhecida como “O Oásis no Sertão” mas foi um de seus filhos que a encheu de orgulho e a tornou famosa em todo o mundo adotando seu nome como sobrenome, estamos falando de Nelson Gonçalves Campos Filho, mais conhecido como Nelson Triunfo (66), filho de sanfoneiro, o menino da roça ganhou o mundo sendo considerado o pai do Hip-Hop brasileiro. Nelsão, como é chamado carinhosamente por todos, iniciou sua carreira artística como dançarino de Soul e Funk na década de 1970, sem dúvida sempre foi a figura-chave na história da cultura Hip-hop no Brasil. Genial, bem humorado e dono de uma personalidade marcante. O Portal Breaking World teve a honra de bater um longo papo com ele e agora apresentamos para vocês, confiram!
Nelson Triunfo é considerado por muitos o “Pai do Hip-Hop” no Brasil
BW: Nelson, você nasceu em 1954, em Pernambuco, correto? Queria que você falasse um pouco da sua infância e da sua família. Que lembranças tem dessa época? Nelson Triunfo: Falando um pouco da infância vem todo um princípio que eu tive, que foi muito importante em toda a minha trajetória, eu fui privilegiado quando eu nasci lá na divisa de Pernambuco com a Paraíba, na verdade foi em Triunfo. Foi uma infância de moleque do interior de uma cidade simples, que também conviveu com a roça. A roça foi muito presente na minha infância, às vezes, nas férias, meu pai passava no sítio conosco, eu tomava conta de gado e tudo, e ao mesmo tempo eu estudava em Triunfo e ia apenas à noite para dormir lá. Eu trabalhei muito no sítio, fiz roça, fazia colheita de goiaba, bananas. No colégio eu sempre fui muito bom aluno, sempre fui um dos primeiros da classe. Eu tive uma base forte, naquela época já tinha o samba, já tinha o frevo, o maracatu muito presente! O forró! Luiz Gonzaga estava estourado naquela época e fazia muito sucesso! E fora isso, eu já curtia Beatles, Jovem Guarda, o som Black lá de fora. Na minha cidade, eu vi muitos filmes históricos com Gene Kelly, Fred Astaire, nessa época que eu também aprendi dar pião e espacate, os mortais. Tenho lembranças muito boas de festas de São João, eu com 13 anos ia tocar no forró com aquela sanfona, meu pai era sanfoneiro e eu já arranhava um pouquinho, às vezes nós íamos para festejos que tinha fogueira. Nós fazíamos milho na fogueira. Me lembro da moenda dos engenhos para fazer rapadura, por muito tempo a rapadura foi o açúcar do nordeste, era algo tradicional. Na época da cana de açúcar aquilo era uma delícia! O cheiro do mel, da cana de açúcar viaja quilômetros. As brincadeiras do colégio, que fazíamos corridas e olimpíadas, natação, tudo isso tinha no nordeste. Muitos imigrantes levaram esses avanços para lá. Triunfo chegou a ter o terceiro colégio mais importante do Brasil. Eu gostava de ficar na praça à noite, namorando as menininhas (risos), nós chamávamos de conquista, nós olhávamos para elas, se ela não tirasse o olho de você é porque estava interessada, tinha alto falante, você pagava para tocar as músicas e podia oferecer para quem desejasse. Depois da última música, tinha o cinema. Antes de chegar a luz em Paulo Afonso, ela só ia até às 22h10, depois disso era vela. Nessa época, não tinha televisão, ainda era só rádio. Na Copa de 70 é que chegou a televisão preto e branco mas vimos mais chuvisco do que imagem. BW: No tempo que o rádio chegou dentro de sua casa muita coisa mudou? Se aprofunde mais nos interesses culturais que tinha naquela época, além do frevo, do samba, do maracatu, do forró… Você viveu várias “ondas culturais”. Fale das influências que sofreu?
Nelson Triunfo: Eu já dançava muito! Dançava o frevo, que era tradição, o samba, o forró, que na época era chamado de pagode. Na minha época, pagode significava uma festinha. Vamos num pagode? Vamos numa festinha? Não tinha nada a ver com o samba que eles chamam hoje de pagode. Nessas festas, rolava muito uma mistura de Beatles, Jerry Adriani, Roberto Carlos, Renato e Seus Blue Caps, The Fevers, Martinho da Vila estava começando… eu vivi tudo isso, além das danças regionais, por isso que tive uma grande diversidade cultural eclética. Eu via o que acontecia lá fora também, como eu tinha vontade de conhecer Nova York, Alemanha! Mas eu pensava que era tudo distante… E hoje, graças a Deus, eu já conheço todos esses lugares! As influências que eu sofri com os tipos de dança, uma dança sempre arrastou a outra, as danças não são iguais, mas têm passos que se repetem entre uma e outra, tudo isso me alucinou um pouco, me trouxe alegria, eu comecei brincar de uma forma que virou verdade e todo mundo gostava e aplaudia. E tudo isso passou a fazer parte da minha vida, foi quando eu tomei a decisão de fazer da dança minha profissão.
A dança sempre esteve presente na vida de Nelson Triunfo, o “Nelsão”
BW: Na década de 70 muita coisa aconteceu, correto? Você se mudou para a Bahia, começa a frequentar os famosos Bailes Blacks, começa a gostar muito nessa mesma época de James Brown e cria uma estilo próprio de dança. Comente sobre como eram esses bailes, o que rolava e comente como foi a criação dos “Invertebrados” que foi o primeiro grupo de dança Black do nordeste? Nelson Triunfo: A dança Black não tinha comércio no Brasil, hoje nós temos batalhas de Hip-Hop, temos batalha de Soul, de Breaking, isso não tinha naquela época, eu fui um dos primeiros caras a fazer disso aí um produto cultural e alguns que queriam ter em determinado local, nos contratava. Em 1984, na novela Partido Alto, nós abríamos a novela, fomos pagos para isso, então, a dança era uma profissão também. Trabalhava de uma forma consciente, focando também no social. Nossa dança também é um sentimento que se carrega. Exemplo são as crianças: quando você coloca um som e ela começa a balançar a cabeça, quem foi que ensinou a ela que tinha que balançar a cabeça? Então, é um sentimento! Sobre os Invertebrados, quando eu saí de Triunfo, com 16 para 17 anos e fui estudar em Paulo Afonso, lá tinha um programa no Cine Coliseu, ele ficava no meio de uma praça e tinha um cinema, um palco lindo e lá tinha um programa que era parecido com o Programa do Chacrinha, tinha calouros, tinha grupos lançando músicas, o nome do programa era “O Coliseu Show” e aí eu comecei a me apresentar ali, a dançar, e chegou um cara do Rio e tinha outro amigo meu de Paulo Afonso, que pediu para subir no palco para dançar comigo e aí nós dançamos “Sex Machine”, do James Brown. Nossa! Foi uma gritaria! Foi muito legal e quando nós descemos do palco, veio uma senhora e perguntou assim: “Meu filho, nossa! Como vocês dançaram, são lindos, são maravilhosos! Vocês não têm ossos!”. Aí perguntou: “Qual o nome do grupo?”, e aí eu aproveitando o “não tem ossos” dela, já inventei na hora e respondi: “Por isso o nome do nosso grupo é Invertebrados!”. Daquele dia em diante nos tornamos os Invertebrados (risos). Já os Bailes Blacks é mais nos meados dos anos 70, o grande auge no Rio de Janeiro foi 1976, mas continuou em 1977, 1978, aqui em São Paulo foi até 1986, aí depois terminaram os Bailes Blacks, pois já tinham outras coisas entrando, depois se tornaram algo mais simples, sendo o mesmo pessoal hoje que faz baile de nostalgia, que usa mais samba rock. No Rio, era mais soul e em São Paulo era soul e samba rock e as letras eram legais, isso aconteceu no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre, foram cidades que concentraram os Bailes Blacks. Depois, se espalhou para o nordeste e para algumas cidades do interior. No Rio, acontecia em Barra Mansa e em Volta Redonda, Teresópolis. Mas nos anos 80 já começou a se misturar com o Hip Hop. BW: Nesse tempo você deixa o cabelo crescer, criando uma imagem que iria o seguir pelo resto da vida. Ficou décadas sem cortar o cabelo! Nos fale da importância desse visual em todo o contexto?
Nelson Triunfo: O meu estilo vem de uma coisa de criança, eu era uma criança muito curiosa, lia sobre tudo, nisso eu puxei o meu pai. Mesmo sendo criado na roça eu era bem aculturado. Eu sempre quis ser meio maluco e os meus pais não deixavam (risos). No sítio mesmo eu já fazia batuque, já fazia festas, campeonato de futebol, eu sempre fui meio doido, mas não tinha liberdade. Quando eu fui morar sozinho, virei um Black Power: era bonito e eu gostava! Nos EUA estava rolando o Festival Woodstock e eu sempre estive atualizado com tudo que rolava lá fora. Nessa época, eu já fazia parte da resistência, fui para Brasília, passei três anos trabalhando mas com o cabelo do mesmo jeito. E depois, vim para São Paulo. Até hoje eu nunca cortei o cabelo! Estou há muitos anos longe de Paulo Afonso, foi onde tomei a atitude de deixar crescer o meu cabelo, fiquei tão famoso lá que eu saí de lá em 1974 e até hoje os moleques deixam o cabelo crescer como o meu (risos). E quando o cabelo fica grande chamam de Nelsão (risos). Os meus fãs do Brasil inteiro e os que me conhecem de fora, eles acham uma coisa muito legal minha, que é aquela hora quando eu começo a dançar e tiro a touca e solto o cabelo (risos), eles adoram essa parte, eu também fazia no futebol, porque eu jogava futebol e toda vez que eu fazia um gol eu tirava a touca e balançava o cabelo, é minha marca registrada! Sem o cabelo não é o verdadeiro Nelsão! É a verdaeira resistência que ninguém conseguiu me engravatar, ninguém conseguiu cortar ele, ninguém me forçou a seguir algum modismo. Desde de 70 eu fui Black Power até hoje! Talvez o único cara do Brasil que é Black Power daquela época. Ele já está caindo um pouco, já tenho 66 anos, não é o que era antes!
O cabelo é uma das marcas registradas do artista
BW: Em 1976 você chegou em São Paulo, como foi sua chegada na terra da garoa? Foi nesse tempo que você se dedicou completamente a dança, participou de bastante shows, fazendo parte do Black Soul Brothers. Pode comentar? Nelson Triunfo: Começando em Paulo Afonso tinha alguns grupos que me chamavam para dançar e quando chegava a hora eu fazia o maior sucesso. Foi lá que eu comecei a dançar! Isso acontecia no final de semana, pois eu trabalhava. Em Brasilia não foi diferente… eu trabalhava em topografia, estudava à noite e no final de semana eu ia para os bailes. Às vezes, nós iamos para o Rio para curtir os Bailes Black Rio, comprava aqueles sapatos pisantes… Aí em 1976, eu vim umas duas vezes para São Paulo, mas eu vim para fazer televisão: Silvio Santos, Chacrinha, aí pronto! No final de 1976, eu terminei os estudos em Brasília e no início de 1977 eu vim de vez para São Paulo, mas quando eu vim para São Paulo eu decidi que não queria mais trabalhar com topografia e que iria me dedicar aquilo que sempre eu gostei, na música, na dança, nas composições. E comecei forte, em 1977, com Tony Tornado, Miguel de Deus, Moisés da Rocha do Samba Pede Passagem, que na época ele tinha uma equipe de Black Music, já conhecia as equipes do Rio de Janeiro, quase sempre eu ia para lá! Nessa época, a Black Rio estava estourada! E naqueles anos, eu já tinha dentro da minha dança o Robô, o Wave, um pouco de giro de cabeça, eu fui uma das primeira pessoas a fazer movimentos de Breaking aqui no Brasil. Em 1982, já era possível aqui ver pessoas dançando Popping e em 1983, tem um vídeo muito interessante chamado “Gilberto Gil Funk-se Quem Puder”, nesse tempo nós já dançávamos nas ruas, mas dançávamos mais Funk. É possivel ver o Original Funk e Cia. saindo do Soul e entrando na Dança de Rua. Mas na verdade, nunca saímos do Soul Funk, só entramos de cara no Hip-Hop e estamos aí até hoje, numa grande mistura no Freestyle. Tem as coisas originais, mas sempre aparecem as coisas novas, as novidades!
BW: Em 1977 acontece a gravação do disco de Miguel de Deus e Mr. Funk, de sua autoria, está no disco. E ainda na década de 70 surge o Funk e Cia. Nos conte sobre esse trabalho e sobre o grupo?
Nelson Triunfo: Na verdade, em 1977 foi um ano que aconteceu muita coisa, eu fui na TV Tupi, onde hoje é a MTV e lá eu encontrei o Tony Tornado, o Moisés da Rocha, que trabalhava na Difusora, eles me convidaram para um baile que era grande em São Paulo, na Associação Atlética São Paulo, inclusive eles convidavam equipes do Rio de Janeiro, para fazer som com eles e alí surgiu o Miguel de Deus, que me convidou e até no disco dele tem uma musica que é minha, o Mr. Funk e também criamos a Black Soul Brothers, foi o nome do primeiro grupo que eu formei em São Paulo, existiu apenas para o trabalho do disco de Miguel de Deus. Assim que acabei esse trabalho, pensei em formar um grupo bem maior e potente, foi quando eu pensei no Funk e Cia. e em 1977 fui montando o Funk e Cia. com pessoas muito boas, pesadas! Eram 10 componentes! Todos foram escolhidos a dedo! Eu formei o Funk e Cia. com os melhores dançarinos da Black Music de São Paulo. Foram as que participaram do Funk-se Quem Puder. Passamos do Soul para o Hip-Hop, depois vieram outras formações do Funk e Cia. com os anos os componentes foram mudando. Hoje existe o Funk e Cia. mas atualmente é mais dançante e cantante. Mas a formação pesada foi de 1978 a 1983. Eles foram escolhidos de uma forma bem exigente, eu ia nos bailes blacks e via os caras dançarem, entrarem na roda e as vezes pintava aquele que dançava muito, aí eu conversava com ele e o convidava para o Funk e Cia. Eram os melhores dançarinos da Black Music de São Paulo. BW: Como foi participar de shows de artistas tão importantes como Tim Maia, Gilberto Gil, Sandra de Sá e Jorge Ben Jor? Verdade que o Tony Tornado te chamava de “O Homem Árvore”? Nelson Triunfo: Foi importante eu dançar com todos esses nomes da Black Music Brasileira, porque eu também era um astro da dança, então, eu me sentia em casa e me dava muito bem com todos, era muito legal e no caso do Tony Tornado, a primeira vez que ele me viu os caras estavam junto com ele, o Serginho e falaram “nossa, o cabelo dele parece uma árvore!”. E ele disse “verdade parece um homem árvore” (risos). E na hora de um show, quando foi me apresentar, “agora com vocês, pessoal, o Homem Árvore”… Aí pronto, nunca mais ele me apresentou diferente desse nome e outra coisa, nos bailes blacks do Rio e do Sul que tinham os melhores dançarinos, que eles me respeitavam muito. No Black Rio o meu nome era o Homem Árvore!
Foto tirada em 1978, no show de James Brown com a equipe Chic Show, no Ginásio de Palmeiras em São Paulo. No destaque, Nelson Triunfo
BW: Em 1978, James Brown veio ao Brasil. Você conversou com ele… Como foi conhecer James Brown? O que vocês conversaram? Verdade que você ganhou um presente dele? Fale da foto icônica e emblemática feita por Penna Prearo onde você aparece? Nelson Triunfo: Foi muito legal! Nos encontramos no Aeroporto de Congonhas, estava o Paulo Inglês, que era o nosso intérplete e mais alguns caras da Chic Show. Batemos um grande papo, eu disse a ele que gostava e que era um fã do ritmo dele, falei que eu era um dançarino no Brasil, que existiam os bailes blacks no brasil e ele disse que tinha visto reportagens sobre isso e tudo e eu disse para ele que o show no Palmeiras ia ter muita gente! Dancei um pouco para ele ver e ele disse: “The best, the best!”. Aí ele me presenteou com uma capa a qual eu levei para o show que eu iria me apresentar depois dele e infelizmente na hora que eu fui me trocar no camarim a capa sumiu. Alguem entrou lá e só de maldade levou a capa. A foto me mostra neste show com a capa antes dela ser furtada! BW: Nelson, comente a importância de James Brown para a cultura mundial, fale sobre o legado que ele deixou e nos diga o que sentiu quando recebeu a notícia do falecimento dele em 2006? Nelson Triunfo: A música do James Brown sem dúvida foi uma das maiores revoluções da música black do mundo, foi uma música que trouxe em si a dança, as mudanças, o próprio Original Funk virou várias outras coisas, inclusive até o Heavy Metal veio do Funk. O Funk é uma música muito louca. A grande maioria samplearam James Brown, eram músicas que se tornaram muito conhecidas do povo, o Rap cantado em cima daquelas bases, já pegava moral também. Ele foi um cara único, que quase não deixou nada para ninguém fazer a maioria das Danças Urbanas, vem do Original Funk. Sem dúvida é a maior base original para vários estilos, que são esses que rolam inclusive dentro da nossa Cultura Hip-Hop, quando estamos nas festas que têm os Poppers, os Lockers, B-Boys, B-Girls, até o House e o Freestyle, em todos esses estilos de dança, a base deles são do Original Funk. A noticia do falecimento dele foi muito triste, me desmontou, foi um tempo muito ruim e muito triste, ele não tinha sinal nenhum de estar ruim e de uma hora para outra partiu.. foi algo louco! Eu me lembro quendo eu voltava de Berlim, em 2006, era dezembro e eu vim chorando dentro do avião, pois estava escutando uma rádio e tocou aquela musica dele “O Mundo dos Homens”. O sentimento que eu tive foi de uma perda muito grande!
Nelson Triunfo (esquerda) e James Brown (direita), em 1978: encontro de gigantes
BW: Muitos te consideram o pai do Hip-Hop no Brasil, fale da sua ligação com toda a cultura e com o Breaking? Como era o Breaking na década de 80? O que se mostrava nas rodas? E nos fale dos dias e da importância da São Bento? Nelson Triunfo: Na verdade o Breaking aqui no Brasil, no final dos anos 70, o Funk e Cia. já fazia o Robô, o Wave, inclusive eu tinha três pessoas no grupo que eram capoeiristas, eles faziam Head Spin, davam mortais, já tinha um bocado dessas coisas que hoje os B-Boys fazem aí, depois chegou o Six Step que era o Footwork, quando nós fomos para a rua em 1973, já tinham caras fazendo Moinho de Vento e alí começavam os primeiros breakers do Brasil, porque até então nós tinhamos algumas coisas no Funk e Cia. mas ligado ao Soul e foi juntando tudo e, em 1983 e 1984, nós já tínhamos bons dançarinos de chão, mas na concepção daquelas danças da época. Na época do Beat Street é que foi aprimorado mais movimentos e técnicas e maior conhecimento de todos os elementos. Em 1984, já tinha uma revista falando sobre os elementos do Hip-Hop com o tempo, houve a evolução da danças, os caras foram aperfeiçoando a ponto que eu já falava que o Breaking tinha muitos jovens que eram melhores que os ginastas olímpicos. Então, esse negócio agora do Breaking estar nas Olimpiadas eu vejo como uma reparação. Eu acho que desde 1999 nós já estávamos numa evolução muito capaz! Sobre a São Bento, nós dançavamos no passado em vários lugares de São Paulo, depois fomos ficando mais na 24 de maio, em 1984 a 24 de Maio virou point. Em 1985, começou a se procurar outro lugar, foi quando surgiu a São Bento que era apenas no sábado, os encontros aconteciam sábado à tarde! No final de 1985 a São Bento estava estourada e não cabia mais ninguém, em 1986 começaram as grandes batalhas das crews, virando um point nacional. Em 1993, aconteceu a primeira batalha de Breaking no Brasil, interestadual. O próprio Mano Brown, o KL Jay iam para lá, o Thayde, isso era 1985, que fazia parte da Dragon Breakers, depois virou Back Spin Crew, aí depois Thayde e DJ Hum formaram a dupla e começaram outros trabalhos. As duas grandes bases de tudo isso foi a 24 de Maio com a São José e a São Bento. E a Casa do Hip-Hop em Diadema.
Nelson Triunfo na Casa do Hip-Hop de Diadema
BW: Bom Nelson, você falou de Olimpíadas… Entrando nesse assunto, esse ano o Breaking passou a fazer parte dos jogos olímpicos. E B-Boys e B-Girls começam a ser vistos como atletas. Qual sua opinião sobre esse assunto?
Nelson Triunfo: Isso é evolução, todos aqueles que foram contra a evolução ficaram para trás: eu não! Eu vim para cá, fundei a Casa do Hip-Hop em Diadema e outros já fundaram outras casas, é uma evolução, às vezes alguns reclamam da notoriedade e de tudo, mas não tem como dizer que o Breaking, que o Graffiti não são comerciais. O Graffiti está no mundo inteiro hoje, grandes prédios de grandes cidades têm Graffiti, os DJ’s sempre estiveram aí, fazendo as festas. O Rap está no mundo inteiro e o B-boy sempre esteve em evidência, em todos esses anos aconteceram batalhas maravilhosas, antes tinha a Battle of the Year que era na Alemanha mas hoje tem no mundo inteiro, na Coreia, no Japão, na Rússia, nos EUA, no mundo inteiro têm B-Boys e hoje os caras desafiam até a lei da física, fazem movimentos com o corpo incriveis, eu até me lembro dos Invertebrados, a evolução e as precisões são muito boas! Hoje eu considero um bom B-Boy, avançado mesmo, como um bom ginasta de solo. Por isso que falo que não é surpresa o Breaking estar nas Olimpíadas para mim é uma reparação, pois deveríamos estar desde 1999. É algo evidente! BW: Falando da Casa do Hip-Hop de Diadema, fale da importância dela na cena e na recuperação e educação de jovens? Nelson Triunfo: A Casa do Hip-Hop nasceu de um projeto, o Repensando, que nós já fazíamos dentro das escolas, foram as primeiras aberturas da sala de aula para a Cultura Hip-Hop e ali tinha uma pessoa chamada Elisete, que trabalhava na educação junto com o Paulo Freire e ela foi chamada para trabalhar em Diadema, que foi a primeira cidade que o PT ganhou uma prefeitura no Brasil e, com isso, foi o pessoal da educação e tinha uns moleques lá que pediram para levar o trabalho que acontecia em São Paulo para lá e começamos o trabalho em alguns centros culturais lá. E de uma hora para outra estourou, tinha uma divisão de bairros, Diadema era vista como uma das cidades mais violentas de São Paulo. Começamos o trabalho em 1990, o trabalho cresceu e em 1994 já tinha o Centro Cultural do Caema, que mais tarde iria virar a Casa do Hip-Hop. Naquele tempo eu e Marcelinho Back Spin queriamos fazer a Casa do Hip-Hop e lá se tornou um centro cultural padrão, nós fazíamos os eventos e bombavam. Criamos o Hip-Hop em Ação, entre os centros culturais, para se apresentar lá todo o final do mês onde aconteciam todas as oficinas juntas do Caema e de todos os centros culturais, sempre trabalhávamos os 4 elementos e se tornou algo nosso, era um trabalho social desenvolvido, que começou a vir gente do Brasil inteiro para aprender conosco e já funcionava como Casa do Hip-Hop e, em 1999, nos tornamos Casa do Hip-Hop de Diadema, saía na grande mídia, saí no Fantástico, no Globo Repórter, uma porção de coisas, mostrando os trabalhos sociais com jovens e foram muitos jovens que sairam de lá e que hoje estão no mundo inteiro. Só no Estado de São Paulo deve ter mais de 50 Casas do Hip-Hop, a nossa foi a primeira Casa do Hip-Hop da América Latina. Nós criamos vários jovens, vários multiplicadores do Hip-Hop através da Casa do Hip-Hop.
Nelson Triunfo sofreu preconceito e muitas prisões mas jamais desistiu de sua arte
BW: Nelson, certa vez você declarou que escreveu sua história no “Brasil dos Preconceitos”, você sofreu muito com isso? Verdade que na época da ditadura você foi preso e até apanhou? Como você se sente hoje, como vê algumas pessoas do atual governo defendendo a volta da ditadura? Nelson Triunfo: Hoje pessoas que defendem a ditadura são pessoas que estão de embalo, como sempre existiram essas pessoas na história, não sabem nem o que foi a ditadura e falam besteira e outros devem ser filhos dos militares, porque claro que filhos de militares foram criados dentro de uma doutrina que eles não acham problema, de ver o país sendo governado por militares e pessoas que têm esse dom da suástica, essa aversão a esquerda e querem ser os melhores através da estupidez e não da inteligência, você vê quanta gente não sabe nada e quer discutir sobre politica, politica é uma ciência, é o conhecimento da sociedade, tanto do lado do bem como do lado do mal, no caso desses é do lado do mal, então, eles veem todo o lado artístico como ameaça. No meu caso, eu sofri muito preconceito, o preconceito de ser nordestino, no meu sotaque quando eu cheguei aqui, tinha preconceito até na comida quando eu pedia em alguns lugares farinha para colocar no feijão, a farinha ficava escondida debaixo do balcão para ninguém ver, era vergonhoso usar farinha. Outra coisa: eu era o cara do cabelo Black Power e tinham preconceito com o meu sotaque, mas eu assumia o que eu era, como eu falava, o meu cabelo, eu nunca mudei. Eu assumi o Brasil Nordestino que eu representava e também mostrei muito o conhecimento que eu tinha lá de fora, eu lia muito. Então os caras vinham com argumento furado, racista, de gente boba e eu só dava cassetada nas testas deles com as minhas ideias e eles não podiam muito comigo. Eu fui um dos caras que mais fui preso na cidade, eu ia preso porque eu estava dançando, me apresentando e para os policiais aquilo era coisa de malandro, era tanto que eles pediam a carteira assinada. Como eu ia dançar nas ruas e ter minha carteira assinada? Quem ia assinar? Então, se não tinha carteira assinada, não era trabalhador! Era vagabundo! Eles levavam preso por vadiagem e mais para desfazer a roda mesmo, onde todo mundo estava aplaudindo. E eles não queriam isso. Então eu fui um dos caras que mais fui preso defendendo a cultura. E quando eu fiquei doente, muitos novos ficaram sem acompanhamento nas ruas, pois era o mais antigo, eu vinha de outras gerações, eu era revolucionário. Hoje eu tenho 66 anos e eu não parei graças a Deus! Todos me veem como da própria familia! Eu sempre ajudei a todos como pude! Nosso trabalho sempre foi de ajuda e de militância! Quantos moleques fizeram parte desse trabalho e hoje são doutores! Campeões Mundiais! Outra lembrança interessante é que quando eu fui dançar no Chacrinha, os caras falaram que não era para eu falar e sim apenas para dançar, na época tinha muita gente que cantava em inglês, aí eu dancei, dancei e dancei, saí sem falar com ninguém e depois eu fui descobrir porque foi que o cara não queria que eu falasse, depois em outra ocasião aconteceu a mesma coisa eu ia cantar uma música chamada 84 na 24 e quando eu cantei uma mulher da produção disse que eu tinha problema na lingua e que não daria daquela forma, enfim, o que aconteceu foi um racismo feio comigo! O problema na língua era o meu sotaque nordestino! Para eles a minha forma de falar era uma vergonha! E eu fui vencendo isso tudo, os mesmos que falaram mal de mim, me vendo na televisão, me vendo vencendo, se tornaram meus amigos! Foi mais uma vitória do Triunfo! BW: Nelson fale das homenagens que já recebeu na sua vida? E também do teatro, do filme, da biografia e da sua estátua em Triunfo?
Nelson Triunfo: Já recebi alguns prêmios e homenagens, como o do Hutuz de Melhor Lider Comunitário, ganhei em São Paulo em 2008 o título de Cidadão Paulistano, também em 2008 a Comenda da Cultura Nacional, o reconhecimento que o Ministério da Cultura tem por algumas pessoas que desenvolvem trabalhos muito importantes dentro da cultura do país, teve o “Se Liga Mano” que foi uma peça feita em 96 para 97, tinha 60 atores, todos eram alunos do Centro Cultural de Diadema, foi algo maravilhoso! Triunfo, o filme, dirigido por Cauê Angeli, que passou umas 30 vezes no Canal Brasil, feito em 2014, é um filme interessante que conta um pouco da minha história, foi premiado em vários lugares, inclusive num festival na Espanha. Aí vem a minha biografia, que foi feita por Gilberto Yoshinaga em março de 2014, quem leu gostou muito! E por fim a estátua em Triunfo, o pessoal vinha cogitando faz tempo que iriam fazer uma homenagem a minha pessoa e eles fizeram uma estátua lá e isso mostra uma mudança, pois antigamente se fazia homenagens dessa na ausência da pessoa, no meu caso fizerem uma estátua em vida e fiquei muito feliz! Eu vejo que as coisas são resultado do que você planta. A estátua foi feita pela Prefeitura de Triunfo, no sertão de Pernambuco, minha cidade de origem!
BW: O que você tem feito nesse tempo de pandemia? Nelson Triunfo: Eu tenho ficado em casa, de boa, estou compondo, eu escrevo, tenho lido muito, fazendo minhas lives e tenho me comportado dessa forma, com cuidado, enquanto não tomo a vacina. Acho que ainda vai demorar um pouco e a parada ainda vai longe… BW: Que mensagem você deixaria para a nova geração que vai continuar essa história do Hip-Hop no Brasil? Nelson Triunfo: Eu os vejo como a continuação, tem B-Boys e B-Girls novos que são maravilhosos! Eu sei também que tem muitos B-Boys hoje que estão no auge que, quando chegar em 2024, talvez não estejam mais e outros novos aparecem, tudo é uma questão de tempo, mas também acho que alguns dos antigos serão mentores, técnicos, coisas assim, eu acredito muito na galera jovem, principalmente na dança deles, porém, eu gostaria de vê-los mais politizados, valorizando a educação, os livros, a informação, essas coisas que eu gostaria de falar aos jovens, além de serem atletas, dançarinos, que procurassem ser pessoas boas, pessoas que não prejudiquem outras, porque o que você não gosta que façam com você não deve fazer com os outros! Sejam pessoas incríveis e felizes! BW: Para finalizar, Nelson, tem alguma coisa na sua vida que você se pudesse mudaria? Como gostaria de ser lembrado ? Nelson Triunfo: Eu gostaria de ser lembrado de alguma forma fazendo parte dos representantes do Brasil que vão para as Olimpíadas. Como guru, como um símbolo da Dança de Rua do Brasil. Gostaria de ser lembrado por ter feito parte dessa primeira equipe que será escolhida para representar o Breaking brasileiro nas Olimpíadas! Algumas pessoas acham que eu sou louco, nós que somos diferentes algumas pessoas já carimbam como louco, eu gosto de ser visto dessa forma, pois todos que foram vistos como loucos e malucos foram os que melhoraram o mundo! Talvez se eu fosse diferente eu não gostasse de mim! Foram os descobridores e inventores das coisas, foram esses que transformaram de vez o mundo! No passado eu fiz o que eu pude e continuo fazendo de boa, sem estresse, numa nice e suave na nave!
Fotos: Arquivo Pessoal
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É B-Girl/B-Boy e sonha em competir fora do país, ser reconhecido na cena do Breaking e/ou viver dessa arte? Porém, tem atitudes/comportamento de amador!
Irei abordar alguns assuntos para você se tornar um artista e/ou atleta de destaque e boa postura.
Antes de tudo, tenha em mente que para se alcançar bons resultados, o principal protagonista é você mesmo.
O artista/atleta é uma figura pública que, muitas vezes, é tido como referência, um exemplo a ser seguido. Dessa forma, é essencial que a imagem pessoal seja pensada e trabalhada de acordo com a essência da B-Girl/B-Boy e alinhada com as expectativas do seu público-alvo, dessa forma vai alavancar ainda mais o seu sucesso.
Extremamente positivo manter-se ativo na internet, mas com preferências aos conteúdos relacionados ao Breaking, não se envolver em polêmicas que não englobem seu nome diretamente.
Tome muito cuidado com suas postagens nas rede-sociais, com publicações fumando cigarro, maconha, bebidas alcoólicas e gestos obscenos em fotos e até mesmo nas batalhas. Isso deixa uma imagem negativa, em se falando de um futuro patrocínio, nenhuma empresa vai associar a marca dela a uma pessoa com imagem negativa.
Ter cuidado com a integridade física, convívio social e desempenho nos treinos é algo muito levado em consideração, pois a partir do momento em que a B-Girl/B-Boy preserva sua saúde e preza por bons hábitos pessoais, familiares, físicos e sociais, sua dança também tende a ser mais valorizada e, com certeza, trará bons resultados.
Hora de mudar algumas atitudes:
Em um evento, sendo ele para competir ou curtir uma cypher, procure não usar as mesmas roupas e calçados de treino. O artista/atleta tem que ter uma boa imagem visual. Como você quer ganhar um patrocínio se não se veste bem? Ser uma excelente B-Girl/B-Boy e o visual horrível, isso desperta uma imagem “negativa” para os olhares da imprensa e de um futuro patrocinador.
Sei que muitos não têm condições de comprar roupas de qualidade ou caras. Porém, é possível se vestir bem usando o básico mesmo, basta você pesquisar e começar a ter um olhar para esse assunto. Além de você ter seu estilo de dançar, procure criar o seu estilo visual também, muitas B-Girls e B-Boys se vestem muito bem, mas seguindo uma tendência de alguma B-Girl ou B-Boy que estão na elite e acabam se tornando só mais um que copiou o estilo do outro e está seguindo uma moda.
Higiene: ir limpo para o evento, reuniões, entrevistas, etc. Ter cuidado com cheiro, seja ruim ou com muito perfume; tenha muito cuidado com hálito, pergunte para alguém que você tem intimidade, se seu hálito está OK. Imagina você conversar com um futuro patrocinador e/ou autoridades e estar suado, fedendo e com mau hálito? Tu perderá uma grande oportunidade… Veja bem, não estou generalizando, são alguns cuidados para que não passe por constrangimentos futuros, tenha cuidado com isso na vida pessoal e profissional.
Não chegue atrasado aos eventos! Pontualidade em qualquer parte do mundo é apreciada e bem vista.
Vamos falar sobre o emocional
A vida das B-Girls/B-Boys que competem, sendo ela profissional ou amador, é feita de vitórias e derrotas. Com isso, é preciso ter equilíbrio emocional para saber lidar com todas as situações. Assim, o artista/atleta não sofrerá demais diante de uma derrota e não desenvolverá espírito arrogante nas vitórias.
Como não é uma tarefa fácil amadurecer sozinho, você pode procurar um profissional para te ajudar nesse acompanhamento. Vale ressaltar que a própria mente é um grande obstáculo. Se você sofre de ansiedade pré-evento, procure se abrir para alguém que se sinta confortável em falar. E se tiver condições, procure um especialista em psicologia do esporte, esse profissional entende como os fatores psicológicos influenciam o desempenho físico, rendimento e de que forma a participação nessas atividades melhora o desenvolvimento emocional, a saúde e o bem-estar da dançarina(o)/atleta nesse ambiente e muito mais…
Tome muito cuidado quando se “perde” uma batalha, algumas pessoas saem reclamando das(os) juradas(os) ou até mesmo querem tirar satisfação chamando-o para batalhar. Uma falta de respeito para com o profissional que está concentrado(a) trabalhando e com o corpo frio, com grande risco de causar uma lesão. Será muito mais produtivo se você questionar quais foram os pontos “fracos” que fizeram com que “perdesse” naquele momento, pergunte não somente para o jurado que não votou em você e sim para todos. Estou ciente que muitos(as) jurados(as) votam para o amiguinho(a): isso também é uma falta de profissionalismo e respeito. Se você foi para um evento e soube com antecedência quem seriam os(as) jurados(as) e aceitou competir, então, saiba que você aceitou ser avaliado. Se você foi campeão(ã) ou até mesmo se sentiu bem em ter participado, questione os(as) jurados(as) sobre seu desempenho, para assim você ter um foco no que precisa melhorar mais.
O ponto principal é que você se avalie, assista com calma suas sessions e a do oponente, veja o que acertou e o que errou, faça o mesmo com as sessions do outro, tire suas conclusões. Ao invés de sair falando mal do(a) jurado(a) e/ou evento, em um outro momento procure entrar em contato com os (as) jurados(as), mostre seu levantamento, você irá aprender muito com isso e ensinar também.
Condicionamento físico
O condicionamento físico é mais um passo importantíssimo para se tornar um bom artista/atleta profissional e ou de alto nível. É preciso ter preparo e condicionamento ideal para conquistar resultados esperados. Com todos os movimentos limpos, treinos aeróbicos e exercícios específicos, você consegue chegar à forma ideal. Muitas B-Girls/B-Boys ainda têm certo preconceito para com o condicionamento físico, pois até alguns anos atrás aqui no Brasil pouco se falava nesse assunto, na Ásia e Europa já se faz esse trabalho há anos.
Tome muito cuidado e não saia por aí fazendo exercícios errados, como exemplo, alguns B-Boys fazendo Power Moves com pesinhos nas pernas, isso poderá causar uma séria lesão. Busque orientações, temos muitos profissionais de Educação Física no Breaking, troque uma ideia, peça orientações básicas. Outro ponto fundamental é a quantidade de horas de sono, procure entrar em uma rotina de dormir entre 6 a 8 horas, nosso corpo é uma máquina e precisa de descanso. Comece a incluir no seu treino corrida ou natação para melhorar sua resistência aeróbia, você vai sentir uma enorme diferença na sua resistência. Treinos específicos, como crossfit, musculação, entre outros, vai ajudar a melhorar sua resistência Anaeróbia. Não irei me aprofundar nesses assuntos por serem amplos (Em breve iremos falar especificamente sobre as resistências Aeróbia e Anaeróbia para um melhor entendimento)
Marketing pessoal
O marketing pessoal envolve um conjunto de esforços a serem promovidos por meio de bons hábitos, novas posturas e trabalhos com foco em resultados para desenvolvimento de uma boa imagem sustentável e próspera no universo social e empresarial.
Atentar-se às redes sociais: para toda ação, há uma reação. Muitas vezes, principalmente após derrotas ou desempenhos abaixo do esperado, o artista/atleta está sujeito a críticas, como qualquer outro profissional. Se você realmente “perdeu”, não fez a autoavaliação, vai passar a ser visto como a mina/mano que só sabe reclamar e nada de dançar.
Da mesma forma, como a rede social é uma oportunidade para estreitar relações com os fãs e amigas (os), pode ser também o caminho para discussões e polêmicas desnecessárias. Evitar debates é uma alternativa viável e necessária. E promover a imagem por meio de ações que favoreçam e preservem a sua integridade devem ser prioridade, pensando inclusive nas relações com patrocinadores, apoiadores e produtores.
Faça sessões de fotos e vídeos, quando for possível valorize profissionais da cena. Faça um portfólio, em algum momento você vai usá-lo; vídeos curtos treinando, dançando e poste em suas redes sociais. Lembre-se: “Quem não é visto, não é lembrado!”.
Algo que no mundo do Breaking é vago, é referente a assessoria de imprensa, hoje em dia se tornou essencial ter uma para cuidar da sua imagem, receber orientações do que fazer publicamente e do que não fazer, um nome leva anos para ser criado e se tornar respeitado, no entanto, pode ser destruído em segundos. Por isso, todo cuidado é pouco! É importante fazer um trabalho para alavancar sua carreira, evitando situações negativas. É o profissional da assessoria de imprensa que é a ponte entre você e a imprensa;
Gere mídia espontânea: Com o trabalho de produção e divulgação de releases, sugestão de pautas e coletivas. A assessoria de imprensa oferece informação de qualidade aos jornalistas, cavando boas oportunidades para seus clientes na mídia e também administra problemas de imagem quando necessário, cobrando junto aos veículos correções e direito de resposta. Não confunda divulgadores com um assessor de imprensa. O assessor de imprensa é um jornalista formado, que se torna responsável por tudo que é relativo à sua imagem. Não é simplesmente alguém que vai fazer publicações em suas redes sociais. É importante que tudo que vá para a imprensa seja revisado, pois quem vai receber não é da cena, mas sim alguém que trabalha dia e noite com textos e notícias.
Planejamento
Estabelecer um plano de carreira: traçar etapas e segui-las. A partir do momento que é traçado um planejamento da carreira, enumerando etapas pelas quais você precisa passar para se solidificar no meio artístico/esportivo e agarrar grandes oportunidades, consequentemente, poderá se concentrar melhor em sua evolução e constante aprimoramento, agregando inclusive valor no seu currículo e assim despertando interesse de novos patrocinadores, produtores de eventos e apoiadores.
Faça um planejamento a curto, médio e longo prazo. Por exemplo: em 6 meses, o que pretende fazer? Quais movimentos pretende aprender, participar em quais eventos? Faça isso traçando metas de 6 meses, 12 meses e 24 meses ou mais. Mas planeje suas metas e objetivos…
Alimentação
O trabalho da Nutrição auxilia o artista/atleta e o praticante de exercícios na criação de uma rotina mais saudável e eficiente. Bom, em termos de resposta física à mudança alimentar, o acompanhamento nutricional é capaz de melhorar a formação de energia, aumentando o rendimento e, principalmente, ajudando na recuperação muscular e dos estoques de energia para que o B-Boy e B-Girl possam cumprir as sessões de treino e competições sem prejuízos de desempenho e de saúde.
Muitos assuntos abordados aqui, são amplos para falar por completo, a ideia desse artigo é para mostrar o que devemos melhorar para termos ótimos resultados no mundo do Breaking e até mesmo para a vida. Procure um profissional da área que pretende melhorar a sua vida de artista ou atleta, se não tem condições de pagar um profissional, converse, ofereça uma parceria, assim como ele tem algo a oferecer, você também tem…
Fotos: Reprodução
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Letra de RAP emociona e fala do amor e da relação entre pai e filho
Para quem segue e curte o trabalho do B-Boy e MC Lucas Lameu, conhecido como Churcks MC, ele lançou esse mês mais uma música e dessa vez emociona fazendo uma homenagem ao próprio filho Davi, de 4 anos, que vive no Macapá com a mãe.
Churcks mora em São Paulo e o tempo que passa com o filho considera algo sagrado. A música se chama “Jogador Caro”.
Nessa composição, fala do amor entre pai e filho, incentivando os homens a prestar mais atenção e valorizar essa relação. A produção foi uma parceria entre Churcks MC e Mix Matheus, sendo dirigido por por Will Aleixo.
São de Churcks MC as palavras: “Essa letra fala do amor, fala de sonhos, sonho de menino que quer ser jogador de futebol. Mostro que sempre estarei com ele, independente da distância e da circunstância nosso vínculo será eterno”.
O Portal Breaking World, que acompanha o trabalho de Lucas Lameu tem a honra de mostrar aos leitores o vídeo desse novo sucesso:
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O nome que consta na certidão de nascimento é Alex José Gomes Eduardo, ele não poderia ser mais brasileiro. Nasceu numa família alegre de sambistas e capoeiristas em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.
Da infância guarda boas lembranças das feijoadas e dos churrascos em família. Criado pela avó, matriarca da família, o menino que não tinha tênis, mas que desde pequeno já mostrava habilidades diferentes e muito especiais, a famosa estrelinha no meio da testa que alguns carregam para esse mundo, filho de mestre de capoeira era bom nos movimentos do corpo e também no futebol, por isso recebeu o apelido de “Pelezinho”, mas seu destino não foi escrito num campo de futebol e nem jogando capoeira mas sim nas ruas.
As rodas que frequentava eram outras, as de Breaking, onde sua grandeza foi reconhecida e conquistada, sendo ponte para o resto do mundo.
Numa entrevista super especial e exclusiva ao Portal Breaking World, B-Boy Pelezinho, que esta semana se posicionou sobre o assunto “Breaking nas Olimpíadas”, contou sua história de vida, suas experiências, conquistas no Breaking, falou sobre a pandemia, sobre amigos que sente saudades, sobre o futuro e mostrou sua preocupação com a nova geração de B-Boys e B-Girls.
Hoje fora das competições, porém comprometido com o Breaking pelo resto da vida, ele sempre lembra: “O Breaking mudou a minha vida e pode mudar de muitas pessoas”.
Com vocês: Pelezinhoooooooo!
BW: Você é de São José do Rio Preto, correto? Queria que você nos contasse: como foi sua infância, sua adolescência e sua vida em família? Que lembranças boas guarda dessa época? Foi uma vida tranquila ou difícil?
Pelezinho: Sim, eu sou de São José do Rio Preto, nascido e criado lá. Eu venho de uma família de sambistas e capoeiristas, eu lembro que, principalmente nos finais de semana, nós tínhamos aquele momento familiar, que tinha música, almoço, churrasco, feijoada. Na infância era bem tranquilo! A minha avó é que era a matriarca da família, ela cuidava de todos! Eu fui criado pela minha avó. Mas a minha família sempre foi aquela família animada! Tenho boas recordações!
Oriundo de uma família de sambistas e capoeiristas, Pelezinho encontrou-se no Breaking e incorporou movimentos da Capoeira na dança, criando um estilo próprio que ganhou o mundo e influenciou gerações de B-Boys e B-Girls
BW: E na adolescência, como foi? Quando e como teve o primeiro contato com a Cultura Hip-Hop? O que te chamou atenção nessa cultura?
Pelezinho: Na adolescência, foi um pouquinho mais complicado. Eu saí de casa cedo, era muito jovem e eu conheci o Breaking por meio de um amigo, ele esta numa Cypher aqui no centro da cidade e, na verdade, eu achei que fosse uma roda de capoeira e quando cheguei vi que era uma roda de Breaking e eu fiquei encantado com aquilo. Logo depois, ele fez uma performance na minha escola e foi quando ele me convidou, disse que eu tinha uma facilidade para dançar, a minha família era do samba, então, achava que eu teria muita facilidade. E me fez um convite para treinar na casa dele, isso foi em 1995 ou 1996. E desde então, eu tenho uma história dentro do Breaking.
BW: Com que idade você saiu de São José do Rio Preto? O que sentiu quando chegou em São Paulo?
Pelezinho: Na verdade, eu só sai da casa da minha avó quando eu fui para São Paulo. Na primeira vez foi para um evento de dança, foi aquele choque com a cidade grande, de conhecer mais a galera da dança, porque eu só ficava no interior. Mas quando eu cheguei no evento achei incrível, quando eu vi todas as Crews de São Paulo reunidas. Me lembro que quando os caras chegavam, eles já chegavam batalhando e eu pensei: “puxa, vou voltar para casa e treinar muito, pois eu não quero mais que esses caras fiquem me zoando na dança não…”.
BW: Mas quando houve aquela decisão mesmo em relação ao Breaking? Tipo: “É isso que eu quero para a minha vida”? Porque afinal, você cresceu no meio do samba e da capoeira e também era bom no futebol, daí o nome Pelezinho. Mas quando ficou claro que era o Breaking?
Pelezinho: Em relação ao futebol, foram os amigos do meu bairro que me deram esse apelido na época da escola, porque eu não era o craque e tal (risos), mas jogava bem. E o Breaking eu peguei gosto pela dança, pelos treinos e era algo incrível que eu estava vivendo, eu gostava muito de praticar. As informações já estavam começando a chegar de alguns eventos, surgia alguns convites e comecei a gostar muito do que eu estava vivendo.
Pelezinho em uma de suas viagens para Lima, no Peru: a preocupação da avó virou orgulho em ver o neto saindo do interior de São Paulo e ganhando o mundo
BW: Você teve apoio da família quando decidiu se dedicar à dança?
Pelezinho: Naquela época, minha avó não tinha informação, ela estava meio preocupada de eu ficar pela rua, ficar dançando no coreto da cidade com uns caras… Então, eu não tive um apoio, demorou um tempo para que ela entendesse o que eu estava fazendo, mas natural, às vezes eram costumes daquela época, estamos falando de 1995, não existia informação direito como se tem hoje. Realmente ela se preocupou, achando que eu iria por um caminho errado, mau. Mas eu insisti muito e hoje ela fala: “Meu neto é um exemplo!”.
BW: Fale da relação da Capoeira e do Breaking na sua vida. Um completou o outro?
Pelezinho: A relação minha com a Capoeira foi dentro de casa, né? Meu tio era mestre de Capoeira, meu pai era mestre de Capoeira e eles tinham a academia deles e tal e eu fui influenciado, porque eu nasci naquele meio. No meio das músicas, no meio da Capoeira… E eu acredito que a Capoeira tem muita ligação com o Breaking, vários movimentos são semelhantes, tem musicalidade e quando eu comecei a dançar Breaking, realmente alguns movimentos do Breaking foi muito fácil de aprender graças à Capoeira. Eu tive bastante facilidade para aprender o Breaking, claro que teve alguns movimentos que tinham uma dificuldade a mais, porém, falando de equilíbrio, de firmeza, de movimentação de giro, para mim foi mais fácil, então, resumindo, eu fui influenciado pelo meu pai e pelo meu tio, eu só pratiquei a Capoeira por um determinado tempo, eu não peguei corda, não segui da forma que tinha que ser, mas eu tenho um baita respeito pela Capoeira e ela foi fundamental na minha adolescência.
BW: Houve pessoas na dança que o ensinaram e o ajudaram e que também foram inspiração e referência para você? Parece que teve um B-Boy que você admirava muito e tinha o desejo de um dia conhecê-lo pessoalmente. Quem era? E de que país ele é? Esse encontro já aconteceu?
Pelezinho: Ah, sim! Eu falo que no Breaking eu tive essas pessoas, primeiro o amigo que me convidou para praticar na casa dele, depois umas outras pessoas da época, que hoje já nem praticam mais, mas eu tenho, sim. Quando eu vi esse cara dançando, ele se chama B-Boy Remind, um dos fundadores da Style Elements Crew, da Califórnia. Quando esse cara apareceu para nós nos eventos nos Estados Unidos, o Battle of the Year, foi um dos primeiros vídeos que eu vi dele, eu vi o estilo dele dançando e eu acredito que ele mudou todo o cenário da dança, principalmente no Breaking pois ele introduziu um estilo mais carismático, envolvendo alguns passos de House e eu gostei muito disso. E eu tenho um sonho de conhecê-lo. Até hoje eu viajei o mundo e não tive a chance de conhecê-lo, conheci alguns membros da Crew dele, mas ainda não o conheci. E um dia ainda eu vou conhecê-lo, se Deus quiser!
O apelido foi dado pelos amigos do bairro onde morava: a intimidade com a ‘pelota’ foi deixada para trás quando o B-Boy descobriu o prazer de dançar
BW: Quando começou a participar e ganhar eventos de Breaking? Que eventos foram especiais para você, antes da Red Bull, é claro? Que conquistas foram memoráveis?
Pelezinho: Eu participei de muitos eventos na minha vida! Mas, um dos que eu mais gostei, foi um que era relacionado a esportes radicais, ele foi feito dentro do Ibirapuera e eu fui campeão do 1vs1, tiveram outros eventos que eu não ganhei, mas foram muito legais. Uma vez eu estava de jurado na Batalha Final e aí eu fiz uma batalha muito memorável. Estava eu e Chaveirinho, nós batalhamos por um bom tempo dentro do evento e aí, depois, nós acabamos fazendo vários trabalhos pelo Brasil, a gente era meio que inimigo antes do BC One, mas claro, o maior reconhecimento internacional foi o Red Bull BC One de 2005.
BW: Sim, falando do ano de 2005, como chegou na final mundial da Red Bull, que aconteceu na Alemanha? Como foi aquela sua primeira viagem para fora do país e o que sentiu naqueles minutos que teve que representar o Brasil numa terra tão distante e diferente?
Pelezinho: Quando eu fui convidado pela Red Bull BC One, eu não tinha noção do que poderia acontecer… Claro que alguns B-Boys que estavam ali eu já via pela fita k-7, pelos DVD´s que já estavam rolando, então, tinha B-Boys que eu admirava, o Lilou já estava despontando na Europa e quando eu cheguei na semifinal, pra mim foi uma batalha apenas, só que eu só fui entender a proporção do que aconteceu comigo quando eu retornei para o Brasil, depois da repercussão que teve e a vivência que eu tive lá na Alemanha, em 2005, foi incrível, pois era tudo novidade pra mim, então, foi a primeira vez que eu saí para fora do país, um evento como aquele, era a segunda edição dele, deu um ‘boom’ na dança… Então, pra mim, foi muita experiência, aqueles 5 dias que eu fiquei em Berlim foi só aprendizado, uma bagagem incrível para poder entender o que poderia vir logo em seguida. Na final mundial em 2006, no Brasil, eu já estava classificado nesse período, eu fui conhecido mundialmente mesmo eu não sendo o campeão, porque na época ainda existia primeiro, segundo, terceiro e quarto lugar. Esses quatro eram classificados automaticamente para o próximo ano, então pra mim foi incrível!
BW: Falando ainda de 2005, como foi batalhar com o B-Boy italiano Cico?
Pelezinho: Então, a minha primeira batalha foi com o Cico, um cara que estava se destacando muito pelos Power Moves que ele vinha fazendo e, principalmente, o Giro de Mão, ali foi uma grande pressão. Como foi a primeira batalha minha, num palco daquele, numa estrutura daquela, pra mim ali foi difícil de verdade! Depois que eu passei do Cico, fui passando… aí eu cheguei na semifinal com o Hong 10, ali eu já estava mais confortável, mas ao mesmo tempo, né [sic], tive alguns errinhos, acabei esquecendo um movimento. O Hong 10 ganhou de mim naquela noite e ele fez a final com o Lilou.
Pelezinho, Lilou, Menno, Hong 10, Wing e Lil Zoo durante turnê da Red Bull BC One All Stars em Meknes, Marros (Maio, 2018)
BW: O que sentiu e como foi a sensação de ter chegado tão perto de vencer o mundial? Fale da repercussão de ser o primeiro brasileiro a participar de uma final mundial? Isso fez diferença na sua vida?
Pelezinho: Eu, naquela época, na hora que eu perdi, eu falei: “Nossa! Puxa! Eu quase fui para a final!”. Então, deu aquela frustradinha no momento, mas na verdade, como tinha terceiro e quarto, eu nem pensei muito! Eu só fui pensar mais quando retornei ao Brasil, realmente passou um tempo até a galera descobrir, porque naquela época as informações não chegavam como hoje, que você pode ver ao vivo, demorava um tempinho para chegar as informações dos eventos. O You Tube estava começando, pelo menos para nós aqui do Brasil, aí depois que a galera descobriu, saiu o DVD, aí a repercussão foi uma loucura! A prova disso que até hoje as pessoas lembram, pessoas que não são da dança, pessoas que me encontram na rua, sempre tem um que lembra e fala que assistiu o DVD da Red Bull BC One.
BW: Pelezinho, depois você já viajou para muitos países pelo mundo. A ginga do B-Boy e da B-Girl do Brasil é um diferencial? O que os gringos esperam ver quando tem um B-Boy brasileiro ou uma B-Girl do Brasil numa competição?
Pelezinho: Desde quando os brasileiros começaram a competir no circuito europeu e, principalmente, nesse período de 2005 pra cá, é natural os gringos verem algo diferente, então, eu cheguei com um pouco mais de movimentos acrobáticos, misturando tudo com Power Move, enfim! Aí depois apareceu Neguin, então a galera sempre espera que o brasileiro chegue com um movimento diferente, mas o mais importante é cada dançarino ter o seu próprio estilo, a galera tem que pensar que o nosso passaporte é brasileiro, temos que mostrar o nosso cotidiano… É o que eu falo, a dança já foi criada pelos caras lá de fora, já tinham movimentos criados, é necessário cada um mostrar de onde vem, qual é o seu estilo de dança, a sua marca, então isso é importante.
BW: Como foi sua entrada na Tsunami All Stars e na Red Bull BC One All Stars? Fale da sua experiência dentro dessas Crews?
Pelezinho: Então, sobre a Tsunami All Stars, na verdade, nós a criamos porque na época teve um evento em São Paulo e nós queríamos batalhar e nesse período, Kokada estava sem Crew, eu estava em show com Marcelo D2, Katatau também estava praticamente sem Crew e aí nós participamos de um campeonato em São Paulo. E o Aranha era próximo de nós, porque quando o Chaveiro viajava, o Aranha cobria ou vice-versa, na época do show com Marcelo D2. Aí nós entramos em cinco no campeonato e ganhamos! E depois ficou aquela história que sempre que nós nos encontrávamos em São Paulo, dançávamos juntos e tal, aí o Katatau dançava com o Chaveiro em alguns lugares, o Aranha junto e aí nós só reunimos a Crew quando teve o convite para disputar o R16 na Coreia, quando chegou o convite dos coreanos que eram os ‘managers’ e aí foi quando o Neguin já estava próximo do Katatau, eu convidei o White e o Chuchu e montamos a Crew, aumentamos a Crew e aí participamos do R16, ficamos entre os finalistas e foi esse processo na criação da Tsunami. E o Red Bull BC One All Stars eu participei de duas turnês pela Red Bull Internacional para levar o que o Red Bull BC One estava fazendo, então, fizemos Austrália (2008), Índia (2009) e dali surgiu uma ideia, começamos a conversar com uma manager e aí demos a ideia de criar um time dentro da Red Bull e então criamos o Projeto Red Bull All Stars. Eu ajudei a criar esse projeto, eu, o Lilou e a manager e hoje está aí um dos melhores times que tem no mundo, onde estão os melhores dançarinos do mundo. Atualmente, eu não estou no time para competição, porque eu já sai do circuito de competição já tem um tempo, mas o time está aí, eu ajudei a criar e tenho muito orgulho disso.
Pelezinho e a Tsunami All Stars
BW: Falando um pouco mais sobre quem fazia parte da Tsunami, queria que você falasse de sua proximidade ao Kokada, que era alguém que, sem dúvida, escreveu uma história de muito valor no Breaking e tinha uma personalidade muito singular, deixando um enorme vazio quando partiu aos 35 anos, vítima de uma meningite, em 2012.
Pelezinho: Falar do Kokada pra mim é prazeroso! Porque nós vimemos juntos um período de conquistas, vou lembrar do Kokada lá atrás, quando eu fui para são Paulo a primeira vez, o Kokada já era já o grande B-Boy Kokada junto com o Careca da Detroit Breakers. O Kokada já fazia shows, ele era famoso pelo Brasil todo! E quando eu tive a oportunidade de conhecê-lo, de virar amigo dele e surgiu a história de montarmos a Tsunami, eu o chamava de “mentor”, porque era ele que cuidava das coisas da Crew e, assim, nós vivemos muitas coisas! Kokada teve a sorte de viajar também e de competir, mas no período que ele estava fazendo as coisas não existia muita informação, naquela época então, o momento que o cara estava não existia o contato do Brasil com o pessoal de fora, então, alguns gringos começaram a vir para o Brasil e justamente nesse momento nós estávamos juntos realizando sonhos, mesmo sendo de cidades diferentes. O Kokada foi incrível! O legado que ele deixou está ai e ninguém nunca vai esquecer! Ele era mesmo difícil, era um cara mais complicado (risos), ele tinha o jeitão dele, o gênio dele sempre foi forte, só que nós nos entendíamos muito bem quanto viveu conosco. Mas ele vive em nossos corações! E ele era uma baita de uma pessoa! Até hoje ele faz muita falta! E eu acredito que nos sonhos dele eu o ajudei também, tanto que a primeira viagem dele internacional para o evento R16 fomos eu, ele, Chaveiro, Katatau, Aranha, o Neguin e fizemos parte de uma geração, mas Kokada veio primeiro que nós e é isso! Muita saudade!
BW: Voltando um pouco no tempo, Pelezinho, numa outra entrevista você falou que quando começou a dançar não tinha um tênis… Décadas depois, você foi convidado para assinar um tênis junto com o Sandro Dias e, na ocasião, você falou que queria ver o Breaking e o Skate nas Olimpíadas de Paris 2024. Hoje, creio que você tenha vários tênis e o Breaking está nas Olimpíadas. Se sente realizado?
Pelezinho: Verdade, eu não tinha tênis para dançar, passei por essa dificuldade! Eram tempos bem diferentes! Mas quando eu recebi o convite do Sandro Dias para poder participar do projeto que ele estava iniciando, que ele queria ir pelo lado da cultura, da dança e ele me convidou para fazer a Colab, puxa, eu nunca imaginei isso na minha vida e aí foi quando eu falei numa entrevista que passou um filme na minha cabeça, quando ele me ligou para me convidar, ele era o dono da marca e eu aceitei na hora. Ele tinha um sócio, mas eu aceitei na hora! Hoje eu tenho um tênis assinado, modelo 1, já tem um projeto do modelo 2, já era para ter saído ano passado. Sim, graças a Deus hoje eu tenho muitos tênis (risos) e sobre as Olimpíadas é uma coisa que nós não imaginávamos que pudesse acontecer, ter o Breaking nas Olimpíadas. Eu sou a favor! Eu acho que está aí, já está concretizado, eu acredito que é mais uma porta se abrindo dentro do cenário da dança mundial, muitas pessoas terão oportunidades. Eu sei que aqui no Brasil têm acontecido muitas conversas, mas as coisas negativas devemos deixar para trás e pegar as coisas positivas das pessoas que têm o mesmo interesse, que isso possa trazer mais informação para quem não tem e isso vai agregar muito para a nova geração. Eu costumo falar para a galera que não é porque eu não tive lá atrás que eu deva embarreirar a nova geração, eu sou a favor mesmo do Breaking nas Olimpíadas e fiquei muito feliz!
Sandro Dias (Mineirinho) e Pelezinho lançam linha de tênis com sua assinatura: grande conquista para o menino que não tinha tênis para dançar
BW: Falando sobre as Olimpíadas e sobre toda a discussão em volta desse assunto, fale sobre suas impressões sobre esse elemento do Hip-Hop virar um esporte olímpico. Na sua opinião, estamos preparados para viver isso? Normalmente atletas olímpicos levam anos se preparando para uma participação numa Olimpíada. E nós, como estamos? Ao seu ver, temos B-Boys e B-Girls brasileiros prontos e bem preparados para brigar por uma medalha olímpica?
Pelezinho: Espero que com toda essa situação que está acontecendo, que o Brasil possa ter representante em 2024, porque já não teve nos Jogos da Juventude, espero que as pessoas se organizem, fazendo a sua parte e quem estiver no comando que faça de verdade, que pense no Breaking, na dança Breaking e não no próprio bolso. Pelo amor de Deus! Estamos em 2021, estamos dentro de uma pandemia, muitas coisas mudaram, muitas não serão mais a mesma coisa! Então, por favor! Precisamos fazer de verdade e principalmente para a nova geração! Olha, sendo bem sincero sobre o que vem acontecendo no Brasil, eu ando observando, não tenho participado de muitos bate-papos que estão tendo pelas redes sociais, só participei de duas que eu achei interessante e no meu olhar, o Brasil já está começando atrasado, porque eu já vou entrar: desde os Jogos da Juventude e dos simulados que tiveram na China e o Brasil não estava ali como convidado, então, estamos começando tarde, porque precisamos preparar, tem que ter mesmo toda uma estrutura, eu sei que as pessoas vão fazer do modo deles. Mas preparados na parte de dança: Sim! Temos B-Boys e B-Girls que possam disputar medalhas para o Brasil, mas tudo depende de toda a estrutura e logística que será montada aqui no Brasil, de como será, se vai convidar os B-Boys e as B-Girls direto ou se vai fazer etapas. Então, dando uma resumida, eu acho que já estamos atrás dos outros países: o Japão já tem o time pronto, a Holanda praticamente também, a França, EUA, a China… E o Brasil ainda não está! Quem estiver na frente tem que fazer de verdade! E resolver tudo o mais rápido possível, porque esse ano já descartamos praticamente, então, só sobra 2023 e 2024. Porque até o processo todo ser feito com a estrutura… Estou falando da minha visão como dançarino e como produtor e criador de eventos. Essa é a minha opinião!
Pelezinho: “Precisamos fazer de verdade e principalmente para a nova geração!”
BW: Verdade que você se posicionou sobre o assunto e agora faz parte da Confederação Brasileira de Breaking (CBRB). Você gostaria de falar sobre isso?
Pelezinho: Eu tive uma conversa com o Rooneyoyo e juntamente com o HP, estamos nos posicionando para participar junto com o Rooneyoyo, porque eu acho que juntos podemos conduzir coisas melhores para a nova geração.
BW: Falando sobre sua experiência como jurado… Hoje em dia, Pelezinho, você participa de muitos eventos. O que você gosta de ver numa batalha e o que você acha inaceitável na mesma?
Pelezinho: Sobre as batalhas, como jurado eu gosto de ver aqueles B-Boys e B-Girls que mostram movimentos, que sejam completos: musicalidade, criatividade, movimentos básicos. Mas eu gosto sempre daqueles dançarinos que percebemos aquela vontade de competir, que vai lá, que expressa a dança dele, que mostra movimentos surpreendentes sem errar, porque tem movimentos que jurado pega erros. Enfim, eu gosto dos completos no Breaking! Gosto de ver movimentos diferentes e interessantes para julgar, porque o nível da batalha fica avançado. E coisa que eu detesto ver é a má vontade de alguns dançarinos quando estão em competição, tem dançarino que parece que não está a fim… Aí eu pergunto: “Por que participou, então? Por que se inscreveu?” E outra coisa é essa história de questionar jurado, no passado já questionei também, só que eu acho desnecessário hoje em dia, de tanta informação que temos, nós precisamos respeitar os jurados que estão sentados ali, porque têm uma bagagem, então vamos respeitar. As pessoas precisam entender que numa competição estão sujeitos a serem julgados, então, vai lá, treina e seja o mais transparente possível para o jurado e mostra o porquê quer ser campeão!
BW: Com a pandemia e todo o isolamento necessário, o que você tem feito? O que acha das batalhas on-line? É uma tendência?
Pelezinho: Sobre a pandemia, eu acredito que foi um aprendizado para várias pessoas, estamos nela ainda! Nesse período eu tive que me reinventar, me readaptar a essa realidade que estamos vivendo. Sobre as batalhas on-line, claro que não é a mesma coisa, não é a mesma energia, de estar ali na Cypher, naquele calor todo, mas é um meio de manter a galera em atividade, em competição, até mesmo dando suporte para eles, porque teve alguns eventos on-line bacanas! Pela produção, pelo o que fizeram e acabou ajudando vários B-Boys e B-Girls, então, eu sei que isso pode continuar. Alguns eventos vão manter on-line e a pandemia é uma coisa muito triste, que ninguém imaginou que ia passar nesse plano de vida, mas ela é um aprendizado para muitas pessoas e quem não se adaptar, nem imagino o que vai fazer da vida.
Pelezinho acredita que a pandemia foi um período de aprendizado para várias pessoas: reinventar, readaptar, continuar…
BW: Você tem uma frase célebre: “O Breaking salvou a minha vida”. Comente a importância do Breaking como ferramenta de transformação.
Pelezinho: Sobre o que eu falo do Breaking ter mudado a minha vida, realmente ele mudou, ele fez uma transformação tremenda! Eu fiz coisas que eu jamais imaginei que eu iria fazer! Por meio da minha dança, eu viajei praticamente o mundo todo e sou uma pessoa conhecida através do Breaking. Financeiramente foi bom pra mim, consegui ter algumas coisas, mas o que eu mais falo é que nada disso teria acontecido se não fosse a minha vontade, a determinação que eu tive e toda a história que eu tenho há mais de 20 anos dentro do Breaking. Então, quem quer alguma coisa, principalmente dentro do Breaking, a galera nova, da nova geração, que vocês têm tudo, rápida informação, eventos, então aproveitem, porque na minha época que eu comecei a dançar nós não tínhamos nada disso! Aproveitem as oportunidades! Porque as poucas que eu tive aproveitei todas! E corri muito atrás! E foi nisso que o Breaking mudou a minha vida e pode mudar de outras pessoas também.
BW: Hoje quem é o Pelezinho? Você pensa em um dia parar de dançar?
Pelezinho: Pelezinho hoje é essa pessoa aí que a galera está vendo, que o Breaking deu uma visão de transformação e também de ajudar, porque o que venho fazendo hoje em dia é ajudar a cena, principalmente o Breaking. E sobre parar de dançar, eu não me vejo parando, como vou parar algo que amo fazer? É natural com o tempo desconectar algumas coisas, eu não me vejo competindo mais, mas eu adquiri uma bagagem que posso ajudar a nova geração aqui no Brasil.
BW: Para finalizar essa entrevista, que conselhos você daria para a nova geração de B-Boys e de B-Girls?
Pelezinho: Respeitem as oportunidades que vocês têm agora, se desejam competir, treinem para isso e aproveitem as oportunidades, que façam isso de verdade! Para aqueles que desejam uma vida de atleta, principalmente agora que têm vários eventos, Olimpíadas: se preparem! Nunca esqueçam que a nossa dança é uma cultura e se você desejar, pode viver como um dançarino atleta também, você pode se dedicar, você pode praticar, você pode se proteger. Se eu tivesse a mentalidade que eu tenho hoje, com certeza eu teria competido por mais tempo, eu também poderia ter evitado algumas lesões, porque é natural, somos seres humanos e não somos máquinas e, devido alguns anos repetindo movimentos, é natural ter um desgaste, só que de alguns anos para cá, já podemos proteger isso, então, vá atrás de uma pessoa que possa te dar uma educação física como dançarino, para que você possa ter sua vida como dançarino e, se desejar, como atleta também. Respeitem e aproveitem o que vocês têm hoje, pois tudo está mais fácil!
Fotos: Arquivo Pessoal / Red Bull Content Pool (Fabio Piva, Yassine Alaoui, Dimitri Crusz) Vídeos gentilmente cedidos pela Red Bull
Pelezinho comemora seus 20 anos de dança
B-Boys Pelezinho, Lil G e Kokada no projeto "B-Boys In Motion" - 2011
Pelezinho: #RespeitaOBreaking
Pelezinho além de B-Boy é MC, jurado e produtor
Pelezinho e o tênis com sua assinatura
Neguin e Pelezinho: geração de vencedores
Pelezinho, Lilou e Neguin
Red Bull BC One All Stars
"Mister" Kokada, Lilou e Pelezinho
Tsunami All Stars
Pelezinho
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No próximo dia 6 de fevereiro, acontece o Let’s Battle. Organizado pela Kapella Produções, o evento será totalmente virtual.
Direcionado a B-Boys e B-Girls paraenses, a competição pretende tocar fogo nas redes sociais, sendo transmitido no Facebook.
Depois de passar por um filtro, 16 nomes do Pará foram selecionados e vão estar batalhando. No time de jurados, três nomes de tirar o fôlego, que escreveram história no Breaking brasileiro: B-Boy Pelezinho, B-Boy Leony e B-Boy Bart. E nas pick-ups Hey Sheknah e Bakugan. O evento será apresentando pelos MC´s Fernando King, Soldierman Avelino e Clebiston Nunes.
São dos organizadores as palavras: “O Let´s Battle é uma iniciativa da Kapella Produções buscando inovar e incentivar a todos que permaneçam em quarentena e isolamento em suas residências neste momento, para não propagar ainda mais o coronavirus. É necessário se prevenir, cuidando da saúde mental e física e é exatamente essa a proposta do nosso evento”.
O Let´s Battle foi selecionado pelo Edital de Cultural Urbana Periférica (Lei Aldir Blanc, do Pará) tem o apoio cultural do Governo do Estado, Ministério de Turismo e do Governo Federal. E alguns parceiros, entre eles o Portal Breaking World. Segundo Clebiston, existe o desejo de mais para a frente fazer eventos abertos a todos os estados do Brasil, então, quem gosta de bons eventos é só ficar ligado nas redes sociais do Let’s Battle e, é claro, no Portal Breaking World.
Foto: Divulgação
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“As festas de 1970 foram incríveis, você nunca sabia o que iria acontecer, mas nós sempre soubemos que seria emocionante.” (Mr. Freeze)
Em 20 anos de jornalismo, já tive a honra de entrevistas, algumas com celebridades do Show Business, do mundo do esporte e da arte. Mas quando o papo é com uma lenda mundial que fez parte da criação de uma arte legítima que se espalhou pelo mundo todo, atraindo milhares de seguidores até hoje, conhecida como Hip-Hop, é necessário ouvir muito mais do que falar…
B-Boys e B-Girls: o Portal Breaking World tem o prazer de apresentar a entrevista com o Mr. Freeze, um papo reto, diretamente de New York para o Brasil.
Para quem não sabe, Mister Freeze nasceu em New York, morou na França e se mudou para o Bronx quando tinha apenas sete anos, exatamente quando a Cultura Hip-Hop estava ganhando vida. Ele começou a dançar Breaking, criou o movimento “Freeze” e logo foi convidado para se juntar ao mundialmente famoso Rock Steady Crew. Fez filmes, documentários e shows por todo o mundo.
Atualmente com 58 anos, dono de uma personalidade incrível e de uma humildade exemplar, ele fala sobre sua história, suas opiniões. Sobre o Breaking nas Olimpíadas, sobre sua experiência como homem de marketing e aconselha a nova geração sobre o futuro. Confiram a entrevista:
BW: Marc Lemberger, do South Bronx, New York, mas para o resto do mundo uma lenda chamada Mr. Freeze. Queria que você falasse sobre sua infância e vida familiar, que lembranças você tem dessa época?
Mr. Freeze: Nasci em New York, em 7 de setembro de 1963, filho de Renee e de Isidore. Meus pais decidiram voltar para Paris quando eu era pequeno, mas meu pai procurava trabalho em New York. Tive uma infância magnífica em Paris, mas um dia, meu pai falou à minha mãe que iríamos voltar para New York e que iríamos viver lá uns cinco anos, que ele ganharia muito dinheiro e depois poderíamos voltar para Paris. O problema é que ele nunca ganhou dinheiro, então, nunca mais voltamos à Paris. Fui criado no bairro do Bronx, perto do Yankee Stadium, na Avenida Anderson, 1130. Foi ali que dei meus primeiros passos como um menino e, depois, como um B-Boy.
Nascido em New York, Mr. Freeze teve sua infância em Paris. Após retornar aos EUA conheceu o Breaking, sem saber que iria se tornar uma lenda viva do Hip-Hop
BW: Quando e como você conheceu toda a arte que acontecia nas ruas?
Mr. Freeze: A primeira vez que encontrei a verdadeira arte e cultura de rua foi nos meados dos anos 70, com todos os grafiteiros e DJs que estavam na rua e iam junto para as festas de dança.
BW: Na época em que você começou, você sabia que estava participando do nascimento de uma cultura, de uma arte legítima que se espalharia pelo mundo?
Mr. Freeze: Quando comecei, nunca, em meus sonhos mais loucos, pensei que a cultura que vi crescer iria se tornar o que é hoje a maior indústria lucrativa de maior sucesso do planeta.
BW: Fale do tempo que você morou em Paris? O que aconteceu durante esse tempo?
Mr. Freeze: Morar em Paris não trouxe nada para a minha vida. A minha vida nas ruas no Bronx é que acabou trazendo minhas habilidades performáticas para as ruas de Paris. Sempre que voltava para visitar minha família, sempre assistia a grandes artistas de rua em um bairro de Paris, foi lá que dei meu primeiro passo como um Street Mime.
Mr. Freeze se tornou B-Boy em 1970 e ganhou o mundo com sua arte
BW: Quando você realmente começou a dançar e como foi esse encontro com a dança?
Mr. Freeze: Meus primeiros passos como um B-Boy foram em 1970, eu sempre seguia pessoas tocando música na esquina, um dia o círculo esquentou e um senhor pulou muito alto e, então, se colocou em uma pose que agora conhecemos como “Freeze”. A partir daí, outra pessoa faria uma pose, mover o Footwork para outra pose, para outra e outra, que foi a primeira vez que eu realmente me apaixonei pela dança, porque ela evoluiu para algo diferente. Rápido encaminhando para anos depois, sou contrariado por um grupo de dançarinos que se aproximou de mim quando me viu dançando na rua com um Boombox, eles me perguntaram se eu queria batalhar, eu disse a eles: “Com certeza!”, e eles começaram a batalha. Havia um jovem, Sr. Ed, que pulou em um círculo, um pequeno cavalheiro latino, as letras em suas costas diziam “sete pecados capitais”, foi a primeira vez que realmente vi os fundamentos da dança que conhecemos agora como Breaking. Este homem me hipnotizou completamente e foi nesse momento que soube que tinha que aprender esta dança.
BW: O ano de 1970 foi marcado pelo nascimento da Cultura Hip-Hop, do Breaking e das festas denominadas “Block Partys”. Fale sobre a importância dessas festas, o que aconteceu nelas e quem compareceu?
Mr. Freeze: As festas de 1970 foram incríveis, você nunca sabia o que iria acontecer, mas nós sempre soubemos que seria emocionante. Foi a primeira vez que vimos o grande mago DJ Theodore, o primeiro a tocar nas mesas giratórias para DJ Kool Herc, derrotar seus incríveis “break beats” para B-Boy; a roda se expandindo e sabendo que estávamos prestes a ver algo especial; aqueles tempos eram confiáveis porque nada havia sido criado, mas tudo o que você via era autêntico, estava sendo criado na frente de seus olhos.
BW: Era possível ficar parado ouvindo “Sex Machine”, “Just Begun” ou “Apache”? Fale sobre a energia dessas músicas?
Mr. Freeze: Era algo louco. A música “Sex Machine”, quando tocava, ninguém ficava parado, todo mundo enlouquecia!
Ao som de James Brown e outros hits, Mr. Freeze conta que “todo mundo enlouquecia, era impossível ficar parado”
BW: Como era ser um B-Boy no seu tempo? O que era inaceitável nas rodas de Breaking?
Mr. Freeze: Durante os nossos dias, a regra número um era não copiar movimentos de ninguém, era completamente inaceitável fazer os movimentos de outra pessoa, você seria visto como um ladrão, em outras palavras, no vocabulário de Breaking. Naquela época, todo mundo era extremamente criativo e original.
BW: Em 1977 nascia a Rock Steady Crew, correto? É verdade que você era o único B-Boy branco? Você chegou a sofrer algum preconceito por ser branco entre a grande maioria de negros?
Mr. Freeze: Provavelmente fui o único B-Boy branco, embora não possa dizer 100% com certeza isso, porque não busquei em toda New York, mas sem dúvida era o mais conhecido, em todos os bairros predominantemente negros. Fui excluído não porque eu era branco, mas porque eu era extremamente bom no que fazia, minha reputação como um B-Boy me seguia por toda parte. É por isso que eu não tive problemas e estava completamente à vontade, quando se trata de qualquer tipo de arte, as pessoas não se prendiam em raças e cor de pele.
BW: Como surgiu a Rock Steady Crew? Houve alguma rivalidade importante entre as crews?
Mr. Freeze: Eu pertenci à segunda geração da Rock Steady Crew, nós somos os que realmente tornaram o nome famoso na época, não existiam muitas crews de Breaking, então, éramos praticamente os melhores, a única referência que existia era o Dynamic Roccus do Queens e, depois, veio os Floor Masters.
Mr. Freeze fez parte da lendária Rock Steady Crew
BW: Quando e como foram criados os famosos “Freezes” que estão incorporados no Breaking hoje e fazem parte da dança de qualquer breaker do mundo?
Mr. Freeze: Todos nós tínhamos nossa próprias minas de Freezes, as paradas eram extremamente rápidas. Ao longo dos anos, os freezes tornaram-se mais complexos e pareciam lindos em comparação com o que fazíamos na nossa época.
BW: O Rock Steady Crew teve grande exposição na imprensa. Fale sobre esse relacionamento.
Mr. Freeze: Quando começamos a fazer filmes e documentários, a imprensa estava muito interessada em nós, era algo novo e fresco e isso nos fez conhecidos em todo o mundo.
BW: Na década de 1980, filmes como “Flashdance” foram revolucionários. Conte-nos sobre isso e também sobre sua participação neste filme e em outros como “Style Wars”, assim como anúncios e shows. Foi um momento memorável e importante?
Mr. Freeze: Honestamente, a coisa mais memorável que já fizemos foi o filme “Flashdance”. Lembro-me de sentar na Broadway ao lado de Crazy Legs e quando nos vimos na tela, não pudemos acreditar… quando a apresentação aconteceu, apesar de a imprensa estar em cima de nós, foi provavelmente um dos melhores sentimentos que qualquer um de nós já sentiu em nossas vidas e nunca o esqueceremos.
A inesquecível cena com o guarda-chuva no filme “Flashdance” (assista no vídeo ao final da matéria)
BW: Como foi dançar para a Rainha da Inglaterra com o Rock Steady Crew? E como surgiu esse convite? O que você sentiu naquele momento?
Mr. Freeze: Eu infelizmente estava fazendo minha própria turnê em outras partes do mundo, não participei junto com a Crew desse encontro. Lamentável!
BW: Além do Breaking, você também caminha pelo mundo do marketing, conte-nos um pouco sobre sua experiência e sobre o UBC “The Ultimate B-Boy Championship”. É verdade que, em 2010, o evento inaugural juntou mais de 23.000 participantes no MGM Grand Garden Arena e foi coberto e televisionado pela ESPN? Como está o evento atualmente? Fale sobre os principais objetivos e metas do evento com os jovens. E quem pode participar?
Mr. Freeze: Sim! O principal objetivo da UBC é legitimar os meninos como profissionais reconhecidos, como o UFC tem feito para os lutadores, é meu sonho de vida poder levar isso para a comunidade de B-Boys.
BW: Mr. Freeze, como você vê os B-Boys e B-Girls de hoje? E os eventos que existem atualmente? Todos os dias, meninos e meninas de todo o mundo chegam mais jovens no Breaking. Muita coisa mudou do seu tempo para hoje? O que foi positivo e o que foi negativo?
Mr. Freeze: A diferença é que antes fazíamos puramente porque era emocionante criar algo todos os dias, agora é estritamente feito para competir. Eu sei que é uma nova era e é possível que todos gostem de como as coisas acontecem atualmente, mas eu simplesmente não consigo vê-los gostando por muito tempo se sua intenção for estritamente e apenas tentar ganhar dinheiro e vencer competições.
Em 2010 o UBC reuniu mais de 23 mil pessoas no MGM Grand Garden Arena
BW: Neste ano, o Breaking passa a fazer parte dos Jogos Olímpicos. O que você acha disso? Combinar cultura com esporte? Na sua opinião, o que podemos esperar do futuro?
Mr. Freeze: Eu e minha família nos encontramos com o Comitê Olímpico Internacional, fomos para a Suíça. Pode acontecer de duas maneiras: número um, os espectadores assistirem os meninos girando suas cabeças e dizerem que eles são lindos; espero que o Comitê Olímpico use todos os antigos da dança para que tenha algo a ver com a criação do Breaking, para a história do Breaking possa ser conhecida e para que possam explicar o significado de como tudo aconteceu.
BW: Em toda a sua vida como breaker, já viajou por diversos países e também pela América do Sul. Você já conheceu o Brasil?
Mr. Freeze: Infelizmente, nunca fui ao Brasil e adoraria ir um dia com minha família. Acontece que eu fazia Jiu-Jitsu brasileiro e aprendi com uma das famílias mais conhecidas do Brasil, os Gracies. Eu conheci alguns B-Boys incríveis vindos do Brasil.
BW: O Mr. Freeze ainda dança? O que tem feitos nos últimos anos?
Mr. Freeze: Sinceramente, parei de dançar anos atrás. Tenho um negócio aqui em New York. Ainda estou tentando fazer do UBC um sucesso para que o Breaking esteja em todo o mundo e forme dançarinos profissionais pagos, como disse antes, como atletas.
Mr. Freeze fez Jiu-Jitsu com a família Gracie e gostaria de conhecer o Brasil
BW: Na sua opinião, para onde vai a Cultura Hip-Hop?
Mr. Freeze: A Cultura Hip-Hop, pelo menos aqui em New York, é completamente inexistente da maneira que acontecia e conhecíamos no passado, simplesmente não acontece mais, entretanto, em outras partes do mundo pode ser diferente. Pode ser que ainda aconteça… O futuro é incerto… Eu sinto que não existe mais aqueles dias que eu vivi. Eu sei que é uma época completamente diferente do que as pessoas vivem agora.
BW: Que mensagem você deixaria para a nova geração de B-Boys e B-Girls? Que conselho você gostaria de transmitir a eles?
Mr. Freeze: Meu conselho para a geração jovem é curtir, dançar e se divertir com isso, não o faça estritamente para competir, para ganhar um prêmio, encontre “Jams” onde tenham grandes músicas e DJ´s, teste-se contra grandes dançarinos. E muito obrigado por me permitir responder tantas perguntas magníficas!
Fotos: Arquivo Pessoal
Mr. Freeze e Crazy Legs no filme "Flashdance". Assistam o vídeo:
Mr. Freeze e Sérgio Valente
Mr. Freeze e Rock Steady Crew
E as Block Partys eram demais!
Mr. Freeze refaz a famosa coreografia de "Flashdance"
Memorabília autografada do filme "Flashdance"
E o "Freeze" do Mr. marcou a história do Breaking
Pop Master Fable e Mr. Freeze
Mr. Freeze e Pop Master Farsel
Mr. Freeze ainda garoto na França, antes da mudança para Nova Iorque
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